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30.6.13

O reino de Slava

"Um reino encantado no meio na floresta. Neste castelo não vive nenhuma princesa ou personagem de conto de fadas. O dono da residência, um russo de 63 anos, com jeito de cientista maluco, se chama Slava. Profissão: palhaço. Mas não qualquer palhaço, um dos melhores e mais premiados do mundo. Conhecido por performances que fascinam públicos de todas as origens e idades..."

É assim que Joana Calmon, repórter e apresentadora do programa Almanaque da GloboNews, inicia a narrativa desta inesquecível viagem pelo reino de Slava Polunin, artista circense russo radicado na França, mais precisamente numa espécie de chácara nos arredores de Paris, onde quase tudo parece saído de um sonho – desde o templo budista construído por amigos orientais aos grafites dos brasileiros Os Gêmeos, também amigos de Slava, a ornamentar a casa principal deste legítimo reino da imaginação:

» Veja o Snowshow, principal espetáculo de Slava, na íntegra


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26.6.13

Um mergulho no gnosticismo

O próximo projeto para as Edições Textos para Reflexão é um mergulho nas águas profundas do gnosticismo.

Em Os Evangelhos de Tomé e Maria, lhes trarei não somente a transcrição destes dois evangelhos ditos apócrifos, como também toda a série de contros O mensageiro dos céus especialmente revisada para a ocasião, além de diversos outros contos e artigos do blog que foram inspirados direta ou indiretamente no gnosticismo cristão. Também iremos contar, provavelmente, com um prefácio especial de um amigo que entende muito mais de gnosticismo do que eu.

A seguir, lhes trago um trecho do capítulo com a transcrição do Evangelho de Tomé. Temos abaixo a introdução e os três primeiros versículos em sua versão final:

***

Introdução

O Evangelho de Tomé é uma coletânea de pronunciamentos de um “Jesus sábio”, embora sua sabedoria também possa ser vista como messiânica, fazendo com que a obra seja mais religiosa do que puramente filosófica.
A autoria deste evangelho é atribuída ao apóstolo Judas Tomé Dídimo. Tanto o aramaico Tau’ma (Tomé) quanto o grego Didymos (Dídimo) significam “gêmeo”. Na Igreja Síria, Judas Tomé Dídimo era conhecido como o irmão de Jesus que fundou as igrejas do Oriente, especialmente a de Edessa. Tradições orais antigas também afirmam que ele teria viajado até a Índia e entrado em contato com o budismo e o hinduísmo.
Outras escrituras cristãs das igrejas orientais também têm sido atribuídas ao mesmo apóstolo, como Os Atos de Tomé; e também, provavelmente, O Livro de Tomé, que foi descoberto como parte da Biblioteca de Nag Hammadi.
Quanto ao seu gênero literário, O Evangelho de Tomé se assemelha muito a uma das fontes dos evangelhos canônicos que compõe o Novo Testamento, particularmente a chamada Fonte Sinóptica (“Fonte Q”), que foi usada tanto em Mateus quanto em Lucas. Por outro lado, ele também contém alguns pronunciamentos antigos completamente diferentes, que remetem a João (trechos diversos), Marcos (4:21-25) e mesmo a Coríntios I (2:9).
Além disso, os pronunciamentos sobre a futura vinda do Filho do Homem, característicos da Fonte Sinóptica, não são vistos. Neste evangelho Jesus tampouco é crucificado, demonstrando que ele tem uma relação ao mesmo tempo próxima e absolutamente independente do Novo Testamento. Em sua forma mais original, pode pertencer a última metade do século I d.C. (a mesma data provável, portanto, da Fonte Sinóptica).

***

“Muito tempo antes de os textos da Biblioteca de Nag Hammadi e do Códice Gnóstico de Berlim terem sido escritos, havia sabedoria, hokhmah, Sofia. Uma das expressões mais primitivas da religião no mundo mediterrâneo era a que se referia à sabedoria, e a sabedoria mostrou-se ser uma das mais duradouras. Em todos os textos egípcios, mesopotâmicos, judaicos, greco-romanos, cristãos e islâmicos, a sabedoria ocupa um lugar central, e na tradição do Evangelho de Tomé, Jesus é apresentado como um homem de sabedoria.”

Marvin Meyer, em Mistérios gnósticos: as novas descobertas (Ed. Pensamento).

***

“No Evangelho de Tomé não aparece o menor indício de uma hierarquia eclesiástica nem hegemonia clerical. O cristianismo original era uma fraternidade espiritual, uma espécie de democracia crística, e não uma monarquia hierárquica [...] Não há referência à transubstanciação nem ao poder de perdoar pecados, conferido por Jesus aos seus discípulos. Tudo visa unicamente ao despertamento do poder espiritual no homem.”

Huberto Rohden, em O Quinto Evangelho (Ed. Martin Claret).


O Evangelho de Tomé

Estas são as palavras secretas que Jesus, o Vivo, disse, e que Judas Tomé, o Dídimo, escreveu.

[1]

E ele disse: Aquele que souber como interpretar estas palavras, não experimentará a morte.

[2]

Disse Jesus: Deixem o buscador continuar buscando até que encontre.
Quando encontrar, ficará perturbado. Quando se perturbar, ficará maravilhado e reinará sobre o Todo.

[3]

Disse Jesus: Se aqueles que os guiam disserem, “Vejam, o Reino está no céu”, então os pássaros os precederão. Se lhe disserem, “Ele está no mar”, então os peixes os precederão.
Mas certamente o Reino está dentro, e também fora, de vocês mesmos. Se o reconhecerem, serão reconhecidos, e saberão que são filhos do Pai Vivo.
Mas se não o reconhecerem, então estarão na pobreza, serão a pobreza.


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21.6.13

A gravidez do mundo

Como muitos devem saber, eu não entendo nada de política, nem me interesso muito por ela. Talvez exatamente por isso os analistas queiram ouvir um pouco do que eu tenho a dizer sobre a Primavera...

Primeiramente há a questão polêmica da “direita vs. esquerda”. Lhes digo que o cartaz mais interessante que vi na última semana de movimentos nas ruas dizia assim: “Esquerda? Direita? Eu quero é ir para frente!”. Isto não é algo que se limita ao Brasil; mesmo na Primavera da Espanha e da Turquia vimos manifestações parecidas de quase toda a juventude. Dizem que a juventude é apolítica porque não se alinha nem a “esquerda” nem a “direita”, será mesmo?

Segundo Denis Russo Burgierman, diretor de redação da Superinteressante e ativista pró-descriminalização de certas drogas, “esquerdo-direitistas são pessoas que acreditam que todo o bem que existe no mundo provém de apenas uma fonte. Há dois tipos de esquerdo-direitistas – aqueles que acham que a fonte de todo o bem é o Mercado e aqueles que acham que é o Estado. A estes chamamos esquerdistas, aqueles são os direitistas”. Pois bem, eu chamo a ambos de esquerdo-direitistas, pois que são apenas dois lados de uma mesma moeda, dois pontos extremos que ainda insistem numa espécie de maniqueísmo (“bem vs. mal”) que inexiste na Política.

De Política, com “P” maiúsculo, eu até acho que entendo alguma coisa. Desde que surgiu a Democracia na Antiguidade, sua essência se baseou exatamente num debate público que busca não a unanimidade de opiniões, mas a busca do entendimento e da reconciliação dos opostos em prol de uma certa ordem e uma certa direção conjunta a ser seguida pela Nação. Dessa forma, a Política existe não para que todos concordem em tudo, mas para que convivam em harmonia apesar de suas discordâncias.

É por isso que todo o extremista é anti-Político a priori. Ele não busca a Política para um entendimento, mas busca a política para a supressão das opiniões contrárias, custe o que custar... São os extremistas que devem ser combatidos e reeducados na medida do possível, pois foi através deles que surgiram regimes autoritários de “esquerda” e de “direita”, ainda que pudessem se auto intitular democráticos. Mas a Democracia só existe na Política, e não na política.

Você pode achar que o Brasil é uma Democracia, mas eu não posso concordar inteiramente com isso. Não tem nada a ver com o fato de termos o PT no governo – o PT não é o único culpado pelo que foi feito na política brasileira, mas talvez se arrependa amargamente pelo que deixou de fazer. Eu explico: numa Democracia, deve valer a máxima “1 pessoa, 1 voto”. No entanto, o que temos no Brasil e em diversos países que se dizem democráticos é uma outra máxima que nos contaminou desde meados do século passado: “X reais, 1 voto” (ou “X dólares, 1 voto”; “X euros, 1 voto”; etc).

Não estou querendo dizer que no nosso país exista compra direta de votos, mas sim indireta. O voto é obrigatório e qualquer partido para ter alguma chance de chegar ao poder precisa gastar milhões em gigantescas campanhas de marketing. O que isto tudo tem a ver com Política? Quase nada... Isto tudo tem a ver com algo que chamo, na falta de um nome melhor, “negócio eleitoral”.

Afinal, não se enganem, nenhuma empreiteira, nenhum banco, nenhuma multinacional financia um partido por ideologia, nem muito menos para melhorar a qualidade da educação e da saúde de um país. Eles fazem um investimento de risco, a médio e longo prazo. Alguns até conseguem eliminar todo o risco do investimento, ao investir em todos os partidos com chance de chegar ao poder. A última vez que um Político teve alguma chance de se eleger para um cargo majoritário com uma campanha financiada por pessoas físicas, e não jurídicas (ou seja, grandes empresas), foi na última eleição para a prefeitura do Rio de Janeiro, em 2012. Não por acaso, o candidato do PSOL foi massacrado pelos “marketeiros” tanto da “esquerda” quanto da “direita”. Isto não quer dizer que ele seja um santo messias, quer dizer apenas que era o único que realmente tinha uma ideologia não comprada!

Então não é a toa que os que entendem alguma coisa de Política defendem uma Reforma Política urgente no Brasil, com financiamento público e exclusivo de campanhas, sem voto obrigatório, etc. Assim teremos a chance de ver diversos Políticos com suas ideologias próprias (e não compradas pelas empreiteiras) se candidatando e tendo chances reais de vencer eleições. Assim teremos, eventualmente, o ressurgimento da Política e da Democracia neste país.

E isto ainda seria só o primeiro passo... Com o ressurgimento da Democracia, então tanto a Esquerda quanto a Direita, tanto os defensores do Estado quanto os defensores do Mercado, poderiam debater e chegar a concordâncias possíveis para o nosso avanço sempre à frente. Isto seria muito mais saudável para o debate público do que o “combate a corrupção” (os únicos que são favoráveis a corrupção são os próprios corruptos, então de que vale defender o óbvio?).

Pois um Mercado totalmente livre, sem nenhuma regulamentação e intervenção do Estado, descamba para uma sociedade extremamente consumista (que pode eventualmente consumir tantos recursos naturais, que a própria espécie humana se veja ameaçada [1]) e para períodos de crises e “estouros de bolhas especulativas” na economia (sendo que os banqueiros jamais pagam a conta, exceto talvez na Islândia). Da mesma forma, um Estado totalmente controlador do Mercado, longe de corresponder a teoria de Marx, na prática tem descambado mais para uma espécie bizarra de “feudalismo moderno” (embora ainda existam todos os tipos de lendas acerca de como “o Comunismo na verdade deu certo”).

É por isso que devemos agradecer esta Primavera. Se vamos citar um trecho do nosso hino nacional, que seja antes este: “E o Sol da Liberdade, em raios fúlgidos, brilhou no céu da Pária nesse instante”. Afinal, ninguém parece ter compreendido e resumido melhor o sentimento e o sentido de esperança trazido pelos jovens da Mansão do Amanhã do que Eduardo Galeano. Foi numa breve entrevista dada aos jovens espanhóis na praça Catalunya que ele deu a mais profunda declaração Política deste início de século, e é com ela que eu encerro este artigo:

Aqui vejo reencontro, energia de dignidade e entusiasmo. O entusiasmo vem de uma palavra grega que significa “ter os deuses dentro”. E toda vez que vejo que os deuses estão dentro de uma pessoa, ou de muitas, ou de coisas, ou da Natureza, eu digo para mim mesmo: “Isto é o que faltava para me convencer de que viver vale a pena”.

Então estou muito contente de estar aqui, porque é o testemunho de que viver vale a pena. E que viver está muito, muito mais além das mesquinharias da realidade política e da realidade individual, onde só se pode "ganhar ou perder" na vida! E isso importa pouco em relação com esse outro mundo que te aguarda. Esse outro mundo possível.

Este mundo de merda está grávido de um outro!

O mundo a espera de nascer é diferente, e de parto complicado. Mas com certeza pulsa no mundo em que estamos. O mundo que "pode ser" pulsando no mundo que "é". Eu o reconheço nessas manifestações espontâneas, como as desta praça.

Alguns me perguntam “o que vai acontecer?”; “e depois, o que vai ser?”. Pela minha experiência, eu respondo: “Não sei o que vai acontecer... Não me importa o que vai acontecer, mas o que está acontecendo!”. Me importa o tempo que “é”.

***

[1] Se todo o mundo tivesse os padrões de consumo dos EUA (do início deste século), precisaríamos de uns 3,5 planetas para dar conta da demanda por recursos naturais. Dizem que o equilíbrio do consumo sustentável demandaria que todo o globo tivesse os padrões de consumo aproximados da Paris da década de 60. Nada mal.

Crédito da imagem: Google Image Search + Gibran + raph

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20.6.13

A carta de Sebastião

Sebastião Salgado, um dos maiores fotógrafos da história, passou 8 anos viajando pelas regiões intocadas do globo, buscando pelo mundo "conforme ele era após a Criação". Genesis é o resultado fotográfico desta jornada, o que o próprio autor chamou de "uma carta de amor ao planeta".

Além de haver gerado um belo livro da Taschen, as fotos do Genesis estão atualmente expostas em Londres e no Jardim Botânico do Rio de Janeiro (até o dia 26 de Agosto):

 

 

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18.6.13

O choro do recém-nascido

Nós não esquecemos
De que sua guarda foi educada
Para defender o barão,
Morrer pela nação
E viver sem razão.
Nós não esquecemos
E não perdoamos.

Seus anunciantes pagos
Apontam suas câmeras para o bairro nobre
E fingem que não existem
Os que sofrem ao largo –
Estes que não merecem nem nota de rodapé.
Mas nós já não lemos seu jornal
Nem sintonizamos seu canal.

Nós não esquecemos
De como sua “bancada rural”
Vem tratando nossas matas e nossos índios,
Corrompendo ao que é ancestral.
Nós não esquecemos
E não perdoamos.

Uma grande escola evitaria dezenas de prisões,
Mas seu presídio condena ao inferno o marginal
E seu sistema de ensino
Serve apenas para ensinar ricos
A ganhar ainda mais dinheiro.
Mas nós não aprendemos mais da sua cartilha,
Somos a geração Coca-Cola
Que já não bebe Coca-Cola.

Nós não esquecemos
De seus corruptos impunes
Nem dos aplausos do pretenso “partido da moral”
Aos seus próprios corruptores.
Nós não esquecemos
E não perdoamos.

Hoje, vocês querem nos dar futebol...
Futebol em troca de saúde para os desesperados,
Educação para os desamparados
E segurança para os desnorteados.
Mas nós não faremos sua festa dentro dos estádios;
Faremos a nossa própria festa, fora deles,
E por todo este grandioso país.

Nós não esquecemos.
Nós não perdoamos.

Esperem por nosso grito...
O choro do recém-nascido!


raph’13 (inspirado em Anonymous)

***

Crédito da imagem: Anonymous

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14.6.13

Primavera Brasilis

Como sabemos, a Primavera chegou ao Brasil. Com “pleno emprego” e tudo, os jovens ainda assim foram chamados e compareceram as ruas de São Paulo e outras metrópoles da Terra Brasilis. Vimos um médico desnorteado incitando sua polícia à violência. Vimos um professor esquecido das ideologias da juventude. Vimos a “direita” e a “esquerda” alinhando seu discurso e demonstrando o que os que estavam nas ruas já sabiam há tempos: que neste país, não são tão diferentes assim.

Acreditaram que toda a manifestação era “orquestrada” por alguma “liderança oculta”. Acreditaram que ninguém iria dar bola para míseros 20 centavos de aumento das passagens de ônibus. Acreditaram que todos eram vândalos de baixa renda e baixa escolaridade, e que a melhor solução seria a repressão que a polícia militar, a despeito de estarmos a décadas do fim da ditadura, ainda sabe fazer como ninguém.

Deu no que deu. Agora, após até mesmo a Folha de São Paulo haver “mudado de opinião” tão repentinamente, sua preocupação deixou de ser com os míseros 20 centavos e com os vândalos. Agora estão preocupados com a repercussão da violência policial no exterior, com a repercussão da prisão de jornalistas na Anistia Internacional e, principalmente, em saber quem diabos é o “cabeça”, a “liderança oculta”, o sujeito mascarado...

Eu vou lhe dizer quem é o sujeito mascarado, mas só no final. Antes vou falar sobre os manifestantes, os ex-vândalos. Vi um estilista, amante de livros, que resolveu conferir as manifestações ao vivo, e desligou a TV:

Pela primeira vez me senti no lugar correto, para usar o novo jargão do protestante 2.0: “A passeata que fui me representa”.

Finalmente sinto que participei de algo ao lado de pessoas que tinham o mesmo pensamento que eu, que não estavam lá pra defender um partido ou uma causa específica, mas sim por indignação pelo tratamento concedido por parte dos nossos representantes públicos. Diferente dos protestos ao redor do mundo, nós não gritamos “palavras de ordem”. Aqui no Brasil (mais especificamente o que vi e vivi em São Paulo), até os gritos de guerra mais pesados viram festividades em forma de marchinhas: “vem pra rua vem!”. Quem estava lá entende. Não era agressivo. Era festivo.

Sinceramente, seria muito bom se víssemos isso como uma qualidade e não como defeito. A agressividade sendo trocada por chamados de convívio mútuo a de ser comemorada e louvada. Lá, antes das 20hrs, tínhamos tudo, consciência política, participação, voz e alegria. Esta foi a passeata que eu fui e assim ela terminou. Não foi a passeata que assisti pela TV ao chegar em casa, quando aquela minoria que restou resolveu quebrar tudo e roubou as manchetes da melhor e mais bonita manifestação que já participei [1].

Como o governo e a grande mídia gostariam que fossem somente alguns atos passageiros de uma minoria de vândalos. Como o governo e a grande mídia gostariam que fossem manifestações orquestradas por pequenos partidos políticos que ainda acreditam em lendas comunistas do século passado. Pois, fosse assim, eles já saberiam o que fazer. Mas não é assim, não mais. Vi também um jornalista que não teme expor sua opinião:

O esquerdo-direitismo é uma crença semi-religiosa que se tornou a ideologia dominante do mundo no último século. Esquerdo-direitistas são pessoas que acreditam que todo o bem que existe no mundo provém de apenas uma fonte. Há dois tipos de esquerdo-direitistas – aqueles que acham que a fonte de todo o bem é o mercado e aqueles que acham que é o estado. A estes chamamos esquerdistas, aqueles são os direitistas.

No fundo, esquerdistas e direitistas são dois lados de uma mesma coisa. Ambos veem o mundo em apenas duas dimensões, sem profundidade, dividido entre bons e maus. Não admira que esquerdistas transformem-se em direitistas e vice-versa com tanta facilidade – alguns dos analistas mais ferrenhos da direita passaram a juventude militando nas facções mais radicais da esquerda [2].

Vamos aprender política brasileira com o seu maior representante, o PMDB: (passo 1) Estar no poder; (passo 2) Caso não ganhemos a presidência, formar a base aliada do governo; (passo 3) Na base aliada, negociar o maior número de ministérios possível; (passo 4) Sempre que as negociações estiverem emperradas, chantagear o governo. Resultado: Passo 1 sempre garantido de uma forma ou de outra.

No entanto, existem exceções: (a) PT e PSDB nunca podem formar a base aliada um do outro. Quando um não está no poder, é obrigado a ser oposição de verdade (a diferença é que para o PSDB a ficha ainda não caiu); (b) PSTU é um partido efetivamente ideológico, mas que ainda acredita em lendas do século passado; (c) PSOL é um partido efetivamente ideológico, mas que acredita que algo de novo pode surgir neste século. Resultado: na última eleição no Rio de Janeiro (2012) “direita” e “esquerda” massacraram o candidato do PSOL, por que era o único que seguia uma ideologia. 

Os governantes deste país têm nos ensinado que ideologias são muito perigosas. Quem está no poder geralmente não gosta muito delas... Mas se você acha que eu escrevi tudo isso somente para defender o PSOL, está enganado. Nada garante que o PSOL, ao chegar ao poder, não se comporte da mesma forma que outros partidos de oposição que chegaram lá e pouca coisa mudaram. Isto por que o sistema está equivocado, antigo, corrupto. Aqui não se faz Política, se faz um “negócio eleitoral”. O que os que estão no poder mais temem, portanto, é exatamente que a Primavera Brasilis seja apolítica, isto é, Política de verdade: para começar a se refazer Política, antes é necessário fazer uma reforma geral na política. Os “P”s e os “p”s são propositais.

Vi que os manifestantes, em sua grande maioria, não somente não trazem símbolos de partidos políticos, como abominam se envolver com eles. Bandeiras de partidos são somente toleradas, não tem nada a ver com a alma desta Primavera. Os partidos Políticos do futuro ainda irão surgir. Os Políticos do futuro serão jovens, jovens de verdade, independente de sua idade.

Mas, e quem é afinal o tal mascarado?

Agora eu posso lhe contar. Você mesmo pode descobrir quem ele é, e é muito fácil. Dê um jeito de comprar uma dessas máscaras do Alan Moore, depois vá a pelo menos uma manifestação desta Primavera, seja onde estiver no país, e procure observar a tudo com os olhos de um jovem, de uma criança, de um recém-nascido... Caminhe pelas ruas como se elas fossem novas ruas. Observe os transeuntes como se eles fossem, ao menos por breves momentos, parte da sua família. E se alguém lhe apontar alguma arma de fogo ou canhão, lhe entregue uma flor.

Depois retorne para sua casa e, de frente para algum espelho, retire a máscara.

Lá estará o tal mascarado, desmascarado...


Onde a mente encontra-se sem medo e a cabeça é mantida erguida
Onde o conhecimento é livre
Onde o mundo não foi quebrado em fragmentos
Por estreitos muros domésticos
Onde as palavras vêm da verdade profunda
Onde laboriosas lutas esticam seus braços em direção à perfeição
Onde o riacho límpido da razão não perdeu o seu rumo
Afluindo ao triste deserto dos hábitos moribundos
Onde a mente é direcionada adiante por você
A pensamentos e ações sempre em constante afloramento
Nesse céu de liberdade, Pai, deixe meu país acordar

(Tagore)

***

[1] Trechos do artigo de Bruno Passos para o blog Papo de Homem: Contra o aumento das tarifas de ônibus: o protesto que eu não vi pela TV.

[2] Trechos do artigo de Denis Russo Burgierman para a Superinteressante: A maldição do esquerdo-direitismo.

Crédito da imagem: Anonymous

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13.6.13

A educação de Casanova, parte 2

A educação de Casanova

Texto recomendado para maiores de 16 anos.

« continuando da parte 1


2.

Ele, como sempre, agiu como se não estivesse a sua frente um homem desesperado, mas tão somente como se minha presença fosse um evento dentre tantos outros da vida, mais ou menos importantes, e que para ele eram como se fossem uma mesma coisa, uma coisa pequena... Ele estava acostumado ao fogo, e perto dele quase tudo era algo pequeno:

“Você deve estar se perguntando porque eu lhe trouxe aqui, meu amigo. Não é um ambiente interessante?”.

Obviamente isto era parte da aula, então dei de ombros e concordei, embora ele soubesse que eu estava sendo irônico, pois seus olhos percebiam cada nuance das coisas mais pequeninas. Assim ele prosseguiu:

“Veja ali aquele menino. Não deve ter nem seus 18 anos, embora eu não acredite em idade... Vê que ali junto dele há um grupo de homens mais velhos? Com certeza o convidaram para sua iniciação sexual. E ele, entretanto, nasceu noutra época, vindo de outra Mansão, e aqueles homens pensam que o estão dando um presente, quando não estão. Isto é tão frequente por esses dias, Giacomo”.

“Não entendo, o menino pode ser ainda virgem, este não é um belo presente?”.

“Noutras épocas, meu amigo, quando não existiam outras alternativas para meninos terem uma iniciação quente com alguma mulher experiente. Mas hoje isto não é mais necessário... Quantos jovens como ele se iniciam em lugares como este? Muito poucos, muitos poucos, Giacomo. O mundo muda, nada fica parado”.

“Ainda assim, isto não é um presente?”.

“Para os que ofertam, certamente, já que receberam o mesmo presente de seus pais. Mas nem sempre o que passamos na juventude servirá igualmente para nossos filhos. Nossos filhos não são nossos filhos, mas os filhos da ânsia da vida por si mesma. Vem através de nós, mas são como presentes de um Outro... Somente eles podem decidir o que servirá para sua felicidade, pois os pais já habitam este mundo há muito tempo, estão já entediados e enrijecidos. Ou não é disso que reclamava há pouco?”.

“Mas eu não tive filhos, ou pelo menos não fui o pai deles...”.

“Somos convidados pela vida há muitas formas de fecundidade, Giacomo. Tudo o que amamos pode ser fecundado, pode ser parte de nossa prole. Mas isto não importa agora, o que estava querendo dizer é que o menino não busca somente perder a virgindade, ele é um desses novos românticos que nasceram para reacreditar no Amor.”

Não me diga que ele vai se apaixonar pela primeira puta que encontrar pela frente?”.

“Não pela primeira, ele vai escolher dentre todas as do recinto. Provavelmente a mais inocente, pois a inocência atrai a inocência. Só que a inocência não dura muito num cabaré de Beyazit, e o amor não poderá fluir por este rio... Então, não será um presente, mas antes um infortúnio. É claro que, no fim das contas, um infortúnio também pode ser um grande presente”.

“Então vai ser como eu, no início, que me apaixonava pelas prostitutas de Veneza e as convidava para navegar nas gôndolas?”.

“Não meu amigo. O mundo mudou”.

Chegaram às bebidas. Asik continuava um grande apreciador do çay, mas eu preferi um vinho doce, pois minha existência vinha demasiado amarga. Nunca tinha o visto bêbado, mas ele sempre me dizia que já estava inebriado de amor, e que se inebriar ainda mais seria desnecessário... Não que não bebesse vinho, apenas nunca ficava bêbado. Parece que bebia apenas porque os demais bebiam, e ele sempre procurou não se destacar na multidão...

Ora, era óbvio que o mundo havia mudado, mas seja lá como for, não haveria de ser uma mudança tão grande assim. Como havia dito, as felicidades e tristezas ainda se intercalavam umas as outras, cercadas pelo grande tédio... Eu queria saber mais, afinal Asik quase nunca se entediava, mas ele não me deu chances de perguntar:

“Veja aquele empresário da ilha do Oriente. Está já velho, mas insiste em fazer o mesmo que fazia enquanto jovem. É casado, bem sucedido nos negócios, e gerou alguns filhos... Mas sua família é sua empresa, e sua rotina familiar é composta de reuniões, grandes lucros e festas com mulheres compradas”.

“E que mal há nisso, afinal? Deixe-o curtir os momentos que lhe restam nesta vida”.

“Mal? Não há nenhum mal, Giacomo. Faz o que queres, há de ser o todo da Lei. Mas quando as pequenas vontades se dissociam do Amor, não há fecundidade, apenas estagnação... Ele não conta mais do que 40 anos, ainda viverá muito tempo, mas já é velho. Eu não acredito em idade, acredito em velhice e juventude!”.

Quando olhei melhor, vi que o homem tinha um olhar parecido com o meu. Mesmo por detrás dos olhos puxados, estávamos igualmente entediados. A única diferença entre nós naquele momento é que ele apalpava os seios fartos de uma bela moça. Mas nem querer apalpar os seios fartos de uma bela moça eu queria... Eu queria algo mais do que isso. Eu estava um tanto encrencado, pois seios fartos sempre foram o suficiente para me alegrar...

“E a mulher dele, o que faz? Cuida dos filhos?”.

“Não. Ela teve o azar de nascer nesta última geração em que os homens ainda pensavam como os homens de antigamente. Então ela encarou a liberdade feminina com o pensamento de um homem, mas com os pudores antigos das mulheres antigas. Como não tem coragem de se deitar com um homem de programa, seus programas são somente jantares românticos e, as vezes, uma sessão de cinema”.

“Está me dizendo que enquanto o marido viaja o mundo a negócios traçando putas de várias etnias distintas, ela permanece em casa e contrata amantes somente para que tenha com quem sair a noite?”.

“Exato”.

“E não vai nem para cama com eles?”.

“Não”.

“É por isso que digo que o casamento é uma maldição... Aliás, até hoje não compreendo porque foi se casar, Asik!”.

“Meu amigo, e quem lhe disse que eu acredito no casamento?”.


***

Esta foi a segunda parte de A educação de Casanova, por raph em 2013.
Comece a ler do início | Veja a terceira parte


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12.6.13

A educação de Casanova, parte 1

A educação de Casanova

Texto recomendado para maiores de 16 anos.


Vou começar com esta confissão: o que tenho feito no curso da minha vida, quer seja bom ou mal, tem sido feito livremente; sou um agente livre.


1.

Eu poderia jurar que fazia séculos que não punha os pés nesta cidade. Tudo tem mudado no mundo, mas as felicidades e os prazeres continuam passageiros e fugazes, as grandes infelicidades continuam a atemorizar os homens, e de resto há somente este grande e tenebroso tédio nos intervalos entre umas e outras. Até algum tempo atrás, e já não me lembro mais quanto, eu me encontrava livre desta pequena tristeza, tão jovem quanto sempre fora, tão sedutor quanto um misterioso viajante. Mas ultimamente tenho envelhecido, meus pensamentos e minha alma vão tornando-se rígidos e enrugados, e meus olhares nada mais despertam nas mulheres...

Como, afinal, despertar alguma paixão nalguma bela jovem ou nem tão jovem, se eu mesmo padeço deste tédio que acomete a tudo e a todos na civilização moderna. Há pouco chamei-o “grande e tenebroso”, e me contradisse quando falei em “pequena tristeza”. Ora, uma grande infelicidade ainda pode ser mais interessante, pois após uma queda vem a fase em que ficamos novamente de pé, e após uma desilusão amorosa podemos contar com uma doce ilusão totalmente nova! Melhor seria uma grande infelicidade, uma grande tragédia, do que este tédio... Será que é por isso que os homens consideram se casar?

Esta vista do mar de Mármora continua tão bela quanto me lembrava. Os homens aprenderam a construir estas grandes torres, cada vez maiores, mas em matéria de beleza e sedução, ainda têm muito o que aprender com a natureza. E eu que sempre fora um agente livre, um mar esguio a banhar as mulheres seminuas ou nuas no verão, mas que desaparecia no inverno... E agora, agora um mar represado, entediado. Mas não se apiedem de mim, não estou aqui para chorar minhas mágoas, e sim para me curar.

Dizia Hipócrates que são nossas próprias forças internas quem realizam a cura, e que o médico é tão somente o agente que nos leva ao reencontro conosco mesmo. Acho que é precisamente isto que ocorre. Casanova, o grande Casanova, não come mais ninguém, e nem parece entusiasmado em comer mais ninguém... Ó, lástima, será necessário mesmo um grande médico do amor para me conduzir novamente ao meu próprio coração. Vim de tão longe atrás deste homem.

Beyazit é o bairro onde ele marcou o encontro. Não é preciso ser um especialista nas artes amorosas para perceber que se trata de um dos poucos bairros da cidade onde há prostituição. Além do que é já noitinha, isto tudo só pode ser um grande deboche da parte dele... Quem quer que tenha acreditado que fiz amor com 122 mil mulheres e prostitutas ao longo de uma única vida é muito ingênuo ou gosta de mitologia! Mas o pior é ver tantos jovens se divertindo, tantos homens ainda com esta grande vontade de procriar a espécie, e tantas mulheres os analisando e criteriosamente escolhendo aquele de maior potencial... E eu aqui, entediado, entediado até mesmo com Darwin!

Vejam bem, mulheres, não estou dizendo que todas as mulheres de Beyazit são prostitutas. Nesta rua mesmo, há apenas algumas. Os homens, por outro lado, são quase todos prostitutos... Eles se vendem para o próprio desejo desenfreado, em troca de um pouco de prazer. Eu atuava com maior refinamento e dignidade. Negociava com meu próprio desejo em prol de obter o maior prazer possível. O grande segredo de Casanova era este: “o desejo só é mantido vivo quando não é totalmente satisfeito”. Então, meu refinamento estava em me satisfazer aos poucos. Dizem que eram as mulheres que se apaixonavam perdidamente por mim, mas não: eu é que me apaixonava por elas, e as desejava ardentemente. Mas nunca satisfazia totalmente meu desejo, e era dessa forma que o mantinha vivo. Eu só poderia ser um grande amante, afinal, se as desejasse mais do que elas mesmo me desejavam.

E agora, nada, só o tédio... Não tenho mais desejo de nada, então como irei satisfazer uma mulher? As mulheres não são tão facilmente satisfeitas como os homens... Há homens que se satisfazem em copular com um corpo escultural. As mulheres, em sua maioria, percebem um pouco mais da alma. E eu, envelhecido, entediado, meio triste, não quero nem saber do que foi feito da escultura da minha alma a essa altura...

Preciso de um grande artista, um exímio escultor, ou ainda de um sábio restaurador. Meu amigo é tudo isto e muito mais. Casanova virou mito, mas aprendeu tudo o que sabe, ou quase tudo, deste homem árabe, que nunca precisou viajar pelos continentes para conhecer a alma dos homens e, sobretudo, das mulheres. Eu, é claro, fui por muito tempo um herege na arte do amor. Ele, pelo contrário, praticamente escreveu a bíblia de tal arte, não com uma pena ou caneta, mas com o próprio corpo e a própria alma e o olhar, o olhar!

Se um dia aprender a olhar como ele, me dou por satisfeito. Há homens que olham mulheres vestidas e as despem com o olhar. Ele não, ele veste as mulheres com o seu olhar, as preenche por todos os poros, e vira facilmente o centro de sua atenção. Caso queira, é claro... Nunca vou entender por que diabos se casou. Privar as mulheres de sua arte, concentrando-se sempre na mesma, é um desperdício, um grande egoísmo!

Se não satisfiz 100 mil, pelo menos que tenham sido mil. Ainda é melhor do que apenas uma. Ele escreveu a bíblia do amor, mas eu sou o seu grande apóstolo, o evangelizador! Eu trago a boa nova e a boa nova é um grande prazer, fugidio, mas que é genuíno... Melhor dar um pouco de prazer para mil do que muito prazer para somente uma. Além do que, o prazer nunca dura tanto afinal, do contrário não saberíamos distingui-lo das pequenas alegrias.

Eu entro pela porta apertada do cabaré. Quantos cabarés iguais não adentrei em minha existência! Os olhares mortos das prostitutas já cansadas, os olhares ainda mais entediados dos homens que se regozijam em se envolver com corpos sem que haja necessidade de se preocupar com as almas, as bebidas destiladas e a música de fundo... Tudo meio escuro e frio, com pinceladas de acinzentado aqui e ali, e uns poucos ainda iludidos querendo encontrar o amor de suas vidas neste tipo de ambiente. É tudo isto já uma lição de meu amigo, um lição merecida devo dizer, pois que não há como negar que eu mesmo já recorri a este tipo de ambiente muitas vezes, quando ainda não havia aprendido a refrear meu próprio desejo.

Lá está ele, com seu olhar de fogo. Se ele uma vez me ensinou a ser como as labaredas, terá de me curar, me transformar pelo fogo uma vez mais... Eu puxo uma cadeira e me sento à mesa. Olhando fundo na sua alma, pronuncio seu nome, quase como uma súplica:

“Asik, eu me desvirtuei, preciso novamente do seu aconselhamento”.


***

Esta foi a primeira parte de A educação de Casanova, por raph em 2013.
Veja a segunda parte

***

» Este conto também se encontra disponível para download gratuito, em e-book.


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10.6.13

Moisés e o pastor

Eu quero fogo, fogo ardente!

Trecho do Projeto Rumi:

Moisés ouviu um pastor a rezar enquanto vinha pela estrada:

“Deus, onde está você? Eu quero lhe ajudar, consertar seus sapatos e pentear seus cabelos. Eu quero lavar suas roupas e retirar os piolhos um por um. Eu quero lhe trazer leite e beijar suas pequenas mãos e pés quando for hora de ir para a cama. Eu quero varrer seu quarto e mantê-lo arrumado. Deus, minhas ovelhas e meus bodes são seus...

Tudo que posso dizer enquanto lembro de ti é aaaiiiiiiiiiiiiii e aaahhhhhhhhhhhhhh.”

Moisés não pôde mais aguentar:

“Com quem você está falando?”

“Aquele que nos criou e que moldou a terra e o céu.”

“Não fale sobre sapatos e meias com Deus! E o que é algo como suas pequenas mãos? Esta intimidade é uma blasfêmia que faz parecer que está a prosear com um de seus tios. Apenas algo que cresce precisa de leite. Apenas alguém com pés precisa de sapatos. Deus não precisa de nada disso!”

O pastor se arrependeu, rasgou suas roupas e saiu a vaguear pelo deserto.
Uma revelação súbita veio a Moisés:

Você me separou de um dos meus.
Você veio como um profeta para unir ou para dividir?
Eu conferi a cada ser uma forma individual e única
de ver e conhecer e repassar este conhecimento.

O que lhe parece errado é o certo para ele.
O que é veneno para um é mel para algum outro.
Pureza ou impureza, preguiça ou diligência na devoção,
isto nada significa para mim. Eu estou além de tudo isto.

As formas de devoção não devem ser classificadas como melhores
ou piores. Hindus rezam como hindus. Os drávidas
muçulmanos na Índia fazem o que fazem. Tudo isto é louvor,
e tudo isto está bom. Eu não sou glorificado em atos de louvor.

São os que me louvam! Esses que me interessam!
Eu não ouço as palavras em suas rezas.
Eu olho para dentro e vejo sua humildade.
A submissão da alma aberta é a realidade.
Esqueça a fraseologia! Eu quero fogo, fogo ardente.

Sejam amigos de sua alma ardente.
Aqueles que se preocupam com as boas maneiras e os bons comportamentos são de um tipo.
Amantes que ardem neste fogo são doutro.
Não imponha taxa de propriedade a uma vila incendiada.
Não censure o amante.

A forma “errada” de que ele fala é melhor do que uma centena das formas “corretas” dos outros.
Dentro da Caaba [1]
não importa em que direção você aponta
seu tapete de oração!

O mergulhador do oceano não necessita de sapatos de neve!
A religião do amor não tem código ou doutrina;
Apenas Deus.

Então o rubi não possui nada gravado!
Ele não necessita de marcações...

Deus começou a falar para Moisés
de mistérios ainda mais profundos, de visões e palavras
que não podem ser ditas aqui.

Moisés deixou a si mesmo
e retornou. Ele foi até a eternidade
e retornou aqui. Isto ocorreu muitas vezes.

É tolice minha tentar falar sobre isto.
Se eu dissesse alguma coisa deste assunto,
isso iria desenraizar a inteligência humana.

[...]


Comentário

Não importa se você reza para um Pai ou uma Mãe, para o corvo ou a coruja, o lobo astuto ou o touro feroz; Não importa se você vê a Divindade na Cruz, num quadro, na pradaria ou na noite estelar; Não importa nem mesmo se você crê na Divindade...
Pois que, se você crê no Amor, temos algo em comum. Temos o essencial. Vamos começar por aqui esta nossa dança:
Pé ante pé, vamos bailar, juntos, até a Eternidade.

A religião do Amor não tem código ou doutrina. Apenas Deus. E não é preciso crer nele para ouvir o som de sua flauta, ou ensaiar os primeiros passos desta nossa dança...
“Deus” é, afinal, apenas uma palavra. O Amor é a música. O Amor envolve-nos nesta dança.

Tudo começa no coração. Tudo acaba no coração.
Nada disto tem um fim.

[...]

***

[1] Reverenciada pelos muçulmanos em Meca, é considerada pelos devotos do Islã como o lugar mais sagrado do mundo. A Caaba é uma construção cúbica de 15,2m de altura, cercada por muros de 10,6m e 12,2m de altura. Ela está permanentemente coberta por uma manta escura com bordados dourados que é regularmente substituída. Em seu exterior, encravada em uma moldura de prata, encontra-se a Hajar el Aswad ("Pedra Negra"), uma pedra escura, de cerca de 50cm de diâmetro, que é uma das relíquias mais sagradas do islã. Ela é, provavelmente, o resto de um meteorito.
A Caaba é o centro das peregrinações (hajj) e é para onde o devoto muçulmano volta-se para as suas preces diárias (salat). Quando o profeta Maomé repudiou todos os deuses pagãos e proclamou um deus único, Alá poupou a Caaba e a transformou, de um centro de peregrinação pagã, em um centro da nova fé. No período pagão, a Caaba provavelmente simbolizava o sistema solar, abrigando 360 ídolos, sendo assim uma representação zodiacal. O edifício foi restaurado diversas vezes; a construção atual é datada do séc. VII, substituindo a mais antiga que foi destruída no cerco de Meca (683 d.C.).

Crédito da imagem: Google Image Search

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9.6.13

Lançamento: Tao Te Ching

Tao Te Ching

Nesta tradução exclusiva do Tao Te Ching a partir da tradução clássica de James Legge para o inglês, Rafael Arrais (poeta, escritor, editor e autor do blog Textos para Reflexão) usa do auxílio precioso das interpretações do ocultista britânico Aleister Crowley e do filósofo brasileiro Murillo Nunes de Azevedo para compor uma visão moderna da antiga sabedoria de Lao Tse. Não se trata de uma tradução para os que adoram ao Tao como numa religião organizada, mas antes para os que o amam e desejam seguir no Caminho Perfeito; ou ainda, para aqueles que nunca ouviram falar dele...

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***

Conforme já falamos da tradução e do prefácio, agora traremos alguns trechos do livro em si:

O conhecimento da imortalidade

Aquele que conhece os homens
possui um grande intelecto.
Aquele que conhece a si mesmo
é possuído por uma grande iluminação.

Aquele que conquista batalhas é forte.
Aquele que conquista a si mesmo é realmente poderoso.

Aquele que se satisfaz com o que tem
é rico.
Aquele que mantém firme sua ação
alcançou a Vontade.

Aquele capaz de se adaptar a todas as situações
alcançou a longevidade.
Aquele que morre e, no entanto, não perece,
alcançou a imortalidade.

***

A doença do saber ilusório

Saber, e saber que nada sabemos, é a mais alta realização.
Não saber, e achar que se sabe, é uma doença.

Por simplesmente considerarmos o mal
que este tipo de doença nos traz,
nós nos preservamos dela.
O sábio não carrega tal doença consigo,
pois ele sabe do seu mal.

***

O caminho para o Céu 

Aquele que enche um vaso até que transborde,
ao carrega-lo, espalhará a água por todo o caminho.
Aquele que afia em excesso uma faca
arruinará o seu corte.

Quando um salão está cheio de ouro e jade,
seu dono viverá na insegurança.
Quando a riqueza e o status conduzirem a arrogância,
a ruína virá sem tardar.

Quando finda a boa obra
e nosso nome começa a tornar-se célebre,
esta é a hora de nos recolhermos a obscuridade.

Este é o caminho para o Céu!

***

A antecipação das dificuldades

Aquele que segue o Caminho age
sem mesmo pensar em agir.
Conduz seu trabalho
sem ansiar pelos resultados.
Prova do fruto
sem discernir se é doce ou azedo.
Considera igualmente o grande e o pequeno,
o muito e o pouco.
Repele toda a violência
com gentileza.

O mestre do Tao antecipa as dificuldades
quando elas ainda são fáceis de se lidar;
e inicia grandes realizações
quando elas ainda são pequeninas.
Todas as grandes dificuldades no mundo
um dia foram pequenas;
e da mesma forma, todas as coisas grandiosas
tiveram um início modesto.
Dessa forma, o sábio jamais pensa em fazer algo grandioso,
e assim acaba por realizar grandes obras.

Quem promete realizar muitas coisas,
tem dificuldades em manter a palavra.
Quem costuma desconsiderar a dificuldade da empreitada
acaba por se embaraçar nela,
e torna-la ainda mais difícil do que era inicialmente.
Dessa forma, o sábio em tudo vê dificuldade,
e ao antecipar uma dificuldade
acaba por evita-la totalmente.

***

Os frutos do Tao

Aquele que planta de acordo com o Tao,
criará raízes firmes que não podem ser arrancadas;
sua colheita jamais será perdida.

Seus filhos, e os filhos de seus filhos,
uma geração após a outra,
todos devem honrar ao templo dos seus ancestrais.

Cultive o Tao em si mesmo
para que sua virtude cresça da raiz.
Cultive o Tao na família
para que essa virtude se manifeste.
Cultive o Tao na vizinhança
para que a virtude perdure.
Cultive o Tao no Estado
e a virtude se tornará abundante.
Cultive o Tao no Reino
e seus frutos saciarão a fome de todos.

Aquilo que o Caminho modifica
pode ser observado por seus frutos
na pessoa, na família, na vizinhança,
no Estado e no Reino...

Como eu conheço aos frutos do Tao?
Pelo sabor!


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