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26.2.17

Reflexões políticas, parte 2

« continuando da parte 1

A tradição em reforma

Se imaginarmos a linha que liga os extremos de esquerda e direita econômica (dos quais falei no último artigo) como um plano horizontal, e uma outra linha vertical cortando esta primeira ao centro, em que no topo temos um extremo de totalitarismo governamental, onde geralmente a democracia é inexistente ou precária, e na ponta inferior, uma forma de governo plenamente democrática, que garante todas as liberdades individuais de seus cidadãos, então chegaremos a uma das versões do Diagrama de Nolan (ver a imagem acima).

David Nolan, um ativista político americano, criou este diagrama em 1969. Nolan via uma esquerda progressista que defendia somente as liberdades individuais, mas era favorável a intervenções do Estado na economia, ao mesmo tempo em que percebia na direita conservadora de seu país uma defesa somente da liberdade do Mercado, e não exatamente dos indivíduos (por exemplo, a união estável entre casais homossexuais não era então reconhecida pela lei). Assim, Nolan adicionou mais um eixo na divisão entre esquerda e direita, como forma de divulgar as ideias do libertarianismo, que defende uma regulação estatal mínima tanto na economia quanto na vida pessoal de cada cidadão [1].

De certa forma, é impossível defender a democracia plena sem concordar em alguma medida com o libertarianismo, mas antes de falar de totalitarismo e liberdade, eu vou falar de conservadorismo e progressismo:

Podemos considerar que desde os girondinos e jacobinos, na Revolução Francesa, o mundo político (principalmente o ocidental) tem avançado em suas reformas passo a passo, ora estimulado pelos reformistas, ora refreado pelos tradicionalistas. Obviamente que os tradicionalistas são conservadores e defendem que as reformas sejam feitas da forma mais lenta e gradual possível, preocupados que são com a possibilidade de que uma série de passos descuidados a frente venham a precipitar todo o sistema num abismo do qual necessitará de muitas gerações para escapar; os reformistas, pelo contrário, acreditam que as mudanças vêm ocorrendo de forma muito lenta, e que o progresso social deve se dar de forma mais urgente, ainda que alguns passos apressados eventualmente possam nos levar para algumas armadilhas pelo caminho.

É muito importante notar que ambos os movimentos creem que é necessário o aprimoramento das leis e das condições sociais, eles tendem a discordar apenas na velocidade em que tais mudanças devam ocorrer para que elas de fato funcionem da melhor forma. Quando compreendido desta forma, não há a menor razão para que o debate entre conservadores e progressistas se dê de forma dogmática, crendo que o pensamento oposto está intrinsecamente errado: é provável que o melhor caminho surja precisamente do consenso entre eles. A isto chamamos, mais uma vez, Política.

Vamos citar um exemplo contemporâneo: em junho de 1971, o então presidente dos EUA, Richard Nixon, afirmou numa conferência de imprensa que o abuso do uso de drogas ilegais era o “inimigo público número um” dos Estados Unidos. A chamada Guerra às Drogas, que já estava em curso, se radicalizou bastante nas décadas seguintes. Com o passar dos anos, entretanto, muitos pensadores progressistas começaram a alertar para o fato de que ela se parecia muito mais com uma espécie de “enxugamento de gelo”; que, além de não resolver definitivamente o problema, ainda transferia muitos recursos para o crime organizado, conforme havia ocorrido no período da Lei Seca, quando os americanos continuaram consumindo bebidas de um jeito ou de outro, e Al Capone se tornou um criminoso célebre pelo seu poder.

A ideia dos progressistas não era afirmar que o consumo de toda e qualquer droga deveria ser liberado e estimulado mas, pelo contrário, de que as dependências químicas seriam melhor administradas e tratadas pelos médicos do que pelos policiais. Para quê, afinal, gastar imensos orçamentos em segurança pública somente para impedir que um cidadão se aproxime das drogas se a experiência milenar da relação entre seres humanos e substâncias do tipo tem nos dito que isto provavelmente jamais irá acabar?

Ora, os primeiros progressistas que vieram com este papo foram demonizados, como é comum ocorrer com todos aqueles que se erguem para criticar o senso comum: “as drogas fazem mal!”... Foi preciso que algumas décadas se passassem para que, tal qual água mole batendo em pedra dura, o seu discurso começasse a ser assimilado pela sociedade em geral. Hoje, temos muitos políticos que foram convencidos de que a Guerra às Drogas, afinal, tem feito mais mal do que bem – um dos que mudaram de ideia foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Hoje, muitos estados americanos seguiram os exemplos de diversos países europeus, e legalizaram a venda da maconha, que sozinha respondia por bem mais da metade do lucro dos traficantes ilegais. O país que inaugurou a Guerra às Drogas hoje tem dificuldades em saber o que fazer com tanto dinheiro arrecadado nos impostos deste novíssimo mercado. Uma boa dica seria: investir em clínicas públicas de tratamento de dependentes químicos. Assunto resolvido.

Mas é claro que tal mudança não se deu para a noite para o dia, e passou por anos de debates e da cuidadosa elaboração de planos de legalização. É possível que em muitos países a liberação da venda da maconha tenha aumentado, e não diminuído, o número de usuários, mas o que não podemos dizer é que o tratamento dos dependentes piorou – afinal, nesses países hoje eles são considerados doentes, e não criminosos.

No exemplo acima falamos de um debate entre progressistas e conservadores que varou décadas, mas que no fim das contas parece ter chegado a um consenso vantajoso para todas as partes envolvidas. Provavelmente, daqui a mais algumas décadas, o período em que a maconha foi considerada proibida será lembrado da mesma forma que hoje é lembrada a Lei Seca. Hoje, é ponto passivo entre a grande maioria dos conservadores que a Lei Seca foi um erro.

Isto não quer dizer, no entanto, que os conservadores estarão sempre errados, e que a tendência natural da história seja comprovar os seus equívocos: mesmo no campo das drogas, há muitas delas potencialmente muito mais perigosas que a maconha, e que não respondem sozinhas por um lucro muito expressivo do tráfico. É possível que elas devam permanecer proibidas, e assim, percebemos que os conservadores também tinham razão. Após essa reflexão, podemos afirmar com certa convicção que um mundo sem conservadores seria tão trágico quanto um mundo sem progressistas.

O mesmo talvez não possa ser dito dos extremistas reacionários, revolucionários e totalitários, mas fato é que estes também compõem o nosso espectro político de dois eixos. Mas este artigo já se estendeu o suficiente, precisarei usar o próximo para falar deles...


» A seguir, como exterminar o debate e sempre ter razão.

***

[1] Os críticos de Nolan chamam o seu Diagrama de Propaganda de Nolan, mas creio que em geral ele é muito útil para esclarecer as ideias políticas que não tem a ver com economia.

Crédito das imagens: [topo] raph (minha adaptação do Diagrama de Nolan); [ao longo] Google Image Search (Al Capone)

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24.2.17

Reflexões políticas, parte 1

O parto de um novo mundo

Era uma vez um grande mercado de peixes situado numa grande metrópole. Todo dia, ainda antes do sol nascer, muitos compradores representantes dos mais badalados restaurantes japoneses da cidade vinham comprar salmão a peso de ouro. Esse pessoal sabia que o salmão de maior qualidade tem a cor da carne avermelhada, e por isso pagava mais caro por ele.

Com o tempo, no entanto, começaram a surgir boatos de que os vendedores do mercado estavam passando gato por lebre, ou seja, fingindo vender um salmão de maior qualidade, quando na verdade se tratava de salmão de cativeiro, onde os criadores usavam corantes artificiais na ração para conferir a mesma cor avermelhada ao produto final.

Os consumidores vieram questionar os comerciantes do mercado, e estes lhes responderam mais ou menos assim: “Olha, a única forma que teríamos para nos certificar de que todo o salmão é da mesma qualidade seria contratarmos especialistas independentes para trabalharem nessa regulação; isto, no entanto, aumentaria consideravelmente o preço do salmão por aqui”.

Neste momento, os compradores tiveram de se deparar com um imenso dilema, que na verdade explica boa parte da discussão política e econômica da modernidade: o que é mais vantajoso, um mercado desregulado que vende produtos mais baratos, porém potencialmente perigosos, ou um mercado regulado que vende produtos mais caros, por uma promessa de maior segurança?

Na verdade, usei a metáfora do salmão somente pela simplicidade mesmo, pois hoje em dia a quase totalidade deste mercado não passa por uma regulação minuciosa. No entanto, há muitos outros mercados que necessitam de regulação, seja para combater os monopólios e carteis de grandes empresas, seja simplesmente para resguardar os direitos dos consumidores de não serem enganados na cara dura.

O bom senso nos indica algo até mesmo óbvio, e que de certa forma já ocorre em boa parte do mundo: há que se ter uma certa regulação dos mercados, mas não ao ponto de torná-los inviáveis para os comerciantes – afinal todo comércio necessita de algum lucro, do contrário ninguém iria arriscar seu rico dinheiro investindo nele.

No entanto, o ser humano sofre de uma latente e um tanto resiliente atração pelo maniqueísmo. Mani foi um filósofo cristão do século III que propunha que o mundo era o palco de uma guerra eterna entre um Deus Bom e um Demônio Mal. Claro que o maniqueísmo, assim como o zoroastrismo que foi sua fonte original, são bem mais complexos do que esta dualidade superficial dá a entender... mas, como muitas outras doutrinas e filosofias, o maniqueísmo passou para a enciclopédia da história de uma forma um tanto resumida, e este resumo decaiu precisamente neste “dualismo ralo”.

Assim, nas visões econômicas atuais, podemos tentar distribuir as ideias numa linha com dois pontos opostos: na extremidade esquerda, temos a ideia de que o Estado deve regular praticamente tudo, inclusive o quanto cada comerciante pode ter de lucro em sua atividade, pois que a distribuição de toda e qualquer renda excedente garantirá que tudo funcione bem para todos; já na outra ponta, a direita, temos a ideia de que o Mercado deve ser regulado o mínimo possível, deixando que os comerciantes lucrem o quanto conseguirem, pois que o livre mercado e a concorrência garantirão que tudo funcione da melhor forma.

Se recorrermos novamente ao bom senso, veremos que qualquer uma das extremidades desta linha, quando livre das considerações opostas, na realidade não funciona assim tão bem quanto o prometido. E, se é difícil imaginar os motivos, basta recorrer a nossa história recente para vermos inúmeros exemplos de como guinadas muito grandes para uma das duas pontas costumam terminar em tragédias econômicas, principalmente em se considerando um mundo cada vez mais globalizado, onde o mercado de peixes se estende por todos os continentes.

Talvez não tenha sido por uma razão puramente econômica que os modelos comunistas, baseados em alta regulação estatal, tenham desmoronado junto com o Muro de Berlim, mas o fato é que não deram muito certo. Por outro lado, nós estamos atualmente vivendo uma das maiores crises econômicas da história, e ela se originou precisamente pela falta de regulação do mercado imobiliário americano. Ou seja, não é preciso ser especialista em economia global ou análise política para compreender o óbvio: nós precisamos das duas coisas, a regulação estatal e o livre mercado, funcionando em harmonia.

Por que diabos então as pessoas ainda brigam tanto por conta disso? É a pergunta que necessariamente surge desta pequena reflexão.

Eu confesso a vocês que, se tal pergunta fosse simples de ser respondida, o mundo seria outro – no mínimo, as pessoas iriam economizar bastante tempo em debates nas redes sociais.

Mas, eu proponho responder a tal indagação com uma outra, que talvez nos ajude a chegar mais próximo de um entendimento mais abrangente da questão: Imaginem se todas as pessoas fossem de esquerda ou de direita, e concordassem em absolutamente tudo no que hoje teimam em discordar?

Nós tivemos muitos períodos históricos em que o debate político teve, oficialmente, somente um lado. No entanto, nos países e regiões do planeta que passaram por tais períodos, tivemos os governantes mais sangrentos, e os regimes mais totalitários, seja num extremo, seja noutro.

Aqui neste blog vocês devem ter percebido que eu tento evitar, na medida do possível, falar de Política. Assim, não foi da noite para o dia que eu decidi voltar ao tema. A realidade é que nosso mundo passa por mais um período raro da história humana: aqueles períodos em que os sistemas antigos já faliram, são como zumbis se arrastando pela estrada, mas os novos sistemas ainda não tiveram tempo de nascer.

Eduardo Galeano vislumbrou tal gestação numa praça espanhola durante uma manifestação popular, e chegou a sábia conclusão de que “este mundo de merda está grávido de um outro, e são os jovens que nos levam adiante”... Assim, eu não tenho grandes pretensões de ver tal nascimento nos anos ou nas décadas seguintes, mas penso que talvez alguém que esteja lendo isso possa um dia viver lá.

Esta minha singela nova série de reflexões políticas não procurará tratar de nada senão deste parto de um novo mundo. A única coisa que peço aos que por ventura se interessarem em prosseguir é que compreendam que a Política não se faz pelo extermínio da esquerda ou da direita, mas pelo consenso e a harmonia possível entre elas.

A Política existe para que os debates e as leis transcorram e sejam elaboradas em mesas de representantes do povo, e não em palácios e gabinetes habitados por homens cheios de dogmas e ideologias compradas.

Não é fácil lidar com as ideias contrárias, mas seria pior se elas não pudessem sequer serem manifestadas. Se não podemos concordar em tudo, que nossa discordância seja construtiva, que as pedras se choquem para produzir faíscas de novas ideias, e não somente para arrancar lascas umas das outras.

Sigamos adiante.


» A seguir, mais um eixo é adicionado ao nosso espectro político.

***

Crédito da foto: Mike Gates

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23.2.17

Sócrates e a discordância construtiva

Texto por José Francisco Botelho em A Odisseia da Filosofia (Ed. Abril). Os comentários ao final são meus.

Dialética é uma dessas palavras escutadas com frequência, mas cujo sentido geralmente fica embotado pela fora do hábito e o peso do jargão. Na Antiguidade, contudo, ela tinha um significado claro: era a utilização do diálogo como ferramenta filosófica.

Para entender de que forma Sócrates transformou a história da dialética, vamos fazer uma recapitulação rápida – pois o sentido das coisas fica mais claro quando elas são comparadas com o que veio antes e depois. No início do século 5 a.C., Zenão de Eleia criou a dialética erística: um tipo de discurso em que o filósofo antecipa os contra-argumentos de seus adversários e utiliza-os para defender sua própria tese. No caso de Zenão, o debate era apenas imaginário: a palavra final ficava sempre com o autor da obra.

Depois, veio o diálogo sofístico, que era praticado face a face, entre dois interlocutores reais. Os sofistas não estavam interessados em descobrir grandes verdades; utilizavam o diálogo como ferramenta retórica, para vencer debates e influenciar a opinião do público. Aí entra o toque particular de Sócrates: para ele, o diálogo era um método de buscar a verdade por meio de perguntas e respostas. Ao contrário dos sofistas, ele partia do princípio de que a mente humana pode, sim, captar a realidade final das coisas – desde que assuma a sua ignorância de antemão.

Para os sofistas, o mais importante na filosofia era o uso persuasivo da linguagem – a verdade seria apenas uma questão de perspectiva e o que realmente importava era a habilidade em defender qualquer ponto de vista. Já Sócrates acreditava que a linguagem era uma ferramenta, e não um fim em si mesma. E, enquanto Zenão de Eleia usava a dialética com o objetivo de defender um ponto de vista decidido de antemão, os diálogos socráticos têm final aberto. Sócrates alimentava a dúvida, para que a verdade não fosse sufocada pelo peso das ideias falsas.

A teoria está explicada; mas, na prática, como funcionava o diálogo socrático? Sócrates geralmente começava lançando perguntas aparentemente simples sobre assuntos supostamente básicos: O que é o amor? O que é virtude? O que é educação? Em seguida, analisava cada resposta de forma implacável, questionando cada palavra e cada conceito usado por seus interlocutores – mas (e isso é muito importante) o questionamento socrático era sempre feito em tom amigável, sem arrogância, em uma tentativa de construir o conhecimento de forma partilhada, coletiva.

Existe no método socrático uma provocação atualíssima, que parece feita sob medida para o nosso século, cheio de som, fúria e desrazão. A arte do diálogo, conforme praticada por Sócrates nas tardes e noites de Atenas, era ao mesmo tempo implacável e civil. Implacável porque colocava em cheque todas as certezas herdadas, sem pruridos. Civil porque, se demolia ideias humanas, fazia-o em nome da humanidade, com o intuito de tornar possível uma sabedoria sem pés de barro.

A dialética de Sócrates não servia para defender posições arraigadas; lançava-se, cortesmente, contra todas elas. Partia do princípio de que a verdade absoluta não é monopólio de nenhum dos interlocutores; mas, contrapondo-se as aparentes verdades individuais, podia-se abrir caminho para uma visão mais clara e sólida das coisas. Em outras palavras: para Sócrates, a discordância não era uma força negativa, mas construtiva. Dois mil e quatrocentos anos se passaram e ainda estamos por assimilar essa lição.

Aqueles que ousassem embarcar na afável demolição socrática acabavam com uma impressão inquietante, mas potencialmente salutar: a de que todas as suas certezas eram relativas e, portanto, precisavam ser revistas. O objetivo de Sócrates era, exatamente, lançar o interlocutor em uma espécie de vazio – mas um vazio onde novas reflexões poderiam surgir, desimpedidas, em livre fluxo. “O alvo do método socrático”, escreve Richard Robinson em Plato’s Earlier Dialectic, “é arrancar os homens de sua sonolência dogmática e despertá-los para a verdadeira curiosidade intelectual”.

Como exemplo, vamos dar uma olhada no diálogo Laques, de Platão [ou seja, uma conversa entre Laques e Sócrates]:

“Laques, você acha que a coragem é algo bom ou reprovável?”

“Algo bom, certamente.”

“E quanto à tolice? É também uma coisa boa?”

“De forma alguma, Sócrates. A tolice é reprovável.”

“Imaginemos agora dois homens. Um sabe mergulhar, o outro nunca entrou na água. Ambos são desafiados a fazer um mergulho até o fundo do mar. Ambos aceitam o desafio, com grande perseverança de espírito. Qual dos dois é o mais corajoso?”

“O que não sabe mergulhar, é claro.”

“Contudo, qual dos dois é o mais tolo? O que tem o devido conhecimento técnico das artes do mergulho, ou o que se enfia na água sem mal saber nadar?”

“O mais tolo, nesse caso, é o mergulhador inexperiente.”

“Você havia me dito que a coragem é algo bom, enquanto a tolice é reprovável. Mas agora chegamos à conclusão de que, nesse caso, o mais corajoso não é o mais perseverante, e sim o mais tolo.”

“É fato, Sócrates.”

“Você continua achando que sua definição está correta?”

“De forma alguma. Eu estava errado. Que coisa estranha, Sócrates! Parece que não consigo expressar em palavras o que parecia claro em meu pensamento; sinto que sei o que é a coragem, mas, se tento defini-la, ela me passa a perna e foge de mim.”

“Ora, meu caro Laques, sejamos então como o bom caçador, que jamais desiste de perseguir sua presa. Tenhamos perseverança de espírito. Avante!”

Nesse lapidar diálogo socrático, o filósofo não estava sugerindo que a coragem fosse algo inútil ou estúpido – afinal de contas, ele próprio dera mostras exemplares de bravura no campo de batalha [Sócrates foi soldado ateniense em sua juventude]. O que Sócrates demonstrou é que, na maior parte das vezes, não sabemos direito sobre o que estamos falando – mesmo quando falamos de assuntos aparentemente elementares.

E assim, de interlocutor em interlocutor, Sócrates ia demolindo certezas: tornou-se, em suas próprias palavras, um “vagabundo loquaz”, andando por Atenas a fazer perguntas e mais perguntas a quem se dispusesse a respondê-las. Sua amistosa impertinência conquistou muitos seguidores entre os jovens atenienses. Além de Platão, o encantamento socrático também seduziu Alcibíades, seu companheiro de batalhas.

No Banquete, o jovem guerreiro descreve desta forma o efeito de Sócrates sobre a mente dos ouvintes entusiastas: “Quando escuramos Sócrates, pensamos inicialmente que seus discursos são ridículos: pois, no exterior, estão cobertos por frases e palavras absurdas. Mas, quando olhamos mais a fundo, descobrimos que as palavras de Sócrates são as únicas que realmente fazem sentido”.


Comentários
Pode parecer simples resumir as três vertentes da dialética, e ainda explicar a essência do diálogo socrático em poucos parágrafos. Mas passa longe de ser: outros que se meteram a tentar explicar a vasta história da filosofia ocidental precisaram de muito mais palavras. José Francisco Botelho, escritor e tradutor do sul do Brasil, é um mestre em passar esse tipo de conhecimento filosófico adiante. Eu o conheci inicialmente lendo seus memoráveis artigos para a revista Vida Simples. Depois o encontrei também como colunista da Veja. Mas foi neste livro, encontrado ao acaso numa banca de jornal, que pude compreender toda a extensão da sua habilidade para resumir conceitos grandiosos em parágrafos muito fáceis de serem lidos.

Outros autores precisaram de muitas centenas de páginas para explicar de forma aprofundada a história da filosofia no Ocidente. José precisou de menos de 300. Mas todo o seu cuidado em usar tais páginas da melhor forma possível é claro e evidente ao longo da obra. Se você quer conhecer mais sobre a filosofia, não existe introdução melhor e mais eficiente do que A Odisseia da Filosofia, que ainda pode estar dando bobeira numa banca ou livraria a poucos metros da sua casa. Não perca essa oportunidade!

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Crédito da imagem: Louis J.Lebrun (Socrates speaks)

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22.2.17

Lançamento: A Metafísica do Amor e outras reflexões

As Edições Textos para Reflexão têm o prazer de anunciar esta edição de trechos selecionados da obra de um dos maiores filósofos do Ocidente, Arthur Schopenhauer.

Schopenhauer encontrou nas tradições do hinduísmo, do budismo, e até mesmo do misticismo cristão, o caminho possível para vencer Maya, representação ilusória e impermanente do mundo, e nos voltarmos para a Eternidade, um pensamento de cada vez. É isto que pode ser desvendado em A Metafísica do Amor e outras reflexões. Você já pode começar a ler em poucos minutos, pelo preço de um café:

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***

À seguir, trazemos o prefácio da edição, por Rafael Arrais:

“O mundo é a minha representação. – Esta preposição é uma verdade para todo ser vivo e pensante, embora só no homem chegue a se transformar em conhecimento abstrato e refletido. A partir do momento em que é capaz de o levar a tal estado, pode se dizer que nele nasceu o espírito filosófico.
Possui então a inteira certeza de não conhecer nem um sol nem uma terra, mas tão somente olhos que contemplam este sol, mãos que acariciam esta terra; numa palavra, ele sabe que o mundo que o cerca existe apenas como representação, na sua relação com um ser que o perceber, que é o homem ele mesmo.
[...] Nenhuma verdade é portanto mais certa, mais absoluta, mais evidente do que esta: tudo o que existe, existe para o pensamento, isto é, o universo inteiro é tão somente um objeto em relação a um sujeito, apenas percepção, em relação a um espírito que o percebe. Ou seja, é pura representação.
Esta lei naturalmente se aplica a todo o presente, a todo o passado e a todo o futuro, tanto àquilo que está longe como ao que está próximo de nós, visto que ela também é verdadeira para o próprio tempo e o próprio espaço, graças aos quais as representações particulares se distanciam umas das outras.
Tudo o que o mundo encerra ou pode encerrar depende necessariamente do sujeito que o percebe, e existe exclusivamente para tal. Assim, o mundo é representação.”

Apesar de haver muitas vezes dialogado com o velho Platão e com o seu conterrâneo e predecessor na linhagem dos grandes filósofos alemães, Immanuel Kant, foi na sabedoria oriental que Arthur Schopenhauer encontrou sua fonte eterna – mais precisamente nos Vedas hindus, e no Bhagavad Gita, o ápice de toda a sua filosofia.
Não é o que a Academia gosta de lembrar, mas toda a obra de Schopenhauer, a começar pela sua obra-prima, O mundo como vontade e representação (do qual tiramos o trecho inicial deste prefácio), é nada mais do que um comentário dos Vedas, e em diversas passagens o autor não lhes economiza elogios.
Se o mundo é nossa representação, o mundo nada mais é do que Maya – a ilusão, a transitoriedade e a impermanência são, portanto, suas características primordiais. Neste mundo cheio de desejos que de fato nunca serão totalmente satisfeitos, tudo o que podemos experimentar é a dor e a angústia de uma grande insatisfação, um vazio no peito, uma sensação estranha de que nada tem realmente um sentido de ser. Foi por conclusões assim que Schopenhauer foi chamado de “o filósofo do pessimismo”.
No entanto, há também a Vontade, a “coisa em si”, a essência da realidade, a ânsia da vida por si mesma (como chamaria mais tarde o poeta Khalil Gibran). Perto dela, somos como marionetes, a cumprir o seu maior e mais grandioso objetivo: perpetuar a vida!
Para o pensador alemão, tudo o que fazemos em Maya é executar a vontade da própria vida de se reproduzir, e reproduzir, e reproduzir, infatigavelmente... No fundo, somos todos como espelhos apontados para uma só Vontade, comandados pelo instinto, e por conta de nossa razão e intuição empoeiradas, incapazes de observar e refletir a sua luz sagrada.
Schopenhauer encontrou nas tradições do hinduísmo, do budismo, e até mesmo do misticismo cristão, o caminho possível para vencer esta representação ilusória e impermanente, e nos voltarmos para a Eternidade, um pensamento de cada vez.
A grande questão é que, apesar de seus extraordinários esforços, o filósofo ainda foi limitado pelas palavras, pela linguagem, pela racionalidade tão comum no Ocidente. Assim, talvez tenham sido poucos os que chegaram a compreender que o seu pessimismo era antes um chamamento, um incentivo a que nós mesmos nos arriscássemos também a abandonar Maya, rumo ao Nirvana, rumo a Vontade, rumo ao que em realidade existe, sempre existiu e sempre há de existir.
Mas isso ainda seria filosofia? Não sei bem. Fato é que Schopenhauer tampouco esteve preocupado com tais classificações. No fim das contas tudo pode ser resumido em algumas poucas reflexões:

O mundo é a minha representação, mas é possível transcender esta representação? E, em sendo, é possível descrever tal transcendência com palavras? Em suma, é possível relatar a face da Eternidade?

Talvez tais perguntas só possam mesmo ser respondidas pelo ser que se aventura neste caminho. E se forem de fato respondidas, temo que só mesmo ele, o caminhante, consiga compreender as respostas.
Então não custa nada tentarmos seguir neste caminho também. Talvez esta leitura, de trechos selecionados das grandes obras de Schopenhauer, O mundo como vontade e representação e Parerga e Paralipomena, seja já um vigoroso primeiro passo, ou quem sabe mais um proveitoso material de consulta para os aventureiros.

Boa viagem!

O editor.


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14.2.17

Aleluia

Kayleigh Rogers é uma garota tímida que compõe o time de 200 estudantes da Killard House School, em Donaghadee, no Reino Unido. Ela tem um tipo de autismo moderado e transtorno do déficit de atenção com hiperatividade, mas sua professora de música, Lloyd Scates, notou que "quando ela canta, ela simplesmente se abre" e encorajou a garota a cantar e ganhar confiança através do treinamento vocal.

Neste ensaio gravado que se tornou viral na Europa e eventualmente em todo o mundo, Kayleigh interpreta de forma magistral e até mesmo assustadora (ela parece "tomada" pela canção) a belíssima música de Leonard Cohen, Hallelujah:

O interessante é que a letra original de Cohen fala mais sobre os infortúnios da paixão do que propriamente sobre uma temática puramente cristã (há até mesmo um trecho que diz, "Bem, talvez haja um Deus lá em cima"). Cohen foi budista e chegou a viver por cerca de 5 anos num mosteiro próximo a Los Angeles, chegando a ser ordenado monge.

Já a versão tocada acima, conhecida como Christimas version (versão de Natal) foi escrita pela banda americana Cloverton, e é totalmente focada na história do nascimento de Jesus em Belém.

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Crédito da imagem: Killard House School/Divulgação

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9.2.17

O templo dentro de mim

O texto abaixo foi retirado de uma de minhas respostas dentro de um debate entre pensadores e espiritualistas.

Esta questão do universalismo espiritual é interessante.

Muitos grandes estudiosos de mitologia do século passado, e mais especificamente Joseph Campbell, acabaram por estudar inúmeros mitos nas mais diversas regiões e culturas do globo, assim chegando aqueles "pontos em comum" entre as mitologias (como os mitos de Origem ou do Dilúvio), o que o Campbell depois chamou de Monomito. No entanto, estudar mitologia é uma coisa, se iniciar nas ordens e religiões é outra muito diferente, até mesmo porque a maior parte delas requer uma dedicação exclusiva, do contrário você acaba ficando só na superfície.

Eu mesmo me considero um turista de egrégoras e doutrinas religiosas. Já fui médium em casa espírita, já dancei com ciganos incorporados e gurus indianos, já cantei mantras com uma mestra em ascensão, já "meio que me iniciei" no sufismo, já fui em alguns simpósios de hermetismo, já fiz a Contagem do Ômer (meditação da cabala judaica) etc. A maior parte disso transparece num canto ou noutro do meu blog, mas nem contar tudo eu contei.

Apesar de fazer amigos em muitas estradas, eu sei bem que não posso seguir profundamente em nenhuma delas, pois teria necessariamente de abandonar parte dos meus passeios pelas demais. Assim, eu visito algumas estalagens em diversas estradas que rumam para os grandes templos, mas não chego em templo algum.

É por isso que tive de criar o meu próprio templo. Não a toa o símbolo do meu blog é um torii japonês. Os toriis, no xintoísmo, são portais que demarcam a entrada ou a proximidade de um local sagrado. Ora, ocorre que eles estão espalhados pelo Japão todo, pois no xintoísmo se acredita que tudo o que é vivo é animado e habitado por espíritos, e para eles toda a Natureza é viva. Assim, o meu templo também é tudo o que está a minha volta, acima e abaixo, a esquerda e a direita, a frente e atrás. Esta foi a maneira com que consegui chegar a um templo: o carregando dentro de mim.

Por isso que digo, "minha religião é meu pensamento", pois se religião é religação a Deus ou ao Cosmos, e se pensamento é a forma com que a mente se aventura pelos caminhos e estalagens e templos, então é com esta carruagem, este veículo, que eu poderei um dia chegar lá.

E, se o fato de parar em tantas estalagens pelo caminho por ventura me atrasar um bocado, eu sinceramente não ligo. Pois ainda que eu chegasse lá antes dos demais, em todo caso eu teria de voltar para convidar os que ainda se arrastam pela estrada.

Em todo caso, no Céu continuaremos trabalhando.

***

Crédito da imagem: Joel "Boy Wonder" Robinson

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2.2.17

As despedidas

As despedidas são momentos da vida com os quais ainda não aprendi a lidar. É que, mesmo quando partimos rumo a um destino aspirado, as despedidas põem a nu, com a clareza do sol e a crueza da verdade mais verdadeira, o insuperável paradoxo da vivência humana; ela tem, lado a lado, como irmãos siameses, a coluna dos ganhos e a coluna das perdas.

A cada nova etapa da vida, deixamos de ser o que fomos e o que somos, deixamos para traz um pouco de nós mesmos. Por isso é que se diz: quando nos despedimos, despedimo-nos também um pouco de nós mesmos.

Para mim essa ocasião tem necessariamente qualquer coisa de mãos acenando; qualquer coisa de palavra reprimida, que se converte em lágrima furtiva; qualquer coisa úmida no olhar. É nela que eu experimento uma verdade ingênua, mas incrivelmente feliz:

Não é a primeira vez que me digo adeus, ergo o braço e aceno para quem parte e quem parte sou eu. Sou eu quem tem os olhos umedecidos no porto e, ao mesmo tempo, sou eu quem tem os olhos umedecidos na nave.

Perdoe-me a humilde vaidade, eu sei que eu sei ser assim, como os poetas me acenando adeus, e parto comigo mesmo acenando-lhes adeus.

Meu irmão, é verdade, se você deixa de ser juiz ou se deixa de ser qualquer coisa, você não deixa os juízes nem deixa os companheiros, você se deixa a si mesmo em algum baú assombrado, tal como se deixou o menino no baú da infância, tal como se deixou o moço no baú do amor, tal como se deixou o homem no baú do trabalho.

Nós, os homens, somos diversos, múltiplos, porque somos sobretudo semeadores de fantasmas. Agora que somos maduros, compreendemos: viver não é fazer outra coisa senão deixar nossas assombrações pelas esquinas do tempo. Ser maduro é ser um monte de fantasmas conservados à naftalina no baú dos nossos guardados mais queridos.

Eu sou quem está guardando o juiz que fui, no meu baú. O juiz é meu penúltimo fantasma, tenho certeza disso, o juiz é minha penúltima aventura exaurida. O juiz que estou guardando, entre as naftalinas do meu baú de guardados, esse juiz é meu penúltimo cântaro vertido.

Mas quero lhes deixar bem claro: não há tristeza na minha despedida; há apenas emoção, que me toca profundamente. Passam-se, na memória, vivências felizes que aqui tive com colegas eminentes, confraternais companheiros, com servidores dedicados e leais – a quem não canso de reiterar profundos agradecimentos.

Como se percebe, meus caros, são muitos os fantasmas que estou guardando no baú do peito e do tempo. Sei que nesta minha passagem também cometi erros, nem poderia ser diferente, mas tenho a consciência tranquilizada, porque sei também que trabalhei para não errar.

Aqui, fiz muitos amigos e penso que não fiz inimigos. Se existe algum, não o conheço; dele nunca tive notícia.

Posso, portanto, afirmar com toda a segurança: a assombração que fica, o fantasma que deixo nesta Casa não é assustador, nem triste, nem sombrio. Não tenho receio, ele quer ser apenas, para sempre, um "fantasminha camarada".

E, agora, é seguir caminho, porque, como diz a canção pantaneira de Almir Sater, “cumprir a vida é compreender a marcha e ir tocando em frente. Cada um de nós compõe a sua história. Cada ser carrega em si o dom de ser capaz de ser feliz”.

O olhar para trás me deixa emocionado, porque o que vejo e o que levarei na lembrança são somente coisas boas. E o olhar que lanço para frente está cheio de esperança; por isso é que estimo, ao me despedir e partir, que, na contabilidade futura, contra os percalços da vida, não há de me faltar um superávit de ventura no balanço dos dias.

Muito obrigado!


Acerca da autoria
Este texto não é meu. Ao contrário dos demais textos selecionados de outros autores que trouxe aqui para o blog, resolvi falar da autoria ao final, e não logo de início. Isto porque, se dissesse lá no alto que se trata de um texto do saudoso ministro do STF, Teori Zavascki, ele certamente seria lido de outra forma. Mas, de fato, apesar de contar com algumas citações ao poeta José Paulo Bisol, se trata de trechos selecionados de um discurso de Teori, proclamado quando este foi chamado para o STF, no final de 2012. Era uma despedida, portanto, direcionada aos seus colegas do STJ, onde foi ministro desde 2003 até a data.

Como sabemos, Teori faleceu recentemente num trágico acidente de avião em Paraty. Nos deixou não somente a relatoria inicial, e extremamente corajosa, da Lava Jato (o maior caso de corrupção de nossa história), como muitos amigos por onde passou. Este texto nos dá uma dimensão do motivo por ter sido tão querido, talvez na mesma medida em que foi tão discreto.

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Crédito da foto: Google Image Search

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1.2.17

Jorge Pontual recita Walt Whitman

Jorge Pontual é um dos jornalistas mais bacanas do mundo. Além de ser especialista em relações internacionais, ciências sociais, divulgação científica e bactérias, também parece ter sido o principal responsável por trazer ao programa GloboNews em Pauta um quadro semanal onde, vejam só, traduz e recita poemas de grandes poetas da história.

Desta vez ele nos presenteou com um belo poema de Walt Whitman, poeta americano:

(clique na imagem para abrir o vídeo no site da GloboNews)

***

[Nós dois por tanto tempo fomos enganados]

Nós dois por tanto tempo fomos enganados
Agora transmutados, escapamos depressa como a natureza escapa
Somos a natureza

Estivemos ausentes, agora voltamos
Viramos plantas, folhas, folhagem, raízes, casca
Mergulhados no chão, somos rochas
Somos carvalhos, crescemos lado a lado
Pastamos, somos dois, nos rebanhos selvagens
Espontâneos como qualquer um

Somos peixes, nadando no mar juntos
Somos cachos de flores, derramamos perfumes
Nos caminhos, manhã e tarde

Somos a sujeita nas bestas, nos vegetais, nos minerais
Somos dois falcões predadores
Voamos alto, olhando para baixo

Somos dois sóis resplandecentes
Nos equilibramos, orbitais estelares
Somos dois cometas

Caçamos com garra e quatro patas na mata
Damos bote na presa
Somos duas nuvens, manhã e tarde
Pairando alto

Somos mares se encontrando
Somos duas ondas alegres, rolando uma na outra
Molhando um ao outro

Somos a atmosfera, transparente, receptiva
Penetrável, e impenetrável
Somos neve, chuva, frio, escuridão

Somos cada um produto e fluência do planeta
Circulamos e circulamos
E chegamos em casa de novo
Nós dois
Esvaziamos tudo
Menos a liberdade
Menos o nosso gozo


Walt Whitman (tradução de Jorge Pontual)


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