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28.3.17

O sentido da vida, do universo e tudo mais

Era uma vez uma civilização intergaláctica avançada que construiu um supercomputador chamado Pensador Profundo e lhe fez a pergunta que julgaram ser a mais importante e vital de todas, “Qual o sentido da vida, do universo e tudo o mais?”.

Assim, após milênios de cálculos avançados, o Pensador Profundo finalmente chegou a uma resposta, e ela era “42”.

Esta passagem altamente metafísica é talvez o trecho mais famoso da série O Guia do Mochileiro das Galáxias, do britânico Douglas Adams, que se iniciou como um programa de radio muito bem humorado em 1978, e eventualmente se tornou a “trilogia de cinco livros” mais aclamada entre os nerds deste planeta.

O bom humor, aliás, se mantém até hoje, mesmo após a morte do autor, em 2001. Afinal, não poderíamos esperar uma resposta muito profunda para alguém que já escreveu que “no início, o universo foi criado. Isso irritou profundamente muitas pessoas e, no geral, foi encarado como uma péssima ideia” (mais um trecho da série), ou poderíamos?

O próprio Adams já tentou resolver a questão uma vez, e explicou que “a resposta é muito simples: foi uma brincadeira. Tinha que ser um número, um ordinário, pequeno, e eu escolhi esse. Representações binárias, base 13, macacos tibetanos são totalmente sem sentido. Eu sentei à minha mesa, olhei para o jardim e pensei ‘42 vai funcionar’ e escrevi. Fim da história”. Mas obviamente não foi o suficiente para aplainar a angústia dos fãs: e se ele estava querendo desconversar? E se de fato a resposta para o sentido de tudo o que há seja mesmo “42”, o que diabos isso realmente significa?

Numa “jornada mística” pelas profundezas da cultura nerd e geral, muitos leitores de Adams tentaram encontrar pistas para a resposta. Alguns encontraram associações surpreendentes, por exemplo: há um total de 42 ilustrações no original de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll; há um total de 42 Km no percurso de uma maratona; um Big Mac nos EUA já chegou a conter 42% da ingestão diária de sódio recomendada no país; o número do apartamento de Fox Mulder na série de TV Arquivo X era 42; na página 42 da versão inglesa de Harry Potter e a Pedra Filosofal, Harry descobre que é um mago; e por aí vai [1]...

Mas talvez tenham sido os programadores, esta casta da elite de sapiência entre todos os nerds, quem finalmente desvendaram o mistério oculto no “42”: de acordo com eles, 42 é o código ASCII para o asterisco (*), e o asterisco, na programação, significa “qualquer coisa”. Assim, segundo essa teoria, 42 seria mais que um número aleatório, e sim o código para algo como “a resposta para o sentido de tudo é: qualquer coisa que você quiser”.

Ainda que tudo isso ainda seja obviamente uma grande brincadeira, fato é que, mesmo que de certa forma “driblando” a pergunta com um intrincado e refinadíssimo humor inglês, Adams acabou nos trazendo este imensamente profundo ensinamento (ainda que sem querer): de fato, o sentido da vida, do universo e tudo mais é aquilo que quisermos, é aquilo o que fazemos da vida com o tempo que nos é dado viver. E isso casa perfeitamente não somente com os livros de Adams ou o pensamento de Gandalf o Cinzento, mas também com doutrinas espiritualistas muito mais antigas, principalmente as do Oriente.

Há muitos de nós, espiritualistas, que associam o sentido da vida a existência de uma força maior, uma divindade, quem sabe aquele ou aquilo que criou tudo o mais, e que seria também a sua explicação final. O que faríamos de nossas vidas, neste sentido, necessariamente estaria em conexão com tal essência. Quem sabe Joseph Campbell, eminente estudioso de mitologia do século passado, e que influenciou diretamente outro cânone nerd, Star Wars, possa explicar melhor o que estou tentando dizer:

Queremos pensar em Deus. Deus é um pensamento. Deus é uma ideia. Mas a sua referência é algo que transcende o pensamento. Ele existe além da existência... Além da categoria de ser ou não ser. Ele existe ou não? Nem existe, nem não existe. Qualquer deus, qualquer mitologia ou qualquer religião são verdadeiros nesse sentido... Assim como uma metáfora do mistério humano e cósmico.

Quem pensa que sabe, não sabe. Quem sabe que não sabe, este sim, sabe. Há uma velha história que ainda é válida. A história da busca. Da busca espiritual... Que serve para encontrar aquela coisa interior que você basicamente é. Todos os símbolos da mitologia se referem a você. Você renasceu? Você morreu para a sua natureza animal e voltou à vida como uma encarnação humana?

Na sua mais profunda identidade, você é Deus. Você é um com o ser transcendental [2].

Mas Adams, é claro, não acreditava em Deus. Não somente não acreditava, como inspirou muitos ateístas com suas obras. Por exemplo, em Deus, um Delírio, o biólogo e ateísta militante Richard Dawkins faz uma carinhosa dedicatória ao seu amigo, citando um trecho dos seus escritos que diz: “Não é suficiente ver que o jardim é belo sem ter que acreditar que há fadas morando nele também?”.

Apesar de ter sido bem menos militante no seu ateísmo do que Dawkins, o Deus que Adams desacreditava com seu bom humor incomparável era, obviamente, um Deus “comparável às fadas”: uma espécie de metáfora tirada da mitologia, onde o Criador poderia muito bem ser um ancião muito velho, de barda muito muito branca, sentado num trono no alto do Céu e com poderes de X-Men. Este não é, obviamente, o mesmo Deus de que Campbell fala logo ali em cima...

Há muitos mistérios ainda insondáveis na ciência e no conhecimento humanos. Do alto de todo o seu entusiasmo pela tecnologia, Adams foi profundamente sábio e humilde ao trazer uma não-resposta para a pergunta que foi feita ao Pensador Profundo. Na sequência da história, os seres que lhe fizeram a questão compreendem que o problema não estava na resposta, e sim na pergunta: o dia em que soubermos a pergunta definitiva para a vida, o universo e tudo o mais, talvez a resposta sequer seja necessária. Afinal, foi através das perguntas, e não exatamente das respostas, que alargamos nosso conhecimento do Cosmos até nosso estágio atual.

No entanto, faz alguns séculos que as nossas perguntas, particularmente as científicas, têm talvez se demorado muito com o que acontece lá fora. Talvez seja tempo de começarmos a nos aventurar com nossa toalha não pelas galáxias externas, não pelos bilhões e bilhões de mundos deste universo lá fora, mas pela inefável fantasia de nosso próprio interior.

E então, quem sabe, poderemos fazer esta pergunta que, se não é a última, poderá muito bem ser a primeira: Quem sou eu? Quem somos nós, de verdade?


O universo, como já foi dito anteriormente, é um lugar desconcertantemente grande, um fato que, para continuar levando uma vida tranquila, a maioria das pessoas tende a ignorar. (Douglas Adams)

***

[1] Veja mais associações incríveis neste artigo do The Independent (em inglês).

[2] Trecho de O Poder do Mito, de Joseph Campbell (livro e série de vídeos homônima).

Crédito da imagem: Google Image Search (Douglas Adams)

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18.3.17

Ante tamanha beleza

E antes de tudo o mais
olhou ao redor,
e não tendo visto
nada além de si,
proclamou: "Eu sou";
e este foi o primeiro nome.

No princípio não era o verbo,
era o inefável, o inominável,
o infinito que o antecede,
a eternidade,
o que é, foi e será:
"Eu sou"

Depois, vieram muitos outros nomes,
e deuses e titãs
e anjos e demônios
e homens e animais...
mas, até este dia, e todos os dias,
não há noite em que não se lembrem
daquele que antes de tudo os imaginou
(isto ocorre pouco antes de fecharem os olhos);
e então tudo é sonho,
tudo bruma e escuridão.

Até que surge a manhã seguinte,
e quando eles despertam
e olham ao redor,
ante tamanha beleza,
todos brevemente se esquecem
da angústia da separação;
e então tudo ainda é sonho,
tudo luz difusa sob um véu
de ilusão.

Sim, é justamente assim que tem sido,
e será para sempre!

Eu gostaria de poder explicar melhor,
mas tudo isso por aqui, todas as palavras,
ainda que impressas em sangue,
são tão somente as cascas que restaram
dos frutos que só podem ser colhidos
das árvores proibidas...
para saber mais é preciso queimar,
é preciso arder sob o véu,
é preciso morrer para si,
e renascer
na imensidão.


raph'17

***

» Parte da série "Mito da criação"

Crédito da imagem: Katerina Plotnikova

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10.3.17

As filósofas

É estranho como o termo “filósofa” é tão pouco visto por aí. No entanto, se as grandes pensadoras da história humana pouco são mencionas ou lembradas pelos historiadores da filosofia, isto não significa que elas não existiram, significa apenas que aqueles que escreveram a história as ignoravam, ou não acreditavam que tenham sido “filósofas de verdade”.

No entanto, o próprio termo “filosofia” (amor [philos] ao saber [sophia]) surgiu da doutrina de uma filósofa, e assim é bem provável que tenhamos tido a primeira filósofa antes do primeiro filósofo.

Temistocleia foi uma eminente sacerdotisa do templo de Apolo em Delfos no século 6 a.C. (portanto cerca de dois séculos antes da famosa questão feita a outra pitonisa, que daria o pontapé inicial ao caminho de Sócrates na filosofia). Em sua época, Delfos era “o umbigo do mundo” não somente por conta do mito [1], mas porque se tratava de uma das principais cidades da Antiguidade e, ao centro dela, o oráculo mais importante era justamente aquele onde Temistocleia “batia ponto”.

E isto é quase tudo o que sabemos sobre ela, além é claro de provavelmente ter sido a mestra de Pitágoras, o “pai da filosofia”. A tradição atribui a ele a criação da palavra. Conforme essa tradição, Pitágoras teria criado o termo para modestamente ressaltar que a sabedoria plena e perfeita seria atributo apenas dos deuses; os homens, no entanto, poderiam venerá-la e amá-la na qualidade de filósofos.

A conexão entre Pitágoras e Temistocleia é feita num trecho da Vida dos Grandes Filósofos, de Diógenes Laércio, um historiador do século III d.C. Lá no livro, Diógenes nos diz que “Pitágoras derivou a maior parte de suas doutrinas éticas a partir dos ensinamentos de Temistocleia, sacerdotisa de Delfos”.

Há historiadores que afirmam que Temistocleia pode ter sido irmã de Pitágoras, mas embora isso seja improvável (Pitágoras era nativo da ilha de Samos, e não do continente), provavelmente torna o papel dela no pensamento pitagórico ainda mais primordial, e não o contrário. É provável que parte disso possa ter a ver com as lendas de que Pitágoras era filho do próprio deus Apolo (e assim, como sacerdotisa do deus, ela seria “sua irmã”), mas é preciso lembrar que na época em que ambos viveram, Temistocleia era incomparavelmente mais famosa e importante do que Pitágoras, pois o cargo de sacerdotisa do grande Oráculo de Delfos lhe conferia uma autoridade religiosa hoje comparável, quem sabe, a um dos cardeais mais eminentes do catolicismo.

Depois, como tantas outras sábias da Antiguidade, foi sendo esquecida, até desaparecer quase que por completo dos registros históricos. Mas, se não temos registro preciso do quanto ela influenciou Pitágoras, ao menos sabemos que “o pai da filosofia” teve por certo algumas discípulas, e não via nenhum problema em ensinar filosofia às mulheres.

Uma delas foi Teano, que segundo alguns relatos pode ter sido casada com seu professor. Num dos fragmentos sobreviventes de suas obras, temos um belo conselho, que foi seguido por suas três filhas, Agnotis, Damo e Mia, todas filósofas como a mãe: “Mais vale ser um cavalo louco em disparada do que uma mulher que não reflete” [2].

Quase um milênio depois, no século IV d.C., nascia em Alexandria uma das mulheres mais sábias da história, da qual felizmente nos restaram muito mais relatos. Era assim que Sinésio de Cirene, um dos seus discípulos mais fieis, que se tornou bispo da igreja cristã em seus primórdios, o “bispo filósofo”, se referia a ela em suas cartas:

A Filósofa,

Eu lhe saúdo, e lhe peço que saúde seus fortunados amigos por mim, majestosa Mestra. Há tempos venho lhe reclamando por não ser digno de uma resposta, mas hoje sei que não sou vítima do seu desprezo por nenhum erro de minha parte, mas porque sou desafortunado em muitas coisas, em tantas quanto um homem pode ser. [...] Eu perdi meus filhos, meus amigos, e a boa vontade de todos. A maior de todas as perdas, no entanto, é a ausência do seu espírito divino.

A “filósofa” em questão era Hipátia de Alexandria, que na época infelizmente não tinha condições de responder seu pupilo, que residia noutra cidade, devido a questões políticas que eventualmente a levariam a ser assassinada [3].

Um historiador de sua época chamado Sócrates Escolástico assim a descreveu na obra Historia ecclesiastica:

Havia uma mulher em Alexandria chamada Hipátia, filha do filósofo Théon, que galgou tantas realizações na literatura e na ciência, que ultrapassou em muito os filósofos de seu tempo. Tendo sido versada nos ensinamentos de Platão e Plotino, ela explicava os princípios da filosofia para os seus ouvintes, muitos dos quais viajavam enormes distância para serem instruídos por ela. Por conta de seu autocontrole e serenidade, frutos do cultivo de sua mente, ela aparecia muitas vezes em público na presença dos magistrados da cidade, e não se sentia envergonhada em participar das assembleias dos homens. Pois todos os homens que tinham notícia de sua extraordinária dignidade e virtude eram seus admiradores.

Apesar de não nos restar nenhuma obra escrita de Hipátia que não seja relacionada à ciência [4], felizmente algumas cartas de Sinésio sobreviveram aos séculos, e nos confirmam em parte o que muitos estudiosos da sua vida intuíram.

Hipátia formou um círculo intelectual composto por discípulos que eram como que “alunos particulares”, alguns deles por muitos anos, outros ainda (como o próprio Sinésio) que a trataram como mestra até o fim da vida. Tais alunos vinham da própria Alexandria, de outras regiões do Egito, da Síria, de Cirene e Constantinopla. Pertenciam a famílias ricas e influentes; com o tempo, vieram a ocupar posições de comando na hierarquia do Estado ou na ordem eclesiástica do cristianismo nascente.

Em torno de sua mestra, esses discípulos formavam uma comunidade cujos fundamentos eram o sistema de pensamento platônico e os laços profundos de amizade. Aos conhecimentos transmitidos pelo “espírito divino” de Hipátia, davam o nome de “mistérios”. Tais conhecimentos, estes sim, eram mantidos inteiramente secretos, e jamais transmitidos a qualquer um que não fosse iniciado nos assuntos divinos e cósmicos.

Ainda que pouco saibamos atualmente sobre o que Hipátia e o seu círculo de discípulos estudavam em segredo, é certo que, entre os seus textos sagrados, contavam-se os Oráculos Caldaicos. Esses textos do hermetismo eram caros tanto ao pai de Hipátia, que os lecionou a própria filha em casa, quanto a Sinésio, que em suas obras demonstra estar plenamente familiarizado com a sua temática. Assim, a exemplo de Temistocleia, Hipátia foi mais uma filósofa com muito mais conexões com a espiritualidade do que pode julgar a “vã filosofia”, ou a filosofia como é entendida por boa parte da Academia em nossa época de grande esquecimento.

E essas são apenas dois exemplos de filósofas históricas que certamente não mereceriam serem ignoradas em quaisquer tratados do pensamento humano. Poderíamos citar tantas outras, como Safo de Lesbos, Aspásia de Mileto, Hildegarda de Bingen, Teresa de Ávila, Rabia Basri, Helena Blavatsky, Simone de Beauvoir etc. [5], mas o objetivo deste singelo artigo foi somente atiçar a sua curiosidade. Agora, o resto é com você... google it!

***

[1] A cidade de Delfos recebeu esta alcunha graças ao mito que narra a busca de Zeus pelo ponto médio da Terra. No intuito de delimitar esse local, Zeus enviou duas águias de extremos opostos do mundo, uma voando em direção à outra. Elas se encontraram em Delfos, designando a cidade como centro do mundo. O ponto de encontro das águias foi demarcado com uma pedra oval, o ônfalo (umbigo, em grego).

[2] Citado em A Odisseia da Filosofia, por José Francisco Botelho (Ed. Abril).

[3] Esta história triste está descrita em nosso artigo Hipátia e Sinésio.

[4] E mesmo essas são, em teoria, somente edições de célebres matemáticos e astrônomos da época. Devido à dificuldade em se atribuir autoria feminina a quaisquer obras da época, fica impossível confirmar o quanto dessas “edições” não se tratavam, na realidade, de “adições”.

[5] Recomendamos a leitura de Filósofas: a presença das mulheres na filosofia, organizado por Juliana Pacheco (Ed. Fi). Pode ser baixado em PDF gratuitamente, aqui. Veja também a lista de mulheres filósofas na Wikipédia e a lista de vídeos sobre as mulheres gnósticas no canal da Sociedade Gnóstica Internacional.

Crédito da imagem: Ágora/Alexandria/Divulgação (apesar de se valer de diversas “licenças poéticas e românticas”, este filme estrelado por Rachel Weisz no papel de Hipátia é, no geral, bem intencionado, e certamente merece ser visto)

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4.3.17

Comunicado: Edições Textos para Reflexão e Kobo

As Edições Textos para Reflexão vêm comunicar que encerrarão, a partir de hoje, a venda de e-books pela Kobo e a Livraria Cultura. Manteremos somente os e-books já em download gratuito do catálogo. Quem por acaso já comprou uma de nossas edições pela Kobo pode ficar tranquilo, o que já foi adquirido permanecerá na conta de quem adquiriu.

O motivo: temos tido dificuldades crescentes em receber os pagamentos dos royalities pela venda dos e-books na Kobo, pois eles operam com ordens de pagamento internacionais. Acaso algum dia eles venham a emitir pagamentos dentro do Brasil, provavelmente voltaremos a trabalhar com eles.

Aproveitamos para informar que nossos e-books à venda para Amazon Kindle e Saraiva Lev permanecem nessas lojas normalmente, e sem alteração de preços.

Veja nosso catálogo completo


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Lançamento: Como alcançar o sucesso e inevitavelmente morrer

As Edições Textos para Reflexão publicam novamente um livro de Igor Teo, colunista do portal Teoria da Conspiração:

"Em Como alcançar o sucesso e inevitavelmente morrer, o autor recupera o antigo estilo libertário de Michel de Montaigne para compor uma obra que nos interroga acerca da busca pela felicidade, passando por temas como amor, amizade, sucesso profissional e até mesmo a morte. Pontuada por relatos pessoais, a discussão é mais do que um questionamento filosófico, é também o relato de um percurso próprio. Numa linguagem descomplicada sem ser simplista, o leitor não será o mesmo depois de atravessar essas páginas."

Um livro digital disponível para download gratuito em pdf, ou em versão impressa, no formato "pocket book":

Baixar grátis (pdf) Baixar grátis (Kindle) Baixar grátis (Kobo) Comprar versão impressa


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3.3.17

Reflexões políticas, parte 3

« continuando da parte 2 | ler do início

O debate exterminado

Uma revolução pode ser compreendida de muitas formas. Em certo sentido a história humana, particularmente no campo político, está sempre em revolução, em mudança constante. Também há as revoluções internas, que se dão na mente e na alma de cada um, e as externas, que envolvem mudanças na sociedade em geral. Para não correr o risco de ser mal interpretado, e também para fazer uma separação mais clara entre revolucionários e progressistas, vou usar o termo revolucionário extremista para me referir aos revolucionários radicais. Explico melhor:

Ora, se dissemos que um progressista se diferencia de um conservador pela maneira como compreende a velocidade ideal pela qual devem se suceder as mudanças políticas, sociais e legais, em nenhum momento entendemos que o progressista deva desconsiderar completamente as ideias do conservador, e vice-versa. Afinal, esta é a essência da Política: ouvir o outro lado, buscar o consenso possível entre as ideias aparentemente opostas, sempre considerando que numa democracia há maiorias e minorias, e todas devem ser escutadas quando se trata do debate público.

Assim, um revolucionário extremista é aquele que já não deseja mais dialogar, ouvir o outro lado. Ele está disposto a impor a sua opinião a qualquer custo. Muitos revolucionários deste tipo costumam pegar em armas e criar guerras civis para tentar tomar o poder pela força. Outros, provavelmente os mais perigosos, tentam se eleger por vias democráticas; mas, uma vez no poder, tratam de tentar “mudar as regras do jogo” para que simplesmente não possam mais, nunca mais, perder uma eleição.

Quando um progressista desiste do debate político e passa a crer que a mudança deve ocorrer pela força, seja das armas, seja de um projeto de poder que visa acabar com a democracia em maior ou menor grau, ele se torna um revolucionário extremista. Ou seja, é aquele que crê que o futuro deve ser imposto a força, pois já não há mais tempo para debate algum no presente.

Em reação a tais ideias é que surgem, justamente, os reacionários, que também são revolucionários, só que a revolução deles visa um retorno ao passado que eles conhecem bem (ou pelo menos creem nisso), e não um salto às cegas para um futuro desconhecido. Os conservadores podem se tornar reacionários justamente quando também desistem do debate no presente, e passam a crer que o retorno a “época dourada” do passado, quando “tudo funcionava bem, e havia menos corrupção e crimes em geral”, deva ser realizado igualmente na base da força – o que geralmente envolve golpes militares.

Fica mais simples resumir tudo com uma ideia (considerando que se trata tão somente de um resumo): é quando passam a defender o totalitarismo, ou seja, o fim do debate político e da democracia, que conservadores se tornam reacionários, e progressistas se tornam revolucionários extremistas.

Muito bem, agora só nos resta falar dos totalitarismos em si. Em geral, não é muito difícil compreender o que é o totalitarismo: é onde o debate foi exterminado, e somente uma única vertente política predomina; da mesma forma, geralmente só há de fato um único partido capaz de vencer eleições (isto é, quando há eleições). É também quando a mídia em geral deixa de criticar o seu governo, e passa e exaltá-lo todos os dias (geralmente sendo muito bem paga para tal). Finalmente, os totalitarismos costumam estar ligados a grandes líderes messiânicos, “salvadores da pátria”, por vezes com características mitológicas.

Quando um totalitarismo já está instaurado, as divisões passam a ser entre os que apoiam os totalitários e aqueles que lutam pela liberdade. É neste momento, e somente nele, que os revolucionários e os reacionários podem ser perdoados por se tornarem radicais: é que a Política já foi assassinada, e a luta deles passa a ser pelo retorno da possibilidade do debate. Mesmo aqui, entretanto, é preciso ter muito cuidado: é ponto passivo entre reacionários e revolucionários extremistas que a democracia ou “não existe de fato” ou está em vias de falência, e eles costumam usar essa percepção como justificativa para o seu próprio desejo de impor pela força as suas próprias ideias. Podemos, quem sabe, julgar assim: se ainda há um Congresso funcionando, por mais corrupto que seja, ainda há representação política, e a democracia ainda vive – mesmo que com a ajuda de aparelhos.

Por convenção de quase todos os comentaristas políticos, o que determina o alinhamento dos totalitarismos em esquerda ou direita já não é mais o aspecto econômico, e é precisamente aqui que o nosso precioso Diagrama de Nolan começa a rachar – mas tudo bem, ele não poderia mesmo resumir toda a complexidade das nossas ideias políticas. Assim sendo, a minha análise abaixo tenta buscar mais o bom senso do que a rigidez geométrica:

Um totalitarismo de esquerda costuma estar mais alinhado, obviamente, aos revolucionários extremistas. Ele geralmente se inicia por revolta popular ou guerra civil, e busca erradicar em boa medida o passado, isto é: o sistema político, legal e social que estava instaurado. É também muito comum, como já dito acima, que um totalitarismo de esquerda surja de um projeto de poder que se elegeu democraticamente, mas que busca acabar com a democracia uma vez no poder. É muito raro ver um totalitarismo de esquerda tomar o poder com a ajuda de algum poder religioso organizado, pois eles geralmente favorecem a tradição antiga. Apesar de estar ligado inicialmente a movimentos populares, o resultado final desse tipo de totalitarismo costuma ser a mera substituição de uma elite por outra.

Por oposição lógica, um totalitarismo de direita costuma estar mais alinhado aos reacionários. Ele geralmente se inicia por um golpe militar, muitas vezes com algum apoio do poder religioso já estabelecido, que prefere conservar a tradição como está, e das elites financeiras e midiáticas, que obviamente preferem manter a sua partilha atual das riquezas. Ele busca se livrar do futuro, e na medida do possível retroagir aos sistemas do passado, particularmente no que tange a legislação mais conservadora. Não é raro vermos um totalitarismo de direita estar alicerçado numa narrativa quase mitológica da história de um país, que é muitas vezes apenas uma invenção (o que às vezes também pode ser chamado de nacionalismo radical).

Muitas vezes vemos discussões acerca de “qual totalitarismo matou mais?”. Nesse sentido, acho proveitoso consultarmos o historiador Leandro Karnal:

Matamos em nome do capital e em oposição ao capital. Matou-se em nome de Deus e matou-se em nome da negativa de Deus. Houve genocídio no Congo pelo capitalista e católico Rei Leopoldo da Bélgica. Houve genocídio na Ucrânia pelo ateu socialista Stalin. Parece que matar é um prazer acima do modelo político ou da opção religiosa. [1]

A moral da história é que, seja de esquerda ou de direita, todo o totalitarismo é igualmente ruim na medida em que cerceia a liberdade, sufoca a democracia e, inevitavelmente, tolhe a possibilidade do florescimento da Política.

Assim acredito que tenhamos percorrido em boa medida o Diagrama de Nolan. Mas, se ele se rachou um pouco em nossa análise dos totalitarismos, em breve ele irá se quebrar por completo, quando falaremos de globalização e globalismo, e de como o que era direita pode ter virado esquerda, e vice-versa.


» Nalgum dia, virá a parte 4.

***

[1] Retirado do artigo O fantasma de Stalin.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Charlie Chaplin em O Grande Ditador); [ao longo] Pawel Kuczynski

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