Pular para conteúdo
9.5.18

Racismo é ignorância (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo falo sobre o único código que não surgiu da mente humana, o mesmo que trouxe a mensagem da Natureza, e ela dizia "que só há uma raça humana". Também veremos como nossos ancestrais migraram da África para todos os demais continentes, e ao final ainda temos uma surpresa especial:

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


Marcadores: , , , , , ,

27.7.17

O campo além das ideias

Caminhando junto ao poente numa das regiões mais inóspitas do planeta, as margens do grande Kalahari, deserto ao sul da África, Pedro se impressiona com os hábitos de seus companheiros (além do guia turístico, é claro): os bushmen, ou povo san, caçadores-coletores que vivem em torno dos poucos poços d’água subterrânea na região há dezenas, quiçá centenas de milhares de anos.

“É interessante como a gente anda neste lugar e é incapaz de observar o que eles observam. Eles veem cada planta, fruta, cada detalhe da paisagem com outro olhar, pois isso tudo faz parte da sua sobrevivência” – conclui Pedro, ou Pedro Andrade, jornalista apresentador do programa Pedro Pelo Mundo, do canal de TV a cabo GNT. Neste episódio ele decidiu retornar a Botswana, antigo protetorado britânico que, após adquirir sua independência em 1966, multiplicou seu PIB per capta em dezenas de vezes e se encaminha para a prosperidade sem ter passado por guerra civil ou períodos ditatoriais, algo extremamente incomum para um país africano.

Mas a grande característica de Botswana é precisamente estar tão isolado do resto do mundo que, por algum milagre, o povo san pôde viver relativamente intocado até os dias atuais, preservando uma cultura e estilo de vida arcaicos, o que também pôde ser comprovado pela ciência. Segundo estudos modernos, os san possuem um dos mais elevados graus de diversidade do DNA mitocondrial dentre todas as populações humanas, o que indica que eles são uma das mais antigas comunidades do globo. O seu cromossomo Y também sugere que, do ponto de vista evolucionário, os san se encontram muito perto da “raiz” da espécie humana (homo sapiens).

No fim da noite, Pedro participa como observador dos rituais e cânticos dos san. Em torno de uma pequena fogueira, as mulheres cantam e batem palmas sentadas, e os homens dançam enfileirados em círculo. Mas não é só isso: após entrarem em transe, alguns dos xamãs [1] san incorporam seus próprios antepassados e entidades da natureza. Até mesmo o guia turístico, um branco ocidental que se apaixonou pela região e pelos san, pratica a incorporação para virar ele mesmo um xamã entre o povo ancestral. Afinal, os san são antigos o suficiente para saber que, sejamos brancos ou negros, todos somos um mesmo povo, todos saímos dali, ou de bem perto dali, há centenas de milhares de anos, para povoar o resto do planeta.

Alguma coisa antiga e profunda tocou Pedro nesta viagem, e principalmente neste breve contato com os san. É isto pelo menos que ele próprio confessa ao fim do episódio, muito embora “não saiba explicar ao certo o que é exatamente”. Decerto, o mesmo deve ocorrer com muitos ditos civilizados que têm a oportunidade de realizar este tipo de contato. Seria inútil perguntar ao próprio guia turístico e aprendiz de xamã o que é que o fez trocar a vida ocidental pela vida como guia turístico no Kalahari. Há alguma coisa de transcendente nos san, alguma alma ancestral que, de muitas formas, é também a nossa alma.

E decerto de nada adiantaria escrever um tratado sobre o assunto. Ainda que os san aprendessem inglês ou português, jamais seriam capazes de colocar em palavras as experiências místicas que, de tão constantes, quase diárias, são praticamente o seu dia a dia. Os san vivem até hoje noutro mundo, o mesmo mundo que toda a nossa espécie viveu um dia, mas que vem sendo gradativamente esquecido. Neste mundo, não faz sentido se falar em mundo material e espiritual, em vivos e mortos, em coisas sagradas: no dia a dia dos san, o material e o espiritual são basicamente uma coisa só, os vivos e os mortos jamais deixaram de se comunicar, e não há nada, absolutamente nada, que não seja sagrado.

E, como as palavras por si só são inúteis, precisamos recorrer à poesia. Como bem resumiu o poeta persa Jalal ud-Din Rumi: “Além das ideias de certo e errado há um campo, eu lhe encontrarei lá. Quando a alma se deixa naquela grama, o mundo está preenchido demais para que falemos dele. Ideias, linguagem, e mesmo a frase cada um já não fazem mais nenhum sentido”.

Para boa parte do planeta, os san são um povo selvagem que permaneceu atrasado e perdido nalgum deserto africano. Para os san, ou para os seus espíritos ancestrais, o restante do planeta é nada mais do que a família que resolveu ir caminhar para as regiões mais afastadas, até que se esqueceu de retornar. E, segundo a ciência moderna, são os san quem estão com a razão [2]. Dá o que pensar.

É costume do Ocidente avaliar a “evolução” de um povo ou civilização pela sua capacidade filosófica e científica, em suma, pela sua racionalidade. No campo espiritual, porém, as coisas são um tanto mais complexas de se julgar. O povo san, por exemplo, não pratica canibalismo, não faz sacrifícios de sangue aos deuses, não devasta o seu meio ambiente de forma predatória. Um teólogo de certo renome poderá dizer: “Ok, tudo bem, mas eles são incapazes de reconhecer um Deus único”... Mas, será que isso é algum parâmetro razoável para determinar sua “evolução espiritual”?

Há muitos reinados milenares do continente africano que veneravam os chamados orixás, que são basicamente os correspondentes dos deuses das mitologias gregas ou egípcias, e possivelmente até mais antigos. No entanto, entre diversos mitos de Criação africanos, temos um “Ser Supremo quem criou os orixás e os homens”, e seu nome é Olorum. Ao contrário dos demais orixás, Olorum não possui nem culto direto nem templo individual, além é claro de não receber oferendas, sejam de animais ou frutas ou o que for, já que Olorum “já é tudo”. Ora, muito embora seja complexo associar Olorum diretamente com Javé ou Allah, fica muito claro que, no fundo, a religião dos orixás também é, e sempre foi, monoteísta. Portanto, os africanos antigos já conheciam um Deus Criador único, e isso não foi invenção exclusiva dos povos do Oriente Médio.

Claro que nem todos os povos africanos ao longo dos últimos milênios chegaram à mesma profundidade de compreensão espiritual. Mas nós ocidentais não podemos nos gabar de estarmos muito na frente deles. Até pouco tempo atrás, nossas doutrinas mais elaboradas ainda aceitavam, na prática, que escravos não tinham alma, e que precisavam ser batizados para conseguirem sua entrada no Céu. Foi assim que muitos ditos cristãos arrancaram milhões de africanos a força de suas casas e, através de grilhões e açoites, os trouxeram para trabalhar na América. Trabalho não assalariado, evidentemente.

Nem mesmo seus nomes eles puderam trazer na bagagem. Chegando ao Novo Mundo, eram batizados com nomes como Joaquim de Jesus ou Maria de Fátima. Mas, ainda que os nomes tenham se perdido, seus espíritos ancestrais jamais lhe abandonaram. Foi assim que, no Brasil, o maior país negro do mundo, surgiu o samba, o Candomblé, a Umbanda etc. Os sobrinhos dos san perderam suas casas e seus nomes, mas os orixás persistiram, afinal aqui eles também estavam dentro de Olorum. Não há nada “lá fora”.

E, apesar dos grilhões, dos açoites e do preconceito que surge da ignorância persistente dos ditos civilizados, lá naquele campo onde vivem os poetas e os místicos, lá, além das ideias de certo e errado, lá, onde habitam os deuses e dançam os xamãs, eles nos perdoaram, eles nos aceitaram de volta, de braços abertos, de alma aberta.

E, aqueles que, como Pedro, estiveram por lá, ainda que por pouco tempo, ainda que por uma noitinha só, compreenderam: a África é todo o mundo!

***

[1] O termo “xamã” se originou do estudo dos povos indígenas da Sibéria, mas na realidade se aplica para povos ancestrais em todo o mundo. No Brasil, por exemplo, um xamã pode ser conhecido como pajé.

[2] Há diversas teorias para as origens da humanidade, mas o mais aceito atualmente é que nossa espécie surgiu na África e depois migrou para o resto do globo. Em todo caso, ainda que tenha surgido no mesmo período na Europa, teria a pele tão negra quanto à dos africanos, visto que a mutação que possibilitou a pele branca é relativamente recente, de cerca de 8.000 anos atrás (portanto mais nova que o próprio povo san).

Crédito da imagem: Google Image Search/Latinstock (povo san)

Marcadores: , , , , , , , , , , , ,

8.4.15

Adão e Eva eram negros

É bem provável que a maioria dos cientistas não creia, ao menos literalmente, que Adão e Eva foram os primeiros seres humanos. Mas, fato é que os primeiros seres humanos, sejam quais fossem os seus nomes, eram negros. Neste caso já não é uma questão de crença, a ciência já tinha fortes evidências de que o homo sapiens se originou na África [1], e recentemente, com o estudo do genoma humano, chegou à conclusão que a pele branca, clara ou pálida é resultado de uma mutação relativamente recente em nossa história evolutiva.

O estudo, apresentado na 84ª reunião anual da Associação Americana de Antropologia Física, realizada em março de 2015 nos EUA, oferece fortes evidências que os europeus modernos não se parecem muito com os de 8 mil anos atrás.

Um time internacional de cientistas analisou o genoma dos restos de 83 indivíduos encontrados em sítios arqueológicos espalhados pela Europa. Os resultados apontam que a população europeia moderna é uma mistura de pelo menos três antigas populações que chegaram à Europa em diferentes migrações nos últimos 8 mil anos. Comparando com dados do Projeto 1000 Genomas, os cientistas conseguiram encontrar quatro genes associados com as mudanças na pigmentação da pele que passaram por forte processo de seleção natural.

Os cientistas encontraram dois genes diferentes relacionados com a coloração da pele, além de um outro, ligado aos olhos azuis e que também pode contribuir para a pele clara e o cabelo louro. Os humanos modernos que migraram da África para a Europa há cerca de 40 mil anos tinham a pele escura, o que é uma vantagem para regiões ensolaradas. E o estudo confirma que há 8.500 anos, povos caçadores e coletores na Espanha, Luxemburgo e Hungria também possuíam a pele escura, pois eles não tinham os genes SLC24A5 e SLC45A2, que levaram à despigmentação e à pele pálida dos europeus atuais.

Mas no extremo norte, onde os baixos níveis de luz favorecem a pele branca, os pesquisadores encontraram um panorama diferente entre os povos caçadores e coletores: sete corpos do sítio arqueológico de Motala, no sul da Suécia, datados em 7.700 anos, possuíam ambos os genes ligados à pele clara, assim como um terceiro, o HERC2/OCA2, que causa os olhos azuis [2]. Dessa forma, segundo o estudo, os povos caçadores e coletores do Norte da Europa já possuíam a pele pálida, mas os das regiões centrais e sul tinham a pele escura.

Então, os primeiros povos agricultores chegaram à Europa, há 7.800 mil anos, vindos do Oriente Próximo, também carregando os dois genes em questão. Eles se misturaram às populações caçadoras e coletoras e espalharam o gene SLC24A5 pelas regiões Central e Sul da Europa. A outra variante, o SLC45A2, se manteve em níveis baixos de penetração até 5.800 atrás, quando começou a se espalhar pelo continente.

O estudo não especifica porque esses genes passaram por tamanho processo de seleção, mas existe a teoria que a despigmentação serviu para maximizar a síntese de vitamina D, conforme afirmou a paleoantropóloga Nina Jablonski, da Unversidade do Estado da Pensilvânia. Pessoas que vivem em altas latitudes não recebem radiação UV suficiente para sintetizar a vitamina, então a seleção natural pode ter favorecido duas soluções genéticas para a questão: evoluir a pele clara para absorver mais radiação e favorecer a tolerância à lactose, para se digerir os açúcares e a vitamina D encontrados no leite.

“O que nós imaginávamos como um entendimento simples sobre o surgimento da pele despigmentada na Europa, é um emocionante trabalho da seleção” — disse Nina, em entrevista à revista Science — “Esses dados são interessantes porque mostram como se deu a evolução recente.”

Enquanto em boa parte de nossa história o racismo teve suporte na cultura geral, em algumas doutrinas de religiosos equivocados, em filosofias empobrecidas, em políticas públicas desconexas, e até mesmo na própria ciência, é um alento perceber como estavam certos todos aqueles que contemplaram a Natureza e perceberam há eras, pelas mais diversas vias, que somos todos uma única raça. E foi a própria Natureza quem nos contou: o estudo do genoma humano deixa muito claro e cristalino que tudo aquilo que um dia foi chamado de “raça humana” se resume a pequenas diferenças de tonalidade da pele, além de características faciais e capilares, que nem de longe são suficientes para delimitar mais de uma raça de homo sapiens no globo.

De fato, a única outra “raça humana” com quem já convivemos já está extinta, mas há resquícios dela em partes de nossos genes. Os neandertais e os homo sapiens tiveram um breve período de coexistência no Oriente Médio, quando chegaram a gerar filhos uns dos outros. Mas, enquanto os homo sapiens partiram para dominar a Ásia, a Oceania e as Américas (através da Ponte Terrestre de Bering, que hoje derreteu), os neandertais preferiram, por alguma razão, continuar no próprio Oriente Médio e na Europa... Nalgum dia histórico da pré-história, os homo sapiens finalmente decidiram adentrar a Europa, e encontraram seus primos entre uma e outra caçada. O que terão pensado uns dos outros? Teria a tradição oral de suas tribos selvagens conservado as histórias de suas origens em comum? É quase certo que não – é quase certo que se entenderam como seres completamente distintos.

Se há uma “raça pura” entre os homo sapiens, ela é composta precisamente pelos raros povos ancestrais africanos que chegaram aos dias atuais sem jamais terem saído do Continente Mãe. Enquanto a lendária “raça ariana” é na realidade uma grande mistura de migrações genéticas, onde se incluí até mesmo parte do DNA neandertal, a única vertente “pura” dos homo sapiens é negra e africana, como Adão e Eva.

E, se a sedução de pertencer a uma suposta “raça superior” é muitas vezes motivo suficiente para que muitos de nós abandonem o bom senso e as lições de boa convivência, talvez seja a hora de levantarmos um alerta: o racismo não é uma questão de ser ou não politicamente correto, de se ter ou não uma boa capacidade de convivência, o racismo é uma questão de profunda, profundíssima ignorância.

Se nos dias atuais nossos irmãos que carregam os genes de nossa pele original já conseguem ser aceitos e amados quando são craques em seus times de futebol, ou até mesmo quando se tornam presidentes de potências mundiais, isso é muito bom, mas ainda não é o bastante...

Pois se mesmo tais craques da bola volta e meia ainda são obrigados a conviver com torcidas de mentalidade pré-histórica, que se aprazem em atirar bananas nos gramados, e mesmo se em países de primeiro mundo, governados por um presidente de pele negra, nossos irmãos ainda são mortos por policiais com tiros pelas costas, é porque ainda há muita ignorância ainda por ser depurada.

E como vencer a ignorância da alma, senão pela educação da alma?

E como perpetuar a ignorância, senão por uma educação corrompida?

Sim, Adão e Eva, e todos nós, somos negros, pois é negra a nossa cor original, e é negro o continente de onde todos nós um dia saímos para conquistar a Terra. Sim, o Éden, afinal, também é africano... Está na hora de começarmos a reconstruí-lo, no mundo inteiro.

***

[1] Embora também existam outras teorias que afirmam que ele pode ter se originado tanto na África quanto na Ásia Central e na Europa. Em todo caso, o que nos importa neste artigo é que há fortes evidências de que os primeiros homo sapiens eram negros, seja onde tenham surgido.

[2] Novos estudos científicos e antropológicos levam a crer que a própria distinção da cor azul é algo recente em nossa história.

Crédito da imagem: Karin Miller

Marcadores: , , , , , , , , , , ,

26.8.14

A grande quarentena

“É uma medida que nos leva de volta a Idade Média. É um reflexo do pânico e da ignorância”.

Em West Point, uma favela sobre uma península em Monróvia, capital da Libéria, a Idade Média retornou em 20/08/14, quando a presidente Ellen Johnson Sirleaf decretou a quarentena em massa para cerca de 70 mil pessoas, devido a um surto de ebola fora de controle e do colapso do sistema de saúde deste que é um dos países mais pobres do mundo.

Recém saída de duas guerras civis em sequência, que devastaram sua economia e deixaram milhares de mortos, a Libéria contava, até 3 dias após o início da quarentena em West Point, 624 das 1.427 mortes causadas pelo surto de ebola na África, que já assusta o mundo e faz com que o continente mãe retorne aos noticiários.

Ainda não se sabe como exatamente o vírus ebola passou a contaminar seres humanos, mas o mais provável é que tenha sido pelo consumo da carne de animais selvagens, particularmente morcegos-da-fruta, os mais indicados como reservatórios naturais do vírus. Sim, na África há o costume de se comer morcegos, o que não é tão chocante em se considerando quanta miséria e fome ainda existem por lá...

Após a infecção, os sintomas têm início em duas a três semanas, e manifestam-se através de febre, dores musculares, dores de garganta e dores de cabeça. A estes sintomas sucedem-se náuseas, vómitos e diarreia, além de insuficiência hepática e renal, seguidos de graves problemas de hemorragia.

Comparado a outros vírus, o potencial de infeções em grande escala por ebola é considerado baixo, uma vez que a doença só é transmitida por contato direto com as secreções de indivíduos que mostrem sinais de infeção. A rápida manifestação dos sintomas faz com que seja relativamente fácil identificar indivíduos doentes e limita a capacidade de uma pessoa em transmitir a doença durante viagens. Entretanto, as péssimas condições sanitárias de algumas grandes cidades africanas faz deste surto de ebola uma grave ameaça.

E, não custa lembrar, cerca de 90% dos infectados morrem.

Nos dias seguintes a quarentena em massa de West Point, os moradores passaram a contar com a distribuição de comida e água por grupos humanitários, mas se queixam de quantidades insuficientes e falhas na entrega. Os preços de mantimentos nos pequenos mercados dentro da favela dispararam e muitos itens essenciais já estão esgotados.

Não sabemos o que será dos 70 mil que retornaram forçadamente a Idade Média em Monróvia, mas sabemos de uma coisa: para boa parte do mundo, e particularmente no Ocidente, toda a região central do continente africano sofre de uma espécie de “grande quarentena étnica”. Afinal, quem se preocupa com o que se passa por lá? Quem estudou a sua história e a sua cultura no colégio? Quem se interessa genuinamente por suas religiões arcaicas? Quem chora pelos africanos?

Isto não é somente uma questão moral, mas uma questão de sobrevivência. Não é a toa que os surtos de doenças mais mortais das últimas décadas têm se originado na África. Se deixarmos todo um continente isolado dos “afazeres do mundo civilizado”, mergulhados na miséria e na fome, isto não os torna menos humanos, menos homo sapiens. E, uma doença que mata os homo sapiens africanos, mata também os homo sapiens do restante do globo. Se não estamos exatamente preocupados com eles, deveríamos ao menos ter o bom senso de nos preocupar com a espécie humana, como um todo!

Felizmente, há quem se preocupe, há corações ocidentais e orientais que ainda batem pelos africanos, e que fazem tudo ao seu alcance para os cuidar e auxiliar. Quando falamos de “cuidado e auxílio” aos africanos, particularmente aos mais miseráveis, é inevitável falar dos Médicos Sem Fronteiras.

O MSF é uma organização internacional não-governamental sem fins lucrativos que oferece ajuda médica e humanitária durante situações de emergência, em casos como conflitos armados, catástrofes naturais, epidemias, fome e exclusão social. É a maior organização não governamental de ajuda humanitária do mundo, na área da saúde, e sobrevive exclusivamente de doações.

Debora Noal, brasileira, psicóloga e “agente” do MSF, é um dos nossos anjos, um dos corações que ainda pulsa, forte, pela África. Não faz muito tempo que deu este relato emocionante, profundo, humano, para a então jornalista da Época, Eliane Brum, onde fala sobre a sua experiência de auxílio aos infectados pelo ebola noutros surtos passados (e que não chegaram ao noticiário) [1]:

Quando eu cheguei lá em Isiro (Congo), a primeira coisa que a equipe que estava junto comigo no avião falou foi: “Vamos se abraçar?”. Eu falei: “Gente, que estranho. Nunca ninguém me propôs isso dentro de um avião”. A gente sabia que, depois que saísse de dentro do avião, ninguém mais ia se abraçar durante longas semanas. E a cara deles refletia um pouco a minha cara, o que eu estava sentindo. Tipo: “Como será que é viver num mundo sem toque?”. Porque você não toca mais. Você passa semanas sem tocar na pele de ninguém. Você passa semanas sem ter um contato corporal que te dê uma sensação de acolhimento. Acho que essa é uma relação bem difícil. Como é que você cuida de alguém sem chegar muito perto? Como é que você abraça alguém sem tocar? Como é que você faz um carinho em alguém sem encostar sua pele na pele do outro?

Essa missão foi bem especial nesse sentido. Eu descobri várias formas de como cuidar do outro sem tocar. E foi muito bonito. Quando cheguei lá, a primeira coisa que eles diziam era: "A nossa função aqui é isolar o ebola". Aí eu passei a dizer para a comunidade: “Bom, gente, a minha função aqui é fazer com que o vírus fique isolado, e as pessoas não fiquem isoladas. Então, assim como o papel da equipe técnica, médica e de higiene é o de isolar o vírus, o meu papel é fazer com que as pessoas não fiquem isoladas”.

Para mim, a indignidade do vírus é a sensação de que ele só matava as pessoas que tinham coração bom, as pessoas que queriam cuidar. Porque, em geral, quem estava contaminado era quem tinha ajudado a cuidar dos outros nos últimos momentos de vida. Então, a pessoa estava lá, com febre, tendo diarreia, vômito e ninguém chegava perto por causa do vírus. E havia aquele que cuidava mesmo assim, mesmo sem ter água encanada, sem ter sabão em casa. E por isso se contaminava e morria.

Aconteceu isso com um pastor de 70 anos. A mulher dele morreu de ebola, e foi ele que cuidou dela até o último minuto. Também era ele quem rezava pelas pessoas que estavam contaminadas em sua comunidade. E, também por isso, ele se contaminou. Então, esse senhorzinho entrou no Centro vítima do cuidado. Quando eu entrei lá para perguntar a ele como é que ele gostaria de ser cuidado, o que a gente podia fazer por ele, ele disse: “Eu queria que alguém viesse me visitar”. Ele não pediu remédio, ele não pediu nada para dor, ele não pediu nada para diarreia, ele não pediu nada médico. Mas ele pediu que alguém fosse lá vê-lo, sabe? Ele já estava com a gente há mais de uma semana e não tinha recebido uma única visita. Nem os filhos o tinham visitado. Ele era pastor de uma das maiores congregações protestantes e não tinha recebido nem mesmo a visita de um fiel. Isso me deu uma sensação muito ruim. Aí foi nesse dia que eu decidi: vou lá nessa comunidade, vou conversar com eles, vou filmar a conversa, vou tentar trazer a sua comunidade para dentro do Centro.

Eles nunca tinham visto uma câmera. Eles nunca tinham visto televisão, nem filme, nem nada, mas de repente eram eles que estavam falando, com o olhar bem na câmera, mesmo, como se eles tivessem feito aquilo a vida inteira. E eles olhavam bem na câmera, falando: "Pastor, a gente está aqui rezando para você". Então, na hora em que a gente projetou, parecia que eles estavam olhando no olho do pastor e dizendo: "A gente tá aqui, rezando pra você, e é todo dia, é toda hora, e a gente reza de noite e a gente reza de dia e a gente tá fazendo três cultos por semana, que é pra juntar toda a comunidade pra rezar pra você. E Deus vai salvar você".

E, na hora em que eles começaram a rezar, o pastor se levantou, mesmo muito fragilizado, levantou os braços e começou a rezar junto com eles, como se eles estivessem compartilhando a mesma reza. Cara, foi muito bonito! Mais três dias depois dessa movimentação toda ele começou a reagir de uma outra forma. Ele começou a sair do lugar de paciente e começou a assumir o outro lugar que ele tinha, que era o lugar de cuidador. E começou a se levantar do leito dele para fazer as rezas, dentro dos espaços, para os outros pacientes. E ele se curou.

No dia em que ele saiu do Centro, a gente combinou com a equipe toda. A gente dá roupas novas, e eles saem com elas, depois de estarem curados, de o exame dar negativo. A gente arrumou então uma bengala improvisada e o gorro dele, e ele foi mais ou menos como um rei, sabe? Na frente do carro, vidros abertos, com todo o staff atrás, cantando as músicas que ele puxava.

Foi passando pelo meio dos mercados públicos da sua comunidade, acenando como se fosse "o rei", e nós todos cantando. Para as pessoas que estavam nos mercados, era como estivessem vendo uma miragem. "Ele está vivo!" Todo mundo já tinha dado ele por morto e, de repente, ele estava vivo. Sorrindo, acenando e cantando bem feliz dentro do carro. O pastor ainda pediu que a gente fosse com ele na Rádio atestar que ele não contaminaria mais ninguém. E a gente fez isso.


Ajudem Debora e o MSF a fazer mais. Ajudem a África a sair desta grande quarentena:

Contribua com o MSF, seja um doador sem fronteiras!

***

[1] Trechos retirados do artigo Missão Ebola: “Me reinventei a marretadas”.

Crédito das imagens: [topo] John Moore/Getty Images (moradora de West Point, "retida" na quarentena); [ao longo] MSF (Debora Noal ao lado de vítimas de violência sexual na África)

Marcadores: , , , , ,

10.12.12

Madiba!

Quando Nelson Rolihlahla Mandela chegou a Joanesburgo, aos 23 anos, não trazia muito mais do que a roupa do corpo e sua alma nobre, também por nascimento: Rolihlahla era da nobreza do clã dos Madiba, do povo Thembu, e veio ao mundo numa pequena aldeia do interior da África do Sul, onde se vivia do mesmo jeito há centenas de anos. Rolihlahla queria mudança, queria novos ares, queria conhecer o mundo e os seres a sua volta. No fim, foi à alma de Mandela que prevaleceu.

Foi ainda criança que ganhou seu primeiro nome, Nelson. Estudava numa escola primária com um único cômodo, teto de zinco e chão e terra. Uma de suas professoras seguiu o costume de dar nomes ingleses a todas as crianças de etnias locais que frequentavam a escola. Mandela não se importou: não havia nada de errado em usar um nome inglês, acreditou que aquilo serviria para facilitar seu convívio com eles...

Mas não foi o que viu na cidade grande. Tornou-se advogado e um dos líderes da juventude negra que protestava de forma não violenta contra o apartheid, um vergonhoso sistema oficial de segregação racial implementado pelo governo sul-africano, que veio a ser abolido somente muito tardiamente (se comparado com outros países onde havia segregação amparada pela lei), já em 1994. Como devem saber, Mandela foi vital neste processo.

No entanto, nada ocorre da noite para o dia, e concepções arraigadas em sociedades, particularmente nas elites dominantes das sociedades, demoram muito tempo para desaparecer. Na realidade, não fosse pela pressão do resto do mundo, Mandela dificilmente teria saído ainda vivo da cadeia onde passou 27 anos. Tampouco foi algum santo: caiu na tentação de descambar para uma espécie de guerrilha armada contra o apartheid, embora a princípio houvesse participado apenas em alguns planos terroristas de ataques com bombas a alvos não humanos, como antenas de rádio e TV, e torres transmissoras de energia elétrica. No fim, talvez a prisão o tenha salvado de haver morrido bem mais jovem, quem sabe com uma arma na mão...

Mas 27 anos tampouco passam da noite para o dia. Enquanto permaneceu enclausurado numa pequena cela, sem acesso a informações do mundo exterior, teve todo o tempo do mundo para avaliar qual seria a melhor forma de continuar em sua luta contra a segregação. Do lado de fora, por todos os cantos da África do Sul, a juventude negra, pobre em quase sua totalidade, continuava a se revoltar cada vez mais. Elegeram Winnie, então esposa de Mandela, como sua representante direta – “Madiba! Madiba!” era seu grito de guerra... Muitos morreram em conflitos com a polícia, mas Mandela continuava encarcerado, e a violência só aumentava.

Com o passar das décadas, o governo segregacionista começou a temer por sua própria segurança. No fundo, o apartheid foi implementado como forma de manter a cultura dos colonizadores europeus viva numa terra estranha, conquistada pela força das armas, e não da diplomacia. Agora, eles temiam não somente pelo fim de sua cultura, mas pelo fim de toda a sua sociedade, pois que sempre existiriam mais negros do que brancos naquela terra: eles viveram ali por muitos milhares de anos, os brancos eram recém-chegados.

Dizem que, mesmo preso, Mandela sempre manteve sua “aura” de nobreza. Uma nobreza antiga, tribal, ancestral, do tipo que nem mesmo décadas de prisão é capaz de apagar. Quando Mandela era escoltado para o pátio fora da cela, eram os guardas que seguiam seu ritmo de caminhada, e não o contrário. Uma vez, disse a um jornalista que o visitara por lá: “Bom dia, esta é a minha guarda pessoal”. O chefe carcerário confessou que seu maior medo era ter de dar a notícia ao governo de que Mandela havia falecido na prisão. Aquilo seria o fim da África do Sul, disto ninguém tinha dúvidas, ao menos entre os brancos...

Mas Mandela venceu pela força de sua alma, e sua habilidosa diplomacia. Através de anos de negociações diretas com os governantes do apartheid, inclusive tendo encontrado presidentes pessoalmente, em escoltas secretas para fora de sua prisão, um dia finalmente aconteceu: em 11 de fevereiro de 1990 Mandela é solto. Caminhou pela porta da frente da prisão, de mãos dadas com Winnie. Do lado de fora, não somente negros, como uma boa parcela de brancos, o saudavam entusiasmados. Aquela altura, Mandela era um cidadão do mundo.

Em 1994, Mandela é eleito presidente da África do Sul com 62% dos votos. Como seu vice-presidente, de Klerk, o último presidente do apartheid, e uma espécie de “garantia” de que Mandela não queria “usurpar o poder dos brancos”. Mas foi somente cerca de um ano depois de assumir a presidência, em 1995, já com quase 80 anos, que Mandela finalmente sacramenta sua missão...

No campeonato mundial de rúgbi de 1995, realizado na África do Sul, o time nacional tinha poucas chances de avançar na competição. O rúgbi era um esporte herdado da cultura branca, colonizadora, e nunca havia tido popularidade alguma entre os negros... Mas o time avançou, e Mandela viu ali uma oportunidade de ouro. Viu ali uma chance de, finalmente, promover uma união de culturas, algo que iria tornar a África do Sul uma nação de verdade, pois que toda a verdadeira nação é feita de irmãos, de cultura em comum.

Seu time chegou a final e, quando Madela entrou, uniformizado, para os saudar no estádio antes do início da partida, foi uma grande maioria branca que gritou nas arquibancadas: “Nelson! Nelson!” era seu grito de guerra... O time da África do Sul venceu aquele campeonato. Pelas ruas de boa parte do país, negros e brancos comemoravam. Não comemoravam juntos, quem sabe, mas este era apenas o início... O início de uma nova era. “Madiba” ou “Nelson”, tanto faz: ele cumpriu sua missão [1].

***

Morgan Freeman é um excelente e conhecido ator americano que se parece muito com Mandela fisicamente. Foi ele quem o representou no filme Invictus, que conta esta extraordinária história do campeonato mundial de rúgbi de 1995. Em entrevistas, Morgan é às vezes polêmico, por exemplo, ao defender que “o dia da consciência negra é uma ideia ridícula”. Segundo ele, não existe um dia da consciência branca, e, portanto, não faz sentido haver um dia reservado para a consciência negra. Para Morgan, todos os dias são dias da consciência: a consciência humana.

Polêmicas a parte [2], hoje sabemos, pela ciência, que não existem brancos e negros, ou índios e japoneses, etc. Todos temos o mesmo sangue e a mesma raça, o que varia são apenas pequenas características físicas que nunca seriam capazes de determinar que “esta raça tem alma, aquela não tem”, nem que “esta raça tem mais inteligência, aquela tem menos”. Também sabemos, por teorias científicas bastante contundentes, que o homo sapiens surgiu na África, que Adão e Eva habitaram alguma região selvagem do sul ou da região central deste continente, e que, portanto, todos somos os ancestrais das antigos tribos africanas.

No fim, todos somos da mesma tribo de Rolihlahla. Uma só tribo, um só mundo. É hora de compreendermos este fato, pois que não há mais muito tempo para essas brigas idiotas entre nós. A Natureza dá o alarme, os mensageiros orientam. Obrigado, Madiba, pela orientação. Obrigado por tudo!

***

[1] Recomendo o excelente documentário The long walk of Nelson Madela, sobre sua história de vida (infelizmente, apenas em inglês).

[2] É claro que aqueles que lutaram pela instauração de “dias da consciência negra” tinham a melhor das intenções. Mas fato é que, pela lógica, é estranho que exista um “dia da consciência” apenas para negros, e não para os demais seres humanos com outros níveis de melanina na pele. Tanto quanto é estranho que haja um “dia da mulher”, enquanto não existe um “dia do homem”, etc.

Crédito das imagens: [topo] MAISANT Ludovic/Hemis/Corbis (cerâmica do rosto de Madela jovem, no Soweto Hotel, Joanesburgo); [ao longo] Divulgação (Invictus)

Marcadores: , , , , , , , ,

21.11.12

Ventos do deserto

Quando os ouvi pela primeira vez, neste vídeo do Playing for Change, achei sua música estranha. Na segunda, algo me chamou a atenção. A partir da terceira vez, compreendi... São os ventos do deserto, os únicos que podem explicar como tal luz veio a brilhar, décadas atrás, em músicos vindos de povos nômades do Saara, que cantam em dialetos locais, mas que ainda assim foram capazes de antever esta bela Primavera que se arma no horizonte.

Este é um mantra da banda Tinariwen, Imidiwan Afrik Temdam, que se canta assim:

A letra:
Meus companheiros por toda a África, eu tenho uma pergunta... Uma pergunta que continua a me assombrar: seria a revolução como algumas árvores, onde os galhos só irão crescer se as regarmos?

***

Crédito da imagem: Johannes Mann/Corbis

Marcadores: , , , ,

14.5.12

Cangoma a chamar

(atenção: este é um artigo musical, tenha ouvidos atentos)

Shhh... Escute, você ouve este som etéreo, distante? Perecem, parecem tambores... Tambores, e um lamento estranhamente alegre...

O último dia 13 de maio de 2012 foi um dia muito especial. Não pelo dia em si, mas pelo que simbolizou: a união da comemoração do fim legal da escravidão no Brasil, e a celebração do dia das mães. Além de terem caído num mesmo dia, este dia foi um domingo, pois no Brasil se comemora o dia das mães sempre no segundo domingo de maio. Ora, em muitas casas de umbanda, ou casas espíritas e espiritualistas que são simpáticas a umbanda, se realiza uma festa no domingo mais próximo do dia que simboliza a libertação dos escravos no país – ou seja, além de neste ano a festa poder ter sido realizada no próprio domingo em si, ainda foi dia das mães.

Para compreender a importância disso, é preciso retornar alguns séculos no tempo e visualizar a barbárie que os povos europeus, ditos civilizados, realizaram na África. A escravidão não significava apenas o roubo dos adultos mais saudáveis e promissores de um reino ou grupo étnico africano, mas a separação de mães e filhos, e filhos e mães: a pura devastação daquilo que nos é tão sagrado, a família. Deste modo, podemos supor que não era tanto por saudades de sua terra que os escravos choravam, nem tanto por serem açoitados e tratados como animais selvagens, mas antes por terem deixado pais, mães, esposas e até mesmo filhos, em sua terra natal – para jamais os verem novamente, nem sequer receber cartas.

Pensemos nisso quando reclamamos de nossa dor de dente, do time de futebol que perdeu a final do campeonato, ou daquele concurso público em que não passamos, e deixamos de ganhar alguns milhares de reais a mais do que já ganhamos... Os que vieram da África, esses sim tiveram razão do que reclamar.

Mas, como foi... Como foi então que os negros puderam enxugar suas lágrimas, e amenizar sua dor? Como poderia ter sido, que não através do espírito? Pois eles não poderiam sequer escrever cartas que pudessem atravessar o oceano, mas sabiam que enquanto remavam ao Brasil, tinham a Senhora do Mar abaixo, e o Senhor dos Ventos acima – os orixás ainda estavam com eles, e a espiritualidade foi sua ponte entre o Brasil e a África, ponte esta que jaz firme até hoje.

Foi isto mesmo: nós os retiramos de sua terra, os açoitamos e dissemos que nos pertenciam, pois sequer tinham alma... E o com o que eles nos retribuíram? Axé, danças e tambores...

A festa que se realiza no 13 de maio é a festa dos pretos velhos. Pense nisso: hoje a ciência sabe que toda a humanidade migrou da África para o restante do globo, a África é a mãe dos homo sapiens, a nossa mãe. Se um genuíno preto velho é um desses espíritos antigos, é bem capaz de fazer parte do grupo espiritual mais antigo da Terra – a despeito dos outros que migraram de outras casas. Kardec nos alertou que “os espíritos falam apenas do que sabem”, e ele tinha razão; Porém, alguns dos pretos velhos que aparecem para papear em tais festas podem saber muito, muito mesmo, pois são tão antigos quanto os primeiros xamãs, e tão sábios quanto os primeiros filósofos.

E há ainda aqueles espíritos que, cansados de toda a formalidade e prepotência que se encontra em outras doutrinas ditas civilizadas, resolvem aparecer como pretos velhos, de barba branca e encaracolada, olhos profundos como o mar, voz adocicada como a primavera, e arqueados pelos séculos em suas bengalas imaginárias. Sabe-se que o grande Bezerra de Meneses volta e meia aparece como um destes pretos velhos, quem sabe quantos sábios de outrora não preferem se utilizar deste mesmo símbolo, e permanecerem anônimos nas danças de tambor?

Lai ê, lai ê, lai á, disse levanta povo... Ouvem alguma coisa agora? Acho que está vindo lá do fundo...

Vissungos eram os cantos dos escravos utilizados nas lavras de diamante e ouro, ao redor da região de Diamantina, em Minas Gerais. Alguns de seus cantos atestam como o fim da escravidão no Brasil foi muito mais legal do que real, e como foi ser liberto em uma terra que não era a sua, que não era a Mãe África. Embora alguns dos legisladores brasileiros, e alguns dos artistas e pensadores da época, fossem genuinamente simpáticos aos ex-escravos, a maioria não era, e todos sabemos quantas gerações foram necessárias para que eles fossem aceitos como cidadãos, como seres que têm alma e, portanto, direitos.

Mas a alma de alguns deles era imensa, tão imensa que jamais foi embora, e sorrateiramente infiltrou-se em nossa cultura, nossa religião, nosso pensamento... Já disseram que os orixás eram demônios, mas como demônios poderiam compor canções tão belas quanto os cantos dos escravos de Minas, da Bahia, do Rio, do Maranhão?

Clementina de Jesus foi uma grande cantora tardia que, do alto de seus 60 e poucos anos, ainda assim teve o tempo e a vitalidade para nos deixar alguns clássicos da música popular brasileira. Clementina, como neta de uma escrava, cantava com propriedade.

Foi sua voz quem nos resgatou um dos mais belos vissungos de Minas, e que, por ser tão belo e profundo, nos serve como um verdadeiro mantra para a libertação... A libertação dos preconceitos, a libertação da ignorância, a libertação do ego, para que um dia, como os pretos velhos, possamos apenas dançar ao som do tambor, da cangoma [1], e nos esquecer, por um breve momento, de toda a dor do mundo...

Tava durumindo
Cangoma me chamou
Disse: levanta povo,
Cativeiro já acabou!

Agora sim, todos estamos a ouvir... Vamos então cantar, e fazer desse canto um hino de liberdade... Até que todo cativeiro fique para trás, e a nossa frente, apenas a Mãe África, e milhares de pretos velhos a nos saudar.

Áudio de Cangoma me chamou – Mawaca (em 2:00 ouve-se a voz de Clementina, uma gravação inserida na música).

» Veja também Mawaca cantando ao vivo este mantra (do DVD "Para todo canto").

» Ouça Clementina de Jesus no original (esta versão é obviamente muito mais próxima do que se ouvia em Minas).

***

Sentido e escrito por raph, branco de pele, africano de dna, iluminado na alma por alguma luz que não sabe dizer a cor...

[1] Há um tambor grande chamado de cangoma ou angoma. Esse tambor avisa, no registro da canção, o fim da escravidão, como os sinos das igrejas que tocavam avisando e marcando os momentos importantes da vida da comunidade.

Crédito das imagens: Google Image Search

Marcadores: , , , , , , , , , , ,

11.6.10

Ubuntu – the world goes around

best if viewed in Fullscreen ("More" > "Fullscreen"):


Ubuntu is a very peculiar african word
It has so many meanings, as many as the breeds of men
For to know it’s true meaning, we would have to ask one of them
Of the hundred that left Africa to explore the world
The adams and eves of our age
The mothers and fathers of men

Ubuntu means that a hunter wouldn’t need to ask for food
When passing by the villages of another people
Cause we hunt to survive
But it’s in the sharing, it’s in the kindness to each other
That we actually find that precious feeling
A breeze of joy
A pleasure to be alive

Ubuntu means that no man is an island
That we are like continents, looking to sail back
Looking to unite the shores of our kingdoms
To form once again the Pangaea
A place with no foreigners, no rulers and no slaves
Where roads connect every city and every heart
And nobody see any frontier

Ubuntu means that the age of men is just a blink
In the eyes of eternity
That we are but a link in the web of life
Billions came before us, billions are yet to pass
To walk in the long plains and to climb the hills of Africa
To look at the grass, and the flowers, and the trees
And understand that no daylight is the same
And all things float like dust in gentle wind, unbound
The world goes around

Ubuntu means that no man can live in cages
Be it prisons or dogmas
We must look to discover, to uncover, to enlight
To love and to change, to move millions with thoughts
Like the gandhis, the mandelas, the kings
Cause this world is no kingdom for just one ruler
But we are all rulers of our own lands
We should exchange our knowledge and wisdom
And never bullets and bombs

Ubuntu means that men should work toghether
Walking beside, holding hands
Facing the horizon like the old hunters
Yet, no more to fight in the war of hunger and pain
But to reach a precious trophy
The prize of self-knowledge
A distinct vision of the true meaning of the word

Yes, there are many breeds of men indeed
And many breeds of life
But we are all one, all of us
Represented in so many forms, so many substances
So many meanings for this one concept
So many villages in the ocean of night
So many hunters walking on all those waves of light
So many preys waiting to be unbound
Ubuntu – the world goes around

raph’10 (aka. Rafael Arrais, this blog's author)

***

Ubuntu – o mundo dá voltas

Ubuntu é uma palavra africana muito peculiar
Ela tem tantos significados, tantos quanto as linhagens dos homens
Pois para saber seu verdadeiro significado, precisaríamos perguntar para um deles
Um dos cem que deixaram a África para explorar o mundo
Os adãos e evas de nossa era
As mães e os pais de todos nós

Ubuntu quer dizer que um caçador não precisaria pedir por comida
Quando passando pelos vilarejos de outros povos
Pois nós caçamos para sobreviver
Mas é no compartilhar, no carinho para com cada um
Que nós realmente encontramos essa sensação preciosa
Uma brisa de alegria
Um prazer em se estar vivo

Ubuntu quer dizer que nenhum homem é uma ilha
Que somos como continentes, esperando navegar de volta
Procurando unir as praias de nossos reinos
Para formar uma vez mais a Pangeia
Um lugar sem estrangeiros, governantes ou escravos
Onde as estradas conectam cada cidade e cada coração
E onde ninguém vê nenhuma fronteira

Ubuntu quer dizer que a era dos homens é tão somente um piscar
Dos olhos da eternidade
Que nós somos apenas um fio na teia da vida
Bilhões vieram antes de nós, bilhões esperam passar
Para caminhar nas longas planícies e escalar os montes da África
Para olhar para a grama, e as flores, e as árvores
E compreender que nenhuma luz da manhã é a mesma
E que todas as coisas flutuam como poeira em brisas suaves, libertas
O mundo dá voltas

Ubuntu quer dizer que nenhum homem pode viver em celas
Sejam prisões ou dogmas
Nós precisamos descobrir, desvelar, iluminar
Amar e mudar, mover milhões com pensamentos
Como os gandhis, os mandelas, os kings
Porque este mundo não é um reino para apenas um rei
Mas todos somos os reis de nossas próprias terras
Nós deveríamos trocar nosso conhecimento e sabedoria
E nunca mísseis e bombas

Ubuntu quer dizer que os homens deveriam trabalhar juntos
Caminhando lado a lado, de mãos dadas
Encarando o horizonte como os antigos caçadores
Porém, não mais para lutar na guerra da fome e da dor
Mas para alcançar um troféu precioso
O prêmio do auto-conhecimento
Uma distinta visão do verdadeiro significado da palavra

Sim, existem realmente muitas linhagens de homens
E muitas linhagens de vida
Mas todos somos um, todos nós
Representados em tantas formas, em tantas substâncias
Tantos significados para apenas este conceito
Tantos vilarejos no oceano da noite
Tantos caçadores caminhando em todas essas ondas de luz
Tantas presas aguardando a liberdade
Ubuntu – o mundo dá voltas

raph’10

***

Em homenagem ao espírito da Copa do Mundo de 2010, na África do Sul

Crédito da foto: Daylife (Nelson Mandela e Desmond Tutu - grandes colaboradores de Ubuntu)

Marcadores: , , , , , , , , , , ,