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28.3.19

As Canções de Kabir

Rabindranath Tagore foi o primeiro não ocidental a vencer o Prêmio Nobel de Literatura, em 1913, e também o único ser humano responsável pela composição do hino nacional de duas nações: Índia e Bangladesh. Tagore foi um dos maiores poetas do Oriente, e aquele que conferiu o título de “Mahatma” (grande alma) a Gandhi. Mas este artigo não quer tratar de Tagore ou de sua poesia, e sim da sua grande fonte de inspiração: um homem, um poeta, uma lenda conhecida simplesmente como Kabir (“Grande”, em árabe).

Pouco se sabe da sua história com exatidão além de que viveu a maior parte da vida na cidade de Varanasi, no nordeste da Índia, durante o século XV (e início do XVI). Varanasi, às margens do Ganges, é uma das principais cidades do hinduísmo, e uma das cidades continuamente habitadas mais antigas da humanidade, com pelo menos 3 mil anos.

Tendo nascido aproximadamente em 1440 nos arredores de Varanasi, e morrido aproximadamente em 1518 na cidade próxima de Mughar, Kabir passou toda a vida sob o domínio islâmico do Sultanato de Delhi (1206-1526), que no entanto era consideravelmente tolerante para com as práticas hindus. Apesar de possuir um nome árabe, Kabir sempre desdenhou dos rótulos religiosos e das castas sociais, tanto que é até hoje considerado islâmico e hindu ao mesmo tempo (o que, mesmo naquela época, já era algo incomum).

Muito bem, a partir deste ponto, a realidade se confunde com a lenda... Segundo a tradição, Kabir nasceu numa família que professava o hinduísmo, pertencente à casta dos brâmanes (a mais “elevada” delas, reservada aos sábios e sacerdotes). Porém, seu pai morreu cedo e a sua mãe, sem ter condições de educá-lo, o ofereceu em adoção. Kabir foi adotado e educado por um casal de muçulmanos relativamente pobres, o tecelão Niru e sua esposa Nima. Naquele tempo, como ainda hoje, a comunidade islâmica de Varanasi dominava a produção e o comércio de tecidos finos. Assim sendo, Kabir alcançou cedo a maestria na arte da tecelagem, e durante o restante da vida trabalhou com ela.

Quando seu pai adotivo morreu, Kabir assumiu o seu posto como tecelão e vendedor de tecidos, de onde tirava o pálido sustento dele e da mãe. Durante o trabalho, no entanto, entrava frequentemente em êxtase místico e, assim absorto noutros mundos, tecia peças fora da medida ou era facilmente roubado por ladrões quando as expunha no mercado. Era necessário que ele disciplinasse tal vocação espiritual, e foi assim que procurou ajuda no ashram de Ramananda, um dos maiores expoentes da bhakti yoga no hinduísmo da época.

Felizmente, Ramananda também foi um dos primeiros grandes mestres daquele tempo a aceitar discípulos de todas as castas e credos. Tomando contato com aquele jovem tecelão, não se importou que fosse pobre e vindo de família islâmica: viu, em seus olhos, toda a sua potência espiritual, e logo o acolheu.

Sob a generosa tutela deste grandioso mestre, Kabir em poucos anos veio a alcançar ele mesmo o status de santo e sábio, reconhecido por muitos discípulos e inúmeros admiradores (inclusive advindos do islamismo). Mas a lenda de Kabir vai além: mantida em sigilo por séculos, a informação de que ele também teria sido instruído por outro mestre foi revelada por Paramahansa Yogananda (1893-1953) em sua célebre autobiografia. Segundo nos revelou Yogananda já no século XX, Kabir também teria sido instruído por Bábaji, um lendário iogue de sua época (considerado por muitos hindus como “o maior dos iogues perfeitos”).

A conexão de Kabir com grandes místicos do seu século não termina aí. No siquismo se diz que Kabir também foi uma das inspirações do próprio guru Nanak (1469-1539). A poesia de Kabir também encontra paralelos evidentes tanto com o misticismo hindu (sobretudo a bhakti yoga) quanto com o sufismo, o misticismo islâmico.

Assim sendo, não surpreende que Tagore, não mais do que dois anos após alcançar o reconhecimento ocidental com o seu Nobel, tenha se dedicado a selecionar e traduzir poemas de Kabir para o inglês. Através desta obra, Songs of Kabir (As Canções de Kabir), o grande poeta de Varanasi foi finalmente conhecido no Ocidente.

Antes de lhes apresentar trechos deste livro, resta-nos ainda uma última lenda (ou anedota) por contar:

Quando Kabir morreu, tanto os hindus quanto os muçulmanos o reivindicaram como deles e houve uma disputa para cremar ou enterrar seu cadáver. Os hindus queriam cremá-lo conforme a sua tradição e os muçulmanos queriam enterrá-lo, seguindo seus costumes. Há uma história popular a respeito de sua morte, que é ensinada como evento histórico em muitas escolas indianas: ela conta que quando abriram o caixão para disputar o corpo, lá encontraram um livreto sobre sua filosofia desdenhando tanto as crenças hindus quanto as islâmicas, e um buquê com suas flores favoritas! O corpo do santo havia desaparecido e nunca jamais foi encontrado.

Agora sim, para encerrar, algumas canções de Kabir (na tradução de Rafael Arrais):

IV.

Não vá até o bosque!
Ó meu amigo, não vá!

Em seu corpo
existe o bosque, cheio de flores...
Tome o seu lugar
numa das milhares de pétalas da lótus,
e então contemple
a Beleza Infinita.


XIV.

O rio e suas ondas
fluem como um só:
qual a diferença entre eles?

Quando se eleva a onda,
ela é a água;
e quando ela rebenta,
ainda é a mesma água...
Diga-me, ó senhor,
onde está a diferença?

Se acaso a chamaram "onda",
não pode mais ser chamada "água"?

Nas mãos de Brama,
os mundos estão sendo contados
um a um, como as contas de um rosário:
contemple-o com os olhos da sabedoria.


XVI.

Entre os polos da consciência e da inconsciência,
lá a mente fez a sua oscilação:
neste movimento se sustentam todos os seres e todos os mundos,
e este pêndulo jamais deixa de oscilar.

Milhões de seres estão lá;
o sol e a lua e os seus cursos estão lá.
Passam-se milhões de anos,
e seu movimento persiste...

Tudo em fluxo!
O céu e a terra e o ar e a água,
e o próprio Lorde tomando forma:
foi esta a visão que fez de Kabir um servo.


raph

***

Bibliografia
The Songs of Kabir, trad. Rabindranath Tagore (diversas editoras); Kabir: 100 Poemas, trad. José Tadeu Arantes (Attar Editorial); Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search; [ao longo] Joel L.

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5.4.17

Deixaram somente palavras

Texto por Roberto Calasso em O Ardor (Cia. das Letras). Tradução de Federico Carotti. Os comentários ao final são meus.

Eram seres remotos, não só dos modernos, mas de seus contemporâneos antigos. Distantes não como outra cultura, mas como outro corpo celeste. Tão distante que o ponto de onde são observados torna-se quase indiferente. Que isso ocorra hoje ou cem anos atrás, nada de especial muda. Para quem nasceu na Índia, algumas palavras, alguns gestos, alguns objetos podem soar mais familiares, como um irreprimível atavismo. Mas são contornos engraçados de um sonho cujo desenrolar se ofuscou.

Incertos os locais e os tempos em que viveram. Os tempos: mais de três mil anos atrás, mas as variações cronológicas, entre um estudioso e outro, são consideráveis. A área: o norte do subcontinente indiano, mas sem fronteiras precisas. Não deixaram objetos nem imagens. Deixaram somente palavras. Versos e fórmulas que marcavam rituais. No centro deles aparecia uma planta inebriante, o soma, que até hoje não foi identificada com precisão. Já naquela época falavam dela como uma coisa do passado. Ao que parece, não conseguiram mais encontrá-la.

A Índia védica não teve uma Semíramis nem uma Nefertiti, tampouco um Hamurabi ou um Ramsés II. Nenhum DeMille conseguiu encená-la. Foi uma civilização em que o invisível prevalecia sobre o visível. Esteve, como poucas outras, exposta à incompreensão. Para entendê-la, é inútil recorrer aos fatos, que não deixaram traços. Permanecem apenas os textos: o Veda, o Saber. Composto de hinos, invocações, esconjuros, em versos. De fórmulas e prescrições rituais, em prosa. Os versos vêm inseridos em determinados momentos de ações rituais muito complexas. Eles vão desde a dupla libação, agnihotra, que o chefe da família deve realizar sozinho, todos os duas, por quase toda a vida, até o sacrifício mais importante – o “sacrifício do cavalo”, asvamedha –, que envolve a participação de centenas e centenas de homens e animais.

Os Arya (“os nobres”, como os homens védicos chamavam a si mesmos) ignoravam a história com uma insolência que não encontra igual nos anais das outras grandes civilizações. Conhecemos os nomes de seus reis apenas por alusões no Rigveda e por episódios narrados nos Brahmana e nas Upanisad. Não se preocuparam em deixar memória de suas conquistas. E, mesmo nos episódios de que chegaram notícias, não se trata tanto de ações – bélicas ou administrativas –, mas de conhecimento.

Quando falavam em “atos”, pensavam principalmente em atos rituais. Não surpreende que não tenham fundado – nem sequer tenham tentado fundar – um império. Prefeririam pensar sobre qual é a essência da soberania. Eles a encontraram em sua duplicidade, em sua divisão entre brâmanes e xátrias, entre sacerdotes e guerreiros, auctoritas e potestas. São duas chaves, sem as quais nada se abre, sobre nada se reina. Toda a história pode ser considerada sob o ângulo de suas relações, que incessantemente mudam, se ajudam, se ocultam – nas águias bicéfalas, nas chaves de São Pedro. Há sempre uma tensão que oscila entre a harmonia e o conflito mortal. Sobre essa diarquia e suas infindáveis consequências, a civilização védica concentrou-se com a mais alta e sutil clarividência.

[...] Não havia templos, nem santuários, nem muralhas. Havia reis sem reinos de fronteiras traçadas e seguras. Moviam-se periodicamente em carroças com rodas dotadas de raios. Essas rodas foram a grande novidade que criaram: antes delas, nos reinos de Harappa e Mohenjo-daro, apenas as rodas compactas, maciças e lentas eram conhecidas. Assim que paravam, tratavam principalmente de preparar e acender fogueiras. Três fogueiras, uma circular, uma quadrara de uma em forma de meia-lua. Sabiam cozer tijolos, mas os usavam somente para construir o altar que ocupava o centro de um de seus rituais. Tinha o formato de um pássaro – um falcão ou uma águia – de asas abertas. Chamavam-no “o altar do fogo”.

Passavam a maior parte do tempo numa clareira aberta, em leve declive, onde se concentravam ao redor dos fogos murmurando fórmulas a cantando fragmentos de hinos. Era uma ordem de vida impenetrável, a não ser após longo aprendizado. Imagens pululavam em suas mentes. Talvez, também por isso, não se interessavam em entalhar ou esculpir figuras dos deuses. Como se, já estando cercados por elas, não sentissem necessidade de acrescentar outras.

Quando os homens do Veda desceram ao Saptasindhu, à Terra dos Sete Rios e depois à planície do Ganges, grande parte do território era coberta por florestas. Abriram caminho com o fogo, que era um deus: Agni. Deixaram que ele traçasse uma teia de cicatrizes. Viviam em aldeias provisórias, em cabanas sobre estacas, com paredes de junco e teto de palha. Seguiam os rebanhos, deslocando-se sempre para o leste, às vezes parando diante de imensas extensões de água. Foi essa a época áurea dos ritualistas.


Comentários
É assim que se inicia a monumental obra de Roberto Calasso, um intelectual de Florença, na Itália, que além de conhecer diversas línguas e países, é também um estudioso profundo de sua história, literatura e mitologia. No caso dos Vedas e do hinduísmo, no entanto, é talvez onde Calasso tenha de fato ido “até onde nenhum estudioso ocidental jamais esteve”.

Em O Ardor, Calasso esmiúça os primórdios quase insondáveis do “povo dos Vedas”, que se iniciam precisamente no Rigveda, o primeiro e mais antigo. Trata-se dos hinos e rituais de um povo ainda nômade, ainda recém-saído do xamanismo arcaico, que mal havia se estabelecido as margens do Ganges. Talvez fosse algo para ser descartado, não fosse pelo fato deste mesmo povo ter concebido, nos milênios que se seguiram, uma das literaturas espirituais mais profundas e iluminadas, com seus milhares de deuses, e que veio a culminar na grande pérola conhecida como Bhagavad Gita.

Calasso por vezes é criticado por inserir muito da sua própria opinião, da sua própria visão de mundo ocidental, nas análises que faz dos Vedas, mas eu penso que isso seja justamente a sua grande qualidade, e não um defeito: ter a coragem de interpretar os Vedas, e não somente relatá-los, como um arquivista do Céu. Assim, para quem se interessa por hinduísmo ou pelos primórdios da espiritualidade oriental, este livro é altamente recomendado: você pode encontrá-lo à venda na Amazon.

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Crédito da imagem: Google Image Search/hinduhumanrights.info

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11.12.15

Jesus na Índia

Suponha que você seja um detetive, e se depara com um caso incomum. Não se trata de um caso de identidade incerta ou de pessoa desaparecida; trata-se de um histórico incerto, de anos sem qualquer tipo de registro, onde os detalhes são poucos... Dia de nascimento: desconhecido. Ano de nascimento: desconhecido; presumido entre 8 e 4 a.C. Lugar de nascimento: incerto; acredita-se que seja Belém.

No entanto, a história da humanidade é dividida pelo seu nascimento: antes de Cristo, depois de Cristo... Este não é um caso simples, é uma investigação sobre a vida de uma das pessoas mais influentes da História. Agora você já deve saber no que está se metendo...

É assim que Edward Martin inicia a narração do seu instigante documentário sobre os chamados “anos perdidos” da vida de Jesus de Nazaré, isto é, tudo o que pode ter ocorrido durante os cerca de 18 anos de sua vida que simplesmente não aparecem em nenhum trecho do Novo Testamento.

De fato, só há um único episódio da infância de Jesus, relatado em Lucas 2:42-51, onde o garoto, então com meros 12 anos, é encontrado pelos pais num templo de Jerusalém (após haver se perdido por alguns dias), conversando com rabinos mais velhos, enquanto “todos os que o ouviam admiravam a sua inteligência e respostas”. Logo depois, em Lucas 3, já está adulto, sendo batizado por João Batista.

Uma das hipóteses “que se recusa a morrer” acerca do que teria feito Jesus nessas quase duas décadas de intervalo é a que afirma que ele rumou para a Índia, onde se instruiu tanto no hinduísmo quanto no budismo com grandes mestres, e depois retornou para reformar o judaísmo.

Na época de Jesus, se alguém quisesse sair de Israel para aprender sobre outros costumes, culturas e religiões em regiões mais afastadas, a rota mais segura e conhecida sem dúvida seria a chamada Rota da Seda, que já existia há milhares de anos, principalmente em sua via terrestre. Ora, esta rota terminava precisamente no coração da Índia, e podia ser feita a pé, ou na carona de caravanas de mercadores. A hipótese, portanto, é bem mais verossímil do que parece a primeira vista.

Mas há mais: no final do século 19, o jornalista e explorador russo Nicolas Notovich disse haver encontrado manuscritos milenares no Tibete, dentre os quais um chamado A Vida do Santo Issa, que ele traduziu e publicou no Ocidente. Ora, Issa é o nome de Jesus no Oriente e também entre os muçulmanos [1].

Até hoje acusam Notovich de haver inventado a história toda, pois os manuscritos originais nunca foram encontrados. No entanto, fato é que em pleno século 21 ainda circulam muitas “lendas” acerca da passagem de Jesus pela Índia. Será que podemos deduzir, neste caso, que “onde há fumaça, há fogo”?

Isso é o que esse documentário investigativo tenta descobrir. Apesar de se arrastar nalguns momentos e de ser bem mais longo do que merecia, tem a vantagem de praticamente esgotar o assunto, e ainda fazer um belíssimo elogio ao ecumenismo, já pelo final... Assistam com a alma aberta. Feliz Natal, e Namastê!

***

[1] Apesar da grafia diferente, Jesus, Issa (ou Isa) e Yeshua (seu nome original em hebraico) provavelmente tinham pronúncias muito parecidas há milênios atrás. “Jesus” poderia ter o “J” pronunciado como “IÊ”, formando algo como “Iêzu”, nada tão distante de “Yeshu”. Já “Issa” pode ter surgido da mistura com as pronúncias árabes e/ou persas.

Crédito da imagem: Google Image Search

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12.2.10

O reino de Asoka, parte 3

continuando da segunda parte...

Atordoado pelo olhar firme e tranqüilo daquele monge pronto para a morte, Asoka se lembrou do olhar do avô, pouco antes da batalha em que desapareceu, tornando-se um monge jainista. Sacou a espada do avô e cravou-a ao solo, próximo de Samudra, que então fechou brevemente os olhos e disse:

“Vejo que está pronto, o primeiro ato para a não-violência é deixar a espada de lado.”

“Sim, agora eu entendo o que meu avô quis dizer. Em minha última batalha em Kalinga, matamos mais de 100 mil homens de seu exército, e perdemos 10 mil de nossos soldados. Que maldição! Que ignorância! O que eu tenho feito? Se foram vitórias o que obtive nesses anos todos, o que seriam então derrotas? Alguém perdeu seu marido, e outro um pai, ainda outro um filho, e há mulheres que tenham perdido a vida junto com sua criança na barriga... Não há sentido em tamanha loucura, se conquistar significa dizimar, então todos os conquistadores são tolos, e eu sou o maior deles!”

“Mas foi para os tolos que o Buda trouxe seus ensinamentos. Enquanto vivia em seu palácio, ignorante do sofrimento do mundo, eis que ele mesmo era também um tolo. Para tudo isso há remédio. Só não há remédio para quem está ainda cego, para quem insiste em caminhar no caminho circular, e retorna sempre para onde acabou de sair...”

“Mas como eu vou me regenerar? Como vou convencer o povo da não-violência, se eu mesmo tenho sido um invasor brutal?”

“Primeiro com o exemplo, depois com o ensinamento das nobres verdades do senhor Buda. É isso que todos temos feito, a diferença é que eu sou monge, e comando apenas a mim mesmo, e você é imperador: o seu fardo é mais pesado.”

“Oh nobre Samudra, que os deuses lhe abençoem por ter me encontrado  nesta prisão. Eu que um dia quis conquistar toda a extensão dos horizontes, hoje percebo que até hoje conquistei apenas sombras e fumaça, e o que sou permaneceu selvagem e descontrolado. De agora em diante irei conquistar apenas a mim mesmo, e farei de tais ensinamentos a lei para todo o meu império!”

E o primeiro ato de Asoka foi destruir o seu poço infernal, e destituir Girika do cargo de executor real, não mais necessário. Com o auxílio de Samudra, estabeleceu novas leis para o Império Máuria, que foi o grande responsável pela propagação do budismo no mundo antigo.

Asoka defendeu até o fim da vida os princípios do dharma, como a não-violência, a tolerância a seitas e opiniões contrárias, a obediência aos pais, o respeito aos brahmans, professores e sacerdotes de todas as religiões, a tendência para a amizade entre os povos, a observação dos direitos humanos de escravos e serviçais, e até mesmo aos direitos dos animais...

Embora certamente pudesse ter marchado e seguido em suas conquistas territoriais até a borda do império romano, e provavelmente além dela, deixou a fronteira do império intacta, e se preocupou apenas com a conquista da verdade. Asoka ficou desde então conhecido como Dhammashoka (sânscrito), “o seguidor do dharma”, ou simplesmente como Asoka o Grande .

Em todas as grandes cidades, mandou construir os Pilares de Asoka, muito mais famosos que seus poços infernais: ao invés de prisões que se estendiam para abaixo do solo, construiu pilares que apontavam para o céu, com as leis do dharma gravadas em sua superfície, para que todos os povos pudessem ler.

Eis a história de como um homem teve de abdicar de seu vasto reino para finalmente conquistar algo de real. E conquistando a si mesmo, tornou-se enfim um verdadeiro imperador de homens e almas de homens, e não de sombras e cadáveres... Não se sabe se Asoka conseguiu limpar a consciência de todas as guerras e execuções, e de todos os sonhos sombrios de glórias efêmeras que tenha tido em sua fase de caminhos circulares e ignorância – porém, desde que encontrou o caminho sem fim para a verdade, reconheceu qual era o melhor caminho. E isso é, no fim, o que importa.

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Crédito da foto: Velachery Balu (réplica dos 3 leões esculpidos sempre no topo dos Pilares de Asoka - há ainda muitos pilares originais na Índia)

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11.2.10

O reino de Asoka, parte 2

continuando da primeira parte...

Um dos ministros de Asoka exercia o cargo de conselheiro direto do imperador. Asoka confiava plenamente nele, e acatava muitos de seus conselhos. O conselheiro então, verificando que Asoka perdia mais tempo preocupado em julgar e executar os criminosos, rebeldes e traidores do império, do que em efetivamente governar as províncias, aconselhou-o: “crie o cargo de executor real, deixe que outra alma se encarregue dessas decisões negras, e fique livre para governar sem se preocupar em julgar.”

“Mas onde vou encontrar alguém que seja tão implacável quanto eu em seus julgamentos?” – perguntou o jovem imperador. O conselheiro então indicou um jovem chamado Girika, que diziam ser tão maquiavélico que não poupara nem a própria família de sua ira. Seguindo o conselho mais uma vez, Asoka nomeou o jovem Girika como executor real. Em seu primeiro dia no cargo, Girika ordenou a construção de um poço nas imediações da capital. Diziam que era um poço inspirado no mesmo poço que Asoka construiu para matar o irmão. No entanto, em torno da construção cresciam belos jardins, de modo que mais parecia que uma casa de descanso paradisíaca estava sendo construída sob a terra.

Quando o poço oculto em sua entrada florida ficou pronto, Girika chamou Asoka para inspecionar a obra:

“Eis o inferno sobre a terra, meu senhor!” – exclamou Girika.

“Inferno? Mas como? Isso mais parece um jardim de meditação” – respondeu-lhe Asoka, um tanto confuso.

Girika então convidou o imperador para adentrar o poço, e Asoka percebeu que os jardins da entrada escondiam um poço ainda mais infernal do que o anterior: rios de óleo negro escaldante escorriam por entre frestas nas paredes, apenas pequenas ilhas de pedra pontiaguda se elevavam acima do mar de fogo – quem quer que ali fosse jogado, teria uma morte dolorosa, definitivamente!

Asoka ficou maravilhado com a obra, e perguntou se Girika não necessitava de alguma compensação por tão brilhante empreendimento. O executor real apenas pediu para que qualquer um que fosse condenado a entrar naquela prisão disfarçada, nunca mais pudesse sair dali. O imperador concordou, e então estava criado o famoso Inferno de Asoka...

Durante os anos que se passaram, muitos foram os condenados ao Inferno de Asoka. Ludibriados por sua aparência externa, muitos condenados o escolhiam de livre vontade, imaginando que se tratava apenas de um jardim recluso, onde cumpririam sua pena em vida contemplativa. E assim foram as histórias de dolorosas mortes no lago infernal de Asoka, até que um monge budista foi confundido com um rebelde, e condenado injustamente ao poço.

Samudra era monge à muitos anos, e se encantou com os belos jardins que escondiam o Inferno de Asoka. No entanto, lá adentrando, percebeu que logo teria seu fim. Ao contrário de todos os outros que encararam o lago de fogo, Samudra não pareceu se abalar nem um pouco com seu destino. Girika pareceu comover-se com o fato, e chamou seu mestre para se certificar de que gostaria mesmo de arremessar aquela criatura pacífica no poço.

Asoka veio e, observando a atitude do monge, questinou-o:

“Porque está sorrindo para mim? Você não é um dos rebeldes que gostaria de me ver morto?”

“De modo algum, não sou eu quem decide quem vive e quem morre. Por acaso o senhor pode decidir sobre a vida e a morte?”

“É claro, eu sou Asoka, imperador de todas as terras ao sul e futuro conquistador dos povos do ocidente e do norte. Minha palavra é a lei!”

“Muitos antes de você também disseram o mesmo, e hoje se foram. Não há quem possa decidir quando e como vai morrer. Tudo o que sabemos é que partiremos um dia, então porque a necessidade de um império? Nenhum império atravessa o véu conosco, para o lado de lá...”

Asoka nunca havia sido tratado de forma tão insolente desde que se tornara imperador. Furioso, fitou o monge e bradou:

“Se eu ordenar, Girika irá arremessá-lo neste poço e terá uma morte terrível! É isso o que quer, testar se sou ou não sou capaz de decidir quem vive e quem morre? Pois posso lhe matar neste momento!”

O monge fitou o imperador, sem perder o sorriso entre os lábios nem por um momento:

“E não foi o que eu disse? Você pode até decidir quando alguém vai morrer, mas de sua própria morte, isso ninguém sabe. No entanto, fico feliz por ter conhecido jardim tão belo pouco antes de aqui adentrar... Vou manter o jardim em mente, e esquecer que estarei derretendo em um lago de fogo.”

Asoka ficou atônito. De certa forma, de todas as batalhas que havia participado, em nenhuma delas havia enfrentado um homem tão corajoso quanto aquele monge. Asoka dominava vasta extensão da Ásia, e era tratado como um semi-deus por seu povo, mas nunca havia conseguido encontrar aquela paz que via na feição de um ser pronto para a morte. Aliás, para uma morte dolorosa.

Samudra entoou um belo cântico budista, respirou profundamente e olhou fundo nos olhos de Asoka:

“Vá, faça o que tem de fazer. Mate-me!”

continua...

***

Crédito da foto: buecherwurm

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10.2.10

O reino de Asoka, parte 1

Esta é a história de Asoka, e de como um homem teve de abdicar de seu vasto reino para finalmente conquistar algo de real [1]...

Asoka era um dos filhos do imperador Bindusara, e neto do grande Chandragupta Maurya, primeiro grande imperador da Índia, que surgiu do norte com um bando de tribos e acabou conquistando quase todo o território indiano moderno, no que ficou conhecido pela história com o Grande Império Máuria, que durou de 322 a 185 a.C.

O avô de Asoka conviveu com o neto durante sua infância, e muitos diziam que se tratava do seu neto favorito: “possuí um grande intelecto e habilidade em combate incomparável, com o tempo e a sabedoria se tornará o imperador ideal”. Chandragupta sabia do que estava falando, havia batalhado a vida toda, conquistado cada palmo de terra ao custo de inúmeras vidas e rios de sangue. No fim da vida, este peso sobre as costas era cobrado pela sabedoria que adquirira ao entrar em contato com a religião dos jainistas. Que paradoxo: o homem responsável por tanta matança, em seu íntimo sabia que estava condenado pela própria consciência, agora aberta para as idéias mais profundas do Jainismo.

Foi em uma de suas batalhas que Chandragupta desapareceu para se tornar um monge jainista, deixando para trás apenas a sua espada fincada nas planícies de arroz e sangue. O avô de Asoka havia lhe alertado que ninguém deveria carregar tal espada, amaldiçoada por anos e anos de matanças. Mas Asoka ignorou o aviso: ao avistar a espada do avô, guardou-a antes que outros de seus irmãos e meio-irmãos mais velhos a vissem. Este foi o início do desejo de Asoka de se tornar, ele também, um grande imperador!

Susima era um dos irmãos mais velhos de Asoka, apenas mais um preocupado em ser o escolhido do pai para se tornar o próximo imperador do Grande Império Máuria. Em seu jogo de política e influência, conseguiu sorrateiramente convencer o pai a enviar Asoka para as províncias mais perigosas do reino, onde haveria mais chances de perder uma batalha contra os rebeldes e invasores, e ser definitivamente eliminado da disputa. Asoka, entretanto, repelia os invasores com táticas de batalha cuidadosamente planejadas, e acalmava e persuadia os rebeldes com seu carisma e sua oratória épica, sempre prometendo a todos que comandaria o império até conquistar todas as terras conhecidas...

Apesar do pai, Bindusara, não ter Asoka como seu preferido, com o tempo e os contínuos sucessos de suas campanhas, todos os ministros do imperador sabiam que a escolha mais sensata seria Asoka, e não seu irmão Susima. A sorte de Asoka brilhou no dia em que seu pai morreu repentinamente, tossindo sangue, enquanto seu irmão Susima estava distante da capital do império. Todos os ministros se apressaram em coroar Asoka o imperador, ainda que todos esperassem o retorno de Susima e algum conflito em relação à questão. “Pena que Susima vá regressar e tomar o reino de volta, Asoka seria um imperador bem melhor” – refletiam a maioria dos ministros.

Mas não foi o que ocorreu – assim que tomou o poder, brandiu a espada de seu avô, Chandragupta, e bradou a todos: “eu sou o escolhido dos deuses, eles desceram a terra e me trouxeram a espada de meu avô, eu serei o imperador do mundo!” – Não houve quem duvidasse que Asoka realmente desejava conquistar todo o mundo. E o retorno de seu irmão era apenas o primeiro obstáculo que se interpunha entre ele e seu grande objetivo.

Asoka então mandou construir o primeiro de seus poços infernais na entrada da capital: era um buraco fundo o suficiente para que toda a guarda pessoal de seu irmão caísse, ao galopar de volta descuidadamente. No interior, carvão em brasa. Susima e toda a sua guarda tiveram uma morte agonizante em meio ao fogo e as estocadas de lança dos soldados do império, agora leais a Asoka. Os ministros que não concordaram com a forma brutal com que Asoka eliminou sua concorrência direta ao trono foram banidos ou executados impiedosamente. Nascia um novo Asoka, um homem determinado, sombrio, sanguinário, que não mediria esforços até que seu desejo fosse concretizado:

Asoka o Cruel queria dominar todas as terras abarcadas pelo horizonte!

continua...

***

[1] Conto baseado na vida de Asoka o Grande, imperador Máuria de 269 a 232 a.C., e figura mítica do Budismo. Não necessariamente absolutamente fiel a história.

***

Crédito da ilustração: Divilgação do filme Asoka (2001).

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