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29.7.16

O Estado Anti-Islâmico

O termo Islã deriva de uma antiga palavra árabe que significa “submissão”. Num contexto místico-religioso, é claro que estamos falando de uma “submissão a Deus” e, dessa forma, fica subentendido que todos os verdadeiros islâmicos, os realmente religiosos e místicos, buscam a Deus dentro de si e em tudo o que há. A sua guerra é interna, e a única conquista que desejam é o amor divino.

O Estado Islâmico, dessa forma, está mais para Anti-Islâmico; eles não se submetem de fato a alguma divindade que lhes habita a alma, mas tanto o inverso disto: esperam que o mundo inteiro se submeta as suas regras, ao seu califado sombrio.

Eles basicamente entenderam a religião pelo inverso, mas isto não ocorreu da noite para o dia, e nem é exclusividade do islamismo, ou mesmo de doutrinas religiosas desvirtuadas. Como sabemos, os homens se dedicam a se matar uns aos outros há tempos e pelas mais variadas razões, e ainda que por vezes tentem justificar sua carnificina usando o nome de Deus, na prática eles fazem guerras pelo mesmo motivo de sempre, a mesma ignorância antiga e persistente: por estarem submissos aos territórios, as riquezas e ao poder mundano.

Para os que buscam “evangelizar” o terror, “Deus” é apenas uma palavra, uma desculpa. Como não conseguem se submeter ao Deus que lhes habita, como o evitam a todo custo e a todos os momentos, como temem se abandonar no amor, e aniquilar os seus próprios egos, eles buscam justificar sua própria ignorância da religião subvertendo o sentido de tudo: o caminho então já não é buscar a Deus em mim, mas ter certeza de que todos creiam na mesma doutrina que eu creio, nem que para isso eu precise recorrer a violência extrema, ao caos e ao medo.

Apesar de muitas doutrinas religiosas e ideologias políticas terem a sua cota de sangue pela história humana, é inegável o fato de que hoje, no início deste novo século, foi o islamismo quem pariu a cria mais nefasta e perigosa. E quem deve admitir isto são primeiramente os próprios islâmicos, uma vez que são eles os que mais sofrem com o chamado Estado Islâmico: os países que fazem fronteira com suas bordas no Iraque e na Síria, em sua maioria de muçulmanos, são aqueles que mais sofreram atentados, os que mais tiveram baixas em combates militares, e os que mais receberam refugiados.

No entanto, como vinha dizendo, tal organização pseudo-religiosa não surgiu do dia para a noite. O Estado Islâmico é uma cria do wahabismo, e o wahabismo não teria chegado onde chegou não fosse pela condescendência da Arábia Saudita.

Fica mais fácil explicar contanto uma triste história:

Era manhã em Karbala, uma cidade próxima de Bagdá, e o mercado local estava cheio quando todos ouviram gritos. Um grupo de homens vestidos de preto, levando espadas e bandeiras negras, invadiu o mercado matando crianças, mulheres, idosos e adultos; indistintamente e sem pena. Eles continuaram com a matança avançando pelas ruas até tomar o controle de toda a cidade. Alguns afirmam que, apenas neste dia, cerca de 4 mil pessoas morreram.

Os homens vestidos de preto que organizaram tal ataque não eram do Estado Islâmico. O massacre ocorreu há mais de 200 anos e o grupo era comandando por um dos primeiros governantes da Arábia Saudita, que havia acabado de fundar um novo movimento religioso ultraortodoxo e radical dentro do Islã, o wahabismo.

Segundo o professor Bernard Haykel, de Princeton, especialista em teologia islâmica [1], "o wahabismo sempre foi descrito popularmente como a mãe de todos os movimentos fundamentalistas”.  “No entanto” – ele prossegue –, “para encontrar a inspiração ideológica destes movimentos é preciso voltar ao salafismo jihadista".

O salafismo remonta ao século 19 e uma de suas figuras mais influentes foi um homem chamado Muhammad ibn Abd al Wahhab, um pregador nascido em um lugar remoto da Península Árabe em torno de 1703. Segundo Haykel, "ele acreditava que os muçulmanos tinham se distanciado da verdadeira mensagem do Islã, e ficou horrorizado com o que via em Meca, o lugar sagrado para os muçulmanos, com os nobres vestidos de forma extravagante, fumando haxixe e escutando música".

Wahhab era um fundamentalista que queria "purificar" o Islã, crendo que para tal bastaria que todos se voltassem aos princípios básicos da fé. E assim, gradualmente, suas ideias foram se espalhando... Mas é claro que nem todos estavam de acordo e, como era de se esperar, ele acabou expulso do vilarejo onde morava.

Após peregrinar sem rumo, eventualmente encontrou abrigo junto ao homem que governava uma pequena cidade vizinha, Muhammad Ibn Saud, com quem fechou um acordo em 1744. Com este acordo, foram firmadas as bases para a formação de toda a região: Saud se comprometeu a apoiar Wahhab política e militarmente e, em troca, Wahhab conferiria a Saud uma “legitimidade religiosa”.

Juntos, eles tomaram o controle de muitas cidades no entorno. Saud reinava e Wahhab pregava e colocava em prática o que acreditava ser “o islamismo puro”. Segundo Haykel, “eles tinham listas de todos os membros da comunidade e assim garantiam que todos eles iam à mesquita cinco vezes ao dia para orar. Era uma imposição da fé que aplicavam quase como justiceiros, uma versão intolerante da fé que no Islã tradicional não existe".

A aliança entre Wahhab e Saud continuou conquistando territórios. Pelo final do século 18 eles já controlavam quase toda a Península Árabe. Desta forma foi estabelecida a união histórica entre a Arábia Saudita e o wahabismo. Portanto, não deveria causar espanto que muitas das execuções transmitidas online pelo Estado Islâmico sejam muito parecidas com as execuções oficiais da Arábia Saudita: não poderia ser de outra forma, pois que ambos os estados, o oficial e o terrorista, de certa forma seguem a uma mesma lei sombria.

Nos dias de hoje há um debate acirrado entre os especialistas sobre se realmente Wahhab pregava a violência ou se suas ideias foram manipuladas por Saud e pelos descendentes e partidários que vieram depois dele, e eventualmente fundaram a Arábia Saudita em 1932, mas seja como for, fato é que a ignorância do verdadeiro Islã venceu, e o que restou foi somente o dogma e a violência, sem muito espaço para nada que lembre, nem de longe, alguma espécie de misticismo.

Decerto não ajudou em nada o Reino dos Saud estar situado bem em cima  das maiores reservas de petróleo e gás natural do mundo. Somente tanta riqueza farta, afinal de contas, pode explicar como a sua monarquia sobreviveu até o nosso século, e como ainda conseguem se manter aliados do Ocidente e dos EUA, que convenientemente se esquecem de que os maiores grupos terroristas da nossa época basicamente não existiriam não fosse pela “vista grossa” que os governantes sauditas fizeram e ainda fazem em relação ao wahabismo.

Claro que estou resumindo bastante a história. Sempre vale lembrar que há séculos persiste o conflito entre duas vertentes do Islã: os sunitas e os xiitas [2]. No atual jogo de xadrez do Oriente Médio, a maior nação xiita é o Irã, enquanto que a maior nação sunita é a própria Arábia Saudita. Dessa forma, uma vez o wahabismo sendo uma vertente radical do sunismo, também foi sempre conveniente para os governantes árabes “fingirem que não estavam vendo” grupos radicais surgindo aqui e ali, dentro de seu próprio território, uma vez que eles eram a promessa de muito trabalho para os seus inimigos iranianos.

Mas certamente ninguém imaginou que a ignorância e a violência chegariam aos níveis atuais. Claro, é bem provável que o mar de refugiados batendo a porta da Europa tenha causado mais problemas para as “boas relações” do Ocidente com os sauditas do que propriamente os anos e anos de extermínios no Iraque, na Síria e no Curdistão, mas fato é que ainda hoje há muita gente que lucra com o Estado Islâmico. Afinal, eles ainda têm de encontrar compradores para sua produção de petróleo nos poços que vieram a conquistar; e, da mesma forma, alguém tem de estar lhes vendendo armamento de guerra. Quem será? Interessa ao Ocidente saber? Vocês me digam...

O Estado Islâmico é um câncer e uma mancha cada vez mais sombria na luz do verdadeiro Islã. Mas é chegada a hora de enfrentá-los de verdade, pois temos visto que apenas o discurso não tem dado tão certo.

E, no entanto, por mais bombas que joguem em suas cabeças, nada me parece tão letal para a sua doutrina do que estas palavras, as palavras de um poeta do século 13, um poeta que também foi um religioso islâmico, e é lembrado até hoje. O wahabismo é incapaz de sobreviver à poesia de Jalal ud-Din Rumi:

O que eu posso fazer, ó muçulmanos? Eu não me conheço mais. Não sou cristão ou judeu. Nem um islâmico, nem um mago. Não venho nem do Oriente nem do Ocidente. Nem do continente, nem do mar. Tampouco do Manancial da Natureza, ou dos céus circundantes. Nem da terra, nem da água, nem do ar, nem do fogo.

Não venho do trono, nem do solo. Nem da existência, nem do ser. Nem da Índia, nem da China, Bulgária ou Saqseen; nem do reino do Iraque ou de Khorasan; nem deste mundo nem do próximo: nem céu nem inferno. Nem de Adão nem de Eva. Nem dos jardins do Paraíso nem do Éden.

Meu lugar é sem lugar, minhas pegadas não deixam rastros. Nem corpo nem alma: tudo que há é a vida do meu Amado.

Eu afastei toda dualidade: eu vi dois mundos como um. Eu desejo Um, eu conheço Um, eu vejo Um, eu clamo: “Um”.

***

[1] Trechos retirados de artigo da BBC.

[2] A história remonta a uma cisma ocorrida ainda no século 7, 30 anos após a morte de Maomé, quando após o assassinato do atual califa (governante religioso), um grupo (os xiitas) defendeu que um primo de Maomé deveria ser o novo califa, enquanto outro (os sunitas) defendeu que tal cargo caberia a um amigo de Maomé, que no entanto não era seu parente de sangue. Os sunitas venceram a disputa e, ainda hoje, são o grupo majoritário, com cerca de 84% dos islâmicos do globo.

***

Para quem quiser se aprofundar no tema, indico o livro Estado Anti-Islâmico da jornalista brasileira e muçulmana Chadia Kobeissi (obs.: este artigo foi publicado anteriormente ao lançamento do livro, o título similar é somente uma feliz coincidência).

Crédito da imagem: Google Image Search/khamenei.ir (uma comparação entre as execuções na Arábia Saudita e no Estado Islâmico)

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3.12.15

O amigo terrorista

Na Arábia Saudita, o cinema é proibido, e não há escolas de arte. No entanto, sabe-se lá como, há uma cena artística saudita que vem crescendo e se tornando cada vez mais ativa na crítica ao regime monarquista.

Apesar do governo saudita tentar abafar ao máximo tudo o que ocorre dentro de seu território que atenta flagrantemente contra os direitos humanos, está cada vez mais difícil esconder absolutamente tudo... Recentemente um caso em particular criou certa comoção online – nele, um poeta foi condenado à morte:

Um tribunal saudita ordenou no final de Novembro (2015) a execução de Ashraf Fayadh, poeta palestino que vive na Arábia como refugiado. Ele tem agora pouco menos de 30 dias para recorrer da decisão. Mas ativistas que vêm acompanhando o processo contam que no momento lhe é vedado o acesso a representantes legais, e todas as visitas são proibidas.

Com 35 anos, Fayadh é um dos responsáveis pela associação cultural e artística Edge of Arabia, e já organizou várias exposições na Europa, inclusive na Bienal de Veneza, mas foi a sua poesia que o levou à prisão, primeiro em Agosto de 2013, e novamente em Janeiro de 2014.

Em Maio de 2014, um tribunal de Abha, no sudoeste da Arábia Saudita, condenou-o a quatro anos de prisão e 800 chicotadas. Mas Fayadh voltou a ser julgado no mês passado e um novo juiz resolveu lhe condenar à morte após ler trechos do seu livro de poemas publicado em 2008, cujo título pode ser traduzido para algo como Instruções no Interior.

A forma brutal com a qual a justiça saudita costuma aplicar sua pena capital – usualmente decapitações –, aliada ao fato de termos um poeta condenado a esse tipo de pena, levou muitos internautas europeus a denunciarem o caso no twitter. Um britânico chegou a comparar a Arábia Saudita ao Estado Islâmico, e o governo saudita ameaçou processá-lo.

De fato, se pararmos para uma rápida reflexão, poderemos constatar que a grande diferença entre o Estado Islâmico e a Arábia Saudita é o fato do primeiro ser considerado um estado não oficial, terrorista, e o último ser, basicamente, um aliado do Ocidente, uma espécie de “amigo terrorista” com quem ninguém quer realmente criar problema. E, claro, ambos se declaram islâmicos, mas certamente usam isso, hoje em dia, mais para justificar uma espécie de feudalismo arcaico do que propriamente para seguir os preceitos do Corão.

Afinal, um verdadeiro seguidor do Corão jamais condenaria um poeta à morte por decapitação. Ponto.

Dizem que Fayadh foi condenado porque sua poesia “prega o ateísmo”. Mas não é exatamente isso que sentimos ao ler seus poemas. Abaixo, segue um trecho do livro traduzido pelo jornalista Jorge Pontual e lido, pelo próprio, no programa GloboNews em Pauta:

Asilo,
ficar de pé no fim da fila
para receber um pedaço de pão.

De pé, como seu avô ficava,
sem saber porquê...
O pedaço de pão?

Você.

A pátria:
Um cartão para por na sua carteira.
Dinheiro:
Papéis com fotos de líderes.
A foto?

O que substituí você,
até o seu retorno...

E o retorno?
Uma criatura mitológica,
daquelas histórias que a sua vó contava.

O petróleo é inofensivo,
a não ser pela pobreza que deixa em seu rastro.
No dia em que os rostos
dos que descobrem mais um poço
ficarem escuros,
e quando soprarem vida no seu coração
para que possam extrair mais petróleo
da sua alma, para uso público:
Esta será a verdadeira promessa do petróleo.

Você é inexperiente,
lhe faltam as gotas de chuva
para lavar os restos do seu passado
e liberá-lo do que chamam “devoção”;
daquele coração capaz de amar e brincar,
e de interagir com sua obscena retirada
daquela flácida religião;
daquela pregação falsa
de deuses que perderam o orgulho...

Os profetas se aposentaram,
então não espere que os seus
venham até você.
Porque para você os monitores trazem
os seus relatórios diários,
e mostram seus altos salários...

Como o dinheiro é importante para uma vida digna!
Meu avô fica de pé, nu, todos os dias,
sem banimento, sem criação divina...
Fui ressuscitado
sem um sopro de Deus na minha imagem,
sou a experiência do Inferno na Terra.

A Terra
é o Inferno
preparado para os refugiados...


Se este blog fosse hospedado na Arábia Saudita, já não existiria mais.
Se eu morasse por lá, escrevendo tudo o que escrevo, provavelmente já teria sido preso, quem sabe executado.
Mas mesmos nós, os poetas, se somos executados, somos encaminhados ao livramento... do refúgio neste mundo de chumbo.
Mas ai daqueles que matam os poetas em nome de Deus – para eles, o Inferno já se faz presente, e não há realmente escapatória: o Inferno está em seus próprios corações negros, e todos os seus pensamentos são podridão.

***

Crédito da imagem: Google Image Search

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