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12.2.10

O reino de Asoka, parte 3

continuando da segunda parte...

Atordoado pelo olhar firme e tranqüilo daquele monge pronto para a morte, Asoka se lembrou do olhar do avô, pouco antes da batalha em que desapareceu, tornando-se um monge jainista. Sacou a espada do avô e cravou-a ao solo, próximo de Samudra, que então fechou brevemente os olhos e disse:

“Vejo que está pronto, o primeiro ato para a não-violência é deixar a espada de lado.”

“Sim, agora eu entendo o que meu avô quis dizer. Em minha última batalha em Kalinga, matamos mais de 100 mil homens de seu exército, e perdemos 10 mil de nossos soldados. Que maldição! Que ignorância! O que eu tenho feito? Se foram vitórias o que obtive nesses anos todos, o que seriam então derrotas? Alguém perdeu seu marido, e outro um pai, ainda outro um filho, e há mulheres que tenham perdido a vida junto com sua criança na barriga... Não há sentido em tamanha loucura, se conquistar significa dizimar, então todos os conquistadores são tolos, e eu sou o maior deles!”

“Mas foi para os tolos que o Buda trouxe seus ensinamentos. Enquanto vivia em seu palácio, ignorante do sofrimento do mundo, eis que ele mesmo era também um tolo. Para tudo isso há remédio. Só não há remédio para quem está ainda cego, para quem insiste em caminhar no caminho circular, e retorna sempre para onde acabou de sair...”

“Mas como eu vou me regenerar? Como vou convencer o povo da não-violência, se eu mesmo tenho sido um invasor brutal?”

“Primeiro com o exemplo, depois com o ensinamento das nobres verdades do senhor Buda. É isso que todos temos feito, a diferença é que eu sou monge, e comando apenas a mim mesmo, e você é imperador: o seu fardo é mais pesado.”

“Oh nobre Samudra, que os deuses lhe abençoem por ter me encontrado  nesta prisão. Eu que um dia quis conquistar toda a extensão dos horizontes, hoje percebo que até hoje conquistei apenas sombras e fumaça, e o que sou permaneceu selvagem e descontrolado. De agora em diante irei conquistar apenas a mim mesmo, e farei de tais ensinamentos a lei para todo o meu império!”

E o primeiro ato de Asoka foi destruir o seu poço infernal, e destituir Girika do cargo de executor real, não mais necessário. Com o auxílio de Samudra, estabeleceu novas leis para o Império Máuria, que foi o grande responsável pela propagação do budismo no mundo antigo.

Asoka defendeu até o fim da vida os princípios do dharma, como a não-violência, a tolerância a seitas e opiniões contrárias, a obediência aos pais, o respeito aos brahmans, professores e sacerdotes de todas as religiões, a tendência para a amizade entre os povos, a observação dos direitos humanos de escravos e serviçais, e até mesmo aos direitos dos animais...

Embora certamente pudesse ter marchado e seguido em suas conquistas territoriais até a borda do império romano, e provavelmente além dela, deixou a fronteira do império intacta, e se preocupou apenas com a conquista da verdade. Asoka ficou desde então conhecido como Dhammashoka (sânscrito), “o seguidor do dharma”, ou simplesmente como Asoka o Grande .

Em todas as grandes cidades, mandou construir os Pilares de Asoka, muito mais famosos que seus poços infernais: ao invés de prisões que se estendiam para abaixo do solo, construiu pilares que apontavam para o céu, com as leis do dharma gravadas em sua superfície, para que todos os povos pudessem ler.

Eis a história de como um homem teve de abdicar de seu vasto reino para finalmente conquistar algo de real. E conquistando a si mesmo, tornou-se enfim um verdadeiro imperador de homens e almas de homens, e não de sombras e cadáveres... Não se sabe se Asoka conseguiu limpar a consciência de todas as guerras e execuções, e de todos os sonhos sombrios de glórias efêmeras que tenha tido em sua fase de caminhos circulares e ignorância – porém, desde que encontrou o caminho sem fim para a verdade, reconheceu qual era o melhor caminho. E isso é, no fim, o que importa.

***

Crédito da foto: Velachery Balu (réplica dos 3 leões esculpidos sempre no topo dos Pilares de Asoka - há ainda muitos pilares originais na Índia)

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11.2.10

O reino de Asoka, parte 2

continuando da primeira parte...

Um dos ministros de Asoka exercia o cargo de conselheiro direto do imperador. Asoka confiava plenamente nele, e acatava muitos de seus conselhos. O conselheiro então, verificando que Asoka perdia mais tempo preocupado em julgar e executar os criminosos, rebeldes e traidores do império, do que em efetivamente governar as províncias, aconselhou-o: “crie o cargo de executor real, deixe que outra alma se encarregue dessas decisões negras, e fique livre para governar sem se preocupar em julgar.”

“Mas onde vou encontrar alguém que seja tão implacável quanto eu em seus julgamentos?” – perguntou o jovem imperador. O conselheiro então indicou um jovem chamado Girika, que diziam ser tão maquiavélico que não poupara nem a própria família de sua ira. Seguindo o conselho mais uma vez, Asoka nomeou o jovem Girika como executor real. Em seu primeiro dia no cargo, Girika ordenou a construção de um poço nas imediações da capital. Diziam que era um poço inspirado no mesmo poço que Asoka construiu para matar o irmão. No entanto, em torno da construção cresciam belos jardins, de modo que mais parecia que uma casa de descanso paradisíaca estava sendo construída sob a terra.

Quando o poço oculto em sua entrada florida ficou pronto, Girika chamou Asoka para inspecionar a obra:

“Eis o inferno sobre a terra, meu senhor!” – exclamou Girika.

“Inferno? Mas como? Isso mais parece um jardim de meditação” – respondeu-lhe Asoka, um tanto confuso.

Girika então convidou o imperador para adentrar o poço, e Asoka percebeu que os jardins da entrada escondiam um poço ainda mais infernal do que o anterior: rios de óleo negro escaldante escorriam por entre frestas nas paredes, apenas pequenas ilhas de pedra pontiaguda se elevavam acima do mar de fogo – quem quer que ali fosse jogado, teria uma morte dolorosa, definitivamente!

Asoka ficou maravilhado com a obra, e perguntou se Girika não necessitava de alguma compensação por tão brilhante empreendimento. O executor real apenas pediu para que qualquer um que fosse condenado a entrar naquela prisão disfarçada, nunca mais pudesse sair dali. O imperador concordou, e então estava criado o famoso Inferno de Asoka...

Durante os anos que se passaram, muitos foram os condenados ao Inferno de Asoka. Ludibriados por sua aparência externa, muitos condenados o escolhiam de livre vontade, imaginando que se tratava apenas de um jardim recluso, onde cumpririam sua pena em vida contemplativa. E assim foram as histórias de dolorosas mortes no lago infernal de Asoka, até que um monge budista foi confundido com um rebelde, e condenado injustamente ao poço.

Samudra era monge à muitos anos, e se encantou com os belos jardins que escondiam o Inferno de Asoka. No entanto, lá adentrando, percebeu que logo teria seu fim. Ao contrário de todos os outros que encararam o lago de fogo, Samudra não pareceu se abalar nem um pouco com seu destino. Girika pareceu comover-se com o fato, e chamou seu mestre para se certificar de que gostaria mesmo de arremessar aquela criatura pacífica no poço.

Asoka veio e, observando a atitude do monge, questinou-o:

“Porque está sorrindo para mim? Você não é um dos rebeldes que gostaria de me ver morto?”

“De modo algum, não sou eu quem decide quem vive e quem morre. Por acaso o senhor pode decidir sobre a vida e a morte?”

“É claro, eu sou Asoka, imperador de todas as terras ao sul e futuro conquistador dos povos do ocidente e do norte. Minha palavra é a lei!”

“Muitos antes de você também disseram o mesmo, e hoje se foram. Não há quem possa decidir quando e como vai morrer. Tudo o que sabemos é que partiremos um dia, então porque a necessidade de um império? Nenhum império atravessa o véu conosco, para o lado de lá...”

Asoka nunca havia sido tratado de forma tão insolente desde que se tornara imperador. Furioso, fitou o monge e bradou:

“Se eu ordenar, Girika irá arremessá-lo neste poço e terá uma morte terrível! É isso o que quer, testar se sou ou não sou capaz de decidir quem vive e quem morre? Pois posso lhe matar neste momento!”

O monge fitou o imperador, sem perder o sorriso entre os lábios nem por um momento:

“E não foi o que eu disse? Você pode até decidir quando alguém vai morrer, mas de sua própria morte, isso ninguém sabe. No entanto, fico feliz por ter conhecido jardim tão belo pouco antes de aqui adentrar... Vou manter o jardim em mente, e esquecer que estarei derretendo em um lago de fogo.”

Asoka ficou atônito. De certa forma, de todas as batalhas que havia participado, em nenhuma delas havia enfrentado um homem tão corajoso quanto aquele monge. Asoka dominava vasta extensão da Ásia, e era tratado como um semi-deus por seu povo, mas nunca havia conseguido encontrar aquela paz que via na feição de um ser pronto para a morte. Aliás, para uma morte dolorosa.

Samudra entoou um belo cântico budista, respirou profundamente e olhou fundo nos olhos de Asoka:

“Vá, faça o que tem de fazer. Mate-me!”

continua...

***

Crédito da foto: buecherwurm

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10.2.10

O reino de Asoka, parte 1

Esta é a história de Asoka, e de como um homem teve de abdicar de seu vasto reino para finalmente conquistar algo de real [1]...

Asoka era um dos filhos do imperador Bindusara, e neto do grande Chandragupta Maurya, primeiro grande imperador da Índia, que surgiu do norte com um bando de tribos e acabou conquistando quase todo o território indiano moderno, no que ficou conhecido pela história com o Grande Império Máuria, que durou de 322 a 185 a.C.

O avô de Asoka conviveu com o neto durante sua infância, e muitos diziam que se tratava do seu neto favorito: “possuí um grande intelecto e habilidade em combate incomparável, com o tempo e a sabedoria se tornará o imperador ideal”. Chandragupta sabia do que estava falando, havia batalhado a vida toda, conquistado cada palmo de terra ao custo de inúmeras vidas e rios de sangue. No fim da vida, este peso sobre as costas era cobrado pela sabedoria que adquirira ao entrar em contato com a religião dos jainistas. Que paradoxo: o homem responsável por tanta matança, em seu íntimo sabia que estava condenado pela própria consciência, agora aberta para as idéias mais profundas do Jainismo.

Foi em uma de suas batalhas que Chandragupta desapareceu para se tornar um monge jainista, deixando para trás apenas a sua espada fincada nas planícies de arroz e sangue. O avô de Asoka havia lhe alertado que ninguém deveria carregar tal espada, amaldiçoada por anos e anos de matanças. Mas Asoka ignorou o aviso: ao avistar a espada do avô, guardou-a antes que outros de seus irmãos e meio-irmãos mais velhos a vissem. Este foi o início do desejo de Asoka de se tornar, ele também, um grande imperador!

Susima era um dos irmãos mais velhos de Asoka, apenas mais um preocupado em ser o escolhido do pai para se tornar o próximo imperador do Grande Império Máuria. Em seu jogo de política e influência, conseguiu sorrateiramente convencer o pai a enviar Asoka para as províncias mais perigosas do reino, onde haveria mais chances de perder uma batalha contra os rebeldes e invasores, e ser definitivamente eliminado da disputa. Asoka, entretanto, repelia os invasores com táticas de batalha cuidadosamente planejadas, e acalmava e persuadia os rebeldes com seu carisma e sua oratória épica, sempre prometendo a todos que comandaria o império até conquistar todas as terras conhecidas...

Apesar do pai, Bindusara, não ter Asoka como seu preferido, com o tempo e os contínuos sucessos de suas campanhas, todos os ministros do imperador sabiam que a escolha mais sensata seria Asoka, e não seu irmão Susima. A sorte de Asoka brilhou no dia em que seu pai morreu repentinamente, tossindo sangue, enquanto seu irmão Susima estava distante da capital do império. Todos os ministros se apressaram em coroar Asoka o imperador, ainda que todos esperassem o retorno de Susima e algum conflito em relação à questão. “Pena que Susima vá regressar e tomar o reino de volta, Asoka seria um imperador bem melhor” – refletiam a maioria dos ministros.

Mas não foi o que ocorreu – assim que tomou o poder, brandiu a espada de seu avô, Chandragupta, e bradou a todos: “eu sou o escolhido dos deuses, eles desceram a terra e me trouxeram a espada de meu avô, eu serei o imperador do mundo!” – Não houve quem duvidasse que Asoka realmente desejava conquistar todo o mundo. E o retorno de seu irmão era apenas o primeiro obstáculo que se interpunha entre ele e seu grande objetivo.

Asoka então mandou construir o primeiro de seus poços infernais na entrada da capital: era um buraco fundo o suficiente para que toda a guarda pessoal de seu irmão caísse, ao galopar de volta descuidadamente. No interior, carvão em brasa. Susima e toda a sua guarda tiveram uma morte agonizante em meio ao fogo e as estocadas de lança dos soldados do império, agora leais a Asoka. Os ministros que não concordaram com a forma brutal com que Asoka eliminou sua concorrência direta ao trono foram banidos ou executados impiedosamente. Nascia um novo Asoka, um homem determinado, sombrio, sanguinário, que não mediria esforços até que seu desejo fosse concretizado:

Asoka o Cruel queria dominar todas as terras abarcadas pelo horizonte!

continua...

***

[1] Conto baseado na vida de Asoka o Grande, imperador Máuria de 269 a 232 a.C., e figura mítica do Budismo. Não necessariamente absolutamente fiel a história.

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Crédito da ilustração: Divilgação do filme Asoka (2001).

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