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15.5.18

O que é a filosofia chinesa?

A expressão filosofia chinesa é bastante controversa, sobretudo porque o termo em chinês que denota filosofia (zhexue) foi cunhado apenas no século XIX. Se estivermos com ele nos referindo ao Confucionismo, ao Taoismo, ao Budismo, e outras correntes de pensamentos presentes na China, devemos estar cientes que estamos usando um conceito historicamente posterior para representar algo muito mais antigo. Utilizamos um conceito ocidental para representar retrospectivamente uma série de investigações, reflexões e debates de pensadores que sequer conheciam o termo.

Os pensadores chineses da antiguidade discutiram questões sobre ética, governabilidade, sociedade, metafísica, natureza e linguagem, as quais entendemos hoje serem do escopo da filosofia. Porém, eles não as entendiam como parte de uma disciplina específica de conhecimento. Tratava-se do conhecimento de maneira geral.

As principais discussões filosóficas da China Antiga iniciaram em torno do problema político. Pensadores como Confúcio buscaram definir o que é a moralidade e o bom governo do povo. O propósito do conhecimento era o desenvolvimento da virtude.

A filosofia chinesa, no entanto, não possui um posicionamento único. Diversos pensadores discordaram entre si e criaram diferentes escolas de pensamento. Neste texto, pretendemos caracterizar brevemente as principais correntes, sinalizando a pluralidade do pensamento oriental.

1. Confucionismo
Perturbado pelas inquietações políticas, Confúcio propôs uma reforma ética da sociedade de seu tempo. Confúcio desejava eliminar a corrupção dos comportamentos daqueles que estavam no poder. Tal processo devia iniciar com a educação dos líderes da sociedade.
No confucionismo, a educação possui um alto valor. O objetivo da educação é o cultivo de uma vida ética e disciplinada. A grande ênfase a tais aspectos deu um retrato ao confucionismo como uma filosofia rígida e conservadora, baseada em estritas regras morais.
Essencialmente, a visão de Confúcio consistia em desenvolver uma moralidade para que os líderes fossem capazes de governar a sociedade de forma ética. O bom governo deveria atender às necessidades do povo de uma forma humanista, valorizando a amabilidade e a cortesia.

2. Taoismo
O taoismo surgiu como uma crítica ao confucionismo, considerado como excessivamente moralista. Entretanto, o taoismo é mais do que uma mera oposição a Confúcio, pois desenvolveu uma metafísica própria que marcou profundamente o pensamento chinês.
O conceito chave do taoismo é o Tao, comumente traduzido por caminho. Marcado por mutabilidades, o caminho não pode ser compreendido, apenas vivenciado. Seguir o Tao, ao contrário das disciplinas morais desenvolvidas por Confúcio, é agir de acordo com sua própria naturalidade, muitas vezes de modo pouco antropocêntrico.
Segundo os taoistas, quando as pessoas são ensinadas a se comportarem de uma determinada maneira, elas se conformam àquela forma específica de agir. Tornam-se obedientes e infelizes. Enquanto os confucionistas valorizavam o poder dessa educação moral, os taoistas diziam que ela tinha um aspecto limitador.  O objetivo do taoismo era, portanto, recuperar a espontaneidade para além das formas criadas pelo homem. Agir livre de coerções indevidas.
Por reciprocidade, o taoismo valorizava não apenas a liberdade pessoal, mas também a apreciação da espontaneidade do outro. Neste sentido, o taoismo possui uma ética de não-interferência. O que significa evitar ideias absolutas, inflexíveis ou metodologias unilaterais.

3. Chuang-Tzu
Chuang-Tzu foi um filósofo taoista de um período mais tardio desta escola. Tornou-se conhecido pelo seu ceticismo em relação à ideia de existir um observador privilegiado ou um juiz imparcial sobre qualquer assunto. Para Chuang-Tzu, não existe teoria correta. Cada julgamento carrega consigo os valores pessoais de quem a defende.
Toda perspectiva filosófica parte de uma determinada forma de compreender o mundo. Cada indivíduo só pode compreender o mundo a partir do próprio lugar em que está inserido. O conhecimento, portanto, é sempre um tipo de interpretação, e não a representação fidedigna da realidade.
Tal compreensão teve grande influência no modo em que os pensadores chineses lidavam com as divergências. Ao invés de buscarem eliminá-las através de uma verdade única que demonstrasse a falsidade das demais, eles valorizavam os diferentes aspectos de um pensamento, procurando estabelecer uma posição conciliadora.

4. O sincretismo e o pensamento correlativo
Diante de uma grande divergência de perspectivas que não adentraremos aqui além do confucionismo e o taoismo (poderia se falar ainda sobre escolas menores, como o moismo, o legalismo etc.), os pensadores posteriores da filosofia chinesa passaram a sintetizar elementos de diferentes doutrinas em sua própria abordagem.
Ao contrário de como fazemos no Ocidente, não é difícil encontrarmos um taoista, por exemplo, que possuísse uma leitura de Confúcio e tentasse aproveitar seus ensinamentos. Para um pensador chinês, mais importante do que a escola específica de onde surgiu uma ideia, ou quem defendeu uma ideia, está o valor daquela ideia, se ela é aplicável ou não.
A prática sincrética do Oriente teve uma consequência ambígua. Se por um lado vemos uma maior liberdade para lidar com as ideias, podendo os pensadores se servir de múltiplas contribuições; por outro, a falta de rigor metodológico fez com que muitas escolas perdessem sua raiz original, abandonando a especificidade do que caracterizava o seu discurso.
As discussões da filosofia chinesa, a princípio voltadas para a ação e o comportamento, absorveram gradualmente concepções e práticas já existentes na religião popular chinesa. Embora não fosse o objetivo inicial de pensadores como Confúcio e Lao-Tzu (taoismo), suas filosofias não foram indiferentes às práticas populares, como a adivinhação, a astrologia, a medicina e o culto aos ancestrais.
Ao mesmo tempo em que essas filosofias transformaram a religiosidade chinesa, foram também transformadas a partir do contato e do sincretismo com as crenças e costumes populares, sendo que hoje é comum termos acesso a elas muito mais pelo seu viés religioso do que filosófico.
Deste modo, por exemplo, se originalmente o conceito de Tao não envolvia um aspecto cosmológico, com o passar do tempo se tornou uma forma de representar os fenômenos e as correlações entre o céu, a terra, o clima e até seres espirituais na medida em que as preocupações filosóficas chinesas foram se deslocando da ética ao misticismo.
O neoconfucionismo, por sua vez, passou a absorver elementos de outras doutrinas, ampliando sua visão humanista – inicialmente focada na política e no desenvolvimento de virtudes – para incorporar as correlações entre as esferas humana e natural através do pensamento correlativo.
O pensamento correlativo da cultura tradicional chinesa traça correspondências sistemáticas entre várias ordens da realidade, tais como o corpo humano, a política e os astros. Ele presume que essas ordens são homólogas e relacionadas entre si. Por exemplo, desastres naturais podiam representar maus presságios em assuntos políticos, ou as ações do governo estavam ligadas aos fenômenos da ordem natural, como estrelas, plantas, ventos, chuvas, pássaros e insetos.
O pensamento correlativo influenciou profundamente a filosofia, e ainda hoje, nas abordagens medicinais, o corpo humano é entendido como um microcosmo em que saúde e doença precisam ser compreendidas de maneira holística. A arquitetura chinesa, outro exemplo, leva em consideração aspectos psicológicos, fisiológicos, geográficos e até mesmo astrológicos.
Hoje é muito difícil separarmos o holismo místico da filosofia chinesa de suas primeiras preocupações sobre ética e política. A compreensão correlativa e holista dos fenômenos se tornou uma característica essencial da filosofia chinesa como a conhecemos e de suas diversas práticas derivadas.

5. Budismo chinês
Apesar da origem do budismo não ser chinesa, a sua introdução na China teve grandes influências sobre a filosofia. Diversos pensadores buscaram articular o budismo com conceitos já existentes, sobretudo com o taoismo.
A origem do budismo é indiana, e aspectos de sua filosofia, como o ascetismo, a meditação, a crença numa percepção extrassensorial e ideias sobre continuidade da consciência, já faziam parte do pensamento indiano. A novidade introduzida pelo seu fundador, o Buda Siddartha Gautama, foi a concepção de uma consciência não individual.
O budismo rejeita uma concepção individualizada e permanente de Eu característica do pensamento indiano. Em seu lugar, propõe o Eu como um fenômeno impermanente, em constante mudança, em que nossa individualidade não passa de uma ilusão causada por uma conjunção de impressões. A filosofia budista entende que o indivíduo deve aceitar a impermanência para alcançar a iluminação, distanciando-se do apego aos desejos que conduzem ao sofrimento.
Um aspecto bastante valorizado no budismo chinês foi, diante de oposições e diferenças de pensamento, a adoção do caminho do meio como solução para a questão da dualidade, o que remete a mais uma modalidade de síntese, estratégia característica do pensamento chinês diante das divergências filosóficas.

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Para concluir...
Vemos como o pensamento chinês é marcado por uma diversidade. Existe e existiram diferentes escolas que divergiram em uma variedade de questões. Os debates promovidos por essas diferenças fizeram com que a filosofia chinesa se transformasse ao longo dos séculos, e através de inúmeras sínteses, essas compreensões foram se entrelaçando com o passar da história.

Além disso, as preocupações iniciais sobre o comportamento humano virtuoso ou autêntico e a construção de uma sociedade ideal foram dando lugar e sendo reinterpretados à metafísica e ao misticismo. Hoje, uma das principais influências da filosofia chinesa ao Ocidente é a concepção de uma visão holista sobre saúde e espiritualidade, conhecida através de práticas medicinais (como a acupuntura) e religiosas (como a meditação).

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Diem Nhi Nguyen/unsplash

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29.6.12

Todas as guerras do mundo, parte final

« continuando da parte 3

Até que a filosofia que sustenta uma raça superior e outra inferior seja finalmente e permanentemente desacreditada e abandonada, haverá guerra, eu digo: guerra...
Guerra no leste, guerra no oeste, guerra no norte, guerra no sul, guerra, guerra, rumores de guerra...
(War, Bob Marley – composição de Allen Cole e Carlie Barrett)

A revolução da alma

Em 3 de junho de 1989, tanques e soldados do exército chinês invadiram a Praça da Paz Celestial, na capital, Pequim. Lá estavam cerca de 100 mil manifestantes que protestavam pacificamente há quase 2 meses, criticando a corrupção e a repressão da liberdade individual vindas de um governo que se dizia comunista [1]. Haviam entre eles muitos intelectuais, professores, estudantes e trabalhadores insatisfeitos com o rumo geral da política chinesa. Mas o Partido Comunista já havia perdido a paciência com eles; Como haviam ignorado as ordens para que as manifestações fossem encerradas, a ala do Partido mais propensa à violência aprovou a ordem para que fosse iniciado o massacre. Na Praça da Paz Celestial, na noite de 3 de junho de 1989, o exército chinês matou 2.600 manifestantes e feriu outros 10 mil [2].

No dia 4 os protestos se intensificaram muito, principalmente por parte dos jovens estudantes. Há essa altura os jornalistas de todo o mundo já estavam se hospedando nos hotéis próximos a Praça, visto que era uma área nobre da capital, e preparavam os flashes para o próximo massacre... Talvez por conta dessa exposição indesejada na mídia mundial, a ala violenta do Partido Comunista recuou, e o que se viu naquele dia foram tanques passeando em torno da Praça, enquanto os jovens prosseguiam com seu protesto ainda pacífico.

No dia 5, ante as manobras de dezenas de tanques pela avenida em torno da Praça, um homem solitário surgiu no meio da rua, impávido ante o avanço de uma coluna de vários tanques enfileirados, enquanto outros civis mais precavidos fugiam desesperadamente do avanço militar... Quando o primeiro tanque da fileira chegou próximo dele, foi obrigado a desviar para não o atropelar. Mas o homem se moveu de lado, brecando o tanque. Ele parecia querer conversar...

Subiu na máquina e trocou algumas palavras com seu piloto, até que duas pessoas (que todos esperam que fossem seus amigos) surgiram na cena e convenceram o homem a desistir de papear com aqueles soldados, que os haviam massacrado dois dias antes. Esta cena foi filmada e fotografada por jornalistas de todo o mundo, e o homem, até hoje um desconhecido, se tornou um mito: o Rebelde Desconhecido... Até hoje tampouco se sabe se ele teria ou não sobrevivido. Especula-se que, mesmo um ano após o incidente, quando às manifestações já havia terminado há meses, o próprio governo chinês ainda procurava pelo homem desconhecido. Aquela altura, seria um grande benefício para o Partido Comunista mostrar aquele mito vivo e intacto, provando para o mundo que ele não havia sido preso, torturado, ou morto (como tantos milhares de civis).

Hoje, entretanto, a China é um outro país, e embora esteja evoluindo lentamente para uma sociedade mais aberta e um governo menos repressor, o mito do Rebelde Desconhecido perdura. Assim se dá com os mitos: eles existem sempre, e sobrevivem ao nascer e ao findar dos impérios. Quem seria aquele chinês corajoso? Um jovem estudante, ou um professor? O que ele teria tentado dizer ao piloto do tanque? “Parem, vocês estão dizimando nosso futuro, nossa liberdade, nossa dignidade” – teria sido algo assim?

Talvez a única coisa que possamos afirmar em relação ao Rebelde Desconhecido é que ele era alguém que havia descoberto como pensar por si mesmo. Um real revolucionário: aquele que travou todas as guerras do mundo no interior, e realizou a revolução na própria alma.

Falávamos a pouco do Deus Bom e do Deus Mal do zoroastrismo. Estes são também mitos, propostos pelo profeta Zoroastro. Dissemos também que se tratava de um conceito infantil e superficial... Mas, será que isso foi mesmo culpa de Zoroastro, ou daqueles que vieram muito depois e, não sabendo interpretar sua mitologia, tomaram-na de forma literal, e a adaptaram para seus próprios interesses?

Ora, será mesmo que uma religião sobreviveu por tantos séculos baseada num conceito superficial, ou são os seus detratores que jamais se interessaram em compreender o que diabos é exatamente um mito, uma interpretação simbólica, uma metáfora? Não quero transformar esta série num tratado sobre mitologia [3], mas vamos considerar aqui, de forma bastante breve, uma outra visão para os deuses do zoroastrismo:

Aúra-Masda, o Deus Bom, não era invenção de Zoroastro, mas uma divindade já existente na cultura indo-iraniana, com muitas semelhanças a deuses ainda bem mais antigos da Índia Védica. Aúra-Masda, ou o Senhor Sábio, era um mito associado ao sol e ao fogo. Através de sua luminosidade, as trevas da ignorância poderiam ser vencidas. Era precisamente através do fogo e suas chamas mensageiras que os homens poderiam se comunicar com o Senhor Sábio.

Já seu irmão, Arimã, o Deus Mal, era o senhor da devassidão e da corrupção, o lado negro da alma de todos os homens, que os atraia para o mau pensamento e o mau governo de sua própria existência. Ora, é precisamente este que foi associado a Lúcifer. Porém, há uma característica essencial do mito que não foi transferida para o cristianismo: Arimã não está no mundo lá fora, mas dentro da alma de cada um de nós. Arimã não nos “seduz” para o mal, mas é antes a própria presença das trevas da ignorância que ainda pairam dentro de nosso coração, impedindo que vejamos a luminosidade do bem.

Percebem a enormidade da diferença? Não se trata mais de deuses criadores do mundo ou do Cosmos, mas de aspectos da própria alma, da mente humana, e de sua longa caminhada em direção à luminosidade, a extinção das trevas da ignorância; Enfim: a evolução da consciência. Zoroastro não estava preocupado com a origem das coisas, do porque existe algo e não nada, mas sim com a origem da ignorância humana, e de como proceder para que os homens reformem a si mesmos, e se tornem melhores e mais sábios. Mas a luz de Zoroastro, quando chegou aos homens da Igreja, foi corrompida em algo menor. Tal qual Lúcifer caiu dos céus, os eclesiásticos também caíram nas trevas da ignorância, e houve mesmo aqueles demônios que um dia acreditaram que Deus pediu guerras santas e conversões sob as torturas mais bárbaras – e os demônios da Igreja diziam falar em nome de Deus.

Mas como falar em nome de um aspecto apenas nosso, uma luz que habita dentro de cada alma, e que em cada uma delas é uma luz distinta, como a íris dos olhos? Somente Deus pode falar por si, mas quando o faz, fala direto a alma daqueles que souberam lhe escutar... Os outros todos que acreditam falar em nome dele devem tomar muito cuidado, pois estes sim terão muito a explicar no Juízo Final. Este sim, terão dificuldades em espantar Lúcifer.

O rabi da Galileia disse que veio trazer a espada, e não a paz. E ele tinha razão: necessitamos de uma espada para batalhar na guerra da alma, para nos livrar dos preconceitos, dos apegos, das zonas de conforto, da estagnação. Como é possível estar em paz com tanta violência, tantas guerras e sofrimento pelo mundo afora? Com a luz do amor voltada para o sistema inteiro, e não para um pequeno grupo, uma pequena região, uma pequena parte do tempo. Quem com ferro fere, com ferro será ferido – disse ele também: a solução não é o olho por olho nem o dente por dente, a solução não é guerrear no mundo lá fora, nem propriamente enfrentar exército com exército, e bomba com bomba. Bastam algumas bombas atômicas explodirem a mais, e todos estarão cegos e desdentados: hoje ao menos sabemos disso.

A solução é a revolução da alma, para que possamos oferecer a outra face ante toda a violência: a face da tolerância, da sobriedade, da espiritualidade. Nenhum soldado jamais será, afinal, tão corajoso, tão heroico, tão mítico, quanto o Rebelde Desconhecido, que não estava mais preocupado consigo mesmo, mas com o rumo que sua pátria iria tomar, continuassem os tanques e os outros soldados dizimando aqueles que lutavam, sem armas que não o próprio pensamento, na guerra pela paz.

E a paz só virá, efetivamente, após a espada, após a guerra que se dá internamente, após a revolução da alma. Só mudando a si mesmo que o homem pode mudar o que está a sua volta. Se o pensamento não muda, o que vemos é o que temos visto pelo mundo afora: um Império substituindo ao outro, e um opressor sentando no trono sangrento de outro opressor. Enquanto o homem não muda a si mesmo, o que vemos é apenas escuridão e ranger de dentes.

Até este precoce despertar da consciência humana, a Natureza nos guiou, através da “guerra da fome e da morte”, por seus caminhos multimilenares: ora presa, ora predador. Lutamos em muitas guerras, e muitas foram com unhas e dentes, e paus e pedras. Fomos alvejados e esquartejados, transpassados e devorados, e decerto por muito tempo pagamos ao olho por um outro olho, e ao dente por um outro dente. Um dia, porém, alguns de nos se cansam deste jogo, e decidem se voltar para a luz, e não mais para a escuridão... Agradecem ao sistema por tê-los feito chegar aonde chegaram, mas agora tratam de viver, não mais sobreviver. E amar, não mais assassinar.

Eis que todo incêndio um dia começou pequeno. Eis que os ventos das asas do Grande Dragão, Arimã, se antes conseguiam extinguir a chama de uma vela, hoje mal conseguem abalar a fogueira que arde no coração daquele que deu os primeiros passos no caminho em direção à luz. Agora, as pedras não mais se chocam para se destruírem e arrancarem lascas umas das outras, mas para produzir ainda mais faíscas de luz, para que o fogo aumente, e aumente, sempre adiante... A ignorância alheia não mais ameaça a nossa convicção. Não há ninguém para ser convertido, há apenas seres para serem amados – e por todos os cantos.

Há seres no leste e no oeste, ao norte e ao sul, acima e abaixo, há vida e beleza, há pensamentos de luz por toda a parte. Há amor por toda a parte. Não há mais nada a temer, nem a duvidar. Então, quando todas as guerras do mundo ficam para trás, nos recônditos da alma que deixou de ser pequena, apenas se é. A paz foi finalmente alcançada, a fera foi domesticada: Arimã, quem diria, também é nosso amigo.


Neste céu de liberdade, Pai, deixe meu país acordar (Tagore)

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[1] O comunismo de Marx, descrito em sua filosofia, foi algo um tanto distante do comunismo do mundo real. Como alguém já disse: “amo Marx, mas odeio os marxistas”.

[2] Segundo a Cruz Vermelha chinesa.

[3] Para tal, recomendo consultaram a série Os corvos de Wotan.

Crédito das imagens: [topo] Alguns fotógrafos corajosos; [ao longo] Anônimo (encontradas no Facebook, sem crédito dos autores)

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11.6.12

Uma imagem, uma reflexão (13)

Primeiro você deve mudar o homem por dentro. Então o homem pode mudar o que está a sua volta...

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O Rebelde Desconhecido, também conhecido como O Homem dos Tanques, é como ficou conhecido o misterioso homem que ganhou fama em todo o mundo como figura heróica após ser filmado e fotografado durante os protestos na Praça da Paz Celestial em Pequim, em 5 de junho de 1989. Várias fotografias foram tiradas do homem, que ficou em pé em frente a uma coluna de tanques chineses Type 59, forçando-os a parar.

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(clique na imagem para abrir em tamanho maior)

Crédito da imagem: Alguns fotógrafos corajosos...

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