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2.10.18

Dawkins e o Capacete de Deus (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo vamos tentar entender o que diabos é o "capacete de deus", e porque um experimento científico pode ser arruinado pelas próprias expectativas dos cientistas em relação ao seu resultado. Teria o célebre ateu, Richard Dawkins, encontrado a Deus em um capacete que irradia ondas eletromagnéticas? Seriam as experiências místicas e religiosas tão somente "devaneios" do cérebro? Faz sentido a existência de uma "neuroteologia" na Academia?

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23.2.18

O que é Deus pra você?

Após ter acompanhado seu nascimento e crescimento desde o início, é com muita honra que hoje prosseguimos com a parceria deste blog com o canal Conhecimentos da Humanidade no YouTube, apresentado por Bruno Lanaro e Leo Lousada.

Neste roteiro, trouxe de volta um antigo artigo sobre as muitas formas de crença ou descrença em Deus ou nos deuses, e acredito que o resultado final tenha ficado muito bom. Logo nas primeiras horas, o vídeo chegou a uma centena de comentários, não deixe de dar o seu também. Afinal, o que é Deus pra você?

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28.3.17

O sentido da vida, do universo e tudo mais

Era uma vez uma civilização intergaláctica avançada que construiu um supercomputador chamado Pensador Profundo e lhe fez a pergunta que julgaram ser a mais importante e vital de todas, “Qual o sentido da vida, do universo e tudo o mais?”.

Assim, após milênios de cálculos avançados, o Pensador Profundo finalmente chegou a uma resposta, e ela era “42”.

Esta passagem altamente metafísica é talvez o trecho mais famoso da série O Guia do Mochileiro das Galáxias, do britânico Douglas Adams, que se iniciou como um programa de radio muito bem humorado em 1978, e eventualmente se tornou a “trilogia de cinco livros” mais aclamada entre os nerds deste planeta.

O bom humor, aliás, se mantém até hoje, mesmo após a morte do autor, em 2001. Afinal, não poderíamos esperar uma resposta muito profunda para alguém que já escreveu que “no início, o universo foi criado. Isso irritou profundamente muitas pessoas e, no geral, foi encarado como uma péssima ideia” (mais um trecho da série), ou poderíamos?

O próprio Adams já tentou resolver a questão uma vez, e explicou que “a resposta é muito simples: foi uma brincadeira. Tinha que ser um número, um ordinário, pequeno, e eu escolhi esse. Representações binárias, base 13, macacos tibetanos são totalmente sem sentido. Eu sentei à minha mesa, olhei para o jardim e pensei ‘42 vai funcionar’ e escrevi. Fim da história”. Mas obviamente não foi o suficiente para aplainar a angústia dos fãs: e se ele estava querendo desconversar? E se de fato a resposta para o sentido de tudo o que há seja mesmo “42”, o que diabos isso realmente significa?

Numa “jornada mística” pelas profundezas da cultura nerd e geral, muitos leitores de Adams tentaram encontrar pistas para a resposta. Alguns encontraram associações surpreendentes, por exemplo: há um total de 42 ilustrações no original de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll; há um total de 42 Km no percurso de uma maratona; um Big Mac nos EUA já chegou a conter 42% da ingestão diária de sódio recomendada no país; o número do apartamento de Fox Mulder na série de TV Arquivo X era 42; na página 42 da versão inglesa de Harry Potter e a Pedra Filosofal, Harry descobre que é um mago; e por aí vai [1]...

Mas talvez tenham sido os programadores, esta casta da elite de sapiência entre todos os nerds, quem finalmente desvendaram o mistério oculto no “42”: de acordo com eles, 42 é o código ASCII para o asterisco (*), e o asterisco, na programação, significa “qualquer coisa”. Assim, segundo essa teoria, 42 seria mais que um número aleatório, e sim o código para algo como “a resposta para o sentido de tudo é: qualquer coisa que você quiser”.

Ainda que tudo isso ainda seja obviamente uma grande brincadeira, fato é que, mesmo que de certa forma “driblando” a pergunta com um intrincado e refinadíssimo humor inglês, Adams acabou nos trazendo este imensamente profundo ensinamento (ainda que sem querer): de fato, o sentido da vida, do universo e tudo mais é aquilo que quisermos, é aquilo o que fazemos da vida com o tempo que nos é dado viver. E isso casa perfeitamente não somente com os livros de Adams ou o pensamento de Gandalf o Cinzento, mas também com doutrinas espiritualistas muito mais antigas, principalmente as do Oriente.

Há muitos de nós, espiritualistas, que associam o sentido da vida a existência de uma força maior, uma divindade, quem sabe aquele ou aquilo que criou tudo o mais, e que seria também a sua explicação final. O que faríamos de nossas vidas, neste sentido, necessariamente estaria em conexão com tal essência. Quem sabe Joseph Campbell, eminente estudioso de mitologia do século passado, e que influenciou diretamente outro cânone nerd, Star Wars, possa explicar melhor o que estou tentando dizer:

Queremos pensar em Deus. Deus é um pensamento. Deus é uma ideia. Mas a sua referência é algo que transcende o pensamento. Ele existe além da existência... Além da categoria de ser ou não ser. Ele existe ou não? Nem existe, nem não existe. Qualquer deus, qualquer mitologia ou qualquer religião são verdadeiros nesse sentido... Assim como uma metáfora do mistério humano e cósmico.

Quem pensa que sabe, não sabe. Quem sabe que não sabe, este sim, sabe. Há uma velha história que ainda é válida. A história da busca. Da busca espiritual... Que serve para encontrar aquela coisa interior que você basicamente é. Todos os símbolos da mitologia se referem a você. Você renasceu? Você morreu para a sua natureza animal e voltou à vida como uma encarnação humana?

Na sua mais profunda identidade, você é Deus. Você é um com o ser transcendental [2].

Mas Adams, é claro, não acreditava em Deus. Não somente não acreditava, como inspirou muitos ateístas com suas obras. Por exemplo, em Deus, um Delírio, o biólogo e ateísta militante Richard Dawkins faz uma carinhosa dedicatória ao seu amigo, citando um trecho dos seus escritos que diz: “Não é suficiente ver que o jardim é belo sem ter que acreditar que há fadas morando nele também?”.

Apesar de ter sido bem menos militante no seu ateísmo do que Dawkins, o Deus que Adams desacreditava com seu bom humor incomparável era, obviamente, um Deus “comparável às fadas”: uma espécie de metáfora tirada da mitologia, onde o Criador poderia muito bem ser um ancião muito velho, de barda muito muito branca, sentado num trono no alto do Céu e com poderes de X-Men. Este não é, obviamente, o mesmo Deus de que Campbell fala logo ali em cima...

Há muitos mistérios ainda insondáveis na ciência e no conhecimento humanos. Do alto de todo o seu entusiasmo pela tecnologia, Adams foi profundamente sábio e humilde ao trazer uma não-resposta para a pergunta que foi feita ao Pensador Profundo. Na sequência da história, os seres que lhe fizeram a questão compreendem que o problema não estava na resposta, e sim na pergunta: o dia em que soubermos a pergunta definitiva para a vida, o universo e tudo o mais, talvez a resposta sequer seja necessária. Afinal, foi através das perguntas, e não exatamente das respostas, que alargamos nosso conhecimento do Cosmos até nosso estágio atual.

No entanto, faz alguns séculos que as nossas perguntas, particularmente as científicas, têm talvez se demorado muito com o que acontece lá fora. Talvez seja tempo de começarmos a nos aventurar com nossa toalha não pelas galáxias externas, não pelos bilhões e bilhões de mundos deste universo lá fora, mas pela inefável fantasia de nosso próprio interior.

E então, quem sabe, poderemos fazer esta pergunta que, se não é a última, poderá muito bem ser a primeira: Quem sou eu? Quem somos nós, de verdade?


O universo, como já foi dito anteriormente, é um lugar desconcertantemente grande, um fato que, para continuar levando uma vida tranquila, a maioria das pessoas tende a ignorar. (Douglas Adams)

***

[1] Veja mais associações incríveis neste artigo do The Independent (em inglês).

[2] Trecho de O Poder do Mito, de Joseph Campbell (livro e série de vídeos homônima).

Crédito da imagem: Google Image Search (Douglas Adams)

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27.8.15

Memes para reflexão, parte 1

Muita gente passou a conhecer os memes após o advento das redes sociais online. O que pouca gente sabe, no entanto, é que os memes da internet nada mais são do que uma espécie de “subgrupo” de um conceito muito mais abrangente, poderoso, e até mesmo místico:

Um meme – conforme proposto pelo biólogo britânico Richard Dawkins – é para a memória o análogo do gene na genética, a sua unidade mínima. É considerado como uma unidade de informação que se multiplica de cérebro em cérebro, ou entre locais onde a informação é armazenada (como livros) e outros locais de armazenamento ou cérebros. No que diz respeito à sua funcionalidade, o meme é considerado uma unidade de evolução cultural que pode de alguma forma se autopropagar. Os memes podem ser ideias, línguas, sons, desenhos, doutrinas religiosas, valores estéticos e morais etc. O estudo dos modelos evolutivos da transferência de informação é conhecido como memética.

Apesar de ser um conceito puramente metafísico, ele tem sido capaz de explicar muita coisa que ocorre dentro da mente humana, particularmente no que tange a troca de informações sociais e culturais. Assim, se é verdade que muitos memes da internet não passam de pequenas peças de humor, não é verdade que todos eles possam ser considerados somente isso.

Conforme um dia nos explicou Ralph Waldo Emerson, “A chave de todo ser humano é seu pensamento. Resistente e desafiante aos olhares, tem oculto um estandarte que obedece, que é a ideia ante a qual todos os seus fatos são interpretados. O ser humano pode somente ser reformado mostrando-lhe uma ideia nova que supere a antiga e traga comandos próprios”.

É levando isto em consideração que eu pensei comigo mesmo, “Ora, se há tantos memes bobos que alcançaram tamanho sucesso em se replicar pelas mentes alheias, por que não usar do mesmo expediente para tentar refletir adiante ideias um pouco mais profundas?”.

Foi assim que me senti inspirado para criar alguns “memes para reflexão” e publicá-los em nossa página no Facebook. A minha ideia, é claro, não é criar memes “acadêmicos” ou “muito sérios”, mas me aproveitar do bom humor e do grande alcance deste tipo de linguagem online para, como sempre tento fazer, levar as pessoas a refletirem um pouco mais sobre algumas ideias que talvez estejam já velhas demais, solidificadas demais, dogmáticas demais.

Com isso não quero denegrir ou reduzir tais ideias, que são memes muito mais antigos e duradouros do que qualquer meme de internet, mas pelo contrário: mostrar outros pontos de vista para, quem sabe, trazer tais ideias ancestrais para o meio do século 21, onde há um verdadeiro Dilúvio de informação irrelevante; de modo que as ideias relevantes talvez precisem ser guardadas com carinho, na segurança de nossa Arca de Noé, esta que sempre navegou em nossa própria alma.

Na sequência, trarei alguns dos memes publicados em nossa galeria no Facebook, com uma pequena explicação sobre o que exatamente quis passar com cada um, assim como uma rápida descrição das discussões geradas por aqueles que foram mais compartilhados.

» Em breve, os memes!

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Crédito da imagem: Raph/Google Image Search

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27.1.12

Os memes existem?

Parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre esses dois distintos participantes, não deixe de ler sobre a premissa da série.

[Raph] Os sufis dizem que assim como muitos germes nascem e se desenvolvem como seres vivos, de forma análoga, existem também muitos seres no plano mental, chamados ‘muwakkals’ ou elementais [1]. Estes são entidades ainda mais etéreas nascidas do pensamento humano, e assim como os germes vivem no corpo humano, tais elementais sobrevivem de seus pensamentos. Segundo os místicos do Islã, os pensamentos também passam por nascimento, juventude, velhice e morte. Eles trabalham contra ou a favor dos homens de acordo com sua natureza. Os sufis afirmam que os criam, elaboram e controlam.

Um meme – conceito proposto pelo biólogo britânico Richard Dawkins – é para a memória o análogo do gene na genética, a sua unidade mínima. É considerado como uma unidade de informação que se multiplica de cérebro em cérebro, ou entre locais onde a informação é armazenada (como livros) e outros locais de armazenamento ou cérebros. No que diz respeito à sua funcionalidade, o meme é considerado uma unidade de evolução cultural que pode de alguma forma se autopropagar. Os memes podem ser ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, etc. O estudo dos modelos evolutivos da transferência de informação é conhecido como memética.

Há uma clara correspondência, no mínimo conceitual, entre os ‘muwakkals’ e os memes. Porém, afinal: os memes existem mesmo?

[Mori] Para Dawkins, o ser humano é originalmente um autômato, uma máquina servindo cegamente aos desmandos dos genes egoístas, interessados unicamente em replicar-se. O que transmitimos aos nossos descendentes não é nosso suor, não são nossas cicatrizes, e sim nossos genes. Do ponto de vista dos genes, toda a evolução serve a seus propósitos – nós, os organismos, somos apenas veículos para sua replicação e quando há um conflito entre o bem do organismo e o bem dos genes que carregamos, os genes sempre ganham, porque afinal, são apenas eles que permanecem na evolução, enquanto organismos vêm e vão.

É nesse contexto que ele introduz também a ideia de meme. Seu conceito-chave não é apenas o de um ser vivo de pensamentos, que nasça, cresça e morra, em um ciclo de vida completo. Essa é uma ideia fascinante, mas uma que de fato não é nova. A ideia chave dos memes é a de um pensamento que se *reproduz* e como tal apresentará os mesmos aspectos que os genes egoístas: seu subtrato serve como mero autômato para sua replicação. Pouco importa se o hit “Ai se eu te quero” é uma melodia sofisticada ou uma letra tocante que beneficiará o ouvinte, o que importa é que é uma melodia grudenta que se fixa em sua mente, ecoa e se replica.

Tanto o gene egoísta quanto o meme são conceitos derivados diretamente da Teoria da Evolução de Charles Darwin, e o crédito pela sacada genial de que *toda* unidade de informação que se replica com variação em um ambiente de recursos limitados irá evoluir e se sofisticar em seu “egoísmo”, encontrando formas cada vez mais eficientes e surpreendentes de se replicar, é todo de Darwin. Os muwakkals são criados pelos sufi, as egrégoras são criadas por grupos de pessoas; já os memes são unidades que foram criadas em algum ponto por uma mente, mas a partir daí, se reproduzem e evoluem por si mesmas e sua ideia central é justamente a de que não são controladas pelas mentes, mas as controlam para replicar-se. Antes de Darwin, nenhum pensador havia entendido a importância da auto-replicação e o poder da evolução que emerge inevitavelmente a partir dela. Depois de Darwin, Dawkins tomou a replicação como conceito central para interpretar a evolução, não só na biologia, com os genes, como na própria cultura, com os memes.

Dito isso, Dawkins está certo? Os memes existem, os genes são “egoístas”, seríamos meros autômatos à mercê de genes e memes? Isso me lembra o meme do cachorro que, ao receber todo dia comida e abrigo do ser humano, conclui que ele deve ser um deus muito generoso. Já o gato, ao receber todo dia comida e abrigo do ser humano, conclui que deve ser um deus para receber tanta reverência da criatura de duas pernas.

Ultimamente, e mesmo cientificamente, os conceitos do gene egoísta e dos memes e memeplexos de Dawkins são apenas metáforas e mesmo, por que não, mitologias que buscam interpretar a evolução de seres vivos e da cultura. Não estão propriamente corretos ou errados, são apenas interpretações. Eles têm sua utilidade, mas não devem ser encarados como algo tão rigoroso, estabelecido ou mesmo relevante quanto a ideia da própria evolução através da seleção natural. Genes e memes são unidades de replicação, mas o genótipo em verdade não é o único determinante do fenótipo, nem a única informação que é transmitida no tortuoso caminho evolutivo. Quanto aos memes, é ainda mais complicado isolar unidades de cultura em replicação. Sem dúvida existem modas, existem músicas grudentas, existem piadas na internet que até a Luíza, que está no Canadá, deve conhecer como memes. O conceito é uma ideia poderosa, mas vaga [2].

Dawkins promoveu os conceitos dos genes egoístas e dos memes, e de nós como meros veículos autômatos para sua replicação, justamente para que pudéssemos, ao nos tornarmos conscientes destes programas cegos, tomar as rédeas da situação e buscar valores maiores. Aqui, sim, os memes se reencontram com os muwakkals e as egrégoras, à medida em que Dawkins defende que sejamos nós a criar e controlar os memeplexos, atentos ao seu poder e tendência de que adquiram vida própria, repliquem-se e transformem-se em criaturas além e maiores que seus criadores.

O paradoxo é que se apegar demais a essa ideia é se apegar a um meme dominante.

[Del Debbio] William S. Burroughs nos alertou, em 1959, em seu livro Naked Lunch, que a “Linguagem é um Vírus”.

Para os Cabalistas e Hermetistas, existem quatro Mundos ou Planos de Existência, correspondentes simbólicos aos quatro elementos tradicionais. São eles o Plano Material (Terra), o Plano Mental (Ar), o Plano Emocional (Água) e o Plano Espiritual ou Filosófico (Fogo ou Luz).

Todos os objetos existentes no Plano Material um dia existiram no Plano Mental e Emocional. Uma pintura, antes de se tornar uma imagem, existiu como uma idéia na mente do pintor. Uma dança, um jantar, uma casa, uma cerimônia de casamento, um produto manufaturado... todas as ações e objetos físicos possuem sua  origem em algum ponto do Plano Mental, onde existem em uma realidade própria.

Estas idéias nascem, crescem, reproduzem, sofrem mutações e eventualmente morrem, seguindo os mesmos passos de toda a Teoria da Evolução. A única diferença é que não possuem corpos físicos, sendo percebidos e armazenados em invólucros materiais (cérebros, livros, filmes, áudios, textos, imagens...) onde podem saltar de uma mente para outra e interagir com outras idéias que tenham contato com aquele invólucro.

Estes pensamentos podem formar grupos semelhantes, chamados pelos cientistas de Memeplexes e pelos ocultistas de Egrégoras. Pelo ponto de vista filosófico, eles não apenas existem, mas possuem um poder tremendo de realização no Plano Material.

Uma idéia, por si só, não é capaz de realizar nada no mundo físico mas, através de seus portadores, consegue se materializar em grandes escalas e com grandes alcances. Toda marca, símbolo ou logo é uma presença física de um objeto mental. Pessoas que defendem uma determinada idéia tornam-se veículos de propagação desta Egrégora e, portanto, definem o poder de alcance desta entidade. Vemos isso em religiões (ou ateísmo), em posições políticas, sociais, times de futebol, hobbies e até na escolha de marcas de produtos que levaremos para casa. Sua mente é uma selva onde uma fauna gigantesca de idéias batalham pela sobrevivência do mais adaptado!

Na Árvore da Vida, estas esferas de consciência estão representadas por Chesed (A Misericórdia) e Geburah (o Rigor). Chesed representa a expansão e o avanço de uma idéia, tomando tudo e todos ao redor até que ela seja onipresente; nas mitologias, é representada pelos deuses-pais e conselheiros, como Zeus, Odin, Wotan, Poseidon ou Oxossi; na literatura são representados pelos conselheiros como Merlin, Gandalf, Yoda e Dumbledore. Chesed representa o rei; a proteção da tradição, a biblioteca do castelo e todas as folhas da floresta de idéias.

Geburah, por sua vez, representa o fogo que destruirá qualquer idéia que não se adapte ao processo de evolução daquela entidade mental. Representa o exército, os deuses da guerra como Ares, Marte, Kali, Thor ou Ogun; responsáveis pela destruição do ego e considerados os defensores do Reino. Podemos ver esta energia se manifestando todas as vezes que alguém defender seu ponto de vista (intelectualmente, logicamente, passionalmente ou mesmo através da violência, truculência ou medo... são apenas escalas de manifestação).

Do equilíbrio entre Chesed e Geburah surge a Força (cuja representação pictográfica é o Arcano 8 do Tarot), as condições ideais para que os mais adaptados sobrevivam e prosperem, sabendo quando expandir e quando restringir seus passos. A defesa e o ataque; recrutar e selecionar; expandir e proteger...

Embora a ciência e o método científico estejam atualmente restritos ao Plano Material e alguns filósofos, como John N Gray e Luis Benitez-Bribiesca, considerem as teorias de memes como sendo pseudo-ciência, os memes foram o maior avanço fora da filosofia para se tentar estudar o conceito de Egrégora até agora.


» Ver todos os posts desta série


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[1] Saiba mais sobre o muwakkals neste texto em inglês: “The mysticism of sound” (O misticismo do som).

[2] Nota do Mori: O episódio final da série mais recente de documentários de Adam Curtis, na BBC, é uma crítica severa ao gene egoísta e tangencialmente aos memes.

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Crédito da imagem: Rafael Arrais (ali temos o Richard Dawkins a esquerda, e Rumi - grande sábio sufi - a direita [pintura antiga]; também temos uma ilustração de Sam Spratt no centro [meme face])

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10.1.12

Neuroteologia, parte 1

Experiências místicas e religiosas (EMeRs) são experiências subjetivas em que um indivíduo diz ter tido um encontro ou uma união com uma entidade divina, ou ter tido contato com uma realidade transcendental.

O incrível caso do capacete de deus

Em 2003, o celebrado biólogo e ativista Richard Dawkins concordou em participar de uma experiência pretensamente científica na qual ele teoricamente teria finalmente contato com uma “realidade transcendente”. Não faltaram chamadas “de efeito” nos intervalos da BBC, anunciando o programa Horizon, onde esta experiência seria registrada: “Será que Dr. Parsinger terá êxito onde o papa, o arcebispo de Cantuária e o Dalai Lama fracassaram?”.

O Dr. Michael Parsinger é um neurocientista cognitivo com “um pé na parapsicologia”. O experimento em questão consistia em expor Dawkins a fraquíssimos estímulos de campos magnéticos direcionados aos seus lobos temporais por um “artefato” que foi chamado de capacete de deus. A sessão duraria exatos 40 minutos, em uma câmara (quarto) fechada com luz fraca, totalmente silenciosa... Muitos outros “pacientes” já haviam se submetido a tal sessão, com alguns resultados surpreendentes, pelo menos se formos considerar alguns relatos subjetivos e as manchetes da “mídia especializada”:

“Coisas espantosas aconteceram nesta câmara. Uma mulher acreditou que sua mãe morta se materializara ao lado dela. Outra sentiu uma presença tão forte e benigna que chorou quando ela desapareceu.” – Robert Hercz, Saturday Night [1].

“Minha mente iniciou toda uma nova excursão, dessa vez com um visível toque oriental, tibetano. [...] Vi-me de fato em um templo, numa fila de solenes monges tibetanos. [...] Tive a certeza de que era um deles.” – Ian Cotton [2].

Até mesmo a parapsicóloga Susan Blackmore, membro do CSICOP e celebrada entre muitos céticos, além de grande contribuidora da teoria dos memes de Dawkins (autora de The Meme Machine), se rendeu a extraordinária experiência do capacete de deus:

“De modo inesperado, mas intensa e vividamente, senti-me de repente furiosa, só que não havia nada nem ninguém sobre o que agir. [...] Depois [a sensação] foi substituída por um igual ataque de medo. Fiquei subitamente aterrorizada – com nada em particular. Jamais em minha vida tivera sensações tão fortes” [3].

Há muitos espiritualistas que julgam o ceticismo e/ou o materialismo científicos barreiras para as experiências místicas. Talvez pelo fato de o capacete de deus prometer uma explicação reducionista e totalmente materialista para tal fenômeno, os céticos “baixariam as barreiras de suas mentes para novas possibilidades”, e poderiam efetivamente vivenciar uma EMeR.

Para muitos simpatizantes do materialismo científico, reduzir as EMeRs a estímulos de um capacete não era somente algo perfeitamente plausível, como quase inevitável – um confirmação de sua crença [4]. Vejamos o que Jack Hitt, jornalista da revista Wired, teve a dizer sobre o assunto:

“Talvez pareça sacrilégio e presunção reduzir Deus a algumas sinapses vulgares, mas a neurociência moderna não se inibe em definir nossas mais sagradas ideias – amor, alegria, altruísmo, piedade – como nada mais que estática de nosso cérebro impressionante e grandioso.

Persinger vai um passo além. Sua obra quase constitui uma Grande Teoria Unificada do Outro Mundo: ele acredita que o emperramento de nosso cérebro é responsável por qualquer coisa que se pode descrever como paranormal – alienígenas, aparições celestiais, sensações de vidas passadas, experiências de quase morte, consciência da alma, é só especificar” [5].

Parece simples não? Toda a aparentemente insondável complexidade da mente humana, todas as nossas crenças, sensações, sentimentos, experiências, nosso próprio senso de um “eu”, sendo finalmente explicadas pelo mero tilintar neuronal, estimulado aqui e ali em nosso cérebro por um quase miraculoso capacete... Seria o sonho de muitos materialistas e jornalistas “especializados” sedentos por “furos de reportagem” finalmente realizado... Seria?

Claro, ninguém esperava convencer todos os religiosos e espiritualistas do mundo do dia para a noite, passando por cima de “milênios de lendas e devaneios místicos”... Mas provavelmente seria um belo começo se o ícone dos ativistas antiteístas relatasse que finalmente experimentou o mundo transcendental, e que ele nada mais era do que outro delírio do cérebro, como Deus. Faltava o próprio Dawkins passar os 40 minutos com o capacete bem afivelado na cabeça. A transcrição de “Deus no Cérebro” diz [6]:

[Dawkins] Se eu me tornasse um religioso e crente devoto, minha esposa ameaçaria me deixar. Sempre tive curiosidade de saber como seria ter uma experiência mística. Estou ansioso para tentar essa tarde [...]

[Dawkins] Eu me sinto meio tonto.

[Narrador] Inicialmente, o Dr. Parsinger aplicou um campo [magnético] ao lado direito da cabeça de Richard Dawkins.

[Dawkins] Muito estranho.

[Narrador] Depois, para aumentar as chances da sensação de uma presença sentida, o Dr. Persinger começou a aplicar o campo magnético nos dois lados da cabeça.

[Dawkins] É uma espécie de torção em minha respiração. Não sei o que é. Sinto a perna esquerda se mexendo e a direita, se contraindo [...]

[Narrador] Assim, após 40 minutos, Richard Dawkins havia chegado mais perto de Deus?

Ao que parece, não. Ele nada sentiu de extraordinariamente incomum, e descreveu-se como “bastante decepcionado”. Na realidade, Dawkins gostaria de sentir o que os religiosos dizem sentir. Persinger deu uma explicação para a insensibilidade de Dawkins ao capacete de deus. Segundo ele, o biólogo britânico estava “muito abaixo da média” em sensibilidade lobo-temporal a campos magnéticos – Isto é, segundo um “questionário” chamado sensibilidade ao lobo temporal, desenvolvido pelo próprio Persinger e utilizado apenas por ele mesmo...

Ao que parece, como espiritualistas podemos ser antipáticos a Richard Dawkins e todo o seu ativismo antiteísta, mas pelo menos nesse episódio em específico devemos parabeniza-lo por seu ceticismo... Talvez Dawkins também estivesse muito interessado em poder se convencer de que as EMeRs se resumem a “estados neuronais alterados”, e que toda a religiosidade e espiritualidade humanas poderiam ser explicadas pela “neuroteologia” da qual o Dr. Parsinger era um dos maiores entusiastas. Mas no fim o seu bom senso, o seu ceticismo, falaram mais alto.

» Na continuação, o ceticismo unidirecional e o duplo-cego no caminho do Dr. Parsinger.

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Leitura recomendada: O cérebro espiritual, por Mario Beauregard (Ph. D.) e Denyse O’Leary. Editora Bestseller. Particularmente o Cap.4.

[1] O artigo foi intitulado God Helmet.

[2] Ian Cotton descreveu suas experiências no livro Hallelujah Revolution.

[3] Relatado por Susan no artigo Alien Abduction da revista New Scientist, em 19/11/94.

[4] O materialismo, o materialismo científico (ver minha série de artigos sobre o tema), assim como o espiritualismo, o monismo, o dualismo, etc., são todos apenas teorias, sem a devida comprovação científica em experimentos objetivos e replicáveis.

[5] O artigo de Hitt se chama This is Your Brain on God, publicado na revista Wired em Novembro/99.

[6] God on the Brain, episódio de Horizon, foi transmitido pela BBC em 17/04/03.

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Crédito das imagens: [topo] Corbis (gravura em cobre ilustrando o pensamento humano, sec. XVII. Sudhoff-Institut/Alemanha); [ao longo] BBC/Divulgação (God on the Brain).

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16.12.11

Teísmos e ateísmos

Ao longo de vários anos participando e observando discussões filosóficas e religiosas, pude observar que, muitas e muitas vezes, as pessoas se digladiam muito mais por não conseguirem compreender o que a outra efetivamente pensa, do que por qualquer outro motivo mais importante. Usualmente, o que causa esse tipo de desentendimento é o fato de que alguns termos – particularmente os que englobam a crença ou descrença em um Criador – são compreendidos de maneiras diversas pelas pessoas.

Por exemplo, para alguns um ateu é alguém que afirma categoricamente que Deus não existe (seja quem ou o que for). Para outros – incluindo ateus – o ateísmo não chega a fazer tal afirmação. Para alguns atenienses Sócrates era ateu, embora ele estivesse um tanto longe disso, tanto que mais tarde sua filosofia influenciou decisivamente um grande teísta: Sto. Agostinho. Já Epicuro dizia não se preocupar com os afazeres dos deuses – e também foi taxado de ateu. Dizem que Einstein acreditava no “deus de Espinosa”, mas seria esse deus o mesmo deus do Antigo Testamento? Richard Dawkins deixa claro que não, e em seu polêmico Deus, um delírio se dedica a atacar apenas o deus bíblico, e não a concepção panteísta do Cosmos. Confuso, não?

Para tentar auxiliar em tantas definições, teísmos, ateísmos e outros “ismos”, elaborei um pequeno glossário de termos abaixo, que é propositadamente curto – e, obviamente, não tem a pretensão de esgotar o assunto, mas apenas de ajudar a resolver melhor alguns debates. Comece perguntando: “que tipo de ismo você segue exatamente, afinal?”, antes de ter certeza do que exatamente o outro crê ou não crê...

Teísmo
O teísmo, derivado do grego Théos (Deus), é a crença na existência de um ou mais deuses. No politeísmo acredita-se em diversos deuses, mas no henoteísmo, apesar de admitir-se a existência de um panteão, há também um Deus supremo, criador do Cosmos. No monoteísmo reduz-se a divindade a apenas um único ser supremo, usualmente taxando outros deuses de semideuses, divindades ou demônios (do grego daemon) – que em certas doutrinas também podem assumir o papel de intermediários entre os homens e o Deus supremo.
O teísmo filosoficamente deriva diretamente do antigo questionamento: “porque afinal existe algo, e não nada?” – Que por sua vez remete a crença em uma espécie de ser consciente (embora não necessariamente um velho barbudo ou um avatar profético) que arquitetou todo o Cosmos. Pode ser, talvez, resumido como “a crença em um Criador pessoal”.
A grande maioria dos teístas também compartilha a crença de que Deus não somente pode intervir diretamente (e, usualmente, de forma sobrenatural) nos eventos da existência humana, como também pode transmitir revelações e segredos cósmicos através de profetas, sonhos e experiências religiosas em geral.

Creem em uma causa primeira: sim.
Creem em um Criador pessoal: sim.
Creem em intervenções sobrenaturais: quase sempre sim.
Creem em revelações divinas e dogmas: sim.

Deísmo
O deísmo tem suas raízes nos antigos filósofos gregos e, sobretudo, na doutrina aristotélica da “primeira causa”. Voltou a florescer no Iluminismo, sobretudo através de Galileu, Newton, Voltaire e outros. No deísmo admite-se que o Cosmos não é obra do acaso, e que portanto deva existir um Criador. Porém, os deístas creem que é papel do homem se aproximar de Deus através da razão, e não o contrário. Em suma, os deístas negam as revelações divinas e têm uma concepção naturalista do Cosmos, usualmente negando também a possibilidade de intervenções sobrenaturais.
Os deístas creem em um relojoeiro que sabia enxergar muito bem, tão bem que arquitetou todo o Cosmos de forma magistral. Tão perfeita, que lhe é mesmo desnecessário intervenções específicas. Conforme disse uma vez Voltaire a uma senhorita: “Minha senhora, acredito em uma providência geral, mas não numa providência particular que salvou o seu pássaro que estava machucado”.

Creem em uma causa primeira: sim.
Creem em um Criador pessoal: geralmente sim.
Creem em intervenções sobrenaturais: quase sempre não.
Creem em revelações divinas e dogmas: não.

Panteísmo (ou “espinosismo”)
O panteísmo associa o conceito de Deus ao próprio Cosmos: a totalidade de todas as coisas no universo, na natureza. Einstein dizia que havia duas formas de se enxergar a vida: uma é pensar que não existem milagres, a outra é conceber tudo a sua volta como um milagre. Obviamente, Einstein queria dizer que as próprias leis naturais, a própria simetria e harmonia do Cosmos, eram em si mesmas um milagre persistente – ao menos para aqueles que tinham olhos para ver.
Essa concepção de Cosmos remonta novamente a Grécia antiga, sobretudo aos estoicos. E foi bebendo dessa fonte que Benedito Espinosa concebeu a Deus como “a substância que não pode criar a si mesma, mas que gerou tudo o mais a partir de si”. Esta é uma bela síntese para um questionamento ancestral, e exatamente por isso Espinosa é até hoje tão admirado (apesar de ter sido excomungado do judaísmo, sob a acusação curiosa de ateísmo).
Se no início de sua Ética Espinosa engendra o conceito de Deus de forma geométrica e precisa”, é preciso se aventurar no restante do livro para perceber que o filósofo holandês também acreditava que esse tal Deus era capaz de nos trazer profunda felicidade existencial, sobretudo quando alinhamos nossa intuição com a “vontade do Cosmos”. Era esse deslumbramento que Einstein sentia constantemente, ao desvelar os segredos da natureza.

Creem em uma causa primeira: sim.
Creem em um Criador pessoal: não.
Creem em intervenções sobrenaturais: não.
Creem em revelações divinas e dogmas: não.

Pandeísmo
O pandeísmo nasceu da fusão do panteísmo com o deísmo, e se trata de um concepção divina do Cosmos, que só pode ser compreendida através da razão.

Panenteísmo
O panenteísmo é um doutrina muito similar ao panteísmo, mas compreende que Deus é “o Cosmos e algo a mais”. Ou seja, que o universo está contido em Deus, mas Deus não se limita apenas ao universo.

Agnosticismo
Thomas Henry Huxley, um biólogo inglês, cunhou o termo “agnóstico” (do grego agnostos, “ausência do conhecimento”) em 1869, mas a essência do agnosticismo foi melhor desenvolvida pelo filósofo alemão Immanuel Kant. No agnosticismo, admite-se que a questão ancestral acerca da natureza exata da “primeira causa” não pode ser resolvida com base no conhecimento atual da humanidade, e talvez jamais venha a ser efetivamente solucionada. Geralmente isso significa apenas que os agnósticos se posicionam com ceticismo em relação à existência de Deus: não podem afirmar que existe, nem tampouco que não existe. Ou, como dizia Carl Sagan, um grande agnóstico: “a ausência da evidência não é a evidência da ausência”.
O agnosticismo possuí algumas vertentes interessantes: os fideístas creem que essa mesma questão da “primeira causa” realmente não pode ser resolvida pela razão, mas sim pela fé. Também é possível ser um agnóstico teísta – que crê em Deus, mas não crê que pode compreendê-lo; ou ainda, bem mais comum, um agnóstico ateísta – que não crê em Deus, embora tampouco afirme que não exista.
Se formos considerar a essência do ceticismo filosófico, para um cético só é mesmo possível ser um agnóstico, há menos que este cético tenha passado por experiências religiosas subjetivas, e que por conta delas tenha passado a crer em Deus.

Creem em uma causa primeira: geralmente sim, embora não saibam resolve-la.
Creem em um Criador pessoal: não (exceto no fideísmo).
Creem em intervenções sobrenaturais: não (exceto no fideísmo).
Creem em revelações divinas e dogmas: não (exceto no fideísmo).

Ateísmo
Em sua origem antiga, o ateísmo (do grego atheos, “ausência de Deus”) sempre foi um termo profundamente arraigado na religião, visto que usualmente significava a negação dos deuses e práticas religiosas locais. Claro que o ateísmo na antiguidade também poderia significar literalmente a descrença em todo e qualquer deus, mas esses casos eram muitíssimo raros. Mesmo grandes profetas e filósofos foram acusados de ateísmo, a despeito de sua óbvia crença em Deus ou em deuses, dentre eles contamos até mesmo Sócrates e Jesus Cristo.
Com o passar dos séculos e, sobretudo, com o aflorar das ciências naturais após o Iluminismo, o ateísmo em seu sentido de “descrença total em Deus” passou a ser cada vez mais comum. Teoricamente, aquele que se declara ateu na era moderna estará afirmando categoricamente que “não existe um Criador”, e também geralmente poderemos adicionar à afirmativa: “tampouco existe uma causa primeira com objetivo definido”. Ou seja, um ateu moderno não vê sentido ou desígnio divino no universo.
Mas esse tipo de definição do parágrafo acima não é compartilhado por todos, tampouco pelos próprios ateus – e há muitos ateus que se colocam, em realidade, como agnósticos, ou agnósticos ateístas (ver acima), apesar de se definirem “apenas como ateus”. Esse tipo de afirmação gera muitos desentendimentos, pois há muitos teístas e mesmo deístas que se sentem ultrajados com o fato de alguém se sentir na condição de afirmar que “não existe um Criador nem um sentido para a causa primeira” – muito embora nem sempre seja o que alguém que se autointitule ateu queira realmente dizer.
Em suma, há muitos agnósticos que gostam de se dizer ateus apenas para se colocarem ainda mais claramente em oposição às concepções teístas, sobretudo aquelas originárias das doutrinas dogmáticas.

Creem em uma causa primeira: por vezes sim, embora em todos os casos neguem um sentido ou desígnio divino no universo.
Creem em um Criador pessoal: não, e por vezes podem ter “certeza que não existe Criador algum”.
Creem em intervenções sobrenaturais: não.
Creem em revelações divinas e dogmas: não.

Antiteísmo
O antiteísmo (alguns chamam de neo ateísmo ou novo ateísmo) é uma vertente moderna do ateísmo que não se contenta em apenas se declarar ateísta, como critica veementemente o teísmo e, por vezes, atua de forma militante, tentando convencer as pessoas de que Deus não existe. Embora os antiteístas provavelmente entendam a si mesmos como “evangelizadores da ciência e do racionalismo”, eles na prática lembram muito mais uma versão distorcida dos próprios evangelizadores teístas.

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Observação (1): É preciso sempre lembrar que a ciência não é ideologia ou doutrina, não é materialista nem espiritualista, monista ou dualista, teísta ou ateísta. A ciência é tão somente o conhecimento da natureza detectável, e o estudo de seus mecanismos. Há muitos grandes cientistas da história que eram teístas, deístas, panteístas, etc.

Observação (2): Embora um teísta fundamentalista provavelmente me julgue um ateu, e um antiteísta radical provavelmente me julgue um teísta, eu na realidade estou situado mais ou menos entre o Panteísmo, o Deísmo e o Pandeísmo.

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Vídeo
Este artigo serviu de base para o roteiro do vídeo O que é Deus para você? no canal Conhecimentos da Humanidade do YouTube.

» Veja também o artigo Monismos e dualismos, que trata da natureza da mente

Crédito da foto: Brian David Stevens/Corbis

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23.9.11

Rock, Memes e Egrégoras

Em homenagem ao Rock in Rio (ou Pop in Rio), trago a vocês dois excelentes podcasts sobre rock, ciência, religião, ocultismo, memética e egrégoras. Se tiver pouco mais de 2h para ouvir isso tudo com alguma atenção, tenho a certeza que passará a encarar a vida, e seus próprios pensamentos, por uma ótica inteiramente nova...

Se não tiver paciência para escutar a apresentação dos programas, assim como as músicas e trechos de filmes, recomendo fazer o download dos arquivos, para que possa ouvir localmenete e pular os trechos indesejados:

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Podcast Rock com Ciência: Memética [ver no site original]
Meme, termo derivado da palavra gene, foi cunhado por Richard Dawkins, em seu livro O gene egoísta em 1976. Qual a música (rock, claro) mais grudenta que você conhece? Aquela música que você escuta uma vez e não sai mais da cabeça? Existe até uma expressão para isso, Brainworm...

» Fazer download do podcast acima

Programa do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde Laboratório de Genética Ecológica e Evolutiva UFV - Campus de Rio Paranaíba

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Podcast Descontrole: Marcelo Del Debbio [ver no site original]
Prepare-se! Pois você vai se sentir esquisito... Vamos falar hoje sobre o que está oculto sobre o véu da realidade, vamos nos olhar no no espelho e escolher entre a pílula azul ou a vermelha! Podcast com o ocultista Marcelo Del Debbio, onde falam sobre símbolos, mitologia, origem das religiões, memes e... egrégoras.

» Fazer download do podcast acima

Programa de um bando de "loucos"...

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Gostou da memética e suas relações com o ocultismo e a espiritualidade em geral? Então não perca nossa série de reflexões sobre o assunto: Onde estarão os memes?

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Crédito da imagem: moodboard/Corbis

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6.4.10

Reflexões sobre o sexo, parte 2

continuando da parte 1...

A força motriz

Assim como Montaigne, um outro filósofo de renome que veio depois inquietou-se com o “pudor filosófico” em relação ao sexo. Schopenhauer era particularmente perplexo com o poder que a atração sexual exercia na vida de qualquer pessoa de sua época, do mais humilde e ignorante ao mais nobre e educado:

“O amor (...) interrompe a cada momento o mais sério dos trabalhos e algumas vezes deixa perplexos, mesmo que por alguns instantes, os cérebros mais geniais. Ele não hesita (...) em interferir nos negócios do estadista e nas investigações do intelectual. Ele sempre encontra meios furtivos de introduzir seus bilhetes apaixonados e cachos de cabelos do ser amado até mesmo nas pastas ministeriais e nos manuscritos filosóficos... Ocasionalmente, exige o sacrifício da saúde, dos bens, da posição social ou da felicidade.”

Porque afinal o homem, o mais racional dos animais, insistia em comportar-se, de tempos em tempos, como um animal no cio? Como pôde a razão, a divina razão, permitir tal irracionalidade – como sabemos, mesmo nas instituições mais sacras? O filósofo alemão encontrou uma resposta surpreendentemente atual, considerando-se a sua época (1788-1860):

“Porque uma ninharia como essa exerce papel tão importante (...)? Não devemos nos deter em pormenores insignificantes; ao contrário, a relevância deste assunto está em plena harmonia com a sinceridade e o empenho que lhe dedicamos. Toda relação amorosa tem um objetivo primordial (...) que, na verdade, se sobrepõe a qualquer outro projeto humano. É, portanto, digna de ser encarada com profunda seriedade.

O que caracteriza este objetivo é nada menos que a criação da próxima geração (...); a existência e organização específica da raça humana no futuro.”

Antecipando o que a genética viria a confirmar posteriormente, Schopenhauer teorizou que era a própria força motriz da vida, da perpetuação da espécie, que influenciava a razão dos homens mais sensatos, através de um inconsciente que tinha os seus próprios planos. Mas em sua imaginação, foi mais além, afirmando que esta vontade inconsciente tentava estabelecer uma harmonia entre as características físicas e mentais de homens e mulheres:

“Todos desejam, por intermédio de seu par, eliminar suas próprias fraquezas, defeitos e desvios do padrão, para que não sejam perpetuados ou transformados em completa anormalidade no filho que será gerado.”

Pela lógica peculiar do filósofo do amor, um homem de queixo e nariz protuberantes iria se sentir atraído – ainda que de forma inconsciente – por uma mulher de face delicada e nariz pequeno. Da mesma forma, um homem tímido e pacato se interessaria por uma mulher extrovertida e neurótica. Assim a força da vida tendia para uma harmonia de características, e os opostos deveriam se atrair, ainda que sem saber...

Por isso Schopenhauer foi mais um a decretar a separação entre o casamento e a felicidade: pares de características opostas estavam fadados a um relacionamento tempestuoso. Porém, toda a desarmonia que é a causa da infelicidade de sua relação é compensada pela harmonia de características de sua prole. Segundo esta curiosa teoria, a vida não estaria mais interessada na felicidade e no “amor eterno” do casal do que na garantia da reprodução e uma prole harmônica e “balanceada”.

Interessante notar as similaridades desta filosofia com as idéias defendidas por Dawkins em seu célebre “O Gene Egoísta”, e mesmo com as teorias controversas da Psicologia Evolutiva. Seriam os genes espécies de homúnculos capazes de controlar nossa vontade – senão pelo inconsciente, ao menos pelos instintos sexuais?

Não é preciso tornar a ciência mística, nem recorrer a idéias sedutoras da filosofia para explicar tal problema... Ora, é certo que muitos de nós cedem facilmente aos instintos e a atração sexual, mas serão todos? E seria a explicação do desejo da perpetuação da espécie válida para todos os casos, mesmo os de relações homossexuais? O que dizer então dos seres assexuados, seriam eles abençoados ou amaldiçoados?

Schopenhauer não conseguia vislumbrar na força motriz da vida mais do que uma espécie de escravidão dos sentidos:

“A vida da maioria dos insetos não passa de um esforço incessante de preparar a alimentação e a moradia da futura prole, que sairá de seus ovos. Depois de ter consumido o alimento e ter passado para o estágio de crisálida, a prole começa uma existência cuja finalidade é cumprir novamente, e desde o princípio, a mesma tarefa (...); não podemos deixar de indagar qual o resultado de tudo isso (...); não há nada a revelar, apenas a satisfação da fome e do instinto sexual e (...) uma pequena recompensa momentânea (...), ocasional, entre necessidades e esforços infindáveis.”

Tivesse este amável pensador lidado com a vida de uma forma um pouco mais realista, e não pessimista, talvez tivesse repensado sua teoria. Não é que Schopenhauer – ou mesmo a genética – estivessem errados; Obviamente a razão cambaleia ante os instintos sexuais em quase todos nós, a força motriz que impele todos os seres adiante neste sistema-natureza tem uma função muito específica, que somente na era moderna pôde ser vislumbrado em toda a sua grandeza: não apenas proliferar a vida, não apenas sobreviver, mas evoluir!

Toda vida se auto-organiza, constrói a si mesma e se melhora através de mecanismos belíssimos, que segundo Darwin “tendem a perfeição”. Mas a vida não é só um mecanismo, ela também é um sentido. E seres conscientes, aqueles que descobriram os “mistérios do bem e do mal” e foram expulsos do Éden, parecem sim ser perfeitamente capazes de, senão racionalizar, ao menos compreender o sentido por trás desta força que nos impele sempre à frente.

Nem todos são ou foram escravos dessa vontade inconsciente, deste mítico “gene egoísta”: há que se lembrar dos santos (os verdadeiros, como São Francisco de Assis), dos grandes artistas (como Da Vinci, que trabalhou tanto que não parece ter tido tempo para o sexo) ou mesmo dos grandes cientistas (que ao invés da arte pictórica, dedicaram-se a arte dos números). E ainda que se diga que estes foram muito raros, certamente não poderemos dizer o mesmo dos assexuados e muito menos dos homossexuais, que certamente não pretendem proliferar a espécie (pelo menos, não fisicamente).

Eis que a força motriz da vida, o inconsciente sexual de Schopenhauer, o “gene egoísta” de Dawkins, nada mais é do que uma energia de vontade. Quando deixada sem controle (como a respiração inconsciente), vem bater as portas da razão de tempos em tempos, causando um caos orquestrado que objetiva a proliferação da vida física.

Entretanto, quando bem compreendida e vivenciada, quando pode ser experienciada como a respiração consciente da meditação transcendental, tal energia de vontade pode ser – senão exatamente controlada – ao menos redirecionada para objetivos diversos. Alguns diriam até, objetivos mais elevados, se esta fosse uma questão de simples julgamento.

A vontade com que Einstein buscou os pensamentos divinos, a vontade com que Da Vinci pintou e criou, a vontade com que São Francisco de Assis entregou-se a uma vida de caridade... Todas essas vontades (toda essa energia) foram de tal forma redirecionadas para um objetivo elevado, que certamente poderemos dizer que nesses casos às “interrupções irracionais” da atração sexual praticamente inexistiram [1]. Eis que alguns seres tiveram mais o que fazer desta vida; Não apenas sobreviver, mas viver – e evoluir, passo a passo, sempre à frente...

***

[1] Alguém pode lembrar que Einstein teve uma vida sexual bastante ativa. O mesmo poderia-se dizer, talvez, de Francisco de Assis antes da conversão. Mas o que estou querendo dizer é que tais seres viveram imbuídos de um "objetivo maior", uma busca por sentido, e passaram bem longe de serem escravos de um instinto de atração sexual.

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Crédito da foto: Joan Tomas

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16.12.09

Onde estarão os memes, parte 4

Continuando da parte 3...

A natureza não nos deixará relaxar

O geneticista norte-americano Dean Hamer parece ter uma predisposição inata à polêmica. Em 1993, afirmou ter descoberto um trecho do DNA, que batizou Xq28, supostamente responsável pela homossexualidade masculina. A descoberta lançou à fama e depois ao escárnio (quando outros cientistas falharam em replicá-la, já em 1999) o campo da genética comportamental, do qual é pioneiro.

Ultimamente Hamer voltou à carga, metendo a mão numa área literalmente sagrada. Em seu livro "O Gene de Deus" (Ed. Mercuryo), Hamer tenta sustentar que a crença em um criador também é geneticamente determinada. Antecipando as críticas, Hamer disse logo que não se trata de "o" gene, mas de "um gene entre vários". E, ah, não é exatamente Deus, mas uma predisposição à crença, que ele chama de "espiritualidade". Em todo caso, segundo ele, “O Gene de Deus” é um título que vende muito mais...

O tal gene, isolado por Hamer e sua equipe no Instituto Nacional do Câncer, nos EUA, é identificado pela sigla vmat2. Ele estaria envolvido no transporte de uma classe de mensageiros químicos do cérebro conhecidos como monoaminas, do qual o mais famoso é a serotonina, a molécula do bem-estar. Algumas drogas como o ecstasy e o prozac também influenciam o humor alterando os níveis de serotonina no sistema nervoso. Será que a fé se resume a isso?

É precisamente esse tipo de tratamento ultra-superficial do assunto que permitiu que a ciência moderna chegasse a uma visão mecanicista do homem, e do funcionamento da mente. Mas nosso atual estudo se resume a questão da possibilidade de que características psicológicas e comportamentais possam ser passadas de geração a geração, e evoluir de forma darwinista, precisamente como os genes. Portanto, se gente como Dean Hamer tivesse comprovado que algum gene, seja ele qual for, pode ser o responsável pela transmissão desse tipo de característica – no caso, a homossexualidade ou a espiritualidade – teríamos uma grande comprovação de que os genes, afinal, não transmitem apenas características físicas adiante, e que os memes nada mais seriam do que características ocultas dos genes, sendo passadas adiante pela reprodução humana.

Esse dia, porém, ainda não chegou; E, pelo que temos visto dos “grandes estudos” de gente como Hamer, a tendência é que nunca chegue: os genes, como qualquer geneticista aprendeu na faculdade, transmitem mesmo apenas características físicas. Caberá aos memes, ou a outras teorias, solucionar o problema da transmissão de características não-físicas pelas gerações humanas.

O psiquiatra suíço Carl G. Jung desenvolveu o conceito de inconsciente coletivo – uma parte da mente, compartilhada por todos, como produto da ancestralidade. Para ele, esse inconsciente inclui os arquétipos (conceitos universais inatos), como mãe, Deus, herói, etc., detectáveis na forma de mitos, símbolos e instinto. Presume-se que ele via o inconsciente coletivo como um tipo de memória popular, corporificado na estrutura do cérebro. Ora, que o cérebro de um recém-nascido obtenha registros em seu hipocampo, trazendo memórias armazenadas por seus ancestrais, nem seria um grande problema científico, contanto que fossem detectadas as partículas responsáveis por tal transmissão. Nesse caso, a grande diferença da teoria de Jung para a teoria de Dawkins é que o inconsciente coletivo pode mesmo abrigar memórias e costumes de toda a espécie, e não apenas dos memes que foram passados adiante na reprodução.

E temos aí uma enorme quantidade de informação “mitológica” a “flutuar pelo ar” e influenciar diretamente os costumes e a cultura dos seres humanos. Continua inexplicado, continua oculto, continua profundamente místico – exatamente como os memes.

Nesse ponto o bom observador deve ter percebido o grande dilema: por um lado, cientistas, psicólogos e antropólogos têm percebido e reconhecido que, sem dúvida, certas características não-físicas são transmitidas adiante ao longo da evolução humana; por outro lado, as únicas unidades materiais detectadas, os genes, não explicam o mecanismo de tal processo. Portanto, qual a grande diferença entre os que acreditam em memes e no inconsciente coletivo, e os reencarnacionistas e espiritualistas em geral?

Muitos dos que se dizem “materialistas” imaginam que a máxima da teoria do materialismo – “tudo o que existe é matéria” – coloca esta maneira de ver o mundo automaticamente acima das demais, que crêem no “imaterial”. Mal sabem que existem muitos espiritualistas que crêem piamente que “tudo o que existe é matéria”, da mesma forma que os materialistas. A única diferença é que certos espiritualistas crêem que os 96% de matéria não detectada no universo (porque não interage com a luz, segundo a teoria da Matéria Escura) podem explicar muito do que é desconhecido do materialismo, que por seu lado, crê piamente que o mecanismo de tudo o que existe, incluindo a mente humana, já pode ser compreendido apenas analisando-se os 4% da matéria já detectada.

A grande diferença entre esse tipo de espiritualista (alguns diriam, moderno) e o materialista, é que o último já se dá por satisfeito com o que já foi detectado pela ciência, enquanto o primeiro dedica a vida a desvendar os segredos da matéria fluida, não-detectada. É nesse sentido que se diz que a consciência, ou o que quer que forme seu processo, pode perfeitamente sobreviver após o fim da vida corpórea, assim como decerto já vivia anteriormente ao nascimento – dessa forma se explicariam fenômenos como experiências de quase morte, crianças que se lembram de “vidas passadas”, e outros ramos mais próximos da parapsicologia do que da auto-proclamada “ciência oficial”.

Obviamente que o fato de tais teorias espiritualistas virem sempre envoltas em questões teológicas e, segundo muitos céticos, “pseudo-científicas”, afasta muitos cientistas de seu estudo, temerosos com a possibilidade de serem conhecidos como “cientistas espiritualistas” – algo que a comunidade científica aparentemente condena, apesar de ficar por vezes igualmente aparente que muitos deles ignoram completamente o que exatamente significa ser um espiritualista.

Porém, como já foi dito por mim em outros artigos, a natureza nunca se comportou da maneira que “achávamos que iria se comportar”. Segundo Richard Feynman, “a imaginação da natureza é muito maior que a do homem, ela nunca nos deixará relaxar”. É provável que tanto os adeptos da memética quanto os reencarnacionistas vejam o mundo através de uma lente ainda desfocada, talvez o futuro da ciência e do espiritualismo ainda nos esconda mecanismos naturais tão belos e extravagantes, tão simples e transcendentes, que nossa imaginação não seja capaz de vislumbrá-los, e nossa racionalidade não seja capaz de compreendê-los.

Que as lentes se interponham. Que venha o futuro!

***

Crédito da foto: [topo] Divulgação (Richard Feynman), [ao longo] Hikabu (arquétipos)

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14.12.09

Onde estarão os memes, parte 3

Continuando da parte 2...

Idéias inatas

Dawkins costuma dizer que o darwinismo é uma teoria boa demais para ficar restrita apenas à biologia. A idéia foi levada a sério pelo psicólogo evolucionista Steven Pinker, da prestigiosa Universidade Harvard. Seu livro “Tábula Rasa” (Cia. das Letras) é um extenso apanhado das contribuições da biologia darwinista a campos como a antropologia, a sociologia, a ciência política e até a crítica de arte.

O objetivo declarado de “Tábula Rasa” é nada mais nada menos do que propor uma nova idéia de natureza humana. A palavra "natureza" deve ser entendida literalmente. Diz respeito à nossa biologia, às determinações inescapáveis que a seleção natural depositou em nosso código genético. Impressas em nosso DNA estariam não apenas as instruções para fazer cinco dedos em cada mão e um nariz no meio dos olhos. Todos nascemos com uma programação básica que nos habilita à condição humana, da capacidade de aprender uma língua ao senso de justiça em trocas comerciais. O apêndice do livro traz uma lista de "universais humanos" compilada pelo antropólogo Donald Brown. Seriam características comuns a todas as culturas do planeta – uma lista de cinco páginas com itens que vão do óbvio ao curioso: medo de cobras, poesia, sorriso, linguagem, etc.

O estudo dessas características comuns do comportamento humano faz parte do programa da psicologia evolucionista, ramo científico relativamente novo, que ganhou força no final do século XX. Para esses psicólogos, se o homem trai mais do que a mulher, é porque ainda guarda muitas características da Idade da Pedra em sua mente – precisa disseminar seus genes, se reproduzindo com o maior número possível de mulheres, visto que para sua mente “ancestral”, ele ainda vive num mundo inóspito e selvagem, e não têm grandes perspectivas de sobrevivência à longo prazo. Já as mulheres seriam, ao contrário, muito mais seletivas – a gestação é um período de perigo iminente a sua sobrevivência, e a de seus filhos, e ao invés de se “arriscar” com qualquer homem que apareça, as mulheres tendem a preferir aqueles com aparência mais saudável, e que tenham maior tendência a permanecer para protegê-las durante a gestação e alguns anos depois.

Tais idéias de comportamento masculino e feminino entre as espécies não são novas. A novidade está em atribuir tamanha influência do instinto animal as decisões do homem moderno. Não se trata nem de se considerar o homem moderno como uma espécie de sub-produto da mente “ancestral”, mas por vezes quase que considerá-lo praticamente um animal irracional, a mercê dos instintos – ainda que viva com a convicção de que têm toda a liberdade do mundo em suas decisões.

As teorias da psicologia evolutiva sofrem pesadas críticas de outros cientistas mais céticos. A maior parte delas se resume a questão da falta de evidências. Nesse caso, o ceticismo não poderia estar mais bem fundamentado: a ciência simplesmente não sabe como diabos essas idéias inatas, esses comportamentos ancestrais, são passados adiante de geração a geração (se é que o são), visto que genes transmitem apenas características físicas, e não características psicológicas ou tendências comportamentais.

Entretanto, Dawkins não podia negar o que percebia claramente a sua frente – idéias inatas, sejam o que forem exatamente, certamente existem – e criou a teoria dos memes para abarcar esse problema. Acredito, no entanto, que as alegações da psicologia evolutiva caiam por terra quando analisamos algumas características mais exóticas do comportamento humano. Por exemplo: a homossexualidade...

Kim Petras nasceu menino, mas antes mesmo de completar 18 anos conseguiu se transformar em uma menina sensação da música pop alemã e britânica. Como não poderia deixar de ser, ela passou a ser um alvo dos tablóides europeus. Kim, que nasceu Tim, disse que passou a tomar hormônios em 2005, consultou dezenas de psiquiatras e sempre se viu como uma garota. Os pais deram o apoio para a transformação, relata. O último passo para o tratamento foi realizado em outubro de 2008.

Ora, muitos homossexuais e/ou bissexuais manifestam suas tendências sexuais “heterodoxas” geralmente em algum momento da adolescência – nesses casos, podemos atribuir a causa à influência da cultura e das relações sociais em suas tendências. Mas, e quanto à gente como Kim? E quanto às crianças que, desde muito cedo, dizem se sentir “presas em um corpo errado”?

A equipe chefiada pela cientista Ivanka Savic, do Instituto Karolinska, mostrou, com a ajuda da ressonância magnética, que o tamanho e a forma do cérebro variam de acordo com a orientação sexual. O cérebro de um homem gay parece o de uma mulher hétero – com os dois hemisférios mais ou menos do mesmo tamanho. O de uma lésbica, no entanto, parece o de um homem hétero – pois os dois têm o lado direito um pouco maior que o esquerdo. O cérebro de um homem gay é mais parecido com o de uma mulher do que com o de um homem heterossexual. É o que mostra seu estudo feito na Suécia, que revelou as provas mais sólidas até hoje de que a sexualidade não é uma opção, mas uma característica biológica.

“Excelente”, você pode estar pensando – a ciência parece estar comprovando que essas características não-físicas, essas idéias inatas de comportamento sexual, são realmente passadas de geração a geração... Ora, independentemente de tais estudos estarem comprovando que a homossexualidade certamente não é uma doença, eles levantam um problema enorme para os psicólogos evolutivos: afinal de contas, como a homossexualidade pode estar sendo transmitida adiante, seja por memes ou por algum outro mecanismo desconhecido, se homossexuais não têm filhos – ou seja, se não transmitem seus genes adiante?

É nesse ponto que a mente do cientista materialista deve estar se fundindo. Não há muitas opções senão ignorar totalmente o assunto, e tratar o estudo de pessoas que nascem com cérebros característicos do gênero oposto de forma separada aos estudos da memética e da psicologia evolutiva. Pois, a outra opção seria admitir que certas características psicológicas e comportamentais humanas não são passadas adiante de geração a geração, através da reprodução e da disseminação de genes ou memes, mas sim através de um mecanismo ainda oculto a ciência.

Tal mecanismo é conhecido dos reencarnacionistas a centenas de anos. A seguir, chegaremos às alternativas espiritualistas para a questão...

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Veja também:

» Entrevista com Kim Petras na CBS (em inglês)

» Documentário "Meu Eu Secreto", da ABC, sobre crianças transsexuais (legendado)

Crédito da foto: Divulgação (Kim Petras)

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9.12.09

Onde estarão os memes, parte 2

Continuando da parte 1...

Em busca de coisas etéreas

Os sufis dizem que assim como no corpo físico de um indivíduo muitos germes nascem e se desenvolvem como seres vivos, de forma análoga, existem também muitos seres no plano mental, chamados muwakkals ou elementais. Estes são entidades ainda mais etéreas nascidas do pensamento humano, e assim como os germes vivem no corpo humano, tais elementais sobrevivem de seus pensamentos. Segundo os místicos do Islã, o homem muitas vezes imagina que seus pensamentos não têm vida; ele não percebe que eles são mais vivos do que os germes físicos, e que eles também passam por nascimento, infância, juventude, velhice e morte. Eles trabalham contra ou a favor dos homens de acordo com sua natureza. Os sufis afirmam que os criam, elaboram e controlam. Um sufi os repete e os educa através de sua vida; ele forma seu exército e subjuga seus desejos.

Quando Richard Dawkins elaborou o conceito dos memes em seu célebre livro, “O Gene Egoísta”, ele provavelmente nunca tinha ouvido falar dos elementais do sufismo. Para muitos, é uma deliciosa ironia que o “evangelizador do ateísmo” tenha despontado para o sucesso no meio acadêmico científico exatamente através de um conceito, muitos diriam – profundamente místico.

Um meme é para a memória o análogo do gene na genética, a sua unidade mínima. É considerado como uma unidade de informação que se multiplica de cérebro em cérebro, ou entre locais onde a informação é armazenada (como livros) e outros locais de armazenamento ou cérebros. No que diz respeito à sua funcionalidade, o meme é considerado uma unidade de evolução cultural que pode de alguma forma se auto-propagar. Os memes podem ser idéias ou partes de idéias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autônoma. O estudo dos modelos evolutivos da transferência de informação é conhecido como memética.

Por exemplo, a penicilina, o antibiótico descoberto pelo bacteriologista escocês Alexander Fleming em 1928, salvou inúmeras vidas durante a Segunda Guerra Mundial, pois evitou que os soldados feridos em batalha pegassem infecções em seus ferimentos, o que até pouco tempo era morte certa. Já a insulina é o cerne do tratamento contra a diabetes, uma doença muito antiga na evolução humana; sem esse tipo de tratamento, muitos diabéticos do século passado teriam morrido ainda jovens, e não teriam tido tempo de terem filhos e passar seus genes adiante. Finalmente, a descoberta das lentes divergentes no campo da ótica permitiu que pessoas com miopia pudessem enxergar normalmente pela maior parte de suas vidas; até então essas pessoas viam o mundo de forma incompleta, e tinham sérias dificuldades em sobreviver em ambientes selvagens. Pessoas feridas em batalhas, pessoas com diabetes e pessoas com problemas de visão a distância sempre existiram, mas antes de tais descobertas tinham poucas chances de passar seus genes adiante. Esse é o poder do conhecimento humano, o poder dos memes: tomar o controle da evolução biológica, muitas vezes abrindo novas possibilidades, permitindo que pessoas que antes estavam condenadas a uma vida breve e sem filhos, possam viver normalmente e – principalmente – se reproduzir normalmente.

Que memes sejam idéias que se propagam como “germes etéreos”, até então não há aí um grande problema científico. Talvez, ao desvendarmos os mistérios da consciência e da forma como os pensamentos são formados, possamos quem sabe, até mesmo detectar tais memes em laboratório. Talvez sejam impulsos elétricos tão indetectáveis quanto os neutrinos ou a matéria escura, talvez sejam algo ainda mais bizarro; ou mais simples, como simples códigos passados através da linguagem, que despertam certas reações no cérebro alheio.

A questão é que o conceito não se resume aí. Segundo os adeptos da psicologia evolutiva, a cultura humana também se propaga, através dos memes, de geração em geração, sem que para isso a transmissão de conhecimento através da linguagem tenha de estar necessariamente envolvida. Nesse caso em específico, aí sim, os memes se tornam a alternativa mística aos genes, que transmitem apenas características físicas.

Mas será que os memes têm mesmo esse poder? E, se tiverem, o que os difere dos elementais do sufismo, ou de conceitos similares para os quais a “ciência oficial” têm torcido o nariz a tantos anos? É isso que veremos à seguir...

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Crédito da foto: Gavin Hellier/JAI/Corbis

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