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3.5.17

A marcha das formigas

Dave Matthews nasceu e viveu na África do Sul até os seus 10 anos de idade, quando seu pai faleceu devido a complicações de saúde. Sua família então se mudou para Nova York. Porém, ainda aos 12 anos ele voltou à sua terra natal, onde permaneceu mudando de escola em escola, se preocupando mais com a música do que com os estudos. Terminado o ensino médio, Dave retornou aos EUA e se estabeleceu em Charlottesville, Virgínia. Novamente um americano, incerto do que iria fazer da vida, acabou se tornado um conhecido e querido barman local.

Encorajado pelo amigo e guitarrista Tim Reynolds, Dave começou a mostrar sua música e, a partir de canções que havia escrito, convidou dois colegas instrumentistas para gravar uma demo tape. Assim nasceu a Dave Matthews Band, uma das bandas de maior sucesso de público e vendagem desde o final do século passado e, não obstante, uma banda essencialmente folk (popular, local), principalmente em seus primórdios. Talvez por conta de suas conexões africanas, Dave aprendeu a observar o espírito da América, em todas as suas nuances. Foi desta contemplação, acredito, que surgiu uma de suas letras mais belas e inquitantes, Ants Marching (Formigas Marchando), que fala basicamente de nós, os ocidentais, e do que temos feito de nossas vidas...

Neste show beneficiente em prol da agricultura local (ou familiar), literalmente no centro dos EUA, Dave nos apresenta Ants Marching ao vivo, acompanhado de seu antigo amigo (que por acaso é um dos maiores guitarristas vivos):

Ele se levanta pela manhã
Escova os dentes, belisca alguma coisa, e está pronto
Ele nunca muda coisa alguma
A semana termina, e outra começa

Ela pensa: nós nos entreolhamos
Imaginando o que o outro está a refletir
Mas nunca falamos coisa alguma
E estes crimes entre nós vão se aprofundando

Ele vai visitar sua mãe
A comida é boa, logo ele se esquece dos problemas
E se lembra de quando era pequeno
Brincando debaixo da mesa e sonhando

Você pega todas essas chances
E as guarda numa caixa, esperando dias mais tranquilos
Então as luzes se apagam, e você se levanta, e morre

Dirigindo por esta estrada
Há todos esses carros, e pela calçada
Pessoas vagueiam em todas as direções
Nenhuma palavra é trocada, não há tempo...

Oh! e todas as formigas estão marchando
Anteninhas vermelhas e pretas balançando
Todas elas seguindo do mesmo jeito
Todas elas seguindo no mesmo... caminho!

O doceiro instiga os pensamentos de um
Desejo por doces torturado pelo programa
De perda de peso que nos martela a cabeça
Corte o doce, corte, corte
Fique em cima do muro, não vá ofender ninguém
Corte, corte, corte, corte...

Você pega todas essas chances
E as guarda numa caixa, esperando dias mais tranquilos
Então as luzes se apagam, e você se levanta, e morre

Ants Marching (Formigas Marchando), por Dave Matthews Band (trad. Rafael Arrais)

***

Crédito da imagem: Google Image Search/Divulgação (Tim Reynolds e Dave Matthews)

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28.6.15

O óbito da ignorância

A Casa Branca, pela entrada da noitinha, com iluminação especial em diversas cores, celebrando a decisão histórica da Suprema Corte americana.

Foi por conta de uma certidão de óbito que os EUA finalmente foram incluídos no rol dos países que deixaram de proibir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ao lado de Holanda (a pioneira) e diversos países europeus, assim como Uruguai, Argentina, Brasil, Canadá, México, África do Sul e Nova Zelândia:

Mapa com os países onde o casamento gay já é legal.

“Quando conheci meu marido, eu soube que queria ficar com ele pelo resto da minha vida, até que a morte nos separasse. A maioria das pessoas sente isso quando encontra o amor de sua vida”, disse a BBC o americano Jim Obergefell, 48 anos, ao falar sobre John Arthur, seu parceiro por 21 anos.

Eles se conheceram em 1992 e durante duas décadas construíram uma vida juntos em Cincinnati, Ohio. Em 2011, Arthur foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica, doença que não tem cura, e começou a perder o controle de seus movimentos musculares e a fala. Ambos sabiam que o tal “até que a morte os separe” estava cada vez mais próximo, e decidiriam aproveitar uma decisão prévia da Suprema Corte americana, de 2013, que permitia o seu casamento em certos estados da federação.

O casal arrecadou US$ 13 mil com familiares e amigos e alugou um jato com equipe médica para viajar a Maryland, Estado onde o casamento gay já era permitido na época. Em 11 de julho de 2013, Obergefell e Arthur trocaram votos e alianças em uma cerimônia de menos de dez minutos, realizada dentro do avião, na pista de um aeroporto em Baltimore.

Após voltarem para casa, entraram com uma ação para que o casamento fosse formalmente reconhecido na certidão de óbito, quando Arthur morresse. Após decisão favorável de um juiz federal, o Estado de Ohio recorreu, e o caso chegou à Suprema Corte.

Foi precisamente este caso que acarretou na decisão histórica e acirrada (5 votos a 4) do último dia 26 de julho de 2015, que basicamente estendeu o direito ao casamento homossexual de alguns estados para todo os EUA. Foi para que na certidão de óbito do grande amor de sua vida não constasse a palavra “solteiro” no lugar de “casado” que Obergefell, indiretamente, ajudou a acelerar o óbito da intolerância e da ignorância na maior potência do mundo ocidental.

Claro que, não fosse por este caso, teria sido por outros. Para além do apoio incondicional a decisão da maior rede social da internet, o Facebook, o que acarretou no florescimento de milhões de fotos de perfil mais coloridas nos dias subsequentes, essas foram algumas das grandes empresas que demonstraram explicitamente o seu apoio à decisão americana:

Logos da Apple, Microsoft, Google, Facebook, YouTube, Twitter, Tumblr AmericanAirlines, Uber e Vevo.

***

Uma questão bíblica
No Levítico, a Bíblia nos explica que “quando um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão” (Le 20:13). Teoricamente, todos os judeus andarilhos, que então viviam em tribos nos desertos do Oriente Médio, deveriam seguir estritamente tal lei ou seriam “punidos por Javé”. Isto fazia algum sentido na época, pois era um povo nômade, que não dispunha de cadeias para punir infratores, e nem podia se dar ao luxo de contar com homens “efeminados” que, para além de não poderem guerrear, não ajudariam na procriação, que era vital naqueles tempos.
Estar ainda ancorado nas leis do Levítico, mesmo no século XXI, é no mínimo uma enorme ignorância, até mesmo porque quem se vale dessa passagem para condenar a homossexualidade está sendo algo hipócrita, na medida em que provavelmente não segue as demais leis do mesmo livro da Bíblia, como por exemplo: “não cortar o cabelo muito curto, nem danificar as extremidades da barba” (Le 19:27); “sacrificar dois pombos a Deus 8 dias após cada menstruação” (Le 15:13-14); “jamais comer carne de porco” (Le 11:7) etc.

Pederastia
A origem desta palavra remonta a antiga Grécia, berço da democracia e de inúmeras ideias que até o nosso século ainda iluminam o Ocidente. Ela significa, literalmente, “amor por garotos”.
Na Antiguidade, a pederastia era uma relação entre um homem mais velho e um adolescente. Em Atenas este indivíduo mais velho era chamado de erastes, e sua função era a de educar, proteger, amar e agir como um exemplo para seu amado – chamado de eromenos, cuja recompensa para seu amante estaria em sua beleza, juventude e potencial.
Não está claro se tal relação passava muito além de uma iniciação sexual que durava não mais do que alguns anos, mas fato é que a sociedade grega não distinguia entre desejo e comportamento sexual com base no gênero de seus participantes, mas sim pela extensão com que tais desejos ou comportamentos se conformavam às normas sociais, que eram baseadas por sua vez no gênero, idade e status social.
Naquela época, o sexo entre homens era aceito, contanto que não deixassem de buscar constituir família nem de se alistarem para a defesa de suas cidades.

Bonobos
Os estudiosos perceberam apenas em 1928 que os bonobos formavam uma família diferente dentro da espécie dos chimpanzés, com um comportamento muito peculiar, em que o sexo está em primeiro lugar, funcionando como substituto da agressividade. O bonobo é um dos raros animais para quem não existe relação direta entre sexo e reprodução. Ou seja, como os humanos, eles fazem mais amor do que filhos. Ao contrário da maioria dos primatas, a sociedade dos bonobos é dominada pelas fêmeas e não pelos machos.
Este “matriarcado” só se torna efetivamente possível porque, ao contrário da maioria das fêmeas de outras espécies, que só são receptivas ao sexo no período fértil, as fêmeas bonobos são atrativas e ativas sexualmente durante quase todo o tempo. Além de intensa atividade sexual com seus parceiros, em que tomam a iniciativa, elas simulam relações com outras fêmeas – é justamente através do sexo que estabelecem as alianças entre si. Os machos também participam dessa espécie de homossexualidade light.
Este é apenas o mais evidente de muitos casos de relações homossexuais na natureza. Assim, se por acaso algum dito pastor, seguidor de algum estranho deus raivoso, lhe disser que ser gay é “antinatural”, você pode lhe responder assim: “Senhor Pastor, o senhor por acaso já ouvir falar dos bonobos?”.

A visão budista
Um dos alunos de Chagdud Tulku Rinpoche, o Precioso Senhor da Dança, um reconhecido mestre budista tibetano, conta que uma vez presenciou tal conversa do mestre com uma senhora que havia acompanhado uma de suas palestras:
Ela: “Mestre, o que é um homossexual?”; Ele: “Um homossexual é uma pessoa que faz sexo com o mesmo sexo.”; Ela: “Acho que o senhor não entendeu… Como o budismo vê o homossexualismo?”; Ele: “Nós não vemos o homossexualismo. No budismo, não temos o costume de ver as pessoas fazendo sexo.”; Ela: “Mestre, o que eu quero saber é a opinião do budismo sobre pessoas que fazem sexo com o mesmo sexo.”; Ele: “Alguém pode dar opinião sobre quem não conhece? Você está falando em “pessoas”. Que pessoas?”; Ela: “Qualquer uma! Qualquer uma!”; Ele: “Todas as pessoas são milagres.”; Ela: “Mas afinal o homossexualismo é certo ou errado?”; Ele: “Atos homossexuais consensuais são atos de amor.”
Tudo isso com a mesma expressão de quem vê um passarinho azul. Seguem-se aplausos e gargalhadas. Rinpoche sorri...
Há ainda este vídeo onde outro mestre, Dzongsar Khyentse Rinpoche, do Butão, fala mais prolongadamente sobre o tema. Em ambos os casos, vemos que os budistas estão mais preocupados com seu autoconhecimento e iluminação do que com a sexualidade alheia [1].

A Igreja, o Pecado e a Verdade
Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”, afirmou o Papa Francisco em 2013, durante a entrevista concedida aos jornalistas que o acompanhavam no voo de volta à Itália depois da visita de uma semana ao Brasil, surpreendendo boa parte dos vaticanistas presentes.
É óbvio, no entanto, que não há nenhuma chance no horizonte próximo de que a Igreja Católica apoie o casamento homossexual. E nem há qualquer problema nisso... A luta pelos direitos dos gays é uma luta travada na esfera secular e laica, e não na esfera religiosa. O casamento gay nada tem a ver, nem poderia ter, com o casamento conforme os rituais da doutrina cristã.
Da mesma forma, além de certos ativistas da causa gay mais agressivos e ignorantes, nenhum gay ou simpatizante está querendo atacar ou denegrir a Igreja, e muito menos o Cristo, ao lutar por seus direitos, pela igualdade, a tolerância, o amor e, sobretudo, o fim da ignorância.
Afinal, foi ele mesmo, o doce rabi da Galileia, quem nos enxortou a amar a todos, a todos, sem exceção. E, se você ainda crê realmente que a homossexualidade é um tenebroso pecado, então eu lhe convido a conhecer a Verdade e se livrar das trevas da ignorância. Espero que o conteúdo deste artigo possa lhe ajudar em parte – afinal, foi também o rabi quem nos disse que a Verdade nos libertará...

***

[1] Vale lembrar, no entanto, que o casamento homossexual ainda não é permitido oficialmente nem no Tibete (China) nem no Butão.

Crédito das imagens: [topo] Monica M. Davey/EPA (Casa Branca com iluminação em homenagem a decisão histórica da Suprema Corte americana); [ao longo] Quartz (mapa com os países onde o casamento homossexual já se tornou legal); FCKH8.com (algumas das grandes companhias que apoiaram a decisão da Suprema Corte; para boicotá-las será necessário abandonar a era da internet e voltar a vida dos anos 1970/80).

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22.6.15

Olhos Azuis

Foi numa escola da pacata cidade de Riceville, no interior do estado de Iowa, nos Estados Unidos, que um dos experimentos sociológicos mais impactantes e esclarecedores do século passado foi primeiramente implementado em crianças, e nem mesmo Jane Elliott poderia prever a forma como ele moldaria as vidas de todos naquela classe infantil.

Era 5 de abril de 1968, e o célebre ativista dos direitos humanos, Martin Luther King Jr., acabara de ser assassinado no dia anterior. Jane pensou em como poderia ensinar sobre os efeitos devastadores do racismo na sociedade americana da época, e elaborou um experimento que duraria todo o dia de aula, onde as crianças (todas elas brancas, como Jane) seriam obrigadas a sentir na pele, ainda que de forma branda e temporária, o que significava exatamente ser um negro na sociedade da época.

Jane decidiu que as crianças de olhos castanhos seriam "inferiores", e deveriam usar uma espécie de colar pelo resto do dia de aula. Então, a professora passou o resto do dia incentivando os alunos de olhos azuis ou verdes, e descriminando os que usavam os colares... Ela mesma não sabia o que poderia ocorrer, mas aquele dia se tornou ao mesmo tempo traumático e inesquecível para boa parte dos seus alunos.

Desde então Jane teve de conviver com a raiva da maioria dos moradores da cidade, seus filhos foram importunados por boa parte da vida escolar, o restaurante dos seus pais fechou as portas por falta de clientes etc. Mas Jane não se arrependeu, não desistiu, pois ela compreendeu que havia tocado fundo na ferida, e que precisava seguir em frente se quisesse realmente fazer alguma diferença na conscientização das pessoas para este problema que, tantas vezes, é ignorado ou tratado como "algo de menor importância", ao menos pelo grupo dominante.

No documentário Blue Eyed (Olhos Azuis), que podemos assistir abaixo na íntegra, vemos como décadas depois o experimento de Jane ainda continua atual e impactante, mesmo quando aplicado a "adultos brancos de olhos azuis", em plena Nova York... Na cerca de uma hora e meia de filme, vemos como muitos adultos da classe dominante jamais tiveram alguma ideia de como é passar uma tarde sendo tratado como "inferior". Acredito que toda a experiência por que passaram foi muito importante para que passassem a enxergar o racismo pelo que ele realmente é, em essência: uma grandiosa e persistente ignorância.

Mas a grande questão é, "Terá mudado alguma coisa de 1968 para cá?". Sim, mudou, e para melhor, como deve ser... No entanto, como infelizmente costuma ocorrer, se trata de uma mudança lenta, lenta demais. Poderíamos erguer um céu de irmandade e tolerância neste mundo, mas para tal ainda falta nos livrarmos das travas da ignorância, uma reflexão de cada vez. Para você, também pode começar hoje:

Ao final da Segunda Guerra, quando eles limpavam os campos de concentração na Alemanha, um ministro luterano disse: "Quando se voltaram contra os judeus, eu não era judeu e não fiz nada. Quando se voltaram contra os homossexuais, eu não era homossexual e não fiz nada. Voltaram-se conta os ciganos e também não fiz nada. Quando se voltaram contra mim, não havia mais ninguém para me defender." Pensem sobre isso... (Jane Elliott)

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Crédito da foto: Google Image Search/Divulgação (Jane Elliott)

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14.9.12

Conversa Alheia: Guerra Fria, Propaganda, Capitão América e Crenças

Com vocês, mais um episódio do Conversa Alheia, onde alguns blogueiros e livres-pensadores falam sobre o que quer que lhes venha a mente...

Episódio #4: Guerra Fria, Propaganda, Capitão América e Crenças.
Igor Teo, Rodrigo Ferreira, Raph Arrais e Josinei Lopes falam sobre a obsolescência programada, honram a Mãe Rússia e falam de um herói que representa (ou não) uma nação. E alguém divaga...

Citado no programa:
A lâmpada centenária (sobre a obsolescência programada)

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» Ouça aos demais episódios no canal do Conversa Alheia no YouTube

» Para baixar os vídeos do YouTube, você pode usar o complemento Ant Video Downloader (para Firefox)


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22.6.12

Todas as guerras do mundo, parte 1

Guerra é um confronto sujeito a interesses da disputa entre dois ou mais grupos distintos de seres, que se valem da violência para tentar derrotar o adversário.

Quem chora pelos demônios?

Columbine sempre fora um local pacato. Situada em Colorado, nos EUA, a escola sempre teve um dos índices mais elevados do país na aceitação de seus alunos em universidades, com cerca de 82%. Columbine também se orgulhava de não registrar casos de violência. O policial de plantão se limitava a multar alunos que estacionavam os carros nas vagas destinadas a professores. A escola também era famosa por ser conservadora e privilegiar aos atletas, que defendiam os times da própria instituição. Foi esse o provável estopim da tragédia...

Em Abril de 1999, dois alunos que se sentiam excluídos dos outros grupos, particularmente por não serem atletas e nem muito dados ao convívio social, entraram armados até os dentes em Columbine, e atiraram em quem viram pela frente, matando 13 e ferindo 21, dentre professores, alunos e funcionários. Quando a polícia chegou, os jovens assassinos atiraram contra as próprias cabeças, morrendo imediatamente. Deixaram uma nota, encontrada perto dos corpos, que dizia: “Não culpem mais ninguém por nossos atos. É assim que queremos partir”.

Mas não era apenas um suicídio, e sim um verdadeiro ato de terror. A mídia na época procurou analisar minuciosamente a vida dos dois jovens, na tentativa de encontrar uma possível motivação para ato tão brutal... Como não era conveniente culpar as grandes indústrias do entretenimento, na época a maior parte da “culpa” caiu no colo da indústria dos videogames que, há mais de uma década atrás, não tinha a força política e econômica de que dispõe hoje. Os assassinos de Columbine eram assíduos jogadores de Doom, um dos primeiros games de tiro com visão em primeira pessoa e cenários 3D.

Em Doom, o personagem controlado pelo jogador é um fuzileiro espacial de um mundo futurista fictício. Ele é deportado da Terra para Marte quando se recusa a atirar em civis desarmados (ordem de um oficial superior). Para seu infortúnio, em Marte uma experiência militar secreta dá errado, e abre uma espécie de “portal para o Inferno”, de onde saem demônios e zumbis, que precisam ser dizimados pelo jogador. O jogo foi muito criticado pelos conservadores por exibir muito sangue (apesar de ser o sangue dos demônios) e muitas “imagens satânicas” (afinal, eram demônios ora essa). O fato de o personagem estar agindo heroicamente para proteger a Terra e, principalmente, o fato de ele estar nessa situação exatamente por ter se recusado a atirar em civis desarmados, é sumariamente ignorado pelos críticos conservadores. Doom foi o primeiro bode expiatório que a sociedade americana encontrou para “explicar” o massacre em Columbine.

Mesmo após Doom, muitos outros games similares sofreram a acusação de incitar a violência nos jovens, incluindo outros baseados nas guerras modernas, onde os inimigos não eram demônios, mas membros de um exército inimigo... Com o tempo, as acusações foram “esfriando”, até que se soube que o próprio exército dos EUA via com muito interesse o impacto que tais games provocavam nos jovens.

Com o alistamento caindo ano após ano, o exército americano precisava de um chamariz que pudesse realmente “seduzir” os jovens. Assim foi criado o America’s Army, um jogo inteiramente gratuito onde todo o treinamento militar americano é simulado, até que os jogadores são aprovados no “exército virtual”, e podem então realizar missões militares pelo mundo afora, numa simulação de guerra que privilegia a estratégia, o trabalho em equipe, e que é elogiada por seu realismo. Interessante como, após o lançamento do America’s Army, os produtores de games de guerra passaram de personas não gratas para grandes colaboradores da tecnologia de treinamento e alistamento militar.

Ao contrário de Doom, no entanto, games como o America’s Army, Full Spectrum Warrior e outros, apesar de agora serem reconhecidos como “algo sério” pela sociedade americana, tem um grande problema, ironicamente ignorado pelos conservadores: neles os inimigos são soldados, pessoas como nós, seres humanos, e não demônios ou zumbis. Para um jovem americano, pode ser entusiasmante jogar uma simulação da guerra no Iraque. Para um jovem israelense, pode ser incrível simular um conflito com palestinos terroristas... Mas, para os jovens palestinos, iraquianos, ou árabes, nem tanto.

Dizem os generais que a guerra não tem nada de bonito há não ser a vitória. Eles talvez estejam errados: na guerra, nem a vitória é bonita. Ainda assim, segundo o psicólogo Steven Pinker, “provavelmente vivemos na época mais pacífica da existência de nossa espécie” — mesmo que, “confrontados com intermináveis notícias sobre guerra, crimes e terrorismo, pudéssemos facilmente pensar que vivemos na era mais violenta jamais vista”. Em seu livro Os melhores anjos de nossa natureza, Pinker defende a tese de que, grosso modo, a violência tem diminuído muito no mundo civilizado, ao menos se formos considerar números relativos, e não absolutos. E ele provavelmente tem toda razão, se hoje vivemos alarmados com a violência, é muito mais pela atenção que a mídia dá a ela, do que por ela estar realmente crescendo. Entretanto, mesmo Pinker concorda: é exatamente na guerra que a moral humana é subitamente reprimida, e os ecos da nossa animalidade, nossa propensão à barbárie, retornam com toda a força. Mas, como acabar com a guerra? Seria com a educação?

Pode até ser, mas vai depender de que tipo de educação que estamos falando, e da real atenção que queremos dar a ela. Os gastos militares do exército dos EUA, por exemplo, são exorbitantes (de longe o maior do mundo), e superam em muito não só o investimento em educação, como em saúde, em ciência, e em quase tudo o mais somado. Ainda assim, lado a lado com alguns países do Oriente Médio, como Omã, Iraque e Israel, os gastos militares americanos, numa comparação percentual com o PIB (Produto Interno Bruto), não mais figuram entre os primeiros da lista. Em todo caso, o gasto com a indústria bélica é muito elevado no mundo todo, principalmente se considerarmos que ainda temos milhões de miseráveis, e um clima global cada vez mais instável para tomarmos conta...

Se parte do gasto do exército dos EUA vai para produzir games de simulação como o America’s Army, porque não investir também em games ainda mais educativos, que simulem estratégias de paz, e não de guerra? No game Peacemaker (Pacificador), cabe ao jogador escolher jogar como o Primeiro Ministro de Israel, ou a Autoridade Palestina. Neste jogo muito elogiado pela crítica especializada, o objetivo da simulação é chegar a um tratado de paz duradouro entre Isreal e a Palestina, e, ao contrário de tantos outros jogos, chegar a uma situação de guerra significa perder o jogo, e não ganhar – independente do resultado final da guerra. Para os jovens que desenvolveram esse game como um projeto numa universidade americana, tendo sido lançado comercialmente em 2007, apenas a paz é bela, apenas a paz indica que o jogo foi vencido.

Em tantos e tantos games de simulação de guerra, os “demônios” a serem mortos estão sempre do outro lado, na nação inimiga. Mas, e quem chora pelos demônios? Os palestinos choram pelos seus mortos da mesma maneira que os israelenses. Quando são atingidos por balas, sangram da mesma maneira, e até mesmo o sangue é da mesma cor... Talvez os assassinos de Columbine tenham se espelhado mais nos senhores da guerra, nos ditadores de ideologias falsas que pretendem nos fazer crer que existem seres “do outro lado”, inimigos, que não são como nós, que não pensam como nós, que não sangram ou sofrem como nós, e que merecem morrer como demônios, pois é mais fácil pegar um fuzil e matar do que negociar acordos e tratados de paz.

Infelizmente (ou felizmente) os demônios de Doom nunca existiram. Em todas as guerras do mundo, nunca existiu um único inimigo que não fosse humano, que não tivesse alma, como nós temos. Talvez o exército dos EUA esteja investindo nas ideias erradas: precisamos de gente criativa e pacífica, como os criadores de Peacemaker, e não de jovens sedentos por atirar em demônios... Afinal, é capaz de eles um dia acreditarem, como os generais acreditam, que a vitória é bela, e que os demônios da nação vizinha são realmente demônios.

» Na próxima parte, o mito das nações...

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Crédito das imagens: [topo] Divulgação (Doom); [ao longo] Divulgação (America’s Army); Divulgação (criadores do game Peacemaker)

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