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1.3.18

Uma crítica a Academia

Texto por Roberto Leon Ponczek, trechos da obra Deus, ou seja, a Natureza (SciELO). Os comentários ao final são meus.


De que serve a transmissão de pacotes de informações prontas, em hora e local marcados, se a maior parte do tempo o aprendiz permanece desatento às forças vitais que o cercam a cada instante? Esse adestramento para processar fórmulas preestabelecidas é muitas vezes confundido com conhecimento. Assim, torna-se necessária uma descentralidade do local convencional de aprendizado, como a sala de aula e os mestres com hora marcada. A descentralidade do universo [conforme defendida por Spinoza] requer também a descentralidade do aprendizado, e de seus instrumentos clássicos que, muitas vezes, ao invés de facilitar, constituem-se em instransponíveis barreiras ao livre fluir do verdadeiro conhecimento. Desta forma, estaríamos passando do paradigma de uma “pedagogia pensada e centralizadora do sujeito” para uma novo paradigma da “pedagogia filosofante, pensante e não apenas pensada”.

Outro ponto que carece ser questionado é o fato da maioria das escolas e academias ocidentais do pós-guerra querer transformar seus aprendizes em bibliotecas ambulantes, pretendendo que suas mentes sejam extensas memórias de arquivos bibliográficos. Cada vez menos ensina-se a pensar, e cada vez mais, em arquivar dados e referências bibliográficas. Os livros tornam-se obstáculos a serem transpostos, e os mestres seus oraculares intérpretes.

Julgo que, pelo contrário, o aprendiz deve ser estimulado a pensar sobre um texto, a dialogar com seus autores, sem para tal ter de recorrer a bibliotecas de dimensões babilônicas, respaldando-se numa bateria de referências, e perdendo-se num labirinto de citações de comentadores terceirizados. Consumou-se nas academias o hábito de exigir que o aprendiz respalde seu entendimento sobre um determinado texto, com a opinião de um sem-número de especialistas, como se seu primeiro entendimento intuitivo, possivelmente ainda não lapidado, não merecesse crédito, necessitando de álibis ou testemunhas para ser validado.

Entendo, inspirado em Spinoza, que é este conhecimento primeiro, e possivelmente ainda tosco, que servirá como um primeiro martelo com o qual se forjará uma segunda ferramenta mais lapidada, e assim sucessivamente. Um mestre esclarecido não descartará o conhecimento de seu aprendiz, ou criticará a precariedade de suas referências, por mais rudimentares que sejam. Existem artigos científicos com referências bibliográficas maiores que o próprio texto, como se isso fosse prova de embasamento teórico e metodológico!

Muitas vezes os trabalhos acadêmicos são julgados por sua bibliografia, e não pelo seu valor intrínseco. A leitura desses textos é quase sempre maçante, desencorajando qualquer um de seguir por suas labirínticas notas de rodapé e referências. Nem mesmo o autor deste texto, que ora o leitor tem em mãos, se desvencilhou totalmente da camisa de força imposta pelas normas acadêmicas... Gostaria, em breve, de poder escrever outro livro sem notas de rodapé e sem referências!

Jorge Luis Borges, em seu magistral conto Funes, o memorioso, relata a existência de um indivíduo capaz de memorizar todos os fatos e textos de jornais ocorridos ao longo de sua vida sem, contudo, ser capaz de relacioná-los entre si. Funes torna sua existência um arquivo morto de fatos irrelevantes, pois são textos irrelevantes, ideias ou eventos que não têm relação com o mundo que lhe deu origem, conferindo-lhes uma temporalidade. Nossos aprendizes são, muitas vezes, adestrados para serem os Funes da ciência.

Também não posso me calar diante da febre metodológica que assola, como epidemia, extensos setores das academias, induzindo os estudantes a escolherem trabalhos cada vez mais estreitos, para que caibam em um método dado a priori. Os alunos são desestimulados a abordar temas multidisciplinares, ou até mesmo interdisciplinares, e instados a seguir por estreitas trilhas monotemáticas que se encaixem em alguma metodologia preestabelecida. Será o método o soberano que deve determinar a extensão do tema, ou é a vastidão do tema que deve alargar o método? Afinal, uma bela foto deve ser recortada para que caiba no álbum, ou este é que deve ser adequado às dimensões da foto?

[...] As disciplinas científicas assim enquadradas nas academias comparam-se a castelos medievais cercados por fossos onde vicejam os crocodilos guardiões do feudo. As pontes levadiças são erguidas e abaixadas para permitir apenas a entrada e a saída dos súditos do castelo. A academia se divide assim em vários cantões feudais, cada qual concessionário de uma franquia temática, guardada a sete chaves em seu castelo unidisciplinar, delimitado pelo fosso do método e seus atentos guardiões. Professores e estudantes são orientados a permanecer nesses domínios rigidamente circunscritos, e aqueles que inadvertidamente querem cruzá-los, fatalmente serão abocanhados pelos afiados guardiões do castelo.

Na prática isso equivale a uma espécie de sentença de excomunhão velada a partir da qual os professores transgressores não conseguem bolsas de pesquisa ou de estudo para seus orientados, publicações em revistas importantes, ou ganhar qualquer tipo de concurso público. Criam-se, nas academias, autênticas franquias cada qual delimitando rigidamente como deve ser redigido, divulgado e ensaiado o “seu” tema franqueado. Não é incomum essas franquias temáticas desenvolverem extensos tentáculos que se alastram pelas agências de fomento, bancas examinadoras de teses e concursos, além dos conselhos editoriais das revistas especializadas.

[...] Para contabilizar e fiscalizar a produção acadêmica do corpo docente, tais como artigos, livros e demais trabalhos, criou-se um sistema de avaliação numérica (o Qualis, da Capes), como se a qualidade de um texto ou a originalidade de uma ideia pudessem ser mensuradas por números. Este sistema, que é sistematicamente utilizado pelos zelosos guardiões do castelo, fez surgir uma nova geração de professores especializados em construir seus currículos de acordo com esses cânones numéricos, extraindo a máxima pontuação possível.

Este livro, que ora o leitor folheia, em alguns aspectos trafega na contramão de quase tudo que se faz nas academias. Nele não há fronteiras rígidas entre as várias disciplinas, como a Matemática, a Física e a Pedagogia, e elas se entrelaçam desrespeitando deliberadamente os recortes metodológicos, cultuados como dogmas intocáveis pela academia. O livro é longo demais para os padrões atuais, pois hoje vários autores preferem se associar em coautoria para escrever artigos curtos produzidos em série, contabilizando, nas agências de fomento, um título para cada um.

[...] Na vertente contrária, esta é a obra de um único autor solitário que a produziu num longo período de gestação, praticamente recluso em sua casa de campo, totalizando em seu favor apenas um único trabalho em vários anos. Quando nas academias brasileiras vive-se hoje uma febre delirante por publicação e pontuação, este texto foi pensado e escrito sem compromissos de espécie alguma com grupos de pesquisa financiados pelas agências fomentadoras e sem preocupação de pontuação em plataformas oficiais de curriculae vitae. Apesar da inquisição velada e de todas as dificuldades impostas pelas academias, preferi pensar sem fossos nem recortes, estabelecendo relações e organicidade entre as várias disciplinas de saber que devem se entrelaçar para chegar ao autêntico e verdadeiro conhecimento científico.


Comentários
“Na contramão de quase tudo que se faz nas academias”, como bem definido pelo autor, o professor de Física e grande estudioso de Filosofia e conhecimentos gerais nos traz uma obra monumental que não apenas associa de forma profunda o pensamento de Spinoza às buscas existenciais e científicas de Einstein, como se arrisca a afirmar, com suas próprias palavras, onde eles parecem ter acertado e onde parecem ter errado, sempre se embasando no conhecimento científico mais atual, como a Mecânica Quântica.

Não é fácil, decerto, esmiuçar de forma tão aprofundada os axiomas “lógicos e geométricos” da Ética de Spinoza, mas eu penso que Ponczek acabou por nos presentear com uma das análises mais profundas e honestas da obra do grande pensador holandês, e de todo o fruto que ela gerou no mundo. Que isso tenha sido feito dentro do atual mundo acadêmico, é quase um milagre. Por isso preferi trazer a vocês essa crítica embasada e honesta de um acadêmico que se sente profundamente angustiado com o estado atual de nosso ensino. Ponczek é, antes de mais nada, um professor, e um professor deseja ensinar seres que interpretam o mundo, não máquinas enciclopédicas, autômatos recitadores de Wikipédia.

Recomendo a todos os admiradores de Spinoza, de Einstein ou, simplesmente, dos grandes conhecimentos da humanidade, que confiram a sua obra, um e-book em download gratuito na Amazon.

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Crédito da imagem: Ponczek (foto achada no Facebook, não lá muito acadêmica...)

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23.2.18

O que é Deus pra você?

Após ter acompanhado seu nascimento e crescimento desde o início, é com muita honra que hoje prosseguimos com a parceria deste blog com o canal Conhecimentos da Humanidade no YouTube, apresentado por Bruno Lanaro e Leo Lousada.

Neste roteiro, trouxe de volta um antigo artigo sobre as muitas formas de crença ou descrença em Deus ou nos deuses, e acredito que o resultado final tenha ficado muito bom. Logo nas primeiras horas, o vídeo chegou a uma centena de comentários, não deixe de dar o seu também. Afinal, o que é Deus pra você?

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25.5.17

A verdade

Nós, seres que refletem sobre o Cosmos, temos um problema com a verdade: nos parece que, quanto mais a cercamos com as mãos, mais ela escapa por nossos dedos, nos mostrando que moramos numa praia ainda maior e mais cheia de pequeninos grãos de areia do que um dia ousamos imaginar...

Disse o Rabi da Galileia, “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Analise esta frase de forma puramente racional, e me diga então o que seria a verdade: um homem? Um deus? Uma doutrina? Um livro, onde tais palavras foram registradas? Ora, ainda que consiga responder a tais questões, esta resposta será a sua, servirá somente para você, baseada na sua interpretação da vida, e de ninguém mais. Ainda que existisse mesmo um Manual da Verdade Absoluta, isto não nos diria nada sobre a verdade: pois caberia a cada um de nós interpretar suas palavras a sua maneira.

Vejamos um exemplo, “Disciplina é liberdade”... Diga isto para um policial militar ou um operador de tráfego aéreo e ele provavelmente discordará veementemente – é justamente a supressão da liberdade de fazer o que bem entender, e seguir regras e normas rigidamente estabelecidas, o que permite que cumpram o seu serviço da maneira que deve ser cumprido, para que o menor número possível de pessoas inocentes morra em decorrência de assaltos ou acidentes. Diga a mesmíssima frase para um zen budista, ou alguém que, através da domesticação dos desejos desenfreados da mente, encontrou a sua verdadeira vontade, e ele não só concordará, como abrirá um largo sorriso com o coração – um coração livre.

Mas, estranho de se pensar, e se encontrarmos um budista militar, não haverá momentos em sua vida em que ele precisará seguir normas rígidas de disciplina de guerra e paz, independentemente do que diga o seu coração durante tais períodos? E se o sonho da sua vida fosse justamente o serviço militar? E se ele se sente tão bem cumprindo aquelas ordens patrióticas que, ao mesmo tempo em que às cumpre, ainda se sente o homem mais livre do mundo? Há muitos que compreendem os soldados como agentes de guerra e de morte, mas em princípio o bom soldado é justamente aquele que, em todos os momentos, busca o caminho mais breve possível para a paz, e zela por ela, e a abençoa, e agradece por não ter de disparar nenhum tiro em toda a manhã em que o sol nasce em terras livres.

A verdade, portanto, é algo que nós, os seres que refletem sobre o mundo, interpretamos – algo que até hoje nenhuma máquina foi capaz de realizar. A verdade não é algo que se imprime na página de um livro ou se escreve em equações complexas, mas talvez se pareça mais como um poema de luz recitado por aqueles mais loucos dentre nós, os poetas que habitam este mundo, mas conseguem por vezes entreolhar outros mundos por entre as frestas entre os dedos, sempre que apanham mais um bocado de areia desta praia infinita...

Nos dias de Einstein, por exemplo, ainda se acreditava, cientificamente, que o Cosmos era eterno, que não teve início nem teria fim, e que jamais poderia estar se expandindo. Foi Georges Lamaître, padre e astrônomo belga, quem propôs primeiramente a teoria que, de tão absurda para a época, foi rotulada de forma sarcástica por um radialista daqueles tempos como Big Bang, ou “a grande explosão”. Somente muitos anos depois, após a descoberta da radiação cósmica de fundo, que fora prevista pelos cosmólogos que defendiam a teoria, é que ela foi alçada de vez ao status de teoria científica mais aceita para o início do universo, e dentre os físicos atuais são raríssimos aqueles que levantam algum questionamento relevante acerca da sua validade.

No entanto, não foi à toa que muitos cientistas da época a questionaram: era de fato uma verdade bíblica demais para ser realmente verdade. Um universo inteiro que cabia na ponta de um alfinete ou num ovo cósmico primordial, e que se expandiu para se tornar tudo o que há... Como pensar cientificamente sobre algo assim? Como bem resumiu Terrence McKenna: “A ciência moderna se baseia num princípio: dê-nos um milagre espontâneo e a gente explica o resto. Este milagre se chama Big Bang”.

Claro, muitos cientistas hoje se justificam dizendo que este universo pode muito bem ser apenas um de infinitos outros universos de um vastíssimo multiverso, e isto parece acalmar suas inquietações... No entanto, não somente o multiverso não pode ser empiricamente comprovado (como Javé ou Ganesha ou os discos voadores), como a sua preposição por si só não chega a resolver o problema lógico: e de onde surgiu o multiverso? Claro, podemos nos acalmar pensando que o multiverso, ou o Cosmos, é tudo o que é ou foi ou será, incriado, infinito e eterno. Einstein, Espinosa e tantos outros bem mais antigos ficariam satisfeitos, mas quem poderá dizer que esta é a verdade derradeira, absoluta?

Estamos aqui brincando nas margens deste grande oceano cósmico, profundo e desconhecido, e por vezes nos encantamos com a quantidade de grãos e pedrinhas que catalogamos nesta vasta areia a refletir o sol, mas o encanto logo logo se transforma novamente em espanto, quando a areia escorre totalmente da mão, e vemos que a nossa frente há ainda um mar infindável de descobertas por serem feitas, um mar cada vez maior.

O Rabi também nos disse que “somos deuses”, e noutra parte dos Evangelhos, nos revelou que “dia virá em que faremos tudo aquilo que ele tem feito, e ainda muito mais”. Se ele já andou sobre as águas deste mar, se já velejou fundo em seu barquinho, se já mergulhou e nos trouxe peixes para alimentar a nossa fome espiritual, não é porque devemos nos contentar com olhar e aplaudir, mas porque devemos arregaçar as calças e segui-lo, mar adentro.

E assim, velejadores de nós mesmos, também seremos o caminho, a verdade e a vida, e que cada um interprete isso como seu coração achar melhor, pois que em realidade eu lhes digo: não há outra forma de verdade.


A fonte secreta de suas almas precisa brotar e desaguar pelos córregos murmurantes até o mar; e assim o tesouro de suas profundezas infinitas seria revelado aos seus olhos abertos.
Mas não usem balanças para pesar tais tesouros desconhecidos; e não busquem explorar as profundezas de seu conhecimento com uma vara ou uma sonda, pois o Eu é um oceano sem limites e imensurável.
Não digam, “Encontrei a verdade”, mas sim, “Encontrei uma verdade”. Não digam, “Encontrei o caminho da alma”, mas sim, “Encontrei a alma andando em meu caminho”. Pois a alma anda por todos os caminhos.

(Khalil Gibran, trecho de O Profeta)

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Crédito da imagem: Steve Halama/unsplash

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19.1.15

Crer para compreender, compreender para crer

Não devemos confundir razão com comprovação científica.

Antes de todos os cientistas acreditarem em sua teoria, Einstein teve de ter fé na concepção do espaço e do tempo como dimensões de uma mesma substância. Isso não era uma ideia simples para a época, e 99% das pessoas diriam que ele estava louco por pensar em algo assim.

A comprovação, veio só depois...

Mas a razão sempre esteve presente. Por isso muitos de nós hoje compreendemos que o espaço e o tempo formam um conjunto chamado espaço-tempo... O que um dia foi a fé de um cientista visionário, hoje é a razão e a compreensão de muitos de nós.

Primeiro, Einstein contemplou, intuiu, vislumbrou e acreditou na possibilidade, depois através da razão a compreendeu, e finalmente elaborou sua teoria – que eventualmente foi comprovada pela ciência. Ou seja: crer para compreender, compreender para crer. É um caminho sem fim, ou poderia-se dizer que "o Grande Mistério" estará nos esperando no final...

Não importa, não há um final.

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16.12.11

Teísmos e ateísmos

Ao longo de vários anos participando e observando discussões filosóficas e religiosas, pude observar que, muitas e muitas vezes, as pessoas se digladiam muito mais por não conseguirem compreender o que a outra efetivamente pensa, do que por qualquer outro motivo mais importante. Usualmente, o que causa esse tipo de desentendimento é o fato de que alguns termos – particularmente os que englobam a crença ou descrença em um Criador – são compreendidos de maneiras diversas pelas pessoas.

Por exemplo, para alguns um ateu é alguém que afirma categoricamente que Deus não existe (seja quem ou o que for). Para outros – incluindo ateus – o ateísmo não chega a fazer tal afirmação. Para alguns atenienses Sócrates era ateu, embora ele estivesse um tanto longe disso, tanto que mais tarde sua filosofia influenciou decisivamente um grande teísta: Sto. Agostinho. Já Epicuro dizia não se preocupar com os afazeres dos deuses – e também foi taxado de ateu. Dizem que Einstein acreditava no “deus de Espinosa”, mas seria esse deus o mesmo deus do Antigo Testamento? Richard Dawkins deixa claro que não, e em seu polêmico Deus, um delírio se dedica a atacar apenas o deus bíblico, e não a concepção panteísta do Cosmos. Confuso, não?

Para tentar auxiliar em tantas definições, teísmos, ateísmos e outros “ismos”, elaborei um pequeno glossário de termos abaixo, que é propositadamente curto – e, obviamente, não tem a pretensão de esgotar o assunto, mas apenas de ajudar a resolver melhor alguns debates. Comece perguntando: “que tipo de ismo você segue exatamente, afinal?”, antes de ter certeza do que exatamente o outro crê ou não crê...

Teísmo
O teísmo, derivado do grego Théos (Deus), é a crença na existência de um ou mais deuses. No politeísmo acredita-se em diversos deuses, mas no henoteísmo, apesar de admitir-se a existência de um panteão, há também um Deus supremo, criador do Cosmos. No monoteísmo reduz-se a divindade a apenas um único ser supremo, usualmente taxando outros deuses de semideuses, divindades ou demônios (do grego daemon) – que em certas doutrinas também podem assumir o papel de intermediários entre os homens e o Deus supremo.
O teísmo filosoficamente deriva diretamente do antigo questionamento: “porque afinal existe algo, e não nada?” – Que por sua vez remete a crença em uma espécie de ser consciente (embora não necessariamente um velho barbudo ou um avatar profético) que arquitetou todo o Cosmos. Pode ser, talvez, resumido como “a crença em um Criador pessoal”.
A grande maioria dos teístas também compartilha a crença de que Deus não somente pode intervir diretamente (e, usualmente, de forma sobrenatural) nos eventos da existência humana, como também pode transmitir revelações e segredos cósmicos através de profetas, sonhos e experiências religiosas em geral.

Creem em uma causa primeira: sim.
Creem em um Criador pessoal: sim.
Creem em intervenções sobrenaturais: quase sempre sim.
Creem em revelações divinas e dogmas: sim.

Deísmo
O deísmo tem suas raízes nos antigos filósofos gregos e, sobretudo, na doutrina aristotélica da “primeira causa”. Voltou a florescer no Iluminismo, sobretudo através de Galileu, Newton, Voltaire e outros. No deísmo admite-se que o Cosmos não é obra do acaso, e que portanto deva existir um Criador. Porém, os deístas creem que é papel do homem se aproximar de Deus através da razão, e não o contrário. Em suma, os deístas negam as revelações divinas e têm uma concepção naturalista do Cosmos, usualmente negando também a possibilidade de intervenções sobrenaturais.
Os deístas creem em um relojoeiro que sabia enxergar muito bem, tão bem que arquitetou todo o Cosmos de forma magistral. Tão perfeita, que lhe é mesmo desnecessário intervenções específicas. Conforme disse uma vez Voltaire a uma senhorita: “Minha senhora, acredito em uma providência geral, mas não numa providência particular que salvou o seu pássaro que estava machucado”.

Creem em uma causa primeira: sim.
Creem em um Criador pessoal: geralmente sim.
Creem em intervenções sobrenaturais: quase sempre não.
Creem em revelações divinas e dogmas: não.

Panteísmo (ou “espinosismo”)
O panteísmo associa o conceito de Deus ao próprio Cosmos: a totalidade de todas as coisas no universo, na natureza. Einstein dizia que havia duas formas de se enxergar a vida: uma é pensar que não existem milagres, a outra é conceber tudo a sua volta como um milagre. Obviamente, Einstein queria dizer que as próprias leis naturais, a própria simetria e harmonia do Cosmos, eram em si mesmas um milagre persistente – ao menos para aqueles que tinham olhos para ver.
Essa concepção de Cosmos remonta novamente a Grécia antiga, sobretudo aos estoicos. E foi bebendo dessa fonte que Benedito Espinosa concebeu a Deus como “a substância que não pode criar a si mesma, mas que gerou tudo o mais a partir de si”. Esta é uma bela síntese para um questionamento ancestral, e exatamente por isso Espinosa é até hoje tão admirado (apesar de ter sido excomungado do judaísmo, sob a acusação curiosa de ateísmo).
Se no início de sua Ética Espinosa engendra o conceito de Deus de forma geométrica e precisa”, é preciso se aventurar no restante do livro para perceber que o filósofo holandês também acreditava que esse tal Deus era capaz de nos trazer profunda felicidade existencial, sobretudo quando alinhamos nossa intuição com a “vontade do Cosmos”. Era esse deslumbramento que Einstein sentia constantemente, ao desvelar os segredos da natureza.

Creem em uma causa primeira: sim.
Creem em um Criador pessoal: não.
Creem em intervenções sobrenaturais: não.
Creem em revelações divinas e dogmas: não.

Pandeísmo
O pandeísmo nasceu da fusão do panteísmo com o deísmo, e se trata de um concepção divina do Cosmos, que só pode ser compreendida através da razão.

Panenteísmo
O panenteísmo é um doutrina muito similar ao panteísmo, mas compreende que Deus é “o Cosmos e algo a mais”. Ou seja, que o universo está contido em Deus, mas Deus não se limita apenas ao universo.

Agnosticismo
Thomas Henry Huxley, um biólogo inglês, cunhou o termo “agnóstico” (do grego agnostos, “ausência do conhecimento”) em 1869, mas a essência do agnosticismo foi melhor desenvolvida pelo filósofo alemão Immanuel Kant. No agnosticismo, admite-se que a questão ancestral acerca da natureza exata da “primeira causa” não pode ser resolvida com base no conhecimento atual da humanidade, e talvez jamais venha a ser efetivamente solucionada. Geralmente isso significa apenas que os agnósticos se posicionam com ceticismo em relação à existência de Deus: não podem afirmar que existe, nem tampouco que não existe. Ou, como dizia Carl Sagan, um grande agnóstico: “a ausência da evidência não é a evidência da ausência”.
O agnosticismo possuí algumas vertentes interessantes: os fideístas creem que essa mesma questão da “primeira causa” realmente não pode ser resolvida pela razão, mas sim pela fé. Também é possível ser um agnóstico teísta – que crê em Deus, mas não crê que pode compreendê-lo; ou ainda, bem mais comum, um agnóstico ateísta – que não crê em Deus, embora tampouco afirme que não exista.
Se formos considerar a essência do ceticismo filosófico, para um cético só é mesmo possível ser um agnóstico, há menos que este cético tenha passado por experiências religiosas subjetivas, e que por conta delas tenha passado a crer em Deus.

Creem em uma causa primeira: geralmente sim, embora não saibam resolve-la.
Creem em um Criador pessoal: não (exceto no fideísmo).
Creem em intervenções sobrenaturais: não (exceto no fideísmo).
Creem em revelações divinas e dogmas: não (exceto no fideísmo).

Ateísmo
Em sua origem antiga, o ateísmo (do grego atheos, “ausência de Deus”) sempre foi um termo profundamente arraigado na religião, visto que usualmente significava a negação dos deuses e práticas religiosas locais. Claro que o ateísmo na antiguidade também poderia significar literalmente a descrença em todo e qualquer deus, mas esses casos eram muitíssimo raros. Mesmo grandes profetas e filósofos foram acusados de ateísmo, a despeito de sua óbvia crença em Deus ou em deuses, dentre eles contamos até mesmo Sócrates e Jesus Cristo.
Com o passar dos séculos e, sobretudo, com o aflorar das ciências naturais após o Iluminismo, o ateísmo em seu sentido de “descrença total em Deus” passou a ser cada vez mais comum. Teoricamente, aquele que se declara ateu na era moderna estará afirmando categoricamente que “não existe um Criador”, e também geralmente poderemos adicionar à afirmativa: “tampouco existe uma causa primeira com objetivo definido”. Ou seja, um ateu moderno não vê sentido ou desígnio divino no universo.
Mas esse tipo de definição do parágrafo acima não é compartilhado por todos, tampouco pelos próprios ateus – e há muitos ateus que se colocam, em realidade, como agnósticos, ou agnósticos ateístas (ver acima), apesar de se definirem “apenas como ateus”. Esse tipo de afirmação gera muitos desentendimentos, pois há muitos teístas e mesmo deístas que se sentem ultrajados com o fato de alguém se sentir na condição de afirmar que “não existe um Criador nem um sentido para a causa primeira” – muito embora nem sempre seja o que alguém que se autointitule ateu queira realmente dizer.
Em suma, há muitos agnósticos que gostam de se dizer ateus apenas para se colocarem ainda mais claramente em oposição às concepções teístas, sobretudo aquelas originárias das doutrinas dogmáticas.

Creem em uma causa primeira: por vezes sim, embora em todos os casos neguem um sentido ou desígnio divino no universo.
Creem em um Criador pessoal: não, e por vezes podem ter “certeza que não existe Criador algum”.
Creem em intervenções sobrenaturais: não.
Creem em revelações divinas e dogmas: não.

Antiteísmo
O antiteísmo (alguns chamam de neo ateísmo ou novo ateísmo) é uma vertente moderna do ateísmo que não se contenta em apenas se declarar ateísta, como critica veementemente o teísmo e, por vezes, atua de forma militante, tentando convencer as pessoas de que Deus não existe. Embora os antiteístas provavelmente entendam a si mesmos como “evangelizadores da ciência e do racionalismo”, eles na prática lembram muito mais uma versão distorcida dos próprios evangelizadores teístas.

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Observação (1): É preciso sempre lembrar que a ciência não é ideologia ou doutrina, não é materialista nem espiritualista, monista ou dualista, teísta ou ateísta. A ciência é tão somente o conhecimento da natureza detectável, e o estudo de seus mecanismos. Há muitos grandes cientistas da história que eram teístas, deístas, panteístas, etc.

Observação (2): Embora um teísta fundamentalista provavelmente me julgue um ateu, e um antiteísta radical provavelmente me julgue um teísta, eu na realidade estou situado mais ou menos entre o Panteísmo, o Deísmo e o Pandeísmo.

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Vídeo
Este artigo serviu de base para o roteiro do vídeo O que é Deus para você? no canal Conhecimentos da Humanidade do YouTube.

» Veja também o artigo Monismos e dualismos, que trata da natureza da mente

Crédito da foto: Brian David Stevens/Corbis

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17.11.11

O que é Deus?

Parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre esses dois distintos participantes, não deixe de ler sobre a premissa da série.

[Raph] Tanto na ciência quanto na religião, a humanidade têm se deparado com conceitos que lhes são transcendentes. Tantas foram às interpretações dos deuses ou das leis naturais, que às vezes parece que cada indivíduo tem sua própria visão deles. O que seria então, para você, o conceito de Deus ou de Cosmos?

[Mori] O Cosmos é tudo aquilo que há, para emprestar a definição de um grande sujeito que falou sobre ele na TV. Etimologicamente o conceito ainda carrega a ideia de ordem e harmonia, desde a Grécia Antiga. Acreditar no Cosmos é assim simplesmente aceitar sua definição englobando todo o Universo; e comprovar ordem e harmonia no mundo talvez só requeira uma olhada no céu noturno com estrelas nascendo e se pondo em uma regularidade que transcende a Humanidade, percebida mesmo por nossos ancestrais mais distantes.

Seria tentador e muito politicamente correto igualar este conceito de Cosmos a Deus, de fato o “Deus de Spinoza” a que Albert Einstein se referiu é muito próximo da ideia de Cosmos de que falamos aqui. O que é um pouco menos conhecido é que o Deus de Spinoza não é apenas mais um tipo de Deus, mas um tipo de Deus definido para rejeitar outros deuses, em particular o tipo de Deus mais popular pelo mundo, o Deus providencial das escrituras. Quando Einstein diz acreditar no Deus de Spinoza, ele não está se incluindo na turma das pessoas que acreditam em Deus, ele está se excluindo.

É preciso questionar conceitos tão abrangentes e flexíveis que acabam perdendo todo seu valor. Uma das primeiras coisas que o ser humano fez no Jardim do Éden, de acordo com a fábula, foi dar nomes aos animais, para diferenciá-los. Carl Sagan, em “Os Dragões do Éden”, interpretou esta fábula como refletindo a importância da linguagem, e é irônico que no pós-modernismo exista essa ideia de que todo significado seja relativo, promovendo um ecumenismo que é em verdade aquilo que George Orwell advertiu com o horror da Novilíngua.

A transcendência que a ciência natural busca, por exemplo, não é a mesma transcendência buscada pela religião – são em verdade conceitos mutuamente exclusivos. A transcendência religiosa está por definição além daquela perscrutável pela ciência natural, que sempre estará limitada por aquilo que possa ser comprovado e observado no mundo que nos cerca. Na religião, se acredita em algo porque é absurdo, do contrário se estará apenas constatando algo. São palavras iguais, mas com usos e definições muito diferentes. Forçar o entendimento de conceitos mesmo contraditórios como parte de uma única ideia é mesmo parte do Duplipensar de Orwell, o ponto cego onde o raciocínio pode ser extinto.

Um ecumenismo politicamente correto onde “todos acreditam em deus de sua própria forma” é um uso político e totalitário da linguagem. Não, quem acredita no deus das escrituras não pode, ao mesmo tempo, considerar que aquele que acredita em Shiva também acredita em deus, ou que aquele físico que diz acreditar no deus de Spinoza também seja teísta. São crenças explicitamente contraditórias.

A verdadeira tolerância é reconhecer estas contradições e respeitar o direito que cada um tem a suas próprias crenças – e descrenças. O Cosmos em que acredito, a ordem e harmonia no mundo que vejo e comprovo, não é deus. É um conceito que se afirma tanto em si mesmo, quanto pela exclusão de outras ideias, que conheço, mas não compartilho com outras pessoas quem, todavia, respeito.

Eu sou ateu.

[Del Debbio] Para os Hermetistas e Cabalistas, Deus é o Universo. A soma de tudo.

Nada de velhinhos barbudos preocupados com o que você faz com a sua genitália; nada de seres relampejantes ou divindades com múltiplos braços, mas a soma de tudo o que pode ser compreendido dentro deste Universo: galáxias, sóis, planetas, continentes, países, estados, cidades, comunidades, casas e, finalmente, cada indivíduo, que passa a ser o deus criador de suas próprias idéias e de todas as ações conscientes, em um fractal infinito de possibilidades.

Para os hermetistas, “Deus” se divide primordialmente em Sabedoria e Entendimento: duas partes que interagem entre si.

Os antigos chineses chamavam estas partes de Yin e Yang; os gregos de Ordem e Caos; os nórdicos de Gelo e Fogo; os católicos de Anjos e Demônios e os cientistas chamam de Física/Matemática e Evolução. Os Cabalistas chamam estas Esferas de Hochma e Binah.

Hochma (a Evolução, Caos, Yang, Fogo, mutação, o Esperma) é compreendida pelos cabalistas como “Sabedoria” porque está associada à idéia de que a sabedoria vem de descobrir algo novo que não estava lá antes.

Como Deus se manifesta de maneira fractalizada, este conceito pode ser aplicado desde as regras de evolução de Darwin até os memeplexes de Dawkins; pode ser aplicado desde as mutações genéticas que desenvolveram toda a miríade de seres vivos diferentes no planeta (uma mutação faz com que algo novo surja dentro da repetição genética) até as variações físicas responsáveis pela gama de estrelas diferentes no universo e a maneira como as formas das galáxias evoluem dependendo da região do cosmos onde estejam. E pode ser aplicada também a uma criança de dois anos que aprende pela primeira vez uma palavra nova.

Binah (As regras, Ordem, Yin, Gelo, o Imutável, o Óvulo) é compreendida pelos cabalistas como “Entendimento” porque está associada à idéia de que somente entendemos o mundo através do processo científico, de escolha, teste e repetição controlados. Binah é a matemática, a física teórica, as regras rígidas e imutáveis que guiam nosso universo e nos permitem “prever” acontecimentos pela certeza de sua repetição (se nada for alterado). Binah é a escolha de UM universo para trabalharmos. Em outros universos, as regras são outras (em outras cabeças, outras idéias)...

A título de curiosidade, a intersecção simbólica entre estas duas Esferas, Hochma e Binah, é feita através da letra “Daleth” que quer dizer “Porta” (a porta de entrada de um universo maior/Hochma para um universo menor/Binah – do deserto para sua cabana, por exemplo) e representa a própria natureza (o Arcano da Imperatriz no tarot). A partir daí, quando Olhamos para cima, temos Kether (“Deus”), quando olhamos para baixo, temos Daath (“Conhecimento”).

Desta maneira, o conceito de “Deus” para os hermetistas depende da escala que você quer trabalhar. O Universo é Deus, mas eu também sou Deus, e o ato de escolher e preparar o meu jantar hoje de noite é Deus; e isso independe de qualquer crença ou descrença.

O problema começa quando as pessoas tentam compreender o que é esta grandiosidade de sensações e experiências através do artifício da antropomorfização (dar forma humana a fenômenos naturais) para tentar explicar o que não pode ser mensurável.

A partir deste momento, a definição e imagem de “Deus” varia de acordo com fatores culturais, temporais, artísticos e espaciais: africanos entendiam esta dicotomia Ordem/Caos como Xangô/Iansã e associavam isto à Montanha (imutável) e à tempestade (caótica), Babilônicos tinham Ea (céu azul e limpo) e Lillith (a tempestade), Egípcios tinham Maat (A Justiça) e Ptah (O escriba de todas as possibilidades), Gregos tinham Ouranos e Nix, Nórdicos tinham Ymir (gigante do gelo) e Surtur (gigante do fogo), católicos têm Adão (deu nome para todas as coisas vivas) e Eva (comeu o fruto da árvore proibida e fez com que fossem expulsos do Paraíso), hindus tem Vishnu e Shiva, os thelemitas têm Therion e Babalon... Dezenas de mitos diferentes; mesmas idéias.

O GRANDE problema acontece quando pessoas resolvem transformar Símbolos em Deuses Literais (que, sendo literais, permitem “crença” ou “descrença”) e os manipulam para impor e manter seus poderes econômicos e políticos sobre a população... Mas isto é uma outra história.


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Crédito da foto: APOD (NGC 7822 em Cepheus)

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4.10.11

Deus cego, deusa manca

Mal houve tempo para que ambos os deuses pudessem se esconder no sótão da casa da velha cigana. A vila em que moravam desde que nasceram ficava bem na região de encontro das duas grandes marchas: o exército da bandeira com o cordeiro azul defendia a sua verdade absoluta, mas o exército da bandeira com a meia-lua rubra igualmente defendia sua própria verdade absoluta. Eram ambos os exércitos plenos de certezas; de modo que o resultado da guerra, e quantos inocentes iriam morrer, e quantos iriam escapar, era a única dúvida naquele infeliz horizonte temporal...

A pequena deusa manca, tão criança quanto seu irmão, estava feliz por ele ter nascido cego. Era um garotinho muito sensível, amoroso até demais, via bondade e esperança em quase tudo... Ficaria um tanto traumatizado se pudesse enxergar a selvageria que acomete os homens em suas guerras. Os pedaços decapitados de corpos a voar pelo ar, os rios de sangue se formando pelo solo, o desespero no rosto daqueles jovens que foram quase que arrastados pelas circunstâncias de seus reinos para a linha de frente da batalha. A guerra era, enfim, a imagem da morte. Que bom que o deus cego não podia ver tudo aquilo!

O deus cego agradecia aos céus por ter as pernas fortes e as costas largas (para seu tamanho), de modo que podia carregar sua irmã nas costas. Mesmo naquele sótão, podia ouvir todo o som da batalha. O pior não eram os gritos selvagens ou brados de guerra rapidamente interrompidos por decapitações – muito pior eram os grunhidos e gemidos baixos daqueles que não tiveram a sorte de receber um golpe letal, e eram abandonados no solo ensanguentado, agonizando em mortes lentas.

“Vamos embora agora” – alertou a pequena deusa.

“Como sabe que é seguro sair agora?” – indagou seu irmão.

“Pelo que soube de ouvir falar das batalhas que dizimaram outras vilas, ambos os exércitos enviam uma quantidade X de solados, e quando nenhum lado sai claramente vitorioso, eles retornam as suas bases com os levemente feridos, para que possam se tratar, e receber as novas ordens de seus comandantes. Isso usualmente leva uma quantidade Y de tempo, que é exatamente o tempo que teremos para fugir daqui.”

“Mas como você pode ter certeza? X e Y não me parecem muito confiáveis...”

“E os deuses para os quais reza nos céus, são por acaso confiáveis? Impediram que nossa vila fosse dizimada?”

A pequena deusa foi convincente, e prontamente seu irmão a levantou cuidadosamente e a colocou sobre as próprias costas, de modo que ela apoiava os braços cruzando-os por seus ombros... Suas pernas tortas, defeituosas de nascença, eram substituídas pelo caminhar ágil e vigoroso do deus cego. Por outro lado, ele não saberia onde ir em meio aquela calamidade, não fosse pelos olhos da irmã, que o guiavam em meio a loucura dos homens...

Sua irmã por vezes se tornava angustiada e pessimista em relação ao futuro daqueles reinos e suas verdades absolutas. Às vezes, era quase como se o fato de não conseguir andar também fizesse com que fosse incapaz de seguir adiante com seus pensamentos, projetos e estudos da natureza. Ela já sabia tanto, e queria saber ainda muito mais!

Mas o deus cego, apesar de não saber se guiar muito bem pelas florestas à volta, tinha a convicção inata de que no final tudo acabaria bem... Ele sempre dizia a irmã: “Não tenhamos pressa. Vamos devagar, fazendo as coisas uma de cada vez, mas bem feitas, sobre bases sólidas. Vamos um dia construir um reino de luz nesse mundo, um reino onde não haja mais a busca pelas verdades absolutas, mas a busca pelo amor, e pelas dúvidas que são sagradas”. Sua irmã estava cada vez mais convencida de que aquilo era uma utopia pela qual era inútil lutar... Seu irmão, no entanto, nascera para lutar por utopias.

E conseguiram escapar ilesos da guerra que devastara seu vilarejo. Seguindo o conselho da velha cigana, buscaram pelas ruínas de um antigo castelo de outrora, que jazia na estrada para o fim da terra, e onde nem o reino do cordeiro azul nem o da meia-lua rubra tinham quaisquer interesses em conquistar...

Chegando lá, foram reconstruindo o antigo castelo aos poucos, recrutando todos os refugiados que passavam em torno. Até que o castelo foi reerguido em toda sua glória, e em torno dele uma pequena vila, que depois se transformou em cidade, e depois numa larga metrópole, onde todos eram convidados para viver em harmonia, estudando e compreendendo a natureza com a mesma alegria que oravam aos céus. E diz-se que esse reino até hoje existe, mas que se encontra flutuando acima da terra, e que somente os poetas e os loucos conseguem o encontrar, por vezes, em seus sonhos mais doces e amor...


Este conto foi diretamente inspirado pela pintura “Barefoot” (pés descalços) da jovem Akiane Kramarik, e também pela frase abaixo:

“A ciência sem a religião é manca, a religião sem a ciência é cega.”
(Albert Einstein)


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Crédito da imagem: Akiane Kramarik ("Barefoot", quadro pintado aos 16 anos de idade)

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20.5.11

Reflexões sobre o tempo, parte 1

Todos certamente já afirmaram, de forma natural: "o tempo corre", "este ano passou depressa" ou mesmo "esta aula não acaba". Uma definição científica mais precisa faz-se certamente necessária, e com ela ver-se-á que o tempo, em sua acepção científica, não flui. O tempo simplesmente é.

Perseguindo a eternidade

A ilha Samoa, no Pacífico Sul, anunciou que vai avançar um dia no calendário para incentivar os negócios com os seus principais parceiros econômicos, a Austrália e a Nova Zelândia. Hoje, a ilha de 180 mil habitantes está 21 horas atrás da principal cidade australiana, Sydney. A partir do dia 29 de dezembro de 2011, vai estar 3 horas à frente.

O primeiro-ministro de Samoa, Tuilaepa Sailele, afirmou que a ilha está perdendo dois dias úteis por semana em suas transações comerciais com esses países. Quando é sexta-feira em Samoa, já é sábado na Nova Zelândia. E aos domingos, enquanto a população da ilha está na igreja, os negócios estão a todo vapor em Brisbane e Sydney. A alteração do calendário significa que Samoa passará para o lado oeste da linha internacional do tempo. Há 119 anos, os samoanos fizeram o contrário e se transferiram para o lado leste da linha, a fim de incentivar negócios com os Estados Unidos e a Europa. Hoje, entretanto, são a Austrália e a Nova Zelândia os importantes parceiros comerciais da ilha.

Quando a linha internacional do tempo (ou linha de data) foi estabelecida, o mundo ainda seguia a doutrina newtoniana do tempo, e cria piamente que o tempo era uma entidade absoluta. Dessa forma, apesar de serem linhas imaginárias, os meridianos estariam associados à rotação da Terra em torno do Sol, algo que transcorreria em um tempo absoluto. Até hoje, como podemos ver, a engrenagem de nossa economia se baseia em linhas imaginárias concebidas numa época em que se acreditava que o tempo era uma medida absoluta. Einstein provou que estávamos todos errados...

Ainda adolescente, o gênio alemão lutava com a questão de como uma pessoa veria um raio de luz se viajasse exatamente à mesma velocidade da luz. Segundo Newton, o viajante veria uma onda de luz “estacionária”, e poderia até mesmo estender o braço e recolher um punhado de luz imóvel, como se recolhe a neve aqui na Terra. Ocorre que, segundo as equações de Maxwell para o comportamento da luz, ela jamais poderia algum tempo estar parada, sem se mexer. A luz era como um tigre selvagem que jamais poderia ser domado. Einstein descobriu um grande paradoxo.

Para compreendermos melhor o problema, imaginemos que Calvin acabou de ganhar um trenó com propulsão nuclear. Ele decide então aceitar o maior de todos os desafios e apostar uma corrida com um raio de luz. A velocidade máxima de seu trenó é de 800 milhões km/h, contra 1,08 bilhão km/h da luz, mas ele é um garotinho destemido e aceita o desafio. Haroldo, seu tigre de estimação, está atento com um relógio atômico altamente preciso, e anuncia a largada!

Para cada hora que passa, Haroldo percebe que o raio viaja a 1,08 bilhão km/h, enquanto o trenó de Calvin, conforme o previsto, não passa dos 800 milhões de km/h. Segundo a doutrina newtoniana, o tempo é uma entidade absoluta, e dessa forma Calvin concordaria com seu tigre em que o raio tem se afastado dele, desde a largada (desconsideremos a aceleração inicial), a precisamente 280 milhões km/h, a diferença entre as duas velocidades...

Mas, em seu regresso, Calvin está irritado e não concorda de modo algum. Ao contrário, desanimado e acusando a luz de ser trambiqueira, ele diz que por mais que apertasse o acelerador de seu trenó nuclear, o raio de luz continuava a se afastar dele a 1,08 bilhão km/h e nem um pouquinho a menos. Haroldo o aconselha a se acalmar e diz que a luz não é trambiqueira, o tempo é que é relativo!

A explicação de Einstein para tal paradoxo é a de que as medições de distâncias espaciais e durações temporais realizadas pelo relógio de pulso de Calvin são diferentes das de Haroldo, e isso nada tem a ver com o fato de ele estar usando um relógio mais preciso... A divergência entre tais medições só podem ser explicadas pela doutrina einsteiniana onde o tempo não é mais absoluto, mas relativo ao observador.

A velocidade da luz, ela sim, é absoluta e constante, já o próprio espaço e o próprio tempo dependem do observador. Cada um de nós leva o seu próprio relógio, seu monitor da passagem do tempo. Todos os relógios tem a mesma precisão, mas quando nos movemos, uns com relação aos outros, os relógios não mais concordam entre si. Perdem a sincronização. O espaço e o tempo ajustam-se de uma maneira que lhes permite compensar-se exatamente, de modo que as observações da velocidade da luz sempre dão o mesmo resultado, independente da velocidade do observador.

Newton achava que esse movimento através do tempo era totalmente independente do movimento através do espaço. Einstein descobriu que eles são intimamente ligados. A descoberta revolucionária da relatividade especial é esta: quando você olha para algo, como um trenó nuclear estacionado, que, do seu ponto de vista, está parado – ou seja, não se move através do espaço –, a totalidade do movimento do trenó se dá através do tempo. O trenó, a neve, o tigre, você, sua roupa, tudo está se movendo através do tempo em perfeita sincronia. Mas, se Calvin voltar a acelerar o trenó, parte de seu movimento através do tempo será desviada para o movimento pelo espaço. Por fim, a relatividade especial declara a existência de uma lei válida para todos os tipos de movimento: a velocidade combinada do movimento de qualquer objeto através do espaço e do seu movimento através do tempo é sempre precisamente igual à velocidade da luz.

Você pode até se imaginar parado, mas mesmo o monge budista meditando no templo mais afastado do Butão tem o seu corpo em constante movimento através do espaço. Ainda que a gravidade o prenda a Terra, a Terra está girando em torno do Sol em extrema velocidade, e o Sol, por sua vez, gira em torno do centro da Via Láctea – a nossa galáxia –, e nossa galáxia inteira vai de encontro a Andrômeda [1], e todas as galáxias se movem em torno de conglomerados inimagináveis aos mortais (embora alguns físicos tentem imaginar seriamente o tamanho do infinito)...

Mas, ainda que por milagre o monge atingisse algum espaço perfeitamente estático do Cosmos, ainda assim estaria se movendo a precisamente 1,08 bilhões km/h pelo tempo, na crista das ondas de luz.

Já a própria luz, que sempre viaja à sua velocidade através do espaço, é especial porque sempre opera a conversão total da velocidade do tempo para o espaço. Isso significa que o tempo pára quando se viaja a velocidade da luz através do espaço. Um relógio usado por uma partícula de luz não anda. Os fótons lançados no espaço-tempo tem a mesma idade desde o Big Bang, eles operam no reino da eternidade [2].

Embora não possamos nunca realmente nos aproximar da velocidade da luz mantendo a matéria que nos forma intacta, existe algo de profundo e assombroso nesta visão do mecanismo cósmico. Desde que despertamos para a vida consciente, temos nos perguntado de onde viemos e para onde vamos, e alguns de nós tem tido um contato mais estreito com a própria eternidade que nos cerca – uma essência misteriosa que parece permear todas as coisas, e lhes dar forma e informação.

Para estes, a busca pela eternidade, pelo retorno as origens, ao reino do que não foi nem será, mas simplesmente é, nesse exato momento o é, essa busca se torna uma perseguição implacável... Por outro lado, através da racionalidade, terminamos por desvelar os segredos da própria luz, por retirar o próprio tempo de seu pedestal absolutista. Terminamos por perceber, por uma via completamente distinta, que a eternidade está espalhada por todo o lugar. Nós a percebemos com os olhos – os fótons são eternos [3].

» Na continuação, a ilusão persistente do tempo...

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[1] Nossa galáxia e a de Andrômeda fazem parte do Grupo Local de galáxias em nossa vizinhança cósmica. Mas não se preocupem, ainda vai demorar muito, muito tempo, para que as galáxias se choquem...

[2] A noção de que o tempo para a velocidade da luz é interessante, mas é importante não exagerar quanto às implicações desse fato. A perspectiva “atemporal” do fóton limita-se a objetos sem massa, o que está limitado a uns poucos tipos de partículas.

[3] O exercício mental do trenó nuclear e várias citações e informações científicas descritas neste artigo são fruto direto da leitura de “O tecido do cosmo” (Cia. das Letras), do físico Brian Greene. Recomento sua leitura para um aprofundamento científico (e muito mais embasado, nesse sentido) do assunto.

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Crédito das imagens: [topo] Paul Souders/Corbis; [ao longo] Bill Watterson (Calvin e Haroldo).

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21.3.11

O fogo de Prometeu, parte 2

continuando da parte 1

Fissão Nuclear é a quebra do núcleo de um átomo instável em dois menores e mais leves, um processo físico normalmente catalisado pela colisão de nêutrons com o núcleo. Esse processo pode ser rotineiramente observado em usinas nucleares e/ou em bombas atômicas.

A floresta e o sarcófago

Einstein dispensa apresentações, sendo o célebre criador da equação que mudou o mundo, E=MC², o que nos demonstrou que toda matéria, tendo sido criada pela condensação da energia, pode uma vez mais se converter em energia, processo que ocorre a todo momento no núcleo das estrelas. O cientista alemão, entretanto, inicialmente não acreditou que este processo seria viável tão cedo, como disse: “a probabilidade de transformar matéria em energia equivale a atirar em pássaros no escuro num campo em que há pouquíssimos pássaros”.

A equação de Einstein parecia mais uma conclusão puramente teórica do que uma solução prática para a produção de vastas quantidades de energia. Era muito difícil “vencer” a integridade dos núcleos atômicos, sendo que para provocar uma fissão nuclear gastava-se muito mais energia do que se poderia produzir ao fim do processo... Foi Leó Szilárd, um jovem cientista húngaro, amigo de Einstein, quem primeiro compreendeu que o problema estava em se bombardear o núcleo atômico positivo com partículas de carga elétrica igualmente positiva: como sabemos, polos idênticos se repelem mutuamente. Szilárd teorizou que o recém-descoberto nêutron – como já diz o nome, de carga neutra – poderia ser usado para bombardear o núcleo atômico, sem ser repelido, portanto ligando-se ao próprio núcleo e o tornando instável. Núcleos atômicos instáveis se repartem em elementos mais leves, liberando grande quantidade de energia, e novos nêutrons, o que acarreta uma reação em cadeia: uma reação nuclear digna do fogo de Prometeu!

E todos sabemos como foi a história da corrida nuclear do século XX... Para nossa sorte, os nazistas não conseguiram construir a bomba atômica antes dos aliados, e Hiroshima calhou de ser a testemunha direta do que míseros 0,6g de massa podem fazer quando liberam sua energia em uma reação em cadeia. Após o fim da Segunda Guerra, essa corrida continuou por vias obscuras, numa guerra psicológica, fria como um sarcófago de chumbo, que colocou duas grandes potências, EUA e URSS, em polos opostos.

Sabe-se lá como, conseguimos virar o século sem termos nos exterminado em um inverno nuclear, e hoje felizmente as nações que alcançaram a tecnologia da bomba atômica estão aparentemente em um consenso de que o arsenal nuclear deva ser reduzido – muito embora provavelmente não o suficiente para que qualquer espécie de guerra atômica seja nalgum dia segura... Sim, pois em todas as guerras pregressas, os homens temiam pela morte de dezenas ou milhares – porém, na era nuclear, passaram a temer pela extinção de centenas de milhares, ou até mesmo de toda a espécie humana. Teria o temor irracional finalmente conseguido escapar da caixa de Pandora?

Disso não sabemos, mas existe um outro aspecto da corrida nuclear que passou desapercebido da maioria... É que a fissão nuclear não havia sido usada apenas para a produção de reações nucleares descontroladas, detonadoras de bombas, mas também para as controladas, no intuito de se produzir energia. E surgiram as usinas nucleares, grandes aliadas do desenvolvimento humano, da industrialização, de uma nova era para a humanidade. Em sua confiança cega, o homem acreditou mesmo que estava apto a controlar o fogo de Prometeu, a realizar na Terra o que era próprio de reações estelares. O homem acreditou que poderia aprisionar um deus, sem pensar devidamente nas consequências...

Claro que as coisas um dia dariam errado. O problema de lidar com a energia nuclear é que qualquer erro pode trazer consequências graves, muito graves... Em 1986 um dos reatores da usina nuclear de Chernobyl – então URSS, hoje Ucrânia – explodiu em pleno funcionamento, durante um teste de um mecanismo de segurança. Este evento catastrófico liberou radiação equivalente a 20 bombas de Hiroshima, e matou diretamente dezenas de pessoas; Mas indiretamente, conforme ocorreu com Madame Curie, pode ter causado cânceres letais em dezenas de milhares de pessoas, além de ter tornado as imediações da usina uma zona fantasma por talvez milhares de anos, já que muitos dos elementos expostos na atmosfera continuam radioativos por muito, muito tempo!

A solução encontrada pelas autoridades foi construir um imenso sarcófago de chumbo [1] em torno do reator exposto, numa tentativa de conter o veneno radioativo apenas naquele local... O problema é que existem inúmeras evidências de que a radiação contaminou o solo, a vegetação, e mesmo os animais que perambulam pela área. Embora ninguém saiba ao certo a extensão do estrago, o que se esperava é que ele fosse suficiente para fazer as nações repensarem o uso da energia nuclear. Como sabemos, não foi bem o caso...

Chernobyl, entretanto, ainda foi capaz de nos trazer uma lição ainda mais sombria e profunda: após o desastre, as imediações em torno da usina foram abandonadas por quase todos os humanos (alguns camponeses insistiram em continuar vivendo no local, mas obviamente não sobreviveram por muito tempo); Só que a fauna e a flora devastadas num primeiro momento, regeneraram com o passar das décadas, e hoje temos no entorno do sarcófago de Chernobyl a chamada Floresta Vermelha, o mais improvável dos refúgios naturais!

Se a radiação pode fazer mal aos seres vivos, e causar inclusive um grande aumento de mutações genéticas (em sua maioria, “maléficas”), ela não se compara a capacidade devastadora da civilização humana. Eis que, mesmo em meio à zona contaminada, os animais prosperaram, pois lá tiveram maiores chances de sobrevivência do que nas parcas zonas selvagens que ainda lhes restam naquela região do globo. Eis uma dura lição sobre a natureza humana.

Entre a floresta e o sarcófago, já foram registradas estranhas plantas com gigantismo, pássaros com penas estranhas, e outras anormalidades genéticas... Como saber o que surgirá de Chernobyl daqui a milhares de anos? Tomara que, se o homem realmente se aniquilar em um inverno nuclear, que pelo menos esses animais tenham tido algum tempo para, quem sabe, passar por alguma forma de mutação que os possibilite ter maior resistência à radiação.

Sim, pois tudo que o homem poderá fazer, se não souber usar ao fogo de Prometeu com sabedoria, é consumir-se no próprio fogo. Como o fogo é capaz de renovar todas as coisas, esperamos que no caso de uma tragédia global, uma próxima espécie consciente seja mais sábia. Pois o homem pode ir-se embora, mas a floresta e o sarcófago ainda restarão.

Na continuação, como aproveitar a usina que sempre esteve lá...

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[1] Veja mais neste documentário da BBC: "Dentro do sarcógafo de Chernobyl" (em inglês).

Crédito das imagens: [topo] Gerd Ludwig/Corbis (Cemitério próximo a usina de Chernobyl); [ao longo] Gerd Ludwig/Corbis (Frutos radioativos). Nota: eu optei por não mostrar imagens muito fortes. Para quem tiver interesse, buscar por "Chernobyl - The Aftermath" no Google Images... Eu sequer posto o link aqui, pois há que se pensar bem antes de se dispor a ver algumas das imagens, sobretudo de crianças e do gado contaminado.

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30.8.10

A ciência da inspiração, parte 3

Continuando da parte 2

Metáfora: Figura de linguagem em que há a substituição de um termo ou conceito por outro, criando-se uma dualidade de significado.

Devoradores de maçãs

Um dos mitos mais conhecidos da humanidade trata de jardim do Éden, onde os primeiros humanos criados por Deus, a sua imagem e semelhança, viviam imortais, ociosos e aparentemente felizes. Isso foi até que eles resolveram comer os frutos (o mito fala em maçãs) da árvore do conhecimento do bem e do mal, da qual Deus havia alertado que eles não deveriam comer, ou conheceriam a morte. E o resto todos já sabem: Deus ficou furioso e os expulsou do Éden apenas com alguns trapos feitos de couro de animais, pois que agora um se envergonhava da nudez do outro. E Adão e Eva povoaram o mundo, muito embora o pecado de Eva tenha nos amaldiçoado por muitos e muito anos, até que Jesus veio pagá-lo para nós.

Joseph Campbell, grande estudioso do assunto, dizia que “o mito é algo que nunca existiu, mas que existe sempre”. Ele provavelmente queria dizer que os mitos tratam de verdades que existem fora do tempo, ou seja, que existem sempre. Todo grande mito da humanidade fundamenta-se em uma ou mais dessas verdades, dessa partícula de essência que emana da eternidade. Foi exatamente por isso que os sábios antigos tiveram o cuidado de popular suas histórias com vários desses mitos. Eles sabiam, certamente, que muitos aldeãos e camponeses ignorantes de sua época iriam interpretar tais histórias ao pé de letra, de forma literal – mas sem dúvida também tinham a esperança de tocar a alma dos outros sábios que viriam a Terra em épocas posteriores.

O mito do Éden é repleto de metáforas. Talvez a mais interessante delas seja exatamente o paradoxo do pecado pelo qual Eva foi condenada. Ora, antes de devorar a maçã, ela era sem dúvida ignorante do conhecimento (seja do bem, seja do mal). Se nunca houvesse comido o fruto proibido, estaria ociosa e imortal, por toda eternidade, em um jardim onde poucas coisas interessantes acontecem – mas seria feliz, acredita-se. Animais ignorantes também são "felizes" vivendo no meio selvagem; Entretanto, as pressões do meio-ambiente nunca os deixaram relaxar: na guerra do sofrimento e da fome, mesmo em meio a sua “felicidade”, presas e predadores lutaram pela sobrevivência por longos e longos anos. Não fosse por essa pressão da natureza, talvez a Terra estivesse até hoje populada por hominídios, ou nem mesmo isso, por roedores e outros pequenos mamíferos...

Pois foi exatamente quando adquiriu à consciência e o conhecimento do bem e do mal que o ser humano se tornou quem é. Por um lado, portanto, a metáfora do fruto proibido é apenas uma história fantasiosa, por outro, é uma explicação surpreendentemente avançada para a época em que foi escrita. Será que os rabinos judeus tinham ideia de que estavam a antecipar um dos grandes mistérios da evolução das espécies? Será que tinham pleno conhecimento daquilo que escreviam talvez guiados pela pura intuição? Acredito que a resposta não esteja nem tanto lá, nem tanto cá. Certamente os sábios antigos tinham noção de que lidavam com assuntos sagrados, e que os estavam passando adiante “cifrados” em metáforas dentro de mitos. Mas da mesma forma eles certamente tinham consciência de que não tinham como saber tudo, e é exatamente por isso que passavam tais símbolos para as gerações futuras – como uma mensagem numa garrafa arremessada no oceano, a espera de alguma praia onde existam seres mais sábios para decifrar seus enigmas.

Nós já ficamos com nós na cabeça ao abordarmos o conceito de programação genética. E, da mesma forma, já consideramos com carinho a possibilidade da mente humana ser o resultado da interseção de módulos mentais (naturalista, técnico e social). Além disso, também falamos sobre como a neurologia compreende a criatividade: o foco mental em novos estímulos e ideias, em fluxo e trocas constantes com as ideias que já dominamos em nossas respectivas artes ou disciplinas... Ora, em posse dessas informações, talvez o processo misterioso dos algoritmos genéticos não seja mais tão insondável.

Vamos falar, por exemplo, de poesia: da mesma forma que gerações de algoritmos se digladiam no meio-ambiente do problema a ser resolvido, todos os estímulos que os poetas enviam para suas mentes – através de seus olhares sempre atentos aos menores detalhes da natureza à volta – nada mais são do que algoritmos em busca da solução de sua próxima poesia. A grande diferença é que, ao contrário dos programadores, os poetas geralmente sequer tem ideia de qual é o problema a ser resolvido – de certa forma, para eles, as soluções chegam junto com os problemas, embora nenhuma solução seja realmente a derradeira, e todos os problemas sejam quase sempre infinitos. Nessa batalha mental travada por estímulos ambíguos e aparentemente sem relação uns com os outros, ninguém sai derrotado, pois o fruto é sempre uma nova legião de metáforas. E estas maçãs são divinas, jamais proibidas... Os poetas são verdadeiros devoradores de maçãs!

Vejamos uma dessas “soluções”, pelo grande poeta místico, Gibran Khalil Gibran: “Na floresta só existe lembrança dos amorosos / Os que dominaram o mundo e oprimiram e conquistaram, / seus nomes são como letras dos nomes dos criminosos / Conquistador entre nós é aquele que sabe amar / Dá-me a flauta e canta! / E esquece a injustiça do opressor / Pois o lírio é uma taça para o orvalho e não para o sangue”. Neste belo trecho do poema “A floresta”, é impossível chegar a uma compreensão efetiva do que o poeta quis dizer sem usar ao menos parte de nossa emoção e nossa intuição juntamente com nossa razão... Mesmo assim, ficará sempre aquela dúvida se realmente compreendemos todo o bem e todo o mal deste belo fruto da inspiração de Gibran. O lírio é uma taça para o orvalho, e não para o sangue – quantas e quantas interpretações e conceitos contidos em apenas uma frase.

Há ainda outros poetas que conseguem inserir metáforas dentro de metáforas dentro de ainda outras metáforas... Quando Fernando Pessoa diz que “o poeta é um fingidor, finge ser dor a dor que deveras sente”, ele está nos trazendo para uma análise existencial da qual a solução jamais será algo racional, objetivo, tal qual 2+2=4. Nesse sentido, é possível que os algoritmos genéticos sejam extensões de nossa racionalidade, aplicadas a problemas descobertos por nossos cientistas e matemáticos, e que tudo o que fazem é poupar seus cérebros de rodar trilhões de cálculos, antecipando uma solução que em séculos passados seria inviável. Entretanto, na poesia pode ser mais depressa ainda: a solução chega junto com o problema. A diferença é que na poesia a solução jamais será final, e após termos devorado todas as maçãs do Éden, teremos de sair nós mesmos em busca de mais conhecimento – ainda que o velho barbudo tenha se esquecido de nos expulsar...

Muito do debate acerca da existência de Deus se resume ao ancião das metáforas do antigo testamento bíblico – sim, pois o Deus de Jesus é sempre um coadjuvante, que intervém apenas por emanação de pensamentos, e não de forma “direta”. Esses debates se parecem mais com debates entre crianças que brincam em uma praia – uma delas constrói um castelo de areia e diz que “esta é a cidade de deus”... Enquanto outras crianças com senso crítico mais desenvolvido esperam as ondas da maré chegar e destruir os castelos, e então bradam convictas: “Viram! Não lhes disse que este deus tinha pés de barro?”.

Ora, mas e se o reino de Deus estiver em sua volta? E se ele abarcar não só os castelos de areia, como cada grão de areia da praia, e cada gota de água do mar, e cada nuvem e cada pássaro a planar pelo céu, e cada sol a flutuar pelo Cosmos, e cada partícula a bailar por nosso cérebro e nossa alma?

Einstein dizia que “a ciência sem a religião é manca; a religião sem a ciência é cega”. Ora, um dos grandes cientistas de nosso tempo, em sua maturidade, defendia uma “religiosidade cósmica”, baseada na presença de um poder racional superior, revelado no universo ainda oculto ao conhecimento da ciência. Muitos outros cientistas e filósofos foram teístas, deístas, panteístas, agnósticos, etc. Para quem possuí muita ciência, fica muito difícil apostar que tudo o que há surgiu do nada como numa “passe de mágica cósmico”. No mínimo, é preciso admitir que tal questão não pode ser compreendida hoje, e talvez jamais possa... De qualquer forma, pela lógica, também se faz necessário concordar com Espinosa (como Einstein, aliás, concordou) quando este afirma em sua “Ética” que “uma substância não pode criar a si mesma”...

E se Deus for um grande programador cósmico? E se nós formos parte dos algoritmos divinos que ele inseriu em sua criação? E se no núcleo de cada átomo, nos filamentos de cada DNA, em cada um de nosso neurônios, nas partículas etéreas de nossa alma, não estiverem inscritos códigos sagrados que ditam que este Cosmos nada mais é do que um problema em solução? E se formos nós mesmos os personagens e co-criadores desta poesia infinita? Navegando dentre raios cósmicos e poeira de estrelas, é impossível participar deste problema sem estarmos encharcados de Deus por todos os lados e a todos os momentos...

O reino de Deus sempre esteve a nossa volta. Nós jamais fomos expulsos do Éden. Tudo o que falta é compreendermos isso – que o Éden jaz, antes de mais nada, em nossa consciência... E que Deus ou o Cosmos jamais foram uma solução, jamais uma muleta na qual pudéssemos nos acomodar, mas sim um grandioso problema que vem sendo solucionado passo a passo, inspiração por inspiração. Nós devoramos uma maçã de cada vez...


Na floresta não existe nem rebanho, nem pastor
Quando o inverno caminha, segue seu distinto curso como faz a primavera
Os homens nasceram escravos daquele que repudia a submissão
Se ele um dia se levanta, lhes indica o caminho, com ele caminharão
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o pasto das mentes,
e o lamento da flauta perdura mais que rebanho e pastor

Gibran Khalil Gibran, trecho de “A floresta”.

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Crédito das fotos: [topo] Guto Lacaz (exposição "Einstein no Brasil"); [ao longo] Marcos Homem

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13.6.10

Newton, Einstein e Deus

Texto de Marcelo Gleiser no Caderno Mais! da Folha de São Paulo. Baseado em uma versão mais completa, publicada em inglês no blog 13.7: Cosmos and Culture. Retirado do blog de Alam Kenjiminowa. As notas ao final são minhas.

Talvez isso surpreenda muita gente, mas tanto Newton quanto Einstein, sem dúvida dois dos grandes gigantes da física, tinham uma relação bastante íntima com Deus.

É bem verdade que o que ambos chamavam de "Deus" não era compatível com a versão mais popular do Deus judaico-cristão [1].

Numa época em que existe tanta disputa sobre a compatibilidade da ciência com a religião, talvez seja uma boa ideia revisitar o pensamento desses dois grandes sábios.

No epílogo da edição de 1713 de sua obra prima "Princípios Matemáticos da Filosofia Natural" (1686), Newton escreve que o seu Deus (cristão, claro) era o senhor do Cosmo e que deveria ser adorado por estar em toda a parte, por ser o "Governante Universal". Essa visão de Deus pode ser considerada panteísta, se entendermos por panteísmo a doutrina que identifica Deus com o Universo ou que identifica o Universo como sendo uma manifestação de Deus [2].

A visão que Einstein tinha de Deus, devidamente destituída da conotação cristã, ecoava de certa forma a de Newton. Einstein desprezava tudo o que dizia respeito à religião organizada, em particular a sua rígida hierarquia e ortodoxia [3].

Para ele, um Deus que se preocupava com o destino individual dos homens não fazia sentido. Sua visão era bem mais abstrata, baseada nos ensinamentos do filósofo Baruch Spinoza, que viveu no século 17. Numa carta dirigida a Eduard Büsching, de 25 de outubro de 1929, Einstein diz: "Nós, que seguimos Spinoza, vemos a manifestação de Deus na maravilhosa ordem de tudo o que existe e na sua alma, que se revela nos homens e animais" [4].

Em 1947, numa outra carta, Einstein escreveu: "Minha visão se aproxima da de Spinoza: admiração pela beleza do mundo e pela simplicidade lógica de sua ordem e harmonia, que podemos compreender".

Como essas posições podem ser usadas no debate sobre a compatibilidade da ciência com a religião?

De um lado, ateus radicais como Richard Dawkins, Christopher Hitchens e Sam Harris argumentam que não pode haver uma compatibilidade, que a religião é uma ilusão que precisa ser erradicada, que o sobrenatural é uma falácia [5].

De outro, existem vários cientistas que são pessoas religiosas e até mesmo ortodoxas, e que não veem qualquer problema em compatibilizar seu trabalho com a sua fé. O fato de existirem posições tão antagônicas reflete, antes de mais nada, a riqueza do pensamento humano. Nisso, vejo um ponto de partida para uma possível conciliação [6].

É verdade que o ateísmo radical está respondendo a grupos fundamentalistas que tentam evangelizar instituições públicas. "Guerra é guerra e devemos usar as mesmas armas", ouvi de amigos. Mas o pior que um fundamentalista pode fazer é transformar você nele.

Einstein e Newton encontraram Deus na Natureza e viam a ciência como uma ponte entre a mente humana e a mente divina.

Para eles, adorar a Natureza, estudá-la cientificamente, era uma atitude religiosa. Acho difícil ir contra essa posição, seja você ateu ou religioso. Religiões nascem, morrem e se transformam com o passar do tempo [7]. Mas, enquanto existirmos como espécie, nossa íntima relação com o Cosmo permanecerá.

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[1] Como sempre digo por aqui, raramente algum livre-pensador terá a mesma visão de Deus que outro. Somente os que seguem dogmas, ou os que atacam ferozmente os dogmas, têm uma visão ou um conceito mais homogêneo do que quer que seja Deus.

[2] Muitos teístas criticam o panteísmo afirmando que Deus não pode ser a mesma coisa que sua obra, assim como uma pintura não é a mesma coisa que um artista. Porém, se a pintura é a manifestação do artista, o universo pode ser a manifestação de Deus. Um panteísta pode achar que absolutamente toda a natureza é sagrada, portanto, mas não quer dizer que afirme que Deus é limitado ao universo. Até mesmo porque do nada, nada se faz, e daí se tira - pela lógica - que Deus é "algo mais do que o tudo".

[3] Por "religião organizada e/ou ortodoxia", leia-se Igreja (ekklesia). A religiosidade, ou Religião (religare), é muito mais do que isso.

[4] O belíssimo conceito que Espinosa (eu prefiro usar seu nome latino) fazia de Deus é resumido no primeiro capítulo de sua "Ética". Mas talvez possa ser resumido ainda mais na frase "uma substância não pode criar a si mesma". O Deus de Espinosa é tão somente - pela lógica - a Primeira Substância, da qual tudo o mais se irradiou.

[5] Vale lembrar que inúmeras doutrinas religiosas concordam que o sobrenatural não existe. Complexo, entretanto, é afirmar que já sabemos tudo sobre o natural - obviamente ainda nos falta muito a desvendar.

[6] Eu certamente não concordo com muitas crenças ou descrenças de Gleiser, mas isso não me impede de admirá-lo por sua inteligência e bom senso, além é claro do trabalho exemplar na divulgação científica. Muitas vezes a discussão sobre a existência de Deus é absolutamente inútil, é quando um "deus-barreira" serve apenas para se interpor entre o entendimento dos seres. Busquemos então o ponto de encontro, e não um debate infindável sobre a discórdia.

[7] As Igrejas (ekklesia) são fundadas e esquecidas, é verdade. A Religião (religare), porém, é sempre um mesmo caminho. Caminho talvez infinito, mas que é trilhado por cada um, e não há sábio ou cientista que possa fazê-lo por você...

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Crédito da imagem: Guto Lacaz (exposição "Einstein no Brasil")

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