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8.2.13

Empédocles: Amor e Ódio

Empédocles, um filósofo pré-socrático [1], acreditava que o Cosmos era regido por duas forças primordiais: o Amor unia a tudo, e o Ódio afastava. Difícil dizer hoje o porque de ele haver usado especificamente estes termos, mas talvez ele tenha percebido um parentesco entre as forças naturais, externas a alma, e as forças da própria alma.

Ora, hoje sabemos que o que Empédocles chamou de Amor, a ciência chamou de Gravidade. E a cosmologia atesta que o espaço-tempo continua a se expandir. Seria pelo Ódio que os agrupamentos de galáxias se afastam umas das outras? Acredito que Empédocles apenas lamentava pelo tanto de gente que nunca iria conhecer, pois que estavam afastados tanto no tempo quanto no espaço.

Mas há ainda uma espécie de pensamento que pode reconciliar a todos, tanto os unidos na Gravidade, quanto os afastados no Ódio... Não há substância que possa haver criado a si mesma a partir do nada, e portanto tudo o que há, galáxias, planetas, filósofos e amantes, etc, tudo é parte desta mesma substância incriada, que existe exatamente porque o nada inexiste.

Dentro dela, estamos todos navegando. Estamos todos profundamente conectados, uns com os outros, em nossa essência mas primordial. Hoje, mesmo a cosmologia poderia responder a Empédocles: "através dos átomos, todos estamos conectados - o Ódio era ilusão, o Amor venceu ao tempo e ao espaço".

***

[1] "O mundo evoluiu da água por processos naturais. Sobrevive aquele que está mais bem capacitado", concluiu cerca de 2460 anos antes de Darwin e Wallace. Conforme Wallace, porém, era reencarnacionista.

Crédito da imagem: Google Image Search

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27.1.13

O software angélico que roda no eixo do mundo, parte 1

O único lugar em que os deuses e demônios existem indiscutivelmente é na mente humana, onde são reais em toda a sua grandiosidade e monstruosidade (Alan Moore).

Há muitas coisas a se falar acerca de deuses, anjos e demônios. Para não tornar este texto excessivamente longo, estarei iniciando no meio do caminho, de forma que é recomendável que primeiramente leiam estas duas séries de artigos, antes da leitura deste aqui: A roda dos deuses e Os corvos de Wotan.

Se não entenderem muita coisa a partir daqui, não digam que não avisei!

Seriam os deuses forças da natureza?
Segundo muitos estudantes de mitologia e ocultistas, os deuses nada mais seriam do que imensos conjuntos de símbolos resumidos nalgumas imagens ou histórias, que foram passadas adiante pela cultura humana mesmo antes de a escrita haver sido inventada [1]. Existiriam, dessa forma, tão somente na mente humana, esta incrível força capaz de interpretar a realidade. Mesmo que este fosse o caso, o fato de existir somente na mente não necessariamente torna os deuses “assunto irrelevante”, principalmente pelo fato de que toda a realidade, de certa forma, existe na mente – na medida em que o resultado final dela é processado na mente.
Mas é óbvio que há muitos religiosos, dogmáticos ou não, que consideram ou creem piamente na possibilidade dos deuses existirem também fora da mente, na realidade objetiva. Ora, isto gera pelo menos duas questões lógicas de solução não exatamente trivial:

(1) Se os deuses existem objetivamente, quem os criou?
(2) Se os deuses são seres individuais, conscientes, de que forma ocorreu sua evolução?

Para respondermos a primeira pergunta, precisamos considerar o problema da existência, ou o problema do ser, que na filosofia postula, basicamente, que nada pode surgir do nada [2]. Trata-se de um problema muito antigo, que consta tanto nos Upanixades hindus quanto no taoismo, tanto na filosofia de Parmênides e Plotino quanto na monumental síntese moderna de Benedito Espinosa, que postula que “uma substância não pode criar a si mesma ou alguma outra substância totalmente dissociada de si”.
Ora, pela lógica mais pura e básica, isto significa que algo sempre existiu, e jamais foi criado, exatamente porque o nada não existe. Desta forma, isto também significa que, acaso os deuses existam objetivamente, mesmo eles precisam haver sido criados, e quem ou o que os criou, este sim é o chamado Criador.
A despeito da ignorância de muitos eclesiásticos monoteístas acerca do tema, em realidade o politeísmo sempre contou com alguns grandes sábios e/ou místicos que sabiam muito bem que “teria de haver um Deus anterior aos demais, e este seria o Criador, e ele teria de ser único”. Desta forma, a ideia central do monoteísmo, longe de ser alguma novidade lógica, é apenas uma conclusão tardia que, por alguma razão, preferiu discriminar ou ignorar a possibilidade da existência dos deuses.
De fato, há muitas mitologias arcaicas [3] que falam acerca de um Criador que, após haver criado o mundo e os deuses, se tornou um “deus ocioso”. O fato de ser “ocioso”, entretanto, não necessariamente significa que “não faça nada”, mas sim que “não fazemos sequer ideia do que ele é ou faz”.  
Na mitologia iorubá, que teve grande influência no Brasil através do candomblé e da umbanda sagrada, que lhe são derivadas, há o exemplo do Deus Criador: Olorun. Ora, foram os deuses (orixás) quem criaram os homens [4], e são eles quem “os influenciam” na Terra (Ayie). Mesmos estes orixás, porém, foram criados por Olorun, que hoje reside no Céu (Orun). Bem, sabemos que nos ritos do candomblé, por exemplo, há oferendas para os orixás. Para Olorun, porém, jamais é feita oferenda alguma. E o motivo é mesmo óbvio: Tudo o que existe, tudo o que pode ser ofertado, já lhe pertence em todo caso! Eis uma profundidade de pensamento que muitos críticos dos iorubás ignoram ou desconsideram.
E Olorun é também “ocioso”, antes por não ter nenhuma participação nos ritos e rituais, do que propriamente por não fazer nada. Ora, são os homens quem não sabem o que ele faz ou deixa de fazer, e que, portanto, disseram que ele “se tornou ocioso” – ou seja, além de nossa capacidade de compreensão do que uma ou outra ação sua significaria.
Seja Olorun da África, ou El da Mesopotâmia (que foi sincretizado com o deus bíblico), ou o próprio Tao, “anterior ao Soberano do Céu”, do taoismo: todos estes nomes se referem ao Criador, ao Uno, a substância tão sabiamente definida por Espinosa. E os deuses nada mais são do que seus filhos, assim como nós mesmos [5].

Para respondermos a segunda pergunta, precisamos considerar que todo ser vivo há que haver evoluído de um princípio simples para uma entidade complexa, consciente. Pois, assim como não há árvore que antes não tenha sido semente, e não há espécies complexas sem que antes haja existido espécies tão simples como uma simples bactéria, da mesma forma ocorre com o espírito. Se os deuses, portanto, fossem espíritos, teriam de haver evoluído da mesma forma, sabe-se lá onde, sabe-se lá quando.
O grande problema desta hipótese é que os deuses representam as forças da natureza, e estas não podem simplesmente ter passado por uma evolução. Pelo que sabemos, a gravidade precisa existir, da mesma forma como é hoje, desde os primeiros momentos deste espaço-tempo. E, ainda que existam outros universos num hipotético multiverso, pela lógica seria muito complexo supormos que, nalgum outro universo qualquer, a gravidade possa ter “evoluído passo a passo, assim como nós”.
Pode ser estranho para alguns associar um conceito científico, a gravidade, com o conceito dos deuses entendidos como forças da natureza. Mas para mim é uma associação muito proveitosa... Para Empédocles (filósofo pré-socrático), por exemplo, a gravidade era chamada de amor: o que unia não somente os seres, como todas as coisas do Cosmos. Ora, se a gravidade deixasse de existir por um momento sequer, podemos imaginar o caos que ocorreria em todo o universo. Não há como haver universo, ao menos um universo onde haja sóis, planetas e vida, sem a gravidade, sem o amor de Empédocles. Portanto, este amor tem de haver existido desde sempre.
Se formos então transportar esta ideia para o conceito dos deuses enquanto representantes e agentes das forças naturais, temos que eles não somente não são seres individuais, ou espíritos como nós, como tampouco tem exatamente uma vontade própria. Se existe alguma vontade nalgum deus, esta vem como reflexo da vontade do Deus Criador, pois que tudo o que os deuses fazem é legislar com as leis que existem na própria engenharia da realidade...
Isto é, se é que os deuses existem fora da mente humana.

» Em seguida, anjos e outros mensageiros atuando no eixo do mundo...

***

[1] Há muitos deuses que inclusive fazem parte da própria narrativa da descoberta da escrita, como é o caso de Toth-Hermes ou Odin-Wotan. Eles têm em comum pelo menos o fato de terem sido aqueles que “trouxeram o conhecimento da escrita para a humanidade”. Entretanto, também existem ou existiram outras doutrinas espiritualistas, como a druídica e boa parte das antigas doutrinas xamãnicas e indígenas, que ou jamais descobriram a escrita, ou preferiram não utilizá-la, temendo que ela terminasse por reduzir à experiência religiosa a mera teoria (provavelmente Sócrates sentia o mesmo, tanto que faz uma curiosa crítica ao discurso escrito no Fedro).

[2] Recomendamos a leitura da série Reflexões sobre o nada.

[3] E recomendamos, ainda uma vez mais neste blog, a leitura do monumental História das crenças e ideias religiosas, de Mircea Eliade (Ed. Zahar). Trata-se de uma série de 3 volumes, no qual o primeiro volume, por tratar do início, é obviamente o mais importante (ao menos no contexto do que estamos refletindo aqui).

[4] Bem, em algumas interpretações desta mitologia, Olorun também foi responsável pela criação dos homens. Mas no contexto de nossa reflexão, isto não fará muita diferença prática.

[5] Não à toa o rabi da Galileia nos disse: “sois deuses”. E, mesmo isto não era nenhuma novidade, pois há uma frase mística muito mais antiga que afirmava: “eu também sou da raça dos deuses”.

Crédito da imagem: Encontrada em UNEGRO

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2.12.10

Reflexões sobre o materialismo, parte 1

A matéria (do latim: materia) é aquilo que existe, aquilo que forma as coisas e que pode ser observado como tal; é sempre constituída de partículas elementares com massa não-nula (como os átomos, e em escala menor, os prótons, nêutrons e elétrons).

A descoberta do invisível

Empédocles foi um filósofo pré-socrático que viveu na atual região da Sicília, entre 490 e 430 a.C.; Também foi médico, legislador e místico. Aproximadamente 2460 anos antes de Darwin e Wallace, já postulava que “os seres evoluíram da água por processos naturais” e que “sobrevive aquele que está mais bem capacitado”. Empédocles viveu em uma era onde os sábios ou filósofos eram ao mesmo tempo religiosos e cientistas.

Por exemplo, ele defendia que o universo era mantido por suas forças fundamentais: o Amor unia os elementos e o Ódio os separava. Esse tipo de nomenclatura pode afugentar os cientistas atuais (bastaria substituir o termo “amor” por “gravidade” para, quem sabe, mudarem de ideia), mas os bem informados saberão que a própria ciência deve muito aos pensadores daquela época. Ao contrário de Pitágoras, Empédocles não achava que a natureza poderia ser desvendada apenas pelo pensamento ou pelo estudo místico dos números. Ele era, portanto, um místico observador...

De fato, um dos primeiros experimentos científicos de que se tem notícia foi realizado por Empédocles com um instrumento de cozinha bastante simples – o ladrão de água. Tratava-se de uma espécie de esfera de latão com perfurações de um lado e um longo cano fino no lado inverso. É usado até os dias de hoje, mas mesmo em sua época já vinha sendo usado há muito tempo. Basta imergir a esfera em qualquer balde com água, segurando-a pelo cano e sem tapa-lo, e depois retirar da água tapando o orifício do cano com o dedão – enquanto mantemos o cano tapado, a água da esfera não sai, mas quando retiramos o dedo do cano, ela vira uma espécie de regador e respinga a água para fora por suas pequenas perfurações.

Ora, muita gente deve ter inserido a esfera na água com o cano tapado, por engano, e percebido que nenhuma água havia sido “roubada” do balde pelo ladrão de água... Para praticamente todos isso não tinha nenhum significado oculto ou profundo, mas nas mãos do cientista isso era de uma significância até mesmo aterradora – se não havia “nada” dentro do ladrão de água, se ele estava sem água alguma, como pôde a água do balde não conseguir adentrá-lo apenas porque pressionamos a ponta do cano com os dedos? A única explicação era que o próprio ar ocupava aquele espaço!

Empédocles havia descoberto o invisível. “O ar” – pensou ele – “deve ser matéria em uma forma tão divinamente dividida que não podia ser vista”. Certamente os antigos já consideravam o ar um dos elementos básicos da criação, e Empédocles partilhava dessa crença. Porém, talvez para eles o ar fosse o elemento visto nas nuvens ou sentido nas ventanias e mesmo nas brisas sutis... Mas certamente ninguém havia concebido que o ar ocupava espaço, que preenchia o aparente vazio entre nós e os móveis de nossa casa, ou a árvore do outro lado da estrada. Empédocles havia provado a existência do ar através da observação da natureza, algo que não poderia ser feito somente com a mente, ou com os números.

Toda a ciência moderna se baseia naquilo que pode ser percebido ou diretamente pelos olhos, como um utensílio de cozinha ou uma árvore, ou através de instrumentos, como ondas de rádio ou galáxias distantes. A ciência moderna não considera aquilo que é percebido apenas pela mente, dentre outras coisas porque normalmente não é uma experiência que pode ser percebida por mais de uma pessoa – ou seja, geralmente não é um experimento replicável. Por isso costuma-se pensar que todo cientista é uma materialista, mas isso faz sentido?

O termo “materialismo” só foi cunhado em torno de 1702 pelo filósofo alemão Leibiniz, mas seu conceito está diretamente relacionado ao atomismo, que nada mais é do que um desenvolvimento das ideias de Empédocles por um filósofo que, apesar de ter vivido na mesma época de Sócrates, está “historicamente agrupado” também entre os pré-socráticos: Demócrito.

Nascido em 460 a.C. na região da Trácia, Demócrito foi um discípulo de Leucipo de Mileto, e depois seu sucessor. É considerado por alguns “o pai da ciência moderna” pelo desenvolvimento do atomismo, mas há quem afirme que ele apenas continuou o trabalho de Leucipo, inspirado pelo pensamento de Empédocles. Em todo caso, nenhuma obra original de Demócrito sobreviveu até a modernidade, o que se sabe sobre ele é, sobretudo, o que outros pensadores de sua época disseram a seu respeito. Dizem que Platão o detestava, por exemplo, e que gostaria que seus livros fossem queimados, mas isso é provavelmente apenas uma anedota que procura demonstrar como o atomismo era, de certa forma, o oposto do idealismo platônico.

Outra anedota talvez seja mais realista, e conta que Demócrito dizia que “o riso torna sábio”, além de retratá-lo como alguém que costumava levar a vida com muito bom humor e gargalhadas ocasionais – “a vida sem festas ocasionais é como uma longa estrada sem estalagens pelo caminho”. Por essas e outras, ficou conhecido na Renascença como “o filósofo que ri”... Mas certamente os partidários do idealismo e particularmente do cristianismo não partilharam de seu bom humor: relegaram sua obra a um ínfimo “rodapé histórico”, uma espécie de filosofia apócrifa.

Mas com o renascimento da ciência, seu pensamento voltou à tona e, apesar de termos apenas pequenas referências de sua obra, sabemos que ele estava fundamentalmente correto quando defendia que “tudo é feito de átomos”. Apenas não pôde vislumbrar o quão profundamente sagrados eram tais átomos.

Na continuação, como cortar uma maçã sem causar um incidente nuclear...

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Crédito das imagens: [topo] Wikipedia (Democritus, por Hendrick ter Brugghen); [ao longo] Imagem retirada do episódio 7 da série de TV Cosmos, de Carl Sagan (eis o ladrão de água descrito no artigo).

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