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7.11.16

10 anos

Dez anos de nossas conversas
sob a luz do luar carioca,
num telhado de prédio,
soberanos sobre a noite tijucana.

Saudade.
Dizem que é palavra exclusiva de nossa língua,
difícil de definir...

Então lá vai, amiga:
se somos o sal da terra,
é a saudade o sal do amor.
Bonita, enigmática, como você,
e seus gatinhos, e a Lua.

Não sei se este poema está ficando bom.
Afinal, são dez anos,
dez anos sem nossas conversas,
sem trocarmos poemas e confissões
sobre coisas que somente os poetas veem e sentem:
dores e hemorragias profundas da alma,
e também as rimas, as canções,
e os feitiços de cura...

E você se foi assim, sem aviso;
ficaram só os gatos e os poemas.
Mas seus felinos moram longe, na Tijuca,
e os seus versos, embora belos como sempre,
embora eternos como nossas noitinhas,
nada me respondem
acerca do seu paradeiro.

Amiga! Eu continuo contemplando a Lua,
na esperança de que onde quer que esteja,
possamos por um momento estar encarando o mesmo céu,
a mesma luz.

Nós: poetas desamparados num telhado de prédio,
alheios as superficialidades da vida,
trovadores da essência.
Ainda de mãos dadas,
ainda em nossa Tijuca
que é todo o mundo...

As vezes fecho os olhos, e ainda estou lá,
naquelas noites contigo,
além das ideias de certo e errado,
além do sangramento das almas,
além do julgamento final.
Mas então os abro e estou aqui.
E o que me resta, amiga?

Saudade.
Dez anos
de saudade...


(este poema é dedicado aos dez anos do blog Textos para Reflexão, que por sua vez é dedicado a minha amiga, Flávia Lopes)


raph'16

***

Crédito da foto: Google Image Search

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4.9.16

Entrevista com Raph Arrais

Embora nem sempre esteja muito evidente, tanto Raph quanto Rafael Arrais são a mesma pessoa, e é esta a mesma quem escreve este blog. Nessa entrevista para meu amigo Igor Teo [1], falo um pouco mais sobre a história do blog, assim como sobre poesia, criatividade, morte, amor, e algumas coisas mais...

Lá pelas tantas, em homenagem ao saudoso Abujamra, tento até mesmo responder a pergunta "o que é a vida?":

***

[1] O Igor, que alguns devem conhecer dos livros que publicamos pelas nossas Edições Textos para Reflexão, está com um projeto de popular o seu canal no YouTube com uma variedade de vídeos. Alguns são só dele, mas noutros temos hangouts com mais pessoas. Para quem se interessar, semana passada também participei do primeiro episódio do Hangout Reflexões

Crédito da imagem: raph + Prisma (sim este sou eu)

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6.5.13

Ainda é cedo

Noutro dia fui ver Somos tão jovens, filme que conta a trajetória musical inicial de Renato Russo e retrata com certa competência o estado espiritual de sua juventude em Brasília. O filme propositadamente se encerra antes de ter de falar das fases mais tristes de sua vida, e portanto deveria ser apenas mais um fim de tarde agradável no cinema... E era, até o finalzinho do filme, quando Renato canta Ainda é cedo. Apesar de ser uma cena de certo teor emocional, não parecia justificar o fato de eu haver chorado em pequenas cascatas ao longo de boa parte da música. Havia algo a mais que eu não havia identificado ainda... Algo que parecia estar mais profundo dentro de mim.

Eu gosto muito de fingir que este blog é impessoal – e tenho certeza que há muitos que acreditam. Mas, na prática, nunca foi, é apenas fingimento mesmo.

Não sei se estavam por aqui em 2006, quando ele começou, mas alguns de vocês devem saber que eu comecei este blog em homenagem a uma amiga. O nome dela é Flávia Lopes, e ela é poetisa.

Se hoje mesmo eu ainda conto nos dedos os poetas que conheço pessoalmente, antes de haver o blog e a própria massificação do acesso a internet no país, eu conhecia somente ela. E quem é poeta sabe: você pode ter pais, familiares, amigos próximos, mas somente outro poeta poderá entender de certos assuntos existenciais. Somente um poeta pode servir a uma certa carência de todo poeta, que é poder se comunicar com os outros sem as palavras, essas cascas de sentimento...

Eu me comunicava com ela sem as palavras. À noite, no telhado do seu prédio na Tijuca (no Rio de Janeiro; ela morava numa cobertura de um prédio antigo de onde dava para passear no telhado), contemplávamos tanto as estrelas quanto os gatos e transeuntes das calçadas – tudo nos interessava, mas nada precisava realmente ser dito.

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo [1]

***

Flávia era grande fã de Renato Russo e sua trupe, eu só fui virar fã de verdade anos depois de sua morte. Então é isto que o tempo me fez: começar este blog, e virar fã da Legião Urbana; e ambos são fruto direto do tempo que já não há: o tempo de visitar minha amiga, seja a noite ou de dia.

Dizem que inventamos essas histórias de vida após a morte para suportar a dor da perda de alguém querido, mas me custa identificar onde exatamente isto nos ajuda, se não podemos realmente visitar quem lá está, e retornar, exatamente como eu fazia quando passava pela Tijuca. A Tijuca onde minha amiga mora está hoje inacessível para mim...

Se eu creio que ela ainda existe? Claro que sim, mas isto não me serve exatamente de conforto. Não é isto o que me conforta, se querem saber.

Não me conforta, pois não sei o que ela anda lendo, nem quais gatos ela cria hoje, nem mesmo que tipo de videogame ela anda jogando do outro lado do véu. Serão games mais modernos, ou aqueles clássicos que jogávamos na sua casa? Isto que eu não sei!

A questão não é, portanto, se ela ainda se lembrará do meu nome quando me encontrar noutro canto do Cosmos. A questão é que ela será muito diferente, e eu também, pois estamos sempre mudando, sempre morrendo e renascendo. E terá passado muito tempo, então quem seremos nós um para o outro?

Seremos ainda poetas? Talvez... O que me conforta é saber que pelo menos o time de futebol ela irá manter. Então, como nossa única briga foi por causa de futebol (e prometemos nunca mais brigar por causa disso), eu espero poder encontrar com ela para pode instigá-la e brigarmos outra vez (e quebrar a promessa): “E o seu time hein? Meia vida depois, ainda sempre vice!”.

De resto, o que sobra? Só a saudade, e palavras escritas em sangue...

Ela fazia muitos planos
Eu só queria estar ali
Sempre ao lado dela

Sei que ela terminou
O que eu não comecei
E o que ela descobriu
Eu aprendi também, eu sei

E eu dizia: - Ainda é cedo
cedo, cedo, cedo, cedo... [2]

***

Eu não me importo em ocultar que muito da minha poesia é escrito com sangue:

Já se perguntou, amiga, o que aqui fazemos?
Nesse telhado, de frente para o luar,
E os espaços infinitos entre as estrelas,
E os espaços finitos entre todos nós...
Já se perguntou, alguma vez,
O que será que estamos a observar?

(...) Será que existe o telhado?
Será que existe essa conversa?
Será que existem gatos a pular?
Ou, antes de tudo isso,
Existem amigos, e amizades,
Existem seres conscientes de si,
E consciências etéreas, esvoaçantes...
Indetectáveis senão pelo amor, e pela dor,
De observar ao mais belo luar
Sem ter minha amiga para conversar? [3]

Na poesia, mesmo as cascas de sentimento parecem conseguir trazer algum resquício metafísico do sentimento, da sensação, da intuição, do amor e da alma do mundo... Ou pelo menos foi tudo isto que aprendi com minha amiga.

No filme de Renato, a personagem que é sua melhor amiga, e para quem ele supostamente compõe Ainda é cedo, se trata na realidade de um amálgama das três melhores amigas da sua juventude. Além de tudo, ela ainda está lá, ela reaparece.

No meu caso, será um pouco mais complicado. Por isso chorei daquela maneira no cinema, hoje sei. E por isso continuarei chorando sempre que calhar de relembrar minha amiga, hoje também sei. Mas ainda que seja tão dolorido tudo isso, há um alento, uma consolação, que não tem absolutamente nada a ver com vida após a morte...

Tem a ver com esta vida, que necessita ser vivida intensamente, como se não houvesse o amanhã que na verdade não há. Conforme os estoicos diziam: é preciso viver atento ao chamado do Barqueiro. Isto que vivemos aqui é somente a aventura de um náufrago em meio ao Oceano. É preciso estar atento, pois o Barco ainda irá velejar para muitas outras ilhas, e cruzar com muitos outros faróis a iluminar a neblina espessa. E não somos somente nós a navegar: cada um está a seguir o seu caminho!

Se ainda sofro com a ferida aberta da saudade? Sofro, e choro, e sangro!

Mas é melhor amar e perder que nunca haver sequer amado. É melhor ter uma poetisa somente na memória do que não a ter em canto algum, por antes nunca a haver conhecido... E que privilégio, que privilégio foi a ter conhecido!

De resto, o que sobra? Apenas a selvageria e a compaixão...

Depois de ter-lhe revelado tanto,
O que eu tenho,
Para minha causa?
Para meus prantos?
O que eu toquei,
O que eu senti?
Entre suas muitas faces?
Escondidas dentre mil mentiras?

(...) Depois de procurar todo esse tempo,
O que eu chorei,
O que eu quebrei?
A não ser meu ser incomodado,
A não ser minhas marés de vaidade?
Envoltas por poemas e livros,
Dentre selvageria e compaixão. [4]

***

Outra coisa que passa pela minha mente de vez em quando é uma pergunta estúpida: “Se eu pudesse trocar todo este blog, e tudo o que consegui com ele, pela vida de minha amiga, eu trocaria?”.

Sim, é uma pergunta estúpida e os estoicos também já sabiam disso: há coisas que nos cabe decidir, e há outras, muitas outras, que estão além da nossa capacidade de escolha...

Esta pergunta não tem resposta, pois a Natureza é simplesmente como é, e o tempo, passado ou futuro ou eterno, é apenas este momento e o que fazemos dele...

E eu sei meu amor, que disciplina é liberdade, e compaixão é fortaleza, e ter bondade é ter coragem, e também sei que lá em casa há um poço de águas tão límpidas e cristalinas. Mas, ainda assim, eu trocaria... Se pudesse, trocaria, e nem pensaria muito sobre o assunto.

Como ti, amiga, continuarei buscando. Continuarei buscando... Afinal, ainda é cedo...

Busco um canto
em que todas as crenças,
se consumam,
e todas as raças
se despatriotizem,
e todas as doenças
se extinguam,
e todos os  braços
se encontrem.

Busco um canto
em que a paz
se solidifique,
em que os sábios
não se corrompam,
e que as luzes
jamais apaguem.

Busco um canto
em que toda humanidade
em uníssono,
acompanhe,
e que a melodia,
atravesse séculos
de progressos e sangue,
e nos traga de volta
o dom da eternidade. [5]


Sou poeta e cronista - o lirismo é a amálgama destes dedos, confronta a vicissitude de meus passos. Conheci, desde a infância, o poder incutido na alma das palavras, como moldá-las, seduzindo cada frase, ora liberta e sem destino, repentina, ora trabalhada. Se me privassem de tal dom, necessidade ou vício, decerto enlouqueceria... (Flávia Lopes)  

***

[1] Tempo perdido (trecho), Legião Urbana.

[2] Ainda é cedo (trecho), Legião Urbana.

[3] A conversa (que não houve) (trecho), Rafael Arrais.

[4] Poema sem título (trecho), Flávia Lopes.

[5] Eternidade (trecho), Flávia Lopes.

Um conto por raph’13

***

Crédito das imagens: [topo] Divulgação (Somos tão jovens); [ao longo] Flávio (o último namorado dela, e também meu amigo).

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11.2.12

Play a myth: uma explicação

Faz alguns dias que o blog tem sido infestado por mitos, numa série de imagens que chamei de Play a myth, e que não pareciam ter muita conexão umas com as outras – um mito com o outro –, exceto pelo fato de todas mostrarem, claro, seres mitológicos.

Se eu não comecei a série com um texto introdutório ou explicativo, foi porque simplesmente dessa vez a inspiração chegou de forma bem mais estranha do que o normal. Como alguns devem saber, eu participo de estudos de desenvolvimento mediúnico em um centro espírita ecumênico (ou seja, “aceita” manifestações de incorporação total, umbanda, um pouco de doutrinas orientais, etc.) e, apesar de eu mesmo não incorporar e nem pretender isso algum dia, a minha “fonte de inspiração”, por assim dizer, tem se tornado cada vez mais abrangente e atuante. Há alguns anos, eu precisava buscar ativamente, em meu pensamento e estudos espiritualistas, filosóficos e científicos, sobre o que escrever a seguir neste blog. Mas hoje em dia, pelo contrário, eu preciso é filtrar todas as inspirações que batem minha porta, e busco publicar no blog apenas as mais profundas, na medida do possível, e na medida da minha própria avaliação subjetiva, é claro. Até quando isso vai durar? É uma boa pergunta... Mas, seguindo a minha Verdadeira Vontade, como os ocultistas gostam de dizer, não lido com isso tudo como se fosse algum fardo ou compromisso, pelo contrário: é uma grande e prazerosa brincadeira!

O Textos para Reflexão, antes de ser blog, já era um site que existe na web (inicialmente hospedado na geocities, alguém lembra?) desde meados de 1998 (se não me engano), e surgiu para que eu pudesse expor ao público em geral meus contos e poesias. Era algo simples, mas foi através desse algo simples que conheci a minha atual esposa, e também uma grande amiga e poetisa, a Flávia.

Em 2006 minha grande amiga morreu, passando para o outro lado do véu da via da inspiração... Inicialmente o blog surgiu como uma necessidade minha de voltar a escrever com maior frequência e, também, para publicar alguns poemas meus e alguns poemas dela. Obviamente, o blog tem hoje muitas outras vias de conteúdo e de pensamento. Sinto que a minha amiga também já segue caminhos próprios onde quer que esteja e, portanto, não preciso mais continuar lamentando sua ida (embora a saudade seja o amor que não passa)...

Desde meados de 2010, culminando com a estreia da minha coluna no portal Teoria da Conspiração em 2011, eu que sou um turista de egrégoras, tenho agora também sido visitado por alguns de seus colaboradores que estão do outro lado... Nada assim muito claro, pelo menos por enquanto, mas seria injusto da minha parte eu simplesmente afirmar que tudo o que é publicado nesse blog, que tudo o que chega a minha mente, é fruto apenas de mim mesmo. Na verdade, todo poeta tem esse problema: de saber de onde exatamente sopram os ventos da poesia.

Obviamente que, além disso, o próprio público do meu blog tem crescido e se tornado mais ativo, seja comentando no próprio blog ou através de interações na nossa página do Facebook. E, como digo desde o primeiro post: a reflexão não é somente a minha reflexão (filosófica ou não), ou a sua reflexão, mas a reflexão de todos nós que, por vezes, também influencia diretamente no que eu mesmo escrevo. Apesar de escrever principalmente para “organizar as ideais”, fico feliz de perceber que alguns destes textos que chegam de algum lugar têm conseguido auxiliar alguns daqueles que os leem (inclusive eu).

E foi durante um de meus estudos mediúnicos, em estado de meditação, que a inspiração para esta série chegou de forma inesperada: “vi” (entenda-se: imaginei) a enorme e maravilhosa cabeça de Ganesha, um mito do Hinduísmo, a mover-se lentamente em minha volta, e as palavras “Ganesha Play” apareceram no meu pensamento – com elas, todo o conceito da primeira imagem, e da própria série, já estava pronto e acabado, e eu apenas trouxe isso para esta realidade de bits de informação. Um mito, segundo Joseph Campbell, é algo que nunca existiu, mas que, todavia, existe sempre – este paradoxo pode ser reconciliado da seguinte forma: é óbvio que não existe, na natureza terrestre pelo menos, um ser humano humanoide com uma imensa cabeça de elefante; mas, por outro lado, a iconografia de Ganesha é toda ela um imenso conjunto de símbolos, símbolos estes que existem e sempre existirão, ao menos enquanto existirem mentes com vontade de pensar sobre eles.

Os símbolos nada mais são do que imensas quantidades de informação reduzidas a uma única imagem ou ícone que funciona como uma chave mental para o acesso dessas informações, desde que a pessoa saiba, em seu pensamento, como usar esta chave de uma forma consciente. Você pode perfeitamente substituir a imagem (o símbolo) de Ganesha por uma série de palavras (formadas por conjuntos de símbolos: as letras do alfabeto) a formar uma extensa lista: intelecto, sabedoria, conhecimento, controle dos próprios desejos, força de vontade, refúgio e proteção, realização do verdadeiro eu, auxílio na destruição dos obstáculos da existência atribulada, etc. É claro que, dependendo da interpretação de cada pessoa, e de cada doutrina religiosa, essa lista pode variar imensamente, mas não absolutamente. Ganesha é um conjunto de símbolos, ele serve para que acessemos tais ideias em nosso pensamento, sentimento e intuição, de forma simplificada e cada vez mais potente (o hábito faz o monge).

O grande problema do “uso dos mitos” é quando os entendemos como seres literais (e não metáforas), dispostos a barganhar conosco em troca de “favores espirituais”, “boa sorte”, “boa saúde”, etc. Isso é um problema porque, exatamente, a grande vantagem dos mitos é poder ativar a nossa vontade para que nós mesmos busquemos tais objetivos, que nós mesmos nos tornemos heróis a vivenciar a grande aventura da vida, que nós mesmos nos tornemos, enfim, deuses (“sois deuses, farão tudo o que faço e ainda muito mais” – disse o grande rabi da Galileia [1]). Existe, portanto, um Deus responsável por tudo o que há, e existem todos os outros deuses – alguns em formação, alguns no exercício pleno de seu amor. E os mitos nada mais são do que parte da ponte a ligar uma terra cinzenta, de morte, a uma terra de luz multicolorida, de vida. Talvez auxiliem a manter a ponte de pé durante as tempestades, mas só avançaremos nela com nossa vontade, e nosso amor.

Finalmente, voltando a Ganesha e esta série: somente após ter publicado a imagem de Ganesha é que surgiu a inspiração do mito seguinte, Yeshua, e assim por diante, até que eu tivesse chegado no sexto mito, e tivesse compreendido que estava, afinal, a escolher os seis patronos deste blog [2]. Agora, além do torii (um portal, símbolo xintoísta que também é símbolo deste blog) por onde todos são convidados a adentrar neste jardim de reflexões, surgem seis deuses, seis mitos, seis grandiosos símbolos entalhados em menires de pedra, arrastados sabe-se lá de onde até a longa planície de grama verde a saudar o sol. E são eles:


Ganesha
Representando a atividade intelectual, a razão conectada ao Cosmos, a busca pela filosofia e pela ciência livres de ideias preconcebidas, a fé irmanada à razão, o crer para compreender e o compreender para crer.

Yeshua
Representando o grande sábio, e não algum messias que veio sangrar por nossos supostos pecados. O maior exemplo de amor, compaixão e comunhão com o Cosmos que nossa mitologia registrou. O sol que atravessou invicto a noite escura de todas as almas.

Iemanjá
Representando o sentir além do que se é capaz de racionalizar, a beleza e a fecundidade dos mares e de todos os seres femininos, a poesia abrangente a nos cercar como uma ilha de náufragos é cercada pelo mar.

Gandalf
Representando a magia, o ocultismo e o grande chamado do Infinito para que sigamos sempre em busca do próximo horizonte. A aventura derradeira, a primeira aventura, a aventura sem fim. Os seres de cima que vem trabalhar nos territórios de baixo.

La Santa Muerte
Representando a transitoriedade e impermanência, a embarcação que mais dia menos dia atracará no porto de cada alma, e que deve ser aguardada conforme os estoicos recomendaram. O renascimento vindouro, e a possibilidade de que uma nova vida, e um novo pensamento, surjam sempre.

Maitreya
Representando a grande renovação espiritual que todos ansiamos sempre. O chegar para buscar e o buscar para chegar. As crianças que não vem de nós, mas através de nós, na ânsia da vida por si mesma. O novo que, a despeito dos conservadores e aqueles de mente fechada, sempre virá.


Jogue, represente, interprete, brinque: play a myth

Obs: está série irá continuar, com imagens de outros mitos, apenas os próximos não farão parte deste grupo de patronos acima.

***

[1] João 10:34; João 14:12 (NT).

[2] Eu espero que, a essa altura, você compreenda perfeitamente que eu não estou a criar uma estranha religião politeísta, mas apenas agregando simbologia a um blog.

» Ver todos os posts da série Play a myth


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16.8.11

Café com poesia

Nem sempre gostei de café
Mas nos últimos tempos tenho apreciado
Xícaras após o desjejum
Não sei que tempos...

Às vezes, amiga, nada é o que é,
E tudo que temos ansiado
Reduz-se a tantos e tantos momentos
Que se tornam apenas um

Pegue as atendentes, por exemplo:
Algumas são mais carinhosas
Mas outras tiram um expresso sem igual
Às vezes, quando quero conversar,
Não me importo do café estar aguado
Mas noutras, quero apenas o melhor aroma,
O melhor café –
A nada dou a devida atenção
Nada é o que é...

Nem sempre gostei de café
Mas num dia li nalgum lugar que fazia bem
E desde então a cada bebericada
Tenho me sentido mais poético!

Mas, amiga, você que é poeta deve saber...
Na verdade o café ajuda a evitar infarto
Em quem está farto é de viver

E, mesmo, assim, há apenas uma chance,
Uma porcentagem
Uma incerta indefinição:
Da vida se fartar, ou infartar,
Eis a questão...

Eu não sei em que medida o café me ajudou
A ser mais poeta
Com qual matemática
Tem me auxiliado a tocar n’alma alheia
Mas sei que nunca fui tão poeta
Nunca fui tão eu mesmo
Quanto quando estava contigo
E o mundo todo estava alheio...

Nem sempre gostei de café
Mas será que foi ele quem me tornou mais poeta
Ou fui eu quem, acreditando nisso,
Não me importei de expor-me em verso?

Sei que hoje, amiga, uns tem me chamado assim:
De poeta
De conhecedor d’alma alheia
Mas como posso conhecer a alma de alguém
Senão da mesma forma que te conheci
E a trouxe para dentro de mim mesmo?

Se eu sou poeta, isso também é por sua causa,
E de todos os seus versos que adentraram minh’alma
E de todas as conversas sem sentido
E de todas as xícaras de café que não tomamos
Pois a poesia, como o amor, não faz sentido,
Nem se mede em porcentagens
Mas, de alguma forma sabemos,
Bem lá no fundo
Que ela é tudo que é


Para Flávia...

raph'11

***

Crédito da foto: Kerrick James/Corbis

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19.1.11

A saudade e a eternidade

Estes poemas dizem respeito aquele sentimento que nos ocorre quando subitamente sentimos falta dos momentos doces perdidos no passado, mas também dizem respeito a nossa lembrança da eternidade que jaz presente nessa persistente saudade do que ainda virá...

Saudades do verão

Os poetas tem esse dom
De deixar tanta saudade quando se vão
Mas não deixa de ser saudade boa
Por mais que doa
Por mais que por ora deságue
Como chuva de verão

Melhor amar e sentir a tudo isso, então,
Tudo isso que cascas de sentimento
Palavras, conjuntos de signos,
Jamais nos explicarão

Melhor amar e perder
Que nunca haver sequer amado
Melhor assim envelhecer
Que nunca haver sequer vivido

Que se a morte é a derradeira estação
Aos poetas, e aos amigos dos poetas,
Resta tão somente esse alento
De lembrar, de sentir, de saudar,
Esse amor, essa saudade,
Que pela pele nos arde
Como os primeiros raios de sol
Do próximo verão

Rafael Arrais, 2011


Eternidade

Busco um canto
em que todos os povos
se reconheçam,
e todas as vozes
se identifiquem,
e todos os olhos
se substantivem,
e todas as cores
se materializem.

Busco um canto
em que todas as crenças,
se consumam,
e todas as raças
se despatriotizem,
e todas as doenças
se extinguam,
e todos os  braços
se encontrem.

Busco um canto
em que a paz
se solidifique,
em que os sábios
não se corrompam,
e que as luzes
jamais apaguem.

Busco um canto
em que toda humanidade
em uníssono,
acompanhe,
e que a melodia,
atravesse séculos
de progressos e sangue,
e nos traga de volta
o dom da eternidade.

Flavia Lopes, (talvez) algum lugar entre 1998 e 2006

***

Crédito da foto: Dircinha

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1.4.09

Poemas de amigos

Estive de férias (inclusive do blog) e andei pensando em retornar a aventura de se escrever um livro. Porisso talvez não consiga manter o mesmo ritmo de postagens dos últimos meses... No entanto, sempre posso contar com pérolas que andei guardando em meu caminho, estas vieram de amigos meus, uns desencarnados, outros ainda encarnados:

Ilusionismo

O sol deita-se
sobre o cimento frio,
e a calçada,
aos poucos,
consome-se e arde,
em invisíveis chamas
de silêncios roucos.

Há uma luz coberta
de lírios mortos,
e línguas secas.
Há um profundo
rumor de ventos e almas.

Levante-se.
Que há neste teu sono
corroído por mortes
anunciadas?
O que encontra-se
neste vazio calmo,
que calcina tua alma?

E esta tenda
de sombras,
que insiste
em manter-se estática.
E estas mãos,
estas mãos sem toque.

O que existe
entre tu e teu sonho?
Que mórbida insânia
te conduz,
por entre restos
de ossos e mágoas?

Ah, e este caminho,
este caminho eterno,
em que seguem
meus pés cansados.

- este profundo rumor,
de ventos e almas.

Flavia Lopes, 1999

Ao Amigo, Nosso Trabalho

Se um dia me perguntares se a vida
É uma jornada válida pelas trevas,
Perguntaria se, nessa tragetória sofrida,
o homem é esperto suficiente, dentre as rélvas,
Para, no amor, aprender o que aprende na dor?

Todos nós choramos e depois sorrimos,
E choramos por mais um vez,
Dentro dessa nave louca, onde vimos
A morte nos sorrir, como um Cortéz,
no derradeiro dia, no Cabo da Boa Esperança.

Lutemos pela paz entre os irmãozinhos.
E se viver é morrer a cada instante,
Entregamo-nos, então, à eternidade.
Mas se viver é sofrer na escuridão,
Entregamo-nos de corpo e alma à caridade.

Otávio Fossá

***

Crédito da foto: Luca Vezzoni

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29.7.08

Dentre selvageria e compaixão

After telling you so much,
What do I have,
For my own sake?
For my own cries?
What have I touched,
What have I felt?
Amidst your many faces?
Hidden in thousand lies?

After wondering so much,
What have I seen,
With my own eyes?
By my own words?
What have I learned,
What have I found?
Trapped in years of waiting,
Drowned in phrases and rhymes?

After searching for so long,
What have I cried,
What have I broken?
Unless my troubled self,
Unless my vanity tides?
Surrounded by poems and books,
Amongst savageness and kind.

Untitled poem by Flávia Lopes

***

Depois de ter-lhe revelado tanto,
O que eu tenho,
Para minha causa?
Para meus prantos?
O que eu toquei,
O que eu senti?
Entre suas muitas faces?
Escondidas dentre mil mentiras?

Depois de refletir tanto,
O que eu vi,
Com meus próprios olhos?
Por minhas palavras?
O que eu aprendi,
O que eu encontrei?
Trancafiado em anos de espera,
Afogado em frases e rimas?

Depois de procurar todo esse tempo,
O que eu chorei,
O que eu quebrei?
A não ser meu ser incomodado,
A não ser minhas marés de vaidade?
Envoltas por poemas e livros,
Dentre selvageria e compaixão.

Poema sem título por Flávia Lopes, tradução de Rafael Arrais

***

A conversa (que não houve)

Já se perguntou, amiga, o que aqui fazemos?
Nesse telhado, de frente para o luar,
E os espaços infinitos entre as estrelas,
E os espaços finitos entre todos nós...
Já se perguntou, alguma vez,
O que será que estamos a observar?

Se dias e noites de transeuntes da cidade,
Ou noites e dias de gatos a pular, telha a telha,
Nos lençóis da madrugada.
Onde não existe tempo, não existe idade,
Mas somente a brisa noturna
A acalentar toda alma soturna...

Será que importa o preço do barril?
A nova tendência da moda praia?
O novo artilheiro da varsea?
Será que tudo não passa de uma grande brincadeira?
Ardil de anjos arteiros
Que mesmo nas noites de luar
Gargalham, incontroláveis, até a alegria findar?

E quem cai na armadilha de acreditar
Que somos apenas cidadãos de tal nação,
Trabalhadores orgulhosos de tal corporação,
Fiéis de alguma ou qualquer religião...
Espera sempre pelo céu que há no porvir,
Mas nunca, nunca se prepara,
Para qualquer frustração que há de vir...

Será que existe o telhado?
Será que existe essa conversa?
Será que existem gatos a pular?
Ou, antes de tudo isso,
Existem amigos, e amizades,
Existem seres conscientes de si,
E consciências etéreas, esvoaçantes...
Indetectáveis senão pelo amor, e pela dor,
De observar ao mais belo luar
Sem ter minha amiga para conversar?

raph'08

***

Para Flávia.

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24.7.07

Matéria

Nada voltará a ser como antes.
Nada, nem mesmo os rios,
mantém o seu curso constante
em direção ao mar.
As estrelas nunca brilham
no mesmo lugar no céu
e a lua sempre se renova,
como as estações do ano.

Nada, nunca, será como antes.
Assim como as pessoas que declinam
jamais são as mesmas que se levantam,
a terra seca, calcinada
jamais voltará a ser fértil,
e o sonho desfeito
nunca será transformado em realidade.

Assim como a juventude
dá lugar à velhice;
assim como a beleza
transforma-se em espiritualidade,
também a alma se renova.
E sempre,
na mesma inconstância,
a vida se transforma.

Flávia Lopes (entre 1998 e 2001 aproximadamente)

***

Em homenagem a minha amiga que anda se renovando numa casa agora distante. Força e luz para você. Saiba que, assim que possível, gostaria de passar um sonho a conversar contigo, como nos agora velhos tempos...

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28.11.06

Olhos de gato

Estaria tua beleza perdida, minha amiga?
Ou antes espalhada pelas telhas e parapeitos da madrugada
A bailar para a lua, e cantarolar para a noite?
Seriam os cânticos e miados que ouço despercebidamente
A prova de que nas cidades etéreas
Já estais com tua pena a escrever doces poemas?

E quanto a esses felinos maravilhosos?
A cor de seu pelo brilha ainda mais com a aurora,
Seus movimentos precisos lembram as passadas de Hermes,
E em verdade não há nesse mundo nada mais enigmático que seus olhos!
Será que, como a rainha egípcia,
Você também agora os cria em seu templo de amor?

Mesmo essa saudade, que arde como um corte ainda aberto
Não poderia ser amenizada pela lembrança
De que em cada moita, telhado ou degrau
Há pegadas de teus filhos tão amados?

Pois tudo que hoje almejo
É olhar bem profundo
No próximo par de olhos de gato que encontrar
E fitando-os, tentar achar a porta
Que leva as escadarias de tua torre, minha amiga
Pois que ainda sinto essa falta tão amarga
De nossas conversas, nossas brincadeiras
E de gatos a pular

raph'06

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Escrevi essa poesia em homenagem a minha melhor amiga, Flávia, que desencarnou nesse ano, e também a minha gata Xica, que sumiu de casa pouco depois. Muito embora tenho certeza de que ambas estão bem, já estamos com outra gata (Júlia), e uma das razões que pensei em começar esse blog foi para preencher o vazio de não ter mais uma poeta para conversar... E vamos em frente!

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