Parte da série “Entre a esquerda e a direita”, onde Alfredo Carvalho e Igor Teo responderam minhas perguntas, e agora estou comentando os assuntos abordados. Para conhecer mais sobre a proposta da série e seus participantes, não deixe de ler nossa apresentação.
O futuro em primeiro lugar
Recentemente assisti o programa Clube dos Correspondentes na GloboNews, onde três jornalistas correspondentes de outras partes do mundo falavam sobre suas impressões acerca das manifestações do dia 15/03/15, e de como a crise política brasileira era vista no exterior.
Uma das correspondentes era Lotten Collin, jornalista de uma rádio sueca. Tendo coberto in locco as manifestações em Copacabana, no Rio de Janeiro, ela me pareceu ter uma opinião muito embasada acerca do que viu por lá:
“O que era muito impressionante para mim é que tinha algumas pessoas pedindo intervenção militar. E eram jovens, que nem sabem como foi a época da Ditadura.”
Que este tipo de pessoas, ainda que minoria, estivessem em uma manifestação democrática, que na quase totalidade criticava a gestão do atual governo, não pareceu algo absurdo somente para Collin, mas para boa parte dos analistas políticos do país, sejam eles alinhados a ideais de esquerda ou de direita. Afinal, só se faz Política numa democracia, numa Ditadura o que vale é a opinião de quem tomou o poder à força.
Ora, é exatamente para não chegarmos a esse ponto que devemos exercitar a Política, a verdadeira, que é basicamente a arte do diálogo entre ideologias e ideias contrárias, visando sempre o melhor consenso possível, para que todo um país caminhe à frente, tanto economicamente quanto socialmente, sem deixar de ouvir as opiniões e as demandas de seus grupos e setores sociais e ideológicos, sejam eles minoritários ou majoritários. Exigir a intervenção de uma força armada, para que “a sua opinião do que é o melhor para o país prevaleça”, é exatamente a receita para a não-política, o não-diálogo, o desastre completo...
O que pretendi, ao convidar para esta série dois genuínos pensadores a esquerda e a direita, que certamente entendem muito mais de Política do que eu, foi precisamente demonstrar o quanto os verdadeiros embates se dão no campo das ideias, e que sempre que saímos deste campo para o campo do embate pessoal, é a Política que sai perdendo, é o país como um todo que perde. Imaginem se as nossas eleições trouxessem debates tão civilizados como este que ocorreu ao longo das respostas e dos comentários desta série – daí já estaríamos na Suécia [1].
Voltemos ao relato de Collin:
“Eu senti que as pessoas entrevistadas tinham queixas reais, sobre a economia, a política, a corrupção, a qualidade dos serviços públicos... Mas em geral eram muito emocionais, não sabiam explicar exatamente qual era o problema. Por exemplo: ninguém fala dos problemas mais concretos da economia, como o papel do BNDES na Copa e noutros momentos, que nunca está muito claro. Elas querem os corruptos na cadeia, mas isso é exatamente o que já vem ocorrendo, os processos judiciais que podem prender muitos corruptos estão ocorrendo neste momento... Eu achei o protesto um pouco superficial.”
Para uma sueca, acostumada com altos níveis de escolaridade, civilidade e, particularmente, politização de sua população, deve ter sido realmente um choque constatar o quanto ainda estamos no início deste longo caminho, que infelizmente ainda pode levar gerações, mas que não obstante precisa ser trilhado, e cada passo dado há que ser comemorado.
Mas, enquanto não chegamos lá, vale considerar com muito carinho o que Collin considerou “a principal lição que o Brasil tem a aprender com a Suécia”, já ao final de sua participação no programa:
“Nesse momento na Suécia há uma negociação entre a direita e a esquerda, porque a eleição de setembro [2014] teve um resultado muito apertado, com margem muito pequena entre os dois principais blocos políticos... Bem, isso seria uma coisa boa para ocorrer aqui no Brasil também.”
De fato, o ambiente político sueco, normalmente estável, entrou em convulsão em dezembro [2014], quando o primeiro-ministro Stefan Lofven disse que planejava voltar às urnas após seu orçamento ter sido rejeitado pela oposição de centro-direita e os democratas suecos. Lá o principal debate se dá no âmbito das leis imigratórias, e do custo da imigração para os cofres públicos. O atual governo, de centro-esquerda, conseguiu costurar um acordo de até 8 anos com a oposição, de centro-direita, para garantir que a extrema direita, grande crítica da imigração, não “travasse” o país ao criar entraves para a aprovação do orçamento de 2015.
Segundo Lofven, “o acordo é um jeito de mostrar que nós tomamos responsabilidade por garantir que a Suécia possa ser governada; que colocamos o futuro do país em primeiro lugar”.
Enquanto isso, aqui em nossas terras tropicais, a nossa noção de “governabilidade” se resume praticamente a “agradar o PMDB”... Ainda falta muito para chegarmos a ser uma Suécia tropical. Mas, será que tal ideia já não seria uma ilusão a priori?
A Suécia tropical
Esta expressão curiosa foi cunhada por Roberto Mangabeira Unger, filósofo brasileiro respeitado em todo o mundo, e atual ministro de assuntos estratégicos. Ele a criou como forma de crítica ao que considera “uma ilusão perigosa”:
“A Suécia real passou por décadas de luta sobre o acesso ao poder político e as oportunidades econômicas. Depois, ao final, veio a organização de políticas sociais. Nós queremos ter o epílogo sem ter a narrativa anterior. Isto é a Suécia tropical. Nós temos uma vida política viciada nesta retórica barata. Os dois partidos que se tem na conta de modernos no Brasil, PT e PSDB, são as duas vertentes, as duas vozes desta ideia. O que se dá como moderno no Brasil é na verdade retrógrado. Para mudar, teríamos de romper com isto.”
De fato, se hoje o modelo econômico dos países escandinavos (norte europeu) é aquele que atinge os maiores índices de desenvolvimento humano, tal conquista não se deu de um ano para o outro, tampouco pela mera decisão política de um ou outro governante.
Nas décadas de 1970 e 1980 eles eram, em geral, estados inchados, com altos impostos e baixa competitividade, embora já dessem grande importância para o aspecto social. A guinada que os alçou ao pedestal de “modelo a ser seguido” veio nas últimas décadas...
Para começar, os estados racionalizaram seus gastos e criaram as mais fantásticas políticas de transparência do mundo, permitindo à população fiscalizar seus governantes e reduzir a gastança. Na Suécia, políticos de alto escalão moram em quitinetes, lavam a própria louça e usam transporte público ou bicicleta. Além disso, a burocracia caiu quase a zero e esses países viraram paraísos do empreendedorismo, de fazer inveja ao Vale do Silício com suas histórias de sucesso (Skype, Angry Birds, Spotify etc.).
Mas isso foi feito sem sucatear o estado nem prejudicar a população. As reformas do estado foram feitas com um objetivo claro: manter a qualidade do serviço público, ou, se possível, aumentá-la. Essa lógica ajuda a entender o que aconteceu com a saúde e a educação pública nesses países. O governo continua atuando, provendo serviços de qualidade, mas empresas privadas também podem entrar na competição. Os cidadãos recebem do governo vouchers de saúde e educação e podem decidir usá-los em escolas e hospitais públicos ou privados. Na Escandinávia, o estado continua grande, mas uma coisa fundamental mudou: ele agora funciona [2].
Se começássemos agora, talvez em 20 a 30 anos conseguíssemos chegar perto do estágio atual da Suécia e seus vizinhos. Mas então não seríamos uma Suécia tropical, mas quem sabe, finalmente, o país do futuro...
Segundo Mangabeira, o modelo de redistribuição de renda do socialismo brasileiro não se sustenta por muito tempo com o atual sistema tributário e somente com programas sociais voltados para as camadas mais pobres. É um contrassenso, realmente, crer que somente programas como o Bolsa Família, embora vitais, possam resolver a equação das injustiças sociais do país. Ainda falaremos mais sobre isso, mas não faz o menor sentido distribuir bolsas de um lado, enquanto de outro temos talvez o sistema tributário mais injusto do mundo, fortemente ancorado em impostos indiretos, que independem da renda. Vivemos no país onde um milionário paga exatamente o mesmo imposto que um miserável quando vai ao supermercado comprar um quilo de arroz ou feijão.
Mangabeira também nos dá sua receita para que um dia cheguemos a ser “uma Suécia”:
“O binômio perverso – juros altos, câmbio baixo – deve ser substituído pelo binômio virtuoso – juros baixos, câmbio alto. A condição para isso é reduzir drasticamente o gasto público, sem deixar de pagar os juros da dívida pública. Essa mudança deve ser combinada com reforma tributária que extraia renda dos endinheirados para financiar uma política social compensatória, dirigida aos brasileiros mais pobres. Afora isso, basta educar o povo e melhorar a eficiência do governo. O mercado e o social produzirão juntos a Suécia tropical.”
Temos certa dificuldade em situar pensadores como Mangabeira Unger “a esquerda ou a direita”. Penso que isso também ocorra com muitos outros analistas políticos e econômicos de ideias mais profundas, e até mesmo com alguns políticos... Não quer dizer que os centristas sejam “superiores”, quer dizer que talvez a rotulação costumeira de esquerdista ou direitista seja bidimensional, em suma, pobre demais.
No fundo, a única boa Política possível é a que é conduzida tendo sempre em vista não somente dois lados, mas todos os lados.
» Em breve, falaremos sobre bois e diagramas...
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[1] Em nome dos participantes "oficiais" da série, Alfredo Carvalho e Igor Teo, agradeço a todos os que comentaram, tanto no blog quanto no Facebook, e tornaram o debate mais aprofundado e produtivo. Alguns de vocês vão perceber que também estou levando em consideração seus comentários ao longo do restante da série... Claro que os textos continuarão online, de modo que qualquer um ainda pode adicionar comentários em qualquer parte desta série.
[2] Os dois últimos parágrafos foram retirados do excelente artigo de Denis Russo Burgierman, diretor de redação da Superinteressante: A maldição do esquerdo-direitismo.
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Crédito da foto: Marcos de Paula/Estadão
Marcadores: Brasil, economia, Entre a esquerda e a direita, GloboNews, Mangabeira Unger, política, Suécia