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1.2.17

Jorge Pontual recita Walt Whitman

Jorge Pontual é um dos jornalistas mais bacanas do mundo. Além de ser especialista em relações internacionais, ciências sociais, divulgação científica e bactérias, também parece ter sido o principal responsável por trazer ao programa GloboNews em Pauta um quadro semanal onde, vejam só, traduz e recita poemas de grandes poetas da história.

Desta vez ele nos presenteou com um belo poema de Walt Whitman, poeta americano:

(clique na imagem para abrir o vídeo no site da GloboNews)

***

[Nós dois por tanto tempo fomos enganados]

Nós dois por tanto tempo fomos enganados
Agora transmutados, escapamos depressa como a natureza escapa
Somos a natureza

Estivemos ausentes, agora voltamos
Viramos plantas, folhas, folhagem, raízes, casca
Mergulhados no chão, somos rochas
Somos carvalhos, crescemos lado a lado
Pastamos, somos dois, nos rebanhos selvagens
Espontâneos como qualquer um

Somos peixes, nadando no mar juntos
Somos cachos de flores, derramamos perfumes
Nos caminhos, manhã e tarde

Somos a sujeita nas bestas, nos vegetais, nos minerais
Somos dois falcões predadores
Voamos alto, olhando para baixo

Somos dois sóis resplandecentes
Nos equilibramos, orbitais estelares
Somos dois cometas

Caçamos com garra e quatro patas na mata
Damos bote na presa
Somos duas nuvens, manhã e tarde
Pairando alto

Somos mares se encontrando
Somos duas ondas alegres, rolando uma na outra
Molhando um ao outro

Somos a atmosfera, transparente, receptiva
Penetrável, e impenetrável
Somos neve, chuva, frio, escuridão

Somos cada um produto e fluência do planeta
Circulamos e circulamos
E chegamos em casa de novo
Nós dois
Esvaziamos tudo
Menos a liberdade
Menos o nosso gozo


Walt Whitman (tradução de Jorge Pontual)


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10.9.15

Jorge Pontual recita Rumi outra vez

Jorge Pontual é um dos jornalistas mais bacanas do mundo. Além de ser especialista em relações internacionais, ciências sociais, divulgação científica e bactérias, também parece ter sido o principal responsável por trazer ao programa GloboNews em Pauta um quadro semanal onde, vejam só, recita poemas de grandes poetas da história.

Por isso tudo ele já merecia a nossa admiração. Mas quando resolveu recitar Jalal ud-Din Rumi, então passou definitivamente a merecer o nosso amor...

Jorge Pontual recita Rumi no GloboNews em Pauta

(clique na imagem para abrir o vídeo no site da GloboNews)

***

[Nem cristão, ou judeu, ou muçulmano]

Nem cristão, ou judeu, ou muçulmano,
nem hindu, budista, sufi ou zen;
nenhuma religião ou sistema cultural;
eu sou nem do leste nem do oeste,
nem do oceano nem do chão,
nem natural ou etéreo,
nem composto de elementos;
eu não existo.

Não sou uma entidade
neste mundo ou no próximo,
nem descendo de Adão e Eva
ou qualquer história de origem;
meu lugar é o sem lugar,
um rastro do sem rastro...

Nem corpo nem alma,
pertenço ao Amado.
Vi os dois mundos como um só,
e esse "um", chamo e conheço;
primeiro, último,
fora, dentro,
só este respirar de ser humano...


Jalal ud-Din Rumi (tradução de Jorge Pontual)


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10.7.15

Neruda, Pontual e a poesia

Jorge Pontual é um dos jornalistas mais bacanas do mundo. Além de ser especialista em relações internacionais, ciências sociais, divulgação científica e bactérias, também parece ter sido o principal responsável por trazer ao programa GloboNews em Pauta um quadro semanal onde, vejam só, recita poemas de grandes poetas da história.

Desta vez ele nos presenteou com uma primorosa tradução do poeta chileno Pablo Neruda:

Jorge Pontual recita Pablo Neruda

(clique na imagem para abrir o vídeo no site da GloboNews)

***

[A poesia]

E foi nessa idade,
chegou a poesia para me buscar...

Não sei, não sei de onde saiu,
de inverno ou rio,
não sei quando nem como...

Não, não eram vozes,
não eram palavras, nem silêncio;
mas de uma rua, me chamava...

Dos ramos da noite,
de repente entre os outros,
entre fogos violentos,
ou voltando sozinho,
ali estava, sem rosto,
e me tocava...

Eu não sabia o que dizer,
minha boca não sabia dar nome,
meus olhos estavam cegos,
e algo me golpeava a alma...

Febre? Ou asas perdidas?

E fui ficando só,
decifrando aquela queimadura,
e escrevi a primeira linha vaga;
vaga, sem corpo, pura tontice!
Pura sabedoria
de quem não sabe nada...

E vi de repente o céu,
descascado e aberto,
planetas, plantações palpitantes,
a sombra perfurada,
crivada por flechas, fogo e flores.
A noite avassaladora,
o universo...

E eu, mínimo ser,
ébrio do grande vazio constelado,
a semelhança, a imagem do mistério,
me senti parte pura do abismo,
rodei com as estrelas,
meu coração se desatou no vento...


Pablo Neruda (tradução de Jorge Pontual)


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28.5.15

Jorge Pontual e a poesia de Rumi

Jorge Pontual é um dos jornalistas mais bacanas do mundo. Além de ser especialista em relações internacionais, ciências sociais, divulgação científica e bactérias, também parece ter sido o principal responsável por trazer ao programa GloboNews em Pauta um quadro semanal onde, vejam só, recita poemas de grandes poetas da história.

Por isso tudo ele já merecia a nossa admiração. Mas quando resolver recitar Jalal ud-Din Rumi, então passou definitivamente a merecer o nosso amor [1]...

Jorge Pontual recita Rumi no GloboNews em Pauta

(clique na imagem para abrir o vídeo no site da GloboNews)

***

[Morri como mineral]

Morri como mineral,
e tornei-me planta.
Morri como planta,
e surgi como animal.
Morri como animal,
e sou humano...

Por que ter medo?
O que perdi ao morrer?

Mas de novo vou morrer como humano,
para voar com os anjos, abençoado.

E mesmo como anjo, terei de morrer.
Todos perecem, menos Deus...

Quando eu tiver sacrificado
a minha alma de anjo,
me tornarei
o que a mente sequer concebe!

Ah! Que eu não exista!
Pois a não-existência proclama,
como um órgão,
que para Ele voltaremos.


Jalal ud-Din Rumi (tradução de Jorge Pontual)

***

[1] E olhem que não é a primeira vez que ele recita Rumi neste programa...

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2.4.15

Entre a esquerda e a direita: os comentários (parte 1)

Parte da série “Entre a esquerda e a direita”, onde Alfredo Carvalho e Igor Teo responderam minhas perguntas, e agora estou comentando os assuntos abordados. Para conhecer mais sobre a proposta da série e seus participantes, não deixe de ler nossa apresentação.

O futuro em primeiro lugar
Recentemente assisti o programa Clube dos Correspondentes na GloboNews, onde três jornalistas correspondentes de outras partes do mundo falavam sobre suas impressões acerca das manifestações do dia 15/03/15, e de como a crise política brasileira era vista no exterior.

Uma das correspondentes era Lotten Collin, jornalista de uma rádio sueca. Tendo coberto in locco as manifestações em Copacabana, no Rio de Janeiro, ela me pareceu ter uma opinião muito embasada acerca do que viu por lá:

“O que era muito impressionante para mim é que tinha algumas pessoas pedindo intervenção militar. E eram jovens, que nem sabem como foi a época da Ditadura.”

Que este tipo de pessoas, ainda que minoria, estivessem em uma manifestação democrática, que na quase totalidade criticava a gestão do atual governo, não pareceu algo absurdo somente para Collin, mas para boa parte dos analistas políticos do país, sejam eles alinhados a ideais de esquerda ou de direita. Afinal, só se faz Política numa democracia, numa Ditadura o que vale é a opinião de quem tomou o poder à força.

Ora, é exatamente para não chegarmos a esse ponto que devemos exercitar a Política, a verdadeira, que é basicamente a arte do diálogo entre ideologias e ideias contrárias, visando sempre o melhor consenso possível, para que todo um país caminhe à frente, tanto economicamente quanto socialmente, sem deixar de ouvir as opiniões e as demandas de seus grupos e setores sociais e ideológicos, sejam eles minoritários ou majoritários. Exigir a intervenção de uma força armada, para que “a sua opinião do que é o melhor para o país prevaleça”, é exatamente a receita para a não-política, o não-diálogo, o desastre completo...

O que pretendi, ao convidar para esta série dois genuínos pensadores a esquerda e a direita, que certamente entendem muito mais de Política do que eu, foi precisamente demonstrar o quanto os verdadeiros embates se dão no campo das ideias, e que sempre que saímos deste campo para o campo do embate pessoal, é a Política que sai perdendo, é o país como um todo que perde. Imaginem se as nossas eleições trouxessem debates tão civilizados como este que ocorreu ao longo das respostas e dos comentários desta série – daí já estaríamos na Suécia [1].

Voltemos ao relato de Collin:

“Eu senti que as pessoas entrevistadas tinham queixas reais, sobre a economia, a política, a corrupção, a qualidade dos serviços públicos... Mas em geral eram muito emocionais, não sabiam explicar exatamente qual era o problema. Por exemplo: ninguém fala dos problemas mais concretos da economia, como o papel do BNDES na Copa e noutros momentos, que nunca está muito claro. Elas querem os corruptos na cadeia, mas isso é exatamente o que já vem ocorrendo, os processos judiciais que podem prender muitos corruptos estão ocorrendo neste momento... Eu achei o protesto um pouco superficial.”

Para uma sueca, acostumada com altos níveis de escolaridade, civilidade e, particularmente, politização de sua população, deve ter sido realmente um choque constatar o quanto ainda estamos no início deste longo caminho, que infelizmente ainda pode levar gerações, mas que não obstante precisa ser trilhado, e cada passo dado há que ser comemorado.

Mas, enquanto não chegamos lá, vale considerar com muito carinho o que Collin considerou “a principal lição que o Brasil tem a aprender com a Suécia”, já ao final de sua participação no programa:

“Nesse momento na Suécia há uma negociação entre a direita e a esquerda, porque a eleição de setembro [2014] teve um resultado muito apertado, com margem muito pequena entre os dois principais blocos políticos... Bem, isso seria uma coisa boa para ocorrer aqui no Brasil também.”

De fato, o ambiente político sueco, normalmente estável, entrou em convulsão em dezembro [2014], quando o primeiro-ministro Stefan Lofven disse que planejava voltar às urnas após seu orçamento ter sido rejeitado pela oposição de centro-direita e os democratas suecos. Lá o principal debate se dá no âmbito das leis imigratórias, e do custo da imigração para os cofres públicos. O atual governo, de centro-esquerda, conseguiu costurar um acordo de até 8 anos com a oposição, de centro-direita, para garantir que a extrema direita, grande crítica da imigração, não “travasse” o país ao criar entraves para a aprovação do orçamento de 2015.

Segundo Lofven, “o acordo é um jeito de mostrar que nós tomamos responsabilidade por garantir que a Suécia possa ser governada; que colocamos o futuro do país em primeiro lugar”.

Enquanto isso, aqui em nossas terras tropicais, a nossa noção de “governabilidade” se resume praticamente a “agradar o PMDB”... Ainda falta muito para chegarmos a ser uma Suécia tropical. Mas, será que tal ideia já não seria uma ilusão a priori?


A Suécia tropical
Esta expressão curiosa foi cunhada por Roberto Mangabeira Unger, filósofo brasileiro respeitado em todo o mundo, e atual ministro de assuntos estratégicos. Ele a criou como forma de crítica ao que considera “uma ilusão perigosa”:

“A Suécia real passou por décadas de luta sobre o acesso ao poder político e as oportunidades econômicas. Depois, ao final, veio a organização de políticas sociais. Nós queremos ter o epílogo sem ter a narrativa anterior. Isto é a Suécia tropical. Nós temos uma vida política viciada nesta retórica barata. Os dois partidos que se tem na conta de modernos no Brasil, PT e PSDB, são as duas vertentes, as duas vozes desta ideia. O que se dá como moderno no Brasil é na verdade retrógrado. Para mudar, teríamos de romper com isto.”

De fato, se hoje o modelo econômico dos países escandinavos (norte europeu) é aquele que atinge os maiores índices de desenvolvimento humano, tal conquista não se deu de um ano para o outro, tampouco pela mera decisão política de um ou outro governante.

Nas décadas de 1970 e 1980 eles eram, em geral, estados inchados, com altos impostos e baixa competitividade, embora já dessem grande importância para o aspecto social. A guinada que os alçou ao pedestal de “modelo a ser seguido” veio nas últimas décadas...

Para começar, os estados racionalizaram seus gastos e criaram as mais fantásticas políticas de transparência do mundo, permitindo à população fiscalizar seus governantes e reduzir a gastança. Na Suécia, políticos de alto escalão moram em quitinetes, lavam a própria louça e usam transporte público ou bicicleta. Além disso, a burocracia caiu quase a zero e esses países viraram paraísos do empreendedorismo, de fazer inveja ao Vale do Silício com suas histórias de sucesso (Skype, Angry Birds, Spotify etc.).

Mas isso foi feito sem sucatear o estado nem prejudicar a população. As reformas do estado foram feitas com um objetivo claro: manter a qualidade do serviço público, ou, se possível, aumentá-la. Essa lógica ajuda a entender o que aconteceu com a saúde e a educação pública nesses países. O governo continua atuando, provendo serviços de qualidade, mas empresas privadas também podem entrar na competição. Os cidadãos recebem do governo vouchers de saúde e educação e podem decidir usá-los em escolas e hospitais públicos ou privados. Na Escandinávia, o estado continua grande, mas uma coisa fundamental mudou: ele agora funciona [2].

Se começássemos agora, talvez em 20 a 30 anos conseguíssemos chegar perto do estágio atual da Suécia e seus vizinhos. Mas então não seríamos uma Suécia tropical, mas quem sabe, finalmente, o país do futuro...

Segundo Mangabeira, o modelo de redistribuição de renda do socialismo brasileiro não se sustenta por muito tempo com o atual sistema tributário e somente com programas sociais voltados para as camadas mais pobres. É um contrassenso, realmente, crer que somente programas como o Bolsa Família, embora vitais, possam resolver a equação das injustiças sociais do país. Ainda falaremos mais sobre isso, mas não faz o menor sentido distribuir bolsas de um lado, enquanto de outro temos talvez o sistema tributário mais injusto do mundo, fortemente ancorado em impostos indiretos, que independem da renda. Vivemos no país onde um milionário paga exatamente o mesmo imposto que um miserável quando vai ao supermercado comprar um quilo de arroz ou feijão.

Mangabeira também nos dá sua receita para que um dia cheguemos a ser “uma Suécia”:

“O binômio perverso – juros altos, câmbio baixo – deve ser substituído pelo binômio virtuoso – juros baixos, câmbio alto. A condição para isso é reduzir drasticamente o gasto público, sem deixar de pagar os juros da dívida pública. Essa mudança deve ser combinada com reforma tributária que extraia renda dos endinheirados para financiar uma política social compensatória, dirigida aos brasileiros mais pobres. Afora isso, basta educar o povo e melhorar a eficiência do governo. O mercado e o social produzirão juntos a Suécia tropical.”

Temos certa dificuldade em situar pensadores como Mangabeira Unger “a esquerda ou a direita”. Penso que isso também ocorra com muitos outros analistas políticos e econômicos de ideias mais profundas, e até mesmo com alguns políticos... Não quer dizer que os centristas sejam “superiores”, quer dizer que talvez a rotulação costumeira de esquerdista ou direitista seja bidimensional, em suma, pobre demais.

No fundo, a única boa Política possível é a que é conduzida tendo sempre em vista não somente dois lados, mas todos os lados.

» Em breve, falaremos sobre bois e diagramas...

***

[1] Em nome dos participantes "oficiais" da série, Alfredo Carvalho e Igor Teo, agradeço a todos os que comentaram, tanto no blog quanto no Facebook, e tornaram o debate mais aprofundado e produtivo. Alguns de vocês vão perceber que também estou levando em consideração seus comentários ao longo do restante da série... Claro que os textos continuarão online, de modo que qualquer um ainda pode adicionar comentários em qualquer parte desta série.

[2] Os dois últimos parágrafos foram retirados do excelente artigo de Denis Russo Burgierman, diretor de redação da Superinteressante: A maldição do esquerdo-direitismo.

***

» Ver os posts mais recentes desta série

Crédito da foto: Marcos de Paula/Estadão

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31.5.14

Jorge Pontual recita Rumi

Jorge Pontual é um dos jornalistas mais bacanas do mundo. Além de ser especialista em relações internacionais, ciências sociais, divulgação científica e bactérias, também parece ter sido o principal responsável por trazer ao programa GloboNews em Pauta um quadro semanal onde, vejam só, recita poemas de grandes poetas da história.

Por isso tudo ele já merecia a nossa admiração. Mas quando resolver recitar Jalal ud-Din Rumi, então passou definitivamente a merecer o nosso amor...

Jorge Pontual recita Rumi no GloboNews em Pauta

(clique na imagem para abrir o vídeo no site da GloboNews)

***

[Momento de felicidade]

Felicidade é este momento,
você e eu sentados na varanda -
duas formas, dois rostos,
mas uma alma,
você e eu.

A beleza das flores
e o canto dos pássaros
nos dão a água da vida
quando entramos neste jardim,
você e eu.

As estrelas do céu vêm nos ver,
e mostramos a elas a lua,
você e eu.

Você e eu,
unidos em êxtase de alegria,
livres do juízo e da razão -
você e eu.

Os beija-flores do Paraíso bicam açúcar
quando nós rimos,
você e eu.

Mais incrível ainda,
estamos aqui ao mesmo tempo
no Iraque, na Pérsia,
você e eu -
numa forma aqui na Terra,
e noutra forma, no Paraíso.
E na Terra do Açúcar, você e eu...


Jalal ud-Din Rumi (tradução de Jorge Pontual)


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12.3.14

O reformador da Igreja do Carmo

Cerca de 2.000 pessoas assistiram à missa celebrada às 11h de 09/02/14 pelo frei Cláudio van Balen (81 anos, nascido na Holanda) na Igreja Nossa Senhora do Carmo, zona sul de Belo Horizonte. O frade, ligado à ala mais progressista da Igreja Católica e defensor da Teologia da Libertação - e que há cinco décadas celebra a missa nesse horário -, havia sido afastado em janeiro pela Arquidiocese de Belo Horizonte e Província Carmelita de Santo Elias, mas retornou à função após pressão dos fiéis.

A presença de 2.000 pessoas na missa representa o dobro do público que normalmente frequentava as celebrações das 11h de domingo na igreja. O templo, que tem capacidade para 800 pessoas sentadas, foi tomado por fiéis que acabaram ocupando espaços laterais e parte do altar, e dezenas de pessoas ficaram do lado de fora da igreja.

Depois que o sinete do altar tocou três vezes, frei Cláudio van Balen entrou e foi aplaudido com entusiasmo pelos fiéis - alguns choravam. O frade, então, levantou a mão direita pedindo silêncio, e a missa pôde começar. Balen nada falou sobre o seu afastamento... [fonte: uol]

***

Neste programa da GloboNews, canal de TV a cabo, o jornalista Fernando Gabeira vai atrás dessa e de muitas outras histórias que cercam o frade holandês, que mora há tantos anos no país que, além de se considerar brasileiro, ainda fala um português adocicado pelo delicioso sotaque mineiro.

"Ele nos fala de uma nova fé, sem as antigas ideias de culpa e de medo de algum julgamento; uma fé descontraída, que caminha junto com a cidadania, onde todos os atos visam um mundo melhor, uma convivência mais amorosa" - é mais ou menos isto que os fiéis de van Balen falam dele, e até mesmo por isso fica a indagação, "E por que diabos uma ala da Igreja deseja afastá-lo do seu ofício a qualquer custo?". Gabeira nos ajuda a responder:

(clique na imagem para assistir a reportagem no site da GloboNews)


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22.10.13

Os Orixás da Estrada Velha

O grande empreendedor brasileiro, Irineu Evangelista de Souza (1813-1889), mais conhecido como Barão de Mauá, recebeu em 1852, a concessão do Governo Imperial para a construção e exploração de uma linha férrea, no Rio de Janeiro, entre o Porto de Estrela, situado ao fundo da Baía da Guanabara e a localidade de Raiz da Serra, em direção à cidade de Petrópolis.

A primeira seção, de 14,5 km, foi inaugurada por D. Pedro II, no dia 30 de abril de 1854. A estação de onde partiu a composição inaugural receberia mais tarde o nome de Barão de Mauá...

***

Mais de um século e meio depois, a Estrada Velha da Estrela jaz relativamente esquecida e abandonada, exceto pelos devotos da Umbanda Sagrada e do Candomblé, que utilizam a vasta Natureza da região como "templo" para seus rituais de fé; e também a Coca-Cola, que deseja comprar áreas da região onde há fontes de água potável (porque será?).

Quem nos conta mais sobre o assunto é Fernando Gabeira, em seu aspecto mais genial, o de jornalista efetivamente curioso. Conforme ele mesmo diz, "minha tática com os centros espíritas foi essa: deixar que eles descrevam as cerimônias e expliquem para mim o que está se passando":

(clique na imagem para assistir a reportagem no site da GloboNews)


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29.7.13

Uma entrevista com Papa Francisco

Em uma entrevista histórica, a primeira (exclusiva) desde que se tornou Papa, Francisco responde sem hesitação (e com toda a doçura que lhe é peculiar) a todas as perguntas do jornalista Gerson Camarotti da GloboNews, provavelmente um dos homens que mais compreende a política vaticanista; mesmo estando fora do Vaticano. A entrevista foi concedida na semana passada, enquanto o Papa participava da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) no Rio de Janeiro.

No Estúdio I de hoje à tarde, Camarotti confessou que o Vaticano não havia aprovado a entrevista exclusiva, e que "tudo dependeu da intuição do Papa em aceitar falar". Além disso, ocorreu algo muito raro para o caso de uma entrevista a um chefe de Estado: nenhuma pergunta foi vetada a priori. Ou seja, Camarotti podia perguntar sobre o que quisesse perguntar - e não faltaram perguntas difíceis, como as que remetiam aos problemas de corrupção no chamado Banco do Vaticano (IOR) e as recentes manifestações nas ruas do Brasil. Sobre o que sabia responder, Francisco respondeu pausadamente e com enorme clareza, nos trazendo uma sabedoria que vai muito além da mera intelectualidade. Sobre o que não sabia responder, teve a humildade de admitir:

Alguns trechos selecionados da entrevista acima:


Trecho sobre o inconformismo da juventude

Um jovem que não protesta não me agrada. Porque o jovem tem a ilusão da utopia, e a utopia não é sempre negativa. A utopia é respirar e olhar adiante.

O jovem é mais espontâneo. Não tem tanta experiência de vida, é verdade, mas as vezes essa experiência nos freia. O jovem tem mais energia para defender suas ideias. O jovem é essencialmente um inconformista, e isso é muito lindo! Isso é algo comum a todos os jovens.

Então eu diria que, de uma forma geral, é preciso ouvir os jovens, dar-lhes meios de se expressar e cuidar para que não sejam manipulados.

***

Trecho sobre a idolatria do dinheiro

O mundo atual em que vivemos caiu na feroz idolatria do dinheiro. Há uma política mundial impregnada pelo protagonismo do dinheiro. Quem manda hoje é o dinheiro.

Isso significa uma política mundial economicista, autossuficiente, sem qualquer controle ético, que vai arrumando os grupos sociais de acordo com essa conveniência.

O que acontece então? Quando reina no mundo a feroz idolatria do dinheiro, se concentra muito no centro, e as pontas da sociedade, os extremos, são mal atendidos, mal cuidados, descartados.

Até agora, vimos claramente como se descartam os idosos. Há toda uma filosofia para descartar os idosos: "Não servem. Não produzem". Os jovens tampouco produzem muito, pois é uma carga que precisa ainda ser formada. O que estamos vendo agora é que a outra ponta, a dos jovens, está em vias de ser descartada.

O alto percentual de desemprego entre os jovens da Europa é alarmante. Em certos países já há mais da metade dos jovens desempregados. Nós vemos um fenômeno de jovens descartados.

Então para sustentar este modelo político mundial, estamos descartando os extremos... Curiosamente, estes que são a promessa para o futuro. Porque o futuro quem vai dar são os jovens, que seguirão adiante, e os idosos, que precisam transferir sabedoria aos jovens. Descartando ambos, o mundo desaba.

Falta uma ética humanista em todo o mundo.

***

Trecho sobre a Torre de Babel

Se me der um minuto, direi algo a mais sobre esse tema (Camarotti: "lógico que dou").

No século XII havia um rabino muito sábio que escrevia explicando à sua comunidade, com fábulas, os problemas morais que havia em algumas passagens da Bíblia.

Uma vez, falou sobre a Torre de Babel. Ele explicava assim:

Qual era o problema com a Torre, porque houve o castigo divino?

Ora, durante a construção da Torre, era necessário fabricar tijolos do barro, meter-lhes palha, levá-los ao forno e, já cozidos, transportá-los para o alto da edificação. Cada tijolo era um tesouro, devido a todo o trabalho envolvido em sua fabricação. Quando caía um tijolo do alto da Torre, era uma catástrofe, e o operário que o deixou cair era castigado.

Mas se caísse um operário, nada acontecia...

Hoje, há crianças que não têm o que comer no mundo; há crianças que morrem de fome e desnutrição; há doentes que não têm acesso a tratamento; há mendigos que morrem de frio no inverno; há crianças que não têm educação nem perspectivas de futuro. Nada disso é notícia.

Mas quando as bolsas de algumas capitais caem 3 ou 4 pontos percentuais, isso é tratado como uma grande catástrofe mundial. Compreende?

Esse é o drama desse "humanismo" desumano que estamos vivendo. Por isso é preciso recuperar os extremos da sociedade, os idosos e os jovens, e não cair numa globalização da indiferença em relação a esses dois extremos que são o futuro do mundo.


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