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19.12.18

João de Deus caiu da Torre

Há quase uma década eu analisei as "cirurgias físicas" de João de Deus, porque são de fato extraordinárias (no sentido de não serem totalmente explicadas pela ciência dita oficial), mas sempre as analisei da forma como são, amorais: fenômenos que em si não têm a ver nem com moralidade nem com imoralidade.

João dizia que as "cirurgias" era realizadas somente para "ativar a fé" das pessoas, e que de fato não eram em si necessárias para a cura das enfermidades. Então nesse sentido ele mesmo admitia que elas eram amorais.

Mas utilizá-las como espetáculo, atraindo NetGeo, BBC, Discovery Channel e até a Oprah para uma cidadezinha do interior de Goiás, isso já cai em terreno pantanoso: seria uma forma (moral) de atrair mais gente para um tratamento que prometia cura, ou seria uma forma (imoral) de virar um "médium celebridade" e poder lucrar com isso de alguma forma?

Eu sempre achei que ele se aproximava mais da imoralidade (leve) do que da moralidade, mas não suspeitava que no meio disso pudessem ter tantos casos de assédio e até de estupro, principalmente envolvendo rezas, rituais e supostamente até mesmo a incorporação dos mesmos espíritos que, literalmente horas antes, participavam das chamadas cirurgias espirituais... ou seja, isso afeta fortemente até mesmo a credibilidade desses espíritos.

Mas, acima de tudo, convivendo no meio espírita e espiritualista do país, já cansei de ver médiuns muito mais capacitados para o tratamento espiritual do que João de Deus rodarem o Brasil indo a diversos centros espíritas, pequenos ou grandes, de graça, trabalhar pela cura do próximo... nenhum deles, praticamente, ficou famoso fora do meio espírita. Nenhum deles chegou perto da fama de João de Deus.

E isso já diz muito sobre aonde você deve buscar luz espiritual, seja em qual religião estiver procurando... evite as celebridades deste mundo, busque quem tem importância no outro mundo – quase sempre, serão pessoas diversas.

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Crédito da foto: Google Image Search

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18.9.18

Fé e Razão, reeditado (Reflexões no YouTube)

Começo minha carreira no YouTube trazendo uma pergunta muito interessante da época do Orkut, e aproveito para falar um pouco de ceticismo, espiritualidade, médiuns, desmistificadores e, como não poderia faltar, Deus (obs.: esta é uma reedição do vídeo original, feita pelo Colossi Studio Gráfico):

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


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19.8.12

Os mistérios de Abadiânia

Discovery Channel, National Geographic e BBC foram alguns dos canais de TV estrangeiros, bastante conceituados, que já realizaram filmagens e documentários acerca de João de Deus. Apesar de ser relativamente conhecido no próprio país, ao ponto de ter sido chamado para auxiliar no tratamento de câncer do ex-presidente Lula, e também do ator Reynaldo Gianecchini, o médium é muito mais famoso fora do país, tanto que mereceu uma visita exclusiva de Oprah Winfrey, provavelmente a apresentadora de TV mais famosa do mundo.

Filmadas por todos os ângulos, as cirurgias físicas de João de Deus causam um misto de espanto e certa repudia. Certamente não é todo dia que vemos uma pessoa sem qualquer formação médica fazer incisões profundas na pele das pessoas com facas de cozinha, “raspagem” de catarata em olhos abertos (com o mesmo instrumento, tudo filmado), e inserções de tesouras pelo orifício nasal. Em estudo da Associação Médica Brasileira, ficou comprovado que tais cirurgias são reais, e que os tecidos extraídos e “raspados” dos olhos são inteiramente compatíveis com a fisiologia dos pacientes. Mas, a pergunta que fica é: com ou sem cirurgias físicas [1], João de Deus opera um tratamento que pode resultar em cura?

É exatamente esta pergunta que o documentário Cura: Milagres e Mistérios de João de Deus procura responder. Ganhador de 3 prêmios no festival internacional de Mônaco, em 2008, é de longe o documentário mais bem produzido acerca do médium de Abadiânia. Ainda que não creiamos que espíritos estão a operar e curar valendo-se das mãos de João, o documentário é tocante em seu lado humano. Nele, vemos um homem que veio se tratar e até hoje não pode se distanciar algumas centenas de metros da Casa, pois do contrário suas convulsões retornam imediatamente. Vemos uma jovem que veio a Abadiânia por pura curiosidade, e encontrou motivos para lá residir o resto da vida, encerrando uma longa viagem pelo mundo, e iniciando uma nova viagem interior. Vemos um homem que teve de vir dezenas de vezes ao Brasil, e não compreendia porque afinal nunca se livrava de sua doença, até que finalmente conseguiu algo mais importante: tratar e curar a causa, e não o efeito.

E de todos esses, nenhum nasceu no Brasil. Há que se perguntar o que todo esse povo estrangeiro tem a tratar com João de Deus:

Caso o vídeo acima dê algum erro, veja no site do Vimeo. No Firefox as vezes os vídeos do Vimeo não abrem, então será necessário usar outro browser para ver.

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[1] O documentário mostra, em curtos momentos, cenas de cirurgias físicas operadas pelo médium. Sabe-se que tais cirurgias na verdade não participam de cura alguma, o próprio médium conta que servem apenas para "reduzir o ceticismo dos pacientes quanto ao tratamento". Eu não concordo com tais cirurgias, mas em todo caso elas são uma parcela ínfima do total de cirurgias espirituais (sem cortes, etc.) realizadas por João ao longo de décadas. Portanto, não concordo, mas isso por si só não me impede de admirar todo o amor e toda a espiritualidade que existem em Abadiânia.

» Para uma análise cética centrada exclusivamente nas cirurgias físicas mostradas no documentário, ver o artigo João de Deus: charlatão?

Crédito da imagem: Divulgação/Cena do documentário (Healing)

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4.5.12

Comentário: que é o efeito placebo?

Comentário das respostas da pergunta “que é o efeito placebo?”, parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori responderam a 7 perguntas sobre o tema. Para saber mais, leia a premissa da série.

[Raph] Há muitos anos, diariamente, dezenas de pessoas chegam a outrora desconhecida cidade de Abadiânia, uma pequena cidade com cerca de 13mil habitantes, fincada bem no meio do Brasil, no interior de Goiás. Já seria interessante saber o que tantos brasileiros vão fazer nesse “fim de mundo”, mas a grande maioria dos que chegam vêm na realidade de outras partes do mundo – principalmente dos EUA e Europa. Abadiânia é a cidade onde o médium brasileiro João de Deus realiza seus atendimentos com cirurgias espirituais (e, nalguns casos, físicas) que visam o auxílio na cura de doenças variadas, muitas das quais não têm tratamento conhecido na medicina convencional.

Discovery Channel, National Geographic e BBC foram alguns dos canais de TV estrangeiros, bastante conceituados, que já realizaram filmagens e documentários acerca de João de Deus. Apesar de ser relativamente conhecido no próprio país, ao ponto de ter sido chamado para auxiliar no tratamento de câncer do ex-presidente Lula, e também do ator Reynaldo Gianecchini, o médium é muito mais famoso fora do país, tanto que mereceu uma visita exclusiva de Oprah Winfrey, provavelmente a apresentadora de TV mais famosa do mundo.

Filmadas por todos os ângulos, as cirurgias físicas de João de Deus causam um misto de espanto e certa repudia. Certamente não é todo dia que vemos uma pessoa sem qualquer formação médica fazer incisões profundas na pele das pessoas com facas de cozinha, “raspagem” de catarata em olhos abertos (com o mesmo instrumento, tudo filmado), e inserções de tesouras pelo orifício nasal. Em estudo da Associação Médica Brasileira, ficou comprovado que tais cirurgias são reais, e que os tecidos extraídos e “raspados” dos olhos são inteiramente compatíveis com a fisiologia dos pacientes. Mas, a pergunta que fica é: tais cirurgias curam alguma coisa?

Um dos espíritos que supostamente incorpora o médium, parte da “equipe de médicos espirituais” que o auxilia nas cirurgias, já respondeu que “as cirurgias físicas não servem para mais nada que não para que o paciente efetivamente creia que está sendo tratado”. Para os pacientes que já tinham fé no tratamento, nenhuma cirurgia física era necessária [1]... Ou seja: o próprio espírito admite que se trata de uma “encenação” criada para que a mente tenha fé no tratamento. A mente, sem dúvida, parece ser o agente que mais importa, o catalisador dos efeitos placebo – e, dessa forma, da cura.

E esta parece ser a questão chave para nosso entendimento do que vem a ser o efeito placebo. Não adiante associá-lo a processos inconscientes do cérebro que terminam por auxiliar e efetivar a cura de doenças: isso é apenas o processo de cura natural, não o efeito placebo. O efeito placebo, exatamente por se tratar de um efeito, tem de ter uma causa, e acredito que quase todos concordem que essa causa passa pela mente quando esta possui a crença consciente de que um tratamento lhe fará bem. Mas, ainda neste caso, o mistério permanece: se é a mente que catalisa o efeito placebo de acordo com sua crença na própria melhora, o que exatamente catalisa a crença?

Essa última pergunta pode ter uma resposta um tanto quanto óbvia para os espiritualistas, mas para muitos materialistas (alguns dos quais que sequer creem que exista a mente) ela é uma questão muito estranha. Mas isso não os impede de continuar estudando objetivamente a questão...

Na UFRJ, a bióloga Rafaela Campagnolli, doutora em neurofisiologia, concluiu um estudo de como o cérebro processa imagens de interações sociais positivas. Na pesquisa, um grupo de 36 universitários saudáveis observou 60 fotos, sendo 30 de adultos e crianças interagindo e 30 de pessoas alheias umas as outras, embora estivessem próximas. Enquanto observavam, suas reações cerebrais e faciais eram medidas por eletroencefalograma (mede atividade elétrica neuronal) e eletromiograma (mede a atividade elétrica dos músculos):

“É fato que os cérebros dos voluntários reagiram diferentemente às imagens de cada grupo. Diante das fotografias com interações sociais positivas, ocorreu aumento da atividade neuronal associada às emoções, e do músculo do sorriso espontâneo (zigomático). Isso quer dizer que elas impactaram mais os voluntários, foram mais relevantes emocionalmente” – explicou Rafaela [2].

Esse tipo de estudo visa reforçar uma crença já ancestral: a de que as emoções positivas auxiliam na cura de doenças e reestabelecimento da saúde, ao passo que as emoções negativas podem facilitar enormemente a morte, mesmo que de forma indireta. Gilberto Ururahy, diretor-médico da Med Rio Check Up, do alto de sua experiência de mais de 60mil check ups de saúde, declara: “A prática demonstra que um quadro de emoções negativas conduz à depressão e a outros males. Um dos grandes avanços da psiquiatria foi identificar que o cortisol (hormônio relacionado ao estresse) elevado e crônico é um caminho natural para a morte. Por outro lado, a emoção positiva é a mola da vida” [3].

Portanto, nossa ciência, moderna a objetiva, têm somente demonstrado o que já sabíamos, subjetivamente e filosoficamente, ao menos desde que Hipócrates fundou a medicina, milênios atrás. São mesmo as nossas forças naturais que curam nossas doenças, e até mesmo por isso nenhum médico sério jamais pôde prometer a cura, apenas o tratamento. É apenas a nossa mente, auxiliada pelos diversos tratamentos, quem poderá se livrar da doença, e retornar a saúde. Mas, há algo de subjetivo em nossa mente que incomoda profundamente os materialistas objetivos: algo que não pode ser devidamente catalogado de forma exata, tal qual se cataloga a porcentagem de sucesso dos tratamentos da última droga contra a depressão [4]... O que seria esse espírito, essa alma, esse “eu” que parece ter um ânimo próprio, essa vontade de melhora?

Tim Cridland, também conhecido como Zamora, o Rei da Tortura, é um americano com pinta de roqueiro que parece ter uma boa resposta para tal questão. Desde pequeno, Tim era fascinado pelas histórias de faquires e homens santos da Índia, que podiam se deitar em tábuas de pregos sem sentir dor alguma, e sem causar sangramentos na pele. Sabe-se lá onde ele encontrou “cursos de faquir”, mas o que se sabe é que hoje, após décadas de prática e disciplina inimagináveis para um ocidental, Tim se tornou provavelmente o maior faquir do Ocidente, com um controle da própria mente que beira o sobrenatural. Num episódio dos Superhumanos de Stan Lee, uma série do canal a cabo History que explora pessoas com “poderes sobre-humanos”, vemos Tim perfurar o braço de ponta a ponta com espetos de metal, um dos quais ele enfia através da boca aberta, saindo pelo pescoço [5]. O mais incrível não é nem o fato de ele não sentir dor (o que é comprovado por análise neuronal ao longo do programa), mas sim o fato de ele não sangrar, nem uma gota, nem mesmo na gengiva que, todos devem saber, é uma das partes do corpo que sangram mais facilmente.

O que isso tudo quer dizer? Que devemos abandonar a objetividade da medicina moderna, junto com nosso ceticismo, e admitir que existem homens santos, espíritos e deuses? Não exatamente. Uma coisa não necessariamente leva a outra, e as crenças e descrenças não deveriam vir em “pacotes fechados” – ou cremos em todo tipo de espírito e na eficácia dos tratamentos espirituais e alternativos, ou não cremos em nada disso. Não! Você pode muito bem continuar ateu ou agnóstico em relação ao chamado mundo espiritual, e ainda assim admitir que certas coisas estranhas que provêm dele são, de fato, reais.

Na conclusão final do estudo da AMB sobre João de Deus, é dito que “nem a crença entusiasmada ou a descrença renitente ajudarão os pacientes ou o desenvolvimento da medicina”, e eu acredito que devemos refletir com muita seriedade sobre isso. Que importa se céticos como James Randi oferecem milhões para qualquer um que prove que é efetivamente um paranormal? Gente como Tim Cridland e João de Deus parece não conhecer ou não estar interessada no dinheiro dos “céticos a priori”, que fazem esse tipo de “show” exatamente por já crer que não existam paranormais [6]. Randi foi certamente útil em desmascarar dezenas de charlatões pelo mundo todo, mas há que se ter em mente que nem todos são charlatões, por mais estanho que isso possa parecer para uma mente racional.

Você pode achar que os fenômenos realizados por tais paranormais – o cirurgião espiritual e o homem imune à dor – é suficientemente raro e extraordinário, e que dificilmente acharemos coisa parecida no resto do mundo, de modo que a “raridade” não permite um estudo objetivo... Mas, não, eles não são assim tão raros quanto possa parecer a priori: para cada cirurgia realizada por João de Deus, milhares de outras são realizadas com igual ou maior eficácia (independentemente de serem cirurgias físicas, e a maioria não é), somente no Brasil, por médiuns que não se interessaram em se tornar fenômenos de mídia; para cada “agulhada” que Tim Cridland dá no próprio corpo, há centenas de faquires indianos praticando algo muito parecido, todo santo dia, e ainda não se viu sangue algum.

E, ainda assim, perto dos fenômenos da mente, tais fenômenos físicos são como a brisa que antecede a tempestade. No fundo, talvez tudo se origine de alguma mente, afinal: jamais poderemos conhecer a realidade ignorando tudo aquilo o que se passa, se passou, e que poderá passar, bem atrás de nossos olhos abertos... O efeito placebo, que diabo seria ele senão um efeito da mente, esta grande desconhecida?

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[1] A imensa maioria dos pacientes de João de Deus não passam por cirurgias físicas, e espera-se que elas sejam cada vez mais raras, já que apenas alguns dos espíritos que supostamente o incorporam defendem sua continuidade. Entretanto, não deixa de ser um fenômeno bastante estranho.

[2] O depoimento da Dra. Campagnolli foi retirado de uma matéria do O Globo de 25/12/2011 (O poder das emoções positivas – Caderno Saúde).

[3] Depoimento também retirado da matéria citada na nota acima.

[4] O que, em muitos casos, não nos traz resultados muito diferentes do tratamento com placebos.

[5] Não é tão horrível quanto parece, principalmente por não haver sangue, nem dor. Infelizmente só achei o episódio com áudio em inglês:

Poderíamos, quem sabe, inserir a legenda: Tim Cridland catalisando um efeito placebo em si mesmo, de modo que não sangre nem sinta dor. É óbvio que existem limites para a "magia" de Tim: uma agulha através do seu coração provavelmente o mataria na hora; Mas isso de forma alguma deveria diminuir nosso espanto em relação ao fenômeno, assim como nossa curiosidade genuína em procurar compreendê-lo.

[6] Neste meu artigo já relativamente conhecido, faço um contraponto entre as alegações de James Randi acerca do suposto “charlatanismo” do médium João de Deus, e o estudo estritamente científico da AMB sobre as cirurgias em si. Que cada um decida por si mesmo quem parece ter maior razão.


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Crédito das imagens: [topo] Heritage Images/Corbis (poster do século XIX anunciando as famosas pílulas da vida, supostamente criadas por Thomas Parr, que supostamente viveu até os 152 anos porque supostamente as tomava - um exemplo da extensão do efeito placebo na história recente); [ao longo] History Channel (trecho do programa sobre Tim Cridland)

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8.5.09

Reações a João de Deus

Quando soube de João de Deus pela primeira vez confesso que não fiquei muito entusiasmado. Meu interesse não era exatamente nas suas práticas de cirurgias espirituais, mas sim na "fama" que adquiriu fora do país: conheci-o antes através da Discovery Channel do que qualquer veículo nacional de mídia... E não para por aí: BBC, National Geographic, ABC e diversos outros canais estrangeiros já produziram diversas reportagens e documentários sobre ele. Não se trata de um "apelo à multidão", pois certamente não creio que apenas por que centenas de pessoas o visitam todos os dias ele seria um grande médium, ou mesmo que suas cirurgias espirituais realmente favorecessem a cura das enfermidades dos pacientes; Mas me parecia um caso curioso que um médium brasileiro houvesse alcançado certa "fama" antes fora do páis do que dentro, considerando-se que o espiritismo é muito mais difundido aqui do que lá fora. Além disso, obviamente o fato de João de Deus tratar de forma inteiramente gratuita me fez continuar a estuda-lo de forma séria.

Então soube que o médium se considera católico (às vezes, "incorporado" ele se diz espírita, mas na maioria das vezes se diz católico) e que admitia abertamente que as cirurgias físicas, invasivas, não faziam qualquer diferença no tratamento em si, que era totalmente fluido - tratava somente da "matéria espiritual" e não envolvia cortes (apenas em casos de catarata, as "raspagens de olho" fazem parte do tratamento em si, segundo o próprio médium). Ou seja: as cirurguas físicas serviam apenas para "aumentar a fé" dos pacientes, fazendo-os crer que o tratamento espiritual, invisível aos olhos, poderia funcionar (cabe lembrar que segundo o espiritismo cirurgias físicas e "incorporações" totais são amplamente descaconselhadas e não fazem parte dos estudos originais da doutrina, com Kardec).

Ah essa altura eu estava quase convencido que se tratava de charlatanismo: me parecia uma idéia idiota arriscar a saúde das pessoas apenas para que elas "possam ter maior fé no tratamento"... Inclusive considerando que João de Deus nunca cursou medicina, operava com aparelhagem tosca (ex: faca de cozinha), sem assepsia e sem anestesia! No entanto, pesquisando um pouco mais descobri que na verdade apenas uma pequena parte de seus pacientes faziam tais cirurgias, e as faziam porque pediam, não porque o médium recomendava que fizessem. Ou seja: os que não "conseguiam crer o suficiente" no tratamento espiritual, pediam por uma espécie da "placebo físico" para aumentar sua fé no tratamento. Além disso, em décadas desse tipo de operação, nunca houve caso de infecção ou piora grave de condições de saúde dos pacientes, ainda que isso desafiasse a ciência convencional.

Menos mal, pelo menos aos meus olhos o médium deixou de ser uma espécie de "açougueiro irresponsável" e passou a ser, talvez, um "pequeno charlatão" que visava apenas aumentar a fé das pessoas no tratamento espiritual (independente de ser efeito placebo ou não, fato é que o resultado de um tratamento em que temos fé tem maiores chances de ser positivo)... Mas, novamente, eu ainda não dispunha de informação suficiente - pesquisei sobre evidências das cirurgias físicas serem ou não fraudes. Para mim surpresa, encontrei um estudo da Associação Médica Brasileira atestando que as cirurgias eram reais! Apesar de inteiramente inconclusivo acerca da eficácia do tratamento em si, a AMB provou que as cirurgias não eram fraudes.

À partir da posse dessas informações, e considerando que não nutro pessoalmente nenhuma admiração especial ou repulsa para com João de Deus, me pareceu que utilizar esse estudo da AMB em discussões no orkut seria uma excelente maneira de verificar uma amostragem de moderados, em oposição aos radicais, como céticos que negam qualquer prática espiritualista de antemão, ou evangélicos que as relegam a "obra de Satanás"... O fato do médium se dizer católico era ainda um detalhe relevante para observar a reação dos católicos a tais informações.

Não vou citar nomes porque não vem ao caso (cada pessoa analisada será chamada por uma letra: "A", "B", "C", etc.). Abaixo segue um breve resumo da reação de certas pessoas as práticas de João de Deus e ao estudo da AMB que comprovou que as cirurgias são reais:

A
Caso clássico de cético com repulsa a quelquer prática espiritualista, que considera tudo "repugnante" e "obviamente fraudulento" de antemão. Apesar de ter conhecimentos avançados em ciência e filosofia, portou-se grosseiramente, apelando sempre que possível a ataques pessoais a minha pessoa (lembrando que eu estava apenas passando às informações adiante e deixava claro que não concordava com as cirurgias invasivas). Até o final do debate, sustentou que a pesquisa da AMB era também uma fraude, e que a totalidade dos canais estrangeiros que realizaram documentários sobre João de Deus estavam sendo "subornados" por agências de turismo que planejavam trazer europeus e americanos ao Brasil (mais precisamente a uma remota cidade do interior de Goiás). Mesmo a BBC, notoriamente um canal que prima pela isenção de suas fontes, ficou no mesmo "bolo de suborno".

B
A princípio parecia um cético mais moderado, mas quando "ouviu falar" em espiritismo partiu para o ataque pessoal, me acusando de ser apenas "mais um crente espírita" (além do que disse acima para "A", aqui também deixei claro que não sou espírita, minha religião é meu pensamento). Apesar de eu ter dito inúmeras vezes que não defendia a prática de cirurgia invasiva, até o fim do debate ignorou solenemente essa informação, e parecia convencido que eu era "um ardoroso defensor de João de Deus", e que ele era "meu herói". Pesa a seu favor pelo menos a atitude moderada de reconhecer que o estudo da AMB era válido e que as cirurgias eram de fato reais.

C
Uma reação genuinamente cética: admitiu que o estudo da AMB era válido sem "espernear" nem apelar a qualquer tipo de ataque pessoal. No entanto, fez questão de ressaltar o que a própria AMB diz: que o estudo é inconclusivo acerca da eficácia do tratamento em si. Atribuiu todo tipo de cura por tratamento espiritual ao efeito placebo, porém não soube seguir adiante de forma sólida quando lhe indaguei sobre "o que era exatamente o efeito placebo?". Apesar de obviamente ser desfavorável as práticas do médium, portou-se de forma exemplar dentro de um ceticismo genuíno e responsável.

D
Católico extremamente cético (se é que isso possa fazer sentido a você), a princípio ironizou e fez chacota acerca das informações trazidas, como é de seu costume em relação a qualquer temática espírita... Porém, talvez por ter descoberto que o médium se dizia católico, procurou investigar mais (nessa época não tinha achado ainda o estudo da AMB). Mesmo antes da comprovação da AMB, admitiu que "era um caso misterioso" e que a princípio não se tratava de charlatanismo (inclusive porque o médium não cobra pelo tratamento). Alguns meses depois, após analisar o estudo da AMB, admitiu que as cirurgias são mesmo reais e que "alguma coisa desconhecida da ciência convencional" estava ocorrendo. Não apelou para ataques pessoais, mas deixou como sempre bem claro que "não acredita em espíritos desencarnados".

E
Evangélico "semi-radical", ignorou por completo as informações e videos postados e resumiu o assunto dizendo que "era apenas mais um charlatão espírita"... Interessante que não tenha aproveitado a deixa para atribuir suas práticas a influência de Satanás na Terra.

F
Espírita admirador de João de Deus, que inclusive já foi tratado por ele e costuma postar avisando de eventuais documentários na TV brasileira (como o SBT Repórter), a princípio não gostou do meu post "João de Deus: Charlatão?", afirmando que "estava muito cético" e que "não destacava o aspecto moral e o amor emanado pelo médium e seus seguidores"; Expliquei que se tratava de um post direcionado a todos, espíritas e não-espíritas, céticos e não-céticos, e então ele admitiu "que pode ajudar, mas que duvidava muito que algum cético iria admitir que João de Deus operava milagres"... Na verdade nem mesmo eu afirmo que o médium "opera milagres", o que quer que ocorra em suas operações, deve ter uma explicação física plausível, apenas ainda não compreendida devidademente pela ciência convencional.

G
Livre-pensador e admirador da Logosofia, manteve-se à parte dos debates e apenas me aconselhou a "procurar saber por mim mesmo se as práticas espirituais do médium são reais e consistentes", e não "confiar em documentários e pesquisas apenas, ainda que sejam genuinamente científicas". Trata-se sem dúvida de um conselho válido. Quero aqui deixar claro que nunca visitei João de Deus pessoalmente e que não o defendo nem o repudio, e que porisso mesmo me pareceram honestas e pertinentes as análises acima.

Conclusão
Os médicos que realizaram o estudo pela Associação Médica Brasileira provavelmente não são espíritas, mas somente seu interesse em estudar a chamada medicina alternativa com maior cuidado já aponta uma tendência clara na medicina atual, de se tornar pelo menos um pouco mais receptiva a terapias complementares como acupuntura, homeopatia, "tratamento espiritual", etc.

O fato de terem comprovado que as cirurgias são reais de forma alguma prova como eficaz ou ineficaz o tratamento espiritual oferecido por João de Deus. Porém, pelo fato de ele atender gratuitamente e as pessoas o procurarem por livre e espontânea vontade, devemos evitar ataques sem base a sua idoneidade. Vale destacar novamente o estudo da AMB: "Nem a crença entusiasmada ou a descrença renitente ajudarão os pacientes ou o desenvolvimento da medicina".

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Crédito da foto: Revista Época.

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19.2.09

João de Deus: charlatão?

Este artigo visa analisar o fenômeno das cirurgias físicas efetuadas pelo médium João de Deus, a que muitos céticos encaram como charlatão ou fraude. No entanto, independente de aprovarmos ou não tais cirurgias (ao que tudo indica são os próprios pacientes que pedem por elas), devemos aqui analisa-las somente no contexto do pretenso fenômeno "paranormal" em si, sem que para isso deixemos que noções materialistas influenciem nossa visão. Este artigo pretende analisar esse tipo de fenômeno de forma verdadeiramente cética e imparcial.

Como dito em nosso último artigo sobre ele, João de Deus nasceu em 24 de junho de 1942 em Cachoeira da Fumaça, interior de Goiás. Muito pobre, estudou até o segundo ano primário e em seguida abandonou a escola com o intuito de procurar trabalho e ajudar no sustento dos cinco irmãos. As manifestações mediúnicas começaram quando ainda era menino. Em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, teve início o seu trabalho de cura. Após uma visão embaixo de uma ponte, foi orientado a procurar um centro espírita na cidade. Lá chegando, foi recebido à porta pelo presidente do centro, que disse já estar esperando por ele. João se aproximou e subitamente desmaiou. Ao acordar, ficou sabendo que, incorporado, havia operado e atendido a diversas pessoas. Desde então não parou mais de realizar trabalhos de cura.

Em 2005 o dismistificador James Randi participou de um programa da rede americana ABC que visava analisar o fenômeno das cirurgias físicas de João de Deus. Apesar de apenas ter visto alguns vídeos sobre essas cirurgias (provavelmente imaginando que não era possível ir até lá e filmar do ângulo que quiser), ele logo teceu alguns comentários que tem como objetivo dismistificar o fenômeno apresentado, afirmando se tratar de truques de mágica "até mesmo simplórios".

Logo abaixo, iremos contrapor as suposições de Randi com um estudo médico sobre cirurgia espiritual da Associação Médica Brasileira (inclusive baseado em observações das próprias cirurgias de João de Deus), do qual tiraremos algumas citações quando necessário[1]:

1. Sobre as tesouras enfiadas pelo nariz dos pacientes.
Randi afirma que isso não passa de um truque de circo bastante conhecido. No entanto, se esquece de que para que o truque funcione, o mágico precisa enfiar o objeto (no caso, algum prego longo e não uma tesoura) no próprio nariz. Não se conhece esse tipo de truque efetuado em outras pessoas não preparadas. Para se conceber que João de Deus faça isso como forma de mágica, seria preciso crer que as dezenas de pessoas operadas todos os dias, incluindo os próprios pesquisadores e repórteres de dezenas de emissoras (incluindo Discovery e BBC) foram não apenas subornados para compactuar com o "show" de João, mas da mesma forma treinados na técnica. Como o próprio Randi admite que apenas algumas centenas de pessoas conhecem a técnica ao redor do globo, ele mesmo se contradiz.

2. Sobre os cortes de pele sem sangramento normal.
João de Deus faz incisões na pele de pacientes e estes não sentem dor e quase não sangram, apesar de não estarem anestesiados (quanto ao não-sangramento, nem se conhece alguma substância química que possa causar tal efeito). Resta a Randi apelar para um truque de mágica mais elaborado, que ele mesmo demonstrou algumas vezes em programas de TV. Randi esquece, porém, que para tais truques funcionarem precisamos de: (A) Posição específica da câmera, proibindo certas angulações de filmagem; (B) Compactuação e participação do paciente; e (C) Espelhos, pele falsa e outros elementos de tecnologia específica da mágica. Ou seja, (A) é refutado pois podemos filmar as cirurgias por qualquer ângulo, inclusive circundando o médium e o paciente; (B) é refutada pelo mesmo motivo da citação #1 acima; e (C) é refutada pois até hoje não se encontrou nada parecido no "santuário" do médium.
Também vale citar a pesquisa da AMB: "As cirurgias são reais[2], mas, apesar de não ter sido possível avaliar a eficácia do procedimento, aparentemente não teriam efeito específico na cura dos pacientes."

3. Sobre as "raspagens de olho".
João de Deus efetua "raspagens" de um dos olhos dos pacientes utilizando nada mais que a própria mão e uma faca de cozinha não esterilizada. Randi, não tendo muito a acrescentar ao assunto, admite que "seria impossível tocar a córnea do paciente sem uma reação adversa imediata (como piscar ou se afastar) do mesmo, exceto por meio de uma anestesia local aplicada sem que o paciente saiba". Bem, como não está provado que exista qualquer tipo de anestesia aplicada, e João opera dessa forma a décadas, fica difícil imaginar que se trata de fraude.
Voltando a citar a pesquisa da AMB: "As cirurgias e raspados são reais e os materiais extraídos são compatíveis com o local de origem."

4. Sobre a ausência de dor nos procedimentos citados em #1 a #3.
Randi afirma que as "vítimas" podem estar em um "estado de choque" refrente ao trauma, e que porisso não sentem dor no momento, mas podem vir a sentir alguns minutos depois. Ele afirma que a "câmera não continuou filmando o paciente, então não podemos saber" - Aqui se torna evidente que Randi se expõe ao ridículo por fazer tantas suposições sobre um fenômeno que mal conhecia. É muito simples encontrar no YouTube diversos vídeos dessas cirurgias onde fica atestado que os pacientes não sentem nenhuma dor, mesmo horas depois. O mesmo vale para diversos documentários, como os da Discovery e BBC.
Na pesquisa da AMB, dos 10 casos estudados, apenas uma paciente sentiu dor em uma incisão mamária com retirada de fragmento (pretensamente um nódulo benigno), mas não uma dor forte como seria de se esperar normalmente.

5. Sobre a ausência de infecção (hospitalar).
Em décadas de cirurgias físicas sem a instrumentação, anestesia e assepcia adequados, nunca foi constatado um caso sequer de infecção hospitalar nos pacientes de João de Deus, inedependente de ter havido cura ou não no tratamento espiritual. Randi aqui apela para a explicação "de que nem todos os procedimento invasivos realmente cortam completamente o tecido da pele (como um ferimento exposto), e isso poderia explicar a ausência de infecções". Randi mal sabia que João também faz cirurgias extremamente invasivas, apenas estas são mais raras.
Em todo caso, a pesquisa da AMB estudou algumas dessas cirurgias invasivas, e mesmo assim confirmou que não houve casos de infecção: "não há utilização de técnica asséptica ou anestésica, mas não foi detectada nenhuma infecção e apenas um paciente referiu dor."

6 e 7. Sobre os "transes" em que o médium "entra em contato com espíritos" e sobre as recuperações e curas reportadas por pacientes.
Não queremos aqui analisar a crença de Randi em si. Obviamente, como cético, ele não pode conceber uma explicação espiritual para esse tipo de fenômeno. Não criticamos aqui o ceticismo de Randi, mas o exaltamos e reafirmamos: cada um deve crer naquilo que quiser. O problema está no julgar sem saber, como ficou claro nesse caso. Julgar fraude de antemão um fenômeno mal estudado, apenas porque vai contra sua crença (ou descrença). Nesse ponto, o ceticismo de Randi é obviamente falho. Não tiramos seu mérito de dismistificar diversos charlatões pelo mundo, mas lamentamos sua falta de critério para com esse caso em específico.
Sobre as curas comentaremos à seguir.

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Médico não promete cura, promete tratamento
Essa frase, que ouvi do célebre e amoroso médico Patch Adams (que é inclusive ateu), resume muito do que devemos considerar acerca desse tipo de cirurgia ou tratamento. Vale mencionar que "assim como outros cirurgiões espirituais brasileiros, João Teixeira afirma que as cirurgias são completamente dispensáveis, podendo os espíritos atuarem diretamente sobre os pacientes. Mas estes necessitariam ver as curas sendo realizadas no corpo físico para se convencerem da realidade do tratamento" (novamente citando a pesquisa da AMB), ou seja, lembrando Hipócrates, podemos também afirmar que "tuas forças naturais, as que estão dentro de ti, serão as que curarão suas doenças" - ou seja, entenda-se como quiser, que "a fé cura" ou que "o efeito placebo cura", o importante é que alguma espécie de cura (ou melhoria) ocorre para quem se mantém confiante e otimista, e isso é fato mesmo na medicina tradicional.

Falando do ponto de vista espiritualista, me parece óbvio que o ideal seria que João parasse com esse tipo de cirurgia física. É difícil dizer até que ponto elas lhe auxiliam em sua jornada de caridade, e até que ponto apenas lhe trazem uma exposição indesejada na mídia mundial. Decerto, é claro, lhe traz muitos inimigos céticos, que chegam até a classifica-lo como "açougueiro". Obviamente que, num estudo mais detalhado, como o da AMB, percebemos a realidade de suas cirurgias, e o bem (direto ou indireto) que produz em seus pacientes.

Mas o fato é que, mesmo de acordo com o próprio João, as cirurgias físicas são desnecessárias para o tratamento. A matéria espiritual é fluida, e como tal, não se opera por mãos físicas, mas antes pelas mãos sutis do pensamento, ou pelo menos é mais ou menos como os espiritualistas compreendem o fenômeno em si. Nada mais sóbrio do que optar pela eventual redução desse tipo de cirurgia, até que não mais seja realizada, mesmo que as pessoas continuem lhe pedindo para tal.

Também vale lembrar que João opera gratuitamente a décadas, e que por mais que a "venda de remédios naturais a 10 reais" e o turismo da região possa até lhe trazer certa renda, não seria suficiente para garantir o funcionamento de seu "santuário", e toda a caridade que próvem dele (incluindo doação de comida e alojamento aos mais necessitados, etc.). Portanto João, como todos nós, depende da caridade, mas além de depender dela, também a realiza, em abundância. Julguemo-o por sua obra.

Conclusão final da pequisa da AMB (veja a pesquisa aqui)
"Pode-se concluir que as cirurgias estudadas e os materiais extraídos são reais, não há utilização de técnica asséptica ou anestésica, mas não foi detectada nenhuma infecção e apenas um paciente referiu dor. Como não houve identificação de fraudes, o fenômeno necessita de posteriores estudos para a explicação adequada da analgesia, da não-infecção, avaliação da eficácia e por quais mecanismos a suposta cura poderia ocorrer, pois as cirurgias em si aparentemente não conduziriam a esse resultado, já que usualmente não extraem tecidos patológicos.

Como vários autores relatam benefícios com os tratamentos espirituais, é fundamental um melhor conhecimento dos mecanismos e eficácia das curas espirituais. Isso possibilitaria a adaptação das formas úteis como terapias complementares à medicina ocidental, bem como desencorajaria os procedimentos danosos ou inúteis. A discussão séria de um tema não requer que compartilhemos as crenças envolvidas, mas que tomemos suas implicações seriamente e não subestimemos as razões pelas quais tantas pessoas se envolvem. Nem a crença entusiasmada ou a descrença renitente ajudarão os pacientes ou o desenvolvimento da medicina".

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Notas:

[1] Este estudo foi realizado por pesquisadores e médicos filiados a Associação Médica Brasileira, e é somente nesse sentido que me refiro a pesquisa como "uma pesquisa da AMB". Não quer dizer que a AMB seja espiritualista, ou materialista, nem que os médicos que conduziram a pesquisa sejam uma ou outra coisa - até mesmo porque a ciência não é, em si, nem uma coisa nem outra.

[2] As cirurgias são reais no contexto de negarem a insinuação de James Randi de que seriam "truques de mágica". Não quer dizer que tenham resultado em cura. Aliás, se lerem a pesquisa completa da AMB verão que a efetividade do tratamento espiritual não é confirmada, embora nenhuma fraude tenha sido verificada nas cirurgias em si.

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Este artigo também pode ser visualizado pelo endereço http://tinyurl.com/joaodedeus

Crédito da foto: Sakanta Running Wolf

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21.7.08

O curandeiro e o menino Buda

Os cientistas céticos volta e meia criticam os defensores das teorias espiritualistas por defenderem teses que não podem ser analisadas de modo objetivo, sejam espíritos que "só aparecem em sessões espíritas", ou mesmo médiuns que se recusam a participar de experimentos controlados. Na realidade não é bem assim: existem sim exemplos de casos chamados "paranormais" que podem ser analisados pela ciência, muito embora nenhum cientista se prontifique a estuda-los de maneira séria, talvez por medo de comprovar o que não gostaria de comprovar.

Apenas como exemplos emblemáticos, vamos citar rapidamente dois casos que recentemente foram tema de documentários da Discovery Channel: o médium de cura brasileiro João de Deus, e o garoto do Nepal chamado Ram Bomjan, o Pequeno Buda - No entanto, ainda vivos no planeta, desde yogis a autistas savants, temos centenas de casos que escapam da ciência tradicional, e nem porisso são estudados a fundo pelos tais cientistas céticos... Vale lembrar que, felizmente, nem todo cientista é cético (ou pelo menos cético-fundamentalista, como a maioria dos céticos atuais).

João de Deus

João Teixeira de Farias, o João de Deus, é também conhecido como João de Abadiânia e João Curador. Nasceu em 24 de junho de 1942 em Cachoeira da Fumaça, interior de Goiás. Muito pobre, estudou até o segundo ano primário e em seguida abandonou a escola com o intuito de procurar trabalho e ajudar no sustento dos cinco irmãos.

As manifestações mediúnicas começaram quando ainda era menino. Em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, teve início o seu trabalho de cura. Após uma visão embaixo de uma ponte, foi orientado a procurar um centro espírita na cidade. Lá chegando, foi recebido à porta pelo presidente do centro, que disse já estar esperando por ele. João se aproximou e subitamente desmaiou. Ao acordar, ficou sabendo que, incorporado, havia operado e atendido a diversas pessoas. Desde então não parou mais de realizar trabalhos de cura.

João já perdeu a conta de quantas vezes foi acusado e preso pela prática ilegal da medicina. Hoje, ele atende a um sem número de médicos, juízes, delegados e advogados. Tentando escapar da pobreza, João de Deus trabalhou, entre outras coisas, como alfaiate, minerador e também numa olaria. Mora em Anápolis, Goiás, cidade distante 40 km de Abadiânia, onde em 1976 fundou a Casa Dom Inácio de Loyola.

Hoje João é mais conhecido fora do país, e diversos americanos e europeus vem todo ano se tratar com ele. O médium, vale dizer, é católico e não se considera espírita – apesar de realizar intervenções espirituais. Ou seja, seu trabalho, gratuito, se dá independentemente de credos ou religiões.

O que pode ser estudado pela ciência:
Dentre os procedimentos cirúrgicos realizados em sua fazenda, a Casa Dom Inácio de Loyola, todos podem ser vistos, de qualquer ângulo, por qualquer visitante ou estudioso de boa vontade. No documentário da Discovery diversas cirurgias foram filmadas. Abaixo um trecho do artigo da Revista Época:

"As cirurgias podem ser “visíveis” ou não, de acordo com a vontade do paciente. Nas visíveis, os procedimentos mais comuns são a introdução de uma pinça cirúrgica no nariz, a raspagem da retina ou a retirada de tumores com bisturi. Às vezes, João faz simples massagens na região onde o paciente reclama de dor. O médium pergunta, imperativo: “Cadê a dor?” Todos dizem não sentir mais nada. Em alguns casos, ele ordena a pessoas em cadeiras de rodas ou muletas que as abandonem e andem. Em todos os casos presenciados pela reportagem de ÉPOCA, os pacientes saíram claudicando com muita dificuldade. Quando há cortes, ele costura a ferida com agulha e linha, e o paciente vai para uma sala de repouso. Se há sangue no chão, os auxiliares se apressam em limpá-lo com álcool de cozinha. Os instrumentos cirúrgicos não são limpos entre uma operação e outra."

1. Entender como, nesses procedimentos cirúrgicos que envolvem inclusive aberturas na região do estômago, dentre outras, feitos com instrumentos sem assepsia e muitos dos quais sequer adequados a medicina cirúrgica, até hoje ninguém, absolutamente ninguém, pegou sequer uma infecção hospitalar, independente de ter sido curado ou não.
2. Analisar como muitos dos pacientes obtém senão a cura, ao menos uma melhora considerável em seus quadros, visto que a maioria chega lá por ter sido "desenganada" pela medicina tradicional.
3. Estudar como um fazendeiro, ex-minerador e ex-alfaiate, pode fazer cirurgias em condições precárias, procedendo tratamentos efetivos, sem nunca ter estudado absolutamente nada de medicina.
4. Entender como, nas cirurgias sem anestesia, os pacientes praticamente não sentem dor, e há quase que nenhum sangramento mesmo quando tesouras são enfiadas nariz adentro, ou área na região do estômago são abertas.
5. Analisar como uma pessoa "raspando" o olho do paciente com uma faca comum pode ter tamanha precisão à ponto de não ferir o olho e, pelo contrário, efetuar tratamentos de sucesso em relação a cataratas e outras patologias oculares.

Para saber mais sobre João de Deus: Artigo da Revista Trip - Livro lançado recentemente pela editora Pensamento - Vídeos no YouTube - Posts sobre João de Deus neste blog

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Ram Bomjan, o pequeno Buda

Ram Bahadur Bomjan (Ratanapuri, Nepal, 9 de abril de 1990), também conhecido como Palden Dorje (nome budista), vem recebendo milhares de visitantes e a atenção da mídia por estar meditando durantes meses seguidos sem, aparentemente, consumir alimentos ou água. Bomjon iniciou a sua meditação em 16 de maio de 2005, desapareceu de sua cidade em 11 de março de 2006, reaparecendo em outra localidade do Nepal em 26 de dezembro de 2006. Desapareceu novamente em 8 de março de 2007 até ser encontrado meditando em 26 de março de 2007 por inspetores da polícia em um outro ponto de Ratanapuri.

No documentário da Discovery, eles o filmam meditando ao lado das raízes de uma imensa árvore por 5 dias consecutivos, tempo que acredita-se que o ser humano é capaz de sobreviver sem consumo de água. Além da Discovery comprovar que ele sequer se moveu durante esse período, especialistas em nutrição ficaram pasmos com o fato de que sua pele não ficou ressecada e que, mesmo estando a no máximo 15 graus celsius (e talvez abaixo de zero a noite), por vezes gotas de suor corriam pelo seu rosto.

O que pode ser estudado pela ciência:
Independente da discussão se um adolecente nepalês deve ou não "perder" boa parte de sua infância meditanto imóvel ao relento, aparentemente arriscando sua vida (ao invés de, por exemplo, estudar num colégio), a ciência pode analisar os seguintes fenômenos:

1. Um ser humano pode sobreviver por 5 dias sem consumo de líquido e por até 90 dias sem consumo de alimentos sólidos, como pode o garoto estar a meses sem comer e beber e continuar vivo?
2. Como, nesses condições, a pele de Ram Bomjan continua aparentemente sadia, e mesmo seu corpo aparentemente em um peso sadio, como o de qualquer adolecente normal que se alimenta e pratica exercícios diariamente?
3. Analisar como o garoto pode suar em condições climáticas tão frias.
4. Entender como, ao sair de meses na mesma posição para se locomover a um local mais tranquilo de meditação, ele não precisou de fisioterapia para reaprender a andar.
5. Compreender como ele pode, ao sair de meses de meditação, abrir os olhos e voltar a enxergar normalmente.

Para saber mais sobre Ram Bomjan: Site "oficial" - Biografia (em inglês)

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