Pular para conteúdo
27.2.19

A realidade existe?

Parece estranho iniciar um texto com um título cuja resposta soaria tão auto evidente. Mas é claro que a realidade existe, não? Podemos tocar as coisas, senti-las, percebê-las. No entanto, os argumentos filosóficos nunca são simples assim. Segundo Immanuel Kant, nós nunca temos acesso aos reais objetos do mundo. Sempre que vemos um objeto, o percebemos mediado pelas ideias que temos sobre ele.

Imagine que você tenha diante de si um par de óculos. Você pode até percebê-los, mas poderia compreender qual a sua real natureza, o que de fato ele é? Kant diria que não, pois a percepção do objeto que tem diante de si está mediada por todas as ideias que você possui anteriormente sobre ele: a cor que você associa a outras cores que viu antes, seu uso que foi socialmente aprendido, suas lembranças e afetos de pessoas que usavam óculos, o que pode significar uma pessoa que usa óculos, e por aí vai. Ou seja, os óculos nunca serão apenas os óculos.

O real dos objetos do mundo é impossível na perspectiva kantiana. Isto não quer dizer que o real não exista. Ele só não é assimilável, pois sempre que trazemos um objeto à consciência, o trazemos através de significados previamente possuídos. Um objeto é sempre um objeto parcialmente construído pela nossa subjetividade, digamos assim.

Ou seja, se o objeto real é inalcançável, tudo que podemos saber e investigar são as nossas próprias ideias sobre ele. Temos, portanto, o nosso argumento 1: Não podemos saber a realidade, mas podemos investigar as nossas ideias sobre a realidade.

As ideias de Kant influenciaram bastante a filosofia, mas não foram unanimidade. Outro filósofo importante nessa discussão foi David Hume, conhecido pelo seu ceticismo. Segundo Hume, nada podemos saber com certeza através da razão. Tudo sabemos através de experiências prévias, e a partir delas intuímos o que acontecerá no futuro. Por exemplo, por lembrarmos que todos os dias o Sol nasceu pela manhã, supomos que o mesmo acontecerá amanhã. Mas posso afirmar isto com certeza? Segundo Hume, não. Nada me garante que algo inesperado impeça que surja o Sol no dia seguinte.

Para Hume, a mente cria associações entre fatos e acontecimentos do mundo dos quais não podemos ter certeza. Deste modo, tudo que conjecturamos racionalmente são meras suposições que podem ser reais ou não. Teorias e mais teorias. Para compreender a realidade necessitamos da experiência, ou, em outras palavras, do empírico.

Hume constitui assim o nosso argumento 2: Conjecturas teóricas dizem muitas coisas possíveis sobre o mundo, mas elas não podem ser consideradas reais se não confirmadas pela experiência.

Os argumentos na Filosofia

Os dois argumentos que trouxe para introduzir esta questão correspondem à grande cisão da filosofia contemporânea.

De um lado está a filosofia analítica – os herdeiros de Hume – que possuem uma profunda ligação com a ciência e o empirismo. Seus autores fundamentais são de países anglófonos. Através da lógica, dos estudos sobre a linguagem, do diálogo com os estudos cognitivos, evolucionistas e da computação, buscam definir o que é real, identificado geralmente com o mundo natural. Para os analíticos há uma realidade objetiva da natureza que podemos descobri-la.

Do outro lado está a filosofia continental – os herdeiros de Kant – cujos autores principais são de países de língua alemã e francesa. Os continentais olham com desconfiança ao realismo naturalista assumido pelos analíticos, e possuem grande ressalva quanto ao espírito cientificista moderno, preferindo se aproximar em seus métodos às artes, como a literatura, o teatro, a psicanálise etc. Afastando-se de um real natural, os filósofos continentais tendem a pensar numa realidade que é em alguma medida produzida: as condições sociais no marxismo, as impressões da consciência na fenomenologia, a discursividade nos estudos culturais, e por aí vai.

Existiram poucas tentativas de diálogo entre essas duas áreas no século passado. Grande parte dos filósofos de uma corrente simplesmente realizava seus estudos ignorando o que era produzido pela outra. Não por rivalidades pessoais, mas porque no fundo há essa grande fenda epistemológica que os afasta numa questão tão básica: podemos falar sobre a realidade?

Para os analíticos, os continentais não fazem filosofia séria. Eles se perdem em abstrações inúteis, numa metafísica infundada e seus discursos são meros floreios de linguagem. Podem ser bons poetas, mas são péssimos cientistas. Porque o conhecimento autêntico deve ser positivo, derivado da experiência controlada e fundamentado na lógica. Qualquer coisa diferente disto não importaria.

Já os continentais julgam os analíticos como ingênuos em seu realismo, pois ignorando a própria interferência de suas categorias sobre a natureza, o conhecimento por eles produzido é uma confirmação de seus próprios preconceitos teóricos, chegando sempre a uma realidade aparente, porém falsa.

O caso de Foucault

Um ótimo exemplo à nossa discussão é o filósofo continental Michel Foucault. Se perguntássemos a Foucault o que é a loucura, ele nos diria que jamais poderia responder a essa pergunta. Tudo que poderíamos fazer é descobrir como a loucura era diagnosticada, controlada e tratada em diferentes sociedades e tempos históricos.

Foucault nos chama a atenção que, se hoje os loucos são um incômodo a serem trancados em manicômios, houve um tempo em que a loucura era vista como sinônimo de sabedoria extravagante, e eles podiam conviver conosco na sociedade. Eis um ponto de tensão entre uma ciência naturalista e a filosofia discursiva. Pois se enquanto a primeira, fundamentada na biologia e nos estudos cognitivos, quer estabelecer a verdade da loucura – isto é, classificá-la numa disfunção cerebral localizável, marcada como um transtorno de um funcionamento normal – Foucault nos mostra que o mesmo suposto transtorno pode ser visto como normalidade em outra sociedade, e que talvez o que chamamos de loucura (ou patologia) diga mais de nossa própria sociedade que da loucura enquanto entidade em si.

Portanto, não se trata da loucura em si, mas de nossas próprias categorias e juízos que estão em questão.

Então quer dizer que não há algo propriamente louco e tudo é relativo? A ideia de que tudo poderia ser relativo, não havendo um mínimo ponto de realidade comum, ficou conhecido como pós-modernismo, um termo que é usado geralmente de maneira crítica justamente para dizer que algo é frouxo e sem sentido.

Porém, é curioso notar que Foucault nunca tenha dito que tudo é relativo, embora muitos o tenham interpretado assim. No tema da loucura mesmo Foucault disse que não poderíamos saber o que é a loucura, apenas o que em cada momento histórico se entendia sobre ela. Mas ele nunca disse que não havia a loucura.

Há o real, no entanto...

Retomemos o argumento de Kant, que chamei de nosso argumento 1. Diferente do que ficou conhecido como pós-modernismo, não é que o real não exista e estamos a flutuar num fluído de indeterminação. É evidente que há algo real.

Como muitos usam esse exemplo de forma depreciativa, trago-o aqui: imagine que você esteja atravessando a rua e venha um carro em sua direção. Não adianta pensar que o carro não é real para se safar dessa situação. Ele vai lhe atropelar de qualquer modo.

Porém, o que está em jogo nessa discussão é um pouco mais sofisticado do que isso. Não se trata de saber se o carro é real ou não, mas se o conhecimento que podemos produzir sobre alguma coisa (o carro, por exemplo) corresponde ontologicamente ao seu real ou não. Como eu disse, é um pouco mais sofisticado do que nossa bruta vida cotidiana.

Então, nesse ponto, acho que é consenso dizermos que sim, a realidade existe. Há um real enquanto base dura a tudo que existe. O problema vem no segundo momento, quanto a sua acessibilidade direta ou indireta. Há um real natural encontrável na experiência ou estamos condenados a viver sob nossas próprias categorias subjetivas que mediatizam e parcializam nosso encontro com o real?

A forma como nos sentimos quando alguém nos diz algo, as visões de mundo de uma determinada doutrina, ou até a porcentagem de eficácia de uma nova droga farmacêutica –invocando Nietzsche, há fatos ou são tudo interpretações?

Aos continentais, nosso conhecimento é conjectural. Podemos fazer conjecturas que conversem melhor com a experiência de nossas almas, não por serem uma realidade última, mas por falarem de uma realidade experimentável em outro nível. Porém, tenho que concordar com os analíticos quando dizem que muitos pensadores continentais – talvez por excesso de conjecturas – se tornaram excessivamente abstratos, herméticos e até obscuros. Obras gigantes que necessitam uma extensa exegese para compreendermos. E para quê mesmo afinal?

Do outro lado, a suposição de que há um mundo natural independente de nós aponta para a tentativa de pensar um realismo. É uma proposta interessante, ainda que, bem notado pelos continentais, tenha trazido à filosofia analítica conclusões ingênuas, e que poderiam ser mais interessantes se houvesse menos reducionismo teórico. Aos excessivamente empiristas vale lembrar que a “realidade” também pode mentir, especialmente quando nosso método empírico é caolho.
 
Pensar a realidade para quê?

Nossa discussão não é um mero joguinho intelectual para pensadores ociosos. Pensar a realidade se tornou cada vez mais fundamental em nossos tempos de pós-verdade, em que a política de países está sendo decidida com base em Fake News, e movimentos terraplanistas conseguem chegar aos postos mais altos do governo.

Para além dos nossos problemas políticos imediatos, temos ainda um confronto maior e inevitável com a realidade virtual. A internet, a construção de imagens frágeis porém narcísicas em redes sociais, e até mesmo a possibilidade de experimentamos um mundo de “realidade ampliada”.

Quando pudermos viver experiências holográficas, criadas de forma artificial para serem autênticas ao nosso cérebro, será que estaremos satisfeitos e seremos facilmente enganados por elas como num aterrorizante episódio de Black Mirror, ou crescerá ainda mais o sentimento de inautenticidade do mundo moderno, sinal de nossa insatisfação com uma realidade espectral?

Meus amigos, o que está em jogo é a velha questão colocada por Platão no mito da caverna. Não se trata de saber se vivemos num mundo real ou de sombras, mas o que nós enquanto seres humanos queremos afinal. Se tivermos um dia a escolha, será que escolheríamos pelo mundo real, seja o que for ele, ou preferíamos alguma “ilusão confortável” que nos é mais afeita?

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

***

Crédito da imagem: Nils Stahl/Unsplash

Marcadores: , , , , ,

31.7.18

Por que estudar filosofia? (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo falo sobre como pode ser altamente prejudicial a sua saúde mental acreditar por muito tempo na gente que fala que filosofia é só algo chato, difícil de ler, e que não serve para nada. No entanto, lhe darei dicas preciosas para que não faça como eu, e leia Platão antes de se aventurar por Kant... No fim das contas, veremos que a filosofia serve para algo essencial em nossa vida: aprender a pensar por si mesmo.

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


Marcadores: , , , , , , , ,

23.2.18

O que é Deus pra você?

Após ter acompanhado seu nascimento e crescimento desde o início, é com muita honra que hoje prosseguimos com a parceria deste blog com o canal Conhecimentos da Humanidade no YouTube, apresentado por Bruno Lanaro e Leo Lousada.

Neste roteiro, trouxe de volta um antigo artigo sobre as muitas formas de crença ou descrença em Deus ou nos deuses, e acredito que o resultado final tenha ficado muito bom. Logo nas primeiras horas, o vídeo chegou a uma centena de comentários, não deixe de dar o seu também. Afinal, o que é Deus pra você?

Marcadores: , , , , , , , , , , , , , ,

15.2.12

Schiller e a dimensão estética

Texto de Viviane Mosé em "O homem que sabe” (Ed. Civilização Brasileira) – pgs. 147 a 150. As notas ao final são minhas.


Somente através da beleza da manhã é possível penetrar a terra do conhecimento (Schiller)


Para Anatol Rosenfeld [1], a concretização de muitas ideias kantianas apenas esboçadas coube a Schiller, especialmente no domínio da estética.

O homem, pensa Schiller, é determinado pelas forças da natureza e, na grande maioria das vezes, perde para ela. A única liberdade humana consiste em não se deixar escravizar, o que implica exercer o senso moral por meio da linguagem e do pensamento [2]. A capacidade humana de criar valores representa o domínio próprio do homem; eles são o modo humano de se contrapor à natureza, por isso não derivam da necessidade, mas da liberdade. É por “claro saber e livre decisão” que o homem troca o estatuto de independência, no estado natural, pelo do contrato, no estado moral. [3]

No entanto, esta contraposição entre a natureza de um lado e o homem de outro se compõe com um combate que pode aniquilar o homem, porque gera uma luta sem fim [4]. Somente o senso estático, ele diz, como um terceiro caráter, pode fazer a ponte entre estes dois domínios [5]; é ele que desfaz esta polaridade, porque aproxima o que a razão afasta. Se a razão teórica precisa decompor, separar, o senso estético se caracteriza por compor, aproximar. O senso estético existe para reunir o que a razão teve de separar.

Enquanto apenas luta contra a natureza, por meio do conhecimento que fragmenta o mundo tentando conhecê-lo ou dominá-lo, o homem perde, porque, em última instância, é sempre finito, mortal [6]. Mas ele pode, auxiliado pelo senso estético, não lutar contra o mundo, o que implica em não fragmentá-lo, mas se ver inserido nele e, fortalecido pelo sentimento de pertencimento, tornar-se capaz de lidar com as perdas. A faculdade do juízo, diz Kant, é a capacidade de pensar o particular contido no universal, por isso somente ela é capaz de desfazer a unidade fictícia e provisória do sujeito particular, reinserindo-o na totalidade que o sustenta e alimenta [7]. É a sua consciência individual, ou seja, é o saber de si como provisório que o faz sofrer. Quando o homem se sente inserido no todo, o sofrimento particular perde importância e ele, então, não sucumbe, e vence a natureza não pela força, mas pelo puro exercício da liberdade moral, que fortalece, amplia, alarga a alma.

A faculdade de julgar, ao se construir como uma livre combinação entre as faculdades, sem a necessidade de emitir um juízo sobre o objeto, mas sobre si mesma, termina por entrar em uma relação de harmonia com a natureza, dando esta sensação de pertencimento, de entendimento sem conceito, de participação [8]. A dimensão estética, o lugar por excelência do sentir, que elabora os afetos, é também aquilo que nos alimenta e fortalece [9]. Em vez de apenas buscar vencer objetivamente o mundo, o homem pode, ainda e fundamentalmente, fortalecer a si mesmo para ser capaz de lidar com o mundo. A elaboração do sentir, que acontece no juízo de gosto, resulta neste fortalecimento do homem, especialmente porque se dá no próprio homem, não está em relação de causalidade com nada exterior a ele, com nenhum objeto. O senso estético diz respeito a como nos sentimos em relação ao mundo, não diz respeito ao mundo, por isso se dá no domínio da liberdade e não da necessidade.

Mas a elaboração da faculdade de sentir também interfere no domínio teórico da razão, quer dizer, em nossa inteligência argumentativa, filosófica e científica. Nossa capacidade estética é uma das três dimensões essenciais da razão pura, que, para exercer o seu domínio, como razão teórica, prática ou estética, precisa da integração destas três faculdades: sensibilidade, imaginação, entendimento [10]. A cultura deve, por isso, cuidar para que a razão se institua pelo desdobramento integrado dos diferentes domínios que a compõe, o que exige uma mobilização integral das potencialidades do humano. Um caráter pleno é aquele no qual a saúde da cabeça, do pensamento, e a pureza da vontade, do corpo, formam um todo [11].

Esta totalidade dos diferentes domínios do humano, que Schiller percebe fragmentados e isolados em seu tempo, no entanto, estava harmoniosamente integrada na cultura grega arcaica:

“Naqueles dias do belo acordar das forças espirituais, os sentidos e o espírito não tinham, com rigor, domínios separados. [...] Por mais alto que a razão subisse, arrastava sempre consigo, amorosa, a matéria, e por finas e nítidas que fossem as suas distinções, nada ela mutilava. Embora decompusesse a natureza humana para projetá-la, aumentada em suas partes, no maravilhoso círculo dos deuses, não o fazia rasgando-a em pedaços, mas sim compondo-a de maneiras diversas, já que em deus algum faltava a humanidade inteira. Quão outra é a situação entre nós mais novos. [...] Eternamente acorrentado a uma pequena partícula do todo, o homem só pode formar-se enquanto partícula.” [12]

***

[1] Crítico e teórico de teatro germano-brasileiro que escreveu a introdução de Cartas sobre a educação estética da humanidade, de Friedrich Schiller. O texto de Mosé é centrado nesta obra específica do filósofo alemão.

[2] Por isso todo livre-pensador, religioso ou não, irá defender que só é verdadeiramente livre quem exercita seu próprio pensamento.

[3] O contrato da vida em sociedade pede que respeitemos a liberdade dos outros e, consequentemente, por vezes limitemos a nossa. Mas é de bom grado que o sábio limita a própria liberdade, pois no fundo sabe que dessa “limitação”, virá liberdade ainda maior – o amor.

[4] Darwin a chamou de “a guerra da fome e da morte”. Obviamente no estágio humano nossa questão com a natureza não é mais exatamente a sobrevivência através da caça e coleta, mas a busca pela vivência em um mundo infestado por ideias em conflito.

[5] A ponte entre um território de morte e um território de vida – o amor. Como podem ver este remédio-pensamento tem mesmo inúmeras utilidades.

[6] E, se fosse infinito e imortal, não haveria necessidade de lutar contra a natureza, em todo caso. O homem, como aliás todo ser vivo tendendo a consciência, é um ciclo de existências frágeis e finitas, mas que se renovam e renovam, tendendo a uma consciência cada vez mais apurada. Sem a morte não haveria vida cíclica, nem evolução alguma.

[7] O Chefe Seattle já dizia que o homem não tece a teia da vida: é apenas um fio dela. O que fizer a teia, fará a si próprio. Nesse jogo cíclico de personalidades que vem e vão, sábio é aquele que mira na potencialidade, no particular conectado ao universal, assim como todos estamos, em última instância, conectados pelos átomos a formar o Cosmos detectável.

[8] Julgar os outros considerando não o que um indivíduo fez ao outro, mas o que um grande conjunto de seres fazem e são levados a fazer, em suas relações uns com os outros, e com a Natureza à volta – e, finalmente, guardar o julgamento apenas para si. Que melhor receita para a sabedoria?

[9] Agora vocês já sabem: o amor alimenta, o amor fortalece.

[10] Poderíamos substituir “entendimento” por “tolerância”, para nos adequarmos melhor à linguagem atual.

[11] Poderíamos usar apenas esta última frase isolada, e diriam se tratar de um texto místico oriental, e não filosófico ocidental. A grande diferença entre as abordagens, entretanto, fica restrita ao campo da linguagem – em essência, falam sobre uma mesma coisa.

[12] Schiller, Cartas sobre a educação estética da humanidade, carta VI. Reparem como Schiller não tem pudores em usar a palavra “espírito”, enquanto Mosé parece fugir da menção a todo custo. É o “preconceito velado da palavra”, ou algo assim, muito comum nos dias fragmentados de hoje.

***

Crédito da foto: Wikipedia (monuemnto em Weimar com estátuas de Goethe e Schiller, os grandes poetas alemães, lado a lado - eles eram bons amigos em vida)

Marcadores: , , , , , , , , , ,

16.12.11

Teísmos e ateísmos

Ao longo de vários anos participando e observando discussões filosóficas e religiosas, pude observar que, muitas e muitas vezes, as pessoas se digladiam muito mais por não conseguirem compreender o que a outra efetivamente pensa, do que por qualquer outro motivo mais importante. Usualmente, o que causa esse tipo de desentendimento é o fato de que alguns termos – particularmente os que englobam a crença ou descrença em um Criador – são compreendidos de maneiras diversas pelas pessoas.

Por exemplo, para alguns um ateu é alguém que afirma categoricamente que Deus não existe (seja quem ou o que for). Para outros – incluindo ateus – o ateísmo não chega a fazer tal afirmação. Para alguns atenienses Sócrates era ateu, embora ele estivesse um tanto longe disso, tanto que mais tarde sua filosofia influenciou decisivamente um grande teísta: Sto. Agostinho. Já Epicuro dizia não se preocupar com os afazeres dos deuses – e também foi taxado de ateu. Dizem que Einstein acreditava no “deus de Espinosa”, mas seria esse deus o mesmo deus do Antigo Testamento? Richard Dawkins deixa claro que não, e em seu polêmico Deus, um delírio se dedica a atacar apenas o deus bíblico, e não a concepção panteísta do Cosmos. Confuso, não?

Para tentar auxiliar em tantas definições, teísmos, ateísmos e outros “ismos”, elaborei um pequeno glossário de termos abaixo, que é propositadamente curto – e, obviamente, não tem a pretensão de esgotar o assunto, mas apenas de ajudar a resolver melhor alguns debates. Comece perguntando: “que tipo de ismo você segue exatamente, afinal?”, antes de ter certeza do que exatamente o outro crê ou não crê...

Teísmo
O teísmo, derivado do grego Théos (Deus), é a crença na existência de um ou mais deuses. No politeísmo acredita-se em diversos deuses, mas no henoteísmo, apesar de admitir-se a existência de um panteão, há também um Deus supremo, criador do Cosmos. No monoteísmo reduz-se a divindade a apenas um único ser supremo, usualmente taxando outros deuses de semideuses, divindades ou demônios (do grego daemon) – que em certas doutrinas também podem assumir o papel de intermediários entre os homens e o Deus supremo.
O teísmo filosoficamente deriva diretamente do antigo questionamento: “porque afinal existe algo, e não nada?” – Que por sua vez remete a crença em uma espécie de ser consciente (embora não necessariamente um velho barbudo ou um avatar profético) que arquitetou todo o Cosmos. Pode ser, talvez, resumido como “a crença em um Criador pessoal”.
A grande maioria dos teístas também compartilha a crença de que Deus não somente pode intervir diretamente (e, usualmente, de forma sobrenatural) nos eventos da existência humana, como também pode transmitir revelações e segredos cósmicos através de profetas, sonhos e experiências religiosas em geral.

Creem em uma causa primeira: sim.
Creem em um Criador pessoal: sim.
Creem em intervenções sobrenaturais: quase sempre sim.
Creem em revelações divinas e dogmas: sim.

Deísmo
O deísmo tem suas raízes nos antigos filósofos gregos e, sobretudo, na doutrina aristotélica da “primeira causa”. Voltou a florescer no Iluminismo, sobretudo através de Galileu, Newton, Voltaire e outros. No deísmo admite-se que o Cosmos não é obra do acaso, e que portanto deva existir um Criador. Porém, os deístas creem que é papel do homem se aproximar de Deus através da razão, e não o contrário. Em suma, os deístas negam as revelações divinas e têm uma concepção naturalista do Cosmos, usualmente negando também a possibilidade de intervenções sobrenaturais.
Os deístas creem em um relojoeiro que sabia enxergar muito bem, tão bem que arquitetou todo o Cosmos de forma magistral. Tão perfeita, que lhe é mesmo desnecessário intervenções específicas. Conforme disse uma vez Voltaire a uma senhorita: “Minha senhora, acredito em uma providência geral, mas não numa providência particular que salvou o seu pássaro que estava machucado”.

Creem em uma causa primeira: sim.
Creem em um Criador pessoal: geralmente sim.
Creem em intervenções sobrenaturais: quase sempre não.
Creem em revelações divinas e dogmas: não.

Panteísmo (ou “espinosismo”)
O panteísmo associa o conceito de Deus ao próprio Cosmos: a totalidade de todas as coisas no universo, na natureza. Einstein dizia que havia duas formas de se enxergar a vida: uma é pensar que não existem milagres, a outra é conceber tudo a sua volta como um milagre. Obviamente, Einstein queria dizer que as próprias leis naturais, a própria simetria e harmonia do Cosmos, eram em si mesmas um milagre persistente – ao menos para aqueles que tinham olhos para ver.
Essa concepção de Cosmos remonta novamente a Grécia antiga, sobretudo aos estoicos. E foi bebendo dessa fonte que Benedito Espinosa concebeu a Deus como “a substância que não pode criar a si mesma, mas que gerou tudo o mais a partir de si”. Esta é uma bela síntese para um questionamento ancestral, e exatamente por isso Espinosa é até hoje tão admirado (apesar de ter sido excomungado do judaísmo, sob a acusação curiosa de ateísmo).
Se no início de sua Ética Espinosa engendra o conceito de Deus de forma geométrica e precisa”, é preciso se aventurar no restante do livro para perceber que o filósofo holandês também acreditava que esse tal Deus era capaz de nos trazer profunda felicidade existencial, sobretudo quando alinhamos nossa intuição com a “vontade do Cosmos”. Era esse deslumbramento que Einstein sentia constantemente, ao desvelar os segredos da natureza.

Creem em uma causa primeira: sim.
Creem em um Criador pessoal: não.
Creem em intervenções sobrenaturais: não.
Creem em revelações divinas e dogmas: não.

Pandeísmo
O pandeísmo nasceu da fusão do panteísmo com o deísmo, e se trata de um concepção divina do Cosmos, que só pode ser compreendida através da razão.

Panenteísmo
O panenteísmo é um doutrina muito similar ao panteísmo, mas compreende que Deus é “o Cosmos e algo a mais”. Ou seja, que o universo está contido em Deus, mas Deus não se limita apenas ao universo.

Agnosticismo
Thomas Henry Huxley, um biólogo inglês, cunhou o termo “agnóstico” (do grego agnostos, “ausência do conhecimento”) em 1869, mas a essência do agnosticismo foi melhor desenvolvida pelo filósofo alemão Immanuel Kant. No agnosticismo, admite-se que a questão ancestral acerca da natureza exata da “primeira causa” não pode ser resolvida com base no conhecimento atual da humanidade, e talvez jamais venha a ser efetivamente solucionada. Geralmente isso significa apenas que os agnósticos se posicionam com ceticismo em relação à existência de Deus: não podem afirmar que existe, nem tampouco que não existe. Ou, como dizia Carl Sagan, um grande agnóstico: “a ausência da evidência não é a evidência da ausência”.
O agnosticismo possuí algumas vertentes interessantes: os fideístas creem que essa mesma questão da “primeira causa” realmente não pode ser resolvida pela razão, mas sim pela fé. Também é possível ser um agnóstico teísta – que crê em Deus, mas não crê que pode compreendê-lo; ou ainda, bem mais comum, um agnóstico ateísta – que não crê em Deus, embora tampouco afirme que não exista.
Se formos considerar a essência do ceticismo filosófico, para um cético só é mesmo possível ser um agnóstico, há menos que este cético tenha passado por experiências religiosas subjetivas, e que por conta delas tenha passado a crer em Deus.

Creem em uma causa primeira: geralmente sim, embora não saibam resolve-la.
Creem em um Criador pessoal: não (exceto no fideísmo).
Creem em intervenções sobrenaturais: não (exceto no fideísmo).
Creem em revelações divinas e dogmas: não (exceto no fideísmo).

Ateísmo
Em sua origem antiga, o ateísmo (do grego atheos, “ausência de Deus”) sempre foi um termo profundamente arraigado na religião, visto que usualmente significava a negação dos deuses e práticas religiosas locais. Claro que o ateísmo na antiguidade também poderia significar literalmente a descrença em todo e qualquer deus, mas esses casos eram muitíssimo raros. Mesmo grandes profetas e filósofos foram acusados de ateísmo, a despeito de sua óbvia crença em Deus ou em deuses, dentre eles contamos até mesmo Sócrates e Jesus Cristo.
Com o passar dos séculos e, sobretudo, com o aflorar das ciências naturais após o Iluminismo, o ateísmo em seu sentido de “descrença total em Deus” passou a ser cada vez mais comum. Teoricamente, aquele que se declara ateu na era moderna estará afirmando categoricamente que “não existe um Criador”, e também geralmente poderemos adicionar à afirmativa: “tampouco existe uma causa primeira com objetivo definido”. Ou seja, um ateu moderno não vê sentido ou desígnio divino no universo.
Mas esse tipo de definição do parágrafo acima não é compartilhado por todos, tampouco pelos próprios ateus – e há muitos ateus que se colocam, em realidade, como agnósticos, ou agnósticos ateístas (ver acima), apesar de se definirem “apenas como ateus”. Esse tipo de afirmação gera muitos desentendimentos, pois há muitos teístas e mesmo deístas que se sentem ultrajados com o fato de alguém se sentir na condição de afirmar que “não existe um Criador nem um sentido para a causa primeira” – muito embora nem sempre seja o que alguém que se autointitule ateu queira realmente dizer.
Em suma, há muitos agnósticos que gostam de se dizer ateus apenas para se colocarem ainda mais claramente em oposição às concepções teístas, sobretudo aquelas originárias das doutrinas dogmáticas.

Creem em uma causa primeira: por vezes sim, embora em todos os casos neguem um sentido ou desígnio divino no universo.
Creem em um Criador pessoal: não, e por vezes podem ter “certeza que não existe Criador algum”.
Creem em intervenções sobrenaturais: não.
Creem em revelações divinas e dogmas: não.

Antiteísmo
O antiteísmo (alguns chamam de neo ateísmo ou novo ateísmo) é uma vertente moderna do ateísmo que não se contenta em apenas se declarar ateísta, como critica veementemente o teísmo e, por vezes, atua de forma militante, tentando convencer as pessoas de que Deus não existe. Embora os antiteístas provavelmente entendam a si mesmos como “evangelizadores da ciência e do racionalismo”, eles na prática lembram muito mais uma versão distorcida dos próprios evangelizadores teístas.

***

Observação (1): É preciso sempre lembrar que a ciência não é ideologia ou doutrina, não é materialista nem espiritualista, monista ou dualista, teísta ou ateísta. A ciência é tão somente o conhecimento da natureza detectável, e o estudo de seus mecanismos. Há muitos grandes cientistas da história que eram teístas, deístas, panteístas, etc.

Observação (2): Embora um teísta fundamentalista provavelmente me julgue um ateu, e um antiteísta radical provavelmente me julgue um teísta, eu na realidade estou situado mais ou menos entre o Panteísmo, o Deísmo e o Pandeísmo.

***

Vídeo
Este artigo serviu de base para o roteiro do vídeo O que é Deus para você? no canal Conhecimentos da Humanidade do YouTube.

» Veja também o artigo Monismos e dualismos, que trata da natureza da mente

Crédito da foto: Brian David Stevens/Corbis

Marcadores: , , , , , , , , , , , , , , ,

18.9.11

Filhos da eternidade, parte 1

Texto de Arthur Schopenhauer em “Da morte, metafísica do amor, do sofrimento do mundo” (Ed. Martin Claret), tradução de Pietro Nassetti – Trechos das pgs. 50 a 54. Os comentários ao final são meus.

A convicção profunda da indestrutibilidade de nosso ser pela morte, que cada um traz no fundo de seu coração, como atestam os escrúpulos de consciência sempre invitáveis quando se aproxima o derradeiro instante, essa convicção, como disse, depende fortemente da consciência de nossa natureza primitiva e eterna. Por isso, assim a exprime Spinoza: sentimus experimurque nos aeternos esse (“sentimos e experienciamos que somos eternos”). Com efeito, por se acreditar imperecível, o homem de razão se crê como se não tivesse tido começo, como eterno; em uma palavra: independente do tempo [1]. Quem, ao contrário, se toma por um ser que surgiu do nada, tem de pensar também que retornará ao nada; pois imaginar que uma infinidade de tempo tivesse transcorrido antes que ele fosse, mas, depois, uma segunda infinidade tenha começado, durante a qual ele não cessará jamais de ser, é um pensamento monstruoso [2].

De fato, o fundamento mais sólido de nossa eternidade é a antiga sentença: ex nihilo nihil fit, et in nihilum nihil potest reverti (“Do nada, nada se cria, e nada pode ser revertido ao nada”). Portanto, Theophrastus Paracelsus diz muito acertadamente: “Minha alma nasceu de alguma coisa; por isso ela não irá para o nada, uma vez que ela vem de algo”. Ele dá a verdadeira razão. Mas para quem considera o nascimento do homem como o seu começo absoluto, a morte tem de ser o fim absoluto; pois os dois são aquilo que são no mesmo sentido: por conseqüência, só se pode pensar a si mesmo como imortal, se se pensar como não-nascido, e no mesmo sentido. O que é o nascimento, é isso também o que é a morte, na sua natureza e no seu significado; é a mesma linha traçada em duas direções. O primeiro é um real surgir do nada, e a segunda é também uma efetiva aniquilação. Mas, na verdade, a eternidade do nosso ser é o único modo de pensar a imutabilidade; esta, portanto, não é temporal. A hipótese de que o homem é criado do nada conduz necessariamente à de que a morte é seu fim absoluto [3].

[...] Quem concebe sua existência apenas como simples efeito do acaso, sem dúvida deve temer perdê-la na morte. Quem reconhece, pelo contrário, que mesmo que apenas no geral essa existência repousa sobre uma necessidade originária, não irá acreditar que ela seja limitada a um curto espaço de tempo, mas antes estenderá a todos os momentos a duração dessa lei necessária que produz uma obra assim maravilhosa. Ora, para conhecer a própria existência como necessária, o homem deve considerar que até o momento preciso em que existe já decorreu um tempo infinito, preenchido de uma infinidade de mudanças e que, a despeito destas, ele existe: a série inteira de todos os estados possíveis já se esgotou, sem que sua existência pudesse ser suprimida. Se ele pudesse em algum momento não ser, então agora já não seria [4].

[...] A existência, com efeito, deve ser inerente, já que se mostra independente de todos os estados possíveis produzidos pela cadeia causal: pois esses estados encontraram a sua realização, e a nossa existência se manteve tão inabalável quanto o raio de luz pelo vento tempestuoso que ele atravessa [5]. Se, por suas próprias forças, o tempo pudesse conduzir-nos a um estado bem-aventurado, então lá já estaríamos desde há muito tempo, pois um número infinito de séculos se estende atrás de nós. Mas se também o tempo pudesse conduzir-nos a destruição, então há muito tempo já não seríamos mais. Disso que existimos agora, segue-se, pensando bem, que devemos ser em todos os tempos. Pois nós mesmos somos o ser que o tempo recolheu em si para preencher sua própria vida: por isso esse ser preenche a totalidade do tempo, tanto o presente e o passado quanto o futuro, de igual modo, e nos é tão impossível sair da existência quanto do espaço.

Considerando bem as coisas, é inconcebível que o que existe uma vez em toda a força da realidade reduza-se em algum momento ao nada e, então, não deva ser mais, durante um tempo infinito. Disso, relativamente aos cristãos, provém a doutrina da ressurreição universal; e relativamente aos hindus, a doutrina da criação incessante do mundo por Brama, sem contar os dogmas semelhantes dos filósofos gregos. O grande mistério do nosso ser e do nosso não-ser, cuja explicação suscitou esses e outros dogmas de mesmo gênero, tem por fundamento último que a mesma coisa que, objetivamente, constitui uma série infinita de tempo é, subjetivamente, um ponto, um presente indivisível e sempre existente; mas quem compreende isso? Kant expôs essa verdade com toda a clareza na sua imortal doutrina da idealidade do tempo e da única realidade da coisa-em-si; pois dessa doutrina resulta que a essência própria das coisas, do homem, do mundo, reside, durável e permanentemente no Nunc stans, sempre fixo e imóvel, e que a sucessão dos fenômenos e eventos é uma simples conseqüência da concepção que fazemos dessa essência por meio da forma de nossa intuição, através do tempo [6].

Por conseqüência, em vez de dizer aos homens: “Vós surgistes pelo nascimento, mas sois imortais”, dever-se-ia ser-lhes dito: “Não, vós não sois um nada”, e ensinar-lhes a entender essa palavra nos sentido da sentença atribuída a Hermes Trimegisto: quod enim est, erit semper (“Pois o que é, sempre será”). E se mesmo nesse caso não se é bem-sucedido, se o coração angustiado entoa o seu velho canto lamentoso: “Eu vejo todos os seres surgirem do nada pelo nascimento, e novamente caírem nesse nada depois de um curto período; do mesmo modo, minha existência, agora situada no presente, logo não será mais que um passado longínquo, e eu serei nada!”; então a resposta certa a dar é: “Não existes? Não o tens em ti agora o presente inestimável, ao qual todos vós, filhos do tempo, aspirantes com tanto ardor – não te ocupas mais agora e efetivamente? E compreendes como chegaste a ele? Conheces bem os caminhos que te conduziram a ele, para que pudesses reconhecer que eles deveriam estar fechados pela morte? A existência do teu seu, depois da destruição do teu corpo, te parece impossível e inconcebível: mas te é mais incompreensível do que tua existência atual e de como chegaste a ela? Por que deverias duvidar que os caminhos secretos que te foram abertos para este presente atual não o estariam também para todo o presente a vir?”.

» Na continuação, a metempsicose da vontade.

***

[1] É preciso analisar o filósofo alemão dentro de do contexto de sua própria filosofia: ele defendia que existe uma espécie de “força da vida”, uma certa “vontade da natureza”, que nos preenche e de certa forma comanda nosso desejo de sobrevivência da espécie. Para a natureza, importa mais a espécie do que o indivíduo. Nossa “intuição de eternidade” nos liga a nossa essência imperecível e eterna, pois que está fora da dimensão temporal. Equivale dizer que existimos sempre, e que a vida individual é como uma espécie de caminho ilusório que percorremos enquanto não nos identificamos como nossa essência eterna. Obviamente há muito do budismo em seu pensamento.

[2] Para Schopenhauer a possibilidade de não termos existido antes de nosso nascimento é tão absurda quanto a possibilidade de não mais existirmos após a morte. Para chegar a tal conclusão ele se vale de uma lógica muito próxima a de Espinosa, quando este diz que “uma substância não pode criar a si mesma”. Ao longo do texto ficará melhor explicado.

[3] Conforme muitos cientistas modernos, Schopenhauer era um eternalista. Ao contrário dos materialistas científicos, entretanto, ele acreditava que certas potencialidades dos seres eram passadas adiante de geração em geração, enquanto que suas individualidades (ou personalidades) era descartadas, principalmente por se tratarem apenas de ilusões criadas pela consciência para a vida em sociedade. Esse tipo de abordagem é bastante similar a que eu desenvolvi para a reencarnação (também defendida pelo filósofo alemão, como veremos, embora com outro nome).

[4] Caso se entenda o tempo como uma parte conjunta do espaço-tempo (e Einstein assim o provou), e se entenda que neste momento somos parte dele, imaginar que um dia não fomos, ou nalgum dia não mais o seremos, é o mesmo que imaginar que em certos trechos do tecido do espaço-tempo, ou seja, do universo como um todo, existem “rachaduras” onde nada existe: e idéia é absurda por si só! No entanto, todos sabemos que nossa compreensão do tempo é ainda hoje tão ou mais precária quanto a compreensão do espírito.

[5] Uma grandiosa analogia puramente intuitiva, visto que estava muito distante da compreensão das modernas teorias científicas.

[6] Uma explicação um tanto simplificada seria imaginarmos uma roda de carroça, com seu eixo e seu aro: o mundo objetivo, temporal, ocorre no aro que gira. Mas todas as coisas temporais emprestam a essência que vem do eixo, imóvel. Somente através de nossa intuição, subjetiva, conseguimos perceber o eixo – o que está fora do tempo, a eternidade.

***

Crédito da imagem: Wikipedia

Marcadores: , , , , , , , , , , ,

14.7.11

The art

(translated by the author from the orginal portuguese article, “A arte”)

What`s the art? That`s a question as old as the human sensibility. By the time that the very first man, with his primal intelligence, observed a tree and noticed on it something more than a stem that holds leafs and makes shadows against the sunlight, the humanity have started to question herself what`s that "something more". From where it entered us? What exactly does it provoke on us? What`s it’s function?

The art sensibilizes… We can`t see it with our eyes, we can`t hear it with our ears, nor we can sense it with any other corporeal sense. The art is another member of the universal forces. Immaterial, invisible, eternal. It’s the force which sensibilizes and wakens the man for the spiritual world, cause we can only really "see the art" with our own soul.

Kandinsky managed to comprove this teory on his beautiful study about the art`s spiritual essence: "The soul is a piano with numerous keys". The sensible man, while facing the art of creation, is touched by the sublime hands of the Nature, and feel himself quite satisfacted with the synphony of life, the unique universal song.

Yes, that`s the ultimate and fundamental function of art. But how many difficulties men have to perceive it!

From the ancient ages on the caverns, the art had been borned already linked to practical and material functions: The painting and sculpture served to just illustrate the world, the music served for the festivals, the architecture for the mere construction of safe buildings, the dance for the passion, the literature for the storytelling and registration of facts, the poetry for the registration of emotions and feelings... This to cite the faculties whose are intimate linked to the art.

However, in reality, the real art, the art on itself, pure and simple, have always influenciated every material creation. And have always whispered to the hart of mankind: "I`m inside of you, but you aren`t on me. You can`t create me, but I will be always present on every creation you make. And, the more sensible and sincere you are on the act of creation, more of me you will receive… And much more sublime will be your creation."

Where the material function of art ends, starts it’s real function: To play the keys of the souls of men. Where the imitation of the material world ends, starts the imitation of the spiritual one. Where the outside nature ends, starts the inside one. Where the reason falls, the sensibility raises up.

The art isn`t rational, it does not have a determined process, nor an objective to be reached. Like the german philosopher, Immanuel Kant, said: "The art is the universal without concept." Yes, to see the art is to feel, carefree, the enormous force that did create and that mantains all existance… Happy the ones whose, from time to time, forget a little about the tough journey to just sit and observe the world. Cause those ones will be really resting in peace, and how many energy they will be earning to continue determined and strong on their lives! They will be in contact with the supreme love of Nature, the love which is everywhere, and moves everything. The force which moves the world and which, while noticed, sensibilizes the hart and refuels the soul. Happy the ones whose live this way, cause those ones live with art.

It’s up to the artists to search hard for the art, search for their so beloved fountain of inspiration. But very few actually discovered that the art is everywhere, it’s the art who chooses the artist, and not the artist who chooses to be an artist! The art of every artist must come from deep inside his soul, his heart. It’s up to the artist to draw everything which he can see and feel of the world, and to study those things first inside yourself, for then, and only then, give his own vision and pass his own message… Not every artist will pass good messages, but only those really sincere to his own feelings will have the power to sensibilize.

As great is the sensibility of the artist, as more open will be his vision of the world, and as more great will be his contact with the art on itself. Cause the art is everywhere: Happy the artist who notices that the water serves for much more than to relieve our thirst, the winds for much more than to agitate the leafs of the trees, the thunder for much more than to scare the children, the bird for much more than to cause as envy, the stars of the nights for much more than to orientate us on the darkness, the hand for much more than to hold a pencil or to play a guitar, the mind for much more than to make mathematical equations, and the spirit for more, much more than we can even imagine…

The artist`s greatest emotion isn`t the fame, the recognizement or the wealth. We can cite various geniuses of the history of the art whose have passed their lives on complete material misery. Yes, but those ones were much, much, spiritually rich… Cause the real artist is mad about the art, can`t stop to practice it, can`t live without it, won`t change it for nothing. And those are the real artists, men eternaly seduced by the sublime beauty of the song of life.

And why just the painters, musicians, writers and professionals of this genre are described as artists? If the art is on the world, and are artists everyone of those who live with art, we may have much more real artists on our world than we can imagine.

Like the ancient greek philosopher, Platho, wrote: "Just is the man who is useful to his state and does well his function". This is the real artist, the one who is content with what he is, and who is awaken for the real side of life. Who before being an artist, had observed the art. Who before creating for the others, had create for himself. Who instead of judging the world, had tried to discover his beauty. And discovered that the art has really a function, and a vital one: The function to teach the soul for the truth, and every wonderfull thing that came from it…

Finally, if in every being there`s a mirror which reflects the light of creation, on the real artist this mirror can only be more clean, more bright and more sublime.

***

Image credits : an giant replica of one of Kandinsky's paintings (Weilheim, Germany).

Marcadores: , , , ,

16.6.11

A arte

O que é arte? Essa é uma pergunta tão antiga quanto a sensibilidade humana. Desde que o primeiro homem, com sua inteligência primal, observou uma árvore e percebeu nela algo mais do que um tronco que sustenta folhas e faz sombra a luz do sol, a humanidade vem se questionando o que vem a ser esse “algo mais”. Por onde ele entrou? O que exatamente provoca em nós? Qual é sua função?

A arte sensibiliza… Não se vê com os olhos, não se ouve com os ouvidos, nem é sentida por qualquer outro sentido corpóreo. A arte é uma das forças universais. Imaterial, invisível, eterna. É a força que desperta o homem para o mundo espiritual, pois é tão somente com nosso espírito que vemos a arte.

Como pôde comprovar Kandinsky em seu belo estudo sobre a essência espiritual da arte: “A alma (espírito) é um piano de inúmeras teclas.” O homem sensível, ao deparar-se com a arte da criação, é manuseado pelas sublimes mãos do Pai, e transborda de regogizo com a sinfonia da vida, com a sublime canção universal.

Sim, essa é a derradeira e fundamental função da arte. Mas como é difícil aos homens percebê-la!

Desde a antiguidade nas cavernas, a arte já nasceu comprometida a ter uma função prática e material: a pintura e a escultura serviam para ilustrar o mundo, a música para as festas, a arquitetura para construção, a dança para as paixões, a literatura para contar histórias e registrar os fatos, a poesia para registrar os sentimentos… Isso para citar as faculdades intimamente ligadas a arte (depois eu explico).

Porém, em realidade, a arte verdadeira, a arte em si, pura e simples, sempre influenciou toda criação material. E sempre soprou ao coração dos homens: “Eu estou em você, mas você não está em mim. Você não me cria, mas eu estou naquilo que você pode criar. E quanto mais sensível e sincero você for ao criar, mas de mim poderá aproveitar… E tão mais sublime será tua criação.”

Aonde acaba a função material da arte, inicia sua verdadeira função: a de tocar as teclas do espírito. Onde acaba a imitação do mundo material, inicia a imitação do mundo espiritual. Onde acaba a natureza exterior, inicia a natureza interior. Onde acaba a razão, inicia a sensação.

A arte não é racional, não tem um processo determinado nem uma finalidade a ser alcançada. Como disse o filósofo alemão, Immanuel Kant: “A arte é o universal sem conceito.” Sim, ver a arte é sentir despreocupadamente a enorme força que criou e sustenta toda existência… Felizes aqueles que, de tempos em tempos, esquecem um pouco do tempo e da dura caminhada para sentar e observar o mundo. Pois esses estarão verdadeiramente descansando, e quanta energia estarão ganhando para continuarem firmes e fortes na vida! Estarão em contato com o amor da criação, o amor que está em tudo e a tudo movimenta. A força que move o mundo e que, quando percebida, sensibiliza o coração e reabastece o espírito. Bem-aventurados os que vivem assim, pois esses vivem com arte.

Cabe aos artistas buscar pela arte, buscar pela sua tão amada fonte de inspiração. Mas poucos se deram conta que a arte está em tudo, é a arte que escolhe o artista, e não o artista que escolhe ser artista! A arte de cada artista deve brotar de seu coração, do seu interior. Cabe ao artista sugar tudo o que vê do mundo, e estudar as coisas dentro de si mesmo, para então, só então, dar a sua visão e passar a sua mensagem… Nem todos passam boas mensagens, mas só os que são sinceros quanto a seus sentimentos podem sensibilizar.

Quanto maior a sensibilidade do artista, menos borrada estará sua visão do mundo, e maior será seu contato com a arte em si. Pois a arte está em tudo: feliz o artista que percebe que a água serve para muito mais do que aliviar a sede, o vento para muito mais do que agitar as copas das árvores, o trovão para muito mais do que assustar as crianças, o pássaro para muito mais do que nos causar inveja, o céu estrelado para muito mais do que nos orientar na escuridão, a mão para muito mais do que segurar um pincel ou tocar um violão, a mente para muito mais do que efetuar contas matemáticas, e o espírito para muito, muito mais do que podemos imaginar…

A maior emoção do artista não é a fama, o reconhecimento ou a riqueza. Podemos citar diversos gênios da história da arte que passaram sua vida em completa miséria material. Sim, mas esses eram muito, muito ricos espiritualmente… Pois o verdadeiro artista ama loucamente a arte, não pode parar de praticá-la, não vive sem ela, não a troca por nada. Esses são os artistas, homens seduzidos eternamente pela sublime beleza da canção da vida.

E porque só os pintores, músicos, escritores e profissionais do gênero são considerados artistas? Se a arte está no mundo, e são artistas todos os que vivem com arte, porque o cozinheiro, que cozinha com amor, e se delicia quando agrada a gregos e troianos com seu tempero, não seria artista? Porque o médico, que por amar demais ao próximo dedica sua vida a cura do sofrimento alheio, não seria artista? Porque o oficial do exército, que daria a vida para defender sua pátria contra a injustiça e a guerra, não seria artista? Porque o motorista de ônibus, que zela com sua perícia para que todos os seus passageiros tenham uma viagem tranquila, não seria artista? Porque o jogador de futebol, que dá o sangue e o suor pela competição justa, não seria artista? Porque o lixeiro, que não se importa com o odor nem com a calúnia para poder servir a cidade, não seria artista?

Como falou o filósofo grego Sócrates: “Justo é o homem que é útil ao estado e desempenha bem sua função.” Esse é o verdadeiro artista, aquele que se contenta com o que é e está desperto para o lado verdadeiro da vida. Que antes de ser artista, observou a arte. Que antes de criar para os outros, criou para si mesmo. Que ao invés de julgar o mundo, tentou descobrir sua beleza. E descobriu que a arte tem sim uma função, e uma função vital: a de educar o espírito para a verdade e tudo de maravilhoso que provêm dela…

E se em todos os seres há um espelho que reflete a luz da criação, no verdadeiro artista esse espelho só poderá ser mais limpo, mais brilhante e mais sublime.

***

Esse texto é um dos capítulos do meu livro "Do Universo ao Universal" (1998), como nessa época ainda cursava Belas Artes na UFRJ, estava particularmente envolvido com o tema.

Crédito da imagem: uma réplica gigantesca de uma obra de Kandinsky (Weilheim, Alemanha).

Marcadores: , , , , , ,