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2.12.14

É preciso transver o mundo

“A expressão reta não sonha.
Não use o traço acostumado.
A força de um artista vem das suas derrotas.
Só a alma atormentada pode trazer para a voz um formato de pássaro.
Arte não tem pensa:
O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.
É preciso transver o mundo.”

O poeta responsável por tais linhas é brasileiro, nascido nalgum canto do Pantanal (real e/ou inventado), e só começou mesmo a fazer sucesso perto da terceira infância, em seus sessenta e poucos anos. Mesmo assim, diz que nunca viveu de poesia, já que a poesia é uma coisa inútil. Manoel de Barros viveu a poesia em seu estado mais bruto: o sentimento puro. Manoel se deleitava em ser um vagabundo para o mundo, e um manobrista da linguagem, um fraseador, um descascador dos frutos das emoções. Este documentário fala sobre tais cascas:

Só Dez Por Cento é Mentira (2008) é um original mergulho cinematográfico na biografia inventada e nos versos fantásticos do poeta sulmatogrossense Manoel de Barros. Alternando sequências de entrevistas inéditas do escritor, versos de sua obra e depoimentos de “leitores contagiados” por sua literatura o filme constrói um painel revelador da linguagem do poeta, considerado o mais inovador em língua portuguesa. Só Dez Por Cento é Mentira ultrapassa as fronteiras convencionais do registro documental. Utiliza uma linguagem visual inventiva, emprega dramaturgia, cria recursos ficcionais e propõe representações gráficas alusivas ao universo do poeta.

O documentário que trazemos abaixo é extraordinário, e vai muito além de uma mera entrevista com o poeta que recentemente encerrou seus dias no Mato Grosso do Sul; se trata de uma obra altamente original que transpira as emoções genuínas da infância e da vida pacata, tão presentes nos poemas de Manoel.

No entanto, um dos comentários do vídeo no YouTube retrata o conjunto da obra melhor do que qualquer texto que eu pudesse lhes trazer aqui. O comentário é de Camelo Bike Tour:

Estou em luto, mas não triste.

O meu poeta favorito que usava borboletas, gostava de vazios, pedras, rios e sapos, seguiu quinta-feira passada seu caminho (13/11/14), tornou-se aquilo que tanto amou – virou natureza.

O poeta administrava o à-toa como ninguém e possuía outras habilidades inigualáveis – era árvore, sabia como amarrar o tempo no poste, fotografar o silêncio, e quase sempre achava o que não procurava. Ele tinha olhar de passarinho, imagine!

Morava em quintais, preferia coisas desimportantes, e talvez por isso tenha conseguido perceber o óbvio, que de tão manifesto ninguém enxerga, como na frase que eu adoro – “Sapo é um pedaço do chão que pula.”

Com praticamente 98 anos, completaria agora dia 19 de dezembro, costumava dizer que só tinha tido infância e, portanto, tudo o que escrevia era “apenas” sobre ela. Ele sempre soube que os objetos não se restringiam a seu significado literal, ao rigor da letra – “palavras que me aceitam como sou, eu não aceito”. “As coisas não querem ser vistas por pessoas razoáveis”, “Há várias maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira”, dizia.

Não posso estar triste, afinal nasci no mesmo país deste artesão das palavras, um gênio contemporâneo que se dizia poeta em tempo integral – “Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às seis horas da tarde”.

Manoel de Barros usava a palavra para compor o silêncio que sempre fará muito barulho dentro de mim. Estou contente pois ele voltou à Gaia, à terra, voltou a ser poeira de estrela e como tal se espalhará por todos os lugares.

Muito obrigado, por fazer tanto e ainda se achar incompleto, poeta!

“O ser biológico é sujeito à variação do tempo, o poeta não” (Manoel de Barros)

***

Crédito da foto: Divulgação/Família Barros

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18.5.10

Soberania

Texto de Manoel de Barros em "Memórias Inventadas - A Terceira Infância" (Editora Planeta), Tomo X

Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo do vento escorregava muito e eu não consegui pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado e disse que eu tivera um vareio da imaginação. Mas que esses vareios acabariam com os estudos.

E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.

E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria das idéias e da razão pura.

Especulei filósofos e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande saber. Achei que os eruditos nas suas altas abstrações se esqueciam das coisas simples da terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo — o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase:

A imaginação é mais importante do que o saber.

Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu olho começou a ver de novo as pobres coisas do chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as próprias asas. E vi que o homem não tem soberania nem pra ser um bentevi.

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