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26.2.19

Ocultaria 2019

Evento de Ocultismo e Magia traz de volta a importância do Conhecimento.

No dia 20 de julho, no hotel Mercure Jardins, acontecerá a versão 2019 do evento OCULTARIA, que promete reunir grandes nomes do ocultismo e magia do Brasil para um dia de bate-papo e aprendizado. Nomes ilustres como Marcelo Del Debbio (maçom e autor de livros como a Enciclopédia de Mitologia, Kabbalah Hermética e organizador do Hermetic Kabbalah Tarot, trabalho que virou referência na área de hermetismo e simbolismo no tarot), Nino Denani (escritor, palestrante, youtuber e mago hermetista), Lord A.’., Projeto Xaoz, Colégio Platinorum e Conhecimentos da Humanidade se reunirão para palestrar no evento.

A ideia do OCULTARIA é desmistificar o “mundo mágico”, deixando a informação mais acessível ao grande público, incentivando em todos a necessidade da tão falada “busca pelo conhecimento”, que todos falam, mas na prática é bem restrita.

Uma preocupação muito grande dos organizadores do evento é justamente o aparente descaso da sociedade com relação a aquisição de conhecimento: a internet está cada vez mais cheia de pessoas opinando sobre assuntos que desconhecem e preferem desconhecer em vez de buscar ter uma informação íntegra. O OCULTARIA é um movimento de resistência à essa onda, feito por pessoas que estão em diversos níveis sociais e culturais, atuando de forma silenciosa.

O evento é organizado pela Ordem do Grande Oriente Místico.

» Para se inscrever no OCULTARIA, acesse ogom.org/ocultaria2019/


Mais informações:

Data: 20/07/2019

Local: Mercure Jardins – Alameda Itu, 1151 – Jardins, São Paulo – SP, 01421-001 Telefone: (11) 3089-7555

Palestrantes:

Marcelo Del Debbio – Kabbalah Hermética

Projeto XAOZ – As vertentes Mágicas da humanidade e o Caoísmo

Lord A – In viso noctis: Mistérios do vôo noturno e do sonho lúcido

Colégio Platinorum – A visão Aeônica e suas chaves sistemáticas

Conhecimentos da Humanidade – (a decidir)

Nino Denani – O Hermetismo no dia-a-dia: a Tábua Esmeralda como ferramenta de ataque e defesa.


Fotos do OCULTARIA 2018:


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4.4.18

As grandes questões do ocultismo (tomo I)

Nada é tão escondido que não possa ser revelado através de seu fruto (Paracelso)


Hoje uma boa parte dos leitores do meu blog provavelmente conhecem alguma coisa de ocultismo, e alguns até se consideram ocultistas. Eu, entretanto, só vim conhecer melhor o ocultismo após cruzar no caminho com o meu amigo Marcelo Del Debbio. Através dele, percebi que o ocultismo era algo bem diferente do que se julga na chamada “opinião popular”. Ainda assim, mesmo tendo adquirido um conhecimento mais aprofundado do tema, eu ainda sinto que muitas vezes faltam consensos e sobram divergências quando as próprias vertentes ocultistas dialogam entre si.

Há gente que crê que ocultista é somente quem já chegou a praticar algum ritual vestindo mantos e empunhando espadas ou adagas, há magos do caos que acham isso tudo uma besteira, enquanto há leitores da teosofia que se dizem ocultistas porque seguem os ensinamentos da Madame Blavatsky; há quem diga que se trata de uma ciência, há quem diga que é religião, há quem diga que não é nenhum dos dois... Ora, eu me pergunto se essa confusão toda não contribuí ainda mais para o descrédito do chamado ocultismo na opinião popular.

No fim das contas, talvez seja mais proveitoso tentar definir o ocultismo não pelo que ele é, mas pelo que ele não é:

Não, o ocultismo não é “coisa do Demônio”.
Não há associação mais direta quando mencionamos o termo “ocultismo” a um leigo do que ao “Demônio”. Tudo bem que contribuíram para isso muitos filmes e contos de terror ao longo da história, mas é estranho de se pensar: muitas vezes, até mesmo quem não acredita na existência de um Demônio, de um “Senhor de todo o mal”, ainda assim crê piamente que ocultismo e satanismo (seja o que isso for) são mais ou menos a mesma coisa.

A crença num Demônio Mal adversário de um Criador Bom pode ser traçada ao zoroastrismo, e sua presença no cristianismo se deve muito a antiga crença de Agostinho de Hipona, o grande doutor da Igreja, nas doutrinas de Mani (que era admirador, por sua vez, da dualidade zoroastrina). Agostinho, é claro, afirma ter deixado de lado suas crenças pagãs, assim com a sua antiga vida boêmia, mas uma coisa é afirmar “eu renego Mani”, outra é ter a absoluta certeza de que nada, mesmo que inconscientemente, foi transportado para o seu próprio pensamento. Como sabemos, Agostinho provavelmente esteve enganado sobre si mesmo nesse ponto.

No entanto, ainda que você mesmo creia nesse Demônio, talvez lhe surpreenda que o próprio criador do satanismo não acreditava nele. É difícil saber se as histórias acerca da vida de Anton LaVey são verdadeiras, pois ele mesmo admitiu ter mentido bastante (e, de certa forma, em boa parte o próprio satanismo de LaVey é uma grande zoação), mas a sua biografia não autorizada (e, portanto, mais fidedigna) nos conta que ele trabalhou alguns anos de sua juventude como organista (tocador de órgão) em bares e prostíbulos dos EUA nos anos 1940. Ora, ocorre que, nos mesmos locais onde ele foi contratado para tocar aos sábados, também achou emprego para tocar aos domingos, em cultos e espetáculos cristãos...

Então ele percebeu que os mesmos ditos cristãos que juravam seguir os preceitos de sua religião aos domingos, menos de 24 horas antes estavam pagando prostitutas nas casas noturnas em que LaVey tocava. Assim, o seu satanismo não surgiu nem de uma adoração a algum Demônio nem propriamente de um ódio intrínseco ao cristianismo: LaVey simplesmente não suportava era a hipocrisia de muitos dos cristãos da sua época.

Fosse hoje em dia, talvez ele já estivesse contente em criar uma página de memes zoando o cristianismo nas redes sociais. Mas, já lá pelos anos 1960, a sua forma de extravasar esse sentimento foi criando uma espécie de “religião zoeira”; que, no entanto, trazia muitos ensinamentos profundos retirados de vertentes ocultistas mais antigas que defendiam o chamado “caminho da mão esquerda” (do qual ainda falaremos mais para frente).

Nada disso, no entanto, tem qualquer coisa a ver com um Demônio real, muito menos com “pactos de venda de alma” e baboseiras desse tipo. Que há maldade no mundo, disso não temos dúvida; mas essa maldade está no coração dos seres (encarnados ou não), e não numa espécie de “bode expiatório cósmico”, condenado a ser a fonte de toda maldade pela eternidade. Nem no zoroastrismo antigo havia crença tão infantil...

No entanto, se formos considerar os demônios como aspectos negativos de nós mesmos, então um de seus grandes estudiosos, segundo consta na tradição judaico-cristã, foi justamente o Rei Salomão (sim, aquele carinha mesmo, lá da Bíblia). Uma das tradições magísticas mais conhecidas é a Ars Goetia, onde se estuda o sistema, dado de presente a Salomão pelos anjos, que lhe conferia poder e controle sobre os principais demônios conhecidos. Assim, se o ocultismo também lida com demônios (e não com “o Demônio”), saiba que isso vem desde Salomão.

Não, o ocultismo já não é mais um “conhecimento vedado”.
Segundo Del Debbio, a origem dos grupos ou ordens onde algum conhecimento precioso era “guardado” do resto das pessoas ocorreu ainda na época da construção das pirâmides, e perpassou séculos e séculos onde os segredos da construção de castelos, fortalezas, barcos, juntamente com a forja das armas e armaduras de metal, eram antes de mais nada questões militares, que tocavam a própria segurança de reinos e países, da mesma forma como até hoje os segredos para a produção de armas nucleares são vedados a maior parte das nações.

Ocorre que, nos primórdios da humanidade, a ciência, a filosofia e a religião ainda eram como “uma coisa só”, e é natural imaginar como os mesmos grupos que guardavam os segredos da construção de templos religiosos, por exemplo, guardavam igualmente os segredos de seus rituais mais profundos. Além disso, é preciso lembrar que durante boa parte de nossa história a grande maioria da humanidade foi iletrada, analfabeta. Os eclesiásticos tampouco ajudavam: foi somente em 1534, por exemplo, que uma tradução da Bíblia para o alemão alcançou o grande público, graças ao reformador Martinho Lutero. Até a Reforma, não era do interesse da Igreja Católica ter o seu maior livro sagrado acessível à leitura da maior parte da população. Por que será?

Foi também devido às perseguições da Igreja na Europa que boa parte das ordens secretas que sobreviveram até os dias atuais foi inicialmente formada. Elas não podiam simplesmente divulgar certos conhecimentos a qualquer interessado, não somente pela necessidade de um estudo anterior para que o leigo tivesse condições apropriadas de interpretar aqueles conhecimentos, como também pelo fato de que havia vários “olheiros” da Inquisição prontos para enviar qualquer infiel pra fogueira.

Felizmente, a humanidade evoluiu e, a despeito de suas mazelas, ao menos o advento da era racional-científica, desde meados do século XIX, acabou trazendo uma liberdade muito maior para o tráfego do antigo conhecimento oculto. Está certo que hoje esse tipo de conhecimento é considerado uma espécie de “heresia irracional” pela Academia (que esqueceu que foi graças a ele que a ciência moderna deu o seu grande salto, quando Copérnico e Galileu beberam nas fontes do hermetismo), mas ao menos ela não manda seus hereges para a fogueira – se contenta em ridicularizá-los por “falta de provas”, somente.

Hoje sites, blogs e canais do YouTube falam abertamente de ocultismo, e anunciam suas ordens e eventos para os que quiserem praticá-lo de fato. Porém, mesmo antes da era da internet, tal tipo de conhecimento já vinha sendo aberto ao grande público, passo a passo, sobretudo através da literatura. Desde Aleister Crowley ao próprio Alan Moore, exemplos não faltam.

Vivemos na era em que Baphomet é encontrado em imagens na internet associado ao Homer Simpson. É um tempo onde há tanta, tanta informação disponível, que não há mais real necessidade de se ocultar nada: o próprio mecanismo da web faz com que somente aqueles realmente curiosos, preparados ou não, encontrem o ocultismo.

O grande problema está, evidentemente, em se tratar tudo isso como uma grande brincadeira. Em ser um “satanista” somente para irritar os seus pais e “chocar a sociedade”; ou pior, em crer realmente em “contratos com o Demônio”: tudo isso demonstra que não basta saber ler para ser alfabetizado nos assuntos da alma. É preciso interpretar o mundo e, sobretudo, o seu próprio interior. Isso nenhum site, nenhum vídeo topzera do YouTube poderá fazer por você – e é justamente por isso que ainda há espaço para as ordens nos dias de hoje, ainda que elas não precisem mais ser totalmente secretas. Elas existem para auxiliar o verdadeiro caminhante.

Não, nem todo ocultista é “charlatão”.
De fato, a maioria não é. O ocultismo em grande parte trata dos assuntos da alma, das questões internas, da nossa interpretação do mundo, da nossa própria mente. A grande maioria dos alquimistas jamais acreditou realmente que poderia verter chumbo em ouro, mas acreditava na realidade na transmutação da alma ignorante e animalesca num ser apto a refletir a luz do Alto, num ser que constrói em si o seu próprio tesouro.

É muito fácil chamar Baphomet, Pã ou Cernunnos de demônios sem jamais ter se dignado a pesquisar 30 minutos na web acerca deles. É muito fácil associar os rituais de cura e outros efeitos medicinais ao chamado efeito placebo, sem saber explicar ao certo o que diabos ele é. É muito fácil colocar o tarot e a astrologia no mesmo saco dos “signos de jornal” e dos “trago a pessoa amada em 3 dias” sem antes buscar conhecê-los mais a fundo, nem que seja para entender melhor porque grandes homens e mulheres de nossa história o utilizavam para o seu processo de autoconhecimento.

É claro que existem charlatões no ocultismo, sobretudo pelo fato de que ninguém sabe ao certo definir o que é exatamente o ocultismo. Mas, se tem uma coisa que o verdadeiro ocultismo não é, é charlatanismo.

» No tomo II: o caminho da mão esquerda; o caminho da mão direita.

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Crédito das imagens: [topo] Rembrandt (A Festa de Belazar); [ao longo] Roe Mesquita.

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13.1.18

Papo na Encruza: fui convidado para falar de Tarot

O Papo na Encruza é um podcast apresentado pelo pessoal do blog Perdido em Pensamentos: Douglas Rainho, Luiz Guenca, Roe Mesquista e Luciana Fidelis. Nele eles tratam quinzenalmente de diversos assuntos ligados a espiritualidade em geral, com foco em Umbanda e Magia.

Por exemplo, eles já falaram de Yeshuah, uma das maiores HQs de todos os tempos, diretamente com o seu autor, Laudo Ferreira; também já fizeram um excelente podcast com o Léo Lousada do canal Conhecimentos da Humanidade no YouTube, quando falaram de Kabbalah e Árvore da Vida. Desta vez, no entanto, o tema foi o Tarot:

O primeiro programa de 2018 está muito especial! Estamos falando sobre um dos mais populares oráculos e também uma das mais populares ferramentas de magia, o Tarot. Para não falarmos só bobagens chamamos dois especialistas, Raph Arrais, poeta, filósofo, tradutor e criador do blog Textos para Reflexão e a Professora Ediléia Diniz, Mestra em Ciências da Religião, Oraculista e professora de teologia e de tarô.

Este episódio foi transmitido no dia 12 de Janeiro de 2018, às 21 horas. Ouça o episódio gravado aqui:

Observações

1. Sobre o Tarot da Reflexão
Para quem não sabe, o Roe Mesquita é o ilustrador e criador, junto comigo, do Tarot da Reflexão. Durante diversos trechos do podcast falamos mais sobre como começou o projeto, e como está o andamento.

2. Sobre eu ser um "especialista em Tarot"
Quando vi que estavam me considerando um "especialista" em Tarot, escrevi este texto abaixo como um guia para tentar falar durante o podcast. Se você já ouviu ele inteiro deve ter percebido que não falei tudo, mas consegui falar boa parte do conteúdo:

Bem eu devo dizer que não sou nenhum especialista em Tarot, mas também nem sei se alguém é.

Tem gente, como o Constantino Riemma, autor do site Clube do Tarô, que é sem sombra de dúvida uma verdadeira autoridade mundial em história do Tarot.

Tem também gente como meu amigo Marcelo Del Debbio, que é uma das pessoas que mais entende da relação dos diversos baralhos de Tarot com as diversas ordens iniciáticas e com a Kabbalah Judaica e a Árvore da Vida. Quer dizer: faz essa mistureba toda e consegue trazer um resultado coerente.

Tem gente, como o Frater Goya, que é também uma autoridade imensa no Tarot do Aleister Crowley (Tarot de Thoth), na sua simbologia, como foi criado e tal...

Mas, assim, será que existe mesmo especialista em Tarot? Será que podemos fazer uma tese de mestrado ou doutorado em Tarot?

Eu vejo o Tarot muito como vejo a poesia. Tem um novelista inglês chamado John Galsworthy que um dia escreveu uma coisa eu que achei belíssima, e nunca mais esqueci. Ele disse que “as palavras são como cascas de sentimento”.

O que funciona na poesia é que, de algum jeito maluco, ela consegue trazer um sentimento embutido nas palavras. E isso já é meio que um milagre, se a gente for ver, porque é muito difícil descrever um sentimento. Dizer como exatamente amamos ou sentimos tristeza ou angústia e tal...

E o Tarot faz isso não com palavras, mas com imagens. E não com sentimentos, mas com arquétipos, com os grandes símbolos da humanidade, a Jornada do Herói de Campbell, as esferas da Árvore da Vida, os deuses de todas as mitologias, está tudo lá no Tarot. Mas aí que está: UMA CARTA É UMA CASCA.

É só quando a gente descasca essa casca que chegamos no fruto. E isso não está na carta, mas na nossa interpretação dela, na nossa intuição, na nossa mediunidade, quem sabe no contato direto ou indireto com o nosso Sagrado Anjo Guardião.

Por isso não adianta ser especialista em Tarot. É que nem ser especialista em história da natação. Saber todas as medalhas de ouro de todas as Olimpíadas e tal.

Mas só quem vai e mergulha entende o que é o mar!

E o Tarot não é questão de “ser especialista”. É questão de conhecer a si mesmo.

Então você não é um especialista em Tarot, mas pode ser um especialista em si mesmo, aí tudo bem...


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17.8.16

O nascimento do ocultismo

Para muitos desavisados, o ocultismo nada mais é do que "aquele negócio estranho de magia, que as pessoas praticam em grupinhos secretos". Para muitos céticos, "é puro charlatanismo". Para muitos crentes de padres e pastores, "é coisa do demônio"...

No entanto grandes artistas, cientistas e místicos de nossa história foram ocultistas. A própria história da ciência moderna está intimamente ligada as chamadas ciências ocultas, particularmente ao hermetismo, embora a Academia faça questão de "esquecer" este fato. Dá o que pensar não é mesmo? E foi assim, pensando e estudando (muito), que o meu amigo Marcelo Del Debbio, grande pesquisador brasileiro da área, elaborou uma história que ele tem contado e recontado muitas vezes [1], e que fala sobre o nascimento do ocultismo e do seu impacto em nossa civilização, que hoje mais do que nunca pode ser sentido por todos, basta querer e buscar no lugar certo.

Nesta entrevista para Fredi Jon, youtubber do programa Tocando o Oculto, o Marcelo conseguiu fazer um dos melhores resumos desta história que já tive a oportunidade de assistir. Vejam com a mente aberta:

parte 1

parte 2

***

[1] Se querem saber ainda muito mais, recomendo que leiam o e-book O Grande Computador Celeste, que pode ser encontrado gratuitamente aqui no blog, e também na Amazon.

Crédito da foto: Google Image Search/TV Brasil/Divulgação (Marcelo Del Debbio)

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23.11.15

Onde vivem os magos

Um mago é antes de tudo um ser desperto. Nesse sentido, o “despertar” não significa necessariamente a aquisição de um “conhecimento secreto”, tampouco torna este próprio mago alguém superior aos demais. Pelo contrário, o verdadeiro mago é aquele que já se iniciou no caminho que conecta todos os seres e todas as coisas, e já percebeu que não faz sentido pensar num céu de escolhidos. Sabe que, se o céu não for erigido aqui, neste mundo, neste tempo, ele será sempre um céu vazio, uma fantasia pobre, um anti-mito.

Tais magos aprendem a reconhecer seus próprios pensamentos e a filtrar o que vem de fora. E assim, com o tempo, com apenas algumas vidas passageiras, uma espécie de milagre acontece, e onde antes se via um charco de caos e desejos desenfreados, passa a se ver um sistema que guia a tudo e a todos rumo a uma montanha de onde é possível ver toda a paisagem, e esta paisagem se torna a imagem daquilo que é lembrado para sempre. Às vezes temos visto tal paisagem em nossos sonhos mais iluminados...

Aqui neste país tropical, todos esses que sonham juntos um mesmo sonho por vezes se encontram em São Paulo. Em plena Avenida Paulista, enquanto uns estão indo ao banco, ou fazer compras, ou simplesmente assistir ao cover do Elvis (e nada contra nada disso), outros estão indo encontrar consigo mesmos, e com a essência da realidade. Este evento ocorre praticamente uma vez por ano, o último foi no fim de semana passado.

Abaixo lhes trarei alguns trechos do que vi, ouvi e senti no IV Simpósio de Hermetismo e Ciências Ocultas [1]:

Signos Intermediários na Astrologia, Marcelo Del Debbio

“A linguagem astrológica preenche a arte com os seus símbolos mais profundos, particularmente no Renascimento.”

“Não há saltos abruptos entre as energias que os signos simbolizam, mas variações graduais, como tudo no tempo da natureza.”

“Quem nasce entre os dias 21 e 22 de cada mês está mais próximo dos intervalos entre os signos, isto é, dos signos intermediários.”

“O estudo de tais signos intermediários é um avanço sobre a astrologia tradicional, o que prova que ainda há muito por ser estudado e compreendido.”

“Todos os signos trazem potencialidades boas e más, o que cada um vai desenvolver vai de acordo com o seu livre-arbítrio.”

Alquimia e Hermetismo, Giordano Cimadon

“A gnose é uma experiência, uma ‘doutrina sem forma’ que se manifesta na própria alma, e não em livros.”

“No estado de consciência adequado, até mesmo os eventos mais cotidianos da vida se tornarão uma aventura espiritual.”

“A gnose é o terceiro componente principal da formação da cultura ocidental, após a racionalidade e a fé dogmática.”

“Para os gnósticos, Deus não é homem, mulher, velho, jovem, nem animal nem planta nem mineral, pois se encontra além da epistemologia [conhecimento racional].”

“O aqui é um ponto além do espaço. O agora é um ponto além do tempo. Viver no aqui e agora, portanto, é viver na eternidade.”

Mitos e Lendas Celtas: Decifrando Nossa Rica Herança Espiritual, Cláudio Crow

“Mitologia, espiritualidade, religião, filosofia e história são, no fundo, uma só coisa, e não podem ser compreendidas em separado.”

“As verdades presentes nos mitos não são proclamadas por profetas, mas nascem de nós mesmos, de nossa essência eterna.”

“Os deuses e as deusas da cultura celta são emanações da paisagem, indissociáveis da natureza. Para a cultura celta, a morte de um rio seria a morte de uma deusa.”

“A mente celta jamais se sentiu atraída pela linha reta, e evita formas de ver e perceber o mundo que se satisfaçam com a certeza.” (John O’Donohue)

“O druida [sacerdote celta] não vê o outro mundo, vê este mesmo mundo com outros olhos, e deve se dedicar a trazer a perfeição do céu para a terra.”

Hermeticaos: Magia não é “bug”, é “cheat code”, Felipe Cazelli [2]

“A verdadeira treta na discussão se Deus existe ou não nem é a questão existencial em si, mas uma disputa que envolve a resposta da pergunta, ‘Quem vive melhor, o ateu ou o crente?’. Diante disso, eu gosto da solução que um amigo meu encontrou; ele diz que ‘é um ateu não praticante’.”

“A verdade é uma experiência. Assim sendo, os devotos das religiões organizadas são, em sua grande maioria, uma galera que acredita piamente nas experiências dos outros, algumas de milênios atrás, e se abstém de ter as suas próprias experiências desta verdade.”

“Estes são os fundamentos do ocultismo ocidental: (a) Não tem credo, mas hipóteses que precisam ser testadas, ainda que subjetivamente; (b) Muitos acabaram se convencendo de que há mesmo um mundo invisível; (c) Da mesma forma, que há uma ordem no universo, e que nada existe sem um propósito; (d) Igualmente, que tudo evoluí, do caos para a ordem, do simples para o complexo; (e) Que aprendemos através das reencarnações; (f) Que as circunstâncias de nossas vidas servem para o nosso desenvolvimento; (g) e finalmente, que há espíritos que podem afetar a realidade a nossa volta.”

“A magia é arte, a arte, e esta é uma afirmação grave! Pois, como uma arte, a magia não tem realmente regras definidas. O ritual mágico é uma experiência arbitrária, e nem mesmo um estado de consciência alterado se faz necessário para que ele seja realizado. No fim das contas, você consegue o que pediu, se a sua crença for praticada diariamente, e se o que deseja tem meios de se manifestar de acordo com as leis naturais.”

“Se a energia é a massa acelerada a velocidade da luz, a massa, isto é, a matéria, é uma ‘energia lerda’. Isto é bom, pois que se a realidade é puramente mental, há um delay entre o que você pensa e o que você efetivamente realiza. Assim, nós estamos nesse mundo, sobretudo, para aprendermos a controlar a mente, que nunca desliga. O dia em que não vermos problema em ver nossos desejos realizados imediatamente, sem delay, estaremos já iluminados, e não será mais necessário vivermos por aqui.”

Nos Sagrados Caminhos da Y’urema, Rita Andreia de Cássia

“A natureza é sagrada e viva, e Y’urema é a árvore, e também a deusa, que liga a terra e o céu.”

“O mundo está doente porque os homens se distanciaram do seu lado feminino.”

“Nós temos fé que existe um espírito vegetal que nos cura...”

“A Y’urema é uma árvore de muitos, muitos galhos... Ela é a maior entidade dos cultos ameríndios.”

“No fundo, toda a magia terá a cor que você pensar.”

A Magia na Umbanda, Alexandre Cumino

“Zélio de Moraes fundou a umbanda em Niterói/RJ, em 1908, com 17 anos de idade. Foi a entidade que ele incorporava, o Caboclo das 7 Encruzilhadas, quem idealizou o ritual de umbanda. A umbanda é a primeira religião nascida exclusivamente no Brasil.”

“Este caboclo foi reconhecido como um padre católico em uma vida passada por um médium espírita vidente, mas ele responde ao médium que ‘somente uma encarnação não resume o que é um espírito, e hoje eu prefiro ser um caboclo’.”

“A umbanda faz questão de ser uma religião, e cultuar os orixás e os santos católicos. A umbanda, ao contrário do espiritismo, não tem ‘centro’, tem ‘templo’, com altar e uma ritualística formal.”

“Uma falange é composta por muitos espíritos anônimos usando um mesmo nome para se identificar. Assim sendo, não há somente um Preto Velho, uma Maria Padilha ou um único Caboclo Pena Branca, mas muitos deles.”

“Na umbanda e nos demais cultos africanos, a chamada Direita se encarrega de trazer a energia positiva, enquanto que a Esquerda se dedica a repelir a energia negativa. Dessa forma, ambas têm a sua função, que é sempre benéfica (em se tratando de magia divina).”

***

[1] Se trata de pequenos trechos e frases que anotei em meu caderno. Não significa que tenha sido exatamente o que os palestrantes disseram, mas antes já a minha interpretação, por vezes resumida, do que foi dito. Finalmente, vale notar que infelizmente eu não tive tempo de assistir todas as palestras (apesar de ter assistido somente cerca de metade da palestra do Alexandre Cumino, decidi incluí-lo também).

[2] O próprio título da palestra do Cazelli já encerra um conhecimento profundo, que merece uma explicação: um bug seria como que uma espécie de falha no sistema de um game; já um cheat code seria um código que permite “burlar” certas regras do jogo. Ora, se a realidade é um sistema mental, um mago não está se aproveitando de nenhuma suposta falha deste sistema, mas antes se aproveitando desses tais códigos que permitem alterar suas regras – o detalhe é que tais códigos já estavam inseridos nela, desde o início dos tempos.

Crédito das fotos: Raph e AESG

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30.9.14

Deus tá vendo essa zoeira!

É este o slogan de um dos jogos de cartas mais polêmicos dos últimos tempos, o Pequenas Igrejas, Grandes Negócios.

Quando ouvi falar a primeira vez deste projeto, foi da boca do seu próprio criador, meu amigo Marcelo Del Debbio. O Marcelo, como muitos devem saber, é um dos divulgadores de ocultismo e espiritualidade mais conhecidos do país, assim como um dos críticos mais veementes da “picaretagem” de alguns dos ditos espiritualistas de todos os credos.

A primeira coisa que pensei foi que a temática do jogo parecia ser, em geral, um ataque meio gratuito aos evangélicos. Tive medo de que o resultado final fosse um tanto generalista e enfiasse todos os evangélicos no mesmo saco. Obviamente, para muitos evangélicos “picaretas”, é exatamente isso o que pensam do jogo desde o primeiro momento em que souberam dele.

Mas o resultado final não foi bem esse... Antes de chegarmos lá, é preciso lembrar que o sistema do jogo já vinha sendo bolado há cerca de quatro anos pelo Marcelo e o seu amigo, Norson Botrel, ambos designers de jogos de RPG há muitos anos. Porém, na hora de finalizar tudo e efetivamente criar as ilustrações, imprimir as cartas, etc., eles tiveram de pedir ajuda a diversos outros amigos...

As ilustrações ficaram a cargo do Roe Mesquita, o design e o projeto gráfico, com Rodrigo Grola, e o marketing e a edição dos vídeos de divulgação com o PH Alves (do Conversa entre Adeptus). Todo esse pessoal é muito gente boa e também faz parte da comunidade espiritualista que se criou em torno do blog do Marcelo, o Teoria da Conspiração, mas ainda faltava um elemento essencial: Como pagar o trabalho dessa gente toda? Como pagar a impressão dos primeiros baralhos?

Foi aí que o Marcelo decidiu recorrer ao crowdfunding, usando o site Catarse. No crowdfunding, um projeto qualquer é apresentado com uma meta de financiamento (em reais) e, geralmente, uma série de bônus para aqueles que doarem valores maiores. No caso do Pequenas Igrejas, Grandes Negócios (PIGN), a meta mínima para a produção do jogo era de 29 mil reais. A cada 5 mil reais extras arrecadados, eram prometidos novas cartas e suplementos disponíveis desde o lançamento. Se o financiamento total ultrapassasse a última marca da lista, 75 mil reais, eles ainda prometiam entregar sleeves (embalagens plásticas) para cada carta do baralho a quem houvesse investido acima de certo valor.

Ao final de cerca de 2 meses de crowdfunding, o PIGN se tornou um dos projetos mais bem sucedidos do Catarse, tendo arrecadado quase 93 mil reais! Eu mesmo fui um dos 12 que doaram os valores mais altos disponíveis (400 reais, nem tanto se comparado a outros projetos do Catarse), e garanti uma carta com o meu pastor no jogo, o Bispo Sinésio!

Há algumas semanas atrás a minha edição do jogo chegou por correio, com assinaturas de diversos integrantes do projeto, e com quase 400 cartas, incluindo todas as cartas bônus disponíveis... A grande questão então passou a ser: será que eu usaria esse jogo apenas para ficar rindo das cartas, ou será que daria para jogá-lo realmente? Bem, com a ajuda do pessoal que segue o blog do Marcelo aqui na minha cidade, consegui jogar algumas partidas bem divertidas...

Na verdade o jogo é bem mais do que uma simples crítica bem humorada a “picaretagem” de alguns ditos espiritualistas. Ele realmente funciona como jogo, e acredito que não deveríamos esperar menos de designers como o Marcelo e o Norson. Como não sou exatamente um especialista em jogos de cartas do tipo (eles mesmos dizem que se inspiraram em Magic: The Gathering, BANG!, UNO e Munchkin para criar o mix de regras), não posso afirmar que se trata “do melhor jogo de cartas de todos os tempos”, mas certamente é um jogo tão divertido de jogar quanto o Munchkin (o que mais conheço da lista anterior), com a vantagem de ser ambientado num “universo brasileiro” – ou melhor, “num mundo onde as igrejas são usadas por pessoas trapaceiras e inescrupulosas para lavar dinheiro do crime, vender porcarias inúteis, explorar a boa fé de pessoas ignorantes e obter poder político; um universo muito diferente da nossa realidade, onde as igrejas são centros comunitários de ajuda ao próximo, gerenciadas por baluartes do bom caratismo”.

O que nos traz de volta a questão inicial: será que o PIGN coloca num mesmo saco tanto os “picaretas” quanto os verdadeiros espiritualistas? Na verdade, não, nem de longe... Para começar, apesar do jogo se focar, como o próprio título diz, nas igrejas, a verdade é que há críticas a “picaretas” de várias vertentes religiosas – para citar dois exemplos, temos no baralho os pastores “Mãe Binah” e “ET Bilu Bilu”, que estão longe de se referirem a pastores evangélicos do “mundo real”.

Além disso, em nenhum momento é citado o nome de Jesus. Não que isso por si só fizesse alguma diferença, mas não deixa de ser revelador o respeito que mantiveram ao seu nome. Em PIGN, encontramos “Jezuis”, e não “Jesus”.

Por fim, o que mais achei curioso no jogo é que todas as cartas de ataque (o objetivo do jogo é acabar com a reputação dos pastores adversários, daí existirem as “cartas de ataque”) se referem a notícias que foram vinculadas na mídia real (independente de serem verdadeiras ou não, mas o absurdo todo é que a grande maioria é verdadeira).

Assim, quando atacamos nossos amigos na mesa de jogo usando cartas como “Igreja é dona do maior complexo de saunas gays da Europa” (carta #215), “Religioso afirma que sexo ilícito é causa dos terremotos” (#187), “Pastor ex-gay quer criar ‘Conselho estadual para a defesa dos direitos héteros’” (#192), “Barak Obama está possuído pelo demônio, afirma pastor que faz exorcismo por Skype” (#162), ou ainda “Ex-obreira fica grávida do Diabo e dá à luz 3 caveiras de plástico!” (#31), ficamos nos perguntando se este jogo chegou mesmo a conseguir ser mais absurdo do que a nossa realidade – e então, ao menos nos resta o consolo: Deus tá vendo essa zoeira!

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» O PIGN pode ser adquirido na loja online da Daemon Editora

Crédito das imagens: Divulgação/PIGN

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6.6.14

Lançamento: O Grande Computador Celeste

Os artigos essenciais do Teoria da Conspiração, da autoria de Marcelo Del Debbio, estão a partir de hoje disponíveis em download gratuito num livro digital cuidadosamente editado pelas Edições Textos para Reflexão.

São cerca de 620 páginas de um livro tamanho A5. Então não perca tempo e comece a ler (ou reler) logo:

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Mas ESPERA AÍ, o que diabos é um ePub?
O ePub é o formato de arquivo de livro digital mais usado atualmente no mundo. Acreditamos que a leitura no formato digital traga inúmeras vantagens: em quase todos os dispositivos é possível ajustar tamanho e tipo de fonte, além da cor de fundo da página; os textos e imagens se adequam automaticamente as dimensões da tela; em alguns apps também é possível destacar trechos do livro e incluir suas próprias notas, e depois buscar por elas, etc.

A seguir, explicaremos melhor como ler livros digitais em ePub, ou Amazon Mobi (formato para Kindle)...


Para quem já tem um Kindle ou um Kobo, ou usa um dos Apps gratuitos deles no seu Tablet ou Smartphone:

Você pode enviar os arquivos para o seu Kindle ou Kobo por e-mail (contatar o suporte deles se tiver dúvidas de como fazer isso). Já com o App gratuito do Kindle, basta somente clicar no arquivo Amazon Mobi para abrir. O App gratuito do Kobo tem uma opção de fazer uma varredura para encontrar todos os arquivos ePub em seu dispositivo móvel, se o arquivo não for encontrado tente transportá-lo do seu cartão removível para o próprio HD do seu dispositivo móvel.

» Apps de leitura gratuitos do Kindle
» Apps de leitura gratuitos do Kobo

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Para quem quer ler diretamente do browser:

Se você está num Desktop ou Laptop, pode ler diretamente a versão ePub do seu Google Chrome, bastando para tal instalar o add-on Readium. Veja na imagem abaixo um exemplo do ePub aberto no Readium...

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Para quem quer ler no Google Play Books:

O Google Play Books, programa que vem junto com qualquer dispositivo no sistema Android (por exemplo, em Tablets e Smartphones Samsung, e muitos outros), funciona muito bem para a leitura de ePub. Inclusive, nele há uma opção de "Ler em voz alta" onde será possível **OUVIR** o livro (talvez seja necessário instalar alguma atualização para o Português, caso a leitura seja feita em "sotaque inglês"). Veja na imagem abaixo um exemplo do ePub aberto no Google Play Livros...

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21.3.14

A iluminação das trevas

Ainda hoje me lembro da primeira vez em que fomos apresentados, nalguma convenção de Role Playing Games (RPGs) em São Paulo. Ele, o criador e editor de alguns dos melhores ambientes de RPG no Brasil; eu, somente um cara que havia criado um mundo de fantasia que havia feito certo sucesso na web.

Foi somente um aperto de mão, mas foi a forma como ele me olhou que chamou minha atenção. Sabe, nós místicos temos um sério problema em sermos compreendidos por todos aqueles que, para resumir, mal sabem o que significa propriamente o termo "misticismo".

Não se trata de algum sentimento de "superioridade" em relação aos outros, mas tanto o oposto disso – é como se existisse uma rede a preencher todo o Cosmos, e como se os seus longos fios etéreos passassem por todos os corações e os conectassem num mesmo tecido eterno. A isto alguns também chamam amor. Não somos superiores, portanto, somos iguais, somos amantes, amantes do Tudo.

Dessa forma, é como se habitássemos algum lugar, algum campo de relva, fora do tempo e do espaço mas, ao mesmo tempo, dentro de nossa própria mente. Descrevê-lo seria inútil, pois ele também se encontra além das palavras; mas há alguma coisa no olhar daqueles que por lá caminharam, algum brilho que faz com que os místicos, esses loucos, possam reconhecer uns aos outros... Foi só um aperto de mão, mas alguma intuição me dizia que ainda iríamos cruzar nossos caminhos de novo...

Naquela altura eu nem havia iniciado meu blog, Textos para Reflexão, e ele nem havia sido convidado para ser colunista do Sedentário & Hiperativo, um dos blogs de variedades com maior audiência do país. Mas, quem sabe onde e quando no Infinito, uma ponta da longa teia era já puxada, e nós, tal qual pequeninas formigas, marchávamos sem saber em direção a um ponto de intercessão.

Em sua coluna, Teoria da Conspiração, ele abordou a mitologia, as religiões, a história antiga e medieval, e até mesmo o ocultismo, de uma forma surpreendentemente didática, livre de dogmas (religiosos ou científicos), e capaz de conquistar uma boa parcela de um público em sua maioria jovem – quem sabe, com um ou outro místico adormecido, prestes a despertar...

Com o tempo, ficou claro para ele que seria necessário criar um outro canal menor, afluente da grande audiência do Sedentário, para poder dizer coisas mais "ocultas" a um público menor, mais preparado para absorver tais ideias mais profundas. Não se trata de nenhuma "ordem secreta", mas tão somente de um outro blog, homônimo da sua coluna, aberto a visita de todos, mas logicamente com uma audiência bem mais restrita que a do Sedentário. Mal comparando, seria como um canal de documentários que nasceu de um canal de variedades – uma audiência menor, mas com pessoas mais interessadas e dispostas em aprender.

Assim, mesmo sendo um dos ocultistas mais conhecidos na web brasileira, ele ainda teve a sabedoria, ou intuição, de convocar outros blogueiros espiritualistas para serem colunistas do seu Teoria da Conspiração, que acabou se tornando uma espécie de blog coletivo, com místicos de todas as áreas, da psicologia a mitologia oriental, contribuindo em conjunto para tornar o blog algo maior, um projeto de iluminação das trevas da pior ignorância – a ignorância da própria alma.

Foi assim que nossos caminhos voltaram a se cruzar. Não somente na virtualidade da minha coluna em seu blog, mas também nas poucas e proveitosas ocasiões em que tive o prazer de me encontrar e trocar algumas ideias com Marcelo Del Debbio, que se revelou um místico tão nerd quanto eu.

Não é que ele esteja no controle total de toda essa situação. Ele pode ser um espírito antigo, mas até mesmo por isso tem sabedoria e bom senso suficientes para compreender que existem espíritos muito, muito mais antigos do que todos nós, e muito mais sábios, puxando a ponta dessa grande teia... Até onde ela nos levará, nenhum de nós parece saber ao certo – mas que ela se inclina para a luz, nenhum de nós parece ter alguma dúvida...

E a luz foi criada para ser refletida. Este livro é tão somente a porta de entrada para um campo cheio de espelhos voltados para o alto. O que eu e o Marcelo temos feito é tão somente tentar posicioná-los na direção certa.

Esta é uma edição dos primeiros artigos do Teoria da Conspiração.

Rafael Arrais

 

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O texto acima fará parte da Introdução de O Grande Computador Celeste, um livro digital que estará eventualmente disponível para download gratuito nos formatos epub (Kobo) e mobi (Amazon Kindle). Poderá ser lido tanto em eReaders quanto tablets, laptops e smartphones, bastando para tal instalarem os aplicativos de leitura gratuitos da Amazon ou da Kobo. Vejam como ficou a capa:

Obs.: O lançamento será, provavelmente, por volta do final do mês de Abril...


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8.10.13

A enciclopédia de todas as mitologias

Você deve ter reparado que nunca escrevi uma resenha para algum livro em todos esses anos de blog. Geralmente prefiro postar trechos das obras com meus comentários acerca dela, no lugar de uma resenha mais abrangente. Vou abrir uma exceção para este caso em específico, pois nem se trata bem de um livro, daqueles pequeninos que você lê no metrô, mas de uma enciclopédia com 640 páginas, do tamanho de um livro de RPG (só que mais grossa e pesada que a maioria deles). Quem escreveu esse calhamaço, após muitos anos de pesquisa intensa, foi meu amigo: Marcelo Del Debbio.

Você pode estar pensando, “ah ele vai falar bem a beça do livro porque é do amigo dele”. Bem, primeiro, se eu não houvesse gostado da Enciclopédia de Mitologia, bastava não me dar ao trabalho de escrever esta resenha. Segundo, vocês hão de convir que fica difícil falar mal de uma obra com 7.200 verbetes, 994 ilustrações, e informações “dos principais deuses, anjos, demônios, monstros, personagens, heróis, criaturas, objetos mágicos, locais sagrados e rituais das mitologias grega, romana, hindu, celta, nórdica, assírio-babilônica, persa, africana, eslava, fenícia, etrusca, goética, asteca, maia, inca, nativo-americana, sul-americana, brasileira, japonesa, chinesa, medieval, bíblica, aborígene e muitas outras”.

Sim, o Del Debbio exagera mesmo. Mas tampouco estou aqui somente para tecer elogios a obra. Se você por acaso pretende abri-la na primeira página e ir lendo na sequência, é bem provável que se torne uma experiência maçante... Não é um livro para se ler do início ao fim, mas é, isto sim, uma das maiores enciclopédias de mitologia impressas do mundo e, sem a menor sombra de dúvida, a mais extensiva e detalhada na língua portuguesa. Mas, então, o que fazer com mais de 7 mil descrições de mitos?

Joseph Campbell dizia que o mito “é algo que não existe, mas que existe sempre”. Esta célebre frase nos passa um entendimento que não pode ser totalmente apreendido apenas pela leitura de palavras, mas não custa tentar: é que os mitos são nada mais que os fatos da alma humana encenados no cotidiano. Os séculos se passam e muitos deuses e heróis são imaginados, alguns exaltados e outros tantos esquecidos, alguns demonizados, outros amados, e alguns outros campeões de bilheteria nos cinemas, porém todos eles fazem parte de uma mesma história, uma mesma mitologia, o “monomito” da história humana.

Todos estes heróis que são chamados as grandes aventuras, que enfrentam dragões e monstros obscuros, que viajam até outros reinos desconhecidos e retornam vitoriosos, que salvam princesas e restauram o equilíbrio em mundos inteiros, todos eles se referem a nós, a você:

Você enfrentou aos demônios das cavernas de sua própria alma? Você resgatou sua princesa interior do charco de desejos desenfreados em que ela se encontrava presa? Você morreu para sua natureza animal? Você ressuscitou, após três ou sete dias, em uma encarnação mais humana? Você reconheceu, enfim, que grandes poderes trazem grandes responsabilidades, e que cuidar da própria alma é e sempre será a maior delas?

Foi para tal, afinal, que tanto Gilgamesh quanto Osíris foram imaginados. Que tanto as pedras de Stonehenge quanto os moais de Ilha da Páscoa foram erguidos. Que tanto o Anjo do Senhor quanto Gandalf, o Cinzento, vieram bater a sua casa. A sua casa!

O que o Del Debbio nos traz, afinal, não é um livro para se ler de uma vez, do início ao fim. Seria inútil... A sua Enciclopédia me parece mais útil, preciosamente útil, como um guia de consulta para se ter sempre a mão (ou, pelo menos, na estante de casa). Um guia de consulta não exatamente sobre histórias lendárias de seres que nunca existiram além da imaginação humana, mas um guia para tudo o que a mente humana foi capaz de conceber em 6 mil anos de história documentada em símbolos. Se você acha que os mitos ancestrais são irrelevantes para a sua vida, enquanto é fã de quadrinhos, RPG ou da maior parte do cinema de Hollywood, pode ter certeza de que está profundamente equivocado.

» A Enciclopédia de Mitologia se encontra à venda, em nova edição, pela Daemon Editora

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Crédito da imagem: Marcelo Del Debbio (Enciclopédia de Mitologia)

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3.12.12

Tudo o que você queria saber sobre deuses

E nem sabia ao certo de onde começar...

Que tal começar por esta palestra de Marcelo Del Debbio na Loja Teosófica Liberdade, em São Paulo, onde ele fala sobre os paralelos entre os deuses e a árvore da vida? Pode parecer difícil de entender, mas não é:

A Kabbalah e os deuses de todas as religiões
O vídeo é uma gravação em áudio acompanhada das imagens da apresentação. É recomendado alterar a qualidade para 480 pixels e ver em tela cheia.

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» Veja também a série de artigos A roda dos deuses

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10.3.12

Sem Deus, tudo é permitido?

Parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre esses dois distintos participantes, não deixe de ler sobre a premissa da série.

[Raph] O jainismo é uma das mais antigas e rigorosas doutrinas religiosas de nossa história. As histórias que falam em monges jainistas retirando pequenas larvas do solo antes de cavá-lo para plantar, de modo a não causar dano sequer aos menores seres visíveis da natureza, são, acreditem, bem mais reais do que anedóticas. Apesar de seu ascetismo extremo, e sua busca constante pela não violência, é perfeitamente possível ser um jainista sem crer em Deus ou quaisquer deuses.

Alguns defensores da ética religiosa afirmam que sem o devido temor a Deus, e/ou a promessa de um Céu Eterno, não haveria razão para que os homens fossem éticos e amorosos uns com os outros. O humanismo, pelo contrário, em todas as suas vertentes coloca o respeito ao próximo, e a sua liberdade de pensamento e ação, como a ética mais elevada e que, por si só, é sua própria recompensa, já que num sistema onde todos são humanistas, um Céu Eterno talvez nem fosse mais necessário – já estaria instaurado na própria Terra.

Mas, será que o humanismo e o jainismo são quase utopias, sistemas por demais rigorosos para que todos os seres humanos um dia se incluam neles? Ainda há espaço para ser otimista ante um mundo em intenso conflito, ou a intolerância, em todas as suas mais nefastas manifestações, tem vencido a batalha? Em suma: se Deus não existe, tudo é permitido? [1]

[Del Debbio] A ideia da Religião como ferramenta para o domínio dos povos é muito antiga. Os faraós se utilizavam destes artifícios para criar normas de conduta e moral para toda a população do Egito. Os judeus, através de Moisés, reorganizaram estes preceitos nos chamados “dez mandamentos”, que por sua vez, tornaram-se a base canônica para o grande pilar de dominação do ocidente, a Igreja Católica Apostólica Romana.

O medo de um Deus vingativo ou a punição eterna em um Inferno escaldante fazia com que as pessoas andassem na linha. Nem todos os Infernos eram iguais... Para os nórdicos, Hel era uma caverna de gelo onde os condenados passariam a eternidade no frio e com fome. Faz sentido. Se o inferno Nórdico fosse quente, todos iriam querer ir para lá. Assim, a idéia do símbolo do Inferno sempre foi “um lugar onde não gostaríamos de estar”.

Para os ocultistas, a idéia do Inferno nunca passou de um símbolo abstrato, porém, para a população geral, vigora até os dias de hoje a ideia de uma troca no estilo Pavlov, onde as pessoas deveriam ser boas para irem para o céu e se forem contra os preceitos de algum dos livros sagrados, irão para o colo do capeta ou algo parecido.

Mas e quando esta ideia parece cada vez menos coerente com o mundo ao nosso redor? Símbolos podem se dar ao luxo de serem monstruosos, angelicais, fantásticos e impressionantes pois são, afinal de contas, símbolos. Mas quando religiosos fanáticos utilizam-se destes símbolos como se fossem coisas literais, esta visão começa cada vez mais a não fazer sentido em confronto com a realidade.

E quando não existe mais uma cadeia? Observamos recentemente em Salvador-BA o que acontece com a nossa civilização quando a polícia entra em greve por uma semana. O que aconteceria com o mundo se as pessoas, no grau de evolução mental que estão, soubessem que não há inferno ou punição para elas aguardando no final de suas vidas?

Creio que as religiões, mesmo as dogmáticas, servem como um freio enquanto a humanidade evolui lentamente e um dia não precisaremos mais de nenhuma delas. O estudo da espiritualidade em conjunto com o Humanismo e o respeito à natureza, livre de qualquer dogma ou preceito religioso ou materialista, será o caminho evolutivo natural para a espécie humana.

Para o alquimista, não faz a menor diferença se existe um Deus ou não. As ciências herméticas são a busca pelo autoconhecimento – descobrir qual é a própria Verdadeira Vontade e exercê-la em prol da evolução da humanidade como um todo. Vejamos o ateu: se é sincero em seu coração, não há diferença para um alquimista senão a dos símbolos e metáforas utilizados.

O trabalho de um magista é aperfeiçoar-se até o máximo que puder. A interação perfeita da ciência com a religiosidade. Todos já ouvimos diversas destas alegorias: “Transformar o chumbo (do ego) no ouro (da Essência)”, “Desbastar a Pedra Bruta”, “Transformar Carvão em Diamante”, “Encontrar a Pedra Filosofal”, “Tirar as ervas daninhas para que as rosas floresçam no Jardim”, e outras.

Através da Alquimia, uma vez que cada pessoa trabalhe seus Vícios e os transforme em Virtudes, chega-se ao exato mesmo princípio do Humanismo ou do Jainismo (que nada mais são do que vertentes da mesma filosofia do “ama ao próximo como a ti mesmo”). Se existir um céu e um inferno, os alquimistas estarão preparados. Se não existir, fizeram o melhor que puderam dentro do espaço de suas vidas; se existir uma vida após a morte, continuarão da onde pararam aqui...

[Mori] Há alguns anos traduzi um fabuloso ensaio de Eric Raymond sobre “o mito do homem assassino”, que resumo em seguida. É a crença de que os seres humanos são animais unicamente violentos, escassamente contidos de cometer atrocidades uns aos outros pelas restrições da ética, da religião e do estado. Parece estranho questioná-lo, com as trágicas notícias com as quais somos bombardeados, mas basta analisar o animal humano com os olhos um tanto mais distantes de um observador do mundo natural para chegar à constatação de que não somos seres especialmente violentos.

O estilo de luta instintivo que desenvolvemos, por exemplo, nos impede de ferir seriamente uns aos outros, direcionado especialmente a empurrões e socos em áreas duras como cabeça ou tórax. Eles podem deixar o oponente inconsciente, mas as chances de que o matem são muito menores do que se mirássemos em partes moles e vitais, como artistas marciais aprendem a desenvolver mesmo em um único golpe fatal. É preciso treinamento para transformar um homem comum em um assassino, e isto mesmo quando este homem é equipado com uma arma de fogo: ao redor de 70% das tropas em sua primeira situação de combate é incapaz de disparar contra o inimigo. É preciso treinamento e intensa ressocialização para suprimir nossos instintos e criar soldados capazes de matar sob comando.

E comando é justamente o alerta de Raymond. O mito do homem assassino é promovido justamente por aqueles em comando, segundo os quais precisamos ser salvos de nós mesmos através da uma disciplina rígida com punições rigorosas que nos separaria da selvageria, quando a evidência histórica e comportamental indica que as maiores selvagerias são praticadas justamente sob comando e disciplina rígidas de um grupo contra outro. Nosso maior medo não deveria ser nosso suposto instinto assassino latente, aquele que é visto na prática apenas em uma pequena parcela da população, comumente surgida como parte, ainda assim minoritária, de grupos intensamente oprimidos. E que, não por coincidência, criam suas cadeias de comando e controle social próprias, e ainda mais rígidas.

Nosso maior medo deveria ser justamente o controle e manutenção de uma hierarquia e controle social estritos que exploram um instinto que a maioria de nós realmente possui: a obediência cega a figuras de autoridade. Sejam elas presentes na terra, sejam elas aquelas fictícias no céu, que podem ser ainda mais perniciosas. Em nome de deus, a autoridade última, tudo é permitido.

Tememos os perigos errados. Apesar disso, há motivo para otimismo porque a ignorância, a intolerância e a violência não estão vencendo a batalha. Somos hoje sete bilhões de seres humanos. Nunca tantas vidas viveram ao mesmo tempo, tanto tempo, aproveitando tão bem o seu tempo. Em particular no Brasil, e mais especificamente sobre os leitores deste texto, podemos dizer que somos privilegiados com um padrão de vida superior aos dos mais abastados reis e conquistadores, dos mais bárbaros e selvagens, de apenas alguns séculos atrás. E não precisamos oprimir ou assassinar ninguém para tal – bem, ao menos não tão diretamente quanto eles, espero. Por gerações grandes pensadores sonharam com enormes arquivos de conhecimento, e grandes visionários imaginaram fóruns livres para a difusão e discussão de conhecimento. Você está em frente a esse sonho neste exato momento.

Este privilégio não foi alcançado por acidente. Nossos ancestrais não tão distantes talvez achassem que uma mulher, um negro, homossexual ou membro de uma minoria qualquer tendo acesso a esta rede de conhecimento hoje fosse um absurdo. A religião, o Estado, a sociedade, a tradição e os bons costumes ditavam tal. Do contrário, seria a selvageria. Hoje vemos que eles é que viviam em um mundo um tanto mais selvagem que o nosso, e se estudarmos um tanto da história recente descobriremos como essas conquistas valorizando cada vida humana foram resultado de longas batalhas. Muitas destas batalhas foram vencidas e, sim, vivemos em um mundo melhor. O mundo pode ser transformado para melhor, ele foi transformado para melhor, e ele deve ser transformado para muito melhor.

Há muitas outras batalhas a vencer. Não há nada muito rigoroso no humanismo – há vertentes específicas do humanismo com algumas definições mais rigorosas, mas valorizar a vida humana é um instinto natural do animal humano. Se você ri de um bebê gargalhando, se compartilha a dor da mera imagem de alguém se cortando, se em seus momentos mais irados pensa em dar um murro no rosto de um desafeto – e não em planejar como assassiná-lo com crueldade de fato – parabéns, você faz parte da maior parcela da espécie humana. Somos sete bilhões.


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Esta foi a sétima e última pergunta da série. Fica aqui um sincero agradecimento a generosidade e ao entusiasmo dos dois participantes... Espero que essas reflexões possam trazer luz a cientistas e espiritualistas, e a todos nós: humanos.

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[1] Eu estou, propositadamente, usando esta frase de Fiódor Dostoiévski fora de contexto, pois ela acabou se tornando uma frase relativamente conhecida na cultura popular, exatamente desta forma, e não na forma original, conforme consta em mais de um trecho da obra Os Irmãos Karamazov. Ironicamente, considerando-se o desenvolvimento da questão ao longo do livro, por fim temos uma consideração que tende claramente ao humanismo. Finalmente, é justo lembrar que o Deus em questão seria, muito provavelmente (ou aproximadamente), o Deus do Antigo Testamento da Bíblia.

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Crédito da foto: moodboard/Corbis

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13.2.12

Que é o efeito placebo?

Parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre esses dois distintos participantes, não deixe de ler sobre a premissa da série.

[Raph] Hipócrates, “pai da medicina”, dizia que “nossas forças naturais, as que estão dentro de nós, serão as que curarão nossas doenças”. Ele acreditava que a cura estava ligada ao tempo e ao tratamento, mas não se podia prometê-la: nossa saúde dependia muito de nossa vontade de melhora.

Muitos tratamentos “alternativos”, como a acupuntura, despertam polêmica por não se saber exatamente como funcionam, ao menos no Ocidente. A melhora aparentemente inexplicável conquistada através de tratamentos complementares à medicina tradicional muitas vezes é creditada a “crença da melhora”, por vezes chamada de efeito placebo [1].

Não conhecemos muito acerca do efeito placebo, mas os cientistas dizem ser quase certo que passe pela mente humana. Nesse caso, falta explicar como a acupuntura veterinária obteve tanto sucesso nos últimos anos, mesmo no Ocidente [2]. Em suma: se mesmo os animais parecem se beneficiar do efeito placebo, o que seria este efeito exatamente?

[Mori] Já dizia o filósofo alemão Rolf que “todos os animais têm almas, [basta] olhar em seus olhos”. Ele se referia ao Urseele, a alma primeval, “o melhor que há em nós”. Há que se notar a propriedade e relevância dos pensamentos de Rolf, dado que ele era um cachorro, especificamente um terrier Airedale de dois anos de idade.

Ao contar esta história, não pretendo ridicularizar a acupuntura veterinária, pelo contrário, convido todos sim a conhecer melhor a saga de Rolf – Jan Bodeson publicou um livro recente sobre o tema, do qual há um excerto disponível em inglês mas, ainda mais relevante pelo contexto histórico é a obra de Henny Kindermann, publicada em 1922 sobre “O Pensamento a Fala dos Animais”, ou especificamente sobre Lola, filha de Rolf e também um prodígio. Uma tradução ao inglês está disponível completa pelo Projeto Gutenberg.

Logo no início, Kindermann comenta o então recente caso do cavalo Hans. Antes do canino Rolf, o equino Hans demonstrou impressionante capacidade matemática, até que em uma investigação histórica o psicólogo Carl Stumpf demonstrou que o cavalo só acertava a maior parte das respostas quando aqueles que faziam as perguntas sabiam quais seriam as respostas corretas e podiam ser vistos.

O cavalo não sabia aritmética de fato. Para comunicar as respostas ele batia seu casco no chão e apenas observava a pessoa fazendo as perguntas [3]. Pfungst, um perspicaz assistente de Stumpf, notou que pouco antes do número de batidas correto as pessoas exibiam – involuntariamente – maior tensão, até que no número exato de batidas a tensão era aliviada. O Esperto Hans percebia os sinais involuntários de linguagem corporal e parava de bater o casco, tornando-se um gênio que parecia saber tanto quanto os humanos que lhes faziam perguntas. Mas não mais.

A maior lição do que se tornou conhecido como “efeito Hans Esperto” é que os sinais corporais são exibidos involuntariamente. Mesmo após Pfungst descobrir como o cavalo conseguia fazer seu espetáculo, e mesmo ciente de que poderia estar sinalizando ao animal, ainda assim a linguagem corporal podia denunciar suas expectativas. O experimentador pode afetar o experimento das formas mais inesperadas e que devem ser levadas em consideração.

Isolar e controlar melhor estes fatores é sempre um desafio em qualquer experimento científico. Se ele é um problema com animais, é um ainda maior com humanos. Para lidar com isso, duas técnicas são especialmente importantes: a randomização, para impedir que dados sofram uma seleção involuntária, por exemplo; e os testes duplo-cego, onde tanto experimentadores quanto sujeitos desconhecem se são parte do grupo de controle ou não.

Assim, e finalmente chegamos ao ponto, para saber se a homeopatia ou a acupuntura realmente funcionam, pode-se imaginar que testes com animais sejam os mais seguros, mas como Rolf e Hans demonstram, não é o caso. O que sabemos sobre os animais geralmente passa pela interpretação de um ser humano. Mais importante que animais são protocolos rigorosos, randomizados, duplo-cegos, com amostras apropriadas.

Uma das mais extensas e recentes meta-análises sobre a homeopatia, levando em conta este rigor, concluiu justamente que os efeitos clínicos da homeopatia são compatíveis com efeitos placebo. Outro estudo especialmente revelador sobre a acupuntura demonstrou que não é preciso usar agulhas penetrando a pele, tampouco seguir as supostas linhas de energia no corpo que acupunturistas se orgulham em aprender: “acupuntura de faz-de-conta” com palitos de dente cutucando pontos aleatórios do corpo mostrou os mesmos efeitos benéficos. Efeitos placebo, por definição.

Há mesmo discussão sobre se o efeito placebo em geral seria tão poderoso: seu efeito seria maior justamente nas moléstias físicas relatadas subjetivamente pelos pacientes. Mudanças bioquímicas mais objetivas seriam menos acentuadas, sugerindo o efeito placebo como conhecido na literatura científica pode estar ainda sujeito a nuances experimentais tão básicas como o efeito Hans Esperto.

Neste contexto, não é surpresa que exista confusão e um ou outro estudo pretendendo demonstrar a validade desta ou daquela prática “alternativa”. E para quem ria do cão filósofo, bem, ninguém menos que Carl Sagan dedicou longas linhas às impressionantes habilidade lingüísticas de chimpanzés, no que hoje é uma linha de pesquisa vista com mais ceticismo – interpretada como resultado de efeitos não tão diferentes do Esperto Hans.

E Sagan ganhou um Pulitzer por tal livro. Enquanto cachorros, cavalos ou chimpanzés não escreverem livros sem a ajuda de nenhum facilitador humano e a homeopatia ou acupuntura não fornecerem cura comprovada para uma única doença que não possua remissão espontânea, eu recomendaria cautela.

[Del Debbio] A questão do Efeito Placebo é um dos assuntos que mais fascinam e, ao mesmo tempo, mais causam controvérsias entre a classe científica. Apesar de todo o conhecimento que a ciência hoje possui, o efeito placebo ainda permanece um mistério e todo artigo sobre ele ainda é bastante incompleto e controverso. Seu bom ou mau uso pode significar uma vida, principalmente enquanto seus efeitos são pouco conhecidos a fundo e seu funcionamento, isto é, como realmente age o caminho da cura, ainda é alvo de muitas especulações, especialmente se quisermos reduzi-lo apenas ao Plano Físico.

Hoje, a definição oficial é que o Placebo é uma substância inerte ou inativa, a que se atribuí certas propriedades (como as de cura de uma doença) e que, ingerida, pode produzir um efeito que suas propriedades não possuem. Muitas pessoas que ingerem, por exemplo, um pedaço de papel dobrado meticulosamente e contendo uma oração, revelam melhoras de uma doença, imaginando ter tomado um remédio feito especialmente para essa doença. No plano físico, não há explicação aparente. Pela lógica, a cura não deveria ter se realizado. Para os hermetistas, diz-se que a cura ocorreu no Plano Mental e Emocional, e se propagou até materializar-se no Plano Físico, resultando na cura.

Mas o placebo não existe apenas em forma de uma substância. Uma cirurgia espiritual kardecista ou a intervenção de uma entidade da Umbanda, por não poder ser testada pelos métodos científicos atuais, pode ser chamada de placebo. A pessoa operada sente o corte, sente a sutura e fica curada do mal que a afligia sem passar por uma cirurgia convencional. Tais casos, no entanto, são raros demais para serem exaustivamente testados em laboratório, mas temos muitos casos documentados como, por exemplo, o médium João de Deus.

Uma terapia também faz às vezes de um placebo, onde às técnicas dessa terapia se atribui um tipo de cura e isso realmente acaba acontecendo. As chamadas terapias alternativas, como os florais, os cristais, a radiestesia e muitas vezes a própria psicoterapia ainda são consideradas por uma grande parte da ala científica como um placebo, embora a cada dia existam mais e mais trabalhos científicos demonstrando a eficácia de técnicas como florais, acupuntura e Reiki, especialmente em animais.

A resposta placebo é uma pedra fundamental, infelizmente rejeitada na cura mente-corpo. Histórias de cura espontânea ou consideradas “milagrosas” são menosprezadas pela ciência, devido à nossa mente racional, como resultados não confiáveis, quando deveriam ser estudadas a fundo.

Em seu livro “A Psicobiologia de Cura Mente-Corpo”, Dr. Ernest Rossi diz que a premissa da ciência, neste caso, se aproxima de algo como "não é confiável, portanto não é real". Ele explica que, para uma parte da ciência, que tem uma abordagem focada na “venda de alopatia”, o efeito placebo é simplesmente um "fator aborrecido", quando o bem estar mental e emocional do paciente é tão importante quanto matar bactérias.

Se o chamado efeito Placebo realmente tem um papel fundamental no desempenho dos sistemas simpático, parassimpático e nos outros sistemas do organismo, a expectativa de cura pode ser considerada como uma espécie de “certificado de garantia” para o funcionamento do corpo como algo completo (como estudam os hermetistas). De acordo com a teoria espiritualista, o locus de cura está dentro do organismo do próprio indivíduo, bastando ver que algumas doenças, mesmo sem remédio, também se curam espontaneamente. Para outras, mais graves e que já estão plenamente manifestadas no Plano Físico, a cura só será atingida através de alopatia (a solução para este problema, infelizmente, deveria ter sido a prevenção e uma vida mais saudável e a doença é o karma que se adquire por estragar o corpo com maus hábitos, nesse caso). É importante salientar que não se pode generalizar de maneira nenhuma nessa questão, sendo cada caso um caso específico (o que, infelizmente, dificulta a avaliação em laboratórios, causando um círculo vicioso do qual estamos emergindo somente agora).


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[1] Gostaria de deixar claro que não defendo os tratamentos alternativos em substituição aos tradicionais, mas não vejo nenhum problema em usá-los como tratamento complementar, dependendo de cada caso específico.

[2] Sobre o assunto, gostaria de citar o estudo da Associação Médica Brasileira - Acupuntura: bases científicas e aplicações; Assim como esta reportagem do Globo Repórter (30/06/2006), da TV Globo.

[3] No caso dos cachorros citados acima, eles “escreviam” através de batidas de uma das patas dianteiras, de onde seus donos associavam letras do alfabeto – de acordo com o número de batidas em sequencia.

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Crédito da foto: Portal ANDA/Globoesporte (retirada deste artigo da CRMV-AL)

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27.1.12

Os memes existem?

Parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre esses dois distintos participantes, não deixe de ler sobre a premissa da série.

[Raph] Os sufis dizem que assim como muitos germes nascem e se desenvolvem como seres vivos, de forma análoga, existem também muitos seres no plano mental, chamados ‘muwakkals’ ou elementais [1]. Estes são entidades ainda mais etéreas nascidas do pensamento humano, e assim como os germes vivem no corpo humano, tais elementais sobrevivem de seus pensamentos. Segundo os místicos do Islã, os pensamentos também passam por nascimento, juventude, velhice e morte. Eles trabalham contra ou a favor dos homens de acordo com sua natureza. Os sufis afirmam que os criam, elaboram e controlam.

Um meme – conceito proposto pelo biólogo britânico Richard Dawkins – é para a memória o análogo do gene na genética, a sua unidade mínima. É considerado como uma unidade de informação que se multiplica de cérebro em cérebro, ou entre locais onde a informação é armazenada (como livros) e outros locais de armazenamento ou cérebros. No que diz respeito à sua funcionalidade, o meme é considerado uma unidade de evolução cultural que pode de alguma forma se autopropagar. Os memes podem ser ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, etc. O estudo dos modelos evolutivos da transferência de informação é conhecido como memética.

Há uma clara correspondência, no mínimo conceitual, entre os ‘muwakkals’ e os memes. Porém, afinal: os memes existem mesmo?

[Mori] Para Dawkins, o ser humano é originalmente um autômato, uma máquina servindo cegamente aos desmandos dos genes egoístas, interessados unicamente em replicar-se. O que transmitimos aos nossos descendentes não é nosso suor, não são nossas cicatrizes, e sim nossos genes. Do ponto de vista dos genes, toda a evolução serve a seus propósitos – nós, os organismos, somos apenas veículos para sua replicação e quando há um conflito entre o bem do organismo e o bem dos genes que carregamos, os genes sempre ganham, porque afinal, são apenas eles que permanecem na evolução, enquanto organismos vêm e vão.

É nesse contexto que ele introduz também a ideia de meme. Seu conceito-chave não é apenas o de um ser vivo de pensamentos, que nasça, cresça e morra, em um ciclo de vida completo. Essa é uma ideia fascinante, mas uma que de fato não é nova. A ideia chave dos memes é a de um pensamento que se *reproduz* e como tal apresentará os mesmos aspectos que os genes egoístas: seu subtrato serve como mero autômato para sua replicação. Pouco importa se o hit “Ai se eu te quero” é uma melodia sofisticada ou uma letra tocante que beneficiará o ouvinte, o que importa é que é uma melodia grudenta que se fixa em sua mente, ecoa e se replica.

Tanto o gene egoísta quanto o meme são conceitos derivados diretamente da Teoria da Evolução de Charles Darwin, e o crédito pela sacada genial de que *toda* unidade de informação que se replica com variação em um ambiente de recursos limitados irá evoluir e se sofisticar em seu “egoísmo”, encontrando formas cada vez mais eficientes e surpreendentes de se replicar, é todo de Darwin. Os muwakkals são criados pelos sufi, as egrégoras são criadas por grupos de pessoas; já os memes são unidades que foram criadas em algum ponto por uma mente, mas a partir daí, se reproduzem e evoluem por si mesmas e sua ideia central é justamente a de que não são controladas pelas mentes, mas as controlam para replicar-se. Antes de Darwin, nenhum pensador havia entendido a importância da auto-replicação e o poder da evolução que emerge inevitavelmente a partir dela. Depois de Darwin, Dawkins tomou a replicação como conceito central para interpretar a evolução, não só na biologia, com os genes, como na própria cultura, com os memes.

Dito isso, Dawkins está certo? Os memes existem, os genes são “egoístas”, seríamos meros autômatos à mercê de genes e memes? Isso me lembra o meme do cachorro que, ao receber todo dia comida e abrigo do ser humano, conclui que ele deve ser um deus muito generoso. Já o gato, ao receber todo dia comida e abrigo do ser humano, conclui que deve ser um deus para receber tanta reverência da criatura de duas pernas.

Ultimamente, e mesmo cientificamente, os conceitos do gene egoísta e dos memes e memeplexos de Dawkins são apenas metáforas e mesmo, por que não, mitologias que buscam interpretar a evolução de seres vivos e da cultura. Não estão propriamente corretos ou errados, são apenas interpretações. Eles têm sua utilidade, mas não devem ser encarados como algo tão rigoroso, estabelecido ou mesmo relevante quanto a ideia da própria evolução através da seleção natural. Genes e memes são unidades de replicação, mas o genótipo em verdade não é o único determinante do fenótipo, nem a única informação que é transmitida no tortuoso caminho evolutivo. Quanto aos memes, é ainda mais complicado isolar unidades de cultura em replicação. Sem dúvida existem modas, existem músicas grudentas, existem piadas na internet que até a Luíza, que está no Canadá, deve conhecer como memes. O conceito é uma ideia poderosa, mas vaga [2].

Dawkins promoveu os conceitos dos genes egoístas e dos memes, e de nós como meros veículos autômatos para sua replicação, justamente para que pudéssemos, ao nos tornarmos conscientes destes programas cegos, tomar as rédeas da situação e buscar valores maiores. Aqui, sim, os memes se reencontram com os muwakkals e as egrégoras, à medida em que Dawkins defende que sejamos nós a criar e controlar os memeplexos, atentos ao seu poder e tendência de que adquiram vida própria, repliquem-se e transformem-se em criaturas além e maiores que seus criadores.

O paradoxo é que se apegar demais a essa ideia é se apegar a um meme dominante.

[Del Debbio] William S. Burroughs nos alertou, em 1959, em seu livro Naked Lunch, que a “Linguagem é um Vírus”.

Para os Cabalistas e Hermetistas, existem quatro Mundos ou Planos de Existência, correspondentes simbólicos aos quatro elementos tradicionais. São eles o Plano Material (Terra), o Plano Mental (Ar), o Plano Emocional (Água) e o Plano Espiritual ou Filosófico (Fogo ou Luz).

Todos os objetos existentes no Plano Material um dia existiram no Plano Mental e Emocional. Uma pintura, antes de se tornar uma imagem, existiu como uma idéia na mente do pintor. Uma dança, um jantar, uma casa, uma cerimônia de casamento, um produto manufaturado... todas as ações e objetos físicos possuem sua  origem em algum ponto do Plano Mental, onde existem em uma realidade própria.

Estas idéias nascem, crescem, reproduzem, sofrem mutações e eventualmente morrem, seguindo os mesmos passos de toda a Teoria da Evolução. A única diferença é que não possuem corpos físicos, sendo percebidos e armazenados em invólucros materiais (cérebros, livros, filmes, áudios, textos, imagens...) onde podem saltar de uma mente para outra e interagir com outras idéias que tenham contato com aquele invólucro.

Estes pensamentos podem formar grupos semelhantes, chamados pelos cientistas de Memeplexes e pelos ocultistas de Egrégoras. Pelo ponto de vista filosófico, eles não apenas existem, mas possuem um poder tremendo de realização no Plano Material.

Uma idéia, por si só, não é capaz de realizar nada no mundo físico mas, através de seus portadores, consegue se materializar em grandes escalas e com grandes alcances. Toda marca, símbolo ou logo é uma presença física de um objeto mental. Pessoas que defendem uma determinada idéia tornam-se veículos de propagação desta Egrégora e, portanto, definem o poder de alcance desta entidade. Vemos isso em religiões (ou ateísmo), em posições políticas, sociais, times de futebol, hobbies e até na escolha de marcas de produtos que levaremos para casa. Sua mente é uma selva onde uma fauna gigantesca de idéias batalham pela sobrevivência do mais adaptado!

Na Árvore da Vida, estas esferas de consciência estão representadas por Chesed (A Misericórdia) e Geburah (o Rigor). Chesed representa a expansão e o avanço de uma idéia, tomando tudo e todos ao redor até que ela seja onipresente; nas mitologias, é representada pelos deuses-pais e conselheiros, como Zeus, Odin, Wotan, Poseidon ou Oxossi; na literatura são representados pelos conselheiros como Merlin, Gandalf, Yoda e Dumbledore. Chesed representa o rei; a proteção da tradição, a biblioteca do castelo e todas as folhas da floresta de idéias.

Geburah, por sua vez, representa o fogo que destruirá qualquer idéia que não se adapte ao processo de evolução daquela entidade mental. Representa o exército, os deuses da guerra como Ares, Marte, Kali, Thor ou Ogun; responsáveis pela destruição do ego e considerados os defensores do Reino. Podemos ver esta energia se manifestando todas as vezes que alguém defender seu ponto de vista (intelectualmente, logicamente, passionalmente ou mesmo através da violência, truculência ou medo... são apenas escalas de manifestação).

Do equilíbrio entre Chesed e Geburah surge a Força (cuja representação pictográfica é o Arcano 8 do Tarot), as condições ideais para que os mais adaptados sobrevivam e prosperem, sabendo quando expandir e quando restringir seus passos. A defesa e o ataque; recrutar e selecionar; expandir e proteger...

Embora a ciência e o método científico estejam atualmente restritos ao Plano Material e alguns filósofos, como John N Gray e Luis Benitez-Bribiesca, considerem as teorias de memes como sendo pseudo-ciência, os memes foram o maior avanço fora da filosofia para se tentar estudar o conceito de Egrégora até agora.


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[1] Saiba mais sobre o muwakkals neste texto em inglês: “The mysticism of sound” (O misticismo do som).

[2] Nota do Mori: O episódio final da série mais recente de documentários de Adam Curtis, na BBC, é uma crítica severa ao gene egoísta e tangencialmente aos memes.

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Crédito da imagem: Rafael Arrais (ali temos o Richard Dawkins a esquerda, e Rumi - grande sábio sufi - a direita [pintura antiga]; também temos uma ilustração de Sam Spratt no centro [meme face])

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