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9.8.10

Pornografia científica

Texto de Eva Jablonka e Marion J. Lamb em "Evolução em quatro dimensões" (editora Cia. das Letras) – Trechos das pgs.443 a 446. Tradução de Claudio Angelo. As notas ao final são minhas.

[Alguns trechos do livro trazem um diálogo entre dois personagens fictícios, I.M. é uma espécie de crítico das idéias expostas no livro, enquanto que M.E. é uma espécie de heterônimo que reúne o pensamento de ambas as autoras:]

I.M.: Então quais são as implicações morais da visão de vocês [1]?

M.E.: Biólogos que abordam a hereditariedade e a evolução de maneiras diferentes em geral têm valores e objetivos sociais parecidos. A maioria se opõe ao racismo; a maioria quer um mundo melhor e mais justo, e assim por diante. O grande problema é a imagem pública das diversas idéias biológicas [2]. Como muitos biólogos enfatizam o aspecto genético do comportamento humano, seus pontos de vista muitas vezes são interpretados de forma a levar à crença generalizada de que comportamentos comuns (em geral repreensíveis) são “genéticos”, “naturais” e, como doenças monogenéticas simples, inevitáveis. Isso é bobagem, mas é a maneira como as ideais dos biólogos são percebidas, e a maioria deles não faz nada para mudar essa percepção [3].
Uma visão mais ampla da hereditariedade e da evolução torna explícitos a riqueza de possibilidades abertas diante de nós e o fato de que nossas atividades, como indivíduos ou grupos, constroem o mundo em que vivemos [4]. Especificamente, reconhecer que temos uma história e podemos planejar o nosso futuro, que somos capazes de construir mundos imaginários compartilhados e explorá-los e persegui-los sistematicamente expande em muito a nossa liberdade. A plasticidade do comportamento humano é imensa. Com base no conhecimento atual, ninguém pode negar o poder da construção social histórica e explicar o status quo comportamental e social apenas em termos de genes e memes. Não podemos transferir o poder e a responsabilidade explanatórios para essas entidades!

I.M.: Isso é uma critica da sociobiologia humana, não é?

M.E.: Isso é uma crítica de “persona pública” dessa disciplina, o que em grande parte é culpa dos sociobiólogos. Queremos ser justas e claras: a maioria dos sociobiólogos não acredita que sejamos escravos dos nossos genes. O problema é que alguns deles tendem a promover uma imagem pública vulgar de “tendências” geneticamente determinadas [5]. Para isso eles ridicularizam seus oponentes, erguendo espantalhos e destruindo-os em triunfo, interpretando cada padrão de comportamento, da piada ao estupro, como manifestação de uma adaptação evoluída selecionada em algum momento do passado. O livro A natural history of rape [Uma história natural do estupro], de Thornhill e Palmer, é um exemplo perfeito desse gênero.
Eles não afirmam não ser possível sobrepujar a manifestação de um comportamento como a propensão ao estupro, mas sugerem que isso é muito difícil por se tratar de um comportamento embutido num módulo mental que evoluiu [6]. Nem é preciso dizer que não existe nem sombra de evidências para essas alegações evolutivas. São apenas histórias inventadas [just so stories].
[...] Eles estão sugerindo que é impossível mudar a tendência comportamental por meio de educação e mudança social? Com certeza os defensores dessas visões diriam que não. Diriam que, ao contrário, esses fatores ajudam a saber como moldar a sociedade e educar as pessoas para que elas superem os problemas associados ao lado desagradável de nossos comportamentos evoluídos. Mas ninguém nos diz como construir uma sociedade na qual tendências ao estupro evoluídas geneticamente não possam se manifestar. Essas pessoas e suas obras não trazem nada de significativo além de descrições suculentas e vendáveis de comportamentos sexuais e um punhado de platitudes sobre como evitar ou controlar impulsos inadequados – por exemplo, dando cursos de comportamento sexual a adolescentes do sexo masculino antes que eles aprendam a dirigir ou aconselhando mulheres jovens a se vestirem com discrição (ninguém defendeu ainda a adoção do cinto de castidade masculino).
Há pouco conteúdo real nessa pornografia “científica” soft. Este é um exemplo extremo, claro; Nem todas as histórias sociobiológicas humanas são tão vazias. O problema é que a oposição a elas não é tão forte quanto deveria ser nas fileiras de sociobiólogos mais sérios. [...] E suas versões vulgarizadas são muito populares.

I.M.: Porque elas são tão populares? Que tipo de necessidade elas satisfazem? Talvez isso possa dar uma pista sobre o tipo de visão de mundo que elas refletem.

M.E.: É provável que não exista só uma resposta. Talvez elas satisfaçam uma necessidade de pensar em termos de causas únicas, como na física clássica. Como as leis de Newton explicam os movimentos dos corpos celestes, os genes mendelianos explicariam o comportamento humano. A complexidade é explicada de uma forma simples e científica. Mas há um outro lado nesse fascínio com os genes. Os genes são vistos como elos com nosso passado distante, com os nossos ancestrais, que nos governam de uma maneira irracional e misteriosa.
Há algo de muito romântico nessa noção – na eterna força escura e profunda dos genes a nos guiar [7]. E essa combinação peculiar do romântico com o científico é incorporada a muitas das histórias evolutivas dos sociobiólogos. Talvez seja isso o que torne essas explicações baseadas nos genes tão atraentes para as pessoas [8].

***

[1] A teoria exposta pelas autoras ao longo do livro identifica quatro “dimensões” – quatro sistemas de herança que desempenham um papel na evolução: a genética, a epigenética (ou transmissão de características celulares, alheias ao DNA), a comportamental e a simbólica (transmissão através da linguagem e de outras formas de comunicação). Elas argumentam que esses sistemas são capazes de fornecer variações sobre as quais a seleção natural pode agir. Veja também meu comentário em outro trecho do livro publicado neste blog – “Astrologia genética”.

[2] É interessante como eu, que nem sou cientista, muitas vezes sou confundido com um em discussões online, apenas porque me mantenho algo informado sobre a divulgação científica mais atual. Talvez seja sorte em escolher os autores certos, mas acredito que no geral as pessoas mal se esforçam para ler sobre ciência – ao primeiro cientista (ou pseudo-cientista) que lhes traz uma teoria que combine com sua visão de mundo, dão-se já por satisfeitas... É mais ou menos por isso que muitos crêem piamente que os memes de Dawkins explicam a evolução não-física, quando em realidade os memes são muito mais entidades místicas do que elementos genuinamente científicos.

[3] Ou seja: quem não gosta de vender livros? Escreva o que o povo quer ler, ou invente uma nova teoria mirabolante baseada em genes, e venderá bem... Ocorre que raramente essa prática auxilia no desenvolvimento de nosso conhecimento e nossa ciência em geral, por razões óbvias.

[4] Não posso deixar de citar o Chefe Seattle: “Sabemos que a terra não pertence ao homem. O homem pertence à terra. Todas as coisas são interligadas, como o sangue que nos une. O homem não tece a teia da vida – ele é apenas um fio dela. O que fizer à teia, fará a si mesmo.”

[5] Esta é a atual ilusão persistente do determinismo. Anteriormente este papel já coube a deusa Fortuna (e mitos similares), depois a “mão de Deus”, depois aos governantes totalitários (que se diziam infalíveis e/ou representantes divinos), e hoje cai na conta do genecentrismo. Isso é mais sério do que parece, pois somos “educados” pela mídia a pensar que os genes determinam muito do que somos ou iremos ser, embora nem científico isso seja (e mesmo que fosse, a ciência tampouco é infalível).

[6] O pior de tudo é que essas teorias se valem de conceitos de psicologia evolutiva que podem fazer sentido, mas que devem ser analisados de maneira bem mais ampla e profunda... Por exemplo, em “A pré-história da mente” o arqueólogo Steven Mithen argumenta que os hominídeos pré-humanos apresentaram variadas gradações de módulos de inteligência – a inteligência geral, a naturalista, a técnica e a social. Porém, somente nos homo sapiens esses módulos da mente se unificaram em um único grande conjunto, de modo a possibilitar o surgimento da cultura, da arte e da religião humanas. Desnecessário dizer que o estudo de Mithen é muito mais profundo do que essas teorias de “módulos do estupro”.

[7] Eis que, mesmo num mundo científico-materialista, o lado misterioso, os antigos mitos e arquétipos continuam forçando-se adentro da imaginação humana. Ocorre que pode ser bastante perigoso lidar com eles no campo errado – não se trata de uma ciência exata e racional, mas de uma experiência que deve ser compreendida em seu contexto correto. Obviamente que a maior parte de nós já se perdeu desse contexto há muito tempo; mesmo os que se dizem religiosos muitas vezes rezam na verdade para o deus do consumo, e são tão materialistas quanto muitos ateus.

[8] “O gene da fé”, “o gene da racionalidade”, “o gene do bom humor”, “o gene da homossexualidade”, etc. – e o que seria tudo isso senão um politeísmo genecêntrico? Mas, se a “ciência” diz que sim, quem dirá que não?

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Crédito da foto: Divulgação/"This Ain't Star Trek XXX"

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9.6.10

A comunicação simbólica como sistema de herança

Texto de Eva Jablonka e Marion J. Lamb em "Evolução em quatro dimensões" (editora Cia. das Letras) – Trechos das pgs.241 a 245. Tradução de Claudio Angelo. As notas ao final são minhas.

Nós já sugerimos que nossa capacidade de se comunicar por meio de símbolos está na raiz de muitas das coisas que nos tornam tão diferentes de outros animais [1]. Os seres humanos têm um método único de transmitir e adquirir informação. O que queremos agora é examinar o sistema de comunicação simbólica de um ponto de vista mais focal, o do sistema que fornece uma quarta dimensão à hereditariedade e à evolução. Queremos tentar caracterizar esse sistema especial de herança da mesma forma como fizemos com os sistemas genético, epigenético e comportamental e ver o quanto ele é similar a cada um desses sistemas [2].

Existe pelo menos uma semelhança superficial entre a maneira como transmitimos informação através da fala e a maneira como os animais usam seus diversos cantos e chamados, então será que o sistema simbólico funciona da mesma maneira que o sistema de herança comportamental? Ou será mais parecido com o sistema genético? O DNA é chamado de “linguagem da vida”, e dizemos que nossas características estão “escritas nos genes”, portanto deve haver semelhanças óbvias entre os dois sistemas. Quais são elas? Que traços o sistema simbólico compartilha com outros sistemas de transmissão de informação, e o que o torna tão diferente e especial?

Existe uma propriedade importante compartilhada pelos sistemas genético e simbólico, mas que está ausente na herança comportamental. Símbolos e genes podem transmitir informação latente, ao passo que a informação precisa ser usada antes de ser transmitida ou adquirida por meios comportamentais. É fácil ver isso se pensarmos como um canto ou uma dança são transmitidos. Consideremos três casos: transmissão através do sistema genético, transmissão através do sistema comportamental e transmissão através do sistema simbólico. Para o exemplo genético, podemos usar as moscas-das-frutas do gênero Drosophila, que têm cantos e danças muito bonitos. As canções são entoadas pelos machos, que produzem-nas vibrando as asas (...) Cada espécie tem cantos e danças característicos, que permitem às moscas identificarem a própria espécie. Esses cantos e danças são inatos e sabe-se um bocado sobre sua genética, mas o ponto importante é que eles serão herdados mesmo que os pais nunca cheguem a executá-los (talvez porque um cientista malvado tenha arrancado suas asas) (...) Em outras aves e mamíferos, no entanto, o canto deve ser executado na frente dos indivíduos para que eles possam aprendê-lo. Somente ouvindo um canto é que os indivíduos poderão obter a informação que lhes permitirá reproduzi-lo. Em outras palavras (...), não existe informação latente que possa pular gerações.

Isso não acontece com a transmissão através do sistema simbólico. Seres humanos podem transmitir uma canção ou dança uns para os outros mesmo que sejam desafinados ou tenham dois pés esquerdos. Não é preciso cantar uma nota ou dar um passo de dança, pois podemos transmitir a informação necessária para a reprodução de uma canção ou de uma dança usando discos ou filmes, ou mesmo com instruções escritas ou orais. Não é preciso agir de imediato em cima de informações simbólicas para que elas sejam transmitidas. Ainda que a cultura capaz de interpretá-las permaneça intacta, elas podem permanecer latentes por gerações [3]. As informações para construir o Terceiro Templo têm sido transmitidas entre os judeus por quase 2 mil anos, mas o templo ainda não foi construído. E a receita da sopa da vovó pode ser passada entre várias gerações de uma família até que alguém resolva preparar a sopa de novo.

Os sistemas genético e simbólico são parecidos porque ambos podem transmitir informação latente, mas o sistema simbólico pode fazer muito mais do que isso. Como símbolos são convenções compartilhadas – signos socialmente pactuados –, eles podem ser mudados e traduzidos em outras convenções correspondentes. Teoricamente, seu potencial de tradução é ilimitado. Uma instrução em inglês que seja dada em letras romanas também pode ser dada em código Morse, num semáforo ou em código binário de computador. Os símbolos podem até mesmo ser “traduzidos” entre sistemas: a idéia de Jesus na cruz pode ser expressa em linguagem, em imagens, na dança e em mímica. “Perigo” pode ser expresso por uma palavra, uma imagem, um assobio. Uma história pode ser transmitida oralmente depois de ser decorada; pode ser transmitida também por meio de uma canção ou pantomima; pode ser transmitida por escrito; e, hoje em dia, pode ser transmitida também através de filmes, TV e jogos de computador. Assim, embora a informação simbólica seja como a informação genética no sentido de que é codificada e traduzível, o potencial de tradução da informação simbólica é muito maior que o da informação no sistema genético. Já que podemos “traduzir” símbolos de uma forma para outra e separar e combinar diferentes formas e níveis seguindo princípios gerais de coerência, é enorme a quantidade de informação simbólica que pode ser gerada.

(...) [Porém], a informação simbólica é muitas vezes transmitida de adultos para crianças com quem eles não têm parentesco (como na escola), de crianças a adultos e entre indivíduos da mesma faixa etária [4]. Nesse ponto, o sistema simbólico se parece com o sistema comportamental de outros animais. Mas há uma diferença significativa: instruções ativas são importantes nos sistemas de transmissão simbólica. Em outros animais, o aprendizado social em geral não envolve ensinamento intencional, mas para os humanos este é essencial, pois é o próprio sistema simbólico, e não apenas a cultura local que ele produz, que precisa ser culturalmente adquirido [5]. Por exemplo, embora as pessoas discutam o papel do aprendizado e o tipo de aprendizado envolvido, ninguém duvida de que é necessário muito aprendizado para uma criança compreender e usar a linguagem. A necessidade de aprendizado e instrução é vista ainda com mais clareza em outros tipos de sistema simbólico: nos ensinam o sistema simbólico da leitura, nos ensinam o sistema simbólico da matemática, nos ensinam como entender e participar dos rituais da nossa cultura. O arcabouço necessário para a interpretação das informações simbólicas precisa ser aprendido.

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[1] A teoria exposta pelas autoras ao longo do livro identifica quatro “dimensões” – quatro sistemas de herança que desempenham um papel na evolução: a genética, a epigenética (ou transmissão de características celulares, alheias ao DNA), a comportamental e a simbólica (transmissão através da linguagem e de outras formas de comunicação). Elas argumentam que esses sistemas são capazes de fornecer variações sobre as quais a seleção natural pode agir. Veja também meu comentário em outro trecho do livro publicado neste blog – “Astrologia genética”.

[2] Nada expõe de forma mais contundente a importância da capacidade de interpretar símbolos entre os seres humanos do que os casos de crianças selvagens – perdidas ou abandonadas em áreas selvagens e “criadas” por animais selvagens. Como no caso de Amala e Kamala, “criadas” por lobos em florestas da Índia, onde foi constatado que, após serem “salvas”, elas eram em realidade “pouco mais do que lobos”. Entretanto, vale também lembrar que o ser humano é um ser de potencialidades, e suas potencialidades de consciência e interpretação simbólica, uma vez despertas, o colocam sempre muito acima dos outros animais (que não têm tais potencialidades).

[3] Exemplos pela história não faltam. Os evangelhos de Nag Hammadi, encontrados em vasos séculos e séculos após terem sido escritos, nos trouxeram preciosidades como “O evangelho de Tomé”. Já o conhecimento contido nos manuscritos da Biblioteca de Alexandria, no entanto, infelizmente não teve a mesma sorte, e foi perdido em fogueiras acesas por seres ignorantes.

[4] Para o sistema simbólico a hereditariedade é apenas uma das formas de transmissão. Nesse sentido, ele é muito mais abrangente do que o genético, enquanto ainda tem muito mais possibilidades de transmissão e tradução que o comportamental. Não é difícil deduzir, diante dessa reflexão, que ele é o sistema de evolução da informação mais completo que conhecemos.

[5] A educação é, portanto, o cerne do desenvolvimento humano. Por isso verificamos que todos os sábios se preocuparam tanto em desenvolver as potencialidades de seus discípulos, ainda mais do que deixar manuscritos para a posteridade. É que eles sabiam que o sistema simbólico se transmite muito mais pela interpretação e pela compreensão do que pela escrita, que é apenas uma ferramenta da mente.

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Crédito da imagem: Liz_D.S

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3.5.10

Astrologia genética

Texto de Eva Jablonka e Marion J. Lamb em "Evolução em quatro dimensões" (editora Cia. das Letras) – Trechos das pgs.77 a 81. Tradução de Claudio Angelo. Os comentários e notas ao final são meus.

Infelizmente, o entendimento de muita gente da relação entre genes e caracteres é baseado nesse minúsculo conjunto de doenças monogênicas [1]. A visão popular é a de que os genes determinam, individual e diretamente, a aparência de uma pessoa e o seu comportamento. Nós temos genes para isso e aquilo (a cor dos nossos olhos, o formato do nosso nariz, o quanto somos tímidos, a nossa orientação sexual etc.), e a pessoa que você vê é em grande parte a soma dos efeitos dos genes dele ou dela mais um pequeno verniz social e educacional. O indivíduo é visto como pouco mais do que um robô, guiado por seus genes [2].

Obviamente, tal concepção de como os genes agem abastece a crença de que a biotecnologia dará enormes poderes aos geneticistas. As pessoas acreditam (e são incentivadas pelos cientistas a acreditar) que num futuro não muito distante os geneticistas conseguirão descobrir tudo a respeito delas apenas seqüenciando o seu DNA [3]. Não apenas os geneticistas poderão traduzir o “livro da vida” de cada pessoa como também serão capazes até mesmo de editá-lo, cortando os erros se necessário.

[...] A convicção de que o caráter de uma pessoa está “escrito nos genes” foi uma das razões para a reação histérica do público quando a clonagem produziu a ovelha Dolly. Aquela ovelhinha invocou uma estranha mistura de sentimentos, pois por um lado parecia oferecer a esperança da imortalidade pessoal [4]; por outro, porém, dava a impressão de que a nossa identidade individual única estava sob risco. Ambas as noções derivam da crença de que a relação causal entre genes e caracteres é simples e previsível – ou seja, que conjuntos idênticos de genes sempre produzirão fenótipos [5] idênticos. Essa convicção, no entanto, é muito enganosa e potencialmente prejudicial.

Nós não podemos garantir que no futuro não haja institutos de genética que finjam ler o futuro de um embrião no seu DNA. Se houver demanda, com certeza haverá pessoas dispostas a estabelecer esses institutos. No entanto, poucos geneticistas profissionais (ao menos em seus momentos mais lúcidos) acreditam em tal astrologia genética [6]. Isso apesar de incessantes alegações nos meios de comunicação de que o gene para a homossexualidade, o espírito de aventura, a timidez, a religiosidade ou de alguma outra característica mental ou espiritual foi isolado. Os geneticistas são em geral muito mais cautelosos em relação ao seu trabalho. Se você ler artigos científicos genuínos em vez de reportagens nos jornais sobre esses genes maravilhosos, vai perceber que na verdade o que se descobriu foi uma correlação entre a presença de uma determinada seqüência de DNA e a presença do caractere. De forma geral não fica claro que a seqüência de DNA tem uma relação causal com o caractere, e quase sempre fica bem claro que “o gene” não é condição necessária nem suficiente para o desenvolvimento do caractere.

[...] Estudar a genética humana não é fácil, pois os pesquisadores não podem controlar com quem as pessoas devem se casar e como elas devem viver [7]. Sempre há muitos fatores incontroláveis que poderiam estar influenciando aquilo que eles descobrem. Mesmo quando um estudo mostra que existe uma correlação entre a presença de um alelo [8] em particular com algum aspecto do comportamento humano, nós temos de ter cuidado em aceitar que essa relação seja causal. Por exemplo, precisamos saber se a associação observada é encontrada sob todas as condições e em todas as populações ou apenas na amostra estudada pelo cientista. Uma das razões pelas quais muitas celebradas descobertas dos “genes para” várias coisas terminaram em um silêncio constrangedor é que, quando começaram a seguir a descoberta original, os cientistas concluíram que a correlação não existia em outras populações. É muito raro que a associação entre um gene e um traço seja algo simples [9].

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Comentário geral
Aqueles que costumam ler meus artigos a algum tempo devem lembrar que abordei a questão do problema da evolução cognitiva em artigos como “A evolução desconhecida” e no mais aprofundado “Onde estarão os memes?”; Nesses artigos questionei a solução encontrada por teorias da biologia (os memes de Dawkins) e da psicologia (o Inconsciente Coletivo de Jung) para a questão da transmissão de características não físicas entre as gerações, e tentei demonstrar como a hipótese da reencarnação é ao mesmo tempo mais lógica e mais abrangente para a explicação do problema.

Pois bem, neste excelente livro (talvez revolucionário, tento pelas questões levantadas quanto por ser um dos poucos livros de grande alcance na divulgação científica atual escrito por mulheres – ver também, por exemplo, a excelente crítica recebida na Scientific American de Abril de 2010 [ano 8, #95]) as autoras trazem a primeira teoria inteiramente científica (leia-se, “ciência oficial” e/ou “não espiritualista”) que explica o problema levantado.

Sua teoria identifica quatro “dimensões” – quatro sistemas de herança que desempenham um papel na evolução: a genética, a epigenética (ou transmissão de características celulares, alheias ao DNA), a comportamental e a simbólica (transmissão através da linguagem e de outras formas de comunicação). Elas argumentam que esses sistemas são capazes de fornecer variações sobre as quais a seleção natural pode agir.

Não significa que explique alguns fenômenos como o das crianças que se lembram de vidas passadas, mas ao menos trata-se de uma teoria muito mais sólida, plausível e abrangente do que as propostas por Dawkins, Jung, pelos psicólogos evolutivos e ainda muitos outros.

O importante é que elas estão, verdadeiramente, caminhando adiante – e não estagnadas em um “genecentrismo” que nada mais é do que um antigo dogma da biologia.

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[1] Doenças de origem em componentes genéticos que se resumem a alterações de um único gene. São menos de 2% do total de doenças genéticas mapeadas – a maioria envolve a interação complexa de inúmeros genes e muitas vezes do ambiente em si.

[2] Essa é precisamente a visão do determinismo genético. Uma visão que vem se provando cada vez mais falha com o passar dos anos, e da divulgação de estudos mais honestos e corajosos sobre a evolução das espécies – em particular do homo sapiens.

[3] É o sonho neo-modernista do “autoconhecimento fast food”. As pessoas estão tão distantes delas próprias que crêem piamente que poderão “se descobrir” pelo seu DNA. As pessoas ainda vão sofrer muito, sem idéia do que fazer com seu sofrimento, e a indústria do “antidepressivo tarja preta” agradece...

[4] Como se a imortalidade (física) fosse resolver nossos problemas... Mas isso já é uma outra história.

[5] O fenótipo são as características observáveis ou caracteres de um organismo como, por exemplo: morfologia, desenvolvimento, propriedades bioquímicas ou fisiológicas e comportamento. O fenótipo resulta da expressão dos genes do organismo, da influência de fatores ambientais e da possível interação entre os dois.

[6] Seria melhor recorrer à astrologia tradicional, que tem muito mais a ver com uma “previsão” das potencialidades e da personalidade do bebê, do que o que vem codificado em seu DNA – e trata apenas de características físicas. Mas não quero aqui discutir sobre a astrologia em si, deixo isso para meu amigo Marcelo Del Debbio, que a conhece bem mais do que eu.

[7] Muitos pesquisadores investigam certas regiões da Índia onde a tradição dos “casamentos familiares” entre primos é seguida a milênios. Se existe alguma “raça pura” no sentido de ter seus genes restritos a um pequeníssimo grupo de pessoas a incontáveis gerações, ela está na Índia – e é bem mais fácil “isolar genes” entre eles.

[8] Um alelo é cada uma das várias formas alternativas do mesmo gene. Por exemplo, o gene que determina a cor da flor em várias espécies de plantas - um único gene controla a cor das pétalas, podendo haver diferentes versões desse mesmo gene. Uma dessas versões pode resultar em pétalas vermelhas, enquanto outra versão originará pétalas brancas.

[9] Não somos máquinas nem robôs, não adianta buscar “manuais de código fonte” para nos decifrar. Esse tipo de conhecimento será sempre um conhecimento “pela metade”, ou até bem menos da metade. Pretender que seres que interpretam informação se assemelhem a máquinas que simplesmente a computam é algo tão ou mais fantasioso quanto crer na literalidade bíblica.

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Crédito da imagem: Autism News

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