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11.6.14

49 noites depois...

Não percam a conta! O próximo lançamento das Edições Textos para Reflexão será nada menos do que o resultado da minha Contagem do Ômer neste ano de 2014: 49 noites antes da Colheita - um Sefirat ha Ômer poético. Certamente uma das fases mais inspiradas da minha vida como poeta e escritor...

Vocês já devem ter visto alguns poemas com títulos esquisitos por aqui, não? Pois é, eu já expliquei melhor do que eles se tratam noutro post. Agora quero lhes trazer uma passagem da Introdução do livro, onde falo sobre a música Lamidbar, do grupo Mawaca, que me auxiliou enormemente na jornada ascendente pela Árvore da Vida. E, ao final, uma amostra da capa do livro!

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LAMIDBAR

Há mais de uma década tenho a felicidade de conhecer um dos maiores grupos musicais em atividade no mundo; e que é, quem diria, brasileiro.

O Mawaca é um grupo que pesquisa e recria a música das mais diversificadas etnias do globo buscando conexões com a música brasileira. Formado por sete cantoras que interpretam canções em mais de dez línguas, o Mawaca revela no seu nome a essência do seu trabalho. Segundo a etnia hausa do norte da Nigéria os mawaka (cantores-xamãs) recorrem ao poder mágico da palavra cantada para atrair o poder dos espíritos.

Como me vali de uma de suas interpretações mais belas, Lamidbar, para me auxiliar em minhas meditações na Contagem do Ômer, penso que deveria trazer aqui ao menos a letra deste canto hebraico tradicional, que segue abaixo:

Lamidbar saenú
Al gavshot gmalim
Al tsabeihem ietsaltselú
Paamonim gdolim
Saenú, saenú
Lamidbar saenú
Li li li li li li

Allá en el midbar,
vide relumbrar,
con voz de adobe
y un buen cantar
las tablas de la ley
(que) vide abajar

Mira el Rey
Es Mose rabenu
Que subió y abajó
a los altos cielos
Li li li li li li

[tradução]

Vamos para o deserto
Montados em nossos camelos
Seus guizos, pelo caminho, vão tilintar
Vamos, vamos!
Li li li li li li

Lá no deserto
vê-se alumiar
ao som do adobe [pandeiro sem platinelas]
e de um lindo cantar
as tábuas da lei
que dos céus vão baixar

Vivas ao rei!
É Moisés, o rabino
Que subiu e desceu
das alturas celestiais
Li li li li li li

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Segundo Magda Pucci, do grupo Mawaca, “neste arranjo, nós tomamos a melodia cantada por Ora Sittner, cujo texto está em hebraico (versão de Alexander Penn), e utilizamos o texto em ladino da versão grega e turca coletada por Susana Weich, especialista em música sefaradita (dos judeus de Portugal e Espanha)”.

Lamidbar é parte do CD/DVD Pra todo canto, e pode ser facilmente encontrada online (*).

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(*) Por exemplo, no Soundcloud:

Capa do livro

Sim, terá versão impressa, além de eBook na Amazon!


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28.2.14

Alagoas, Curdistão, Deus e o Diabo

Há mais de uma década tenho a felicidade de conhecer um dos maiores grupos musicais em atividade no mundo; E que é, quem diria, brasileiro...

O Mawaca é um grupo que pesquisa e recria a música das mais diversificadas etnias do globo buscando conexões com a música brasileira. Formado por sete cantoras que interpretam canções em mais de dez línguas (línguas indígenas brasileiras, espanhol, búlgaro, finlandês, japonês, húngaro, swahili, grego, árabe, hebraico, ioruba e português), o Mawaca revela no seu nome a essência do seu trabalho. Segundo a etnia hausa do norte da Nigéria os mawaka (cantores-xamãs) recorrem ao poder mágico da palavra cantada para atrair o poder dos espíritos.

Além das sete cantoras o Mawaca é formado por um grupo instrumental acústico que apresenta uma multiplicidade de timbres; acordeom, violoncello, flauta, violino e sax soprano, baixo, além dos instrumentos de percussão como as tablas indianas, derbak árabe, djembés africanos, berimbau, vibrafone, pandeirões do Maranhão e marimba.

Inquilinos do mundo é o mais novo projeto do grupo musical Mawaca. Ele apresenta melodias e ritmos dos povos nômades, refugiados, exilados e ciganos de todo o mundo. Um belíssimo exemplo é a mistura de canções abaixo, iniciando com Min Bêriya Te Kiriye, uma canção de amor do Curdistão, autoria do ativista Sivan Perwer; e terminando com Grande Poder, um legítimo coco da Alagoas, autoria do Mestre Verdelino:

Mawaca é talvez o grupo musical com o leque de influências mais aberto em todo o mundo. Cantam músicas do Brasil e do Curdistão e de todos os cantos de lá para cá, até mesmo do Japão... E, se cantam sobre Deus, tinham de cantar também sobre o Diabo. Abaixo trazemos a canção Mawaca Pra Qualquer Santo, cuja letra é uma adaptação do cordel Brosogó, militão e o Diabo, de Patativa do Assaré:

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Crédito da imagem: Igor Maikov

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29.5.13

Inquilinos do mundo

Inquilinos do mundo é o mais novo projeto do grupo musical Mawaca. Ele apresenta melodias e ritmos dos povos nômades, refugiados, exilados e ciganos de todo o mundo. São canções da Macedônia, Bulgária, Romênia, Grécia, Espanha, Índia, México, Haiti que ficaram guardadas na memória como verdadeiros relicários sonoros. Abaixo, uma prévia deste CD e DVD que deve estar sendo lançado em breve. A música Jarnana é uma canção tradicional de amor da Albânia:

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Há mais de uma década tenho a felicidade de conhecer um dos maiores grupos musicais em atividade no mundo; E que é, quem diria, brasileiro...

O Mawaca é um grupo que pesquisa e recria a música das mais diversificadas etnias do globo buscando conexões com a música brasileira. Formado por sete cantoras que interpretam canções em mais de dez línguas (línguas indígenas brasileiras, espanhol, búlgaro, finlandês, japonês, húngaro, swahili, grego, árabe, hebraico, ioruba e português), o Mawaca revela no seu nome a essência do seu trabalho. Segundo a etnia hausa do norte da Nigéria os mawaka (cantores-xamãs) recorrem ao poder mágico da palavra cantada para atrair o poder dos espíritos.

Além das sete cantoras o Mawaca é formado por um grupo instrumental acústico que apresenta uma multiplicidade de timbres; acordeom, violoncello, flauta, violino e sax soprano, baixo, além dos instrumentos de percussão como as tablas indianas, derbak árabe, djembés africanos, berimbau, vibrafone, pandeirões do Maranhão e marimba.

Vejam abaixo mais algumas belíssimas canções retiradas dos últimos trabalhos da banda:

Tango dos Chavicos, uma canção sefardita que está no repertório do DVD "Pra todo canto" e tem arranjo de Magda Pucci e Thomas Howard.

Ciranda Indiana
Este cirandeiro tradicional brasileiro é uma das faixas do DVD "Rupestres Sonoros". Com arranjos de Magda Pucci e base eletrônica de Xuxa Levy, esta música é uma comunhão de coletivos tribais e uma homenagem a cultura indígena.

Cangoma Me Chamou
Este tema dos escravos brasileiros, imortalizada pela cantora Clementina de Jesus, é uma das faixas do DVD "Pra todo Canto".

Soran Bushi
Esta música tradicional dos pescadores de Hokkaido (Japão) faz parte do repertório do DVD "Ikebanas Musicais". Esta faixa tem arranjo musical de Magda Pucci e Cíntia Zanco, e participações especiais de Deborah e Daniella Shimada.

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Crédito da imagem: Divulgação (Mawaca)

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14.5.12

Cangoma a chamar

(atenção: este é um artigo musical, tenha ouvidos atentos)

Shhh... Escute, você ouve este som etéreo, distante? Perecem, parecem tambores... Tambores, e um lamento estranhamente alegre...

O último dia 13 de maio de 2012 foi um dia muito especial. Não pelo dia em si, mas pelo que simbolizou: a união da comemoração do fim legal da escravidão no Brasil, e a celebração do dia das mães. Além de terem caído num mesmo dia, este dia foi um domingo, pois no Brasil se comemora o dia das mães sempre no segundo domingo de maio. Ora, em muitas casas de umbanda, ou casas espíritas e espiritualistas que são simpáticas a umbanda, se realiza uma festa no domingo mais próximo do dia que simboliza a libertação dos escravos no país – ou seja, além de neste ano a festa poder ter sido realizada no próprio domingo em si, ainda foi dia das mães.

Para compreender a importância disso, é preciso retornar alguns séculos no tempo e visualizar a barbárie que os povos europeus, ditos civilizados, realizaram na África. A escravidão não significava apenas o roubo dos adultos mais saudáveis e promissores de um reino ou grupo étnico africano, mas a separação de mães e filhos, e filhos e mães: a pura devastação daquilo que nos é tão sagrado, a família. Deste modo, podemos supor que não era tanto por saudades de sua terra que os escravos choravam, nem tanto por serem açoitados e tratados como animais selvagens, mas antes por terem deixado pais, mães, esposas e até mesmo filhos, em sua terra natal – para jamais os verem novamente, nem sequer receber cartas.

Pensemos nisso quando reclamamos de nossa dor de dente, do time de futebol que perdeu a final do campeonato, ou daquele concurso público em que não passamos, e deixamos de ganhar alguns milhares de reais a mais do que já ganhamos... Os que vieram da África, esses sim tiveram razão do que reclamar.

Mas, como foi... Como foi então que os negros puderam enxugar suas lágrimas, e amenizar sua dor? Como poderia ter sido, que não através do espírito? Pois eles não poderiam sequer escrever cartas que pudessem atravessar o oceano, mas sabiam que enquanto remavam ao Brasil, tinham a Senhora do Mar abaixo, e o Senhor dos Ventos acima – os orixás ainda estavam com eles, e a espiritualidade foi sua ponte entre o Brasil e a África, ponte esta que jaz firme até hoje.

Foi isto mesmo: nós os retiramos de sua terra, os açoitamos e dissemos que nos pertenciam, pois sequer tinham alma... E o com o que eles nos retribuíram? Axé, danças e tambores...

A festa que se realiza no 13 de maio é a festa dos pretos velhos. Pense nisso: hoje a ciência sabe que toda a humanidade migrou da África para o restante do globo, a África é a mãe dos homo sapiens, a nossa mãe. Se um genuíno preto velho é um desses espíritos antigos, é bem capaz de fazer parte do grupo espiritual mais antigo da Terra – a despeito dos outros que migraram de outras casas. Kardec nos alertou que “os espíritos falam apenas do que sabem”, e ele tinha razão; Porém, alguns dos pretos velhos que aparecem para papear em tais festas podem saber muito, muito mesmo, pois são tão antigos quanto os primeiros xamãs, e tão sábios quanto os primeiros filósofos.

E há ainda aqueles espíritos que, cansados de toda a formalidade e prepotência que se encontra em outras doutrinas ditas civilizadas, resolvem aparecer como pretos velhos, de barba branca e encaracolada, olhos profundos como o mar, voz adocicada como a primavera, e arqueados pelos séculos em suas bengalas imaginárias. Sabe-se que o grande Bezerra de Meneses volta e meia aparece como um destes pretos velhos, quem sabe quantos sábios de outrora não preferem se utilizar deste mesmo símbolo, e permanecerem anônimos nas danças de tambor?

Lai ê, lai ê, lai á, disse levanta povo... Ouvem alguma coisa agora? Acho que está vindo lá do fundo...

Vissungos eram os cantos dos escravos utilizados nas lavras de diamante e ouro, ao redor da região de Diamantina, em Minas Gerais. Alguns de seus cantos atestam como o fim da escravidão no Brasil foi muito mais legal do que real, e como foi ser liberto em uma terra que não era a sua, que não era a Mãe África. Embora alguns dos legisladores brasileiros, e alguns dos artistas e pensadores da época, fossem genuinamente simpáticos aos ex-escravos, a maioria não era, e todos sabemos quantas gerações foram necessárias para que eles fossem aceitos como cidadãos, como seres que têm alma e, portanto, direitos.

Mas a alma de alguns deles era imensa, tão imensa que jamais foi embora, e sorrateiramente infiltrou-se em nossa cultura, nossa religião, nosso pensamento... Já disseram que os orixás eram demônios, mas como demônios poderiam compor canções tão belas quanto os cantos dos escravos de Minas, da Bahia, do Rio, do Maranhão?

Clementina de Jesus foi uma grande cantora tardia que, do alto de seus 60 e poucos anos, ainda assim teve o tempo e a vitalidade para nos deixar alguns clássicos da música popular brasileira. Clementina, como neta de uma escrava, cantava com propriedade.

Foi sua voz quem nos resgatou um dos mais belos vissungos de Minas, e que, por ser tão belo e profundo, nos serve como um verdadeiro mantra para a libertação... A libertação dos preconceitos, a libertação da ignorância, a libertação do ego, para que um dia, como os pretos velhos, possamos apenas dançar ao som do tambor, da cangoma [1], e nos esquecer, por um breve momento, de toda a dor do mundo...

Tava durumindo
Cangoma me chamou
Disse: levanta povo,
Cativeiro já acabou!

Agora sim, todos estamos a ouvir... Vamos então cantar, e fazer desse canto um hino de liberdade... Até que todo cativeiro fique para trás, e a nossa frente, apenas a Mãe África, e milhares de pretos velhos a nos saudar.

Áudio de Cangoma me chamou – Mawaca (em 2:00 ouve-se a voz de Clementina, uma gravação inserida na música).

» Veja também Mawaca cantando ao vivo este mantra (do DVD "Para todo canto").

» Ouça Clementina de Jesus no original (esta versão é obviamente muito mais próxima do que se ouvia em Minas).

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Sentido e escrito por raph, branco de pele, africano de dna, iluminado na alma por alguma luz que não sabe dizer a cor...

[1] Há um tambor grande chamado de cangoma ou angoma. Esse tambor avisa, no registro da canção, o fim da escravidão, como os sinos das igrejas que tocavam avisando e marcando os momentos importantes da vida da comunidade.

Crédito das imagens: Google Image Search

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25.3.12

Cantos da floresta

O Mawaca é um grupo que pesquisa e recria a música das mais diversificadas etnias do globo buscando conexões com a música brasileira. Formado por sete cantoras que interpretam canções em mais de dez línguas (línguas indígenas brasileiras, espanhol, búlgaro, finlandês, japonês, húngaro, swahili, grego, árabe, hebraico, ioruba e português), o Mawaca revela no seu nome a essência do seu trabalho. Segundo a etnia hausa do norte da Nigéria os mawaka (cantores-xamãs) recorrem ao poder mágico da palavra cantada para atrair o poder dos espíritos.

No documentário Cantos da floresta (com cerca de 27min.), vemos como o grupo foi atrás dos povos antigos da Amazônia, de sua cultura, sua música, e seu espírito... Vemos como, através da música, séculos de opressão podem ser perdoados, e um novo contato, uma nova visão, podem ser reestabelecidos. No fundo, somos todos iguais, e é através desses espelhos entre nós que a luz do espírito tem sua chance de irradiar-se adiante, uma vez mais:

Veja também outros clássicos do Mawaca, ao vivo:

» Ciranda indiana (Brasil/Índia)

» Cangoma me chamou (África/Brasil)

» Lamidbar (Israel)

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1.11.11

Mawaca

Há mais de uma década tenho a felicidade de conhecer um dos maiores grupos musicais em atividade no mundo; E que é, quem diria, brasileiro...

O Mawaca é um grupo que pesquisa e recria a música das mais diversificadas etnias do globo buscando conexões com a música brasileira. Formado por sete cantoras que interpretam canções em mais de dez línguas (línguas indígenas brasileiras, espanhol, búlgaro, finlandês, japonês, húngaro, swahili, grego, árabe, hebraico, ioruba e português), o Mawaca revela no seu nome a essência do seu trabalho. Segundo a etnia hausa do norte da Nigéria os mawaka (cantores-xamãs) recorrem ao poder mágico da palavra cantada para atrair o poder dos espíritos.

Além das sete cantoras o Mawaca é formado por um grupo instrumental acústico que apresenta uma multiplicidade de timbres; acordeom, violoncello, flauta, violino e sax soprano, baixo, além dos instrumentos de percussão como as tablas indianas, derbak árabe, djembés africanos, berimbau, vibrafone, pandeirões do Maranhão e marimba.

Vejam abaixo um curto documentário sobre o grupo (cerca de 16 min.):

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Vejam também a extraordinária Kali, uma oração para a poderosa esposa da divindade hindu Shiva - tradicionalmente entoado como um mantra –, que transformou-se num inusitado rap indiano. Com a dança maravilhosa (e assustadora) de Zuzu Abu:


De todos os cantos, para todo canto, das 1.001 línguas, dos 1.001 povos...

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Crédito da imagem: Divulgação (Mawaca)

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