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6.3.13

A revelação de Hermes Trimegisto

Texto de Mircea Eliade em "História das crenças e das ideias religiosas, vol. II” (Ed. Zahar) – trechos das pgs. 258 a 261. Tradução de Roberto Cortes de Lacerda. Algumas notas ao final são minhas.

Sob a denominação de hermetismo, compreende-se a totalidade das crenças, ideias e práticas transmitidas na literatura hermética [1]. Trata-se de uma coletânea de textos de desigual valor, redigidos entre o século III a.C. e o século III d.C. Distinguem-se duas categorias: os escritos pertencentes ao hermetismo popular (astrologia, magia, ciências ocultas, alquimia) e a literatura hermética erudita, em primeiro lugar os 17 tratados, em grego, do Corpus Hermeticum [2]. Apesar de suas diferenças de propósito, conteúdo e estilo, há entre os dois grupos de textos certa unidade de intenção, a qual evoca as relações entre o taoismo filosófico e o taoismo popular ou a continuidade entre as expressões “clássicas” e “barrocas” da ioga [3]. Cronologicamente, os textos do hermetismo popular são os mais antigos, sendo que alguns deles datam do século III a.C. Quanto ao hermetismo filosófico, o seu desabrochar deu-se sobretudo no segundo século da Era Cristã.

Como era de prever, essa literatura reflete mais ou menos o sincretismo judaico-egípcio (e portanto também certos elementos iranianos); reconhece-se, ademais, a influência do platonismo; mas, desde o século II d.C., o dualismo gnóstico torna-se predominante. “Pelos seus atores, pelo seu cenário, pelos seus mitos, a literatura hermetista pretende ser egípcia. Essa pretensão, pelo menos para alguns textos antigos, baseia-se em certo conhecimento do Egito ptolomaico ou romano, conhecimento cuja realidade não devemos subestimar” [4]. As personagens (Thoth, Agatodêmon, Amon, etc.), os cenários (Mênfis e Tebas, Hermópolis, Saís, Assuã, etc.), certos motivos da teologia faraônica, a familiaridade com as tradições egípcias antigas, constituem indicações que devemos levar em conta.

A identificação de Thoth com Hermes já era conhecida por Heródoto (II, 152). Para os escritores da época helenística, Thoth era o patrono de todas as ciências, o inventor dos hieróglifos e um temível mágico. Teria criado o mundo por meio da palavra; por outro lado, os estoicos haviam identificado Hermes com o lógos [5].

Os escritos do hermetismo popular exerceram um papel importante na época imperial. [...] O conhecimento, e portanto o domínio da natureza, era possibilitado pela divindade. Por conseguinte, a ciência de tipo hermético constitui, ao mesmo tempo, um mistério e a transmissão iniciatória desse mistério; o conhecimento da natureza é obtido pela oração e pelo culto ou, em um nível inferior, por meio da sujeição mágica. Nesse corpus amorfo de receitas mágicas e de tratados referentes à magia natural e às ciências ocultas, voltamos por vezes a deparar com concepções características da literatura erudita.

No Koré Kósmou (14-18), a criação das almas é descrita como uma operação alquímica. A oração que serve de fecho ao Asclepius é reencontrada, em grego, numa receita mágica. A importância dessa literatura hermética “popular” não deve ser subestimada [...]. Sua cosmologia e suas ideias mestras (a doutrina das simpatias e correspondências, em primeiro lugar a correspondência entre macrocosmo e microcosmo) tiveram considerável êxito desde a baixa Idade Média até aproximadamente o fim do século XVIII; voltamos a encontrá-las não só nos platônicos italianos e em Paracelso, como também em cientistas tão diferentes como John Dee, Ashmole, Fludd e Newton [6]. [...]

[Os tratados de literatura hermética erudita] diferem pelo gênero literário e, sobretudo, por sua doutrina. Já em 1914, Bousset observara que o Corpus Hermeticum apresenta duas teologias inconciliáveis; uma otimista (de tipo monista-panteísta), a outra pessimista, caracterizada por um forte dualismo. Para a primeira, o cosmo é belo e bom, porquanto é penetrado por Deus [7]. Ao se contemplar a beleza do cosmo, chega-se à divindade. Deus, que é ao mesmo tempo Um (C.H., XI, 11) e Todo (XII, 22), é Criador, e recebe o nome de “Pai”. O homem ocupa o terceiro lugar na tríade, depois de Deus e do cosmo [8]. Sua missão é “admirar e adorar as coisas celestes, cuidar das coisas terrestres e governá-las” (Asclepius, 8). O homem é, em última análise, o complemento necessário da Criação; é “o ser vivo mortal, ornamento do Ser vivo imortal” (C.H., IV, 2).

Por outro lado, na doutrina pessimista, o mundo é fundamentalmente mau, “não é obra de Deus, pelo menos do primeiro Deus, pois esse primeiro Deus mantém-se infinitamente acima de toda matéria, está oculto no mistério do seu ser: só podemos, portanto, atingir a Deus fugindo do mundo, devemos nos comportar aqui embaixo como um estrangeiro” [9]. Lembremos, por exemplo, a gênese do mundo e o drama patético do homem segundo o primeiro tratado do Corpus, o Poimandres: o intelecto superior andrógino – o noûs – cria inicialmente um demiurgo que modela o mundo, em seguida o Ánthrôpos, o homem celeste; este último desce na esfera inferior, onde, “iludido pelo amor”, se une à natureza (Phúsis) e gera o homem terrestre. Daí em diante, o Ánthrôpos divino cessa de existir como pessoa distinta, porque ele anima o homem: sua vida transforma-se na alma humana e sua luz converte-se em noûs.

É por essa razão que, sozinho entre os seres terrestres, o homem é, ao mesmo tempo, mortal e imortal. No entanto, com o auxílio do conhecimento, o homem pode “tornar-se deus”. Esse dualismo, que desvaloriza o mundo e o corpo, sublinha a identidade entre o divino e o elemento espiritual do homem; tal como a divindade, o espírito humano (noûs) caracteriza-se pela vida e pela luz. Como o mundo é “a totalidade do mal” (C.H., VI, 4), temos de nos tornar “estrangeiros” no mundo (XIII, 1) para que possamos efetuar o “nascimento da divindade” (XIII, 7); de fato, o homem regenerado dispõe de um corpo imortal, é “filho de Deus, o Todo no Todo” (XIII, 2).

Essa teologia, solidária de uma cosmogonia e de uma soteriologia específicas, tem uma estrutura “gnóstica” por excelência. Seria, porém, imprudente vincular ao gnosticismo propriamente dito os tratados herméticos que compartilham o dualismo e o pessimismo. Certos elementos mitológicos e filosóficos de tipo “gnóstico” fazem parte do Zeitgeist da época: por exemplo, o menosprezo do mundo, o valor salvífico de uma ciência primordial, revelada por um Deus ou por um ser sobre-humano e comunicada sob o signo do segredo. Acrescentemos que a  importância decisiva atribuída ao conhecimento, transmitida sob a forma de iniciação a alguns discípulos, lembra a tradição indiana (os Upanixades, o Samkhya e o Vedanta), assim como o “corpo imortal” do homem regenerado apresenta analogias com o hata-ioga, o taoismo e as alquimias indiana e chinesa [10].

***

[1] O hermetismo parece ser bastante antigo, mas foi primordialmente através da literatura que ele sobreviveu até os dias atuais. Ou, pelo menos, é o que os historiadores podem confirmar. Se as práticas magísticas atuais relacionadas ao hermetismo têm algum parentesco com aquelas de mais de 2 mil anos atrás, é muito complexo saber.

[2] Nota do autor: Dispomos ainda da tradução latina, conhecida pelo nome de Asclepius, de um “Discurso perfeito” (Lógos téleios) cujo original se perdeu e de uma trintena de exercícios conservados no Anthologium de Estobeu, c.500.

[3] Mircea realmente fala sobre quase todas as religiões em sua obra. Infelizmente morreu antes de terminar a última parte (motivo do vol. III ser mais breve que os demais), onde caberia um resumo das tradições xamânicas e da mitologia e ritualística africana. Foi uma grande perda para os amantes de mitologia o fato de ele não ter conseguido terminar estes textos.

[4] Nota do autor: Jean Doresse, L’hermétisme égyptianisant, p.442.

[5] Nota do autor: Uma tradição que remonta aos primeiros Ptolomeus relata que Thoth, o primeiro Hermes, viveu “antes do dilúvio”; o segundo Hermes, o Trimegisto, lhe sucedeu, e depois vieram seu filho Agatodêmon e seu neto Tat. Todas essas personagens são citadas no tratado Kórê Kósmou. A genealogia é autenticamente egípcia.

[6] Alguns princípios herméticos também são reencontrados na ciência a partir do fim do século XIX, particularmente na cosmologia, na física de partículas e na física quântica. Enquanto “assim em cima, assim embaixo” pode ser relacionado diretamente as simetrias espaciais e temporais do espaço-tempo (a gravidade atua na Terra da mesma forma que em galáxias há milhões de anos-luz), “tudo vibra, nada está parado” certamente pode ser reencontrado no mundo subatômico.

[7] Benedito Espinosa resumiu tal pensamento antigo de forma magistral em sua Ética.

[8] Um pouco parecido com a tríade do cristianismo (Pai, filho e espírito santo), com a diferença que o cosmo é correspondente ao espírito santo, a preencher tudo que há; e, mais fundamental, pelo fato de “o homem” não ser apenas “um único homem”, mas toda a humanidade. Ao afirmar “sois deuses, dia virá que farão tudo que tenho feito e ainda muito mais”, mesmo Jesus estava se alinhando mais ao hermetismo “otimista” do que ao cristianismo.

[9] Devemos lembrar que esta é apenas a análise que os estudiosos modernos fazem desta doutrina. Ela em muito se assemelha a crítica da Igreja ao gnosticismo; até mesmo porque, de fato, o gnosticismo influenciou o hermetismo (e o zoroastrismo influenciou a ambos). Se formos analisar “ao pé da letra”, a ideia de que há um primeiro Deus que criou o cosmo e depois “se retirou”, deixando o governo do mundo físico (uma sombra do “mundo espiritual”) ao cargo de um deus mau, ela certamente parecerá absurda. Por outro lado, se nós formos recorrer a interpretações mais aprofundadas (que o “mundo ilusório” existe apenas na visão de quem ainda não tem olhos para ver o Reino de Deus; que o “deus mau” é um aspecto de nossa própria ignorância; etc.) mesmo o hermetismo “pessimista” passa a alcançar um sentido espiritual mais profundo.

[10] O problema de se estudar este tipo de conhecimento atualmente, é que tendemos a vê-lo somente como um conhecimento, uma literatura, uma teoria espiritual. Seja no gnosticismo, seja no hermetismo e em inúmeras outras escolas iniciáticas, a gnose em si não se traduz apenas em “conhecimento adquirido”, mas sim em “iniciação, renovação espiritual”. Devemos lembrar que o lógos grego inicialmente significava “palavra escrita ou falada”, mas após Heráclito passou a ter significados mais amplos. O lógos como “capacidade de racionalização” é o que foi traduzido para a modernidade simplesmente como “razão”; porém, há ainda outras interpretações antigas. O lógos também significava, na época helenística, um “princípio cósmico de Ordem e Beleza”. Aquele filósofo ou sábio que buscava esta espécie de razão, muito diferentemente da razão moderna, buscava uma razão permanentemente conectada ao Cosmos. Uma razão religiosa por excelência, embora isto hoje soe um absurdo para os racionalistas...
Além disso tudo, devemos sempre levar em consideração os conselhos de outro especialista em mitologia do século passado, Joseph Campbell:

Há uma velha história que ainda é válida. A história da busca. Da busca espiritual... Que serve para encontrar aquela coisa interior que você basicamente é.

Todos os símbolos da mitologia se referem a você. Você renasceu? Você morreu para a sua natureza animal e voltou à vida como uma encarnação humana?

Na sua mais profunda identidade, você é Deus. Você é um com o ser transcendental.

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Crédito da imagem: Gravura de autor anônimo, divulgada primeiramente em um livro de Camile Flammarion

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7.12.12

De Brahman ao último talo de erva

Texto de Mircea Eliade em "História das crenças e das ideias religiosas, vol. II” (Ed. Zahar) – trechos das pgs. 57 a 59. Tradução de Roberto Cortes de Lacerda. As notas ao final são minhas.

[Segundo a sanquia-ioga [1]], a substância (prakrti) é tão real e eterna como o espírito (purusa) [2]. Contudo, ao contrário do purusa, é dinâmica e criadora. Embora perfeitamente homogênea, essa substância primordial possui, por assim dizer, três “modos de ser” que lhe permitem manifestar-se de três maneiras diferentes, chamadas gunas: 1) sattva (modalidade da luminosidade e da inteligência); 2) rajas (modalidade da energia motora e da atividade mental); 3) tamas (modalidade da inércia estática e da obscuridade psicomental). Os gunas têm, portanto, por um lado, um caráter objetivo, já que constituem os fenômenos do mundo exterior, e, por outro lado, uma caráter subjetivo, uma vez que sustentam, alimentam e condicionam a vida psicomental.

[...] O Universo – objetivo e subjetivo – é apenas a transformação de uma etapa inicial da natureza, ahamkara (que quer dizer: massa unitária aperceptiva, desprovida ainda da experiência “pessoal” [3]), quando, pela primeira vez, na massa energética surgiu um pressentimento do ego [4]. Mediante um duplo processo de desenvolvimento, o ahamkara criou um duplo Universo: interior e exterior, esses dois “mundos” que têm entre si correspondências eletivas. Dessa maneira, o corpo do homem, assim como suas funções fisiológicas, seus sentidos, “estados de consciência” e até sua inteligência são, todos, criações de uma mesma e única substância: aquela que produziu o mundo físico e suas estruturas [5].

É oportuno observar a importância fundamental que o sanquia-ioga, como quase todos os sistemas indianos, atribui ao princípio da individualização pela “autoconsciência”. A gênese do mundo é um ato quase “psíquico”. Os fenômenos objetivos e psicofisiológicos têm uma matriz comum, sendo que a única diferença que os separa é a fórmula dos gunas, como o sattva predominando nos fenômenos psicomentais, o rajas nos fenômenos psicofisiológicos (paixão, atividade dos sentidos, etc.), enquanto os fenômenos do mundo material são constituídos pelos produtos cada vez mais densos e inertes do tamas (átomos, organismos vegetais e animais, etc.) [6].

Com esse fundamento fisiológico, compreende-se por que o sanuia-ioga considera toda experiência psíquica um simples processo “material”. A moral ressente-se disso: a bondade, por exemplo, não é uma qualidade do espírito, mas uma “purificação” da “matéria sutil” representada pela consciência [7]. Os gunas impregnam todo o Universo e estabelecem uma simpatia orgânica entre o homem e o cosmo [8]. De fato, a diferença entre o cosmo e o homem é apenas uma diferença de grau, e não de essência [9].

Graças ao seu “desenvolvimento” progressivo (parinama), a matéria produziu formas infinitas, cada vez mais compostas, cada vez mais variadas. Acredita o sanquia que uma Criação tão vasta, uma construção de formas e organismos a tal ponto complicada, exige uma justificativa e uma significação exteriores a ela mesma. Uma prakti primordial, informe e eternamente imóvel, pode ter um sentido. Mas o mundo, tal como o vemos, apresenta, ao contrário, um número apreciável de estruturas e formas distintas. A complexidade morfológica do cosmo é elevada pelo sanquia à categoria de argumento metafísico. Pois ensina-nos o bom senso que todo composto existe em função de outro composto [10]. Assim, por exemplo, a cama é um conjunto composto de várias partes, mas essa articulação provisória das partes é efetuada em função do homem (Samkhya-karika, 17).

O sanquia-ioga revela, assim, o caráter teleológico da Criação; se a Criação não tivesse por missão servir o espírito, seria absurda, despida de sentido. Tudo na natureza é “composto”; tudo deve, portanto, ter um “superintendente”, alguém que possa servir-se desses compostos. Esse “superintendente” não poderia ser a atividade mental nem os estados de consciência (também eles produtos extremamente complexos da prakti). Temos aí a primeira prova da existência do espírito: “o conhecimento da existência do espírito pela combinação para proveito de outrem” [11].

Ainda que o eu (purusa) seja encoberto pelas ilusões e confusões da Criação cósmica, a prakti é dinamizada por esse “instinto teleológico” inteiramente voltado para a libertação do purusa. Porque, “desde Brahman até o último talo de erva, a Criação existe em proveito do espírito até que tenha atingido o conhecimento supremo” (Samkhya-sutra, III, 47).

***

[1] Sistema de ioga que data da época dos Upanixades.

[2] As questões levantadas lidam com o famoso dualismo filosófico entre a substância material e a substância espiritual.

[3] Complementação do autor: Mas com a consciência obscura de ser um ego (donde a experessão ahamkara, aham = ego).

[4] No início, havia apenas o Grande Uno refletido na forma de um ser. Ao refletir, não encontrou nada além de si mesmo. Então, sua primeira palavra foi: “Isto sou eu”... (Upanixades)

[5] É precisamente aqui que a filosofia védica se une a concepções praticamente idênticas que datam do antigo Egito (hermetismo) e da Grécia antiga (Parmênides, e depois Plotino), para muitos séculos depois culminarem na bela síntese de Benedito de Espinosa: “uma substância não pode criar a si mesma”. Sem grandes adaptações, podemos encontrar noções próximas no taoismo e em certas vertentes do budismo. Mesmo o espiritismo não dista desta ideia tanto quanto imaginamos, se considerarmos que os espíritos foram muito claros ao afirmar: “os espíritos não são imateriais, mas formados por um tipo de matéria desconhecida, etérea” (questão #82 de O livro dos espíritos).

[6] John Wheeler, um físico americano, cunhou a expressão “o it que vem do bit”. Em suas palavras: “Cada it – cada partícula, cada campo de força e até mesmo o próprio continuum espaço-tempo – deriva inteiramente sua função, seu significado, sua própria existência – mesmo que em alguns contextos indiretamente – de respostas induzidas por equipamento a perguntas sim ou não, escolhas binárias, bits. O it que vem do bit simboliza a ideia de que cada item do mundo físico tem no fundo – bem no fundo, na maioria dos casos – uma fonte e uma explicação imateriais; que aquilo que chamamos de realidade vem em última análise da colocação de perguntas sim-não, e do registro de respostas evocadas por equipamento; em resumo, que todas as coisas físicas são informacional-teóricas na origem” (Citado em O universo inteligente, de James Gardner, publicado pela Cultrix/Pensamento).
O que isto quer dizer é que, além de existir um paralelo claro entre o pensamento de alguns físicos modernos e o pensamento dos filósofos védicos, mesmo o pensamento precisa “trabalhar com informações” – ou seja, mesmo o pensamento parece lidar com esta substância que forma tudo o que há a partir de si mesma.

[7] Para mim, o grande erro da sanquia-ioga é situar o espírito (purusa) como algo completamente dissociado de ahamkara, ou seja, da substância “material” primordial. Eu não compactuo com este dualismo extremo, e exatamente por isso posso ser considerado um espiritualista materialista, ou talvez fosse melhor dizer: um dualista de propriedade (ver Monismos e dualismos).

[8] Complementação do autor: Quando é o sattva que predomina, a consciência é calma, clara, compreensível, virtuosa; dominada pelo rajas, ela mostra-se agitada, incerta, instável; atormentada pelo tamas, é obscura, confusa, apaixonada, bestial (Yoga-sutra, 11, 15, 19).

[9] O que combina perfeitamente com a grande lei hermética: assim em cima, assim embaixo.

[10] Espinosa foi o apóstolo do bom senso.

[11] Acredito que Mircea tenha sido bastante infeliz na escolha de algumas palavras neste parágrafo, embora ele provavelmente só estivesse tentando “incorporar” o pensamento da filosofia do sanquia-ioga: (a) a missão da Criação não me parece ser de “servir” ao espírito, mas, pelo contrário, conforme nos contam os textos védicos: “quem compreende isso, torna-se, nesta Criação, um co-criador” – ora, e o que seria este isso, senão o próprio conhecimento de que nós também somos da raça dos deuses? (b) não há nenhuma “prova do espírito” ali, mas antes uma defesa de uma hipótese imaterial para o espírito, totalmente dissociado de tudo o que há, morando “nalgum canto inacessível do cosmo” – conforme já disse acima, repudio esta ideia.

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Crédito da imagem: Google Image Search

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5.10.12

A descoberta do carma

Texto de Mircea Eliade em "História das crenças e das ideias religiosas, vol. I” (Ed. Zahar) – trechos das pgs. 229 a 231. Tradução de Roberto Cortes de Lacerda. As notas ao final são minhas.

Nos Bramanas [1], os deuses védicos foram radicalmente desvalorizados em benefício de Prajapati [2]. Os autores dos Upanixades prolongaram e encerraram esse processo [3]. Vão, porém, mais longe: não hesitam em desvalorizar o todo-poderoso sacrifício. [...] Segundo a Maitri Up [4], aqueles que nutrem ilusões sobre a importância dos sacrifício são dignos de lástima; porque, depois de terem desfrutado no Céu o lugar de destaque conquistado com suas boas ações, voltarão à Terra ou descerão a um mundo inferior. Nem os deuses nem os ritos contam mais para um verdadeiro rishi [5]. Seu ideal está admiravelmente formulado na prece transmitida pelo mais antigo Upanixade, o Brhadaranyaka: “Do não ser (asat) conduz-me ao ser (sat), da escuridão conduz-me à luz, da morte conduz-me à imortalidade!”

A crise espiritual que explode nos Upanixades parece ter sido provocada pela meditação sobre os “poderes” do sacrifício. [...] Nos Bramanas, o termo karman (karma, carma) denota a atividade ritual e suas consequências benéficas (já que, depois da morte, o sacrificante alcançava o mundo dos deuses). Mas, refletindo sobre o processo ritual de “causa e efeito”, era inevitável que se descobrisse que toda ação, pelo simples fato de obter um resultado, integrava-se numa série ilimitada de causas e efeitos. Uma vez reconhecida a lei da causalidade universal no karman, desfazia-se a certeza fundamentada nos efeitos salutares do sacrifício [6].

Porque a pós-existência da “alma” no Céu era a meta da atividade ritual do sacrificante; mas onde se “realizavam” os produtos de todos os seus outros atos, efetuados durante sua vida inteira? A pós-existência beatífica, recompensa de uma atividade ritual correta, devia portanto ter um fim. Mas, então, o que acontecia com a “alma” (atman) desencarnada? Em hipótese alguma ela poderia desaparecer definitivamente. Restava um número ilimitado de atos efetuados durante a vida, e estes constituíam outras tantas “causas” que deviam ter “efeitos”; em outras palavras, deviam “realizar-se” numa nova existência, aqui na Terra, ou num outro mundo. A conclusão impunha-se por si mesma: depois de haver desfrutado uma pós-existência beatífica ou infeliz num mundo extraterrestre, a alma era obrigada a reencarnar-se. Foi a lei da transmigração, samsara, que, uma vez descoberta, dominou o pensamento religioso e filosófico indiano, não só “ortodoxo” como também heterodoxo (o budismo e o jainismo) [7].

O termo samsara aparece somente nos Upanixades. Quanto à doutrina, ignora-se a sua “origem”. Tentou-se inutilmente explicar a crença na transmigração de alma pela influência de elementos não arianos [8]. Seja como for, essa descoberta impôs uma visão pessimista da existência. O ideal do homem védico – viver 100 anos, etc. – mostra-se ultrapassado. Em si mesma, a vida não representa necessariamente o “mal”, desde que a utilize como meio de livrar-se dos laços do karman. O único objetivo digno de um sábio é a obtenção da libertação, moksha – outro termo que se alinha entre as palavras-chave do pensamento indiano [9].

Uma vez que todo o ato (karman), religioso ou profano, revigora e perpetua a transmigração (samsara), a libertação não pode ser alcançada pelo sacrifício nem por meio de íntimos relacionamentos com os deueses, nem através da ascese ou da caridade [10]. Em seus ermitérios, os rishis procuravam outros meios para se libertar. Uma descoberta importante foi realizada ao se meditar sobre o valor soteriológico (soteriologia – “estudo da salvação”) do conhecimento, já exaltado nos Vedas e nos Bramanas. Evidentemente, os autores dos Bramanas referiam-se ao conhecimento (esotérico) das homologias implícitas na operação ritual. Era a ignorância dos mistérios sacrificais que, segundo os Bramanas, condenava os homens a uma “segunda morte”.

Mas os rishis foram mais longe; dissociaram o “conhecimento esotérico” do seu contexto ritual e teológico; a gnose é agora tida como capaz de apreender a verdade absoluta, revelando as estruturas profundas do real. Tal “ciência” acaba por eliminar literalmente a “ignorância” (avidya), que parece ser o quinhão dos seres humanos (os “não iniciados” dos Bramanas). Trata-se, certamente, de uma “ignorância” de ordem metafísica, pois ela se refere à realidade última, e não às realidades empíricas da experiência cotidiana [11].

[...] Depois de apaixonantes pesquisas e de hesitações, por vezes desfeitas por repentinas iluminações, os rishis identificaram na avidaya (ignorância de ordem metafísica) a “causa primeira” do karman, e por conseguinte a origem e o dinamismo da transmigração. O círculo estava completo: a ignorância (avidaya) “criava” ou reforçava a lei de “causa e efeito” (karman) que, por sua vez, infligia a série ininterrupta de reencarnações (samsara). Felizmente, a libertação (moksha) desse círculo infernal era possível graças à gnose (jñana, vidya) [12].

[...] O pensamento indiano cedo se dedicou a ratificar os diferentes “caminhos” (marga) que conduzem à libertação. O esforço resultou, alguns séculos mais tarde, na famosa síntese proclamada no Bhagavad Gita (séc. IV a.C.). Mas é importante assinalar que desde já [...] a descoberta efetuada, ainda que imperfeitamente sistematizada, nos tempos dos Upanixades, constitui o essencial da filosofia indiana posterior.

Quando Brahman perguntar ao recém-chegado: “Quem és tu?”; Que ele responda: “Eu sou o que tu és”; E quando Brahman perguntar: “Quem sou eu?”; Que ele responda: “A Verdade”; Dessa forma, Brahman lhe dirá: “Aquilo que foi o meu domínio é doravante o teu” (Kausitaki Up, Upanixades)

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[1] Comentários em prosa, costumeiramente anexados aos Vedas (obras mais antigas do hinduísmo).

[2] Citando o próprio autor, algumas páginas antes: “Tal como é apresentado pelos Bramanas, Prajapati parece ser uma criação da especulação erudita, mas a sua estrutura é arcaica. Esse ‘senhor das criaturas’ aproxima-se dos grandes deuses cósmicos. Ele se assemelha de certa forma ao ‘Um’ do Rig Veda”.
Ou seja, conforme o Rig Veda é o texto mais antigo dos Vedas (c. 1500 a.C.), foi ainda nesta época que os sábios hindus chegaram a concepção do Uno, ideia que também encontrou ressonância no hermetismo (embora provavelmente muitos séculos mais tarde), em Parmênides, em Plotino, em Espinosa, etc.

[3] Os Upanixades também são comentários posteriores acerca dos Vedas. O Bhagavad Gita, o texto mais celebrado do hinduísmo, faz parte deles.

[4] Um dos livros dos Upanixades.

[5] Termo que denota um dos autores dos Vedas ou dos Upanixades. Também pode ser entendido simplesmente como “um sábio”.

[6] Ou, em outras palavras, os sábios hindus reconheceram que a barganha com os deuses (“eu te ofereço isto em troca disto”) não poderia ser uma solução para as questões da alma. Somente o ser em si poderia melhorar a si mesmo. Ser transportado ao Céu após a morte, para depois renascer de novo neste mesmo mundo (ou nalgum inferior a este), não solucionava a questão. Quero dizer é isto: apenas o próprio ser pode cuidar de sua gnosis dei, do conhecimento do Uno. Os deuses aos quais eram ofertados “sacrifícios” não podem lhes auxiliar neste caminho (ou, ainda que possam, não necessitariam de oferendas para tal).

[7] Se vamos considerar que a “descoberta do carma” se deu a partir dos Upanixades, podemos datá-la no início do chamado período bramânico (entre 900 e 500 a.C.). No entanto, a crença na existência de espíritos desencarnados, ou mesmo dos “espíritos dos ancestrais”, é pré-histórica, e surgiu junto com a religião primal e o xamanismo. Me parece que a ideia da reencarnação possa ser ainda mais antiga do que a ideia do carma, e que o carma surgiu como uma espécie de “desenvolvimento filosófico” acerca do tema da reencarnação. Segundo a visão do autor, entretanto, é possível que a ideia da reencarnação tenha surgido do “problema do carma” (portanto, o oposto). Em todo caso, ambas são ideias arcaicas que só encontraram um antagonismo claro na crença da ressurreição, surgida do zoroastrismo e judaísmo (em épocas posteriores).

[8] Os árias são um subgrupo étnico dos indo-europeus. Eles se estabeleceram no planalto iraniano no fim do terceiro milênio a.C., e a partir de 1.500 a.C. colonizaram a península indiana. Os árias foram o povo responsável pela composição dos Vedas. Note que, caso a ideia de reencarnação seja “não ariana”, isso significa que ela seria ainda mais arcaica que os Vedas (conforme eu postulo no comentário acima).

[9] O budismo chamou-o nirvana.

[10] No espiritismo se diz que “fora da caridade não há salvação”, mas segundo os rishis, nem mesmo a caridade garantiria a “salvação”.

[11] Porém, se estamos falando do Uno, todo o conhecimento, seja empírico (ciência) ou mental (religião) ou metafísico (filosofia), é um conhecimento do Cosmos – de seu Mecanismo ou de seu Sentido. É assim que todo conhecimento, esotérico ou exotérico, sempre irá nos auxiliar no samsara, ainda que tenhamos de voltar a este mundo muitas vezes.

[12] E o que aqueles que “se libertaram” fazem após a libertação? Buda foi um excelente exemplo: sua peregrinação e “evangelização” se iniciou após (e não antes) ele ter atingido o nirvana.

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Crédito da imagem: The Bhaktivedanta Book Trust International

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26.9.12

A roda dos deuses, parte 1

Há uma lenda bastante difundida entre as religiões ocidentais que afirma, basicamente, que o monoteísmo, a “descoberta” do Deus Único, foi uma concepção originária do judaísmo. Segundo esta lenda, existem no mundo algumas poucas religiões monoteístas, derivadas da crença hebraica, e outras tantas que creem na existência de vários deuses de origem paralela – o chamado politeísmo.

A verdade, no entanto, pode ser mais profunda... Joseph Campbell foi um estudioso de mitos e religiões em todo o globo, e em O poder do mito ele deixa muito claro o que acredita ser a principal diferença entre as grandes religiões ocidentais, e as orientais: Enquanto a oeste do canal de Suez, a maioria das pessoas identifica Deus com a fonte da Alma do Mundo, a leste de Suez, a associação que se faz é a da divindade como o veículo desta energia transcendente.

Por isso as religiões ocidentais tendem a identificar a Deus como um Grande Senhor que, sabe-se lá de onde, mantém a fonte da vida em constante afluência, enquanto que as religiões orientais tendem a ver esta divindade por toda a volta – ela seria o próprio fluido em movimento, a habitar a essência de todos os seres e de todas as coisas.

O curioso é que ambas as visões são complementares, e parecem ser apenas formas diferentes de se observar este grande mistério: “porque existe algo, e não nada?” Para resolver tal questão ancestral, a mente humana tem se aventurado a observar os recônditos mais distantes do Cosmos, e a mergulhar cada vez mais profundamente dentro de si mesma... Este grande conjunto de dualidades, de opostos, emanados de uma única fonte, mas que preenchem a tudo o que há, é precisamente isto a roda dos deuses. Reflitamos:

O Uno
Conta-nos o estudioso de mitologia e religiões, Mircea Eliade [1], que os poetas criadores do Rig Veda hindu já se questionavam, provavelmente muito tempo antes dos hebreus, acerca do problema do ser, ou do incrível fato de, afinal, algo existir: “O Uno respirava por impulso próprio, sem que houvesse inspiração ou expiração (...) Afora isso, nada mais existia”. Depois, segundo eles, através de um ato de desejo e vontade, a “semente primeira” dividiu-se em “alto” e em “baixo”, num princípio masculino e noutro feminino, e depois irradiou ou emanou de si mesma, como um pensamento, tudo o que há.
Desta forma, os milhares de deuses hindus são, eles mesmos, uma “criação secundária”. Daí nasce o grande questionamento de um desses poetas hindus anônimos e ancestrais: “Será que aquele que zela por este (mundo) no lugar mais alto do firmamento é o único a saber (da origem da “criação secundária”) – ou nem mesmo ele sabe?”.
Se é verdade que nem todas as interpretações dos Vedas chegaram a tal profundidade, não é verdade que nenhum sábio hindu tenha chegado a conclusões muito próximas dos hebreus – tudo o que há haveria de ter sido criado ou irradiado de uma só fonte, de um só Deus. Dessa forma, a ideia básica do monoteísmo está longe de ser uma criação do judaísmo, ou pelo menos, apenas do judaísmo.
Esta mesma conclusão está presente no Antigo Egito (particularmente no hermetismo), na filosofia de Parmênides (e alguns filósofos pré-socráticos que não a desenvolveram com a mesma profundidade), no estoicismo, no pensamento de Plotino e, mais recentemente, na monumental obra de Espinosa, a Ética.
Mas, e seria este Uno um ser pessoal, ou alguma espécie de energia inefável, de força ou lei oculta da Natureza? Disto não podemos saber, apenas apostar... Mas, ainda que apostemos na hipótese da energia inefável, ainda aqui teremos sido precedidos por Lao Tsé em muitos séculos: “O Caminho é vazio e inesgotável, profundo como um abismo. Não sei de quem possa ser filho, pois parece ser anterior ao Soberano do Céu” (Tao Te Ching, verso 4).

A Deusa Mãe
A adoração do aspecto feminino, fértil e vivificador da divindade data da pré-história (o que pode ser comprovado pelas inúmeras estatuetas de uma “grande mãe” encontradas pelos arqueólogos em vários pontos do mundo).
Quase 3 mil anos antes de Cristo, na grandiosa cidade de Uruk, na Suméria, o templo de Ishtar dominava a civilização da primeira grande cidade. Ishtar, entretanto, era apenas mais um nome dado a Grande Deusa, que era adorada então por muitas outras culturas na Terra. Nada se comparava ao poder da mulher. Toda a vida provinha dela e sem seu alimento nenhuma vida sobreviveria. A Mãe era a vida. A Terra era a Mãe. Deus era Mulher. O matriarcado dominou grande parte do período em que se cultuou a Deusa Mãe.
Certamente o advento da agricultura contribuiu ainda mais para que o mistério do nascimento ocupasse um ponto central das religiões antigas. A Terra era associada ao ventre e, como os vegetais, os homens nasciam do solo, e voltavam ao solo durante a morte. Provavelmente tais mitos tenham sido a fonte primária dos mitos de criação do homem a partir do solo, presentes não somente na mitologia hebraica como em alguns mitos africanos bastante similares.
Mas com o tempo, e o advento das primeiras cidades (com estoques de grãos), dos saqueadores de cidades, e dos exércitos que guardavam as cidades dos saqueadores, o mundo tornou-se mais bruto e violento, e o matriarcado foi sendo suprimido pelo patriarcado. A Deusa Mãe saía de cena...

O “deus do pai”
Ainda nos conta Mircea Eliade que a religião dos patriarcas hebreus, já desde Abraão, era muito próxima ao culto dos antepassados, prática comum tanto do paganismo como de doutrinas orientais, como o budismo e o xintoísmo. O “deus do pai” é primitivamente o deus do antepassado imediato, que os filhos reconhecem. É um deus dos nômades e pastores, que não está ligado a santuários fixos, mas acompanha e protege um grupo de homens. Ele “se compromete diante de seus fiéis por meio de promessas” – o que fica muito claro nas barganhas relatadas no Antigo Testamento (“faça isto por mim, que farei isto por você”) [2].
Mas ao penetrarem em Canaã, os patriarcas são confrontados com o culto do deus El (o Deus Criador nas culturas suméria e babilônica), e o “deus do pai” acaba por lhe ser identificado [3]. Dessa forma, obtém a dimensão cósmica que não podia ter como uma divindade de famílias e clãs.
O “deus do pai”, o deus dos patriarcas hebreus, torna-se o Deus Criador e, dessa forma, é também associado ao Uno, ao “único Deus”. Mas isto não foi “a origem do monoteísmo”, como dizem as lendas, mas tão somente um dentre muitos sincretismos religiosos similares, que ocorreram não somente em Canaã, como em diversas outras partes do mundo...

» Em seguida, a roda continua a girar com as entidades divinas e os avatares...

***

[1] Alguns dos trechos de livros sagrados nesta série de artigos foram retirados de seu livro, História das crenças e das ideias religiosas, vol I (Zahar).

[2] As barganhas religiosas, onde "se cobra a Deus por sua parte do trato", existem até os dias de hoje. É surpreendente que certas igrejas, que teoricamente são protestantes, ainda hoje colaborem para esta prática de uma espiritualidade tão superficial.

[3] É por isso que o Deus hebreu ora é chamado de Javé, ora de Elohim. Javé seria o “deus do pai”, e Elohim seria sua associação a El.

Crédito da foto: Frederic Soltan/Corbis (O Templo do Sol de Konark, Orissa/Índia)

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21.9.12

Quando Israel era menino, parte 2

« continuando da parte 1

Texto de Mircea Eliade em "História das crenças e das ideias religiosas, vol. I” (Ed. Zahar) – trechos das pgs. 165 a 167. Tradução de Roberto Cortes de Lacerda. Algumas das notas ao final são minhas.

O jardim do Éden, com o seu rio que se dividia em quatro afluentes e levava a vida às quatro regiões da Terra, e as suas árvores que Adão devia guardar e cultivar, lembra o imaginário mesopotâmico. É provável que, também nesse caso, o relato bíblico utilize certa tradição babilônica. Mas o mito de um paraíso original, habitado pelo homem primordial, e o mito de um lugar “paradisíaco” dificilmente acessível aos seres humanos eram conhecidos além do Eufrates e do Mediterrâneo. Como todos os “paraíso”, o Éden [1] encontra-se no centro do mundo, onde emerge o rio de quatro afluentes. No meio do jardim elevavam-se a árvore da vida e a árvore da ciência do bem e do mal (Gênese II:9). Javé deu ao homem o seguinte mandamento: “Podes comer de todas as árvores de jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás de morrer” (II:16-17). Uma ideia, aliás desconhecida, destaca-se dessa proibição: o valor existencial do conhecimento. Em outros termos, a ciência pode modificar radicalmente a estrutura da existência humana [2].

Entretanto, a serpente conseguiu tentar Eva. “Não, não morrereis! Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal” (III:4-5). Esse episódio deveras misterioso deu lugar a inúmeras interpretações. O cenário lembra um símbolo mitológico muito conhecido: a deusa nua, a árvore milagrosa e seu guardião, a serpente [3]. Mas, em vez de um herói que triunfa e se apodera do símbolo da vida (fruto milagrosos, fonte da juventude, tesouro, etc.), o relato bíblico apresenta Adão como vítima ingênua da perfídia da serpente.

Temos, em síntese, uma “imortalização” malograda, como a de Gilgamesh [4]. Pois, uma vez onisciente, tal como os “deuses”, Adão podia descobrir a árvore da vida (da qual Javé não lhe havia falado) e tornar-se imortal. O texto é claro e categórico: “Depois disse Javé: ‘Se o homem já é como um de nós, versado no bem e no mal, que agora ele não estenda a mão e colha também da árvore da vida, e coma e viva para sempre!’” (III:22) E Deus pôs o casal para fora do paraíso e condenou-os a trabalhar para viver [5].

Voltando ao enredo evocado há pouco – a deusa nua e a árvore milagrosa guardada por um dragão –, a serpente do Gênese afinal teve sucesso no seu papel de “guardiã” de um símbolo de vida ou de juventude. Mas esse mito arcaico foi radicalmente modificado pelo narrador bíblico [6]. O “fracasso iniciatório” de Adão foi reinterpretado como uma punição amplamente justificada: sua desobediência denunciava seu orgulho luciferino, o desejo de assemelhar-se a Deus. Era o maior pecado que a criatura podia cometer contra seu Criador [7]. Era o “pecado original”, noção prenhe de consequências para as teologias hebraica e cristã. Essa visão da “queda” somente podia impor numa religião centralizada na onipotência e no ciúme de Deus. Da forma como nos foi transmitido, o relato bíblico indica a crescente autoridade do monoteísmo javista [8].

Segundo os autores dos capítulos IV-VII do Gênese, esse primeiro pecado não só acarretou a perda do paraíso e a transformação da condição humana, mas tornou-se de algum modo a fonte de todas as desventuras que se abateram sobre a humanidade [9]. Eva deu à luz Caim, que “cultivava o solo”, e Abel, “pastor de ovelhas”. Quando os irmãos ofereceram o sacrifício da gratidão – Caim, produtos do solo, e Abel, as primícias do seu rebanho –, Javé acolheu a oferenda de Abel, mas não a de Caim [10]. Irado, ele “se lançou sobre seu irmão e o matou” (IV:8). Agora, sentenciou Javé, “és maldito e expulso do solo fértil (...) Ainda que cultives o solo, ele não te dará mais seu produto: serás um fugitivo errante sobre a Terra” (IV:11-12)

Pode-se ver nesse episódio a oposição entre lavradores e pastores, e, implicitamente, a apologia destes últimos [11]. [...] A tradição conservada no relato bíblico reflete a idealização da existência “simples e pura” dos pastores nômades, e a resistência contra a vida sedentária dos agricultores e dos habitantes de cidades. Caim “tornou-se um construtor de cidade” (IV:17) [12] [...] O primeiro assassinato é portanto cometido por aquele que, de alguma forma, encarna o símbolo da tecnologia [13] e da civilização urbana. Implicitamente, todas as técnicas são suspeitas de “magia” [14].

***

[1] Nota do autor: Essa palavra foi relacionada pelos hebreus ao vocábulo é’dén, “delícias”. O termo paraíso, de origem iraniana (pairi-daeza), é mais tardio. Imagens paralelas, familiares sobretudo no Oriente Próximo e no mundo egeu, apresentam uma grande deusa ao lado de uma árvore da vida e de uma fonte vivificante, ou uma árvore da vida guardada por monstros e grifos.
Meu complemento: É interessante como ainda hoje, nas práticas de “mentalizações de cenários naturais”, tanto na umbanda quanto no espiritualismo em geral, ainda seja tão comum imaginarmos um jardim paradisíaco – isto é, como qualquer outro jardim onde haja apenas paz –, por onde passa um rio que flui de uma cachoeira – a fonte vivificante. Este tal jardim pode mesmo ter vindo da magia africana, ainda mais antiga do que Israel ou a tradição babilônica, ou mesmo de um lugar ainda mais arcaico, ancestral: nossa própria mente, a mente humana. Por isso, quando Joseph Campbell diz que “o Éden não foi e nem será, o Éden é”, ele realmente está falando sério, muito sério!

[2] O filósofo brasileiro, Mario Sergio Cortella, diz que “o homem é o único animal mortal”. Isto, pois, todos os outros animais (tirando, quem sabe, os elefantes) não tem a ciência da própria mortalidade. Somente o homem, que adquiriu tais conhecimentos (e muitos outros, pois que “conhece o bem e o mal”, isto é, possui razão), é “condenado” a mortalidade – pois sabe que irá morrer um dia.

[3] No processo de “demonização” da Deusa Mãe, e da magia antiga, associou-se Eva ao “pecado original”, e a serpente (o pobre bode expiatório), ao “Demônio”. É sempre interessante lembrar que por toda a mitologia dos povos arcaicos (bem mais antigos que Israel), a serpente é, pelo contrário, um grande símbolo de sabedoria. Aqui, novamente, recomendo consultarem o artigo Serpentes.

[4] Herói e rei sumério semilendário, retratado na Epopéia de Gilgamesh, texto central das mitologias suméria e babilônica.

[5] Eis que o próprio Antigo Testamento já atesta, desde seu início, aquilo que Jesus viria a dizer muito depois: “vós sois deuses”. Mas nem na época da elaboração do AT esta era uma ideia nova, no Antigo Egito já se conhecia, ao menos entre os iniciados, esta frase ancestral: “eu também sou da raça dos deuses”. Porém, seria Javé injusto por haver afastado Adão e Eva do paraíso, e da imortalidade concedida pela árvore da vida? Ou não seria uma justiça ainda maior que desse a oportunidade para que o homem e a mulher alcancem a ciência da árvore da vida por seu próprio mérito? “O Reino está espalhado pela Terra, mas os homens não o veem”.

[6] Antes de condenar o “narrador bíblico”, é preciso lembrar que a principal característica da elaboração de uma nova cultura para um “novo povo” é a supressão da cultura alheia. Nesse sentido, era “função” do “narrador bíblico” exatamente modificar radicalmente alguns mitos antigos, porém sem lhes desviar inteiramente da essência. Pois que os escritores eram suficientemente sábios e cultos para compreender que certas essências mitológicas não podem ser inteiramente suprimidas – pertencem ao espírito humano, e “existem sempre”.

[7] Paradoxalmente, era também exatamente o “pecado” que o Criador já esperava de sua criatura, como fica muito claro em qualquer mitologia sobre o tema.

[8] Nota do autor: O mito da “queda” nem sempre foi entendido de acordo com a interpretação bíblica. Principalmente a partir da época helenística e até os tempos do Iluminismo, inúmeras especulações tentaram elaborar uma mitologia adâmica mais audaciosa e muitas vezes mais original.

[9] De fato, como no mito onde Prometeu rouba o fogo divino e com ele cria a humanidade, o “pecado original” deu origem a própria humanidade, pois sem a ciência da própria nudez, dificilmente Adão e Eva nalgum dia teriam um filho.

[10] Teriam os cristãos radicais, críticos ferozes dos ritos do Candomblé, lido este trecho do Gênese?

[11] Ao menos a quem tem olhos para ver, quase todas as mitologias antigas trazem, num “código meio cifrado”, a própria história dos povos arcaicos. O embate dos caçadores-coletores errantes, ou grandes povos nômades, contra os primeiros agricultores, ou mesmo as primeiras grandes aldeias onde se estocavam grãos, é tema corriqueiro dos mitos de “pós-criação”. Em nosso artigo sobre a mitologia do deus Odin, falamos sobre a guerra entre os vanir (sedentários, agricultores) e os æsir (nômades, caçadores), que essencialmente trata do mesmo tema, só que na região do norte europeu. Enquanto a mitologia nórdica “privilegia” os caçadores nômades (pois foi elaborada por eles), no relato bíblico, da mesma forma, os pastores nômades são exaltados, enquanto que os cultivadores sedentários (representados por Caim) são “banidos”. Nota-se que, neste caso, os pastores hebreus provavelmente entravam em conflito com os agricultores das terras por onde passavam com seu rebanho. A diferença é que os nórdicos æsir venceram a guerra, enquanto que a vida dos pastores hebreus deve ter sido bem mais difícil (de certa forma, o é até hoje: a própria existência do estado de Israel é questionada pelos povos em seu entorno até os dias modernos).

[12] Resta saber qual deus criou a mulher que Caim conheceu na terra de Node (IV:16-17).

[13] Caim também pode significar “ferreiro”. Na época antiga, os ferreiros eram considerados “senhores do fogo”, com o conhecimento de poderes mágicos temíveis. Um dos descendentes de Caim é Tubalcaim, “o pai de todos os laminadores em cobre e ferro”.

[14] “Qualquer tecnologia suficientemente avançada não se distingue de magia” (Arthur C. Clarke)

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Crédito da foto: Robert Recker/Corbis

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16.9.12

Quando Israel era menino, parte 1

Texto de Mircea Eliade em "História das crenças e das ideias religiosas, vol. I” (Ed. Zahar) – trechos das pgs. 162 a 165. Tradução de Roberto Cortes de Lacerda. Algumas das notas ao final são minhas.

A religião de Israel é acima de tudo a religião do Livro. Esse corpo de escrituras é constituído de textos de idade e orientação diversas, que representam, por certo, tradições orais bastante antigas, mas reinterpretadas, corrigidas, redigidas durante vários séculos e em diferentes meios [1]. Os autores modernos começam a história da religião de Israel por Abraão. Na verdade, segundo a tradição, ele é o escolhido de Deus para se tornar o ancestral do povo de Israel e tomar posse de Canaã. Mas os 11 primeiros capítulos do Gênese relatam os acontecimentos fabulosos que precederam a eleição de Abraão, desde a Criação até o dilúvio e a Torre de Babel. A redação desses capítulos é, como se sabe, mais recente que muitos outros textos do Pentateuco. Por outro lado, alguns autores – e dos mais notáveis – afirmaram que a cosmogonia e os mitos de origem (Criação do homem, origem da morte, etc.) desempenharam papel secundário na consciência religiosa de Israel. Em suma, os hebreus interessavam-se mais pela “história santa”, isto é, pelas suas relações com Deus, que pela história das origens.

[...] Isso pode ser verdadeiro a partir de determinada época e, sobretudo, para certa elite religiosa [2]. Mas não há razão para concluir que os antepassados dos israelitas fossem indiferentes às questões que apaixonavam todas as sociedades arcaicas. [...] Ainda em nossos dias, depois de 2.500 anos de “reformas”, os acontecimentos referidos nos primeiros capítulos do Gênese continuam a alimentar a imaginação e o pensamento religioso dos herdeiros de Abraão.

Na abertura do Gênese, temos este passo célebre: “No princípio, Deus (Elohim) criou o Céu e a Terra. Ora, a Terra estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo, e um vento de Deus pairava sobre as águas” (I:1-2) [3]. A imagem do oceano primordial sobre o qual paira um deus criador é muito arcaica [4]. Entretanto, o tema do deus sobrevoando o abismo aquático não é atestado na cosmogonia mesopotâmica, ainda que o mito relatado no Enuma elish fosse provavelmente familiar ao autor do texto bíblico. (De fato, o oceano primordial é designado, em hebraico, tehôm, termo etimologicamente solidário do babilônico tiamat [5]). A Criação propriamente dita, ou seja, a organização do “caos”, é efetuada pelo poder da palavra de Deus. Ele diz: “Haja luz”, e houve luz (I:3). E as etapas sucessivas da Criação são sempre realizadas pela palavra divina. O “caos” aquático não é personificado (cf. tiamat) e, por conseguinte, não é “vencido” num combate cosmogônico.

[...] O mundo é “bom” e o homem é uma imago dei; ele habita, tal como seu Criador e modelo, o paraíso. Entretanto, como o Gênese não tarda a salientar, a vida é penosa, apesar de ter sido abençoada por Deus, e os homens já não habitam o paraíso. Mas tudo isso é o resultado de uma série de erros e pecados dos antepassados. Foram eles que modificaram a condição humana. Deus não tem responsabilidade alguma nessa deterioração de sua obra-prima. Assim como para o pensamento indiano pós-upanixádico, o homem, mas exatamente a espécie humana, é o resultado de seus próprios atos [6].

O outro relato, javista [ver nota 1], é mais antigo e difere claramente do texto sacerdotal que acabamos de resumir. Já não se trata da Criação do Céu e da Terra, mas de um deserto que Deus (Javé) tornou fértil por meio de uma onda que subia do solo. Javé modelou o homem (âdâm) com a argila do solo e animou-o insuflando “em suas narinas um hálito de vida”. Pois Javé “plantou um jardim em Éden”, fez brotar todas as espécies de “árvores boas” e instalou o homem no jardim “para o cultivar e o guardar” [7]. Em seguida, Javé deu forma aos animais e às aves, levou-os a Adão e este lhes deu nomes. Finalmente, depois de tê-lo adormecido, Javé tirou uma de suas costelas e formou uma mulher, que recebeu o nome de Eva (em hebraico hawwâh, vocabulário etimologicamente solidário do termo que significa “vida”).

Os exegetas observaram que o relato javista, mais simples, não opõe o “caos” aquático ao mundo das “formas”, mas deserto e seca a vida e vegetação. Parece plausível que esse mito de origem tenha nascido numa zona desértica. Quanto à formação do primeiro homem com argila, o tema era conhecido na Suméria. Mitos análogos são atestados quase no mundo inteiro, desde o antigo Egito até as populações “primitivas”. A ideia básica parece a mesma: o homem formou-se de uma matéria-prima (terra, madeira, osso) e foi animado pelo hálito do Criador. Em muitos casos, tem a forma de seu autor. Em outras palavras, mediante sua “forma” e sua “vida”, o homem comparte, de algum modo, a condição do Criador. Só o seu corpo é que pertence à “matéria” [8].

A formação da mulher a partir de uma costela retirada de Adão pode ser interpretada como indicadora da androginia do homem primordial. Concepções similares são atestadas em outras tradições. [...] O mito do andrógino ilustra uma crença bastante difundida: a perfeição humana, identificada no antepassado mítico, encerra uma unidade que é simultaneamente uma totalidade. [...] É de salientar que a androginia humana tem por modelo a bissexualidade divina, concepção compartilhada por muitas culturas [9].

» Em seguida encerraremos com Caim, Abel, cultivadores e pastores...

***

[1] Nota do autor: [...] As fontes dos cinco primeiros livros da tôrâh (Pentateuco) foram designadas pelos termos: javista, porque essa fonte, a mais antiga (séc. X ou IX a.C.), chama a Deus por Javé; eloísta (ligeiramente mais recente: utiliza o nome Elohim); e deuteronômica (quase que exclusiva do Deuteronômio).

[2] Não foi à toa, penso eu, que os primeiros livros da tôrâh eram conhecidos como “os livros da lei”. Eis o que nos diz Alan Dershowitz, professor de direito de Harvard, sobre o Gênese: “É sobre o mundo antes de haver lei. É sobre um Deus em aprendizagem, lutando para ser justo, sem regras (antecedentes). Deus não teve problemas em criar um universo físico, só precisou de seis dias. Ele teve mais dificuldade quando chegou à parte da justiça... O Gênese é sobre isso, sobre tentar fazer as coisas direito, com justiça”. Ou seja: a preocupação de uma suposta elite religiosa com a história somente a partir de Abraão, em detrimento dos mitos de criação, talvez se explique pelo fato de ser exatamente esta elite de legisladores quem debatia e elaborava as leis hebraicas.

[3] Somente este trecho traz inúmeros questionamentos. Por exemplo, o “vento de Deus” poderia ser traduzido (como normalmente o é, nas traduções modernas) como “espírito de Deus”. Ocorre que a palavra que se refere a “Deus” é usada duas vezes: Elohim seria tanto “Deus” quanto o “espírito de Deus”. No entanto, a palavra Elohim pode ser vista tanto no singular quanto no plural, quando normalmente se refere a “deuses” (por exemplo, em XXXV:2). Dessa forma, nada nos impediria de considerar uma tradução como: “No princípio, Deus criou o Céu e a Terra (...) as trevas cobriam o abismo, e os deuses pairavam sobre as águas”. Este tipo de interpretação indica que Deus já havia “tido filhos”, ou irradiado “outras criaturas” de si mesmo, ainda no princípio.
Mesmo aqui, ainda podemos alinhar a possível origem etimológica de “Elohim” ao deus “El”, o “pai dos deuses” das religiões e mitologia dos primeiros semitas a se estabelecerem em Canaã, pouco antes de 3 mil a.C. Até 1929, as informações sobre tais mitos eram fornecidas pelo Antigo Testamento e alguns escritores gregos. Ocorre que o AT trabalha exatamente para a “demonização” dos deuses pagãos, e deve ser visto com certa desconfiança neste contexto.
Mas felizmente, em 1929, uma grande quantidade de textos mitológicos foi descoberta em escavações em Ras Shamra, a antiga Ugarit, cidade portuária da costa Síria, que pode ter sido fundada ainda em 6 mil a.C. Embora a religião de Ugarit nunca tenha sido a religião de toda Canaã, é lá que se ouve falar, pela primeira vez, de El, o “pai dos deuses”, e de Baal, “o Senhor da Terra, que castra o pai e toma seu lugar como administrador do mundo”. Em XXXIII:20 ficamos sabendo que um dos nomes de Deus é exatamente “El”.

[4] Nota do autor: Em numerosas tradições, o Criador é imaginado sob a forma de um pássaro. Mas trata-se de um “endurecimento” do símbolo original: o espírito divino transcende a massa aquática, é livre para mover-se; portanto, “voa” como um pássaro.

[5] Ou seja, tanto o oceano primordial quanto a “serpente-dragão” (tiamat) representariam o caos. Coube a um “herói” mitológico, ou ao próprio Deus, “matar a serpente e a separar em dois”, ou separar os Céus da Terra, e criar todas as coisas a partir de um oceano disforme, um “caos primordial”.
Para outros temas “serpentuosos”, recomento lerem o artigo Serpentes.

[6] Segundo os upanixades, entretanto, a “culpa” não recai sobre o “pecado original” de um antepassado, mas é fruto dos erros dos próprios homens, quando em vidas passadas.

[7] O mito javista é ainda mais próximo do mito de criação do povo Bassari, da África Ocidental: “Unumbotte (Deus) fez um ser humano e seu nome era Homem, e depois fez muitos outros seres (Mulher, Serpente, Antílope, etc.). Então, deu-lhes sementes de todos os tipos e lhes disse: ‘Plantem todas essas sementes’...” – E nele também há o “fruto proibido” que, uma vez comido, faz com que Homem e Mulher sejam “expulsos do jardim”. Aqui também encontrarão maiores detalhes no artigo Serpentes.

[8] Dessa forma, as concepções de vida após a morte através da ressurreição de um “corpo incorruptível” não são somente uma abominação (ao menos em relação à quase totalidade da mitologia antiga), como um “ponto de vista” extremamente materialista em relação à espiritualidade em geral.

[9] Nota do autor: A bissexualidade divina é uma das múltiplas fórmulas da “unidade/totalidade” representada pela união dos pares de opostos: feminino/masculino, visível/invisível, Céu/Terra, luz/escuridão, mas também bondade/maldade, criação/destruição, etc. A meditação sobre esses pares de opostos levou, em diversas religiões, a conclusões audaciosas referentes tanto a condição paradoxal da divindade quanto à revalorização da condição humana.
Meu complemento: Isto tudo tem muito a ver com hermetismo, Parmênides, estoicismo, Plotino e Espinosa. Mas, saindo do conceito de “Uno” e focando apenas nas “dualidades” (particularmente: essência/forma, permanência/impermanência, eternidade/tempo, etc.), chegaremos nas grandes religiões orientais – taoismo, budismo, e algumas interpretações do hinduísmo.

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Shaná Tová! (hoje fazem "cerca de" 5773 anos que a alma de Adão foi criada por Elohim)

Crédito da foto: Damon Lynch

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