Pular para conteúdo
1.5.18

Amar e perder (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo falo sobre Michel de Montaigne, o primeiro blogueiro da história, e de como algumas amizades podem ser eternas. Também veremos como Epicuro encarava a felicidade e a morte; e também como, apesar de tudo, é melhor sofrer por amor do que nunca haver sequer amado:

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


Marcadores: , , , , , ,

18.9.17

A filosofia para viver bem (parte 2)

« continuando da parte 1

2. Só sei que nada sei, e nem mesmo disto estou certo

Além do estoicismo e do epicurismo, existiu uma terceira escola que por muitos séculos foi ignorada na tradição clássica, até ser recuperada no Renascimento por Michel de Montaigne – que talvez pudesse ser considerado um praticante de todas as três doutrinas.

Trata-se do ceticismo.

Ao contrário do que estamos acostumados a pensar, o ceticismo filosófico não se refere apenas aos ateus, cientistas e acadêmicos materialistas. Apesar de muitos deles se considerarem céticos, a filosofia cética vai para além disso.

A escola filosófica do ceticismo iniciou com Pirro, muitos séculos antes de Cristo. Pirro entendia que era impossível conhecer a real natureza das coisas.

O que é belo? O que é bom? O que é verdadeiro? Pirro refletiu muito sobre essas questões, e após viajar para outros locais, percebeu que aquilo que é certo num lugar ou para uma pessoa, pode ser errado para outra. E vice-versa. Nossos juízos tratam-se, acima de tudo, de construções que os homens fazem sobre o mundo. E todos os homens parecem igualmente possuírem argumentos válidos para acreditar naquilo que pensam.

Na impossibilidade de dizer o que é verdadeiro, Pirro entendia que o filósofo deveria evitar fazer juízos sobre o mundo, e através da suspensão deles (epokhe), se tornar indiferente às questões que não são realmente importantes. Afinal, é inútil discutir com seu amigo quem é a atriz mais bonita de Hollywood ou quem vai ser campeão da Liga dos Campeões.

Indiferente ao que é duvidoso, o homem alcança a ataraxia, não se perturbando com aquilo que ele não pode ter certeza. Como dizer quem é a mais bela se cada um possui seu próprio critério de beleza? Como saber quem será o campeão do futebol se muitas coisas ainda podem acontecer no futuro e mudar nossas previsões?

É importante dizer que os céticos não são relativistas em relação à verdade. Enquanto os dogmáticos acreditam que a verdade é uma só e conhecida, os relativistas defendem que a verdade é múltipla, possuindo muitas interpretações. Os céticos, por sua vez, entendem que tanto os dogmáticos quanto os relativistas estão enganados: a verdade é impossível de ser conhecida, seja ela única, múltipla ou mesmo inexistente.

Quando Sócrates diz “só sei que nada sei”, Pirro complementa “e nem mesmo disto estou certo”.

Os céticos estão sempre recorrendo à dúvida para colocar o que acreditamos em questão. Isto não significa que não podemos acreditar em determinadas coisas. O conselho cético é apenas para não se levar tão a sério.

Preocupamos-nos excessivamente com coisas das quais não temos realmente como saber. Será que vamos encontrar o amor? Conseguirei passar na prova? Será que eu sou belo aos olhos dos outros? Ao desacreditarem num juízo absoluto sobre esses assuntos, os céticos eram despreocupadamente abertos a todo tipo de situação que a vida pudesse oferecer. Aconteça o que acontecer.

Pirro não se preocupava com os erros. Encarava os enganos com a mesma leveza que os acertos.

Os filósofos encontraram no ceticismo uma espécie de terapia. Diante dos problemas da vida, recorriam à epokhe. Quando não sabemos exatamente o que é certo ou errado, ou nos preocupamos com o que pode acontecer no futuro, a suspensão de juízo nos liberta da necessidade de encontrar uma resposta clara para tudo. Há coisas que talvez estejam para além da nossa compreensão ou controle.

A impossibilidade de um conhecimento objetivo sobre qualquer assunto, ou mesmo nossa tentativa vã de prever o futuro, revela que nossas reações são exageradas na maior parte das vezes. A ataraxia dos céticos conduzia a uma vida despreocupada.

Parece estranho pensar que não saber ou não possuir uma resposta exata para algo seja tão tranquilo assim. Afinal, quando somos acometidos pela dúvida, pela incerteza, geralmente nos sentimos angustiados. Quando não sabemos se nosso amor será correspondido, se nossa carreira profissional está crescendo, ou se as pessoas pensam corretamente sobre nós.

Por que os céticos encontraram a ataraxia justamente em algo que parece nos incomodar tanto: a dúvida?

Talvez porque ainda sejamos pouco amigos da dúvida. Diferente de Michel de Montaigne.

Nos seus Ensaios, Montaigne questionava tudo. Colocava em dúvida os costumes de seu país, de seus amigos, até de si mesmo. Sobre qualquer assunto ele ponderava.

Ao se questionar se preferia estar sozinho ou em companhia, ele dizia primeiro que era uma pessoa muito social, e gostava de conversar e estar feliz com seus amigos. Depois lembrava que muitas vezes sentia a necessidade de estar sozinho, pois nem sempre podia ser tão compreendido pelas pessoas como quando estava refletindo intimamente em suas caminhadas. Diria então que ora preferia estar com amigos, ora sozinho. Finalmente, revelaria ainda assim não ter muita certeza sobre isso.

Montaigne duvidava que o homem fosse tão racional e elevado como as pessoas acreditavam. Na realidade, somos imperfeitos, confusos, contraditórios, ambivalentes, por vezes ridículos. E não há nenhum problema nisso.

A vida para Montaigne (assim como para Nietzsche) devia ser vivida através do amor fati: as coisas são como são, e não cabe a nós mudá-las, mas aceitá-las com alegria. Talvez o mundo seja estranho e imperfeito, por vezes injusto e incompreensível, mas de nada adianta nos arrependermos de algo. A vida nos conduziu exatamente ao ponto que estamos hoje, e sem dúvida há inúmeras razões para amá-la assim.

Mas um homem não se deu muito bem com um mundo de dúvidas... Dele falaremos no próximo texto.

» Continua aqui

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

***

Crédito da imagem: Google Image Search (Estátua de Montaigne em La Sorbona, Paris)

Marcadores: , , , , , ,

10.2.15

É a minha metafísica, é a minha física

Trechos de Michel de Montaigne em Os Ensaios (Livro III, cap. XIII) (Cia. Das Letras/Penguin). Tradução de Rosa Freire D’Aguiar. Os comentários ao final são meus.

Seja qual for o fruto que podemos tirar da experiência, o que tiramos dos exemplos estrangeiros mal servirá para nossas instituições se não tirarmos proveito da experiência que temos de nós mesmos, que nos é mais familiar: e decerto suficiente para nos instruir no que precisamos. Estudo a mim mesmo mais que a outro assunto. É a minha metafísica, é a minha física.

Por qual arte Deus governa a nossa morada, o mundo;
de onde vem a lua quando se levanta, onde ela desaparece;
e de onde, reunindo todo mês seus crescentes, torna a ser cheia;
de onde vêm os ventos que comandam o mar com o que o Eurus leva com seu sopro;
e de onde vem que, sem cessar, a água retorna às nuvens?
quando vier o dia que derrubar as alturas do mundo, procurai, vós que vos atormentais com os labores do mundo.
(Propécio, e Lucano no último verso)

Nesse universo, deixo-me manejar com ignorância e negligência pela lei geral do mundo. Hei de conhecê-la o suficiente quando a sentir. Minha ciência não pode fazê-la mudar de caminho.

[...] Os filósofos, com muita razão, remetem-nos às regras da natureza: mas elas pouco se importam com tão sublime conhecimento. Eles as falsificam e apresentam-nos da natureza um rosto pintado, colorido demais e sofisticado demais: donde nascem retratos tão diversos de um objeto tão uniforme.

Assim como a natureza nos forneceu pés para andar, assim tem sabedoria para guiar-nos na vida. Sabedoria não tão engenhosa, robusta e pomposa como a que os filósofos inventam: mas afável, fácil, sossegada e salutar. E a quem tem a felicidade de saber empregá-la simples e ordenadamente, isto é, naturalmente, ela faz muito bem o que outra diz que faz. Entregar-se o mais simplesmente à natureza é entregar-se o mais sabiamente.

Oh! como a ignorância e a desocupação são um suave, macio e saudável travesseiro para repousar uma cabeça bem formada. Eu preferiria compreender bem a mim mesmo a compreender a Cícero [filósofo romano]. Se eu fosse um bom aluno, na experiência que tenho de mim encontraria o suficiente para me tornar sábio.

Quem conserva na memória o excesso de sua cólera passada, e até onde essa febre o arrasou, vê a feiura dessa paixão melhor que em Aristóteles e nutre por ela um ódio mais justo. Quem se lembra dos males que sofreu, dos que o ameaçaram, das ocasiões irrelevantes que o fizeram passar de um estado a outro, prepara-se com isso para as mutações futuras e para o reconhecimento da sua condição.

A vida de César não é mais exemplo para nós do que a nossa. Tanto de um imperador como de um homem do povo, é sempre uma vida, à qual todos os acontecimentos humanos dizem respeito. Nós nos dizemos tudo de que mais precisamos: basta escutarmos.

Quem se lembra de ter se enganado tantas e tantas vezes sobre seu próprio julgamento não é um tolo se não adotar para sempre a desconfiança? Quando vejo que me convenci, pela razão de outro, de uma ideia falsa, o que aprendo não é tanto o que ela me disse de novo, nem é de grande proveito a minha ignorância especial, mas em geral aprendo a minha debilidade e a traição de meu entendimento, e com isso posso melhorar todo o conjunto.

Com todos os meus outros erros faço o mesmo: e sinto nessa regra grande utilidade para a vida. Não olho para a espécie de erro nem para o erro individual como uma pedra em que tropecei. Aprendo a temer meu comportamento em qualquer lugar e trato de melhorá-lo. Saber que dissemos ou fizemos uma tolice é apenas isso; precisamos aprender que não passamos de um tolo, ensinamento bem mais amplo e importante.

[...] Se cada um de nós observasse de perto os efeitos e circunstâncias das paixões que o animam, como fiz com a que me coube como quinhão, ele as veria chegarem e lhes retardaria um pouco a impetuosidade e a corrida. Nem sempre elas nos saltam ao pescoço na primeira investida, há ameaças e graus.

O julgamento ocupa em mim uma cátedra magistral, pelo menos se esforça cuidadosamente para isso. Deixa meus sentimentos seguirem seu curso: tanto o ódio como a amizade, e até a que sinto por mim mesmo, sem se alterar nem se corromper. Se não consegue melhorar a seu jeito as outras partes, ao menos não se deixa deformar por elas: faz seu jogo à parte.

O preceito para que cada um conheça a si mesmo deve ser de grande importância, posto que aquele deus da ciência e da luz mandou colocá-lo no frontispício de seu tempo [Templo de Apolo, em Delfos], como que contendo tudo o que tinha para nos aconselhar. Platão diz também que a sabedoria não é outra coisa senão a execução dessa ordem: e Sócrates a verifica detalhadamente em Xenofonte.

Só os que tiveram acesso a cada ciência percebem suas dificuldades e sua obscuridade. Pois ainda é preciso certo grau de inteligência para poder observar o que ignoramos, e é preciso empurrar uma porta para saber que ela nos está fechada.

[...] Assim, nessa ciência de conhecer a si mesmo o fato de cada um se ver tão seguro de si e satisfeito, de cada um pensar ser entendido o suficiente no assunto significa que ninguém entende nada disso, como Sócrates ensina a Eutidemo. Eu, que não professo outra coisa, nisso encontro uma profundidade e uma variedade tão infinitas que meu aprendizado não tem outro fruto além de me fazer sentir tudo quanto me resta a aprender.

***

Comentário
Herdeiro da fortuna do avô, um rico comerciante de peixes da região de Bordeaux (na França), Michel se recolhe à vida privada com cerca de 38 anos, o que naquela época já era considerado uma idade relativamente avançada. Nos pouco mais de 20 anos que o separavam da morte, Michel dedicou-se inteiramente a contemplação do mundo e do tempo na vizinhança do seu castelo em Montaigne, tendo produzido as cerca de mil páginas dos seus Ensaios, que inauguraram um novo formato literário.
Conforme discorreu sobre quase tudo, sem ser um especialista em nada, Michel é quase um Sócrates renascido que, na falta de um séquito de jovens questionadores, optou por se recolher a uma vida literária. Não que houvesse se tornado um ermitão, pelo contrário: foi exatamente da sua própria vida e das suas próprias amizades e experiências que retirou a matéria prima dos seus Ensaios.
De certa forma, Michel também foi o primeiro blogueiro da história. E, na medida em que procurou escrever antes para si mesmo, sem jamais imaginar a fama que seus escritos alcançariam, particularmente séculos após sua vida, Michel também nos dá uma lição profunda acerca dos reais motivos pelos quais os verdadeiros filósofos tingem as suas folhas em branco, ou os campos vazios das postagens dos seus blogs... Buscar compreender a si mesmo é a melhor forma, afinal, de compreender o pouco que seja deste mundo tão, tão vasto.

***

Crédito da imagem: Google Image Search (Montaigne)

Marcadores: , , , , ,

31.10.14

Filosofar é aprender a morrer

Trechos de Michel de Montaigne em Os Ensaios (Livro I, cap. XIX) (Cia. das Letras/Penguin). Tradução de Rosa Freire D’Aguiar. Os comentários ao final são meus.

Diz Cícero que filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte. É assim porque, de certo modo, o estudo e a contemplação retiram nossa alma de nós e a ocupam separada do corpo, o que constitui certo aprendizado da morte e tem semelhança com ela; ou então, é porque toda a sabedoria e a razão do mundo se concentram, afinal, nesse ponto de nos ensinar a não ter medo de morrer. Na verdade, ou a razão está escarnecendo de nós ou seu objetivo deve ser apenas o nosso contentamento, e todo o seu trabalho deve tender, em suma, a fazer-nos viver bem e a nosso gosto, como dizem as Sagradas Escrituras.

Todas as opiniões do mundo chegam à conclusão de que o prazer é nosso objetivo, conquanto adotem meios diversos, do contrário as rejeitaríamos de início. Pois quem escutaria aquele que estabelecesse como objetivo nosso pesar e sofrimento? As discussões das escolas filosóficas, nesse caso, são verbais. Passemos por essas bagatelas tão solertes (Sêneca). Há aí mais teimosia e pirraça do que convém a uma nobre profissão. Mas, seja qual for o personagem que o homem adote, ele sempre representa, de permeio, o seu. Digam o que disserem, na própria virtude o objetivo último que visamos é a volúpia.

Agrada-me manter os ouvidos das pessoas com essa palavra que as contraria tão fortemente: e se ela significa um deleite supremo e extremos contentamento, é uma melhor acompanhante para a virtude do que qualquer outra coisa. Por ser mais viva, nervosa, robusta, viril, essa volúpia é mais seriamente voluptuosa.

[...] A felicidade e a beatitude que reluzem na virtude preenchem todas as suas dependências e avenidas, da primeira entrada até sua última barreira. Ora, um dos principais benefícios da virtude é o desprezo pela morte, o que fornece à nossa vida a mansa tranquilidade, dá-nos seu gosto puro e benfazejo sem o qual todo outro prazer está extinto. [...] Pois se a morte nos amedronta, é um contínuo motivo de tormento que nada consegue aliviar. Não há lugar onde ela não nos venha. Podemos virar incessantemente a cabeça para cá e para lá, como em terra suspeita: ela é como o rochedo sempre suspenso sobre Tântalo (Cícero).

[...] Amedrontamos nossa gente só em mencionar a morte, e a maioria se persigna, como diante do nome do diabo. [...] Porque essas sílabas atingiam muito rudemente seus ouvidos, e porque essa palavra lhes parecia de mau agouro, os romanos aprenderam a suavizá-la ou diluí-la em perífrases. Em vez de dizer “ele morreu”, dizem “ele parou de viver”, ou “ele viveu”. Consolam-se,  contanto que seja vida, ainda que passada.

[...] Jovens e velhos abandonam a vida da mesma maneira. Dela ninguém sai de outro jeito senão como se tivesse entrado naquele instante, acrescentando-se a isso que não há homem tão decrépito que não pense ainda ter vinte anos no corpo enquanto enxergar Matusalém diante de si. E ademais, pobre louco que és, quem te fixou os prazos da vida?

[...] É incerto onde a morte nos espera, aguardemo-la em toda parte. Meditar previamente sobre a morte é meditar previamente sobre a liberdade. Quem aprendeu a morrer desaprendeu a se subjugar. Não há nenhum mal na vida para aquele que bem compreendeu que a privação da vida não é um mal. Saber morrer liberta-nos de toda sujeição e imposição. [...] Por mim mesmo, não sou melancólico mas sonhador: não há nada de que me haja ocupado desde sempre como dos pensamentos sobre a morte, e até na época mais licenciosa de minha vida, entre as damas e os jogos, julgavam-me ocupado em digerir comigo mesmo algum ciúme ou a incerteza de uma esperança, enquanto eu pensava em não sei quem que fora surpreendido dias antes por uma febre alta, e em seu fim ao sair de uma festa parecida, com a cabeça cheia de ócio, amor e bons momentos, como eu: e eu mesmo martelava em meus ouvidos:

O presente já terá passado e nunca mais poderemos chamá-lo de volta (Lucrécio).

[...] Como sou homem que continuamente está incubando sues pensamentos e guardando-os dentro de si, a qualquer momento estou preparado, tanto quanto possa estar, e nada de novo me anunciará a chegada inesperada da morte. Devemos estar sempre com as botas calçadas e prontos para partir, tanto quanto de nós dependa, e sobretudo nos precavermos para que então só tenhamos de tratar conosco mesmos. Pois temos bastante trabalho sem outra sobrecarga. Um se queixa, mas que da morte, de que ela lhe interrompe o curso de uma bela vitória; outro, que deve partir antes de ter casado a filha, ou controlado a educação dos filhos; um sente falta da companhia da mulher, outro, do filho, que eram os principais confortos de sua existência. Por ora estou em tal situação, graças a Deus, que posso me ir quanto Lhe aprouver, sem me lamentar de coisa nenhuma.

Desligo-me de tudo: minhas despedidas de cada um estão quase feitas, exceto de mim. Nunca um homem se preparou para deixar o mundo mais pura e plenamente, e desapegou-se mais completamente do que eu tento fazer. As mortes mais mortas são as mais saudáveis.

[...] Que importa quando será nossa morte, já que é inevitável? Àquele que dizia a Sócrates: “Os trinta tiranos te condenaram à morte”, ele respondeu: “E a natureza a eles”. Que tolice nos atormentarmos no momento em que se dá a passagem à isenção de todo o tormento! Assim como nosso nascimento nos trouxe o nascimento de todas as coisas, assim nossa morte trará a morte de todas as coisas.

[...] A morte não vos diz respeito nem morto nem vivo. Vivo, porque existis: morto, porque não mais existis. Ademais, ninguém morre antes de sua hora. O tempo que abandonais não era mais vosso que o tempo que se passou antes de vosso nascimento: e tampouco vos toca. Onde quer que vossa vida acabe, ela está toda aí. A utilidade do viver não está na duração: está no uso que dele fizemos. Uma pessoa viveu muito tempo e pouco viveu. Atentai para isso enquanto estais aqui. Ter vivido bastante está em vossa vontade, não no número dos anos. [...] Tudo não se mexe como vos mexeis? Há coisa que não envelheça convosco? Mil homens, mil animais e mil outras criaturas morrem neste mesmo instante em que morreis.

Pois nenhuma noite sucedeu ao dia, nenhuma aurora à noite em que não se ouviram, misturadas aos tristes vagidos, as lágrimas acompanhando a morte e os negros funerais (Lucrécio).

***

Comentário
Herdeiro da fortuna do avô, um rico comerciante de peixes da região de Bordeaux (na França), Michel se recolhe à vida privada com cerca de 38 anos, o que naquela época (séc. XVI) já era considerado uma idade relativamente avançada. Nos pouco mais de 20 anos que o separavam da morte, Michel dedicou-se inteiramente a contemplação do mundo e do tempo na vizinhança do seu castelo em Montaigne, tendo produzido as cerca de mil páginas dos seus Ensaios, que inauguraram um novo estilo literário.
Conforme discorreu sobre quase tudo, sem ser um especialista em nada, Michel é quase um Sócrates renascido que, na falta de um séquito de jovens questionadores, optou por se recolher a uma vida literária. Não que houvesse se tornado um ermitão, pelo contrário: foi exatamente da sua própria vida e das suas próprias amizades e experiências que retirou a matéria prima dos seus Ensaios.
De certa forma, Michel também foi o primeiro blogueiro da história. E, na medida em que procurou escrever antes para si mesmo, sem jamais imaginar a fama que seus escritos alcançariam, particularmente séculos após sua vida, Michel também nos dá uma lição profunda acerca dos reais motivos pelos quais os verdadeiros filósofos tingem as suas folhas em branco, ou os campos vazios das postagens dos seus blogs... Meditar sobre a morte é a melhor forma, afinal, de encontrar a fonte da vida.

***

Crédito da imagem: Google Image Search (foto da estátua de Montaigne em frente da Universidade de Sorbonne, em Paris)

Marcadores: , , , , ,

8.4.12

Amar e perder

Uma das coisas que mais traz sentido a nossa existência é o amor. Embora não seja algo passível de ser totalmente abarcado pela filosofia – ou, pela razão, por assim dizer –, tivemos a sorte de poder contar com alguns grandes pensadores que trataram do amor, e da perda do amor. O que seria mais traumático, amar e perder, ou jamais ter amado verdadeiramente? A resposta para essa questão, tão essencial, muitas vezes esbarra em nossa falta de compreensão do que quer que seja “amar verdadeiramente”. Quase sempre, só nos damos conta de um amor verdadeiro após o termos perdido...

Em seus Ensaios sobre a amizade, Michel de Montaigne nos traz um exemplo do tipo [1]: “O falecido Senhor de Monluc, o marechal, quando conversou comigo sobre a perda do filho (um cavalheiro muito corajoso, de grande futuro, que morreu na Ilha da Madeira), enfatizou, entre outras tristezas, o luto e a mágoa que sentiu por nunca ter se mostrado para o filho e por ter perdido o prazer de conhecê-lo e aproveitar sua companhia. Tudo por causa de sua mania de lidar com ele com a gravidade de um pai rígido. Ele nunca falara sobre o imenso amor que sentia pelo filho e sobre como ele o considerava digno de sua virtude. ‘E tudo o que o pobre menino viu de mim’, disse ele, ‘foi um rosto fechado, cheio de desprezo. Ele se foi acreditando que eu não era capaz de amá-lo ou de julgá-lo como ele merecia. Para quem eu estava guardando tudo isso, a afirmação do amor especial que eu cultivava em minha alma? Será que ele não deveria ter sentido o prazer trazido por ela e todos os elos da gratidão? Eu me forcei, me torturei, para manter essa máscara boba e assim perdi a alegria de sua companhia – e também sua boa vontade, que deveria ser muito pouca para comigo. Ele nunca recebeu de mim nada além de rispidez ou conheceu nada além de uma fachada tirana’.”

Tal relato tão sincero de uma relação familiar do século XVI nos demonstra como passam os séculos, mas nossa angústia existencial muitas vezes gravita em torno do amor, o grande Sol da vida. No entanto, vivemos como roedores encondendo-se nas tocas e túneis de nossa alma, sempre com medo de encarar tal luz solar frente a frente, sem as máscaras apropriadas. Toda nossa sociedade, todo nosso racionalismo: um grande manual para quando e como amar. Obviamente, um manual absurdo e enganador. O amor é livre, não segue liturgias nem manuais de boa conduta, e jamais, jamais pode ser capturado – assim como os raios solares, que podem no máximo aquecer nossa mão, mas não encerrarem-se nela.

Não há como se amar com garantias, seguros de perdas. O risco de se amar é o risco de se viver, verdadeiramente: eis a essência do existir. Quando Montaigne cita a verdadeira amizade em seus Ensaios, está a falar em realidade do verdadeiro amor. Supreendentemente, seu grande amor não foi sua esposa ou algum parente, mas um amigo (e estamos aqui falando de uma amizade sem conotações sexuais, por favor). “Pior”, um amigo que conheceu já no fim de sua vida, e que conviveu por pouco anos, já que ele era mais velho:

“Em nosso primeiro encontro, que acabou acontecendo por acaso em uma grande festa em uma cidade, nos descobrimos tão amigos, tão conhecidos, tão unidos, que, a partir dali, ninguém foi mais próximo do que nós dois [...] Por ter tão pouco tempo para durar e por ter começado tão tarde, já que nós dois éramos homens feitos e ele alguns anos mais velho do que eu, não havia tempo a perder seguindo o padrão das amizades menores e comuns, que exigem tantas precauções e longas conversas preliminares. Essa amizade não tinha nada a seguir a não ser a si mesma [...] Não havia nada em especial, mas algum tipo de quintessência em que tudo se misturou e, tendo capturado minha vontade, me fez mergulhar e me perder na dele. E, tendo capturado a sua vontade, também o fez mergulhar e se perder na minha com uma fome e uma vontade iguais. Digo ‘perder’ com convicção. Não guardávamos nada um do outro. Nada era dele nem meu.”

Montaigne citava Étienne de La Boétie, um filósofo conterrâneo da França, e para o qual escreveu este e outros belíssimos trechos em sua homenagem, nos seus Ensaios, já anos depois da morte do grande amigo. Há que se notar com que entusiasmo Montaigne fala sobre uma amizade tão grandiosa, um verdadeiro entrelaçamento de almas, mas que no fundo também se tratava de um amargo lamento sobre a perda de alguém tão querido... Amar e perder, será esta a nossa sina? Será que o sofrimento, a ferida aberta da saudade persistente, valem os breves períodos da mais pura das felicidades?

Epicuro não tinha esse tipo de dúvida, para o filósofo grego, que era conhecido por morar com os próprios amigos e filósofos em uma casa de largo jardim, só a amizade valia a pena: “De todas as coisas que nos oferecem a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é a aquisição da amizade... Alimentar-se sem a companhia de um amigo é o mesmo que viver como um leão ou um lobo.”

Essa busca pela felicidade na amizade, no querer o bem ao outro, não poderia ser eclipsada nem mesmo pela morte. Afinal, para Epicuro, a morte era o mesmo que nada: “A morte não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no entanto, a maioria das pessoas ora foge da morte como se fosse o maior dos males, ora a deseja como descanso dos males da vida” [2].

É então que, conforme nos alertou o Dalai Lama, vivemos como se não fôssemos morrer, e morremos como se jamais tivessemos vivido [3]... Esta sim é a sina dos que se abstém de amar, por temor da perda, e terminam os seus dias com um certo arrependimento obscuro de nunca terem tido a chance de absorver um pouco da luz do Sol, mesmo que para nunca mais ter a mesma experiência... Quem vai saber? Quem pode definir quantas vezes irá amar, e quantas vezes irá perder o amor? Quantas vezes será verdadeiramente feliz, para então voltar ao estado de tristeza habitual: a tristeza de ter experimentado o Céu, para uma vez mais cair no pântano do Mundo?

A única coisa que o sábio poderá responder é: “não sabemos, não fazemos a menor ideia”. Porém, do pequeno monte de sua sabedoria, ainda que tenha rolado uma vez mais abaixo, o sábio pôde ver, ainda que de relance, toda a imensidão da montanha que se estende no País do Amor. É para lá que ele, desde aquele dia, deseja retornar... É para este objetivo que ele dedica boa parte dos seus dias, e um bom tanto dos seus pensamentos... É precisamente esta ponte, a ponte que se eleva sobre o pântano das máscaras e dos hábitos moribundos, e se conecta a toda a liberdade, e todo o divino risco do amor, que ele deseja percorrer agora: pé ante pé, sonho após sonho, ele deseja nalgum dia acordar neste Céu de Liberdade.

E, uma vez tendo chegado lá, talvez toda a mágoa, toda a dor, toda a saudade, toda a profunda tristeza da perda de tantos e tantos amores pelo caminho, seja recompensada pela visão de tal Sol, de onde todos os suspiros de primeiro encontro partiram, e para onde todas as derradeiras lágrimas de despedida escorreram de volta... É isto, é apenas isto, o grande sentido, a misteriosa e escancarada essência da vida: é, sim, melhor, muito melhor, ter amado tanto, e cada vez mais, e ter sofrido tanto por saudade deste amor, e cada vez mais, do que nunca haver sequer amado, do que se despedir desta vida sem saudades, sem grandes tristezas e sem momentos de felicidade realmente dignos de nota. O que conta é o amor: não importa se o tempo passou, o amor ainda estará lá, aguardando ser redescoberto na luz da eternidade.


Para Teresa, Flávio, Flávia, e todo o amor envolvido...

***

[1] Publicado no Brasil com o título de Sobre a amizade, num pequeno livro da Editora Tinta Negra, com a luxuosa introdução de Viviane Mosé (filósofa brasileira).

[2] Trecho de Carta sobre a felicidade (a Meneceu), publicado pela Editora Unesp.

[3] Na verdade este é um antigo ditado da sabedoria milenar oriental, do qual não sabemos ao certo o autor original.

Crédito da foto: Heide Benser/Corbis

Marcadores: , , , , , , , , ,

10.3.10

Reflexões sobre o sexo, parte 1

O ato sexual ou relação sexual é a denominação geral dada à fase em que dois animais com reprodução sexuada, mais especificamente o ser humano, realizam a ação física de junção dos seus órgãos sexuais, originalmente para a transmissão do gameta masculino ao feminino. Contudo, nem sempre tem uma função reprodutiva.

No mais elevado trono

Ao longo dos tempos o sexo tem sido tratado como um “assunto secundário” no pensamento filosófico. Talvez os antigos simplesmente não achassem o assunto digno das reflexões filosóficas, ou talvez os compiladores de seus ensinamentos tenham tido certo pudor em expor assuntos que normalmente escandalizam o ser social. Escandalizam, isto é, na medida em que dada sociedade é aberta ou fechada ao assunto.

A época medieval na Europa é particularmente lembrada por seu cuidado em relação ao assunto. Não que não praticassem sexo, mas é que evitavam falar abertamente sobre ele; Até mesmo porque segundo a religião dominante da época o sexo deveria ser praticado apenas com fins de reprodução, e toda uma gama de pecados foram associados ao ato libidinoso. De forma que, em certos contextos, era preferível ser considerado um depravado moral do que um depravado sexual – embora as duas classificações andassem de mãos dadas na maioria dos casos.

Montaigne viveu nessa época, e era um filósofo particularmente interessado nesse paradoxo. Ora, se todos fazem sexo, porque falamos tão pouco sobre ele, pelo menos abertamente ou em algum livro de filosofia? Montaigne atribuiu em parte os problemas que enfrentamos com nosso corpo ao fato de eles não serem tema de uma discussão honesta entre pessoas educadas. A literatura e a pintura representativas não tendem a identificar a graça feminina com grande interesse por atividades sexuais, nem a autoridade com o fato de possuir esfíncteres e falos. Representações pictóricas de reis e damas não nos encorajam a imaginar que espíritos tão eminentes possam soltar gases intestinais ou copular. Montaigne recorreu a um francês belo e sem cerimônia para preencher essa lacuna nas artes:

Au plus eslevé throne du monde si ne sommes assis que sus nostre cul. Les Roys et les philosophes fientent, et les dames aussi.

(Mesmo no mais elevado trono do mundo, continuamos sentados sobre nossos cus. Os reis e os filósofos defecam, e as damas também.)

Essa falta de pudor para tratar de assunto tão natural, mas que por alguma razão é sempre resguardado em nome dos “bons costumes”, geralmente faz com que as pessoas associem tais palavras à mente de pessoas vulgares e ignorantes. Mas isso não parece ser verdade, Montaigne foi apenas o primeiro da série de grandes pensadores que passaram a falar abertamente sobre o sexo, até os nossos dias.

No Gênesis bíblico temos uma bela metáfora para a época em que os seres humanos passaram a ter vergonha da nudez alheia. Talvez sirva como uma boa explicação para a origem desse pudor, talvez a “descoberta do bem e do mal” tenha levado o homem a cobrir as partes íntimas e passar apenas a praticar o sexo, mas raramente falar abertamente sobre ele... Isso parece ligar o ato sexual a uma forma obscura de nossa natureza, como se ele fosse algo sujo e pecaminoso, algo que não deveria ter tanta relevância na vida de seres racionais. Será mesmo?

Montaigne chegou a perambular por boa parte da Europa a cavalo, em suas viagens descobriu que uma norma cultural bem aceita em determinado país ou cidade poderia ser diametralmente oposta à outra norma, centenas de quilômetros em alguma outra direção do velho continente. Isso despertou sua curiosidade para terras ainda mais distantes: teve acesso ao livro “Viagem à terra do Brasil”, onde Jean de Léry afirma, por exemplo, que na América do Sul as pessoas gostavam de comer aranhas, gafanhotos, formigas, lagartos e morcegos.

O filósofo, porém, ficou mais curioso com o lado sexual dos índios nativos. Afinal de contas, eles mal cobriam o corpo no calor tropical – era como se ainda não tivessem sido expulsos do Éden... Os homens tupis tinham permissão para desposar mais de uma mulher e eram considerados maridos devotados a todas. Segundo Montaigne, “seu código de ética contém apenas dois artigos: demonstrar coragem em tempos de guerra e amar as esposas.” As esposas pareciam felizes com a poligamia e não se mostravam ciumentas. A única coisa realmente proibida em relação à vida sexual era a proibição em se dormir com um parente próximo.

Montaigne estava maravilhado: “Uma característica interessante de sua vida sexual é digna de nota: nossas esposas mostram-se extremamente zelosas em reprimir o amor e a ternura que outras mulheres despertam em nós; já as esposas tupis são igualmente zelosas em arrebanhar outras mulheres para seus maridos. Mais preocupadas com a reputação deles do que com qualquer outra coisa, elas empenham-se em conseguir o maior número possível de ‘co-esposas’, já que uma ‘família’ grande reafirma o valor do marido.”

O filósofo não encontrou nada de particularmente anormal ou terrível no comportamento sexual desses índios, mas ele fazia parte da grande minoria. Logo depois da descoberta de Colombo, os colonizadores portugueses e espanhóis que vieram da Europa colonizar o novo mundo concluíram que esses nativos eram “pouco mais do que animais”. Um ministro calvinista afirmou que não possuíam nenhum senso moral. Um médico europeu, após examinar cinco nativas e perceber que não menstruavam, concluiu que “não pertenciam à raça humana”...

Não satisfeitos em despojá-los de sua humanidade, os espanhóis começaram a dizimá-los como animais. Por volta de 1534, 42 anos após a chegada de Colombo, os impérios inca e asteca haviam sido destruídos e seu povo escravizado ou assassinado. A hospitalidade inata dos nativos não comoveu os “seres morais do velho continente”: os colonizadores matavam crianças, rasgavam o ventre de mulheres grávidas, arrancavam olhos, queimavam vivas famílias inteiras e incendiavam aldeias à noite.

Montaigne gostava desta frase de Terêncio, um poeta cômico latino que viveu no segundo século a.C.:

Homo sum, humani a me nihil alienum puto.

(Sou homem; nada do que é humano me é estranho.)

Em nossa curta estadia neste planeta, temos erguido civilizações e sociedades das mais variadas culturas e formas de pensamento. Se é verdade que boa parte de nossas sociedades encontram enorme dificuldade em tratar do sexo, não é verdade que ele deva ser relegado a escuridão, como se o ser sexual fosse o maior depravado, o maior devasso.

É exatamente por escondermos o assunto que muitos de nós desenvolvem os mais variados transtornos psicológicos, e passam a agir de forma violenta, como animais que não sabem o que fazer com tamanha força e tamanho instinto trancafiado dentre regras e mandamentos absolutamente hipócritas. Ora, quem foram os maiores depravados no novo mundo, os nativos que andavam semi-nus e eram polígamos, ou os “conquistadores” que viram nisso razão para os exterminar da maneira mais bruta e cruel possível?

Ao longo da história, o ser humano acreditou que, em sendo um animal racional, estava tão acima dos outros animais que não poderia mais praticar atos animalescos. Mas a força que move a vida não pode ser renegada e nem esquecida apenas porque manuais de verdade absoluta assim ditaram. Que o homem ainda está longe de deixar de lado o seu lado animal, e todo o sangue derramado no novo mundo, em pleno Renascimento, é um obscuro lembrete disso...

A seguir, o sexo como força motriz da vida.

***

Crédito das fotos: [topo] Sigi Kolbe , [ao longo] treppenstufe

Marcadores: , , , , , , , , ,