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21.9.10

Animais, espíritos e deuses

Nosso Lar é o segundo filme que trata da obra de Chico Xavier a alcançar grande sucesso comercial em 2010. É sempre interessante ver mais uma leva de reações variadas em menos de um ano: há aqueles que tratam Chico como um santo e fazem das salas de cinema um destino de romarias; há aqueles – que se julgam céticos – que ficam de cabelo em pé com o seu sucesso e elaboram as mais criativas teorias de charlatanismo, ainda que adorem ignorar que ele doou todo o direito autoral pela vendagem de suas obras para a caridade [1]; há aqueles – os mais divertidos, admito – que afirmam que espiritismo é proibido pela bíblia (embora seja um termo criado a menos de 2 séculos) e que Chico e Kardec fazem parte de uma conspiração “maçônica” liderada pelo próprio Capeta (ou algo assim)... E claro, há também os parcimoniosos: espíritas e espiritualistas que o admiram, mas não o tomam como santo ou infalível; céticos reais que consideram as hipóteses de autoengano, criptomnésia [2] ou até mesmo algum tipo estranho de esquizofrenia...

Pois é, eu não vou aqui entrar nessa discussão, até mesmo porque o que não falta na web hoje em dia são sites e blogs a estender as premissas do último parágrafo em debates intermináveis – onde 99% das pessoas já entram com a opinião solidificada, em todo caso... Não, eu vou retornar a um assunto que já havia abordado num outro artigo sobre Nosso Lar: a possibilidade dos textos de Chico conterem algumas intrigantes antecipações do futuro (digo, no plano físico). Não estou falando de algo dúbio como a possibilidade da arquitetura de Nosso Lar ter inspirado a Brasília, mas de algo um tanto mais profundo.

Uma das continuações de Nosso Lar, o livro Missionários da Luz, foi publicado em 1945. É um relato de experiências pessoais vividas por André Luiz (espírito que Chico afirma ter ditado ambos os livros) no plano espiritual, em sua grande maioria acompanhado por Alexandre, seu "instrutor". Para ir diretamente ao ponto, vou trazer a vocês dois trechos deste livro:

“A fim de esclarecer André Luiz quanto às causas profundas da existência da vampirização [3], Alexandre esclarece:
– Porque tamanha estranheza? – perguntou o cuidadoso orientador – e nós outros, quando nas esferas da carne? Nossas mesas não se mantinham à custa das vísceras dos touros e das aves? A pretexto de buscar recursos proteicos, exterminávamos frangos e carneiros, leitões e cabritos incontáveis. Sugávamos os tecidos musculares, roíamos aos ossos. Não contentes em matar os pobres seres que nos pediam roteiros de progresso e valores educativos, para melhor atenderem a Obra do Pai [4], dilatávamos os requintes de exploração milenária e infligíamos a muitos deles determinadas moléstias para que nos servissem ao paladar, com a máxima eficiência. O suíno comum era localizado por nós, em regime de ceva, e o pobre animal, muita vez à custa de resíduos, devia criar para nosso uso certas reservas de gordura, até que se prostrasse, de todo, ao peso de banhas doentias e abundantes. Colocávamos gansos nas engordadeiras para que hipertrofiassem o fígado, de modo a obtermos pastas substanciosas destinadas a quitutes que ficaram famosos [5], despreocupados das faltas cometidas com a suposta vantagem de enriquecer os valores culinários. Em nada nos doía o quadro comovente das vacas-mães, em direção ao matadouro para que nossas panelas transpirassem agradavelmente. Encarecíamos, com toda a responsabilidade da ciência, a necessidade de proteínas e gorduras diversas, mas esquecíamos de que nossa inteligência, tão fértil na descoberta de comodidade e conforto, teria recursos de encontrar novos elementos e meios de incentivar os suprimentos proteicos ao organismo, sem recorrer às indústrias da morte. Esquecíamo-nos de que o aumento dos laticínios para enriquecimento da alimentação, constitui elevada tarefa, porque tempos virão, para a humanidade terrestre, em que o estábulo, como o lar, será também sagrado. ” (Missionários da Luz, 23. ed., p. 41)

Apesar da linguagem excessivamente formal e de termos que afugentam certos céticos antes que possam completar a leitura, há que se analisar este trecho (apenas um de tantos outros) de forma mais profunda... Quão simples é bater no peito e afirmar que somos espíritas, que estamos evoluindo “a passos largos”, etc.; Quão difícil é encarar a nós mesmos no espelho e perceber como ainda estamos tão adormecidos, tão anestesiados para uma vida verdadeiramente espiritual.

O movimento moderno de direitos animais pode ser traçado no início da década de 70. Um grupo de filósofos da Universidade de Oxford começou questionar porque o status moral dos animais não-humanos era necessariamente inferior à dos seres humanos... O resto da história muitos devem conhecer, mas será que alguém realmente se preocupava com direitos animais em 1945? Decerto eram muito poucos, decerto não era algo que aparecia na mídia e tampouco era assunto de debate político.

Não tenho a pretensão de levantar mais questões além das que já foram levantadas neste trecho de Missionários da Luz. Leiam e releiam com calma, e encontrarão ali muitas sementes que só vieram a florescer em nosso mundo, na chamada “humanidade terrestre”, muitos anos depois. E também, é claro, muitas sementes que até hoje anseiam por florescer... Ao invés disso, e também para demonstrar que grandes almas sempre estiveram conectadas a tais assuntos essenciais da sacralidade da existência e de toda a vida no planeta, trago a vocês um outro trecho, deste vez de Leon Tolstói em The First Step (O Primeiro Passo):

“O carneiro vivo estava ali deitado, tão silencioso quanto o morto e inflado, a não ser por sacudir nervosamente o rabo curto e os lados a se alçarem com mais rapidez que de costume. O soldado baixou gentilmente, sem esforço, a cabeça levantada; o açougueiro, sem parar de conversar, agarrou com a mão esquerda a cabeça do carneiro e cortou-lhe a garganta. O animal tremeu, e o rabinho endureceu e parou de abanar. O camarada, enquanto esperava o sangue correr, começou a reacender o seu cigarro, que se apagara. O sangue corria, e o carneiro começou a agonizar. A conversa continuou sem a mínima interrupção. Era horrivelmente revoltante.”

Sim, há muitos que vivem sem enxergar quase nada a sua frente... Tratam seres como se fossem coisas, e muitas vezes tratam as coisas como se fossem deuses. E vivem como numa batalha feroz pela sobrevivência, e morrem sem quase ter realmente vivido.

O problema não é consumir a carne. O problema é achar que os animais são meros produtos de uma enorme fábrica, e que o fato de termos condições de submetê-los ao nosso domínio nos exime da responsabilidade de nós mesmos sermos para eles como deuses incentivadores, e não demônios exterminadores.

***

[1] Segundo reportagem da Superinteressante de Abril de 2010 sobre o filme Chico Xavier, o médium doou cerca de 670.000 reais por ano a caridade (de forma direta ou indireta), e contentou-se em viver com sua escassa aposentadoria de funcionário público (de baixo escalão) até o fim da vida. Não foi o que seu filho adotivo fez: ele hoje detém os direitos autorais do pai.

[2] Distúrbio de memória que faz com que as pessoas se esqueçam que conhecem uma determinada informação. Entretanto, não explicaria a exatidão de descrições históricas, por exemplo, desconhecidas da própria história de sua época, e descobertas em pesquisas posteriores.

[3] Como é comum em vários livros que Chico afirma terem sido ditados pelo espírito André Luiz, há uma extensa análise do suposto fenômeno de obsessão, em que um espírito literalmente influencia o pensamento de outro, e “vampiriza” as sensações físicas provenientes de suas ações (por exemplo, sentir o gosto de bebida alcoólica). Não sei se a analogia que o espírito faz entre a “vampirização” e o consumo de carne faz algum sentido, acredito que ele estava se referindo a nossa “vampirização” da natureza como um todo, através do consumo predatório e na maior parte das vezes excessivo e desnecessário – prejudicial para nós mesmos, portanto.

[4] Acho que vale mencionar um trecho da Carta do Chefe Seattle aqui: “O destino de vocês é um mistério para nós. O que vai acontecer quando todos os búfalos forem sacrificados? O que vai acontecer quando os recantos secretos da floresta estiverem passados com o odor de inúmeros homens e a vista das colinas verdejantes se macular com os fios que falam? Será o fim da vida e o começo da sobrevivência.”

[5] Se você pretende começar a reduzir seu consumo de “produtos animais”, comece pelo patê de fígado de ganso. Se não sabe como ele é feito, pesquise na web. Se sabe como ele é feito, e continua a comer, lamento por você...

***

Crédito da foto: jimluci (Temple Grandin, autista savant e especialista em comportamento animal, talvez uma das pessoas vivas com maior compreensão de como e de que forma os animais sentem; Trabalha para que o abate de gado seja feito da forma menos traumática possível)

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4.4.10

Nosso Lar, O Filme

Para quem acredita na reencarnação, uma das mais belas histórias a seu respeito. Para quem não acredita, uma estranha inspiração que chegou a um sujeito simples do interior de Minas Gerais, nos idos de 1944...

A vida não cessa e a morte é um jogo escuro de ilusões
Fechar os olhos do corpo não decide os nossos destinos
É preciso navegar no próprio drama ou na própria comédia
Uma existência é um ato
Um corpo, uma veste
Um século, um dia...
E a morte, a morte é o sopro renovador...
Mas não vou sofrer com a idéia da eternidade
Há sempre tempo de recomeçar

***

Nosso Lar, O Filme estréia em Setembro de 2010.

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16.3.10

Passeios de aeróbus

No livro “Nosso Lar”, de autoria de André Luiz e psicografado por Chico Xavier, temos uma curiosa descrição de um veículo de transporte público na colônia espiritual que dá título ao livro:

Mal me refazia da surpresa, quando surgiu grande carro [aeróbus], suspenso do solo a uma altura de cinco metros mais ou menos e repleto de passageiros. Ao descer até nós, à maneira de um elevador terrestre, examinei-o com atenção. Não era máquina conhecida na Terra. Constituída de material muito flexível, tinha enorme comprimento, parecendo ligada a fios invisíveis, em virtude do grande número de antenas na tolda. Mais tarde, confirmei minhas suposições, visitando as grandes oficinas do Serviço de Trânsito e Transporte.
Lísias não me deu tempo a indagações. Aboletados convenientemente no recinto confortável, seguimos silenciosos. Experimentava a timidez natural do homem desambientado, entre desconhecidos. A velocidade era tanta que não permitia fixar os detalhes das construções escalonadas no extenso percurso. A distância não era pequena, porque só depois de quarenta minutos, incluindo ligeiras paradas de três em três quilômetros, me convidou Lísias a descer, sorridente e calmo (Trecho do início do Capítulo 10: “No Bosque das Águas”, onde André Luiz tem o primeiro contato com o aeróbus).

Uma pergunta muito comum dos céticos (espíritas ou não) em relação a algumas descrições detalhadas de veículos e construções nas colônias espirituais é bastante válida, a primeira vista: “Ora, se essas colônias dispõe de tamanho nível de tecnologia, porque os espíritos não nos entregam de mão beijada os planos e as plantas para que nossos engenheiros e arquitetos possam construir tais veículos e construções aqui na Terra?”.

Um espírita precavido irá citar outro trecho do próprio “Nosso Lar” para explicar porque um aeróbus não poderia viajar pela Terra:

Dirigi-me, incontinenti, a Narcisa, perguntando:
- Onde o aeróbus? Não seria possível utilizá-lo no Umbral?
Dizendo-me que não, indaguei das razões.
Sempre atenciosa, a enfermeira explicou:
- Questão de densidade da matéria. Pode você figurar um exemplo com a água e o ar. O avião que fende a atmosfera do planeta não pode fazer o mesmo na massa equórea. Poderíamos construir determinadas máquinas como o submarino; mas, por espírito de compaixão pelos que sofrem, os núcleos espirituais superiores preferem aplicar aparelhos de transição (Trecho do Capítulo 33: “Curiosas Observações”).

Mas será que isso resolve o problema? Não poderiam, por acaso, os espíritos ajudarem nossos engenheiros e homens de ciência a inovar nossa tecnologia atual? Mesmo que não fosse possível construir uma espécie de metrô que plana em alta velocidade muito acima do solo, certamente algum tipo de avanço descrito nos livros de André Luiz poderia ajudar, e muito, a Terra...

Arthur C. Clarke, célebre escritor de ficção científica, dizia que “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinquível de magia”. Clarke foi, ele mesmo, um “antecipador” de algumas tecnologias que só viriam a ser viáveis muitos anos após a descrição – então fictícia – das mesmas em seus livros. Particularmente com o conceito dos satélites geoestacionários, Clarke não só antecipou o futuro, como contribuiu decisivamente para ele: nossas telecomunicações devem muito ao que antes era pura ficção.

Interessante que, num nível mais extraordinário (e incerto), é possível que algumas das tecnologias descritas em “Nosso Lar” – que diga-se de passagem, foi publicado em 1944 – possam ser igualmente antecipações de avanços futuros da tecnologia na Terra. Se a décadas atrás o aeróbus – uma espécie de metrô se movendo pelo ar, sem contato com o solo e a altas velocidades – parecia um veículo mágico, hoje talvez não chegue a tanto:

Um trem de levitação magnética ou maglev (Magnetic levitation transport) é um veículo semelhante a um metrô que transita numa linha elevada sobre o chão e é propulsionado pelas forças atrativas e repulsivas do magnetismo através do uso de supercondutores. Devido à falta de contato entre o veículo e a linha, a única fricção que existe, é entre o aparelho e o ar. Por conseqüência, os maglevs conseguem atingir velocidades enormes, com relativo baixo consumo de energia e pouco ruído. Embora a sua enorme velocidade os torne potenciais competidores das linhas aéreas, o seu elevado custo de produção limitou-o, até agora, à existência de uma única linha comercial, o transrapid de Xangai. Essa linha faz o percurso de 30 km até ao Aeroporto Internacional de Pudong em apenas 8 minutos. No Brasil, existem projetos para se implementar o maglev, por exemplo, na Ilha do Fundão.

Ainda assim, talvez não se pareça tanto com um aeróbus... André Luiz disse que “ele parecia ligado a fios invisíveis”, e que se movimentava muito acima do solo. Será que tudo não passou de ficção da cabeça de Chico Xavier? Obviamente que para um cético em relação à existência de comunicação com espíritos desencarnados, tudo já seria ficção a priori. Mas e quanto aos que crêem na possibilidade – será mesmo possível que a tecnologia humana seja apenas uma sombra da tecnologia espiritual, e que a inspiração para as grandes descobertas se deva ao fato de que quase tudo já foi descoberto no plano espiritual?

Quem se preocupa com isso certamente irá sorrir ao conhecer uma distinta empresa americana, chamada Aerobus International, que constrói trens suspensos por fios condutores que parecem voar pelos céus. Dificilmente os engenheiros americanos leram “Nosso Lar”... Mas e daí? E se for mesmo verdade cada pequena descrição da colônia? E se a ela tem mesmo a forma de estrela e todos os Ministérios citados por André Luiz estão mesmo lá, até hoje – em que exatamente isso nos ajuda em nossa evolução espiritual?

Nosso Lar é apenas uma das muitas colônias espirituais a beira do Umbral, onde espíritos de elevada moral e caridade tentam a todo custo auxiliar aqueles que perambulam nas trevas de sua própria consciência... Que nos importa saber o perímetro da colônia? Ou em quanto tempo podemos atravessá-la em um aeróbus? Ou se ela tem restaurantes e casas noturnas? Certamente, se um dia estivermos por lá, essas serão nossas últimas preocupações.

Lendo alguns dos livros de André Luiz, percebi que eles nunca se trataram apenas de descrições – fictícias ou não – de colônias do plano espiritual da Terra. Ora, começando pelo “Nosso Lar” e passando por todos os outros, eles tratam principalmente da tão falada reforma íntima, da reforma de nós mesmos; Do caminho das trevas da consciência egoísta para as campos ensolarados da consciência amorosa, conectada ao Cosmos que pulsa e vibra com vida, em cada partícula e em cada plano de existência.

É possível que os espíritos nos inspirem descobertas e idéias para novas tecnologias. Mas é igualmente possível que estejam mais preocupados em nos inspirar o amor e o auto-conhecimento. Em todo caso, cada ser está onde seus pensamentos o sintonizam.

André Luiz (ou Chico Xavier, caso você seja cético) perderia fácil numa comparação com autores de ficção científica como Arthur C. Clarke... Mas André Luiz não pretendeu nos trazer aulas sobre a tecnologia ultra-avançada dos espíritos, e sim ensinamentos sobre a moral avançada dos seres de luz. Se ele recorreu a histórias que ocorriam ao mesmo tempo na Terra e no plano espiritual, e acaso tenha se preocupado em descrever como é a vida enxergada do lado de lá, foi porque reconheceu o tempo perdido em sua encarnação prévia – um grande neurologista e médico sanitarista do Rio de Janeiro, que tinha muito conhecimento, mas pouca sabedoria.

Em seus livros, não encontramos batalhas fascinantes entre “o bem e o mal”, mas sim relatos sinceros e perturbadores da ignorância e falta de caridade de grande parte dos seres; A começar pelo próprio André Luiz, que passou anos no Umbral, e mesmo depois de socorrido em Nosso Lar custou a perder os vícios e a pompa de “grande médico”. Custou a vencer o próprio ego e reconhecer que a luz que vem de cima é sempre maior do que a nossa própria. Custou, mas venceu, e depois dedicou alguns de seus anos a ditar livros para um dos maiores médiuns de que se tem notícia. E o resto é história.

***

Crédito da imagem: Nosso Lar, O Filme

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