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25.1.13

O último enigma, parte 4

« continuando da parte 3

O dogma e a paixão

“Devo confessar que é deveras divertido ouvir as suas indagações acerca da existência, ó seres do mundo...” – sorriu o anjo glacial – “Mas atentem que tais incursões a terras tão distantes de sua própria realidade de nada adiantam se antes vocês não se colocarem em humilde posição diante deste todo grandioso que é o universo: o mundo e o além-mundo.

Acaso assim tivessem feito desde o início de suas dúvidas, teriam hoje mais competência para estudar o que ainda estão longe de conhecer. Pois que se assim o fosse, saberiam que desde o início de tudo houve um Criador Primordial. E quanto mais conhecessem este Criador, quanto mais saberiam de enigmas dos quais nem sequer podem hoje sonhar em solucionar!”.

“Ora, meu caro arcanjo, não sei se pretende me confundir com tais afirmações. Eu já disse que não acredito nem desacredito em Deus, mas tenho a convicção de que poderemos sim decifrar a todos esses enigmas, ou a maioria deles, sem o auxílio de um Ser Todo Poderoso!

Ora, como poderia acreditar que para estudarmos e aprendermos sobre as coisas, nós antes teríamos de crer nalgum Criador? Acaso não foi exatamente o dogma medieval que nos deixou cegos para a ciência e o estudo dos astros, até há bem pouco tempo atrás?” – desafiou o homem que diziam ser ateu.

“Você é muito presunçoso de sua própria capacidade enquanto homem e somente homem, ser ateu...” – prosseguiu o anjo como quem pretendesse falar a uma criança – “Acaso não acha que nós anjos, a serviço do próprio Criador, não tivemos nossa parcela de contribuição em suas recentes descobertas? Ora, é claro que um dogma capaz de deixar os seres tão cegos a ponto de serem incapazes de admitir que é o Sol o astro fixo no centro, e não a Terra, a despeito de tudo o que tem sido observado pelos amantes das lunetas, será um dogma problemático...

Mas antes educar aos seres com dogmas do que deixá-los a mercê da selvageria e ignorância humana... Antes manter uma civilização às escuras do que arriscar que este mundo termine num colossal campo de batalha entre bárbaros ignorantes!”.

Já há algum tempo o demônio de um só chifre sentia-se incomodado com o raciocínio do ser alado, mas foi após esta explanação que se deu ao direito de ousar interrompê-lo:

“E eu aqui intercedo, nobre arcanjo, para lembrá-lo de que até hoje não se sabe de nenhum dogma que tenha sido efetivamente mais positivo do que negativo para a evolução dos homens.

Querer que os homens aceitem máximas religiosas, pretendendo que isso por si só os garanta uma boa conduta, é o mesmo que oferecer a esmola ao esfomeado, mas não ensiná-lo a plantar o próprio alimento... Acaso esqueceste de que o livre-arbítrio foi concedido aos homens exatamente para que eles investiguem e descubram a verdade por eles mesmos? Ou seja, sem que alguém chegue para eles com uma verdade gravada nalguma tábua e lhes diga: ‘Esta agora é a nova verdade do mundo!’. Meu caro arcanjo, deixe que os homens gravem suas própria tábuas”.

Ao que o anjo glacial, agora sombreado, respondeu:

“Me surpreende ouvir tamanha besteira de um demônio que encontrou a luz, ó ser infernal! Não és tu agora um aspirante das terras superiores: Não és tu aquele que aceitou a Deus e se redimiu?”.

“Aceitei a Deus?” – de volta ao demônio – “Não fui eu quem aceitei a Deus, foi ele quem me aceitou, quando clamei desesperado com vergonha da minha própria escuridão, pedindo uma nova chance!

Sim, meus caros, estava eu atolado no charco dos desejos desenfreados, na lama dos setores inferiores do mundo, onde tudo cheira a podridão e esquecimento, e o remorso é o pesado arauto da consciência... Pois ainda que não lembremos sequer da ínfima parcela de nossos atos na ignorância da luz, de algo lembramos, e isto nos dói profundamente.

E a dor não passa jamais, exceto quando compreendemos finalmente que estamos no caminho circular, que não chega a lugar algum, e clamamos por ajuda... Foram os anjos do alto, os misericordiosos das falanges de resgate e cura, estes que me retiraram do charco, que me cuidaram, e que possibilitaram que um novo ser nascesse no fundo de mim mesmo.

E ainda que eu tenha um longo débito com as leis do Criador, por tudo de mal que havia feito, por ignorância, aos seres, a natureza e a mim mesmo, ainda assim ele me aceitou de volta!

E se hoje eu tenho ainda que pagar por todos esses anos na escuridão, minha vergonha se foi, e minha alma se torna mais leve a cada nova manhã. Pois que hoje eu sei: estou no caminho certo, o único que segue a frente.

Digo mais, nobre arcanjo... Não foram os dogmas que me salvaram, mas minha própria consciência, que bem ou mal, sempre soube exatamente de cada pequeno passo meu, em direção a luz, ou a escuridão. Ela nunca desistiu de tentar me mudar, pois que guarda alguma espécie de substância, de marca ou sinal, do Criador.

Eu mudei por amor, pelo amor que vem do alto, e tal como os raios solares, jamais deixou de penetrar mesmo nos corações mais sombrios.

Como explicar o que ele fez por mim? Como justificar minha crença aos outros? Muito bem, afirmo que minha crença não é uma crença baseada num dogma ou numa santíssima tábua, meus amigos... Eu acredito e compreendo a um Deus, como quem compreende e aceita estar apaixonado!

Como explicar ou ensinar a paixão? Apenas pretendo servir de exemplo, para que outros se apaixonem também, e possam me seguir neste caminho. Assim andaremos juntos, sabe-se lá até onde...”.

***

Foi aqui que terminei de escrever no caderninho.

Não me arrependo de haver desistido deste formato, pois embora o aspecto mitológico e fantástico possa ser atraente, acredito que haveria me limitado muito. Não poderia falar de assuntos da modernidade, pois o diálogo discorre nalgum tempo não muito após o Renascimento. Além disso, os personagens parecem caricatos demais para serem verossímeis (e isto nada tem a ver com serem anjos, demônios, etc.).

Em Ad infinitum, quero crer que tenha conseguido tornar os personagens mais verossímeis, menos caricatos, e de pensamento mais aprofundado. Pelo que tenho ouvido até aqui dos que iniciaram a leitura, parece que tive algum grau de sucesso.

» Ad infinitum está à venda na versão impressa e eBook, somente pelo Clube de Autores.

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Crédito da imagem: Anônimo

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22.1.13

O último enigma, parte 3

« continuando da parte 2

Doce curiosidade

O último convidado daquela discussão, o qual os demais chamavam de ateu, começou por esquivar-se daquele enigma que o sábio havia lhe endereçado:

“Sua palavras soaram muito sábias agora há pouco, ó ancião. Sem dúvida, diferentes pontos de vista são nada mais que diferentes opiniões.

Vocês me chamam de ateu, mas eu não sei o que isso significa exatamente. Assim como não sei o que significa ser um ‘não ateu’... Ora, eu sei das coisas do mundo, ou melhor: sei algumas coisas das infinitas coisas do mundo. Foi isto que vim aqui discutir.

Me parece que você voa muito alto quando de indaga sobre o que havia antes desta luz, meu caro sábio... Ora, o anjo e o demônio podem até saber sobre tal assunto, pois que vivem além deste mundo, mas o que nós que aqui habitamos pretendemos saber de um enigma tão distante de nossa realidade?”.

O ancião, incomodado com sua esquiva, retrucou:

“Meu querido, se não queria discutir sobre assunto tão distante, que não houvesse comparecido a este encontro, posto que o combinado seria discutirmos o mundo, este mundo. E, para fazê-lo, começamos de seu início, para eventualmente viajarmos mesmo muito adiante dele...

Mas, afinal, como não fazê-lo? Como ignorar certos enigmas se é exatamente isto que pretendemos ser – decifradores?”.

Neste momento o último convidado levantou-se, em postura acusadora:

“Pretendemos tal coisa? Ora, meu caro sábio, você já viveu muitas primaveras para que houvesse se esquecido da primeira de todas as sabedorias... Não foi acaso um outro sábio quem disse a máxima antiga: ‘tudo que sei é que nada sei’?”.

“E o que sabemos, o que sabemos meu caro?” – prosseguiu o ancião – “Sabemos pouco ou muito pouco, sabemos menos que o cego mais cego, pois que mesmo o cego pôde um dia enxergar ou, ao menos, escutar o trovejar das tempestades escuras; Mas nós que nem sequer além deste mundo enxergamos ou escutamos, queremos saber sobre o que havia antes dele, queremos enxergar antes de existir a luz!

Somos ousados, ó ateu. Mas o somos porque temos vontade para ser, porque amamos o saber. Longe de nós saber tudo, pois o que nos impulsiona é precisamente esta doce curiosidade do saber”.

Ante esta resplendorosa resposta, o homem que era chamado de ateu soltou um largo sorriso e se calou, visto que percebera ser a vez do nobre arcanjo retornar com sua explanação...

» A seguir, "O dogma e a paixão"

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Crédito da imagem: Anônimo

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18.1.13

O último enigma, parte 2

« continuando da parte 1

Antes da luz

Não era comum ver um anjo arregalar os olhos. Parecia que aquela pergunta era em si um enigma até para o mais nobre dos seres de luz – mas após um curto momento o anjo se recompôs e respondeu ao sábio como quem transmite a verdade do mundo a um grupo de camponeses (ou, pelo menos, como quem acredita nisso):

“Ora, meu caro sábio, quem pode dizer de onde vem o sol? Decerto que este que agora pouco se despediu do dia veio do além horizonte, como tem feito desde que essa terra nasceu; Decerto é este o mesmo astro que cultiva nossos campos e aquece nossos corpos há anos e anos.

Mas no mundo, no mundo que nós anjos podemos perceber, existem incontáveis terras e incontáveis sóis... Um deles, no entanto, teve de preceder os demais. Um deles teve de vencer a tenebrosa escuridão do Grande Nada.

Um deles foi o primeiro explorador do vácuo que existia entre a não existência e a consciência. Um foi o Primeiro Sol, aquele que primeiro iluminou o mundo, mas que veio a ser ainda antes que a luz o fosse.

E o que havia antes da luz? Ó sábio ancião, isso é matéria escura até para os mais iluminados dentre os arautos desse grande Primeiro Sol, desse grande Deus!”.

As palavras do nobre arcanjo soavam ora doces e melodiosas, como uma leve sinfonia composta de brisas matinais, ora profundas e ameaçadoras, como um relâmpago que anuncia o trovão raivoso. Isso parecia irritar aquele que caminhava para a luz, mas que era ainda tão somente um demônio redimido:

“Porque insistes em invocar o nome dele como se fosse uma grande ameaça, uma grande punição que paira sobre aqueles que ainda não são capazes de o ver de certa maneira?

Eu lhe digo, nobre arcanjo, que eu mesmo já maldisse esse nome inúmeras vezes... Eu mesmo já me rebelei contra ele por não aceitar as injustiças que eram feitas em seu nome – e como foram terríveis e cruéis muitas delas!

Não preciso aqui citar algumas das mais santas guerras e das mais santas fogueiras de homens e mulheres acendidas em seu nome...

Os pretensos donos da verdade diziam que essa luz só se aproxima daqueles que seguem os mais estúpidos rituais e as mais ridículas leis... Sabe, eu fui inimigo dessa luz por muito tempo, até que eu descobri que não existe uma única verdade, e que com certeza não poderia ser esse, justamente esse, o deus responsável pelas blasfêmias que se realizavam em seu nome.

Eu encontrei a verdadeira luz, nobre arcanjo, e foi pela dor! Aquela que veio do Primeiro Sol, e que penetrou invicta aos corações mais obscurecidos... Essa luz ilumina a todos, e não somente aqueles que usam auréolas na cabeça.

Mas, sobretudo, ó arcanjo, eu aprendi a falar dele de maneira doce e suave, posto que ele é agora o meu melhor amigo.

Sou apenas um demônio, e tenho carregado esta pata de bode e este único chifre, mas se me permite, gostaria de lhe dar um conselho: Fales de maneira doce e gentil quando invocardes o nome de Deus, para que não faça com que aqueles que lhe ouvem, e ainda o desconhecem, corram apavorados desse todo poderoso juiz que surge da tua fala trovejante”.

Nalgum momento daquele extenso comentário do demônio, o anjo iluminado pareceu sombrear de raiva; mas, como é dado aos anjos, por fim se desculpou, com a voz ainda mais melodiosa do que outrora:

“Decerto posso lhe compreender, aspirante da luz. Eu mesmo um dia ouvi o nome dele e estremeci ante o poder – mas já faz muito tempo, e talvez eu tenha me esquecido disto.

Desculpas, peço, pois que não é minha intenção afastar os seres desta luz, mas, pelo contrário, atraí-los a ela...”.

Os seres do Além Mundo trocaram então olhares cordiais, no que o silêncio foi subitamente interrompido pelo sábio ancião:

“Nossa conversa se deteve no enigma do que haveria antes do Primeiro Sol; Talvez fosse deveras interessante perguntar agora aquele que não acredita neste sol o que haveria então ali, visto que uma diferente crença fatalmente nos leva a uma diferente opinião”.

E, nesse momento, todos se voltaram curiosos e de ouvidos abertos para o homem que era ateu...

» A seguir, "Doce curiosidade"

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Crédito da imagem: euphoricarythmia.com

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16.1.13

O último enigma, parte 1

Agora que lancei meu livro, Ad infinitum, posso lhes trazer aqui o que foi, na realidade, seu primeiro “esboço”, escrito cerca de 2 anos antes (embora não lembre mais ao certo, pois escrevi a mão num caderninho e não coloquei a data). Neste outro projeto, também temos 4 personagens que “discutem acerca do mundo”, mas aqui eles são mais mitológicos, mais fantásticos, mais enigmáticos...

Discutir o mundo

Era já um novo entardecer na Cidade da Encruzilhada, e tanto os pássaros quanto os mercadores pareciam ter se retirado há uns bons minutos, visto que naquele momento o céu inteiro parou em silêncio, como que numa bela arte renascentista.

“Como é belo ver o sol se despedir do horizonte” – pensou o homem que vinha pela estrada a pé – “Faz tempo desde a última vez que parei para dar adeus ao sol, tenho que me lembrar disso de vez em quando”.

A Cidade da Encruzilhada era assim chamada por ser o grande centro de comércio daquela região do mundo – muitos eram os caminhos que ali se encerravam ou entrecruzavam. Dessa forma, havia sido o local escolhido pelos quatro viajantes para o grande encontro...

O primeiro deles, que vimos há pouco a observar o entardecer, era o último dos quatro a cruzar os portais da cidade. Vinha numa passada ligeira com suas botas de couro já gastas, acusando-o ser um nômade já experiente.

Carregava apenas uma sacola de pano e uma capa acinzentada – a sacola vinha com algumas frutas e pães, assim como um cantil d’água, e a capa era para as chuvas. Completava-o uma bela túnica branca (no entanto, também já gasta e maltratada) e um fino cinto adornado por uma fivela de prata, de onde pendia um saco de couro com suas poucas moedas e pertences.

Pois bem, era precisamente esta figura que se aproximava do pequeno bosque, no entorno da cidade, onde eles iriam discutir o mundo.

Os outros lá já estavam: um era ancião de aparência inofensiva e olhar penetrante; outro, um ser bizarro de pele avermelhada, tinha um pequeno e solitário chifre brotando da fronte esquerda, e uma pata de bode que se encontrava no lugar de sua antiga perna direita; finalmente, tínhamos um belíssimo homem de pele glacial, tão alto que sua face parecia atrair os últimos raios e sol do fim do horizonte. Foi este último quem falou, com uma voz poderosa:

“Ora, ora, porque demoraste, filho do destino? Será que foi por conta do belo entardecer que vimos há pouco?” – indagou o ser angelical.

O último convidado riu-se enquanto sentava próximo aos amigos na relva – “Verdade, nobre arcanjo, não fosse por esta nossa conversa há muito planejada eu teria perdido este espetáculo”.

“Espetáculo? Ah! Espetáculo, dizes... Mas o que um ateu entende dos milagres da natureza? Acaso já ocorreu a você algum dia verificar de onde vem o sol do Oriente e por onde passeia após cruzar o Ocidente?” – prosseguiu o anjo.

O homem ateu não respondeu, apenas cumprimentou o sábio ancião e o demônio redimido (nossos últimos personagens a serem apresentados); Entretanto, uma leve tensão sacudia o ar, pois que na discussão que se seguiria, um enigma já havia sido lançado...

E o velho sábio, com sua fala mansa e serena, deu o primeiro empurrão na roda – “Pois bem, nobre arcanjo, tu dizes coisas bonitas acerca do mundo e dos seres. O sol é a luz do mundo, sem ele nada seríamos senão pequenas larvas a rastejar na fria escuridão... Acaso podes iniciar nossa pequena conversa? Acaso tu sabes de onde vem o sol?”.

» A seguir, "Antes da luz"

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Crédito da imagem: Jesper Lund

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