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24.9.13

Um título e uma capa

É com imensa alegria que lhes anuncio hoje, após quase 9 meses, o título e a capa do Projeto Rumi...

O título é Rumi - A dança da alma

A capa está ao lado
(clique na imagem para abrir em tamanho maior).

E eu ainda lhes diria muito, muito mais... Mas não quero estragar a surpresa. O que posso adiantar é que faltam somente alguns dias para a publicação da versão impressa, e que a versão digital provavelmente estará pronta na primeira metade de Outubro.

Falta pouco, Jalal ud-Din!


Vem, vem, seja você quem for,
não importa se você é um infiel, um idólatra,
ou um adorador do fogo;
Vem, nossa irmandade não é um lugar de desespero;
Vem, mesmo tendo violado seu juramento cem vezes,
vem assim mesmo.

Vem,
lhe direi em segredo
aonde leva esta dança.

Vê como as partículas do ar
e os grãos de areia do deserto
giram desnorteados.

Cada átomo,
feliz ou miserável,
gira apaixonado
em torno do sol...


***

» Veja no Facebook a galeria com as imagens internas do livro

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19.9.13

A música das esferas

Estes são alguns trechos do Projeto Rumi onde temos apenas comentários meus acerca dos poemas de Jalal ud-Din. O Projeto já se encaminha para um final, em breve...

Há este grande jogo, a grande caçada da vida:

Caçamos e emboscamos a felicidade, e dormimos com ela por uma noite, uma semana ou quem sabe um mês inteiro...
Mas virá o dia, mais cedo ou mais tarde, em que ela nos escapará por entre os dedos, como a areia da praia e as brisas da primavera.

Então será um novo dia, um novo jogo da vida, uma nova caçada, uma nova aventura.

Porque temer tais emoções? Ora, é precisamente porque existe a tristeza que podemos reconhecer a felicidade. Se tudo fosse sempre igual, se todas as manhãs e todas as brisas e todos os grãos de areia fossem exatamente os mesmos, se nós acordássemos todos os dias sem havermos mudado nem um tiquinho, então seríamos sempre os mesmos – múmias petrificadas, fósseis, cadáveres adiados...
E seríamos tristes ou felizes? Tanto faz!

***

A tristeza é uma ferida por onde Deus fala conosco.
A felicidade dura somente até a próxima vez que precisarmos de um novo conselho divino.
Isto é a vida, bem vindo.

***

A Natureza é uma verdadeira sinfonia com seus sons, ciclos e chacoalhar da folhagem...

Os pássaros são os Mestres Cantadores. Coube a eles o eterno anúncio das manhãs!
As flores são as Inspetoras dos Reinos. Coube a elas espalhar o perfume infinito pelo horizonte (menos os girassóis, que estão ocupados observando e anotando o movimento do sol).
As abelhas são as Grandes Mercadoras. Coube a elas o comércio de pólen e sementes por todas as paragens...

E assim, tudo se renova.
Tudo retorna ao que era antes sem haver saído de onde estava, pois não existe “onde estava”.
Tudo vibra e nada está parado, e os girassóis que observam aos sóis das galáxias distantes (se é que existem girassóis por lá, mas ainda que não existam, nós inventaremos) parecem, de alguma forma, escutar a mesma canção que chegou a Jalal ud-Din...

Só é possível ouvir a música das esferas quando fazemos silêncio.

***

Crédito da imagem: encontrada em mevlana

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29.8.13

Sama

Trecho do Projeto Rumi:

Nós viemos girando do nada,
espalhando as estrelas como pó.
As estrelas então se puseram em círculo
e nós dançamos com elas ao centro.

Como a pedra do moinho, gira a roda do céu
em torno de Deus.
Acaso segure um raio de tal toda
terá sua mão decepada!

Girando e girando
tal roda dissolve todo e qualquer apego.
Acaso não estivesse apaixonada
ela mesma gritaria, “Basta!
Até quando hei de seguir nesse giro?”

Cada átomo gira desnorteado,
mendigos circulam entre as mesas,
cães rondam um pedaço de carne,
o amante gira em torno
de seu próprio coração.

Envergonhado perante tanta beleza,
giro ao redor de minha vergonha.

***

Vem! Ouça a música do sama [1].
Venha se unir ao som dos tambores!
Aqui nós celebramos. Aqui todos nós anunciamos:
“Eu sou a Verdade!”

Estamos em êxtase.
Embriagados de um vinho que não se colhe na videira.
O que quer que pensem de nós
em nada lembrará o que somos.

Giramos e giramos, extasiados.
Esta é a noite do sama.
Há luz agora. “Luz! Luz!”

Eis o amor verdadeiro
que diz para a mente: “Adeus”.
Este é o dia do adeus.
“Adeus! Adeus!”

Todo coração que arde nesta noite
é amigo da música.

Ardendo, ansioso por seus lábios,
meu coração transborda por minha boca.

***

Silêncio!
Você é feito de pensamento, afeto e paixão;
e o que resta é nada além de carne e ossos...

Por que nos falam de templos de oração
e de atos piedosos?
Nós somos o caçador e a caça,
outono e primavera,
noite e dia,
o Visível e o Invisível.

Nós somos o tesouro do espírito.
Nós somos a alma do mundo,
liberta do peso que enverga ao corpo.

Não somos prisioneiros nem do tempo nem do espaço
nem mesmo desta terra em que pisamos.

No amor fomos gerados.
No amor nascemos.


Comentário

Enquanto estamos aqui, nesta pedra a girar em torno do Sol, que por sua vez gira em torno do centro gravitacional da Via Láctea, que por sua vez gira atraída pelos grandes aglomerados de galáxias locais, não há sequer um momento em que estamos parados, nem mesmo um momento em que nossos átomos estejam parados.
Nesta roda cósmica tudo se move em direção a algum lugar. Tudo se encontra catapultado rumo ao horizonte... O que há depois disso tudo? O que existia antes? Por que diabos o mundo não cansa de dançar?
Você pode abordar esta questão cientificamente, e procurar analisar a posição e a velocidade de cada pequena partícula do Cosmos; e então, quem sabe, tal qual o Demônio de Laplace, saber perfeitamente para onde tudo se move, e com que velocidade se move. Saber de cada pequena coisa que ocorreu e ocorrerá!
Mas, ainda que você consiga tais informações a duras penas, ainda que se torne onisciente das coisas materiais, ainda assim não saberá de nada do que ocorre neste momento, nesta dança.

O sama é a dança da alma.
A alma não tem nem posição nem velocidade, nem tampouco está preocupada com o que ocorreu ou está para ocorrer.
A alma está no que ocorre neste momento; ela está dando o próximo passo desta dança...

Você pode sentir seus movimentos?

***

[1] O sama é a dança cósmica dos dervixes rodopiantes, criada por Rumi e praticada pela ordem sufi Mevlevi.

» Ouça o poema acima sendo recitado por Leticia Sabatella (a partir de 1:50; ela usa outra tradução)

Crédito da imagem: achada em facebook.com/mevlana

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8.8.13

Um ser ondulante

Trecho do Projeto Rumi:

O amor não é condescendência,
nem livros ou qualquer marca em papel,
nem o que uma pessoa diz para a outra.

O amor é uma árvore
com seus galhos se elevando a eternidade,
suas raízes se aprofundando na eternidade
e nenhum tronco!

Você o viu?
A mente é cega para ele.
Seu desejo é incapaz de observá-lo.
A saudade que sente desse amor
vem do seu interior.

Quando se tornar o Amigo,
sua saudade será como o náufrago no oceano
agarrado a um pedaço de madeira...

Eventualmente, madeira, homem e oceano
se tornam um ser ondulante:
Shams de Tabriz, o segredo de Deus.

***

Mantido assim, para amamentação,
sem consciência, provando nuvens de leite,
nunca tão satisfeito.


Comentário

Enquanto transpirava paixão, perda e saudade em seus poemas, foi exatamente num sonho que Rumi conseguiu localizar Shams; conforme nos contou Aflâki, o seu principal biógrafo:

Uma noite, Rumi sonhou com Shams. Sentado numa pequena taverna em Damasco, ele jogava dados com um jovem francês, este também um buscador espiritual. Shams havia ganho todas as partidas e o perdedor, desesperado, estava a ponto de se lançar violentamente sobre ele. Rumi despertou subitamente da visão e pediu que seu filho, Sultan Walad, fosse até Damasco salvar Shams do perigo.
Walad viajou imediatamente e, ao chegar, de fato o encontrou na referida taverna sendo agredido e insultado pelo jovem. Walad se prostrou aos pés de Shams, depositou ouro e prata sobre suas sandálias e implorou, em nome do pai, que ele regressasse a Konya. Ao ouvir isso, o jovem francês compreendeu que havia insultado um grande mestre a também se prostrou a seus pés, envergonhado e implorando para que Shams o aceitasse como discípulo.
Shams o recusou dizendo: “Retorna à Europa; visita os buscadores de lá, seja o seu líder e recorde-se de nós em suas orações”. Então, Shams concordou em regressar a Konya e Sultan Walad o guiou, prosseguindo a pé por todo o caminho ao lado do cavalo em que Shams seguia montado.

Se o relato é verdadeiro, é sem dúvida um mistério a identidade deste jovem francês que vagava por Damasco no remoto século XIII. Quem sabe se tratava de um sobrevivente dos cátaros [1], tão brutal-mente perseguidos pelos ditos cristãos na Europa? Quem sabe, um cavaleiro em busca de aventuras em terras lendárias – afinal, o código de amor cortês e o ideário da cavalaria espiritual foram adotados no Ocidente quando o mundo europeu entrou em contato com a tradição sufi.

Isto também nos remete a Francisco de Assis, o grande santo do cristianismo na época e, segundo muitos, o maior cristão que caminhou neste mundo após Jesus de Nazaré...
Conforme nos conta o blog “Saindo da Matrix” [2]:

A atmosfera e organização da Ordem franciscana é mais parecida com os dervixes (Ordem sufi) que qualquer outra coisa. Além dos contos sobre Francisco serem muito parecidos com os dos professores sufis, todos os tipos de pontos coincidem. Como os sufis, os fran-ciscanos não se preocupam com sua salvação pessoal (o que era considerado uma vaidade). Francisco iniciava suas pregações com a frase “Que a paz de Deus esteja com você”, que ele disse ter recebido de Deus, mas que era (obviamente) uma saudação árabe. Até a roupa, com seu capote coberto e mangas largas, é a mesma dos dervixes de Marrocos e da Espanha, por onde Francisco se aventurou em 1212, plena época das cruzadas, dedicando-se a tentar converter os sarracenos pela não-violência.
O próprio nome da Ordem, “Fraternidade dos Irmãos Menores”, pressupõe haver os Irmãos Maiores, e os únicos com esse nome na época eram os “Grandes Irmãos”, uma Ordem sufi fundada por Najmuddin Kubra, “o Grande”. As conexões impressionam. Uma das maiores características deste grande sufi era sua misteriosa influência sobre os animais. Desenhos o mostram cercado de pássaros; ele amansou um cachorro feroz apenas olhando para ele (exatamente como Francisco fez com um lobo). Todas essas histórias eram conhecidas no Ocidente 60 anos antes de Francisco nascer.
Por tudo isso, não é de se espantar que, em Damietta, no Egito, de alguma forma Francisco e seus companheiros tenham conseguido cruzar a linha de batalha onde os Cruzados lutavam com os Árabes e se encontrar pessoalmente com o sultão Malik el-Kamil (e ser bem recebido). Diz-se que Francisco desafiou os líderes religiosos muçulmanos a um teste de fé através do fogo, mas eles recusaram. Então Francisco propôs entrar no fogo primeiro e, se ele saísse de lá incólume, o sultão teria que reconhecer o Cristo como o verdadeiro Deus. O sultão não aceitou, mas ficou tão impressionado com a fé deste homem que permitiu aos franciscanos acesso livre aos locais sagrados para os cristãos, como a sagrada sepultura. Deu um salvo-conduto para que eles pudessem trafegar e até mesmo pregar em terras árabes, e ainda pediu para que ele o visitasse novamente.

Aquilo que as igrejas e os estados separaram, o misticismo reúne novamente: todas as almas navegam neste mesmo segredo.

***

Obs.: A história da amizade entre Rumi e Shams será contada em detalhes na versão final do livro, este é somente um trecho dela (e, sim, no livro ela é contada aos poucos, acompanhando os poemas de certos capítulos).

[1] O catarismo (do grego katharós, “puro”) foi um movimento cristão, considerado herético pela Igreja Católica. Ele se manifestou  no sul da França e no norte da Itália do final do século XI até meados do séculos XIV. Suas ideias tinham fortes paralelos com o gnosticismo do início da era cristã. Os historiadores indicam sua formação a partir da expansão das crenças dos bogomilos (Reino dos Búlgaros) e dos paulicianos (Oriente Médio). Eles afirmavam ser “os verdadeiros cristãos”. Traziam em sua doutrina a assinatura da mensagem sincrética do iniciado persa Mani, que tinha espalhado pelo mundo antigo sua doutrina gnóstica.

[2] Blog pessoal de meu amigo Acid (Sidharta Campos). O trecho foi retirado do post intitulado “São Francisco de Assis” (29/05/2007).

Crédito da imagem: Pintura de Frank Cadogan Cowper.

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10.6.13

Moisés e o pastor

Eu quero fogo, fogo ardente!

Trecho do Projeto Rumi:

Moisés ouviu um pastor a rezar enquanto vinha pela estrada:

“Deus, onde está você? Eu quero lhe ajudar, consertar seus sapatos e pentear seus cabelos. Eu quero lavar suas roupas e retirar os piolhos um por um. Eu quero lhe trazer leite e beijar suas pequenas mãos e pés quando for hora de ir para a cama. Eu quero varrer seu quarto e mantê-lo arrumado. Deus, minhas ovelhas e meus bodes são seus...

Tudo que posso dizer enquanto lembro de ti é aaaiiiiiiiiiiiiii e aaahhhhhhhhhhhhhh.”

Moisés não pôde mais aguentar:

“Com quem você está falando?”

“Aquele que nos criou e que moldou a terra e o céu.”

“Não fale sobre sapatos e meias com Deus! E o que é algo como suas pequenas mãos? Esta intimidade é uma blasfêmia que faz parecer que está a prosear com um de seus tios. Apenas algo que cresce precisa de leite. Apenas alguém com pés precisa de sapatos. Deus não precisa de nada disso!”

O pastor se arrependeu, rasgou suas roupas e saiu a vaguear pelo deserto.
Uma revelação súbita veio a Moisés:

Você me separou de um dos meus.
Você veio como um profeta para unir ou para dividir?
Eu conferi a cada ser uma forma individual e única
de ver e conhecer e repassar este conhecimento.

O que lhe parece errado é o certo para ele.
O que é veneno para um é mel para algum outro.
Pureza ou impureza, preguiça ou diligência na devoção,
isto nada significa para mim. Eu estou além de tudo isto.

As formas de devoção não devem ser classificadas como melhores
ou piores. Hindus rezam como hindus. Os drávidas
muçulmanos na Índia fazem o que fazem. Tudo isto é louvor,
e tudo isto está bom. Eu não sou glorificado em atos de louvor.

São os que me louvam! Esses que me interessam!
Eu não ouço as palavras em suas rezas.
Eu olho para dentro e vejo sua humildade.
A submissão da alma aberta é a realidade.
Esqueça a fraseologia! Eu quero fogo, fogo ardente.

Sejam amigos de sua alma ardente.
Aqueles que se preocupam com as boas maneiras e os bons comportamentos são de um tipo.
Amantes que ardem neste fogo são doutro.
Não imponha taxa de propriedade a uma vila incendiada.
Não censure o amante.

A forma “errada” de que ele fala é melhor do que uma centena das formas “corretas” dos outros.
Dentro da Caaba [1]
não importa em que direção você aponta
seu tapete de oração!

O mergulhador do oceano não necessita de sapatos de neve!
A religião do amor não tem código ou doutrina;
Apenas Deus.

Então o rubi não possui nada gravado!
Ele não necessita de marcações...

Deus começou a falar para Moisés
de mistérios ainda mais profundos, de visões e palavras
que não podem ser ditas aqui.

Moisés deixou a si mesmo
e retornou. Ele foi até a eternidade
e retornou aqui. Isto ocorreu muitas vezes.

É tolice minha tentar falar sobre isto.
Se eu dissesse alguma coisa deste assunto,
isso iria desenraizar a inteligência humana.

[...]


Comentário

Não importa se você reza para um Pai ou uma Mãe, para o corvo ou a coruja, o lobo astuto ou o touro feroz; Não importa se você vê a Divindade na Cruz, num quadro, na pradaria ou na noite estelar; Não importa nem mesmo se você crê na Divindade...
Pois que, se você crê no Amor, temos algo em comum. Temos o essencial. Vamos começar por aqui esta nossa dança:
Pé ante pé, vamos bailar, juntos, até a Eternidade.

A religião do Amor não tem código ou doutrina. Apenas Deus. E não é preciso crer nele para ouvir o som de sua flauta, ou ensaiar os primeiros passos desta nossa dança...
“Deus” é, afinal, apenas uma palavra. O Amor é a música. O Amor envolve-nos nesta dança.

Tudo começa no coração. Tudo acaba no coração.
Nada disto tem um fim.

[...]

***

[1] Reverenciada pelos muçulmanos em Meca, é considerada pelos devotos do Islã como o lugar mais sagrado do mundo. A Caaba é uma construção cúbica de 15,2m de altura, cercada por muros de 10,6m e 12,2m de altura. Ela está permanentemente coberta por uma manta escura com bordados dourados que é regularmente substituída. Em seu exterior, encravada em uma moldura de prata, encontra-se a Hajar el Aswad ("Pedra Negra"), uma pedra escura, de cerca de 50cm de diâmetro, que é uma das relíquias mais sagradas do islã. Ela é, provavelmente, o resto de um meteorito.
A Caaba é o centro das peregrinações (hajj) e é para onde o devoto muçulmano volta-se para as suas preces diárias (salat). Quando o profeta Maomé repudiou todos os deuses pagãos e proclamou um deus único, Alá poupou a Caaba e a transformou, de um centro de peregrinação pagã, em um centro da nova fé. No período pagão, a Caaba provavelmente simbolizava o sistema solar, abrigando 360 ídolos, sendo assim uma representação zodiacal. O edifício foi restaurado diversas vezes; a construção atual é datada do séc. VII, substituindo a mais antiga que foi destruída no cerco de Meca (683 d.C.).

Crédito da imagem: Google Image Search

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4.4.13

A grama

Trecho do Projeto Rumi:

O mesmo vento que arranca os troncos
faz a grama brilhar.

O vento senhoril ama a fraqueza
e a humildade da grama.
Jamais se vangloria de ser forte.

O machado não se preocupa com a grossura dos galhos.
Ele os corta em pedaços. Mas não as folhas.
Ele deixa as folhas em paz.

Uma flama não considera o tamanho da pilha de lenha.
Um açougueiro não corre de um rebanho de ovelhas.

O que é a forma na presença da realidade?
Muito pobre. A realidade mantém o céu revirado
como um cálice acima de nós, girando. Quem rodou
a roda do céu? A inteligência universal.

E o movimento do corpo
vêm do espírito como uma roda d’água
construída num riacho.

A inalação e a exalação vêm do espírito,
agora raivoso, agora em paz.
O vento destrói, e protege.

Não há realidade que não Deus,
diz o xeique completamente entregue,
que é um oceano para todos os seres.

Os níveis da criação são como pequenas ondulações neste oceano.
Seu movimento provém de uma agitação na água.
Quando o oceano deseja acalmar as ondulações,
ele as envia para perto da costa.
Quando ele as quer de volta, junto as grandes ondas do mar profundo,
faz com elas o mesmo que faz com a grama.

Isso nunca acaba.


Comentário

Os estoicos comparavam nossa vida a vida de um cão atrelado por uma coleira a uma carroça que, a qualquer instante, pode se colocar em movimento.
O comprimento da correia é tal que nos permite certa liberdade de movimento, porém, não nos permite ir aonde bem quisermos...
A carroça hoje está parada, de modo que podemos vaguear um tanto por aqui e acolá. Mas é preciso estar atento e preparado: se ela seguir viagem, se quiser nos levar a outro reino, de nada adiantará lutar contra a coleira – o máximo que conseguiremos é sermos arrastados pela estrada, à força!
Sêneca [1] explicava que “ao lutar contra o laço, o cão o aperta mais... Qualquer cabresto apertado irá machucar menos o animal se ele se mover com ele do que se lutar contra ele. Somente a capacidade de resistência e a submissão à necessidade proporcionam o alívio para o que é esmagador”.

***

Nesta realidade de formas impermanentes, o cão que se adéqua ao cumprimento da própria correia, e se preocupa em passear somente onde lhe é possível passear, é tão humilde quanto uma folha de grama.
A grama, constantemente açoitada pelo vento, mas que não obstante, tem sempre perdurado, junto a suas irmãs, por todas as planícies do mundo...

Que importa se o vento é ameaçador? Enquanto houver um tanto de terra fértil no reino, o sol estará resplandecendo a toda nova manhã, e alimentando a grama, que lhe retribuí com o verde.
Toda manhã traz um novo alento e um novo espírito. Deixemos que a carroça nos conduza seguindo pelos velhos sulcos da terra.

Que importa se o vento é ameaçador?  É o vento quem anuncia a chuva que virá... E enquanto houver chuva, haverá planícies verdejantes, haverá este inefável perfume de grama, haverá vida, haverá eternidade!

***

[1] Lucius Annaeus Seneca, mais conhecido como Sêneca, foi um filósofo estoico. Nasceu no ano 4 a.C. em Córdova e morreu no ano 65 d.C. em Roma: “Se vives de acordo com as leis da natureza, nunca serás pobre; se vives de acordo com as opiniões alheias, nunca serás rico”.

Crédito da imagem: Nathan Griffith/Corbis

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27.2.13

Rumi - A dança da alma (Projeto Rumi)

Rumi - A dança da alma foi lançado em 27.09.13:

Comprar o livro no Clube de Autores

Após Ad infinitum estar publicado e divulgado, inicio outro projeto. Desta vez, serei mais tradutor do que autor... O que segue abaixo é um trecho da introdução deste novo livro, que por enquanto será aqui chamado de Projeto Rumi [1]:


Já é noite, e a lua cheia da Pérsia estampa o tecido estelar, a refletir a luz que vem do outro lado do mundo. A sua volta, todos os discípulos estão tão taciturnos e quietos que, acaso fossem lamparinas vivas, poderiam ser confundidos com estrelas tristes.

Ao centro há um velho poeta dançarino. Ele encontrou e perdeu um grande amigo, ao mesmo tempo seu mestre e seu discípulo, pois que um completava ao outro como o sol e a lua... Mas isto foi há muitos anos, agora tudo o que ele faz é dançar. A tristeza incomensurável da perda em sua alma foi suplantada por chama ainda maior: um fogo que nunca se apaga.

Eis como se lamentava o seu filho ante sua aparente ausência:

Noite e dia, em êxtase ele dançava,
na terra girava como giram os céus.
Rumo às estrelas lançava seus gritos
e não havia quem não os escutasse.
Aos músicos provia ouro e prata,
e tudo o mais de seu entregava.
Nem por um instante ficava sem música e sem transe,
nem por um momento descansava.
Houve protestos, no mundo inteiro ressoava o tumulto.
A todos surpreendia que o grande sacerdote do Islã,
tornado senhor dos dois universos,
vivesse agora delirando como um louco,
dentro e fora de casa.
Por sua causa, da religião e da fé o povo se afastara;
e ele, enlouquecido de amor.
Os que antes recitavam a palavra de Deus
agora cantavam versos e partiam com os músicos [2].

Mas esta lamentação não inibiu seu espanto ante as palavras que o velho poeta parecia conseguir roubar do céu. Este silêncio todo é tão somente isto: o silêncio que antecede a chegada da poesia...

Ele faz um breve gesto, o sinal está dado. Os músicos começam a assoprar da alma para fora as melodias mais belas de todo o mundo árabe, e os escribas ficam a postos.

O poeta começa a dançar. Pé ante pé, suas passadas fazem com que gire agilmente em torno do próprio eixo, apesar da idade já avançada. Porém, assim como a Terra não gira no mesmo lugar, o poeta também circula uma estrela imaginária, um sol invisível a pairar no reino da imaginação [3]. É de sua luz que começam a chegar às palavras cantadas. Cada pequeno trecho é anotado:

Se você não me achar em você, nunca me achará.
Pois, tenho estado contigo, desde o início de mim.

Não há tempo a perder. É preciso aproveitar cada minuto do transe extático daquele que fora um grande sacerdote, mas que ao fim da vida havia se tornado algo ainda maior e mais profundo: um poeta que sabe como dialogar com Deus.

Lá onde nasce o verdadeiro amor
morre o “eu”, esse tenebroso déspota.
Tu o deixas expirar no negro da noite
e livre respiras à luz da manhã.

“Como pode, tão velho, após haver sofrido tanto de amor e de saudades, ainda conseguir trazer tanta água da fonte?” – pensam os escribas enquanto anotam, e anotam, e anotam... Foram milhares e milhares de poemas:

Está com ciúmes da generosidade do oceano?
Porque se recusaria a doar
esta alegria aos outros?
Os peixes não guardam o líquido sagrado em canecas!
Eles nadam nesta imensidão de liberdade fluída.

Ainda é noite, e o primeiro e maior dos dervixes rodopiantes, o dançarino em transe, continua a girar em torno de todo o Cosmos que, afinal, também está dentro dele mesmo.

Ele veio ao mundo para nos revelar a luz que vem do sol, pois que foi um dos poucos que a observou diretamente e não cegou – apenas amou, enlouquecidamente, e cada dia mais, até que seu espírito foi reclamado pelos que já estavam muito saudosos no outro mundo.

Isto foi há aproximadamente 8 séculos. O seu nome era Jalal ud-Din Rumi.

***

[1] Em 24/09/13 foi revelado o título do livro: Rumi - A dança da alma

[2] Texto de Sultan Walad, filho dileto, biógrafo e sucessor de Rumi. Walad foi o primeiro intérprete e exegeta de sua obra, e também o fundador da ordem sufi Mevlevi, conhecida como a ordem dos dervixes girantes, ou dançantes. O trecho citado foi transcrito da introdução de “Poemas Místicos” (Attar Editorial), com a seleção e tradução de José Jorge de Carvalho.

[3] Rumi criou a dança cósmica, o sama, praticada pela ordem sufi Mevlevi (ver nota 1). Sergio Rizek, editor da Attar, explica que essa dança se inspira no movimento dos astros: "Assim como todos os corpos giram por amor ao sol, os dervixes também giram por amor ao divino, que muitas vezes precisa de uma contrapartida humana, pois no Islã o amor humano é símbolo e reflexo do amor divino" (citação retirada do artigo de Débora F. Lerrer, “Quando o homem se confunde com Deus”).

» Veja também: Os dois mundos de Rumi

» Veja mais posts do Projeto Rumi

***

Crédito da imagem: Ayon/Raph

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