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28.3.19

As Canções de Kabir

Rabindranath Tagore foi o primeiro não ocidental a vencer o Prêmio Nobel de Literatura, em 1913, e também o único ser humano responsável pela composição do hino nacional de duas nações: Índia e Bangladesh. Tagore foi um dos maiores poetas do Oriente, e aquele que conferiu o título de “Mahatma” (grande alma) a Gandhi. Mas este artigo não quer tratar de Tagore ou de sua poesia, e sim da sua grande fonte de inspiração: um homem, um poeta, uma lenda conhecida simplesmente como Kabir (“Grande”, em árabe).

Pouco se sabe da sua história com exatidão além de que viveu a maior parte da vida na cidade de Varanasi, no nordeste da Índia, durante o século XV (e início do XVI). Varanasi, às margens do Ganges, é uma das principais cidades do hinduísmo, e uma das cidades continuamente habitadas mais antigas da humanidade, com pelo menos 3 mil anos.

Tendo nascido aproximadamente em 1440 nos arredores de Varanasi, e morrido aproximadamente em 1518 na cidade próxima de Mughar, Kabir passou toda a vida sob o domínio islâmico do Sultanato de Delhi (1206-1526), que no entanto era consideravelmente tolerante para com as práticas hindus. Apesar de possuir um nome árabe, Kabir sempre desdenhou dos rótulos religiosos e das castas sociais, tanto que é até hoje considerado islâmico e hindu ao mesmo tempo (o que, mesmo naquela época, já era algo incomum).

Muito bem, a partir deste ponto, a realidade se confunde com a lenda... Segundo a tradição, Kabir nasceu numa família que professava o hinduísmo, pertencente à casta dos brâmanes (a mais “elevada” delas, reservada aos sábios e sacerdotes). Porém, seu pai morreu cedo e a sua mãe, sem ter condições de educá-lo, o ofereceu em adoção. Kabir foi adotado e educado por um casal de muçulmanos relativamente pobres, o tecelão Niru e sua esposa Nima. Naquele tempo, como ainda hoje, a comunidade islâmica de Varanasi dominava a produção e o comércio de tecidos finos. Assim sendo, Kabir alcançou cedo a maestria na arte da tecelagem, e durante o restante da vida trabalhou com ela.

Quando seu pai adotivo morreu, Kabir assumiu o seu posto como tecelão e vendedor de tecidos, de onde tirava o pálido sustento dele e da mãe. Durante o trabalho, no entanto, entrava frequentemente em êxtase místico e, assim absorto noutros mundos, tecia peças fora da medida ou era facilmente roubado por ladrões quando as expunha no mercado. Era necessário que ele disciplinasse tal vocação espiritual, e foi assim que procurou ajuda no ashram de Ramananda, um dos maiores expoentes da bhakti yoga no hinduísmo da época.

Felizmente, Ramananda também foi um dos primeiros grandes mestres daquele tempo a aceitar discípulos de todas as castas e credos. Tomando contato com aquele jovem tecelão, não se importou que fosse pobre e vindo de família islâmica: viu, em seus olhos, toda a sua potência espiritual, e logo o acolheu.

Sob a generosa tutela deste grandioso mestre, Kabir em poucos anos veio a alcançar ele mesmo o status de santo e sábio, reconhecido por muitos discípulos e inúmeros admiradores (inclusive advindos do islamismo). Mas a lenda de Kabir vai além: mantida em sigilo por séculos, a informação de que ele também teria sido instruído por outro mestre foi revelada por Paramahansa Yogananda (1893-1953) em sua célebre autobiografia. Segundo nos revelou Yogananda já no século XX, Kabir também teria sido instruído por Bábaji, um lendário iogue de sua época (considerado por muitos hindus como “o maior dos iogues perfeitos”).

A conexão de Kabir com grandes místicos do seu século não termina aí. No siquismo se diz que Kabir também foi uma das inspirações do próprio guru Nanak (1469-1539). A poesia de Kabir também encontra paralelos evidentes tanto com o misticismo hindu (sobretudo a bhakti yoga) quanto com o sufismo, o misticismo islâmico.

Assim sendo, não surpreende que Tagore, não mais do que dois anos após alcançar o reconhecimento ocidental com o seu Nobel, tenha se dedicado a selecionar e traduzir poemas de Kabir para o inglês. Através desta obra, Songs of Kabir (As Canções de Kabir), o grande poeta de Varanasi foi finalmente conhecido no Ocidente.

Antes de lhes apresentar trechos deste livro, resta-nos ainda uma última lenda (ou anedota) por contar:

Quando Kabir morreu, tanto os hindus quanto os muçulmanos o reivindicaram como deles e houve uma disputa para cremar ou enterrar seu cadáver. Os hindus queriam cremá-lo conforme a sua tradição e os muçulmanos queriam enterrá-lo, seguindo seus costumes. Há uma história popular a respeito de sua morte, que é ensinada como evento histórico em muitas escolas indianas: ela conta que quando abriram o caixão para disputar o corpo, lá encontraram um livreto sobre sua filosofia desdenhando tanto as crenças hindus quanto as islâmicas, e um buquê com suas flores favoritas! O corpo do santo havia desaparecido e nunca jamais foi encontrado.

Agora sim, para encerrar, algumas canções de Kabir (na tradução de Rafael Arrais):

IV.

Não vá até o bosque!
Ó meu amigo, não vá!

Em seu corpo
existe o bosque, cheio de flores...
Tome o seu lugar
numa das milhares de pétalas da lótus,
e então contemple
a Beleza Infinita.


XIV.

O rio e suas ondas
fluem como um só:
qual a diferença entre eles?

Quando se eleva a onda,
ela é a água;
e quando ela rebenta,
ainda é a mesma água...
Diga-me, ó senhor,
onde está a diferença?

Se acaso a chamaram "onda",
não pode mais ser chamada "água"?

Nas mãos de Brama,
os mundos estão sendo contados
um a um, como as contas de um rosário:
contemple-o com os olhos da sabedoria.


XVI.

Entre os polos da consciência e da inconsciência,
lá a mente fez a sua oscilação:
neste movimento se sustentam todos os seres e todos os mundos,
e este pêndulo jamais deixa de oscilar.

Milhões de seres estão lá;
o sol e a lua e os seus cursos estão lá.
Passam-se milhões de anos,
e seu movimento persiste...

Tudo em fluxo!
O céu e a terra e o ar e a água,
e o próprio Lorde tomando forma:
foi esta a visão que fez de Kabir um servo.


raph

***

Bibliografia
The Songs of Kabir, trad. Rabindranath Tagore (diversas editoras); Kabir: 100 Poemas, trad. José Tadeu Arantes (Attar Editorial); Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search; [ao longo] Joel L.

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20.9.16

Palestra: Poetas da Alma

Depois de muita insistência de amigos de todos os cantos, eu finalmente vou dar a minha primeira palestra pública...

O título será Poetas da Alma, e embora todos os verdadeiros poetas sejam naturalmente poetas da alma, darei um destaque maior a história e a poesia dos meus quatro preferidos: Fernando Pessoa, Khalil Gibran, Rabindranath Tagore e Jalal ud-Din Rumi. Para quem já acompanha este blog há tempos, eles já devem ser velhos conhecidos. Para quem não acompanha, será uma grande oportunidade de conhecer poetas grandiosos.

O local será em Campo Grande/MS, onde moro, num espaço espiritualista recém-inaugurado chamado SuryAmar. Para quem não puder ir, prometo que irei compartilhar todos os slides usados na palestra, mas ainda não posso confirmar se ela será filmada. Vejam as informações completas do evento abaixo:


Poetas da Alma, com Rafael Arrais
Seja você a poesia do Natal de uma criança

Dia 09 de Dezembro de 2016, das 19 às 21h
SuryAmar Espaço Integral do Ser
Rua Enoch Vieira de Almeida, 149 | Campo Grande/MS
Inscrições: (67) 99223.8570  

O valor do convite é a doação de 2 brinquedos para ambos os sexos que serão doados para caridade.


***

Atualização: Gratidão aos que compareceram! Segundo um dos espectadores, foi um verdadeiro "banho na alma". Me senti realizado, pois era essa mesmo a ideia: que ela fosse mais uma experiência poética do que uma palestra acadêmica.

Para quem não pôde ir, seguem abaixo os links com **todos** os slides da palestra e algumas fotos do evento:

Vejam os slides da palestra Vejam as fotos da palestra

 

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19.7.16

Para ser feliz, parte final

« continuando da parte 3

Tenho uma amiga que, de tanto andar pelos caminhos do mundo, acabou assumindo para si a difícil tarefa de tentar elucidar qual é, afinal, o caminho da felicidade. Em seu programa para o canal de TV a cabo Multishow ela já entrevistou artistas, filósofos e espiritualistas em geral. Eventualmente chegou a conversar com Matthieu Ricard, o célebre “homem mais feliz do mundo”, segundo estudos neurológicos conduzidos pela Universidade de Wisconsin. Ricard, apesar de ser filho de um renomado filósofo francês e Ph.D. em genética molecular, eventualmente se tornou um monge budista e hoje reside no Nepal, apesar de também rondar pelo mundo todo. Para ele, a espiritualidade é indissociável da felicidade:

Espiritualidade significa lidar com a mente. Pode-se dizer que o treinamento da mente é um tipo de espiritualidade. A religião se vale de técnicas para alterar a mente, mas no fim tudo depende do jeito como você lida consigo mesmo e com o mundo à sua volta... Acho que a compaixão e a empatia são qualidades humanas básicas que todos podem e devem cultivar para se tornarem pessoas melhores, independente se possuem ou não uma religião. Afinal, essas qualidades são muito mais fundamentais que a religião em si [1].

Assim, ficamos sabendo que a espiritualidade que surge da compaixão para com os outros seres é, quem sabe, uma fonte de quietude da mente, de profunda tranquilidade. Mas, e daí? Seria isso, somente isso, o que determina a sua felicidade?

Obviamente, não há absolutamente nada que Ricard possa falar que irá nos descrever exatamente “como é ser o homem mais feliz do mundo”. De fato, suas palavras seriam incapazes sequer de demonstrar “como é ser feliz”, ou ainda, “como ele está feliz no dia de hoje”. As palavras, afinal, são tão somente cascas de sentimentos, e a minha amiga estaria em maus lençóis se quisesse mesmo determinar precisa e cientificamente o que é a felicidade. Felizmente, ela já se contenta em estar no caminho que leva para lá...

Isso me lembra da corredeira que desemboca no mar, após um longo caminho, conforme vínhamos falando. E, se eu já admiti que palavras são nada mais que cascas, minha única esperança de encerrar esta série com alguma dignidade é convidar meus amigos poetas para o meu auxílio, pois que eles sim souberam imprimir em suas cascas alguma parte deste fruto eterno e sem nome [2]:

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Quando nos deixamos escorrer juntamente com o rio da Vontade, esta Vontade muito maior do que quaisquer desejos que tivemos ou possamos vir a ter, há um enorme perigo para o ego, e uma enorme promessa de genuíno contentamento para a alma. Que, para encarar o perigo e o abismo do mar, é preciso se abandonar de si, para se reencontrar no céu.

E ninguém disse que seria fácil, mas a cada passo dado, logo se nota que o horizonte a frente é muito maior e mais ensolarado, até que enfim chegamos na praia, na margem do mar que espelha o Tudo, onde brincam as criancinhas:

Na praia dos mundos sem fim as crianças se encontram, com muitas danças e algazarras.
Elas constroem suas casas com areia e brincam com as conchas vazias.
Com as folhas secas elas tecem seus barquinhos e os colocam, sorridentes, para flutuar na vastidão do mar.

As crianças brincam na praia dos mundos.
Elas não sabem nadar, e tampouco arremessar as redes.
Pescadores de pérolas mergulham atrás de pérolas, mercadores navegam em seus barcos, enquanto as crianças catam pequeninas pedras, e depois as espalham novamente.
Elas não buscam por tesouros ocultos, e tampouco sabem arremessar as redes.

Na praia dos mundos sem fim as crianças se encontram.
A tempestade ronda pelo céu sem trilhas, os navios naufragam pelo mar sem rotas, a morte está à solta, e as crianças brincam.
Na praia dos mundos sem fim ocorre o grande encontro de todas as crianças.

E é até estranho de se pensar, mas no fundo toda a criança nasce um ser iluminado, sem saber que é um ser iluminado.

Da mesma forma, é bem possível que um ser iluminado nada mais seja do que uma criança que sabe que é um ser iluminado.

Todos esses santos que foram e que voltaram, e que hoje brincam por todos os cantos, sem rumo que não o de dentro, são talvez aqueles mais indicados para nos dizer o que devemos fazer para sermos felizes... Mas isso não quer dizer que seremos plenamente capazes de compreendê-los:

E agora vocês perguntam em seus corações, “Como poderemos distinguir o que é bom no prazer do que não é bom?”.
Dirijam-se aos seus campos e jardins, e deverão aprender que o prazer da abelha é sugar o mel da flor,
Mas que é também um prazer para a flor ofertar do seu mel a abelha.
Pois para a abelha uma flor é uma fonte de vida,
E para a flor uma abelha é uma mensageira de amor,
E para ambas, abelha e flor, a doação e o recebimento do prazer são uma necessidade e um êxtase.

Povo de Orphalese, busquem ao prazer como o fazem as flores e as abelhas.

Uma necessidade, e um êxtase... No fim das contas, a felicidade é aquilo que ocorre quando não estamos pensando nela...

Quando não estamos pensando em mais nada...

Quando a alma consegue cerrar a cortina do palco da mente, e contemplar a imensidão, em silêncio:

É primavera, e tudo lá fora germina, até mesmo o enorme cipreste.
Nós não devemos abandonar este lugar.
Próximo a borda do copo em que ambos bebemos, leem-se as palavras,
“Minha vida não me pertence.”

Se alguém viesse tocar alguma música, teria de ser uma doce canção.
Nós estamos a beber vinho, mas não através dos lábios.
Nós estamos a sonhar, mas não em nossas camas.
Esfregue o copo em sua testa.
Este dia se encontra além da vida e da morte.

Desista de desejar o que os demais possuem.
Nesta via estará seguro.
“Onde, onde estarei seguro?”, você pergunta.

Este não é um dia para se fazer perguntas, este não é um dia de algum calendário. Este dia é a consciência de si mesmo.
Este dia é o amante, o pão, e a gentileza, ainda mais manifestos do que os lábios poderiam dizer.

Pensamentos tomam forma através das palavras, mas a luz desta manhã vai além, ela é ainda mais antiga do que os pensamentos e a imaginação.

Esses dois estão tão sedentos... Mas é isto o que confere suavidade a água. Suas bocas estão secas, e eles estão exaustos.
O restante deste poema está demasiadamente embaçado para que eles consigam prosseguir na leitura.

Para ser feliz, afinal, é preciso ler muito e conhecer muito, para então abandonar toda leitura e todo conhecimento...

***

[1] Livremente transcrito da entrevista para o episódio 06 da primeira temporada de No caminho da felicidade, com Susanna Queiroz.

[2] Na sequência, trechos (sempre em itálico) da poesia dos quatro grandes poetas da Alma: Fernando Pessoa, Rabindranath Tagore, Khalil Gibran e Jalal ud-Din Rumi. Onde coube, a tradução foi de Rafael Arrais.

Crédito das imagens: [topo] matthieuricard.org/Divulgação; [ao longo] Joel Robinson

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16.3.14

Lançamento: Gitanjali

As Edições Textos para Reflexão têm a enorme alegria de lhes trazer Gitanjali, a obra que tornou Rabindranath Tagore o primeiro Nobel de Literatura não europeu. Ela foi traduzida do original em inglês por Rafael Arrais.

"O Grande Mestre"... Assim Mahatma Gandhi o chamava. Aliás, quem deu a alcunha de Mahatma ("Grande Alma") a Gandhi foi o próprio Tagore. E, até hoje, quando ouvimos aos hinos da Índia ou de Bangladesh, ouvimos a composições suas. Mas Tagore foi muito mais do que um compositor de hinos, um Prêmio Nobel, ou mesmo um "grande mestre". Tagore foi um poeta da alma, um grande místico, e talvez isto por si só, ou somente isto, possa explicar a qualidade inefável e atemporal de seus poemas, contos, textos e músicas. Tagore conservou até o seu último dia a fé no homem espiritual, no homem do amanhã. Ele foi um daqueles poucos, pouquíssimos, que não se contentou em simplesmente esperar pelo Céu - tratou de tentar erguê-lo aqui mesmo, neste mundo...

Um livro digital já disponível para o Amazon Kindle e Kobo:

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***

Abaixo, seguem trechos da luxuosa introdução ao Gitanjali por outro Nobel de Literatura, W. B.Yeats:

Desde a Renascença os escritos dos santos europeus – apesar da familiaridade com suas metáforas e a estrutura geral de seu pensamento – cessaram de nos atrair a atenção. Nós sabemos que um dia deveremos enfim abandonar o mundo, e estamos acostumados, em nossos momentos de cansaço e exaltação, a pelo menos considerar um abandono consciente do mundano; mas como poderemos nós, que lemos tanta poesia, contemplamos tantas obras de arte, escutamos a tantas músicas grandiosas, e atingimos um estado onde o choro da carne e o choro da alma se uniram num mesmo pranto, como poderemos abandonar tal mundo de maneira tão rude e severa?

O que nós temos em comum com o ato de São Bernardo, que cobriu os próprios olhos, de modo a que não pudessem se maravilhar com à beleza dos lagos suíços, ou com a violenta retórica do Livro das Revelações? Nós acharíamos, caso tentássemos, conforme neste livro, palavras cheias de cortesia. “Esta é a minha deixa. Me deem adeus, meus irmãos! Eu me curvo a vocês e tomo o meu caminho. Aqui lhes deixo as chaves de minha porta – assim como a minha casa inteira. Apenas lhes peço por carinhosas palavras de despedida. Nós fomos vizinhos por tempos, mas eu recebi mais do que poderia retribuir. Agora a manhã chegou e a lamparina que iluminava o meu quarto escuro se apagou. Uma convocação chegou até mim, e eu estou preparado para a minha jornada”.

E é tão somente nosso estado de espírito que nos faz chocar com os extremos de um Tomás de Kempis ou um São João da Cruz, que clamam, “E porque eu amo esta vida, sei que deverei amar também a morte”. No entanto, não são apenas em nossos pensamentos acerca de nossa partida que este livro penetra. Nós não sabíamos de nosso amor por Deus, nós mal sabíamos se realmente acreditávamos nele; ainda assim, olhando para nossa vida em retrospectiva nós descobrimos, em nossa exploração pelas trilhas das florestas, em nosso encanto solitário no topo dos montes, na misteriosa reivindicação que fizemos, inutilmente, pelo amor da mulher que amávamos, ainda assim descobrimos, enfim, a emoção que desencadeou toda esta doçura insidiosa.

“Adentrando meu coração sem ser convidado, como alguém da multidão comum, desconhecido, você marcou com a estampa da eternidade muitos dos meus momentos fugidios, meu rei”. Esta não é mais a santidade da cela e do açoite; é tão somente uma nova inspiração para uma nova intensidade na alma de um artista, a pintar o pó e a luz do sol, e devemos recitá-la com vozes como as de São Francisco ou William Blake, que sempre nos pareceram tão alienígenas ao longo de nossa história violenta.

***

Nós escrevemos livros longos onde, talvez, nenhuma página possua alguma preocupação em tornar a leitura agradável. Confiantes nalgum design geral, lutamos para fazer dinheiro e preencher nossas mentes com política – e outras coisas enfadonhas –, enquanto o Sr. Tagore, assim como a própria civilização indiana, têm estado contentes com a descoberta da alma e com sua submissão espontânea a ela.

Muitas vezes ele põe esta vida em contraste com a vida desses que têm amado mais a nossa maneira, e se voltam para o peso aparente do mundo, mas ele sempre, humildemente, termina por considerar o seu caminho o mais apropriado para ele: “Aqueles que seguem para casa me encaram e sorriem, e me enchem de vergonha. Eu me sento como uma serviçal miserável, cobrindo o rosto com meu vestido, e quando me perguntam, ‘O que desejo’, eu baixo meus olhos e não os respondo”.

Noutro tempo, lembrando-se de como sua vida teve um dia um perfil diferente, ele diz assim, “Perdi muitas horas com o conflito do bem e do mal, mas hoje o grande prazer do meu colega dos dias vazios é atrair o meu coração para ele; e eu não sei o porquê deste chamado repentino para tal vã inconsequência!”.

Uma inocência e uma simplicidade que não se acham noutros cantos da literatura fazem com que os pássaros e as folhas pareçam estar tão próximos dele quanto das crianças, e com que o passar das estações pareçam eventos tão grandiosos quanto o eram antes de nossos pensamentos cruzarem a idade adulta.

Por vezes eu penso se ele adquiriu tal qualidade da literatura bengalesa ou da religião, e noutras vezes, lembrando-me dos pássaros aterrissando nas mãos de seu irmão, encontro prazer em imaginar isto como algo hereditário, um mistério que veio crescendo através dos séculos, como a lenda de Tristão e Isolda.

De fato, quando ele fala de crianças, tal qualidade se parece tanto com uma parte dele mesmo, que não ficamos certos se ele não estaria, da mesma forma, falando dos santos...
“Elas constroem suas casas com areia e brincam com as conchas vazias. Com as folhas secas elas tecem seus barquinhos e os colocam, sorridentes, para flutuar na vastidão do mar.
As crianças brincam na praia dos mundos. Elas não sabem nadar, e tampouco arremessar as redes. Pescadores de pérolas mergulham atrás de pérolas, mercadores navegam em seus barcos, enquanto as crianças catam pequeninas pedras, e depois as espalham novamente.
Elas não buscam por tesouros ocultos, e tampouco sabem arremessar as redes”.

W. B. Yeats, Setembro de 1912 (citando, entre aspas, trechos do Gitanjali)


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11.2.14

O poeta da alma

O próximo livro digital das Edições Textos para Reflexão será uma tradução da obra com a qual Rabindranath Tagore, poeta nascido em Bengala, se tornou o primeiro vencedor não europeu do Prêmio Nobel de Literatura, em 1913.

Nesta tradução direta do original em inglês de Gitanjali ("oferenda de canções" ou "oferenda lírica"), ainda contaremos com uma introdução luxuosa de outro grande poeta vencedor do Nobel, o irlandês William Buttler Yeats, cuja poesia foi diretamente influenciada por Tagore.

Abaixo, segue um trecho do livro que compõe o Prefácio juntamente com a introdução de Yeats:

***

O Grande Mestre

Assim Mahatma Gandhi o chamava. Aliás, quem deu a alcunha de Mahatma (“Grande Alma”) a Gandhi foi o próprio Tagore.

Não somente o Prêmio Nobel de Literatura de 1913, mas o primeiro não europeu a merecer tal homenagem.

E, até hoje, quando ouvimos aos hinos da Índia ou de Bangladesh, ouvimos a composições suas.

Mas Tagore foi muito mais do que um compositor de hinos, um Prêmio Nobel, ou mesmo um “grande mestre”. Tagore foi um poeta da alma, um grande místico, e talvez isto por si só, ou somente isto, possa explicar a qualidade inefável e atemporal de seus poemas, contos, textos e músicas.

Rabindranath Tagore nasceu em 1861, em Calcultá, na época capital da Índia inglesa e coração da Bengala renascente. Nessa metrópole particularmente ativa, três gerações dos Tagore participaram, no decorrer do século XIX, na criação e no desenvolvimento de importantes movimentos culturais e religiosos.

Na residência de sua família desfilavam as personalidades mais marcantes da época, tanto no domínio das artes e das letras como no da política, da espiritualidade ou da filosofia. Foi nessa atmosfera que Tagore compôs seus primeiros versos, ainda com 10 anos de idade. Logo que atingiu a adolescência, começou a publicar seus textos em um periódico literário e, durante os sessenta anos seguintes, produziu uma obra imensa: poemas, cantos, óperas, romances, peças de teatro, novelas e numerosos volumes de ensaios que falavam sobre praticamente todos os domínios da vida.

Além disso, Tagore tomou parte, diretamente ou através de seus escritos, nas grandes manifestações de protesto que, a partir do fim do século XIX, balizaram a longa luta da Índia por libertação do domínio britânico. Entretanto, o próprio Tagore morou e estudou Direito nas Ilhas Britânicas, e sempre manteve amigos por lá – em sua maioria, intelectuais.

Já no ocaso da vida, ao decorrer de inúmeras viagens ao redor do mundo, se lançou numa longa cruzada pela união entre os povos, precisamente num período em que tanto a Europa quanto a Ásia viam nascer poderosos partidos nacionalistas.

Mas, apesar de desgostoso com o caminhar da política mundial, Tagore era um educador em sua alma, e sentia enorme alegria em poder ensinar. Tanto que fundou uma escola, em Santiniketan (“a morada da paz”), cerca de cem quilômetros ao norte de Calcutá, e nela criou o seu santuário. Lá viveu até o fim de seus dias cercado da família, de amigos e discípulos – ensinando a todos.

Seu sistema de educação, revolucionário para a época, era a antítese dos sistemas oficializados com suas “cartilhas”. Em Santiniketan, a criança devia ser reconhecida como um indivíduo com plenos direitos. A meta era ajudá-la a se desenvolver, da melhor forma possível, segundo seus desejos, vocações e gostos pessoais.

No santuário de Tagore a vida era organizada de tal forma que sua sensibilidade e sua imaginação podiam ser constantemente alimentadas por um contato permanente com a natureza, e por um livre acesso a todas as formas de arte ou de expressão de si mesmo. Na realidade, os que para lá se dirigiam não buscavam somente desenvolver suas faculdades mentais, mas abrir suas almas para uma espiritualidade viva e livre de dogmas.

Tagore conservou até o seu último dia a fé no homem espiritual, no homem do amanhã. Ele foi um daqueles poucos, pouquíssimos, que não se contentou em simplesmente esperar pelo Céu – tratou de tentar erguê-lo aqui mesmo, neste mundo...

Onde a mente encontra-se sem medo e a cabeça é mantida erguida
Onde o conhecimento é livre
Onde o mundo não foi quebrado em fragmentos
Por estreitos muros domésticos
Onde as palavras vêm da verdade profunda
Onde laboriosas lutas esticam seus braços em direção à perfeição
Onde o riacho límpido da razão não perdeu seu rumo
Afluindo ao triste deserto dos hábitos moribundos
Onde a mente é direcionada adiante por você
A pensamentos e ações sempre em constante afloramento
Nesse céu de liberdade, Pai, deixe meu país acordar

Céu de liberdade, poema #35 do Gitanjali

***

O livro será traduzido do inglês por Rafael Arrais.


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14.3.12

Tagore Play

» Parte da série: Play a myth

Se o mito existe fora do tempo, há alguns raros artistas que souberam falar diretamente ao reino da alma. Suas obras influenciaram e sensibilizaram tantos de nós que, mesmo após o fim, tornaram-se mitos de si mesmos, habitando nosso imaginário. Que viver na memória daqueles que nos amam é viver como um ser imortal. E, se algumas velas foram apagadas pelo tempo, não há nada capaz de extinguir a lembrança perene de sua luminosidade...

Jogue, represente, interprete, brinque: play a myth.

***

(clique na imagem para abrir em tamanho maior)

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» Veja posts sobre Tagore em nosso blog

***

Obs: Esses foram os 6 artistas, os próximos serão os santos...

Crédito da imagem: Rafael Arrais + Google Image Search

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15.12.10

O homem em sua unicidade

Texto de Rabindranath Tagore [1] em "A morada da paz” (Ed. Verus) – pgs. 129 a 132. Tradução de Ivo Storniolo.

No plano material, existe um parentesco de natureza entre os objetos deste mundo e nós mesmos. Partilhamos uma mesma textura fundamental com o pó dos caminhos, assim como com as pedras e os vegetais, os animais e a humanidade inteira. Todavia, no nível em que nosso ser de verdade intervém em sua unicidade, essa semifusão entre tudo e todos desaparece.

Nossa individualidade eterna, que pressentimos com nosso Eu, por trás de nosso pequeno eu limitado, não tem igual no universo. Na Criação infinita, cada Eu é uma criação sem precedentes; ele é Eu apenas, Eu sem igual, Eu sem termo de comparação. Apenas o mundo de nosso Eu nos pertence como próprio, e a ninguém mais é dado, senão à pessoa regenerada, penetrar em sua morada, na qual reside, a seu lado, o deus que a anima.

Com efeito, ó meu Deus, nosso Eu único, nosso Eu diferente de qualquer outro, abriga uma parcela igualmente única, perfeitamente individualizada, de ti mesmo, manifestada em tua Total-Felicidade. E jamais, em nenhum tempo, em nenhum lugar, escolheste duas expressões idênticas de tua Personalidade infinita. Assim, aquele que chamamos de Eu se verifica ser, na verdade, uma aspecto bem definido, totalmente distinto, do Jogo eterno de ti contigo mesmo. Nele, nosso pequeno eu deve aprender a se religar integralmente a ti. Desse modo, Eu e eu se tornarão um no coração do Uno.

Que nosso nascimento sobre a terra possa permitir a essa parcela da Alegria divina, que é nosso Eu, expressar com toda a consistência a grandeza, a pureza, a harmonia e a beleza que ele traz em si. Possa este ser que somos na verdade, na sequência sem fim das existências, realizar nesta vida terrestre a finalidade para a qual se encarnou.

No decorrer das eras, tu deste forma ao nosso Eu em sua unicidade. Tu mesmo o guiaste por entre sóis e luas, planetas e estrelas, e velaste para que sua identidade jamais se confundisse com qualquer outra. Desde o instante em que os primeiros elementos que o constituem jorraram de uma fonte de sutil luminosidade, no coração de alguma nebulosa transcendente, tu o conduziste, alimentaste, de mutação em mutação, de finalidade em finalidade, até que ele eclodisse em uma forma humana.

Nosso Eu, teu companheiro de sempre, cresce hoje em nosso corpo de matéria. Desde a origem dos tempos, tu lhe traças, através de toda a Criação, uma caminho que lhe é próprio, em que ele progride sem fim junto de ti. Esse “Ti” é seu Guia eterno, seu Amigo sem igual sobre os caminhos do Infinito. Possamos, Senhor, no decorrer desta existência cá embaixo, te reconhecer nesse Amigo incomparável.

Permite que jamais concedamos a nenhum ser, a nenhuma coisa, igual ou maior valor que à tua Presença em nosso coração. Permite igualmente que de modo nenhum deixemos predominar em nós o aspecto material biológico de nosso ser, pouco distinto das árvores, das plantas e dos animais de qualquer espécie. Atribuir a primazia a essa faceta de nós mesmos é uma tentação fácil, uma vez que temos em comum, com toda a forma de vida vegetal ou animal, igual necessidade de alimento, de ar e de água, pois a mesma vontade de sobreviver nos habita, e nos defrontamos juntos com os mesmos perigos e os mesmos tormentos. Também devemos pedir para que as necessidades de ordem física e material não cheguem a preencher nosso campo de consciência, a ponto de expulsar dela toda a percepção de nosso Amigo secreto – nosso Guia de todos os tempos –, que, sob forma individualizada, manifesta o Divino em nosso ser por meio de um toque, de um modo de ação, de uma felicidade – que lhe são absolutamente próprios.

Nos planos em que nos sentimos parte integrante da Criação material, nós te respeitamos, Senhor, enquanto Senhor deste mundo. Nós nos esforçamos para seguir tua Lei, porque, se a infringirmos, consequências se seguirão, e as consideraremos como castigo vindo de ti. Mas, onde existimos em nossa unicidade, procuraremos te conhecer como nosso Todo.

No nível do Eu, nos quiseste livres, porque, se assim não fosse, teu Amor não produziria frutos, e teu desejo de união e tua alegria de ser permaneceriam sem eco. Por conseguinte, o Eu, assim dotado de livre-arbítrio, só encontra tua razão de ser na plenitude de uma total comunhão contigo. É por isso que a mais intolerável angústia, nas regiões do ser que ela rege, é a de não sentir tua Presença; aí se encontra a angústia inerente ao pequeno eu. E a mais completa felicidade consiste em estar conscientemente ligado a ti; aí se encontra a felicidade que nasce do Amor realizado.

Como pôr fim à dor do eu que não se sente unido a ti? Para chegar a isso, o Buda se entregou a terríveis austeridades, e, para revelar a todos como se pode dissipar o mal da separação, Cristo deu sua vida.

Ó tu, que, mais que qualquer filho de nossa carne, és o Amado de nossa alma, tu, inconscientemente amado nas zonas invioladas de nossa personalidade terrestre, ó tu, que és a essência de todo ser e de toda coisa, é em tua Presença, na morada de nossa individualidade sem igual, que o Jogo de Ti contigo mesmo encontre sua plena realização. Contudo, enquanto não se realizar a união entre ti e nós, reinará cá embaixo um inevitável sofrimento, que parecerá se extinguir apenas para imediatamente renascer. E a morte não poupa nada nem ninguém, embora as Forças da imortalidade tentem, sem cessar, penetrar em suas camadas obscuras, a fim de iluminá-las para sempre. Senhor, por todo o tempo em que subsistir essa cisão entre ti e a consciência humana, tua Manifestação cá embaixo assumirá inevitavelmente um caráter dualista: o da dor e o da alegria, da separação e da união, da morte e da imortalidade. Contudo, todo aquele que te reconhece e te aceita, sem reservas, sob tua dupla face, chega a se tornar um contigo e pode, finalmente, exclamar: “Tudo se realizou! Nada mais tenho a desejar”.

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[1] Poeta, filósofo, músico, pintor, escritor, e um dos grandes mestres espirituais da Índia dos séculos passado e retrasado, Tagore foi o primeiro ganhador não europeu do prêmio Nobel de literatura (em 1913, por Gitanjali). Também foi quem chamou a Gandhi de Mahatma (Grande Alma). O livro do qual foi retirada esta passagem é ele mesmo apenas uma pequena parte do Santiniketan, um conjunto de mensagens decorrentes das palestras matinais que Tagore proferia em sua universidade (fundada por ele próprio, ele foi também um assíduo contribuidor da educação e cultura de seu povo).
Eu geralmente trago comentários próprios para textos de outros autores, mas em alguns deles simplesmente não há o que acrescentar, e este certamente é um deles. Para quem acompanha este blog há algum tempo, perceberá que este texto resume vários conceitos que tenho desenvolvido aqui ao longo dos anos. Prestem atenção, particularmente, aos trechos que marquei em itálico... Tagore não traz nada de novo, apenas um entendiemento mais aprofundado daquilo que já era conhecido por qualquer espiritualista, porisso mesmo este é o tipo de texto que vale a pena ser relido na medida em que vamos adentrando mais e mais no Caminho.

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Crédito da foto: Wikipedia (Tagore recebe Gandhi e sua esposa em sua universidade. Foto tirada em 1940)

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28.5.08

Céu de Liberdade

Onde a mente encontra-se sem medo e a cabeça é mantida erguida
Onde o conhecimento é livre
Onde o mundo não foi quebrado em fragmentos
Por estreitos muros domésticos
Onde as palavras vêm da verdade profunda
Onde laboriosas lutas esticam seus braços em direção à perfeição
Onde o riacho límpido da razão não perdeu o seu rumo
Afluindo ao triste deserto dos hábitos moribundos
Onde a mente é direcionada adiante por você
A pensamentos e ações sempre em constante afloramento
Nesse céu de liberdade, Pai, deixe meu país acordar

Rabindranath Tagore (tradução de Rafael Arrais)

*

Heaven of Freedom

Where the mind is without fear and the head is held high
Where knowledge is free
Where the world has not been broken up into fragments
By narrow domestic walls
Where words come out from the depth of truth
Where tireless striving stretches its arms towards perfection
Where the clear stream of reason has not lost its way
Into the dreary desert sand of dead habit
Where the mind is led forward by thee
Into ever-widening thought and action
Into that heaven of freedom, my Father, let my country awake

Rabindranath Tagore

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28.1.08

3 Poemas

Amor sem Fim

Eu pareço ter amado você em inúmeras formas, inúmeras vezes,
Em vida após vida, idade após idade, sempre.
Meu coração enfeitiçado fez e refez o colar de canções
Que você aceita como presente, usa à volta do pescoço em suas muitas formas
Em vida após vida, idade após idade, sempre.

Quando eu escuto crônicas antigas de amor, é sofrimento amadurecido,
É o conto ancestral de se estar junto ou separado,
Assim que eu encaro mais e mais fundo o passado, no final você emerge
Envolto na luz de uma estrela-cadente cortando a escuridão do tempo:
Você se torna uma imagem do que é lembrado para sempre.

Eu e você temos flutuado aqui no córrego que flui da fonte
No coração do tempo do amor de um pelo outro.
Nós temos brincado ao lado de milhões de amantes, partilhado a mesma
Doce timidez do encontro, as mesmas dolorosas lágrimas de despedida -
Amor antigo, mas em formas que se renovam e renovam, sempre.

Hoje ele está guardado à seus pés, ele achou o seu fim em você,
O amor de todos os dias dos homens, tanto passados quanto eternos:
Alegria universal, tristeza universal, vida universal,
As memórias de todos os amores mesclando-se com esse nosso amor único -
E as canções de cada poeta, tanto passados quanto eternos.

-- Rabindranath Tagore (traduzido do inglês por Rafael Arrais)

A Oração ao Deus Desconhecido

Antes de prosseguir em meu caminho
e lançar o meu olhar para frente uma vez mais,
elevo, só, minhas mãos a Ti na direção de quem eu fujo.
A Ti, das profundezas de meu coração,
tenho dedicado altares festivos para que, em
Cada momento, Tua voz me pudesse chamar.
Sobre esses altares estão gravadas em fogo estas palavras:
“Ao Deus desconhecido”.
Seu, sou eu, embora até o presente tenha me associado aos sacrílegos.
Seu, sou eu, não obstante os laços que me puxam para o abismo.
Mesmo querendo fugir, sinto-me forçado a servi-lo.
Eu quero Te conhecer, desconhecido.
Tu, que me penetras a alma e, qual turbilhão, invades a minha vida.
Tu, o incompreensível, mas meu semelhante,
quero Te conhecer, quero servir só a Ti.

-- Friedrich Nietzche (traduzido do alemão por Leonardo Boff, no livro Tempo de Transcendência)

O pequeno rochedo

O que Deus faz? O que fazia?
Há quem acredite que Ele intercede em cada dia
Realizando milagres ou punindo pecadores...
Há quem diga que Ele não existe
Pois nunca O viram, nunca O sentiram...

Ora, talvez Deus tenha estado todo esse tempo
Sentado no mesmo pequeno rochedo
Do qual criou todos os universos
E todos os mundos

Talvez, tenha ficado de tal maneira extasiado
Com a beleza de Sua própria criação
Que até hoje Nos observa na mesma posição
Sentado no mesmo pequeno rochedo
Onde fica a eternidade

Ali, onde o tempo não é indefinido
Mas antes, onde o tempo simplesmente não existe,
Ele nos ama...
Com o mesmo amor que criou o tudo...

E quem sente esse amor, acha que Ele intercede
E quem não sente, acha que Ele não existe
E finalmente, quem procura viver nesse amor
Sabe que mesmo não intercedendo, Ele se movimenta
E, mesmo não existindo dentro do tempo,
Ele existe na eternidade

-- Rafael Arrais (2008)

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