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2.12.13

O último suspiro

Se há uma lenda que me incomoda é a lenda da luta eterna entre a fé e a razão, a ciência e a espiritualidade. Não acho que seja assim, não creio em tal lenda, acho que foi inventada e têm sido constantemente anunciada exatamente por aqueles que beberam somente das águas paradas no charco em torno do córrego do Cosmos. Era preciso encharcar as galochas, era preciso avançar sobre o matagal, era preciso ter a água até a cintura e, só então, ter coragem para mergulhar.

Mas não mergulharam, e acharam que a ciência era somente uma descrição mecanicista da natureza, um mero conjunto de equações; E acharam, isto também, que a espiritualidade era somente o que este ou aquele deus dizia que fosse, um mísero conjunto de orações para se decorar, e anedotas para se contar na mesa de jantar pouco antes da ceia de Natal.

Ah, os eclesiásticos, eles querem nos convencer de que há algum Deus que pode ser enclausurado nas paredes de seus templos, e ser obrigado a escutar, agachado e sem poder dançar, a toda a sua lenga lenga escrita em tomos de capas douradas e encenada com mantos de pura seda. Mas foi exatamente um de seus filhos que orou nos desertos, e que nos falou que ele estava espalhado por tudo o que há, e que os ventos traziam seu perfume.

E os acadêmicos? Eles querem passar em seus vestibulares e publicar suas pesquisas minuciosas nas revistas mais badaladas. Eles querem provar suas teorias do tudo, e as esfregar na cara de todos aqueles que ainda ousam acender uma vela para um santo ou orixá. O que ganham com isso? Melhor seria se eles mesmos acendessem suas velas para os deuses – o deus da Gravidade, o deus da Eletricidade, o deus da Energia Escura. Há muitos e muitos deuses pelo Infinito!

Mas quem, como Feynman, apenas se deleita em conhecer um pouco mais acerca da inefável natureza da Natureza? Quem, como Feynman, já compreendeu que, ao final da vida, não haverá nenhum Professor para lhes fazer um questionário final, nenhuma média que precise ser alcançada e nenhuma teoria que precise ser comprovada. E, da mesma forma, tampouco haverá algum Juiz para lhes decretar o caminho do Céu ou do Inferno.

O Inferno já existe na mente daqueles que o temem, ou que já desistiram deste mundo. No Céu, afinal, entraremos todos de mãos dadas. E, de fato, já estamos caminhando de mãos dadas. Só que, quando os da frente tropeçam, nem sempre os que lhes davam a mão se mantém firmes e o seguram onde estava. É por isso que todos tropeçam nas mesmas pedras e vagueiam em zigue-zague pela existência, cada qual procurando ser o Super-homem capaz de vencer todos os erros do ser humano.

Ah Nietzsche! Quão pouco faltou para compreender... O Super-homem não era um homem só acima dos demais, mas uma comunidade que se torna maior por pensar na mesma vibração e amar o mesmo horizonte. Esqueçamos também o que disseram o primeiro e o segundo zaratustras, eles também ficaram velhos, e o rio que corre hoje não é mais o mesmo que correu há mais de um século.

E se Deus está morto, que o façamos ressuscitar, ou reencarnar nalgum outro deus – contanto que tenha espaço para dançar, pois nisso o bigodudo estava certo!

Deus e Natureza, afinal, são apenas palavras, e as palavras deveriam servir para o entendimento dos homens e mulheres, jamais para o seu afastamento. Se os cientistas observam as estrelas mais distantes em seus aglomerados galácticos, se valendo de suas lunetas tão modernas, também os espiritualistas observam a fundo, e cada vez mais fundo, o abismo de suas próprias almas.

E o que falta, senão mergulharem? Senão construírem naves espaciais e barcos mitológicos para navegarem para dentro e para fora de si mesmos? “Deus ao mar o abismo e o perigo deu, mas nele é que espelhou o Céu”, disse o poeta que também foi navegante...

Os tempos já são chegados e a Natureza já dá os seus sinais. Extraímos metade do petróleo existente na Terra, e em poucas gerações iremos nos digladiar por água doce. Não há mais tanto tempo assim. Não é que o mundo esteja ameaçado, somos apenas nós, os seres humanos, que temos cada vez menos tempo para ajustar as coisas.

E, se não vamos mais ao Coliseu ver feras devorando escravos, disso não podemos nos abster de comemorar... Mas, como sabemos, ainda é cedo para que tenhamos a batalha por ganha. O animal ainda se esgueira pelos charcos da alma humana, e sem o fogo, sem a morte e o renascimento, estaremos fadados a continuar repetindo os caminhos em círculo de nossos ancestrais.

Se existe Deus ou o neutrino, quem vai saber? O desconhecido inexistente é idêntico ao existente. Quem já deu alguns passos neste Caminho, no entanto, sabe. Como Agostinho sabia: “Amanhã, amanhã? E porque não hoje?”.

Demoramos tantas eras, tantas gerações e vidas, para chegar até aqui. E quanto mais sabemos, mas há por saber. Mas sabemos! Sabemos que o Infinito fica ali, logo adiante, logo após o horizonte.

Até quando ficaremos separados, nos digladiando em nossas caixas de areia, enquanto há tantos bosques, prados e montanhas tão maiores? Muito maiores...

E quem já deu alguns passos neste Caminho, quem já subiu na beirada do monte, quem já viu de relance o serpentear do córrego do Ser pelas escarpas longínquas do verdadeiro Paraíso sabe.

E dá um último suspiro, e este suspiro é tudo o que os demais precisam experimentar.

Para viver na imensidão, é preciso antes morrer em si e para si.

***

Crédito da foto: Oleg Oprisco

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6.1.13

Não há prova final

Já trouxemos aqui no blog a primeira das lendárias entrevistas de Richard Feynman para a BBC, em 1981. Pois bem, dois anos depois ele deu uma nova entrevista, onde demonstra como um cientista que se diverte com a natureza, e é capaz de imaginar "como as coisas realmente são" para onde quer que olhe, pode ser, quem sabe, algo mais que um cientista. Alguns diriam "gênio", outros "artista", mas eu não consigo ver nele nada mais (nem menos) do que um genuíno amante da natureza. Nesta primeira (de 12*) partes legendadas da entrevista, Feynman nos introduz ao mundo imaginário dos átomos, onde tudo ocorre devido ao movimento e o repouso. Apreciem com imaginação, e não se preocupem com a prova final, pois que não haverá uma prova final:

O vídeo abrirá diretamente no site do YouTube.


(*) Na realidade ainda estão no processo de publicação da entrevista completa e legendada no YouTube, de modo que por enquanto só temos as partes 1-5 e a 7. Mas, para quem consegue compreender o inglês falado, podem ver a entrevista completa aqui (sem legendas): Richard Feynman: Fun to Imagine


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12.9.12

O homem que brincava com a Natureza

Esta é a história de um físico lendário, ensinado por seu pai desde muito cedo a perceber o que as coisas realmente são, e não somente "o nome delas". Mas um filho que, não obstante, após muitos anos de intenso estudo científico numa das melhores universidades americanas, não conseguiu explicar ao pai alguns dos mistérios da inconcebível natureza da Natureza.

Este mesmo cientista, com sua enorme facilidade para desvelar segredos atômicos, foi um dos colaboradores da concepção da arma mais letal da humanidade. Sua diferença para tantos outros, entretanto, é que ele conhecia o suficiente de arte, de poesia, de "humanas", para não ignorar os dilemas morais envolvidos. Por certo momento da vida, em sua depressão profunda, pensou "que era inútil construir uma ponte, ou um edifício, ou qualquer coisa, pois tudo seria destruído muito em breve numa guerra atômica"...

Então, algum tempo depois, a criança voltou a "brincar de física", e desistiu de realizar "coisas importantes". Em sua brincadeira, livrou-se daquela tristeza nuclear, e se tornou uma lenda... Um átomo não têm "um saco de fótons", mas a mente de Richard Feynman deveria ter alguma luz especial, guardada entre sua grande racionalidade, e sua tenativa genuína de se encaminhar para a arte – a arte de conhecer o mundo:

BBC Horizon com Richard Feynman (1981), parte 1 de 4

Ver parte 2 de 4 | Ver parte 3 de 4 | Ver parte 4 de 4

***

Crédito da foto: Divulgação (Google Image Search)

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9.5.12

As lições da ciência

Quando eu debatia em comunidades online onde haviam embates homéricos entre céticos e espiritualistas, acabava por confundir a ambos quando tocava em assuntos científicos. Para os últimos, a ciência geralmente não despertava muito interesse, pois raramente a analisavam sob o ponto de vista espiritual; Para os primeiros, era tão estranho que um espiritualista estivesse citando Carl Sagan e Richard Feynman, que alguns pensavam se tratar de um cientista “brincando” de ser espiritualista – um “místico fake”. Obviamente, eles estavam mesmo confusos...

Podem nunca haver lhe contado na escola, mas nem sempre a espiritualidade esteve dissociada da ciência. Porém, nesta ciência de hoje, interpretada apenas como um conhecimento estritamente objetivo da realidade detectável, apenas um método sem nenhuma relação com qualquer espécie de ideologia ou filosofia, restou muito pouco da ciência antiga, a filosofia da Natureza, o conhecimento da physis.

Os sábios antigos chamavam Natureza à realidade primeira e fundamental de todas as coisas, a essência em torno da qual gira tudo o que é transitório: “A noite segue o dia. As estações do ano sucedem-se uma à outra. As plantas e os animais nascem, crescem e morrem. Diante desse espetáculo cotidiano da natureza, o homem manifesta sentimentos variados – medo, resignação, incompreensão, admiração e perplexidade. E são precisamente esses sentimentos que acabam por levá-lo à filosofia. O espanto inicial traduz-se em perguntas intrigantes: O que é essa physis, que apresenta tantas variações? Ela possui uma ordem ou é um caos sem nexo?”.

Eis que os cientistas nem sempre foram chamados de doutores. Também já atenderam por naturalistas, filósofos, sábios, alquimistas, astrólogos, druidas, ocultistas, etc. Portanto, imaginar que a vivência da ciência moderna deveria estar totalmente desconexa da espiritualidade é, antes de tudo, uma ignorância da história do pensamento humano. Uma ignorância de tantos e tantos que vieram antes de nós, e fizeram as mesmas perguntas ao céu noturno salpicado de estrelas. E, como o Cosmos não respondeu de volta tal qual um deus lendário, foram obrigados a arregaçar suas mangas e buscar pelas respostas eles mesmos. É precisamente da atitude desses cientistas – os de outrora e os de hoje – que podemos tirar preciosas lições:

A Natureza fala por si
Talvez a qualidade mais notável de todo verdadeiro cientista seja esse tal contentamento, esta real aceitação, este estoicismo perante o que a physis realmente é, e não o que gostaríamos que fosse. Feynman dizia que a imaginação da Natureza é muito, muito maior do que a nossa: ela jamais nos deixará relaxar. Sempre haverá, para o real buscador, mais uma galáxia oculta atrás de um grande conglomerado, mais uma partícula oculta nalgum nível de energia ainda indetectável pelo nosso mais avançado instrumento, mais uma lei natural oculta de nossa mais simples e elegante equação, mais um tanto do Cosmos que jamais alcançamos com nossa luz: não fomos capazes de ver sua escuridão antes que a luz fosse acesa.

Nós podemos estar errados
Outra lição é esta, tão simples, e tão essencial: podemos, sim, estar errados, e geralmente estamos. Os atomistas acreditavam que a matéria era feita de pequenas partes dos elementos que sustentavam todo o Cosmos – Hoje sabemos que átomos e quarks não são formados pelo fogo, ou a água, ou a terra, ou o ar [1]... Mas foram dos erros passados que vieram novos acertos; acertos esses que podem também se comprovar como erros no futuro. O que importa, portanto, é que hoje conhecemos um pouco mais da physis do que ontem, e amanhã conheceremos ainda um pouco mais do que hoje. Mas, decerto não existe um conhecimento infalível, uma verdade derradeira, ou pelo menos ainda estamos num nível de consciência muito distante dela. Admitir que podemos estar errados é o melhor caminho para que prossigamos adiante no fluxo deste rio sagrado, sem jamais ficarmos uma vez mais aprisionados, represados pelo dogma.

O conhecimento é uma conquista
Ainda que a Verdade pudesse realmente nos ser revelada em antigos livros escritos sob inspiração divina, não significa que tivemos a capacidade de interpretá-la. Ainda que a inspiração tenha sido uma ponte direta para os segredos mais ocultos do Cosmos, e ainda que a informação escrita tenha passada ilesa por séculos de guerras de interesses e traduções de cada época, ainda assim tudo o que temos são palavras, linguagem, símbolos de gramática que já provaram serem incapazes de traduzir tudo o que é sentido e experimentado em uma verdadeira experiência mística – por isso muitos grandes sábios jamais escreveram coisa alguma, pois eles sabiam que cascas de sentimento não fariam jus à sacralidade da experiência.
O conhecimento, portanto, é e sempre foi uma conquista. E muitos cientistas têm nos auxiliado em conhecer a physis de fora, mas nenhum, absolutamente nenhum deles, poderá realizar por nós uma conquista que foi profetizada e ofertada pelo próprio Deus: mergulhar em si mesma, isto apenas a própria alma poderá realizar.

De pé sobre o ombro de gigantes
Foi o próprio Isaac Newton quem confessou que se havia visto mais longe do que os demais, foi por ter estado em pé sobre o ombro dos gigantes de outrora. A beleza da ciência é que, desde que não tenha sido queimado por bárbaros ou eclesiásticos coléricos, seu conhecimento armazenado, em livros e outros artefatos, por toda a história da humanidade, está ainda situado nos alicerces da torre pela qual podemos observar o Cosmos cada vez mais de perto... Ao contrário do que disseram os supersticiosos, nenhum deus raivoso desceu dos céus para nos punir por nossa ousadia: continuaremos a construir torres de Babel e abrir tantas quantas foram às caixas de Pandora encontradas. Foi graças a Prometeu, que roubou o fogo dos deuses, que chegamos onde chegamos: ele foi apenas o primeiro gigante, o primeiro titã.
Mas, ao contrário do que o mito possa te levar a pensar, os deuses não se chatearam conosco – aquilo foi pura encenação. Puro teatro, para que pudéssemos assim, uns auxiliando aos outros, numa colaboração digna dos maiores exércitos do Céu, marchar para cada vez mais perto da montanha sagrada... E, quando lá chegarmos, quem sabe não possamos acender a pira do salão de Zeus, e realizarmos por lá uma grande festa – na qual mesmo os gigantes estarão convidados.

Não há elite
Na ciência genuína, todos tem a oportunidade de colaborar: não importa onde nasceram, sua cor de pele, seu sexo – desde que possam pensar, podem auxiliar nossa ciência.
Apesar de ainda haverem os “donos da verdade”, aqueles ignorantes que pensam poder determinar quem pode ou não pode falar em nome da ciência, a verdade é que não há elite na physis: assim como somente os peixes podem nos falar do mar profundo, somente os pássaros podem nos falar do céu, e os morcegos da escuridão das cavernas. Apenas assim, juntos, podemos ter alguma esperança de conhecer a Natureza sob todos os pontos de vista.

Até onde a luz pode chegar
Muitas das ideias mais místicas que fomos capazes de um dia conceber hoje estão sendo melhor desenvolvidas, e comprovadas, na cosmologia, e não mais na religião. Sabemos hoje que tudo o que há neste universo surgiu de uma singularidade, um ponto, um grão de milho que, nos primeiros momentos, englobava todo o espaço-tempo – e não havia nada “do lado de fora”, pois o tecido do espaço-tempo é tudo o que há. Sabemos também que a velocidade da luz tem um limite, e que provavelmente nada no universo o possa ultrapassar... A não ser o próprio tecido espaço-temporal, em seu berço de crescimento inflacionário, quando venceu a própria luz. Eis que, dessa forma, existem espaços deste universo que jamais poderão ser conhecidos, espaços onde nenhuma luz poderá um dia sair, ou chegar. Essa ideia de Infinito é suficientemente mística para você?

Poeira de estrelas
Ao observar o pequenino e pálido ponto azul, flutuando numa nuvem de gás sideral, parte de uma das fotos da sonda espacial Voyager I, Carl Sagan prontamente identificou: aquele ponto era a Terra, toda a Terra! Mas, a despeito da beleza de suas reflexões acerca desta imagem, há ainda algo mais belo e profundo sobre o que pensar: não apenas nosso planeta é apenas um grão de poeira na Via Láctea, nós mesmos somos formados por elementos pesados que só podem ser gerados nas fornalhas estelares. Nós somos, realmente, não somente os filhos das estrelas – nós somos formados por partes delas.
Atomicamente, somos formados pela mesma divina poeira que forma todas as outras substâncias cósmicas. Mergulhada no oceano, toda poeira é também uma parte do mar...

Conhecer a si mesmo
E foi exatamente aqui, este pequeno ponto azul em meio a escuridão infindável do oceano da noite, que despertamos pela primeira vez e dissemos: “nós aqui também existimos, também somos da raça dos deuses!”.
Não se sabe se existem outros como nós, mas provavelmente existem, e aos montes... Seja neste pequeno planeta, ou na infinidade de moradas da casa cósmica, nós parecemos ser um espécie de imagem espelhada, de semelhança, uma forma do Cosmos conhecer a si mesmo.
E, nesta tal aventura do conhecimento, nesta tal jornada para sondarmos a inconcebível natureza da Natureza, podemos navegar tanto acima quanto abaixo – tanto faz, uma parte é apenas o espelho da outra.


raph’12

***

[1] Pelo menos não da forma literal como tais elementos são compreendidos. Como símbolos, no entanto, foram, e ainda são, poderosos aliados para nossa compreensão da physis.

Crédito das imagens: [topo] APOD (telescópios em Atacama/Chile); [ao longo] APOD (lua cheia em Paris/França)

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6.1.12

Um átomo no universo

Eras sobre eras
antes que quaisquer olhos pudessem ver
ano após ano
trovejosamente batendo na praia como agora.
Para quem? Para que?

Num planeta morto
sem vida alguma para entreter.
Nunca a descansar
torturado pela energia
desgastado prodigiosamente pelo sol
derramado pelo espaço.
Um ácaro faz o mar bramir.

Fundo no oceano
todas as moléculas repetem
os padrões de uma outra
até que novas e complexas são formadas.
Elas fazem outras como elas
e uma nova dança se inicia.

Crescendo em tamanho e complexidade
coisas vivas
massas de átomos
DNA, proteína...
Dançando num padrão ainda mais intrincado.

Saindo do berço
para terra seca
aqui estão
de pé:
átomos com consciência;
matéria com curiosidade.

De pé a encarar o mar, refletindo:
Eu, um universo de átomos...
Um átomo no universo.

Poema sem título por Richard Feynman, prêmio Nobel de física de 1965 (traduzido do inglês por Rafael Arrais); Retirado de The Value of Science - an address to the National Academy of Sciences (1955).

» Veja também um vídeo deste poema (em inglês)

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Crédito da foto: Shelley Gazin/Corbis (Feynman)

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3.11.11

Feynman e a beleza

Richard Feynman (Nobel de física de 1965 e grande divulgador de ciência) fala sobre como um cientista pode ver tanta beleza em uma flor quanto um artista, ou até mais... Sobre como a ciência nos auxilia a desvelar a beleza da natureza, e sobre como ele aprendeu a viver com dúvidas, e não certezas absolutas:

***

» Veja novos episódios da série sobre Feynman, que faz parte do projeto "Sagan Series" no Facebook

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6.12.10

Reflexões sobre o materialismo, parte 3

Continuando da parte 2

A subjetividade é o mundo interno de todo e qualquer ser humano. Este mundo interno é composto por emoções, sentimentos e pensamentos. Através da nossa subjetividade construímos um espaço relacional, ou seja, nos relacionamos com o "outro".

O limite do subjetivo

Há uma outra espécie de materialismo, definida por alguns como materialismo científico ou eliminativo, mas que eu opto por definir aqui como materialismo anti-subjetivo [1] – pois se trata de uma teoria que afirma que somente a matéria já conhecida explica o funcionamento da consciência humana. Trata-se de uma aposta e de um enorme paradoxo:

A aposta
Hoje se sabe que a consciência se parece mais com um processo que coordena decisões de acordo com o fluxo de informação sensorial recebido, ela é como o regente de uma “orquestra mental”. Porém, a análise qualitativa dos fenômenos conscientes complexos, como o amor e as decisões morais, ainda passam ao largo da explicação científica. Este é o famoso “problema difícil”: identificar o que exatamente interpreta informações e elabora respostas morais, em oposto a mera computação das informações.

Richard Feynman gostava de comparar a forma como os físicos modernos trabalham com a detecção das ondas de uma piscina: acaso não fosse possível ver quem mergulhou na piscina há pouco tempo, podemos ter uma boa noção de onde e quando ocorreu o mergulho, assim como o peso de quem mergulhou, apenas analisando a frequência e a amplitude das ondas na superfície da água. A ciência lida somente com o que pode detectar – se ela não detecta o amor ou a moral, ao menos pode detectar o efeito elétrico no cérebro que ocasiona as demonstrações de sentimentos complexos. O que a ciência não pode pretender, entretanto, é que tais sentimentos se resumam ao efeito, ignorando a causa... Ou postulando que a causa está além de nosso controle, que é fruto do mero agitar químico do cérebro, o que em todo caso é basicamente o mesmo que ignorar a causa.

Bahram Elahi, especialista em cirurgia e anatomia, dizia que embora a mente e o cérebro sejam separados, a mente (ou consciência) não é algo imaterial. Ao contrário, é composta de um tipo de matéria muito sutil que, embora ainda não-descoberta, é conceituamente semelhante às ondas eletromagnéticas, que são capazes de carregar sons e figuras (e mesmo videos - figuras em movimento), e são governadas por leis, axiomas e teoremas precisos. Ele teoriza que tudo relacionado a esta "entidade" deve ser considerado como uma disciplina científica não-descoberta, e estudada da mesma maneira objetiva que outras disciplinas (como química ou biologia, por exemplo). A consciência pode, portanto, ser formada por algum tipo de substância material sutil demais para ser medida ou detectada utilizando as ferramentas científicas disponíveis hoje.

Eis a aposta dos materialistas anti-subjetivos: a de que a consciência e seus fenômenos complexos, que exigem não apenas a computação de informações, mas, sobretudo, a interpretação das mesmas, pode ser compreendida apenas levando-se em consideração a matéria já detectada pela ciência.

O paradoxo
Primeiro a ciência moderna, através da neurologia, foi obrigada a aceitar o conceito e a existência da mente subjetiva, para só então tentar reduzi-la a atividades elétricas, efeitos bioquímicos, um mero agitar de partículas no cérebro... Em suma, tentar negar a existência dos qualia.

Qualia são tratados na Filosofia da Mente como sinônimos de subjetividade. Eles significam uma barreira intransponível entre objetivo e subjetivo, entre vivo e não vivo, entre humanos e máquinas. Não sabemos como o cérebro gera a subjetividade, nem se ela pode ser replicada artificialmente. Tentamos padronizar as sensações usando a linguagem, mas as características subjetivas, únicas, de cada sensação, parecem sempre escapar. Quando falamos de algo “amarelo”, por exemplo, não sabemos se essa cor é mais ou menos intensa para nós ou para o “outro”.

Essa inconveniência dos qualia levou filósofos como Daniel Dennet a tentarem negar sua importância ou até mesmo sua existência... Segundo Dennet, a subjetividade é uma ilusão persistente gerada por nosso cérebro, e não existem escolhas, nem morais nem imorais, apenas o resultado do fluxo de partículas no cérebro, de átomos dançando conforme alguma música aleatória definida por nosso meio-ambiente.

Eis o paradoxo: Dennet, ao contrário do que possam pensar, não é alguém que eu condene. De fato, ele é um dos poucos materialistas anti-subjetivos que realmente assumem sua posição enquanto materialistas – a grande maioria simplesmente ignora tal questão, e continuam a viver como se existisse a subjetividade, como se existissem escolhas, como se realmente fizesse algum sentido condenar criminosos ou condecorar heróis de guerra.

Até onde a luz pode chegar
Não há nada de errado com a ciência objetiva, o problema é quando cientistas creem que podem utilizar ciência para adentrar no campo da subjetividade... Da mesma forma que a psicologia não poderá provar que “esta pessoa está sentindo duas vezes mais dor do que aquela outra”, ou que “aquela pessoa ama aquela outra cinco vezes mais do que você ama seu cachorro”, dificilmente a ciência moderna terá sucesso nessa tentativa de equacionar a mente humana, e tratá-la como uma espécie de máquina que programou a si própria.

Já dissemos que toda a matéria é intangível, mas faltou dizer que ela é igualmente invisível em sua maior parte – pois tudo o que vemos com os olhos ou detectamos com instrumentos avançados são frequências de ondas eletromagnéticas, quantas de luz a refletir pelos átomos a dançar no vazio. Nós não vemos a lua, nem a árvore do outro lado da rua, nem mesmo nossas mãos ou as bactérias no microscópio, vemos apenas os quantas de luz, vindos da luz do Sol ou de alguma fonte de luz (tal qual lâmpadas ou vagalumes), a refletir os átomos que constituem as coisas vistas ou detectadas.

Mas mesmo esta matéria que reflete e interage com a luz é apenas uma ínfima minoria – cerca de 4% – de toda a matéria existente em nosso horizonte observável do Cosmos. Todo os resto – 96% – é composto por Matéria Escura e Energia Escura, e só pôde ser descoberto pelos cientistas através de seu efeito gravitacional no movimento das galáxias (assim como nas interações com a força eletrofraca, mas isso já daria outro artigo).

Aí está o limite do subjetivo, segundo os materialistas: 4% da matéria existente no pedaço do universo onde nossa observação alcança. É uma tremenda aposta esta que afirma que o problema difícil da consciência, que o próprio conceito de subjetividade, pode ser explicado e compreendido apenas com o tilintar dos átomos conhecidos. Para sermos materialistas anti-subjetivos, temos de ter muita fé no ínfimo que conseguimos desvelar objetivamente deste Cosmos infinito. Há que se reconhecer sua convicção.

Em breve, o materialismo religioso e a espiritualidade materialista...

***

[1] Por muito tempo o termo utilizado nesta série foi "materalismo subjetivo", somente meses depois da publicação inicial eu achei melhor usar o termo "materalismo anti-subjetivo" no lugar. No blog em geral, passei a usar o termo "materialismo eliminativo", não porque goste mais dele, mas porque tem sido o termo mais utilizado na linguagem comum.

Crédito da imagem: neurollero

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16.12.09

Onde estarão os memes, parte 4

Continuando da parte 3...

A natureza não nos deixará relaxar

O geneticista norte-americano Dean Hamer parece ter uma predisposição inata à polêmica. Em 1993, afirmou ter descoberto um trecho do DNA, que batizou Xq28, supostamente responsável pela homossexualidade masculina. A descoberta lançou à fama e depois ao escárnio (quando outros cientistas falharam em replicá-la, já em 1999) o campo da genética comportamental, do qual é pioneiro.

Ultimamente Hamer voltou à carga, metendo a mão numa área literalmente sagrada. Em seu livro "O Gene de Deus" (Ed. Mercuryo), Hamer tenta sustentar que a crença em um criador também é geneticamente determinada. Antecipando as críticas, Hamer disse logo que não se trata de "o" gene, mas de "um gene entre vários". E, ah, não é exatamente Deus, mas uma predisposição à crença, que ele chama de "espiritualidade". Em todo caso, segundo ele, “O Gene de Deus” é um título que vende muito mais...

O tal gene, isolado por Hamer e sua equipe no Instituto Nacional do Câncer, nos EUA, é identificado pela sigla vmat2. Ele estaria envolvido no transporte de uma classe de mensageiros químicos do cérebro conhecidos como monoaminas, do qual o mais famoso é a serotonina, a molécula do bem-estar. Algumas drogas como o ecstasy e o prozac também influenciam o humor alterando os níveis de serotonina no sistema nervoso. Será que a fé se resume a isso?

É precisamente esse tipo de tratamento ultra-superficial do assunto que permitiu que a ciência moderna chegasse a uma visão mecanicista do homem, e do funcionamento da mente. Mas nosso atual estudo se resume a questão da possibilidade de que características psicológicas e comportamentais possam ser passadas de geração a geração, e evoluir de forma darwinista, precisamente como os genes. Portanto, se gente como Dean Hamer tivesse comprovado que algum gene, seja ele qual for, pode ser o responsável pela transmissão desse tipo de característica – no caso, a homossexualidade ou a espiritualidade – teríamos uma grande comprovação de que os genes, afinal, não transmitem apenas características físicas adiante, e que os memes nada mais seriam do que características ocultas dos genes, sendo passadas adiante pela reprodução humana.

Esse dia, porém, ainda não chegou; E, pelo que temos visto dos “grandes estudos” de gente como Hamer, a tendência é que nunca chegue: os genes, como qualquer geneticista aprendeu na faculdade, transmitem mesmo apenas características físicas. Caberá aos memes, ou a outras teorias, solucionar o problema da transmissão de características não-físicas pelas gerações humanas.

O psiquiatra suíço Carl G. Jung desenvolveu o conceito de inconsciente coletivo – uma parte da mente, compartilhada por todos, como produto da ancestralidade. Para ele, esse inconsciente inclui os arquétipos (conceitos universais inatos), como mãe, Deus, herói, etc., detectáveis na forma de mitos, símbolos e instinto. Presume-se que ele via o inconsciente coletivo como um tipo de memória popular, corporificado na estrutura do cérebro. Ora, que o cérebro de um recém-nascido obtenha registros em seu hipocampo, trazendo memórias armazenadas por seus ancestrais, nem seria um grande problema científico, contanto que fossem detectadas as partículas responsáveis por tal transmissão. Nesse caso, a grande diferença da teoria de Jung para a teoria de Dawkins é que o inconsciente coletivo pode mesmo abrigar memórias e costumes de toda a espécie, e não apenas dos memes que foram passados adiante na reprodução.

E temos aí uma enorme quantidade de informação “mitológica” a “flutuar pelo ar” e influenciar diretamente os costumes e a cultura dos seres humanos. Continua inexplicado, continua oculto, continua profundamente místico – exatamente como os memes.

Nesse ponto o bom observador deve ter percebido o grande dilema: por um lado, cientistas, psicólogos e antropólogos têm percebido e reconhecido que, sem dúvida, certas características não-físicas são transmitidas adiante ao longo da evolução humana; por outro lado, as únicas unidades materiais detectadas, os genes, não explicam o mecanismo de tal processo. Portanto, qual a grande diferença entre os que acreditam em memes e no inconsciente coletivo, e os reencarnacionistas e espiritualistas em geral?

Muitos dos que se dizem “materialistas” imaginam que a máxima da teoria do materialismo – “tudo o que existe é matéria” – coloca esta maneira de ver o mundo automaticamente acima das demais, que crêem no “imaterial”. Mal sabem que existem muitos espiritualistas que crêem piamente que “tudo o que existe é matéria”, da mesma forma que os materialistas. A única diferença é que certos espiritualistas crêem que os 96% de matéria não detectada no universo (porque não interage com a luz, segundo a teoria da Matéria Escura) podem explicar muito do que é desconhecido do materialismo, que por seu lado, crê piamente que o mecanismo de tudo o que existe, incluindo a mente humana, já pode ser compreendido apenas analisando-se os 4% da matéria já detectada.

A grande diferença entre esse tipo de espiritualista (alguns diriam, moderno) e o materialista, é que o último já se dá por satisfeito com o que já foi detectado pela ciência, enquanto o primeiro dedica a vida a desvendar os segredos da matéria fluida, não-detectada. É nesse sentido que se diz que a consciência, ou o que quer que forme seu processo, pode perfeitamente sobreviver após o fim da vida corpórea, assim como decerto já vivia anteriormente ao nascimento – dessa forma se explicariam fenômenos como experiências de quase morte, crianças que se lembram de “vidas passadas”, e outros ramos mais próximos da parapsicologia do que da auto-proclamada “ciência oficial”.

Obviamente que o fato de tais teorias espiritualistas virem sempre envoltas em questões teológicas e, segundo muitos céticos, “pseudo-científicas”, afasta muitos cientistas de seu estudo, temerosos com a possibilidade de serem conhecidos como “cientistas espiritualistas” – algo que a comunidade científica aparentemente condena, apesar de ficar por vezes igualmente aparente que muitos deles ignoram completamente o que exatamente significa ser um espiritualista.

Porém, como já foi dito por mim em outros artigos, a natureza nunca se comportou da maneira que “achávamos que iria se comportar”. Segundo Richard Feynman, “a imaginação da natureza é muito maior que a do homem, ela nunca nos deixará relaxar”. É provável que tanto os adeptos da memética quanto os reencarnacionistas vejam o mundo através de uma lente ainda desfocada, talvez o futuro da ciência e do espiritualismo ainda nos esconda mecanismos naturais tão belos e extravagantes, tão simples e transcendentes, que nossa imaginação não seja capaz de vislumbrá-los, e nossa racionalidade não seja capaz de compreendê-los.

Que as lentes se interponham. Que venha o futuro!

***

Crédito da foto: [topo] Divulgação (Richard Feynman), [ao longo] Hikabu (arquétipos)

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10.11.09

Estamos todos conectados

Video de autoria de John Boswell, uma tocante homenagem musical ao Cosmo e a cientistas como Carl Sagan, Richard Feynman e outros...

Trecho:
Verdade, sou somente uma partícula
Comparado à uma estrela, o planeta é somente outra partícula
Pensar em tudo isto
Pensar no vasto vazio do espaço
Existem bilhões e bilhões de estrelas
Bilhões e bilhões de partículas
(...)
A beleza de um ser vivo não são os átomos que o formam
Mas a maneira que estes atómos se agrupam
O Cosmo está dentro de nós
Somos feitos de pó estelar
Somos uma maneira do Cosmo se conhecer

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