Deus e os astrônomos
Texto de Fred Heeren em "Mostre-me Deus" (editora Clio) com citações de Robert Jastrow e outros cientistas. Tradução de Soraya Bausells. As notas ao final são minhas.
Os cientistas honestos em relação à questão de onde a matéria e a energia se originaram admitem duas coisas: primeiro, que o problema é impossível de ser solucionado por meio da ciência [1]; segundo, que essa situação é extremamente frustrante para o cientista.
O astrônomo respeitado internacionalmente (e agnóstico declarado) Robert Jastrow admite que os cientistas foram “traumatizados” por terem se empenhado em solucionar um problema que deve permanecer para sempre além deles [2]. Em seu livro God and the Astronomers, Jastrow diz: “O desenvolvimento é inesperado porque a ciência vem tendo um sucesso extraordinário na investigação da cadeia de causa e efeito no tempo retroativo.
A situação viola uma “fé religiosa” profundamente arraigada nos cientistas na própria ciência, a crença de que a ciência deveria finalmente ser capaz de descobrir as forças e leis para explicar tudo [3]. Afinal de contas, Carl Sagan nos diz que a ciência é “aplicável a todas as coisas. Com essa ferramenta nós vencemos o impossível”. Mas Jastrow escreve:
“Considere a grandiosidade do problema. A ciência provou que o universo surgiu de uma explosão em determinado momento. Pergunta-se: Que causa produziu este efeito? Quem ou o que colocou a matéria e a energia dentro do universo?... E a ciência não pode responder essas perguntas, porque, de acordo com os astrônomos, em seus primeiros momentos de existência, o universo foi comprimido a um grau extraordinário e consumido pelo calor de um fogo além da imaginação humana [4].”
Jastrow diz que o universo começou “sob circunstâncias que parecem tornar impossível – não apenas agora, mas sempre – descobrir que força ou forças trouxeram o universo à existência naquele momento.”
Antecipando tais questões sobre o incompreensível momento da criação, Isaías nos diz que ninguém pode sondar o entendimento do Criador (Isaías 40:28). Mas quem ou o que é a causa desse efeito? A Bíblia levanta a questão: não deveríamos saber a resposta desde sempre? “Ergam os olhos e olhem para as alturas. Quem criou tudo isso?... será que você não sabe? Nunca ouviu falar? O Senhor é o Deus eterno, o Criador...” (Isaías 40:26a, 28a).
Ao comparar com a suposição alternativa de que a matéria e a energia de alguma forma sempre existiram, o físico britânico Edmund Whittaker diz: “É mais simples postular a criação ex nihilo – o Divino constitui a natureza a partir do nada.”
O físico Barry Parker concorda: “Nós com certeza temos uma alternativa. Poderíamos dizer que não houve uma criação e que o universo sempre existiu. Mas isso é ainda mais difícil de se aceitar do que a Criação [5].”
Após considerar a descoberta de que nosso universo teve um começo e que a ciência é incapaz de descobrir o que houve antes dele, o astrônomo Jastrow conclui seu livro:
“Para o cientista que viveu acreditando no poder da razão, a história termina como um pesadelo. Ele escalou as montanhas da ignorância; está perto de conquistar o ponto mais alto; à medida que se esforça para alcançar a última rocha, ele é recebido por um bando de teólogos que estavam sentados lá há séculos [6].”
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[1] Por isso o agnosticismo é um caminho tão comum a maioria dos cientistas que só conseguem enxergar a realidade pelas lentes da ciência.
[2] Mas esta “angústia” é compartilhada por cientistas, filósofos e religiosos, desde que o homem foi capaz de se indagar “porque existe algo e não nada?” (essa pergunta é atribuída ao filósofo Lucrécio). Afinal: Ex nihilo nihil fit (Do nada, nada se faz).
[3] Certamente o autor usa o termo “fé religiosa” de forma sorrateira, ainda que entre parêntesis. Por mim, seria melhor usar o termo “convicção na ciência”, ou seja: a crença de que a ciência ainda tem muito a alcançar na capacidade de descrever a realidade (e decerto o tem, embora certamente será incapaz de descrever toda a realidade).
[4] Trata-se da Teoria do Big Bang, que é ainda incapaz de descrever o que ocorreu no universo antes do Tempo de Planck (um tempo muito, muito curto, após o “bang” inicial). Einstein disse certa vez, assim que se convenceu de que o universo realmente havia surgido de uma singularidade inicial: “[Quero] saber como Deus criou esse mundo. Eu não estou interessado nesse ou naquele fenômeno, no espectro desse ou daquele elemento. Eu quero conhecer Seus pensamentos, o resto são detalhes.” (citado por Nick Herbert em Quantum Reality – Beyond the New Physics, p. 177).
[5] Não necessariamente, mas mesmo que fosse, ainda assim não resolveria o problema inicial: há que existir um ser ou substância incriado(a) e eterno(a), em oposição ao nada. Este sim seria a causa primeira de tudo.
[6] Sempre digo que ciência e religião são duas lentes para se enxergar a realidade. Somente quando usadas em conjunto a realidade passa a ser percebida integramente, tanto em seu Mecanismo quanto em seu Sentido. É ignorância (ou muitas vezes puro sofismo) pretender que a realidade não tenha Sentido, e que tudo tenha surgido do nada sem nenhuma causa. Porém, também é ignorância pretender compreender a realidade sem o conhecimento detalhado de seus belos e elegantes Mecanismos. Se o cientista chegou no topo da montanha e encontrou um bando de teólogos, é porque precisará deles para seguir adiante; assim como os teólogos que lá estavam precisam dos cientistas.
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Crédito da foto: Wikipedia (nascimento de estrelas a bilhões de anos-luz da Terra)
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