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19.11.18

Nenhum mestre chama a si mesmo de mestre

Estive recentemente num encontro de espiritualistas em São Paulo, nele havia alguns mestres que subiram num palco para falar aos demais. Um deles representava a Ordem Sufi Naqshbandi no Brasil, que é parte do misticismo islâmico. Ao se dirigir a plateia, onde certamente havia mais discípulos do que mestres, ele tratou de nos trazer uma reflexão muito relevante, logo de início:

“Como pode um aprendiz falar de tesouros que ele ainda não possui?”.

Sheikh Ahmed Shakir ainda não se considera um mestre, e provavelmente tem razão. Mas, ainda que fosse um mestre, ele jamais chamaria a si mesmo de mestre. É precisamente assim que somos capazes de julgar, se é que isso é possível, quem é mestre, e quem diz ser mestre (e não é).

O atual mestre da Ordem Naqshbandi vive no Chipre, uma ilha ao sul da Turquia. Segundo Ahmed, quando um mestre sufi está prestes a morrer, ele transfere a incumbência de “mestre da ordem” para um de seus discípulos. Se isto não ocorrer, a ordem inteira se encerra, como já ocorreu com a Ordem Mevlevi, fundada por seguidores do grande poeta do séc. XIII, Jalal ud-Din Rumi, e também inventor do sama, a dança dos sufis (ou dervixes) rodopiantes. Em meados do século XX, o último mestre dos Mevlevi foi morto devido a perseguições políticas, sem transferir a incumbência a ninguém, e os seus discípulos em grande parte “migraram” para a Naqshbandi, que ainda tinha um mestre vivo. Por isso hoje a Ordem Naqshbandi é a representante do conhecimento esotérico, oculto, da dança inventada por Rumi. Os demais a praticam de forma essencialmente artística, não mais puramente espiritual.

Ahmed também nos explicou que uma linhagem de mestres tem origem num profeta. Profetas reais são raríssimos, e usualmente fundam religiões. Maomé foi o último profeta, segundo se crê no islamismo, e há uma linhagem contínua, uma “linhagem dourada”, desde Maomé até o atual mestre da Ordem Naqshbandi. Quem sabe Ahmed seja o próximo.

Mas não importa, nenhum mestre chamaria a si mesmo de mestre, ao menos não para um total desconhecido. Ainda que carregue consigo segredos imemoriais, poderes quase sobrenaturais, conhecimentos ocultíssimos, um mestre se faz mestre por reconhecer que sempre haverá muitos discípulos no Caminho, e ele mesmo talvez jamais deixe de ser um...

Se não crê em mim, basta analisar o que disse Issa, ou Jesus Cristo (Issa é o seu nome islâmico), considerado por muitos como “o mestre dos mestres”:

Dia virá em que farão tudo isso que eu tenho feito, e ainda muito mais (trecho de João 14:12)

Ora, se um dia faremos tudo o que fez o mestre, significa que um dia todos seremos mestres. Mas, então, o mestre ainda seria mestre?

É assim que percebemos duas coisas muito importantes: (1) que todo mestre só é mestre em relação ao seu discípulo; e (2) que todo mestre deseja ardentemente que o seu discípulo também se torne mestre um dia.

Assim sendo, um mestre jamais chamaria a si mesmo de mestre, jamais se apresentaria a um total desconhecido dessa forma, pois o objetivo dele não é reinar acima de uma turba de discípulos ou não discípulos ignorantes, mas antes torná-los melhores, quiçá tão “mestres” quanto ele próprio, ou ainda mais sábios!

E se o Sheikh Ahmed ainda não aceita ser chamado de mestre, sequer na presença de discípulos, no mesmo encontro em São Paulo havia um mestre de fato, já mais velho e com um fiel grupo de discípulos em todo o mundo:

Atma Nambi Guruji nasceu em um pequeno vilarejo no sul da Índia, estado de Tamil Nadu, onde cresceu de uma forma simples, em meio às plantações de arroz. Seus pais nunca lhe impuseram religião alguma, permitindo seu crescimento com a liberdade que uma criança merece e precisa. Atmaji, como é chamado pelos discípulos, teve seu primeiro mestre aos 10 anos de idade, um brâmane que comandava as cerimônias e rituais do templo de Shiva em sua vila. Seu desenvolvimento com esse mestre estendeu-se até seus vinte e poucos anos, período em que aprendeu bem a língua inglesa e o Bakit Yoga – a Yoga da Devoção.

O restante da história do Atmaji vocês poderão conferir no vídeo ao final do artigo, mas antes de encerrarmos, cabe contar uma anedota sobre ele. Todo ano Atmaji vem ao Brasil dar palestras (ou satsangs) no Rio, em São Paulo, e em Campo Grande/MS, onde eu moro. Numa dessas palestras havia todo um marketing por detrás, com banners online e cartazes, o anunciando como “um grande sábio indiano”. Isso não é feito com nenhum tipo de má intenção, o valor arrecadado nas palestras é quase simbólico, e o valor total mal paga a viagem da Índia ao Brasil. Portanto, seria perfeitamente compreensível que Atmaji se portasse como um “grande mestre”, ainda que não se autointitulasse um.

Pois bem, mas eu nunca esquecerei do dia em que ele, adentrando o espaço de uma das palestras, deu de cara com um imenso cartaz onde ele aparecia como um “grande mestre”, quase um ser sobrenatural. Ele simplesmente olhou para aquilo e disse algo como: “this is bullshit, everyone can achieve illumination” (isso é besteira, qualquer um pode conquistar a iluminação).

E, na sequência, ele continuou a fazer o que tem feito há décadas, desde que ele mesmo atingiu a sua iluminação, na Índia: trazer convites aos demais, melhorar este mundo, formar novos mestres, um discípulo por vez.

Com vocês, um mestre do Caminho:

***

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (sufis dançando o sama); [ao longo] um amigo (eu, ao lado de Atmaji e Sheikh Ahmed, no VII Simpósio de Hermetismo, em São Paulo).

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10.4.18

As grandes questões do ocultismo (tomo II)

« continuando do tomo I

No caminho da mão esquerda nós tomamos a rota direta, que é muito mais extenuante, muito mais perigosa, e onde há maiores chances de uma queda (Zeena Schreck)


Bem, se eu já havia me metido numa enrascada ao tentar definir o que diabos é ocultismo, talvez neste momento tenha me colocado num problema ainda maior: o que são o caminho da mão esquerda e da mão direita, afinal de contas?

Se formos buscar nos canais tradicionais de informação – onde boa parte do ocultismo é entendida de forma tão superficial quanto um super-herói como Hércules (da Marvel), se comparado ao seu mito antigo – temos algo não muito diverso do maniqueísmo raso: “O caminho da mão esquerda é equiparado às maliciosas práticas da magia negra, enquanto o caminho da mão direita refere-se às práticas benéficas da magia branca”. Sim, isto se encontra na Wikipédia; não é a toa que tão poucos sabem o que é ocultismo...

Um dos problemas de se tentar definir o que é o chamado caminho da mão esquerda (Left Hand Path: LHP) e a sua “contraparte”, o caminho da mão direita (Right Hand Path: RHP), é que muitas vertentes ocultistas formaram opiniões diversas sobre eles. Há quem creia que só devemos falar em LHP; há quem diga que podemos falar em ambos, mas que não são exatamente opostos; há quem atribua características tão díspares para LHP e RHP, que fica quase impossível uma definição única. No entanto, há pelo menos uma espécie de “consenso geral”: o de que LHP vem de práticas espirituais heterodoxas, por vezes individuais; e o RHP, por sua vez, favorece as práticas ortodoxas, geralmente baseadas nos ensinamentos de uma coletividade eclesiástica.

Tudo teve início na Índia...
Talvez surpreenda a muitos ocultistas ocidentais, mas os termos LHP e RHP surgiram inicialmente na Índia, mais precisamente dentre os praticantes do tantra, que pode ser aqui brevemente resumido como o “ocultismo hindu” (na verdade ele é muito mais que isso; apenas não terei tempo para entrar no tema nesta série). No Oriente, o RHP, ou Dakshinachara, se refere a doutrinas e/ou grupos que seguem princípios éticos, morais e filosóficos mais rígidos e conservadores, com forte tendência ortodoxa; por sua vez, o LHP, ou Vamachara, se refere a doutrinas e/ou grupos com práticas heterodoxas em sua maioria, que reforçam e induzem o questionamento e a oposição moral, não adotando estruturas éticas e filosóficas complexas. É preciso lembrar, no entanto, que isso já é muito distante da dualidade infantil de “bem” e “mal”; ou de “magia branca” e “magia negra”.

Porém, se no ocultismo ocidental contemporâneo um praticante LHP pode dividir um mesmo auditório com um praticante RHP sem que necessariamente eles sejam facilmente identificados por sua aparência, vestimenta, acessórios, ou até pela forma de se expressar, na Índia, particularmente na Índia antiga, alguns seguidores do LHP eram instantaneamente percebidos por onde passavam (e ainda são, embora estejam praticamente extintos):

Os aghori são devotos de Kala Bhairava, uma manifestação do deus Shiva associada à aniquilação… do mal! Eles se submetem em sua rotina ritualística à necrofagia, caminham entre cadáveres e fazem utensílios com ossos humanos, justificando tal comportamento como uma prática não-dual, o contato com o verdadeiro Eu, transcendendo todos os tabus sociais. Apesar de não serem considerados “hindus” pelos indianos em geral, os aghori têm curandeiros reconhecidos por seus poderes ditos milagrosos. Devemos pensar na prática aghori como uma vacina, em que você se contamina com o que quer evitar, sendo que a diferença entre a imunização e a infecção está simplesmente na dose e na manipulação do agente. Os aghori provavelmente seriam percebidos por um turista ocidental desapercebido como mendigos imundos que se misturam com mortos... mas, é preciso lembrar que mesmo Jesus Cristo já abriu uma tumba, e fez um cadáver voltar à vida: “Lázaro, levanta-te e anda!”. Não sei se o Rabi da Galileia foi lá muito ortodoxo em suas práticas...

Outra possível compreensão da relação entre o ortodoxo e o heterodoxo que definem os caminhos é a relação entre a disciplina e a abstenção. Um praticante RHP vai preferir abster-se de alguns desejos tipicamente mundanos, como o sexo dito promíscuo ou o consumo excessivo de bebida alcoólica; já alguém da via LHP pode, justamente, buscar ativamente tais práticas, para colocar a sua própria disciplina em xeque. Ou seja: ao invés de evitar o “perigo”, ele irá buscá-lo conscientemente, como alguém que se vê maduro o suficiente para ser testado, para testar a si mesmo, em seus apegos e excessos mundanos. É por isso que alguns dizem que o LHP é um caminho mais direto, porém bem mais perigoso.

Por muito tempo o ocultismo ocidental não esteve muito distante dessa antiga definição hindu para os dois caminhos. Ainda no tempo de Éliphas Lévi, que muitos consideram o maior ocultista do séc. XIX, a chamada “Alta Magia”, que lida com os seres do Alto, com os espíritos etéreos e com o intelecto, esteve associada à ortodoxia cristã e ao RHP. Assim, ainda que nem sempre tenha estado tão claro, se pressupunha que havia uma “Baixa Magia”, para lidar com os seres da Terra, com os espíritos densos e com a intuição – esta, portanto, estaria ligada ao LHP. Até hoje, de fato, podemos encontrar classificações parecidas nos cultos e religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda.

No entanto, com a abertura e divulgação de parte do chamado conhecimento oculto para a população leiga e os não-iniciados em geral, um movimento que atravessou o séc. XX (com grande auxílio de Aleister Crowley) e culminou na era da internet, muitas tradições se intercruzaram e, de uma imensa salada mista de conceitos e interpretações, se acabou chegando, ironicamente, a uma ideia um tanto simples para se compreender os caminhos: expansão e restrição.

Desde o yin e yang oriental já se fala nisso: uma parte da natureza que é ativa e expansiva (yang), e a sua contraparte, passiva e restritiva (yin). Na Árvore da Vida da kabbalah, há o pilar direito, expansivo, e o pilar esquerdo, restritivo. Neste caso, a associação dos lados aos caminhos é natural: o RHP seria o pilar expansivo (direito), enquanto o LHP ficaria do lado restritivo (esquerdo). Tal visão “natural” dos caminhos parece ter agradado muita gente, e em geral se tornou quase que um consenso adicional à antiga interpretação que, como já vimos, veio desde o tantra hindu. É preciso atentar para um detalhe, no entanto: todo yang traz em si um pouco de yin, e todo yin traz um pouco de yang. Com isto em mente, penso que podemos aplicar o LHP e o RHP ao caminho espiritual de cada um de nós (um caminho que, invariavelmente, perpassa muitas vidas)...

Ovelhas pastoreadas e ovelhas desgarradas
A imensa maioria das crianças não guarda senão uma vaga intuição acerca das vidas anteriores. Muitas podem carregar traumas relacionados às inúmeras guerras religiosas de nossa história, mas eles não costumam vir à tona até que chegue a adolescência com sua rebeldia. Assim, a suposta “tábula rasa” de nossa mente precisa ser preenchida com conhecimento, e na maior parte do mundo o lado espiritual é contemplado pela ortodoxia eclesiástica em voga na região em que nascemos. Nos tornamos, enfim, ovelhas pastoreadas pelo ensinamento religioso tradicional, e por seus representantes.

Isto se dá por um imenso movimento de expansão em nossa mente, que passa boa parte da infância sendo inundada, martelada por todo tipo de conhecimento religioso, mais ou menos dogmático, a depender da sorte que tivemos, isto é: do país e da família em que nascemos. Quando iniciamos a formação de nossa personalidade adulta, entretanto, muitas vezes antigos traumas, ou antigas preferências pela heterodoxia, costumam vir à tona. É assim que muitas ovelhas se desgarram de seus rebanhos, se tornando “a ovelha negra da família”.

Esta sempre foi à essência do ateísmo: não necessariamente descrer em Deus, mas ser avesso às tradições, se recusar a praticar a religião estabelecida, não seguir o rumo da multidão, por vezes se isolar não somente em seu próprio pensamento, mas abdicar da sociedade como um todo. Claro que nos dias atuais, numa era hiperconectada, tal isolamento é cada vez mais raro – mas, estranho de se pensar: todo livre-pensador, todo fundador de novas doutrinas e religiões, necessariamente teve o seu momento de eremita, o seu tempo no LHP. Foi necessário restringir a expansão para encontrar as suas próprias ideias.

O próprio cristianismo surgiu de um homem assim. Cristo jamais teria se dignado a perambular pela Galileia com seu punhado de ovelhas desgarradas, falando tanto a homens quanto a mulheres, tanto a nobres quanto humildes, praticando os “milagres” mais estranhos (ao ponto de precisar ser “calado” pela tradição), se não fosse ele mesmo um fiel seguidor do LHP.

No entanto, a partir da consolidação e da imensa vitória do cristianismo enquanto doutrina, todas as discussões da Igreja primitiva foram sendo decididas, todos os dogmas foram sendo estabelecidos sobre as heresias, e de um ensinamento simples e profundo, “Amai ao próximo como a ti mesmo, e a Deus acima de todas as coisas”, toda uma construção se ergueu, com suas virtudes e seus vícios, para se consolidar em uma nova tradição. É desta forma que a maior parte dos santos católicos seguiram o RHP, evangelizando os ensinamentos de um andarilho exótico, maltrapilho, que fazia os mortos se levantarem e afirmava que podia ser consumido, ele próprio, através do pão e do vinho. Não há nada mais heterodoxo que isso.

O mago e o místico
Numa visão geral, todo mago está geralmente ligado a uma via não tradicional, não eclesiástica, enquanto todo místico surge do próprio seio das comunidades religiosas... mas, será que é sempre assim? No ocultismo, não é possível nos atermos a visões binárias, ao “bem” e ao “mal”, ao “branco” e ao “negro”. Assim como todo yin traz sua parcela de yang, e vice versa, o mesmo pode ocorrer aqui.

Por exemplo, em seu aspecto de “realização da vontade”, o mago é muito mais ativo, muito mais expansivo, muito mais associado à coluna direita da Árvore, e não à esquerda. Da mesma forma, em sua “contemplação de Deus”, o místico é muito mais passivo, estando ligado à coluna esquerda, e não à direita.

Por outro lado, quando “expande seu coração” para abarcar a tudo e a todos, o místico se porta de forma incomparavelmente mais expansiva que o mago, que em geral “se restringe ao seu próprio grimório”, ao seu próprio vocabulário, a sua própria linguagem mágica, abdicando de maiores explorações pelas egrégoras alheias.

Quanto à ortodoxia e à heterodoxia, podem ocorrer inversões ainda mais curiosas: o já citado Éliphas Lévi foi um mago grandioso que, em geral, esteve muito ligado à tradição católica; já em pleno século XIII, em meio ao islamismo tradicional, surgiu um místico sufi, Jalal ud-Din Rumi, que passou boa parte de seus dias simplesmente rodopiando e recitando poemas aos seus discípulos. Perto de Lévi, Rumi seria considerado um lunático.

É assim que todo mago e todo místico têm sua fase LHP e sua fase RHP, e por vezes eles conseguem seguir precisamente pelo meio, tomando o rumo direto, o rumo que salta um Abismo ainda mais infernal do que qualquer noite negra da alma. Há que se perguntar, após tantas elucubrações, por que afinal tanta gente se arrisca por tantos e tantos perigos? Por que seguem pelo RHP ou pelo LHP? Aonde se quer chegar com tudo isso?

Creio eu que todos nós, os ocultistas, buscamos por um campo...


Além das ideias de certo e errado,
há um campo. Eu lhe encontrarei lá.

Quando a alma se deita naquela grama,
o mundo está preenchido demais para que falemos dele.
Ideias, linguagem, e mesmo a frase “cada um”
não fazem mais nenhum sentido.

(Rumi)

» No tomo III: a Verdadeira Vontade.

***

Fontes consultadas
O tema deste tomo é bastante complexo e certamente vai muito além dos meus parcos conhecimentos na área; tal texto jamais teria sido possível sem o inestimável auxílio do artigo O Caminho Sinistro (por XLR), do episódio 19 do Vortex Caoscast – Mão Esquerda para Destros, e das contribuições de Gabriel Leite Bueno, Maes Hughes e Dan Cruz (dentre outros) no grupo do Vortex no Facebook.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search/Geoglyphiks.com [ao longo] Reuters (Aghori de Varanasi, Índia); a1samurai @ DeviantArt.

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17.11.17

Rumi e o misticismo islâmico

Após ter acompanhado seu nascimento e crescimento desde o início, é com muita honra que hoje prosseguimos com a parceria deste blog com o canal Conhecimentos da Humanidade no YouTube, apresentado por Bruno Lanaro e Leo Lousada.

Neste segundo roteiro, me vali da minha experiência com o estudo e a tradução dos poemas de Rumi para traçar uma espécie de apresentação poética da sua vida e obra. Não é de forma alguma um mergulho profundo na sua poesia oceânica, mas antes um breve passeio de barco por um riacho que, para aqueles que se sentirem tocados no coração, pode de fato levar até o mar da Alma:

» Veja também nosso livro com traduções dos seus poemas: Rumi – A dança da alma

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24.4.17

Entre eu e você

O texto abaixo foi retirado de uma de minhas respostas dentro de um debate entre pensadores e espiritualistas.

Não sei se alguns aqui já devem saber, mas até alguns anos atrás eu costumava dizer que:

Minha religião é meu pensamento
Minha vida é minha Bíblia
Minha igreja é meu coração
Deus é meu amor

Um dia (já não lembro quando), alguém "corrigiu" o último trecho (já não lembro quem, mas sei que foi o comentário de uma mulher, na internet), de modo que passou a ficar:

Deus é nosso amor

Para mim, de fato fez toda a diferença do mundo. No momento em que li dessa forma, percebi o quanto o erro estava associado ao meu próprio ego. É óbvio que o amor divino não é "meu", nem "seu", nem "dele", ele é "nosso", necessariamente!

Há uma belíssima passagem dos poemas de Jalal ud-Din Rumi, o poeta sufi persa do séc. XIII, que fala assim:

Além das ideias de certo e errado,
há um campo. Eu lhe encontrarei lá.

Quando a alma se deita naquela grama,
o mundo está preenchido demais para que falemos dele.
Ideias, linguagem, e mesmo a frase “cada um”
não fazem mais nenhum sentido.

É desse tipo de amor divino que estou falando quando digo que "Deus é nosso amor". Não uma fonte de amor que transborda de algum canto do Cosmos e nos alcança como uma chuva permanente, mas a própria chuva, e o solo que ela rega, e a vida que cresce deste solo, e os mortos que o solo sepulta, e tudo, tudo o que há ou foi ou será.

Há este conflito entre perceber a Deus como um ser pessoal ou impessoal, o interessante é que há milênios atrás o próprio Bhagavad Gita falava precisamente disto no início do Cap. 12 (a tradução é minha, a partir da versão inglesa de Sir Edwin Arnold; no diálogo Arjuna representa o homem e Krishna, o ser divino):

Arjuna perguntou: Daqueles devotos que desejam alcançar o seu refúgio, qual deles são os melhores yogis, os que meditam e se conectam ao seu aspecto pessoal e manifesto, ou aqueles que focam a sua mente em seu aspecto universal e sem forma definida? (12.01)

Lorde Krishna disse: Considero os melhores yogis aqueles que me amam como um aspecto pessoal, com intimidade e familiaridade, pois esses terão maior facilidade em me imaginar ao seu lado. (12.02)

No entanto, aqueles que me amam como o absoluto, inefável, onipresente, indiviso, manifestado não somente numa pessoa, mas em todo o universo, infinito e eterno, o uno em tudo, se eles mantêm o seu ânimo inabalado em todas as circunstâncias da vida, se respeitam todos os seres e colaboram para o bem estar da sua vizinhança, se são capazes de compreender que a minha substância preenche a tudo o que há, foi ou virá a ser, eles também alcançarão o meu refúgio, ó príncipe. (12.03-04)

O caminho para a autorrealização é muito mais árduo para aqueles que me imaginam como o absoluto e sem forma definida, pois que a concepção do que é eterno e infinito é algo muito complexo para uma mente finita que viaja junto ao fluxo do tempo. (12.05)

Mas aqueles que me imaginam em meu aspecto pessoal, me amam e adoram, dedicam a mim todas as ações de suas vidas, e sempre meditam em mim como o seu alvo mais elevado, eles me alcançarão mais facilmente, ó Arjuma, e eu os salvarei do oceano das mortes e renascimentos. (12.06-07)

Assim, ignorando o conselho do próprio Krishna, eu mesmo optei por me arriscar a me religar não com uma divindade pessoal, mas com tudo o que existe, pois que não há neste vasto universo nenhum canto fundo o suficiente onde Ele não se encontre, nem espaço vazio e escuro o suficiente onde Ele não esteja, mesmo que oculto em flutuações quânticas.

No fim das contas, creio que o objetivo da união mística é precisamente este: de estar ao lado de Deus em todos os momentos, onde quer que esteja, e com quem esteja, pois como disse o poeta sufi enquanto rodopiava naquele campo precioso, eterno:

Entre eu e você não existe nem eu, nem você.

***

Crédito da imagem: Oleg Oprisco

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20.9.16

Palestra: Poetas da Alma

Depois de muita insistência de amigos de todos os cantos, eu finalmente vou dar a minha primeira palestra pública...

O título será Poetas da Alma, e embora todos os verdadeiros poetas sejam naturalmente poetas da alma, darei um destaque maior a história e a poesia dos meus quatro preferidos: Fernando Pessoa, Khalil Gibran, Rabindranath Tagore e Jalal ud-Din Rumi. Para quem já acompanha este blog há tempos, eles já devem ser velhos conhecidos. Para quem não acompanha, será uma grande oportunidade de conhecer poetas grandiosos.

O local será em Campo Grande/MS, onde moro, num espaço espiritualista recém-inaugurado chamado SuryAmar. Para quem não puder ir, prometo que irei compartilhar todos os slides usados na palestra, mas ainda não posso confirmar se ela será filmada. Vejam as informações completas do evento abaixo:


Poetas da Alma, com Rafael Arrais
Seja você a poesia do Natal de uma criança

Dia 09 de Dezembro de 2016, das 19 às 21h
SuryAmar Espaço Integral do Ser
Rua Enoch Vieira de Almeida, 149 | Campo Grande/MS
Inscrições: (67) 99223.8570  

O valor do convite é a doação de 2 brinquedos para ambos os sexos que serão doados para caridade.


***

Atualização: Gratidão aos que compareceram! Segundo um dos espectadores, foi um verdadeiro "banho na alma". Me senti realizado, pois era essa mesmo a ideia: que ela fosse mais uma experiência poética do que uma palestra acadêmica.

Para quem não pôde ir, seguem abaixo os links com **todos** os slides da palestra e algumas fotos do evento:

Vejam os slides da palestra Vejam as fotos da palestra

 

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29.7.16

O Estado Anti-Islâmico

O termo Islã deriva de uma antiga palavra árabe que significa “submissão”. Num contexto místico-religioso, é claro que estamos falando de uma “submissão a Deus” e, dessa forma, fica subentendido que todos os verdadeiros islâmicos, os realmente religiosos e místicos, buscam a Deus dentro de si e em tudo o que há. A sua guerra é interna, e a única conquista que desejam é o amor divino.

O Estado Islâmico, dessa forma, está mais para Anti-Islâmico; eles não se submetem de fato a alguma divindade que lhes habita a alma, mas tanto o inverso disto: esperam que o mundo inteiro se submeta as suas regras, ao seu califado sombrio.

Eles basicamente entenderam a religião pelo inverso, mas isto não ocorreu da noite para o dia, e nem é exclusividade do islamismo, ou mesmo de doutrinas religiosas desvirtuadas. Como sabemos, os homens se dedicam a se matar uns aos outros há tempos e pelas mais variadas razões, e ainda que por vezes tentem justificar sua carnificina usando o nome de Deus, na prática eles fazem guerras pelo mesmo motivo de sempre, a mesma ignorância antiga e persistente: por estarem submissos aos territórios, as riquezas e ao poder mundano.

Para os que buscam “evangelizar” o terror, “Deus” é apenas uma palavra, uma desculpa. Como não conseguem se submeter ao Deus que lhes habita, como o evitam a todo custo e a todos os momentos, como temem se abandonar no amor, e aniquilar os seus próprios egos, eles buscam justificar sua própria ignorância da religião subvertendo o sentido de tudo: o caminho então já não é buscar a Deus em mim, mas ter certeza de que todos creiam na mesma doutrina que eu creio, nem que para isso eu precise recorrer a violência extrema, ao caos e ao medo.

Apesar de muitas doutrinas religiosas e ideologias políticas terem a sua cota de sangue pela história humana, é inegável o fato de que hoje, no início deste novo século, foi o islamismo quem pariu a cria mais nefasta e perigosa. E quem deve admitir isto são primeiramente os próprios islâmicos, uma vez que são eles os que mais sofrem com o chamado Estado Islâmico: os países que fazem fronteira com suas bordas no Iraque e na Síria, em sua maioria de muçulmanos, são aqueles que mais sofreram atentados, os que mais tiveram baixas em combates militares, e os que mais receberam refugiados.

No entanto, como vinha dizendo, tal organização pseudo-religiosa não surgiu do dia para a noite. O Estado Islâmico é uma cria do wahabismo, e o wahabismo não teria chegado onde chegou não fosse pela condescendência da Arábia Saudita.

Fica mais fácil explicar contanto uma triste história:

Era manhã em Karbala, uma cidade próxima de Bagdá, e o mercado local estava cheio quando todos ouviram gritos. Um grupo de homens vestidos de preto, levando espadas e bandeiras negras, invadiu o mercado matando crianças, mulheres, idosos e adultos; indistintamente e sem pena. Eles continuaram com a matança avançando pelas ruas até tomar o controle de toda a cidade. Alguns afirmam que, apenas neste dia, cerca de 4 mil pessoas morreram.

Os homens vestidos de preto que organizaram tal ataque não eram do Estado Islâmico. O massacre ocorreu há mais de 200 anos e o grupo era comandando por um dos primeiros governantes da Arábia Saudita, que havia acabado de fundar um novo movimento religioso ultraortodoxo e radical dentro do Islã, o wahabismo.

Segundo o professor Bernard Haykel, de Princeton, especialista em teologia islâmica [1], "o wahabismo sempre foi descrito popularmente como a mãe de todos os movimentos fundamentalistas”.  “No entanto” – ele prossegue –, “para encontrar a inspiração ideológica destes movimentos é preciso voltar ao salafismo jihadista".

O salafismo remonta ao século 19 e uma de suas figuras mais influentes foi um homem chamado Muhammad ibn Abd al Wahhab, um pregador nascido em um lugar remoto da Península Árabe em torno de 1703. Segundo Haykel, "ele acreditava que os muçulmanos tinham se distanciado da verdadeira mensagem do Islã, e ficou horrorizado com o que via em Meca, o lugar sagrado para os muçulmanos, com os nobres vestidos de forma extravagante, fumando haxixe e escutando música".

Wahhab era um fundamentalista que queria "purificar" o Islã, crendo que para tal bastaria que todos se voltassem aos princípios básicos da fé. E assim, gradualmente, suas ideias foram se espalhando... Mas é claro que nem todos estavam de acordo e, como era de se esperar, ele acabou expulso do vilarejo onde morava.

Após peregrinar sem rumo, eventualmente encontrou abrigo junto ao homem que governava uma pequena cidade vizinha, Muhammad Ibn Saud, com quem fechou um acordo em 1744. Com este acordo, foram firmadas as bases para a formação de toda a região: Saud se comprometeu a apoiar Wahhab política e militarmente e, em troca, Wahhab conferiria a Saud uma “legitimidade religiosa”.

Juntos, eles tomaram o controle de muitas cidades no entorno. Saud reinava e Wahhab pregava e colocava em prática o que acreditava ser “o islamismo puro”. Segundo Haykel, “eles tinham listas de todos os membros da comunidade e assim garantiam que todos eles iam à mesquita cinco vezes ao dia para orar. Era uma imposição da fé que aplicavam quase como justiceiros, uma versão intolerante da fé que no Islã tradicional não existe".

A aliança entre Wahhab e Saud continuou conquistando territórios. Pelo final do século 18 eles já controlavam quase toda a Península Árabe. Desta forma foi estabelecida a união histórica entre a Arábia Saudita e o wahabismo. Portanto, não deveria causar espanto que muitas das execuções transmitidas online pelo Estado Islâmico sejam muito parecidas com as execuções oficiais da Arábia Saudita: não poderia ser de outra forma, pois que ambos os estados, o oficial e o terrorista, de certa forma seguem a uma mesma lei sombria.

Nos dias de hoje há um debate acirrado entre os especialistas sobre se realmente Wahhab pregava a violência ou se suas ideias foram manipuladas por Saud e pelos descendentes e partidários que vieram depois dele, e eventualmente fundaram a Arábia Saudita em 1932, mas seja como for, fato é que a ignorância do verdadeiro Islã venceu, e o que restou foi somente o dogma e a violência, sem muito espaço para nada que lembre, nem de longe, alguma espécie de misticismo.

Decerto não ajudou em nada o Reino dos Saud estar situado bem em cima  das maiores reservas de petróleo e gás natural do mundo. Somente tanta riqueza farta, afinal de contas, pode explicar como a sua monarquia sobreviveu até o nosso século, e como ainda conseguem se manter aliados do Ocidente e dos EUA, que convenientemente se esquecem de que os maiores grupos terroristas da nossa época basicamente não existiriam não fosse pela “vista grossa” que os governantes sauditas fizeram e ainda fazem em relação ao wahabismo.

Claro que estou resumindo bastante a história. Sempre vale lembrar que há séculos persiste o conflito entre duas vertentes do Islã: os sunitas e os xiitas [2]. No atual jogo de xadrez do Oriente Médio, a maior nação xiita é o Irã, enquanto que a maior nação sunita é a própria Arábia Saudita. Dessa forma, uma vez o wahabismo sendo uma vertente radical do sunismo, também foi sempre conveniente para os governantes árabes “fingirem que não estavam vendo” grupos radicais surgindo aqui e ali, dentro de seu próprio território, uma vez que eles eram a promessa de muito trabalho para os seus inimigos iranianos.

Mas certamente ninguém imaginou que a ignorância e a violência chegariam aos níveis atuais. Claro, é bem provável que o mar de refugiados batendo a porta da Europa tenha causado mais problemas para as “boas relações” do Ocidente com os sauditas do que propriamente os anos e anos de extermínios no Iraque, na Síria e no Curdistão, mas fato é que ainda hoje há muita gente que lucra com o Estado Islâmico. Afinal, eles ainda têm de encontrar compradores para sua produção de petróleo nos poços que vieram a conquistar; e, da mesma forma, alguém tem de estar lhes vendendo armamento de guerra. Quem será? Interessa ao Ocidente saber? Vocês me digam...

O Estado Islâmico é um câncer e uma mancha cada vez mais sombria na luz do verdadeiro Islã. Mas é chegada a hora de enfrentá-los de verdade, pois temos visto que apenas o discurso não tem dado tão certo.

E, no entanto, por mais bombas que joguem em suas cabeças, nada me parece tão letal para a sua doutrina do que estas palavras, as palavras de um poeta do século 13, um poeta que também foi um religioso islâmico, e é lembrado até hoje. O wahabismo é incapaz de sobreviver à poesia de Jalal ud-Din Rumi:

O que eu posso fazer, ó muçulmanos? Eu não me conheço mais. Não sou cristão ou judeu. Nem um islâmico, nem um mago. Não venho nem do Oriente nem do Ocidente. Nem do continente, nem do mar. Tampouco do Manancial da Natureza, ou dos céus circundantes. Nem da terra, nem da água, nem do ar, nem do fogo.

Não venho do trono, nem do solo. Nem da existência, nem do ser. Nem da Índia, nem da China, Bulgária ou Saqseen; nem do reino do Iraque ou de Khorasan; nem deste mundo nem do próximo: nem céu nem inferno. Nem de Adão nem de Eva. Nem dos jardins do Paraíso nem do Éden.

Meu lugar é sem lugar, minhas pegadas não deixam rastros. Nem corpo nem alma: tudo que há é a vida do meu Amado.

Eu afastei toda dualidade: eu vi dois mundos como um. Eu desejo Um, eu conheço Um, eu vejo Um, eu clamo: “Um”.

***

[1] Trechos retirados de artigo da BBC.

[2] A história remonta a uma cisma ocorrida ainda no século 7, 30 anos após a morte de Maomé, quando após o assassinato do atual califa (governante religioso), um grupo (os xiitas) defendeu que um primo de Maomé deveria ser o novo califa, enquanto outro (os sunitas) defendeu que tal cargo caberia a um amigo de Maomé, que no entanto não era seu parente de sangue. Os sunitas venceram a disputa e, ainda hoje, são o grupo majoritário, com cerca de 84% dos islâmicos do globo.

***

Para quem quiser se aprofundar no tema, indico o livro Estado Anti-Islâmico da jornalista brasileira e muçulmana Chadia Kobeissi (obs.: este artigo foi publicado anteriormente ao lançamento do livro, o título similar é somente uma feliz coincidência).

Crédito da imagem: Google Image Search/khamenei.ir (uma comparação entre as execuções na Arábia Saudita e no Estado Islâmico)

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19.7.16

Para ser feliz, parte final

« continuando da parte 3

Tenho uma amiga que, de tanto andar pelos caminhos do mundo, acabou assumindo para si a difícil tarefa de tentar elucidar qual é, afinal, o caminho da felicidade. Em seu programa para o canal de TV a cabo Multishow ela já entrevistou artistas, filósofos e espiritualistas em geral. Eventualmente chegou a conversar com Matthieu Ricard, o célebre “homem mais feliz do mundo”, segundo estudos neurológicos conduzidos pela Universidade de Wisconsin. Ricard, apesar de ser filho de um renomado filósofo francês e Ph.D. em genética molecular, eventualmente se tornou um monge budista e hoje reside no Nepal, apesar de também rondar pelo mundo todo. Para ele, a espiritualidade é indissociável da felicidade:

Espiritualidade significa lidar com a mente. Pode-se dizer que o treinamento da mente é um tipo de espiritualidade. A religião se vale de técnicas para alterar a mente, mas no fim tudo depende do jeito como você lida consigo mesmo e com o mundo à sua volta... Acho que a compaixão e a empatia são qualidades humanas básicas que todos podem e devem cultivar para se tornarem pessoas melhores, independente se possuem ou não uma religião. Afinal, essas qualidades são muito mais fundamentais que a religião em si [1].

Assim, ficamos sabendo que a espiritualidade que surge da compaixão para com os outros seres é, quem sabe, uma fonte de quietude da mente, de profunda tranquilidade. Mas, e daí? Seria isso, somente isso, o que determina a sua felicidade?

Obviamente, não há absolutamente nada que Ricard possa falar que irá nos descrever exatamente “como é ser o homem mais feliz do mundo”. De fato, suas palavras seriam incapazes sequer de demonstrar “como é ser feliz”, ou ainda, “como ele está feliz no dia de hoje”. As palavras, afinal, são tão somente cascas de sentimentos, e a minha amiga estaria em maus lençóis se quisesse mesmo determinar precisa e cientificamente o que é a felicidade. Felizmente, ela já se contenta em estar no caminho que leva para lá...

Isso me lembra da corredeira que desemboca no mar, após um longo caminho, conforme vínhamos falando. E, se eu já admiti que palavras são nada mais que cascas, minha única esperança de encerrar esta série com alguma dignidade é convidar meus amigos poetas para o meu auxílio, pois que eles sim souberam imprimir em suas cascas alguma parte deste fruto eterno e sem nome [2]:

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Quando nos deixamos escorrer juntamente com o rio da Vontade, esta Vontade muito maior do que quaisquer desejos que tivemos ou possamos vir a ter, há um enorme perigo para o ego, e uma enorme promessa de genuíno contentamento para a alma. Que, para encarar o perigo e o abismo do mar, é preciso se abandonar de si, para se reencontrar no céu.

E ninguém disse que seria fácil, mas a cada passo dado, logo se nota que o horizonte a frente é muito maior e mais ensolarado, até que enfim chegamos na praia, na margem do mar que espelha o Tudo, onde brincam as criancinhas:

Na praia dos mundos sem fim as crianças se encontram, com muitas danças e algazarras.
Elas constroem suas casas com areia e brincam com as conchas vazias.
Com as folhas secas elas tecem seus barquinhos e os colocam, sorridentes, para flutuar na vastidão do mar.

As crianças brincam na praia dos mundos.
Elas não sabem nadar, e tampouco arremessar as redes.
Pescadores de pérolas mergulham atrás de pérolas, mercadores navegam em seus barcos, enquanto as crianças catam pequeninas pedras, e depois as espalham novamente.
Elas não buscam por tesouros ocultos, e tampouco sabem arremessar as redes.

Na praia dos mundos sem fim as crianças se encontram.
A tempestade ronda pelo céu sem trilhas, os navios naufragam pelo mar sem rotas, a morte está à solta, e as crianças brincam.
Na praia dos mundos sem fim ocorre o grande encontro de todas as crianças.

E é até estranho de se pensar, mas no fundo toda a criança nasce um ser iluminado, sem saber que é um ser iluminado.

Da mesma forma, é bem possível que um ser iluminado nada mais seja do que uma criança que sabe que é um ser iluminado.

Todos esses santos que foram e que voltaram, e que hoje brincam por todos os cantos, sem rumo que não o de dentro, são talvez aqueles mais indicados para nos dizer o que devemos fazer para sermos felizes... Mas isso não quer dizer que seremos plenamente capazes de compreendê-los:

E agora vocês perguntam em seus corações, “Como poderemos distinguir o que é bom no prazer do que não é bom?”.
Dirijam-se aos seus campos e jardins, e deverão aprender que o prazer da abelha é sugar o mel da flor,
Mas que é também um prazer para a flor ofertar do seu mel a abelha.
Pois para a abelha uma flor é uma fonte de vida,
E para a flor uma abelha é uma mensageira de amor,
E para ambas, abelha e flor, a doação e o recebimento do prazer são uma necessidade e um êxtase.

Povo de Orphalese, busquem ao prazer como o fazem as flores e as abelhas.

Uma necessidade, e um êxtase... No fim das contas, a felicidade é aquilo que ocorre quando não estamos pensando nela...

Quando não estamos pensando em mais nada...

Quando a alma consegue cerrar a cortina do palco da mente, e contemplar a imensidão, em silêncio:

É primavera, e tudo lá fora germina, até mesmo o enorme cipreste.
Nós não devemos abandonar este lugar.
Próximo a borda do copo em que ambos bebemos, leem-se as palavras,
“Minha vida não me pertence.”

Se alguém viesse tocar alguma música, teria de ser uma doce canção.
Nós estamos a beber vinho, mas não através dos lábios.
Nós estamos a sonhar, mas não em nossas camas.
Esfregue o copo em sua testa.
Este dia se encontra além da vida e da morte.

Desista de desejar o que os demais possuem.
Nesta via estará seguro.
“Onde, onde estarei seguro?”, você pergunta.

Este não é um dia para se fazer perguntas, este não é um dia de algum calendário. Este dia é a consciência de si mesmo.
Este dia é o amante, o pão, e a gentileza, ainda mais manifestos do que os lábios poderiam dizer.

Pensamentos tomam forma através das palavras, mas a luz desta manhã vai além, ela é ainda mais antiga do que os pensamentos e a imaginação.

Esses dois estão tão sedentos... Mas é isto o que confere suavidade a água. Suas bocas estão secas, e eles estão exaustos.
O restante deste poema está demasiadamente embaçado para que eles consigam prosseguir na leitura.

Para ser feliz, afinal, é preciso ler muito e conhecer muito, para então abandonar toda leitura e todo conhecimento...

***

[1] Livremente transcrito da entrevista para o episódio 06 da primeira temporada de No caminho da felicidade, com Susanna Queiroz.

[2] Na sequência, trechos (sempre em itálico) da poesia dos quatro grandes poetas da Alma: Fernando Pessoa, Rabindranath Tagore, Khalil Gibran e Jalal ud-Din Rumi. Onde coube, a tradução foi de Rafael Arrais.

Crédito das imagens: [topo] matthieuricard.org/Divulgação; [ao longo] Joel Robinson

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3.7.16

A Hora da União

O vídeo abaixo foi divulgado pelo próprio autor em nossa página no Facebook sobre Rumi, chamada Rumi Brasil. Em sua descrição no YouTube, se lê mais ou menos assim:

Rumi foi talvez o maior poeta e filósofo árabe de todos os tempos. Ao lado de Omar Khayam e Kalil Gibran, eles formam um imenso universo de beleza e poesia. Reunir esses poetas em um cd de música e poesia, foi o que fizeram Leticia Sabatella e Marcus Viana. A Hora da União que aparece neste vídeo é um dos poemas do cd Poemas Místicos do Oriente distribuído pelo selo independente Sonhos e Sons. Recebido por Rumi, considerado um mestre espiritual de primeira grandeza, teve a música especialmente composta por Marcus Viana para a sensível interpretação de Leticia Sabatella.

E realmente não há nada a acrescentar, Rumi fala por si só:

De toda parte chega o segredo de Deus;
eis que todos correm desconcertados.
Dele, por quem todas as almas estão sedentas,
chega o grito do aguadeiro.

Todos bebem o leite da generosidade divina
e querem conhecer o seio de sua nutriz.
Apartados, anseiam por ver
o momento do encontro e da união.

A cada nascer do sol oram juntos
muçulmanos, cristãos, judeus.
Abençoado todo aquele em cujo coração
ressoa o grito celeste que chama: Vem!

Limpa bem os ouvidos
e recebe nítida essa voz
- o som do céu chega como um sussurro.

Não manche teus olhos
com a face dos homens
- vê que chega o imperador da vida eterna.

Se te turvarem os olhos,
lava-os com lágrimas,
pois nelas encontrarás
a cura de teus males.

Acaba de chegar do Egito
uma caravana de açucar
- já se ouvem os sinos e os passos cansados.

Silêncio!
Eis que chega o Rei
para completar o poema.

Jalal ud-Din Rumi

***

» Para conhecer mais sobre Rumi, não deixe de conferir nosso livro Rumi - A dança da alma, com poemas selecionados, traduzidos e comentados por Rafael Arrais

Crédito da imagem: lordexx/Google Image Search

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15.1.16

As lições de Rumi

“Estude-me o quanto quiser, você não vai me conhecer, porque eu sou diferente em uma centena de maneiras daquilo que você vê ao me observar. Coloque-se atrás dos meus olhos e me veja como eu me vejo, pois eu escolhi morar num lugar onde seus olhos não podem alcançar.”

Jalal ud-Din Rumi foi um poeta e teólogo sufi que viveu na Anatólia (atual Turquia), no século XIII. Embora sua obra tenha sido escrita originalmente em persa, a importância de Rumi transcendeu fronteiras étnicas e nacionais. Seus poemas foram extensivamente traduzidos em várias das línguas do mundo e transpostos em vários formatos. Em 2007, Charles Haviland o descreveu como "o poeta mais popular da América" em artigo publicado no site da BBC.

Abaixo estão 20 lições poéticas que todos podem aprender com as palavras de Rumi. Esperamos que elas possam inspirá-los a viver uma vida mais preenchida de poesia:

1. Não viva uma vida pequena, você também é uma parte do universo
“Você nasceu com potencial. Você nasceu com ideais e sonhos. Você nasceu com asas. Você não está destinado a rastejar, então não rasteje. Você tem asas. Aprenda a usá-las e voe.”

“Você senta aqui por dias dizendo: isso é algo estranho. Você é que é algo estranho. Você tem a energia do sol em você, mas você a mantém na base de sua espinha. Você é um tipo estranho de ouro que quer ficar derretido no forno, para não ter que ser cunhado em moedas.”

“Torne-se o céu. Tome um machado e derrube a parede da prisão. Escape.”

“Sabe o que você é? Você é um rascunho de uma carta divina. Você é um espelho que reflete um rosto nobre. Este universo não está fora de você. Olhe para dentro de si mesmo, contempla toda a sua imensidão!”

2. A sua vida deve fazer sentido para você, e não para “eles”
“Inicie um projeto enorme e insensato, como Noé… Não faz absolutamente nenhuma diferença o que as pessoas pensam de você.”

3. Jamais desista de si mesmo
“Quando você passar por um período difícil, quando tudo parecer se opor a você, quando você sentir que não pode sequer suportar mais um minuto, não desista! Porque esse será o momento e lugar em que o curso do rio irá desviar!”

“A tristeza prepara você para a alegria. Ela varre violentamente tudo para fora de sua casa, de modo que uma nova alegria possa encontrar espaço para entrar. Ela sacode as folhas amarelas do galho do seu coração, para que folhas verdes possam crescer em seu lugar. Ela puxa as raízes podres, de modo que novas raízes escondidas embaixo tenham espaço para crescer. Qualquer que seja a tristeza, vivencie-a, sem medo, em seu coração... Coisas muito melhores tomarão o seu lugar.”

“Dance, quando você se sentir machucado. Dance, quando você tirar o curativo. Dance enquanto luta. Dance em seu sangue. Dance enquanto se liberta.

4. A ignorância é uma prisão
“A ignorância é a prisão de Deus. O conhecimento é o palácio divino.”

5. O tesouro em seu interior é o bem mais valioso
“Você vagueia de sala em sala caçando o colar de diamantes que já se encontra em torno do seu pescoço!”

“Você vai de aldeia em aldeia em seu cavalo perguntando a todos: ‘Alguém viu o meu cavalo’?”

“Tudo no universo está dentro de você. Você é a sua própria janela para a imensidão.”

“Há um poço em seu interior... Não ande por aí com este balde vazio.”

6. É preciso morrer para poder renascer
“Bata, e se abrirá a porta. Desapareça, e brilhará como o sol. Caia, que se elevará aos céus. Torne-se nada, e se transformará em tudo.”

“Esqueça a segurança. Viva onde você tem medo de viver. Destrua sua reputação. Esqueça a fama, seja importante para os demais.”

“Não fique satisfeito com histórias antigas, coisas que têm acontecido com os outros... Viva o seu próprio mito.”

“Ateie fogo em sua vida. Procure aqueles que apreciam incendiários.”

“Seja como a neve derretendo. Banhe-se a partir de si mesmo.”

7. Há algo que você nasceu para fazer
“Todo mundo foi talhado para um trabalho em particular, e o desejo por esse trabalho foi depositado em cada coração.”

“Seja uma lâmpada, um bote salva-vidas, ou uma escada. Ajude a alma de alguém a se curar. Saia de sua casa como se fosse um messias.”

8. A escada é longa, mas o degrau é curto
“Quando você começa a caminhar, o caminho aparece.”

9. Quando for realizar algo, faça com todo o seu coração
“A falta de entusiasmo não lhe permite chegar a maestria. Você está em busca de Deus, mas vive parando em lugares mesquinhos.”

“Quando você faz coisas a partir de sua alma, você sente um rio em movimento dentro de você, uma alegria em fluxo. Quando a ação vem de outra parte, esse rio seca.”

10. A ferida é o local por onde a luz lhe adentra
“O que lhe machuca, lhe abençoa. A escuridão é a sua vela.”

“Onde há ruína, há esperança de encontrar um tesouro.”

“Não tema, nem pragueje. Mantenha o olhar atento em seu machucado. É lá por onde a luz lhe adentra.”

11. Ama, sempre e a cada momento
“Deixe a beleza de amar ser aquilo que realiza em cada dia neste mundo.”

“Se ocupe, então, com aquilo que você realmente ama, e deixe o ladrão levar o resto...”

12. Pense menos, sinta mais
“A razão é impotente ante o perfume do amor.”

“Coloque seus pensamentos para dormir, não os deixe lançar uma sombra sobre a lua em seu coração. Pare de pensar tanto.”

“Somente a partir do coração você pode tocar o céu.”

“Há uma vela em seu coração, pronta para ser acesa. Há um vazio em sua alma, pronto para ser preenchido. Você sente isso, não?

“Livre-se das suas preocupações. Pense em quem criou a preocupação! Por que você fica preso quando a porta se encontra escancarada?”

13. Saiba apreciar os momentos bons e ruins
“Seja grato por quem vem, porque cada um foi enviado como um guia desde o outro mundo.”

“Se você se irrita tanto com cada lapidação, como você vai ser polido?”

“Quando alguém bate num tapete, os golpes não são contra o tapete, são contra a poeira...”

14. Mude o mundo a partir de si mesmo
“Ontem eu fui inteligente, e queria mudar o mundo. Hoje eu sou sábio, então estou mudando a mim mesmo.”

15. Viemos a este mundo para amar
“Sua tarefa não é buscar o amor, mas apenas procurar e encontrar todas as barreiras dentro de si mesmo que você ergueu contra ele.”

“Através do amor, tudo o que é amargo será doce. Com o amor, tudo o que é de chumbo ou cobre vai se transmutar em ouro. Através do amor toda mistura se tornará vinho, e toda a dor se mostrará remédio.”

“Eu não tenho nenhum companheiro a não ser o amor. Sem começo, fim, ou amanhecer. Minha alma me chama de dentro de mim: ‘Você, ignorante do amor, liberte-se!’”

16. A sua alma veio de outro lugar
“Todo o dia eu penso sobre isso, então a noite eu me pergunto, de onde venho? O que devo fazer? Eu não faço ideia. Minha alma veio de outro lugar, disso eu estou certo, e tenho a intenção de encerrar o meu caminho por lá.”

“Quando eu morrer, vou viver com os anjos; e quando eu morrer entre os anjos, me tornarei algo que não posso sequer imaginar.”

17. Somos todos um
“Todas as religiões cantam na mesma sinfonia. As diferenças são apenas ilusão e vaidade. A luz do sol parece um pouco diferente nas paredes de cada templo, mas ainda é uma só luz.”

“O que eu posso dizer, ó muçulmanos? Eu não me conheço, não sou do Islã, nem cristão, nem judeu, nem mago, nem adorador do fogo... Eu não venho nem do Oriente nem do Ocidente, não existem limites dentro do meu peito.”

18. Os amantes sempre estiveram um dentro do outro
“Despedidas são apenas para aqueles que amam com os olhos. Porque para quem ama com o coração e a alma, não existe tal coisa como a separação.”

19. Aprenda com a garoa silenciosa...
“Levante suas palavras, mas não sua voz. É a chuva que faz a terra florescer, não o trovão.”

20. O silêncio é a linguagem divina
“O silêncio é a linguagem de Deus, todo o resto é pobre tradução.”

“As palavras são mero pretexto. É o coração quem nos atraí um para o outro.”

“Morra apaixonado e em silêncio, que permanecerá vivo para sempre.”

***

Fonte: Pesquisas para a página Rumi Brasil no Facebook. Seleção parcialmente inspirada em post do site Democracia Consciente. Lembrando que algumas vezes nos permitimos pequenas adaptações nos trechos, seja por conta do contexto limitado do próprio uso de pequenos trechos, seja por conta de nossa própria inspiração ao contato com a luz de Rumi.

» Saiba mais sobre Rumi em nosso livro Rumi – A dança da alma

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search/dignitasnews.com; [ao longo] Hossein Irandoust

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24.9.15

Veja o amor (Life & Death)

Como alguns devem saber, sou um amante dos poemas de Rumi, e já traduzi diversos deles. Abaixo, segue uma nova tradução, que surgiu através da sugestão de uma leitora [1]:


[Veja o amor]

Veja o amor...
Veja como se entrelaça
com aquele caído em sua rede.

Veja o espírito...
Veja como se funde a terra
trazendo a nova vida.

Ora, por que você está tão ocupado
com isto, ou aquilo,
com o que foi bom ou ruim?
Presta atenção em como as coisas se misturam,
em como tudo se harmoniza.

Por que discutir sobre tudo,
o que é conhecido, e o que não é?
Veja como o conhecido se mescla
ao desconhecido.

Por que imaginar esta vida e a próxima
como algo separado,
quando uma nasce da outra?

Veja seu coração e sua língua...
Uma percebe tudo como surda muda,
o outro se comunica em símbolos e sinais.

Veja a água e o fogo,
a terra e o vento,
veja amigos e inimigos,
todos de uma só vez.

O lobo e o cordeiro,
o leão e o cervo,
vagando distantes pela terra
e, ainda assim, juntos.

Veja a unidade de tudo isso:
A primavera e o inverno
manifestos no mesmo equinócio.

Vocês também devem se misturar, meus amigos,
pois a terra e o céu
estão mesclados
somente para que nós possamos viver.

Seja como a cana de açúcar,
doce e silenciosa,
não se deixe misturar
às palavras amargas.

O meu Amado cresce
em meu próprio coração...
Há união maior que essa?


Jalal ud-Din Rumi (tradução de Rafael Arrais, a partir da versão inglesa de Nader Khalili)

***

Obs.: Este poema também é conhecido pelo título Life & Death (Vida e Morte), e ficou famoso por ter alguns trechos citados no filme Drácula: A história nunca contada.

[1] Veja também o livro Rumi – A dança da alma, com minhas traduções e comentários de alguns dos mais belos poemas de Rumi.

Crédito da imagem: David Uzochukwu

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10.9.15

Jorge Pontual recita Rumi outra vez

Jorge Pontual é um dos jornalistas mais bacanas do mundo. Além de ser especialista em relações internacionais, ciências sociais, divulgação científica e bactérias, também parece ter sido o principal responsável por trazer ao programa GloboNews em Pauta um quadro semanal onde, vejam só, recita poemas de grandes poetas da história.

Por isso tudo ele já merecia a nossa admiração. Mas quando resolveu recitar Jalal ud-Din Rumi, então passou definitivamente a merecer o nosso amor...

Jorge Pontual recita Rumi no GloboNews em Pauta

(clique na imagem para abrir o vídeo no site da GloboNews)

***

[Nem cristão, ou judeu, ou muçulmano]

Nem cristão, ou judeu, ou muçulmano,
nem hindu, budista, sufi ou zen;
nenhuma religião ou sistema cultural;
eu sou nem do leste nem do oeste,
nem do oceano nem do chão,
nem natural ou etéreo,
nem composto de elementos;
eu não existo.

Não sou uma entidade
neste mundo ou no próximo,
nem descendo de Adão e Eva
ou qualquer história de origem;
meu lugar é o sem lugar,
um rastro do sem rastro...

Nem corpo nem alma,
pertenço ao Amado.
Vi os dois mundos como um só,
e esse "um", chamo e conheço;
primeiro, último,
fora, dentro,
só este respirar de ser humano...


Jalal ud-Din Rumi (tradução de Jorge Pontual)


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28.5.15

Jorge Pontual e a poesia de Rumi

Jorge Pontual é um dos jornalistas mais bacanas do mundo. Além de ser especialista em relações internacionais, ciências sociais, divulgação científica e bactérias, também parece ter sido o principal responsável por trazer ao programa GloboNews em Pauta um quadro semanal onde, vejam só, recita poemas de grandes poetas da história.

Por isso tudo ele já merecia a nossa admiração. Mas quando resolver recitar Jalal ud-Din Rumi, então passou definitivamente a merecer o nosso amor [1]...

Jorge Pontual recita Rumi no GloboNews em Pauta

(clique na imagem para abrir o vídeo no site da GloboNews)

***

[Morri como mineral]

Morri como mineral,
e tornei-me planta.
Morri como planta,
e surgi como animal.
Morri como animal,
e sou humano...

Por que ter medo?
O que perdi ao morrer?

Mas de novo vou morrer como humano,
para voar com os anjos, abençoado.

E mesmo como anjo, terei de morrer.
Todos perecem, menos Deus...

Quando eu tiver sacrificado
a minha alma de anjo,
me tornarei
o que a mente sequer concebe!

Ah! Que eu não exista!
Pois a não-existência proclama,
como um órgão,
que para Ele voltaremos.


Jalal ud-Din Rumi (tradução de Jorge Pontual)

***

[1] E olhem que não é a primeira vez que ele recita Rumi neste programa...

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18.12.14

A estrela ao centro

Um grupo de pássaros desejava encontrar o seu rei; então pediram a um pequeno pássaro sábio de longa crista que lhes ajudasse em sua busca. Ele lhes disse que o rei que estão procurando se chama Simurgh e que vive escondido na montanha de Qaf. A jornada até a sua casa, porém, é uma aventura muito difícil e perigosa.

Mesmo assim, muitas centenas de pássaros aceitaram a tarefa, e iniciaram um longo voo através dos sete grandes vales que os separavam de seu destino: o vale da busca, seguido do vale amor, do vale da compreensão, do vale do desapego, do vale da unicidade, do vale do espanto e da perplexidade e, finalmente, do último deles, o vale do aniquilamento e da morte... Muitos foram se perdendo pelo caminho, de modo que somente 30 bravos pássaros conseguiram chegar em Qaf.

Este é um brevíssimo resumo de um dos textos clássicos do sufismo, de Attar de Nishapur, intitulado A linguagem dos pássaros (ou A conferência dos pássaros). Attar (o “perfumador”) viveu aproximadamente entre o fim do século XI e o início do XII, e foi um dos diversos grandiosos poetas que ajudaram a estabelecer as bases do sufismo, que nada mais é do que a vertente mística do Islã.

Embora todas as grandes religiões tenham o seu ramo místico, até hoje o termo “misticismo” é muito pouco compreendido, e usualmente associado ao termo “mistificação”, que é praticamente o seu oposto. Os místicos, de fato, são exatamente aqueles religiosos verdadeiros, buscadores da essência das coisas, e não de sua casca. Os místicos trabalham exatamente para desmistificar, descascar tais frutos sagrados, que nunca foram nem jamais serão descritos por palavras. As palavras, ora essa, são exatamente as cascas que sobraram...

No entanto, não foi através do perfume de Attar que fui atraído aos sufis, e sim pela poesia de um de seus admiradores, Jalal ud-Din Rumi, teólogo e poeta sufi que viveu na região da Anatólia (atual Turquia) no século XIII. Por mais estranho que possa parecer, este místico persa é atualmente um dos poetas mais lidos nos EUA e em muitos países de língua inglesa, e isso se deve menos a qualidade de seus tradutores (principalmente Coleman Barks) do que a qualidade inefável e atemporal de seus poemas:

Vem, vem, seja você quem for, não importa se você é um infiel, um idólatra, ou um adorador do fogo; vem, nossa irmandade não é um lugar de desespero; vem, mesmo tendo violado seu juramento cem vezes, vem assim mesmo.

Vem, lhe direi em segredo aonde leva esta dança. Vê como as partículas do ar e os grãos de areia do deserto giram desnorteados. Cada átomo, feliz ou miserável, gira apaixonado em torno do sol.

Ninguém fala para si mesmo em voz alta. Já que todos somos um, falemos deste outro modo: os pés e as mãos conhecem o desejo da alma. Fechemos então a boca e conversemos através da alma. Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.

Vem, se lhe interessa, posso mostrar... [1]

Fui fisgado imediatamente pelo sentimento que tais cascas fizeram brotar em meu coração. Rumi sabia exatamente o que estava fazendo, ainda que inconscientemente, pois a maior parte de sua obra foi ditada enquanto ele mesmo dançava, rodopiando ao redor de algum ponto imaginário, enquanto seus seguidores se apressavam em anotar cada sílaba, cada palavra, e não perder nem uma gota daquele mel divino que escorria, sabe-se lá de onde.

Nem sempre havia sido assim. Antes de se tornar um poeta enlouquecido de amor, Rumi fora um grande teólogo ortodoxo do Islã, profundamente venerado por seu conhecimento das escrituras sagradas. Mas sua ortodoxia foi dissolvida no dia em que encontrou o sol de sua vida: Shams de Tabriz, um místico andarilho que instigou Jalal ud-Din a deixar as cascas de lado, e se concentrar na essência das coisas.

Tão intensa foi a amizade entre Rumi e Shams que o seu próprio filho, um de seus seguidores mais devotos, um dia escreveu desesperado:

Noite e dia, em êxtase ele dançava, na terra girava como giram os céus. Rumo às estrelas lançava seus gritos e não havia quem não os escutasse. Aos músicos provia ouro e prata, e tudo o mais de seu entregava. Nem por um instante ficava sem música e sem transe, nem por um momento descansava.

Houve protestos, no mundo inteiro ressoava o tumulto. A todos surpreendia que o grande sacerdote do Islã, tornado senhor dos dois universos, vivesse agora delirando como um louco, dentro e fora de casa. Por sua causa, da religião e da fé o povo se afastara; e ele, enlouquecido de amor. Os que antes recitavam a palavra de Deus agora cantavam versos e partiam com os músicos.

Na verdade o ápice do “delírio” de Rumi veio mesmo quando foi obrigado a se afastar de seu amigo. A história não foi tão bonita: Shams muito provavelmente foi assassinado pelos próprios seguidores de Rumi [2], enciumados de sua atenção quase que exclusiva ao seu amigo e amado, e aturdidos com o seu crescente afastamento da ortodoxia de outrora.

Não deu certo: após ser privado de sua grande amizade, Rumi se dissolveu completamente no amor, e passou o resto de seus dias dançando, rodopiando e recitando palavras divinas. Em tudo o que “escreveu”, assinou não com seu próprio nome, mas com o nome daqueles que amava, fosse Shams, fosse alguns dos seus discípulos, fosse o açougueiro da cidade...

Além das ideias de certo e errado, há um campo. Eu lhe encontrarei lá.

Quando a alma se deita naquela grama, o mundo está preenchido demais para que falemos dele. Ideias, linguagem, e mesmo a frase “cada um” não fazem mais nenhum sentido.

Você já sofreu em excesso por sua ignorância, já carregou seus trapos para um lado e para outro, agora fica aqui...

Na verdade, somos uma só alma, você e eu. Nos mostramos e nos escondemos você em mim, eu em você...

Eis aqui o sentido profundo da minha relação contigo: é que não existe, entre você e eu, nem eu, nem você.

Rumi assinava seus poemas com nomes alheios pois havia finalmente chegado, como os 30 pássaros de Attar, ao final da jornada do ser, a casa do rei, na montanha de Qaf:

Ao entrar, os pássaros olharam tudo assustados. Não conseguiam entender o que se passava, pois no lugar de ver a Simurgh, o rei, tudo o que eles conseguiram ver foi... 30 pássaros refletidos num grande salão cheio de espelhos, e vazio!
    
Finalmente compreendem que, contemplando a si mesmos, têm encontrado ao rei, e que em sua busca do rei, têm encontrado a si mesmos. Os que atravessam os sete vales se purificam, e os que conseguem chegar ao palácio real, encontram ao rei que se revela em seus corações.

Esta é a essência do sufismo, a essência do misticismo, e que não pode ser totalmente apreendida por palavras, por fábulas, nem sequer por poemas. Talvez tenha sido a dança, o sama, o grande tesouro que Rumi tenha deixado para nós, através da ordem Mevlevi, mesmo que hoje ela seja cada vez mais uma dança artística do que propriamente religiosa...

Fato é que isso tudo não importa, o que importa é a estrela ao centro, o ponto imaginário em torno do qual dançam os sufis, num ritmo eterno. E seja “Allah”, “Deus” ou “Alma do Mundo” o seu nome, tampouco importa, é somente um nome. O que importa é a experiência, o que importa é o próximo passo desta dança.

E ela não termina nunca!

***

[1] Os poemas e citações do texto podem ser encontrados em minhas traduções do poeta na obra Rumi – A dança da alma.

[2] O que não é algo assim tão raro na história do sufismo. Outro grande poeta sufi, Mansour al-Hallaj, também foi perseguido, preso por mais de uma década, torturado e morto, por se atrever a se “afastar da ortodoxia” de sua época (final do séc. IX, início do X).

Crédito da imagem: Babel Santorini/Divulgação

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31.5.14

Jorge Pontual recita Rumi

Jorge Pontual é um dos jornalistas mais bacanas do mundo. Além de ser especialista em relações internacionais, ciências sociais, divulgação científica e bactérias, também parece ter sido o principal responsável por trazer ao programa GloboNews em Pauta um quadro semanal onde, vejam só, recita poemas de grandes poetas da história.

Por isso tudo ele já merecia a nossa admiração. Mas quando resolver recitar Jalal ud-Din Rumi, então passou definitivamente a merecer o nosso amor...

Jorge Pontual recita Rumi no GloboNews em Pauta

(clique na imagem para abrir o vídeo no site da GloboNews)

***

[Momento de felicidade]

Felicidade é este momento,
você e eu sentados na varanda -
duas formas, dois rostos,
mas uma alma,
você e eu.

A beleza das flores
e o canto dos pássaros
nos dão a água da vida
quando entramos neste jardim,
você e eu.

As estrelas do céu vêm nos ver,
e mostramos a elas a lua,
você e eu.

Você e eu,
unidos em êxtase de alegria,
livres do juízo e da razão -
você e eu.

Os beija-flores do Paraíso bicam açúcar
quando nós rimos,
você e eu.

Mais incrível ainda,
estamos aqui ao mesmo tempo
no Iraque, na Pérsia,
você e eu -
numa forma aqui na Terra,
e noutra forma, no Paraíso.
E na Terra do Açúcar, você e eu...


Jalal ud-Din Rumi (tradução de Jorge Pontual)


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11.10.13

Moávia e Iblis

Texto de Jalal ud-Din Rumi em "Masnavi” (Ed. Dervish) – trechos das págs. 112 e 113. Tradução de Monica Ulder Cromberg e Ana Maria Sarda. O comentário ao final é meu.


Moávia, o primeiro dos Califas Omaidas, estava certo dia dormindo em seu palácio, quando foi despertado por um estranho. Moávia perguntou-lhe quem era, e ele respondeu que era Iblis [1]. Moávia perguntou-lhe então por que ele o havia despertado, e Iblis respondeu que chegara a hora da oração, e ele temia que Moávia se atrasasse.

Moávia respondeu: “Não! Jamais poderia ter sido tua intenção guiar-me no caminho reto. Como posso confiar num ladrão como tu para cuidar de meus interesses?”

Iblis respondeu: “Lembra-te de que fui criado como anjo de luz, e que não posso abandonar totalmente minha ocupação original. Ainda que viajes para Roma ou Catai, continuarás amando tua terra natal.

Eu ainda conservo meu amor por Deus, que me alimentou em minha juventude; não, mesmo que eu me tenha rebelado contra Ele, isso foi só por ciúme (de Adão) e o ciúme provém do amor, não da negação de Deus. Joguei uma partida de xadrez com Deus, por vontade d'Ele, e, embora tenha levado um xeque-mate e me arruinado totalmente, em minha ruína ainda experimento as bênçãos de Deus”.

Moávia respondeu: “O que dizes não é digno de crédito. Tuas palavras são como os pios de um passarinheiro, que se assemelham às vozes dos pássaros, atraindo-os assim para a destruição. Causaste a destruição de centenas de mortais, como o povo de Noé, a tribo de Aad, a família de Lot, Nemrod, o Faraó, Abu Jahl, e assim por diante” [2].

Iblis retrucou: “Estás enganado se supões que sou eu a causa de todo o mal que mencionaste. Eu não sou Deus, para ser capaz de fazer do bem, mal, e do belo, feio. A misericórdia e a vingança são ambos atributos divinos, e geram o bem e o mal que se vê em todas as coisas terrenas. Não devo, portanto, ser culpado pela existência do mal, já que sou apenas um espelho que reflete o bem e o mal existentes nos objetos apresentados diante dele”.

Moávia então rezou a Deus para protegê-lo contra os sofismas de Iblis, e novamente pediu a Iblis para cessar sua argumentação e dizer claramente a razão pela qual o havia despertado. Iblis, em vez de responder, continuou a justificar-se, dizendo como era injusto que homens e mulheres o culpassem quando faziam algo errado, ao invés de culparem a seus próprios maus desejos.

Moávia, em resposta, recriminou-o por esconder a verdade, e finalmente o levou a confessar que a verdadeira razão pela qual o despertara era que, se ele tivesse dormido demais, e assim perdido a hora da oração, teria sentido grande remorso e dado muitos suspiros, e cada um desses suspiros, aos olhos de Deus, teria sido equivalente a mais de duzentas preces comuns.

***

Comentário
Como de costume, Rumi inunda alguns pequenos parágrafos com uma água rica em metáforas e camadas e camadas de interpretação filosófica.

Neste diálogo imaginário entre um religioso e o próprio Satã, o grande poeta da alma deixa muito claro, a quem tem olhos para ver, que Iblis não é somente um personagem da própria mente humana, mas um personagem extremamente necessário para o caminho de evolução espiritual, ou seja, de autoconhecimento.

Iblis “não é Deus, o único capaz de do bem, mal, e do belo, feio”, mas tão somente um espelho que reflete aos elementos postos diante dele. Ora, há muitos deuses que preferem manter tal espelho embrulhado e escondido no sótão de suas almas, atribuindo todos os infortúnios da existência a uma causa externa.

Porém, se é que existe um ser sobrenatural condenado a ser mal pela eternidade, sem jamais poder se arrepender, este seria antes um fantoche nas mãos do Criador, que afinal, também o criou.

Muito simples colocar todas as culpas do mundo num bode expiatório imaginário. Mais simples ainda afirmar que existem adoradores de tal ser por todos os cantos e, geralmente, em cargos de poder.

Difícil, complexo, angustiante, isto sim, é admitir que tal ser, longe de ser um fantoche divino, é antes um dos maiores presentes que Deus nos conferiu. Um espelho para a consciência; um espelho, também, para o inconsciente. Uma forma de avaliarmos, a cada passo deste caminho eterno, exatamente onde nos encontramos em relação ao animal do qual desejamos nos libertar, e ao ser angelical, o nosso “eu futuro”, que nos aguarda onde quer que seja o Céu.

Até que chegamos, e percebemos que o Céu era tudo, e o que mudou foi somente nossa visão. Tudo já é Deus, mas nossa joia interior ainda carece de uma limpeza, até que, polida e tornada cristalina, seja ela mesma o espelho para a luz do Alto.

Somente então o outro espelho, para a luz de Baixo, se tornará obsoleto. Somente então não necessitaremos mais de Iblis. Somente então saberemos: “eu também sou da raça dos deuses”.

***

[1] Iblis é um dos nomes de Satã (Shaitan) entre os islâmicos.

[2] Corão. XI, 63.

Crédito da imagem: Google Image Search

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