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10.9.18

Princípio Antrópico: uma coincidência cósmica? (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo vamos entender o que diabos é Princípio Antrópico, e talvez cheguemos a conclusão de que ganhamos na loteria da vida todo santo dia, ou não. Até chegar lá, precisaremos explicar a teoria do Big Bang, as tretas entre defensores de uma visão de universo estático e eterno, e os que sempre defenderam os mitos de Criação. Pode uma árvore ser árvore sem nunca ter sido semente? Podem as leis da natureza evoluírem com o tempo? Se você ama a ciência, vai ficar arrepiado (em todos os sentidos)!

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13.10.15

Sheldrake contra a ortodoxia científica

Entre 2007 e 2008, quando participava de produtivos fóruns de discussão online sobre fé e razão no saudoso Orkut, acabei dialogando com um sujeito (que chamarei aqui de Flávio, embora não seja o nome real, pois não se trata de pessoa pública) que tinha uma fé cristã tão arraigada que acreditava piamente que tudo o que ocorria no universo era uma ação direta de Deus.

Me lembro de haver perguntado ao Flávio assim: "Mas se eu estou aqui digitando e discordando de você, pois creio que guardo uma certa liberdade própria, então seria Deus que estaria me fazendo digitar cada tecla do meu teclado e enviar esse texto para você?"... Flávio respondeu que sim. Esse tipo de negação total de qualquer espécie de liberdade ou livre-arbítrio sempre me pareceu um tanto radical, embora não admirasse menos a fé de Flávio por conta disso, visto que ele sempre me tratou educadamente, apesar de discordar do meu pensamento.

O mesmo tipo de espanto eu senti ao me deparar com os materialistas mais radicais, ou poderia-se dizer, mais fiéis a premissa básica do materialismo. Filósofos como o americano Daniel Dennett defendem que a consciência não existe, e aquilo que entendemos pelo "ato de se estar consciente" não passa de uma ilusão cerebral. Materialistas eliminativos como Dennett creem piamente que todas as nossas escolhas são fruto de reações químicas em nosso cérebro, e que os cerca de 4% da matéria e energia detectadas no universo são suficientes para explicar todos os processos conscientes.

Eu continuo até hoje espantado com o fato da mente humana conseguir chegar a extremos de crença como os dois citados acima, e até já escrevi um artigo sobre isso...

Mas felizmente existem mentes mais céticas e curiosas, que ainda creem não somente em sua própria liberdade de conhecer e questionar o mundo, como conseguem fazer isso através do próprio método científico. Nesta palestra para o TED, o biólogo britânico Rupert Sheldrake questiona diretamente os maiores dogmas do materialismo científico, e critica a Academia por limitar o escopo da ciência moderna ao se manter presa a dogmas do século XIX. O mais interessante é que Sheldrake não é um "cientista qualquer": possui mais de 80 artigos científicos publicados (inclusive na Nature), além de 10 livros (um deles o monumental Ciência sem Dogmas, que ele menciona no vídeo) e diversos artigos que ainda hoje aparecem com certa regularidade em reconhecidos jornais ingleses.

Talvez por isso tal palestra tenha sido "banida" do canal do TED no YouTube, devido a pressão de cientistas mais ortodoxos, digamos assim. É claro que isso só fez o interesse pelo que Sheldrake diz nela aumentar enormemente, de modo que somente um dos "espelhos" dela no YouTube já se aproxima de um milhão de visualizações.

Antes de escutarem ao que ele tem a dizer, no entanto, vale lembrar duas coisas: (1) A intenção de Sheldrake não é substituir o dogma materialista por algum dogma religioso, tanto pelo contrário – a despeito do que dizem por aí, as suas teorias também vão contra visões de mundo muito mais antigas do que o materialismo do século XIX; (2) O fato de Sheldrake chegar a questionar consensos estabelecidos, como até mesmo se a velocidade da luz é realmente constante, não significa que ele tenha razão em sua crítica, apenas levanta uma via de pesquisa que pode eventualmente nos trazer uma visão mais abrangente das "leis naturais" – o que é certamente mais de acordo com a ciência genuína do que termos a velocidade da luz estabelecida "por decreto", como ocorre hoje.

E agora, com vocês, o homem que desafiou a Academia:

***

Crédito da imagem: Google Image Search/Red Ice Radio

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11.10.15

Agora, sem as rodinhas!

Quando surgiu pela primeira vez na comunidade científica, a ideia de que todo o universo tivesse se originado de uma espécie de “átomo primordial” há bilhões de anos, e que vinha se expandindo desde então, pareceu tão absurda que um famoso astrônomo da época a chamou de Big Bang num programa de rádio da década de 1940.

A intenção de Fred Hoyle, o cientista britânico defensor da teoria do universo estacionário ou eterno, era ridicularizar a teoria do belga Georges Lamaître, aquele quem primeiro propôs a ideia de que o próprio espaço-tempo se encontrava em expansão. O fato de Lamaître, para além de físico e astrônomo, ser também um padre católico, certamente levou Hoyle a supor que ele estava se baseando mais nos dogmas do Gênesis do que em ciência genuína...

Mas hoje sabemos que a hipótese do Big Bang venceu a batalha contra o universo estacionário de Hoyle, e o que determinou a vitória foram os fatos: em 1966, já próximo da morte num leito de hospital, Lamaître foi comunicado que os astrônomos Arno Penzias e Robert Wilson haviam confirmado experimentalmente a existência da chamada radiação cósmica de fundo, uma espécie de “registro fóssil” em micro-ondas da época em que todo o universo era quente e denso, apenas cerca de 380 mil anos após o seu início.

Junto com outras evidências, como a de que as galáxias ainda hoje estão se afastando umas das outras, e a observação de uma imensa abundância de elementos leves no universo, hoje a teoria do Big Bang é de muito longe a hipótese mais aceita na comunidade científica, fazendo parte do chamado “modelo padrão”. Penzias e Wilson ganharam o Prêmio Nobel de Física de 1978 por sua descoberta. Se estivesse vivo, Lamaître certamente teria o seu Nobel garantido.

A ideia de um universo eterno, entretanto, era um conceito muito mais antigo do que o advento da própria astronomia moderna; um paradigma tão cristalizado na mente humana que eventualmente também se tornou quase que um dogma científico, ao ponto de ter tirado o sono até mesmo de Albert Einstein, que relutou o quanto pôde em admitir que o universo de fato se expandia. O célebre físico alemão chegou a dizer que este foi “o pior erro de sua carreira”.

Realmente não é fácil quebrar antigos paradigmas. Demócrito e outros filósofos atomistas da Grécia Antiga, por exemplo, acreditavam que os átomos eram eternos e imutáveis. Pitágoras e seus discípulos consideravam que todo o universo era ordenado por princípios imateriais eternos de harmonia e “verdades matemáticas”. Já Platão foi ainda mais longe, e generalizou a matemática transcendente pitagórica para uma visão mais ampla de Ideias arquetípicas e universais, que incluíam a Forma de cada objeto ou qualidade, como cavalos, seres humanos, cores e bondade. Segundo o grande filósofo grego, a própria realidade era composta por “sombras e reflexos das Formas transcendentais”.

Sempre foi complexo para a mente humana imaginar uma Natureza evolutiva, que não surgiu “pronta e acabada”, com todas as suas leis e variáveis imutáveis. E isso, é óbvio, se reflete também nas ideias científicas.

Ironicamente, o mesmo paradigma de universo estacionário com leis imutáveis gerou um baita problema para a visão ateísta do mundo... De acordo com o Princípio Antrópico, se as leis e constantes cosmológicas fossem ligeiramente diferentes após o Big Bang, não teria sido possível o surgimento de formas de vida baseadas em carbono, como nós aqui neste planetinha. Uma das respostas óbvias para tal enigma é que a própria Criação foi obra de alguma espécie de inteligência superior, ou seja, a ciência se vê forçada a retornar a hipótese de um Criador.

Para contornar esse “incômodo”, muitos cosmólogos preferem pensar que há inúmeros universos além do nosso, cada um deles com leis e constantes específicas. Nesses modelos de “multiverso”, o fato de calharmos de estarmos aqui, conscientes e maravilhados, se explica pela extraordinária sorte de fazermos parte de um dos bilhões e bilhões de universos que propiciou o surgimento da vida como a conhecemos. Segundo esses modelos, não faz o menor sentido reclamarmos de qualquer espécie de azar, pois a nossa sorte em estarmos aqui vivos é tão imensamente grande que equivale a uma chance estatística inferior a sermos atingidos por um raio a cada minuto durante toda a vida (e, nesse caso, também considerando as chances de sobrevivermos a todos eles).

Portanto, se as leis e constantes são imutáveis e tudo estava determinado desde o início dos tempos, tanto faz se calhamos de existir num dos universos que possibilitou a vida baseada em carbono, ou se este universo único foi criado conforme descrito no Gênesis, as chances estatísticas provavelmente se equivalem, e tudo passa a ser uma questão de “gosto pessoal” que defina qual aposta é menos absurda do que a outra.

No fundo, todas as teorias que postulam a existência de um multiverso possuem a crença comum na primazia da matemática sobre a realidade. Mesmo que existam muitos universos além do nosso, o que os sustenta, segundo tais ideias, são fórmulas matemáticas transcendentes, como por exemplo as que formam a espinha dorsal da teoria das cordas ou teoria M. Para resumir: tais teorias nada mais são do que uma espécie de pitagorismo ultrarradical.

Mas temos outra alterativa surpreendente, defendida pelo físico Rupert Sheldrake em seu monumental Ciência sem Dogmas. A opção ao pitagorismo é a evolução das regularidades da Natureza. Tais regularidades seriam mais semelhantes a hábitos adquiridos do que a leis imutáveis que estavam lá desde o início dos tempos, e ficariam mais fortes (ou “constantes”) pelo meio da repetição, da mesma forma que aprendemos a andar de bicicleta. Segundo Sheldrake, há um tipo de memória na Natureza, e o que acontece agora é influenciado direta ou indiretamente pelo que já ocorreu antes.

Hábitos ancestrais foram estabelecidos há bilhões de anos, e estão arraigados de tal forma na Natureza que se parecem mesmo com “leis imutáveis”. Dos fótons, prótons e elétrons surgiram as moléculas, depois as estrelas e as galáxias, então os planetas, os cristais, e ao menos aqui neste planetinha, as plantas e os seres humanos.

Entre as moléculas, por exemplo, a de hidrogênio é provavelmente a mais antiga – ela já existia antes da formação da primeira estrela. As “leis” e “constantes” associadas a esses padrões arcaicos de organização estão tão bem estabelecidas que atualmente já não apresentam nenhuma mudança detectável. Em contrapartida, algumas moléculas são novíssimas, como as centenas de compostos produzidos pela primeira vez por químicos de síntese em nosso próprio século. Nesse caso, os hábitos ainda estão se formando. O mesmo ocorre com novos padrões de comportamento em animais e novas habilidades humanas.

Se eliminarmos a biologia e nos mantivermos exclusivamente na física e na química, ainda assim esta teoria tem uma vantagem gritante se comparada às teorias que postulam um multiverso como forma de explicação ao Princípio Antrópico: ela fala de coisas que podem efetivamente serem observadas e testadas!

Na verdade, sabemos que os químicos que sintetizam novas substâncias muitas vezes têm grandes dificuldades de fazer com que elas se cristalizem. Às vezes leva muitos anos para os cristais surgirem pela primeira vez. Por exemplo, a turanose, um tipo de açúcar, durante décadas foi considerada um líquido, até que, na década de 1920, ocorreu a cristalização. Depois disso, esse açúcar formou cristais em todo o mundo [1].

O xilitol, álcool de açúcar usado como adoçante em gomas de mascar, foi preparado pela primeira vez em 1891 e considerado líquido até 1942, quando surgiram cristais pela primeira vez. O ponto de fusão desses cristais era de 61ºC. Depois de alguns anos surgiu outra forma de cristal, com ponto de fusão de 94ºC e, mais tarde, o primeiro tipo de cristal desapareceu da Natureza [2] (leia novamente este parágrafo se não compreendeu ainda o quão assombroso ele é)...

Nós tendemos a ver o universo sob o nosso ponto de vista, mas ironicamente postulamos que, ao contrário de nós mesmos, ele deveria ser como que um rio congelado, uma espécie de fórmula matemática supersimétrica, superelegante, transcendente e eternamente imutável. Dessa forma, tendemos a ver a Natureza como uma espécie de supercomputador programado desde o início dos tempos para obedecer às mesmas leis e constantes, sem a mísera variação. Entretanto, basta olhar a nossa volta, como uma árvore só pode existir após haver sido broto e, ainda antes, semente. Como os filhotes de passarinho devem ser alimentados por seus pais antes de criarem força nas asas e, eventualmente, se arremessarem aos céus. Como toda a metrópole tem o seu centro histórico e, dentro dele, o seu marco inicial.

Tudo evolui do simples para o complexo, e o grande destino da vida parece mesmo ser se organizar, de alguma forma extraordinária, em consciências capazes de observar o mundo – a Natureza vendo a si mesma, compreendendo a si mesma, se espantando consigo mesma.

E não podemos saber ainda, de fato, se há mesmo um Criador que pensou nisso tudo desde o início. Talvez, quem sabe, ele esteja aprendendo conosco. Talvez ele tenha preferido nos deixar livres para descobrir as coisas, tateando o Cosmos e evoluindo por nossa própria conta.

Como quando nossos pais nos levam ao parque para nos ensinar a andar de bicicleta. No começo, colocam rodinhas para que nos auxiliem a manter o equilíbrio. Talvez, quem sabe, todo o nosso passado mineral, vegetal e animal tenha sido como que um aprendizado com o auxílio das rodinhas...

Mas hoje, hoje despertamos, hoje somos seres conscientes encarando de volta a vastidão cósmica salpicada pelas mesmas fornalhas que fundiram os elementos de nosso corpo, habituadas há bilhões de anos a este caminho ancestral que vai do átomo primordial de Lamaître a um planetinha, quiçá bilhões e bilhões deles, plenos de vida, plenos de crianças a arriscar suas primeiras voltas de bicicleta.

Até o dia em que partiremos deste pequeno parquinho para os mundos e galáxias mais distantes, e quem sabe neste dia não poderemos olhar para o Alto e dizer:

“Olhem para nós! Agora, sem as rodinhas!”

***

[1] Crystals and Crystal Growing, por Allan Holden e Phyllis Singer (1961), pp. 80 e 81.

[2] Ibid., p. 81.

Crédito da imagem: Google Image Search/shutterstock

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8.10.15

A ciência e os seus dogmas

Trechos de Ciência sem Dogmas, de Rupert Sheldrake (editora Cultrix). Tradução de Mirtes Pinheiro. Os comentários ao final são meus.


Há mais de duzentos anos, os materialistas prometeram que a ciência explicaria tudo sob a ótica da física e da química. A ciência provaria que os organismos vivos são máquinas complexas, que a mente nada mais é do que atividade cerebral e que a natureza é desprovida de propósito. As pessoas apoiam-se na fé de que as descobertas científicas justificarão suas crenças.

Karl Popper, filósofo da ciência, chamava essa postura de “materialismo promissório”, pois depende de notas promissórias por descobertas que ainda não foram feitas. Apesar de todas as conquistas da ciência e da tecnologia, atualmente o materialismo está enfrentando uma crise de credibilidade que seria inimaginável no século XX.

[...] A preposição fundamental do materialismo é de que a matéria é a única realidade. Portanto, a consciência nada mais é do que atividade cerebral. É como uma sombra, um “epifenômeno”, que não faz nada, ou apenas outra maneira de falar sobre atividade cerebral. No entanto, os pesquisadores de neurociência e estudos da consciência não chegaram a um consenso sobre a natureza da mente.

Revistas respeitadas como Behavioural and Brain Science e Journal of Counsciousness Studies publicam muitos artigos que revelam problemas profundos na doutrina materialista. O filósofo David Chalmers chamou a própria existência da experiência subjetiva de “problema difícil [da consciência]”. Difícil porque desafia uma explicação em termos de mecanismos. Mesmo que compreendamos como os olhos e o cérebro reagem ao farol vermelho, a experiência de [interpretar o] vermelho não é levada em consideração.

Na biologia e na psicologia, o grau de credibilidade do materialismo está em queda. Será que a física pode vir em seu socorro? Alguns materialistas preferem denominar-se fisicalistas, para enfatizar que suas esperanças dependem da física moderna, e não de teorias sobre a matéria do século XIX. Mas o grau de credibilidade do fisicalismo foi reduzido pela própria física, por quatro razões.

Em primeiro lugar, alguns físicos insistem em afirmar que a mecânica quântica não pode ser formulada sem levar em consideração a mente dos observadores. Eles alegam que a mente não pode ser reduzida à física, porque [a] física [também] pressupõe a mente dos físicos.

Em segundo lugar, as mais ambiciosas teorias unificadas da realidade física, a teoria das cordas e a teoria M, com dez e onze dimensões, respectivamente, levam a ciência para um território totalmente novo.

[...] Em terceiro lugar, desde o início do século XXI, ficou claro que os tipos conhecidos de matéria e energia representam apenas cerca de 4% do universo. O restante consiste em “matéria escura” e “energia escura”. A natureza de 96% da realidade física é literalmente obscura.

Em quarto lugar, o Princípio Antrópico Cosmológico afirma que, se as leis e constantes da natureza tivessem sido ligeiramente diferentes no momento do Big Bang, jamais poderia ter surgido vida biológica e, portanto, não estaríamos aqui para pensar sobre isso. Então, será que uma mente divina ajustou as leis e as constantes no início?

Para evitar que um Deus criador surgisse numa nova forma, quase todos os principais cosmólogos  preferem acreditar que o nosso universo é apenas um entre um vasto, talvez infinito, número de universos paralelos, todos com diferentes leis e constantes, como também sugere a teoria M. Acontece que simplesmente existimos no universo que tem as condições certas para nós.

A teoria do multiverso é a suprema violação da navalha de Occam, princípio filosófico segundo o qual “as entidades não devem ser multiplicadas além do necessário”, ou, em outras palavras, devemos fazer o menor número possível de pressuposições. Essa teoria também tem a desvantagem de não poder ser testada, tampouco consegue se livrar de Deus. Um Deus infinito poderia ser o Deus de um número infinito de universos.

O materialismo apresentou uma visão de mundo aparentemente simples e direta no final do século XIX, mas que a ciência do século XXI deixou para trás. Suas promessas não foram cumpridas e suas notas promissórias foram desvalorizadas pela hiperinflação.

Estou convencido de que a ciência está sendo restringida por pressuposições que se enrijeceram em dogmas, mantidos por fortes tabus. Essas crenças protegem a cidadela da ciência tradicional, mas age como uma barreira ao pensamento aberto.


Comentários
Quando um cientista “desafia a visão dogmática” da Academia, logo surgem os seus detratores. O que eles costumam afirmar é que “não se trata de um cientista relevante”, ou ainda levantar a questão, “mas qual foi a contribuição dele para a ciência”?

Como se fosse necessário que alguém fizesse uma grande contribuição científica, ou tivesse artigos publicados em revistas de renome, como a Nature, para poder criticar a ortodoxia da Academia...

De qualquer forma, no caso específico deste cientista, ambas as “exigências” acima foram cumpridas. Rupert Sheldrake é um biólogo e bioquímico inglês de renome, que além de ter publicado mais de oitenta artigos científicos e uma dezena livros, já foi o convidado de diversos programas de divulgação científica de grande audiência na TV, como por exemplo o Grandes Mistérios do Universo, apresentado por Morgan Freeman (no Brasil, passa no Discovery Science, na TV a cabo).

Entre as suas importantes contribuições científicas, se destacam a descoberta do mecanismo de transporte da auxina em vegetais, assim como o auxílio no detalhamento da “morte celular programada”, que se tornou um campo de pesquisa vital no estudo de doenças como o câncer e a Aids, bem como da regeneração de tecidos pelas células-tronco. Na Índia, ainda participou no desenvolvimento de técnicas de cultivo em clima semi-árido, hoje amplamente usadas em todo o mundo.

Ou seja, este livro incomoda, pois não se trata do pensamento de um cientista “de pouco renome”. Viva-se com esse barulho.

O objetivo de Sheldrake, no entanto, não é substituir o dogma materialista por algum antigo dogma espiritualista. Ele quer somente romper a represa dogmática que tem restringido enormemente o atual pensamento científico, particularmente dos cientistas que, exatamente por terem obtido relativo sucesso em suas carreiras, ficam cada vez mais preocupados com “o que vão pensar lá na Academia” a toda a vez que falam sobre assuntos científicos heterodoxos.

O biólogo inglês é, sobretudo, um grande crítico da ideia de um “relojoeiro cego”, uma metáfora alçada à fama por Richard Dawkins para explicar como um universo complexo pode ter surgido do “acaso cego”. Ora, o que Sheldrake combate não é propriamente a ideia de “cegueira”, mas o conceito de que o universo é como um “relógio”, ou “alguma espécie de máquina que está lentamente perdendo o vapor”.

Não, segundo ele, o universo se parece muito mais com um organismo vivo, assim como todos os seres vivos dentro dele. Ao longo desse livro extraordinário o que ele tenta nos explicar é que, no final das contas, o materialismo em sua visão mecanicista sequer consegue encontrar as metáforas adequadas para explicar o que quer dizer – em suma, que não somos consciências que interpretam o mundo, mas tão somente máquinas que computam e guardam informações.

Afinal de contas, nenhum gene pode ser realmente “egoísta” nem muito menos “aspirar a imortalidade”, e ainda que o universo inteiro operasse efetivamente como um relógio, tudo o que um relógio pode fazer é apontar para algo muito maior e mais transcendente. O tempo não pode ser reduzido às engrenagens de um relógio, assim como a consciência e a subjetividade ultrapassam em muito a tentativa de explicar o que são utilizando somente 4% do que existe.

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Crédito da imagem: Harfian Herdi

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21.3.13

Campos de informação

Eis um vídeo magnífico. Contemple isto por 4 minutos, e a Natureza certamente lhe parecerá ainda mais misteriosa do que antes:

Nesta bela revoada de pássaros em sincronia, podemos ver o que acontece quando um grupo consideravelmente grande de animais se movem de forma tão organizada, que chegam a se comportar como um só corpo. Isto evidencia que deve haver algo que faz a conexão e a unificação de todos os animais do grupo, de forma a que cada um deles se sincronize de acordo com o restante. Todos os pássaros são "governados" de tal forma que a velocidade e a direção em que voam são tão sincronizadas que nenhum deles se choca ou se perde do grupo. Isto só pode ser explicado por algum tipo de "consciência coletiva" do grupo, que é capaz de influenciar a todos, simultaneamente, e de forma unificada.

Segundo o biólogo britânico Rupert Sheldrake, esta sincronia pode ser explicada através dos campos mórficos ou morfogenéticos, espécies de campos hipotéticos de informação, que preenchem o universo de forma análoga ao badalado campo de Higgs (formado pelos bósons de Higgs, as "partículas de Deus", que conferem massa as demais partículas, de acordo com o Modelo Padrão). Sheldrake também os compara aos campos eletromagnéticos. Vejamos um breve resumo desta teoria:

Átomos, moléculas, cristais, organelas, células, tecidos, órgãos, organismos, sociedades, ecossistemas, sistemas planetários, sistemas solares, galáxias: cada uma dessas entidades estaria associada a um campo mórfico específico. São eles que fazem com que um sistema seja um sistema, isto é, uma totalidade articulada e não um mero ajuntamento de partes.

Sua atuação é semelhante à dos campos eletromagnéticos. Quando colocamos uma folha de papel sobre um ímã e espalhamos pó de ferro em cima dela, os grânulos metálicos distribuem-se ao longo de linhas geometricamente precisas. Isso acontece porque o campo magnético do ímã afeta toda a região à sua volta. Não podemos percebê-lo diretamente, mas somos capazes de detectar sua presença por meio do efeito que ele produz, direcionando as partículas de ferro. De modo parecido, os campos mórficos distribuem-se imperceptivelmente pelo espaço-tempo, conectando todos os sistemas individuais que a eles estão associados.

A analogia termina aqui, porém. Porque, ao contrário dos campos físicos, os campos mórficos de Sheldrake não envolvem transmissão de energia. Por isso, sua intensidade não decai com o quadrado da distância, como ocorre, por exemplo, com os campos gravitacional e eletromagnético. O que se transmite através deles é pura informação.

Neste trecho de um episódio da série "Grandes mistérios do universo", do Discovery Channel, Sheldrake fala mais sobre o assunto, e ainda postula que os campos mórficos podem ser a maneira pela qual exercemos o chamado "sexto sentido":

Veja também:

» Cardumes de peixes nadando em sincronia (vídeo)

» O pensamento analógico

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Crédito da foto: Michael Buholzer/Reuters

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20.1.12

Para ser um médium, introdução

A mediunidade é a capacidade da consciência humana de trocar informações com outras consciências de forma não verbal, influenciar e ser influenciada por elas. Sejam consciências que habitam um corpo físico, sejam consciências incorpóreas.

Uma breve advertência

Um homem não crê no que você diz, ele afirma que você não está vendo ninguém ao seu lado esquerdo, nem ao seu lado direito. Ele tem toda razão: você não está vendo esses dois espíritos ao lado dele, assim como você não está vendo homem algum encarnado a sua frente...

Há muito a ciência já comprovou que tudo o que percebemos através do olho humano são fótons, pequenos pacotes, ou quantas, de partículas de luz pura. Para tal usamos nosso sentido de visão, mas ele só funciona quando há luz: no caso, os fótons que viajaram desde o Sol até as frestas da janela do centro espírita em que você se encontra, “ricocheteando” em qualquer pequeno pedaço de matéria que reflita luz.

A física também já provou que ao trocarmos apertos de mão, nenhum átomo de nossa mão se choca com átomos da mão alheia: do contrário, já teríamos nos exterminado em fusões ou fissões nucleares. Cabe à força de repulsão eletrostática, gerada pelos elétrons a circular freneticamente cada um dos átomos de nossas mãos, “imprimir” uma “sensação de solidez” a um aperto de mão, através das terminações nervosas de nossos dedos e da palma da mão e, mais especificamente, através de nosso sentido de tato.

Daí você pode se questionar: “mas eu consigo ver os fótons a refletir no corpo deste homem, eu consigo encostar levemente em sua testa durante meu passe magnético, mas não consigo realmente ver os espíritos ao seu lado, muito menos os cumprimentar com um abraço, da forma que eu gostaria!” – E você, igualmente, terá toda razão.

Sabe quando você anda pela rua do centro, apinhada de gente, mas por vezes percebe quando uma – apenas uma! – garota interessante está olhando para você com aquele “olhar de interesse”? Ora, admita: você é jovem, solteiro, você faz isso tantas vezes ao dia que é algo até mesmo corriqueiro... Mas você não percebe tais olhares, tais possibilidades de um amor futuro, com a visão, nem com o tato, nem com os outros sentidos ditos físicos – audição, olfato e paladar. Você percebe tais olhares com algum sentido obscuro, talvez um sexto ou sétimo sentido, quem vai saber?

Isso pode parecer “anticientífico”, mas há cientistas renomados estudando tal fenômeno de maneira séria e genuinamente científica, como o biólogo britânico Rupert Sheldrake, que chegou a dedicar o título de um de seus livros ao assunto: A sensação de estar sendo observado (publicado no Brasil pela Cultrix). De fato, isso abre caminho para que o sentido exato que você usa para ver tais espíritos seja um dia compreendido plenamente pela ciência... Mas não se engane: até lá você terá de se contentar com o que vê, como o que intuí, com o que sente. Até lá te acusarão de ser louco, esquizofrênico, charlatão, fraude, enganador...  Ou, tanto pior: bruxo, feiticeiro, maçom, necromante, “adorador de demônios” – ainda que não façam a mais vaga ideia do que alguns desses termos efetivamente signifiquem. Esteja preparado.

No entanto, você nem sequer está plenamente convencido de que tudo isso que se passa em sua mente é real, ou fruto da própria imaginação. Este é um questionamento que deve permanecer em sua alma por grande parte de seu desenvolvimento, quando passará de médium passivo (como quase todos) a um médium ativo... Guarde-o com carinho e consideração. Você sem dúvida pode estar errado, e muitas vezes está (ou estará), portanto não tenha nem um pingo de pretensão de ser dono de alguma verdade, nem jamais, jamais se coloque na posição de julgar a “evolução espiritual” ou o carma alheio.

Você sempre será apenas o juiz e o escravo de sua própria causa, muitas vezes mera ferramenta na mão de seres muito mais sábios do que você, para que auxilie na evolução alheia e, dessa forma, na sua própria. Ser médium é ter disciplina suficiente para assumir uma maior liberdade e responsabilidade perante o próprio caminho ascendente da alma, é ter conhecimento e discernimento suficientes para poder julgar melhor do que ninguém o que vem de fora e o que vem de dentro, é ter compaixão e vontade suficientes para sacrificar uma boa parcela de sua vida mundana em prol da espiritualidade.

Na sua vida desperta, muitas vezes duvidará da soberania do mundo espiritual sobre as contas a pagar, as relações amorosas instáveis, os problemas de relacionamento no trabalho, o jogo decisivo de seu time de futebol no fim de semana, etc. Mas então virão os sonhos, aqueles em que você se encontra com os espíritos da mesma forma que eles aparecem para você, e que se veem sem usar a visão, e se falam sem usar a voz, e se ouvem sem usar a audição, e flutuam e voam (até mesmo você, as vezes), e por vezes se tocam, e as ditas explosões nucleares serão o que mais se assemelha a sensação de preenchimento, de sentido, de “pertencimento” a uma outra espécie de realidade – muito maior.

Ser médium é trazer um pouco de sonho, um pouco de poesia, um pouco de amor, para esta realidade de átomos a deslizar por alguma espécie de tecido espaço-temporal, e de luz eterna a preencher tudo o que observamos a olhos vistos... Um grande médium e poeta português uma vez psicografou de si mesmo tais versos:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm. [1]

Pode-se mesmo dizer que, de certa forma, toda a essência da mediunidade se encontra em tais versos. Se não os conseguiu compreender até hoje, guarde-os com carinho, sinta-os, que um dia talvez compreenda melhor...

O caminho de mediunidade é tão árduo e recompensador quanto qualquer outro grande caminho da alma humana. Você pode ser um grande iniciado nos conhecimentos ocultos, um grande conhecedor de ramos da filosofia, um grande conhecedor da sabedoria oriental antiga, um grande entusiasta da ciência, um grande especialista em raciocínio geométrico e matemático, etc. Ou mesmo pode seguir num ou mais desses caminhos ao mesmo tempo. Mas não espere apenas vento favorável, nem recompensas garantidas, nem um céu de ócio eterno... Afinal, a Natureza tem sido muito clara com todos nós, por todos esses anos, todas essas eras, e todas essas vidas: não há almoço grátis, os grandes saltos evolutivos se dão exatamente através da “guerra da fome e da morte”, do embate com as adversidades que a vida nos coloca à frente, sempre confiante, sempre esperançosa em nossa própria capacidade divina de suplantar tais barreiras, e melhorar, passo a passo, um pensamento de cada vez.

Feita esta breve advertência, se quiser realmente prosseguir em tal caminho, tentarei lhe auxiliar com algumas das mais profundas cascas de sentimento que conseguir retirar de mim mesmo. Esta provavelmente será uma série longa de artigos, e eu no momento não faço ideia de onde exatamente irá nos levar – e esta é uma “peculiaridade” essencial da mediunidade, e da poesia: ser livre.

Médium, assim, de mim mesmo, todavia subsisto. Sou porém menos real que os outros, menos coeso, menos pessoa, eminentemente influenciável por eles todos. [2]

» Na primeira parte, na sequencia: da remota Sibéria a floresta amazônica, a odisseia da mediunidade através do tempo...

***

[1] Trecho inicial do poema Autopsicografia, de Fernando Pessoa.

[2] Trecho da Carta ao casal Monteiro, de Fernando Pessoa.

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Crédito da imagem: Bernd Vogel/Corbis

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