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14.6.13

Primavera Brasilis

Como sabemos, a Primavera chegou ao Brasil. Com “pleno emprego” e tudo, os jovens ainda assim foram chamados e compareceram as ruas de São Paulo e outras metrópoles da Terra Brasilis. Vimos um médico desnorteado incitando sua polícia à violência. Vimos um professor esquecido das ideologias da juventude. Vimos a “direita” e a “esquerda” alinhando seu discurso e demonstrando o que os que estavam nas ruas já sabiam há tempos: que neste país, não são tão diferentes assim.

Acreditaram que toda a manifestação era “orquestrada” por alguma “liderança oculta”. Acreditaram que ninguém iria dar bola para míseros 20 centavos de aumento das passagens de ônibus. Acreditaram que todos eram vândalos de baixa renda e baixa escolaridade, e que a melhor solução seria a repressão que a polícia militar, a despeito de estarmos a décadas do fim da ditadura, ainda sabe fazer como ninguém.

Deu no que deu. Agora, após até mesmo a Folha de São Paulo haver “mudado de opinião” tão repentinamente, sua preocupação deixou de ser com os míseros 20 centavos e com os vândalos. Agora estão preocupados com a repercussão da violência policial no exterior, com a repercussão da prisão de jornalistas na Anistia Internacional e, principalmente, em saber quem diabos é o “cabeça”, a “liderança oculta”, o sujeito mascarado...

Eu vou lhe dizer quem é o sujeito mascarado, mas só no final. Antes vou falar sobre os manifestantes, os ex-vândalos. Vi um estilista, amante de livros, que resolveu conferir as manifestações ao vivo, e desligou a TV:

Pela primeira vez me senti no lugar correto, para usar o novo jargão do protestante 2.0: “A passeata que fui me representa”.

Finalmente sinto que participei de algo ao lado de pessoas que tinham o mesmo pensamento que eu, que não estavam lá pra defender um partido ou uma causa específica, mas sim por indignação pelo tratamento concedido por parte dos nossos representantes públicos. Diferente dos protestos ao redor do mundo, nós não gritamos “palavras de ordem”. Aqui no Brasil (mais especificamente o que vi e vivi em São Paulo), até os gritos de guerra mais pesados viram festividades em forma de marchinhas: “vem pra rua vem!”. Quem estava lá entende. Não era agressivo. Era festivo.

Sinceramente, seria muito bom se víssemos isso como uma qualidade e não como defeito. A agressividade sendo trocada por chamados de convívio mútuo a de ser comemorada e louvada. Lá, antes das 20hrs, tínhamos tudo, consciência política, participação, voz e alegria. Esta foi a passeata que eu fui e assim ela terminou. Não foi a passeata que assisti pela TV ao chegar em casa, quando aquela minoria que restou resolveu quebrar tudo e roubou as manchetes da melhor e mais bonita manifestação que já participei [1].

Como o governo e a grande mídia gostariam que fossem somente alguns atos passageiros de uma minoria de vândalos. Como o governo e a grande mídia gostariam que fossem manifestações orquestradas por pequenos partidos políticos que ainda acreditam em lendas comunistas do século passado. Pois, fosse assim, eles já saberiam o que fazer. Mas não é assim, não mais. Vi também um jornalista que não teme expor sua opinião:

O esquerdo-direitismo é uma crença semi-religiosa que se tornou a ideologia dominante do mundo no último século. Esquerdo-direitistas são pessoas que acreditam que todo o bem que existe no mundo provém de apenas uma fonte. Há dois tipos de esquerdo-direitistas – aqueles que acham que a fonte de todo o bem é o mercado e aqueles que acham que é o estado. A estes chamamos esquerdistas, aqueles são os direitistas.

No fundo, esquerdistas e direitistas são dois lados de uma mesma coisa. Ambos veem o mundo em apenas duas dimensões, sem profundidade, dividido entre bons e maus. Não admira que esquerdistas transformem-se em direitistas e vice-versa com tanta facilidade – alguns dos analistas mais ferrenhos da direita passaram a juventude militando nas facções mais radicais da esquerda [2].

Vamos aprender política brasileira com o seu maior representante, o PMDB: (passo 1) Estar no poder; (passo 2) Caso não ganhemos a presidência, formar a base aliada do governo; (passo 3) Na base aliada, negociar o maior número de ministérios possível; (passo 4) Sempre que as negociações estiverem emperradas, chantagear o governo. Resultado: Passo 1 sempre garantido de uma forma ou de outra.

No entanto, existem exceções: (a) PT e PSDB nunca podem formar a base aliada um do outro. Quando um não está no poder, é obrigado a ser oposição de verdade (a diferença é que para o PSDB a ficha ainda não caiu); (b) PSTU é um partido efetivamente ideológico, mas que ainda acredita em lendas do século passado; (c) PSOL é um partido efetivamente ideológico, mas que acredita que algo de novo pode surgir neste século. Resultado: na última eleição no Rio de Janeiro (2012) “direita” e “esquerda” massacraram o candidato do PSOL, por que era o único que seguia uma ideologia. 

Os governantes deste país têm nos ensinado que ideologias são muito perigosas. Quem está no poder geralmente não gosta muito delas... Mas se você acha que eu escrevi tudo isso somente para defender o PSOL, está enganado. Nada garante que o PSOL, ao chegar ao poder, não se comporte da mesma forma que outros partidos de oposição que chegaram lá e pouca coisa mudaram. Isto por que o sistema está equivocado, antigo, corrupto. Aqui não se faz Política, se faz um “negócio eleitoral”. O que os que estão no poder mais temem, portanto, é exatamente que a Primavera Brasilis seja apolítica, isto é, Política de verdade: para começar a se refazer Política, antes é necessário fazer uma reforma geral na política. Os “P”s e os “p”s são propositais.

Vi que os manifestantes, em sua grande maioria, não somente não trazem símbolos de partidos políticos, como abominam se envolver com eles. Bandeiras de partidos são somente toleradas, não tem nada a ver com a alma desta Primavera. Os partidos Políticos do futuro ainda irão surgir. Os Políticos do futuro serão jovens, jovens de verdade, independente de sua idade.

Mas, e quem é afinal o tal mascarado?

Agora eu posso lhe contar. Você mesmo pode descobrir quem ele é, e é muito fácil. Dê um jeito de comprar uma dessas máscaras do Alan Moore, depois vá a pelo menos uma manifestação desta Primavera, seja onde estiver no país, e procure observar a tudo com os olhos de um jovem, de uma criança, de um recém-nascido... Caminhe pelas ruas como se elas fossem novas ruas. Observe os transeuntes como se eles fossem, ao menos por breves momentos, parte da sua família. E se alguém lhe apontar alguma arma de fogo ou canhão, lhe entregue uma flor.

Depois retorne para sua casa e, de frente para algum espelho, retire a máscara.

Lá estará o tal mascarado, desmascarado...


Onde a mente encontra-se sem medo e a cabeça é mantida erguida
Onde o conhecimento é livre
Onde o mundo não foi quebrado em fragmentos
Por estreitos muros domésticos
Onde as palavras vêm da verdade profunda
Onde laboriosas lutas esticam seus braços em direção à perfeição
Onde o riacho límpido da razão não perdeu o seu rumo
Afluindo ao triste deserto dos hábitos moribundos
Onde a mente é direcionada adiante por você
A pensamentos e ações sempre em constante afloramento
Nesse céu de liberdade, Pai, deixe meu país acordar

(Tagore)

***

[1] Trechos do artigo de Bruno Passos para o blog Papo de Homem: Contra o aumento das tarifas de ônibus: o protesto que eu não vi pela TV.

[2] Trechos do artigo de Denis Russo Burgierman para a Superinteressante: A maldição do esquerdo-direitismo.

Crédito da imagem: Anonymous

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29.11.11

Intoxicados, parte 3

« continuando da parte 2

A criança que fui chora na estrada / Deixei-a ali quando vim ser quem sou / Mas hoje, vendo que o que sou é nada / Quero ir buscar quem fui onde ficou (Fernando Pessoa)

Por onde andam os mortos

Um homem caminha pelas vielas do inferno. Ele se veste a caráter: parece mais um mendigo, numa das mãos traz um saco com alguns pães que acabou de comprar na padaria, a face foi cuidadosamente maquiada para parecer tão suja quanto às faces dos mortos que perambulam por lá – perdidos das próprias almas, perdidos de suas essências. No entanto, não há nada de sobrenatural nesse inferno... Os seres mortos são apenas mortos em vida, não mortos-vivos; O inferno fica bem no centro da maior cidade do Brasil; Um homem visita a cracolândia.

Uma menina aborda o homem no meio da rua. Parece menor de idade, mas mesmo assim se porta como se não fosse. Ela está suja – suja no corpo, suja no olhar, suja na alma. Mas não há nada mais a oferecer em troca de um pedaço de pão ou, quem sabe, de 30, 20, 10 reais... Ela oferece a alma, ela oferece o olhar... E o corpo. O homem entrega o saco com os pães, e vai-se embora. Ele queria poder ver mais, mas sua estada no inferno, embora breve, já pesava muito em sua própria alma. Por um momento, se imaginou como aqueles que vivem naquela escuridão, nas trevas do inferno terreno, perdido, sem esperança... Caminhando junto aos mortos... Não foi uma boa imagem [1].

O crack é uma droga feita da mistura de cocaína com bicarbonado de sódio e outros pedaços de sujeira pelo caminho. Geralmente, é fumada. A fumaça produzida pela queima da pedra de crack chega ao sistema nervoso central em dez segundos, devido ao fato de a área de absorção pulmonar ser grande. Seu efeito dura de 3 a 10 minutos, com efeito de euforia mais forte do que o da cocaína, após o que produz muita depressão, o que leva o usuário a usar novamente para compensar o mal-estar, provocando intensa dependência. Não raro o usuário tem alucinações e paranoia... Na cracolândia, vive-se em intervalos esporádicos de alguns minutos, numa semivida eufórica e mecânica que se esvai tão logo chega, como um estranho sonho curto em meio a um pesadelo. No resto do tempo, se morre.

Desde 2005, a Prefeitura de São Paulo tem se dedicado, timidamente, a restaurar a área da cracolândia. Sua ideia de restauração passa pelo fechamento de bares e hotéis ligados a prostituição e ao tráfico de drogas, o aumento do policiamento e a desapropriação de centenas de imóveis numa tentativa de criar “bolsões” onde a iniciativa privada se sinta a vontade para investir. Os moradores de rua, catadores de material reciclável e dependentes de drogas que perambulam pelo inferno vão sendo expulsos aos poucos – sabe-se lá para onde, mas certamente hão de levar seu inferno junto com eles... Muitos grupos de menores de rua dependentes, impedidos de caminhar por seu inferno particular, perambulam sem rumo pelos bairros vizinhos. Bandos e bandos de crianças que, mal tendo nascido, já se encontram mortas...

Na verdade, muitas grandes cidades do mundo em desenvolvimento têm suas cracolândias, seus infernos, para onde se dirigem todos aqueles sem rumo, perdidos de suas almas, que deixaram a si mesmos em algum canto, em alguma esquina, em alguma estrada, e nunca mais encontraram... E muitos se dizem sensibilizados, se dizem “cristãos”, mas se sentem mais a vontade o mais longe possível do inferno. Quase ninguém quer ir para o inferno, contanto que lá não se encontre nenhum parente, familiar, ou grande amigo. Ninguém quer em realidade saber de onde andam os mortos: “deixem que fiquem por lá, morrendo, aos poucos, mas longe, muito longe de nós!”.

E tratamos aos dependentes como seres perdidos, sem volta, condenados. Mas não são todos que pensam assim... A Missão Batista Cristolândia, como foi chamada, é a sede de todos os batistas que desejam capacitação no trabalho de evangelização de dependentes químicos e excluídos socialmente. Como apresenta a coordenadora local do Radical Brasil, missionária Soraya Machado: "A Missão é a resposta dos batistas brasileiros a esta atrocidade chamada cracolândia". O quartel general do Radical Brasil está localizado dentro da cracolândia e nesse espaço são oferecidas 300 refeições diárias - café, almoço e janta, espaço para banho, lavanderia, doação de roupas e calçados. Além do amparo social, o investimento espiritual é alto, com quatro cultos por dia nos períodos da manhã, tarde, noite e madrugada... Felizmente, alguns ainda são crentes o suficiente no ser humano, crentes a ponto de imaginarem que podem sim, adentrar ao próprio inferno, e sair de lá não com demônios ou mortos-vivos, mas com pessoas que podem sim viver uma vez mais.

Nós podemos criticar os evangélicos e crentes fervorosos por algumas de suas crenças descabidas, mas enquanto existirem crentes da esperança, crentes da vida que pode vencer a morte, todas as suas exaltações serão não somente perdoadas pelos que adoram a vida, mas admiradas... Nesse aspecto, pouco importa a crença ou descrença de cada um, e sim os frutos de suas obras, sua caridade, seu amor. É muito fácil desistir dos dependentes como se esses não fossem mais seres vivos, como se não tivessem mais almas, ou, pelo menos, como se não houvesse mais nenhuma esperança de as reencontrarem pela estrada... Mas a alma perdura, em meio ao mais pavoroso inferno, nos vales das sombras e da morte, ela não teme o mal, ela permanece ali, impávida, esperando ser resgatada – como a mais pura e inocente criança a chorar pela estrada: “Veja, aqui estou eu. Venha e salva-me! Venha e cuida de mim! Venha e me ame, que eu também te amarei...”

Paracelso já dizia que a diferença entre o veneno e o remédio é apenas a dose. As drogas e os vícios podem sim nos permitir escapar da tristeza perene da vida, mas o custo é alto: é a própria vida. Ao aprendermos a encarar a melancolia de frente, face a face, poderemos quem sabe perceber que mesmo ela, mesmo ela, era apenas uma dose do leve veneno da vida, mas dose esta que também pode virar um grande remédio... Se estamos intoxicados de angústias, devemos também tentar nos intoxicar de alguma sabedoria, e compreender que há sempre tempo de recomeçar – mesmo o nosso próprio corpo, em sua renovação incessante, será um novo corpo assim que nos limparmos do charco de toxinas químicas e nos banharmos na água cristalina de um rio, uma cachoeira, um oceano, ou da própria vida.

E então, quem sabe, poderemos passar a nos intoxicar da única substância que, independente da dose, só nos fará avançar, mais e mais, cada vez mais, para um céu de liberdade, e felicidade – sejamos todos dependentes do amor, e apenas dele, para que todos os infernos se façam céus, toda a indiferença se faça dor, e toda compaixão, fortaleza intransponível.

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[1] Este trecho foi inteiramente baseado no depoimento de um amigo.

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Crédito das fotos: [topo] AMCCE; [ao longo] ALESP

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