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16.3.19

Parmênides, Heráclito e a disputa pelo Ser

Em boa medida a história da filosofia se construiu pelo embate de ideias, principalmente no Ocidente. Hoje em dia é comum analisarmos qualquer embate do tipo, também chamado de “treta”, como uma disputa onde um lado precisa humilhar o outro, mas nem sempre foi assim... Na verdade, de um embate de ideias virtuoso, onde pedras se chocam não para tirar lascas umas das outras, mas para produzir faíscas de pura luz, é que surgiu o incêndio do pensamento genuinamente filosófico; e tal fogo arde até hoje, apesar dos séculos.

Que se saiba, o primeiro grande embate entre ideias da filosofia ocidental ocorreu na antiga Grécia, pouco antes do nascimento de Platão. Tal embate contou com duas posições antagônicas – Parmênides de Eleia e Heráclito de Éfeso –, e aquele que de alguma forma sintetizou suas ideias, o grande Sócrates.

Parmênides e o Ser
Tudo indica que Parmênides escreveu somente uma única obra, um poema intitulado Da Natureza, que sobreviveu aos séculos a partir da citação de fragmentos nas obras de outros autores. Assim, o que nos resta do seu pensamento são somente fragmentos copiados do original. Ainda assim, tais fragmentos possuem trechos tão profundos que influenciaram inúmeros pensadores posteriores, do próprio Platão a Benedito Espinosa, já dezenas de séculos depois.

Seu poema também fundou a ontologia, a ciência (logoi) do ser (ontos). Basicamente, o que Permênides defende é que tudo o que há, foi ou será é parte de um mesmo Ser, que não pode jamais ter deixado de existir, nem por um momento. Assim, tudo o que existe é parte do que é e sempre foi e sempre será, o Ser. Em suas palavras:

Como poderia [o Ser] ter sido gerado? E como poderia perecer depois disso? Assim a [sua] geração se extingue e a [sua] destruição é impensável. Também não é divisível, pois que é homogêneo, nem é mais aqui e menos além, o que lhe impediria a coesão, mas tudo está cheio do que é. Por isso, é todo contínuo; pois o que é adere intimamente ao que é.

Talvez a melhor forma de explicar tal ideia nos tempos atuais seja compará-la ao conceito do tecido espaço-temporal: se é que existe apenas este universo em que vivemos, fato é que não há nada “fora dele”, pois desde o Big Bang vivemos dentro do mesmo espaço-tempo, sendo até mesmo o próprio tempo somente mais uma das dimensões deste “todo”. Muita gente, até mesmo cientistas, até hoje se choca e se encanta com tal pensamento: pois bem, Parmênides foi um dos primeiros homens a concebê-lo em toda a sua profundidade!

No entanto, o grande “problema” do pensamento de Parmênides, e que lhe rendeu inúmeros críticos ao longo da história, é que a partir do pressuposto lógico de que só existe um único Ser do qual tudo o mais é parte derivante, ele se dedicou a refletir sobre a imutabilidade deste Ente, e aparentemente chegou a surpreendente conclusão de que nada no mundo de fato muda, e que a própria mudança, ou a própria percepção do tempo, é nada mais que uma ilusão causada por nossos sentidos falhos.

Ora, não foi a primeira nem a última vez que um filósofo extrapolou um pensamento lógico e o transportou diretamente para a nossa realidade subjetiva; mas sem dúvida foi, até hoje, uma das formas mais brutais com que isto foi feito.

(Dito isso, em meio aos fragmentos de seu poema, nos chegou um (III) em que lemos tão somente: ...pois o mesmo é pensar e ser. Teria sido extraordinário se mais algum trecho dessa parte do poema tivesse sobrevivido.)

Heráclito e o “fogo sempre vivo”
Diz-se que o grande contraponto a tal ideia de imutabilidade surgiu de Heráclito, um filósofo que viveu mais ou menos na mesma parte do mundo, e que provavelmente nasceu enquanto Parmênides ainda era vivo. É difícil cravar, no entanto, que Heráclito tomou contato com o pensamento de Parmênides. Fato é que a obra que lhe foi atribuída pelo historiador Diógenes Laércio tinha um título quase idêntico: Sobre a Natureza. Mas isto por si só não deveria ser grande motivo de surpresa, uma vez que era justamente sobre a natureza que muitos pensadores daquela época se dedicavam (aliás, até poucos séculos atrás, muitos cientistas ocidentais na realidade se autointitulavam “filósofos da natureza”).

Diógenes também acusou Heráclito de escrever de forma “obscura, próxima das sentenças oraculares”. Ademais, também nos chegaram tão somente fragmentos de sua obra – infelizmente, em número ainda menor do que os de Parmênides. Dessa forma, o que se sabe se seu pensamento é, em boa medida, mais uma construção tardia do que algo embasado.

Ao contrário de Parmênides, Heráclito ficou famoso pela defesa da ideia oposta à imutabilidade: “tudo flui” (panta rei) ficou conhecido como o seu grande “mantra”. Por exemplo, um trecho particularmente famoso de sua obra fala do fluxo dos rios (XII):

Para os que entram nos mesmos rios, afluem sempre outras águas.

Assim, imaginando esta cena de um homem atravessando um rio, podemos claramente conceber que, a despeito do mesmo rio poder permanecer séculos atravessando o mesmo local, em nenhum momento é a mesma água que corre através dele. Dessa forma, se um homem atravessa este rio pela manhã, quando retorna pela tardinha, e o atravessa novamente, já está a atravessar outro rio: as suas águas já não são as mesmas.

Ora, Parmênides poderia afirmar que na realidade é uma ilusão sensorial que faz com que acreditemos que o Ser se modificou na medida em que as águas desceram pelo rio. Mas então, será mesmo que Heráclito se colocaria diametralmente em oposição a ele? Honestamente, eu tenho minhas dúvidas...

O Ser imutável de Parmênides não é o mesmo que o rio mutável de Heráclito, dentre outras razões pelo fato de o rio ser somente a parte de um “todo”. Heráclito jamais negou este “todo”, que ele chamava de Logos; de fato a sua obra se inicia assim:

Com o Logos, porém, que é sempre, os homens se comportam como quem não compreende tanto antes como depois de já ter ouvido [acerca dele]. Com efeito, tudo vem a ser conforme e de acordo com este Logos...

E nos trechos XXX e XXXVI temos complementos poderosos a esta ideia:

O mundo, o mesmo em todos, nenhum dos deuses e nenhum dos homens o fez, mas sempre foi, é e será, fogo sempre vivo, acendendo segundo a medida e segundo a medida apagando.

Para os ventos, morte vem a ser água, para a água, morte vem a ser terra; mas da terra nasce a água, e da água, [nasce] o vento.

Para Heráclito, portanto, tudo o que existe jamais poderia ser resumido em mera “mudança” (como alguns intérpretes supuseram, de maneira preguiçosa), mas antes às infindáveis mudanças do Logos, ou do “fogo sempre vivo”.

A reconciliação platônica
Segundo Platão, Sócrates teria reconciliado e sintetizado as ideias de Parmênides e Heráclito no célebre mundo das ideias, onde as formas perfeitas subsistiam imutáveis, para que seus reflexos pudessem existir de forma mutável no mundo sensível; isto é, neste mundo que vemos com os olhos e cheiramos com o nariz.

Pois bem, esta é uma das formas de reconciliar tais ideias... mas, será que elas precisavam mesmo de uma síntese tão extravagante? Seriam elas assim tão opostas, no final das contas?

A Substância de Espinosa
A despeito de ser usualmente listado como grande defensor da vertente de Parmênides, Benedito Espinosa, o grande filósofo holandês, parece ter alcançado uma síntese bem mais lógica e profunda em sua obra-prima, a Ética demonstrada à maneira dos geômetras.

Logo no início da obra, Espinosa chega a sua grande declaração lógica, que afirma que “uma substância não poderia gerar a si mesma”. Assim sendo, fica claro que a Substância de Espinosa se assemelha ao Ser de Parmênides.

No entanto, para Espinosa o fato de existir uma só substância não quer dizer que as suas infindáveis subdivisões sejam mero fruto de uma onipresente ilusão sensorial: nada disso, as coisas poderiam se modificar sem perder a sua essência substancial, as águas de um rio poderiam correr por séculos sem que o rio deixasse de ser rio.

Nesse sentido, a ideia de Espinosa para a Substância também se casa perfeitamente com o Logos, o “fogo sempre vivo” de Heráclito. O fato de haver mudança constante no mundo não significa que nada tenha uma essência, uma substância da qual deriva em última instância.

E fica ainda mais simples compreender se retornarmos à ciência: disse Lavousier que “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Ora, se de fato é assim (e até agora a ciência não provou o contrário), isto significa que os mesmos átomos que formavam o hélio e o hidrogênio do início deste universo ainda estão aqui, e se acaso elementos pesados foram formados no núcleo das estrelas, e se acaso se formaram o Sistema Solar, a Terra e os seres humanos, nada disso quer dizer que o espaço-tempo deixou por um momento sequer de existir.

Assim, seja Ser, Logos ou Substância, tudo o que é, foi e será continua sendo o mesmo Cosmos. E nós somos uma forma do Cosmos conhecer a si mesmo. Nós somos aqueles que atravessam os rios, e os rios correm para sempre, embora jamais sejam, por um momento sequer, o que foram antes, ou o que virão a ser.


raph

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Bibliografia
Os pensadores originários. Anaximandro, Parmênides e Heráclito. Editora Vozes de Bolso.
Da natureza. Parmênides. Edições Loyola.
Parmênides. Platão. Editora PUC Rio e Edições Loyola.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Parmênides); [ao longo] Ben Blennerhassett/unsplash

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7.8.18

O Mito da Caverna no século 21 (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo trago uma breve porém detalhada descrição de todos os passos da famosa alegoria da caverna de Platão. Vamos analisar como este antigo mito não só pode, como deve ser transportado para o nosso tempo, o nosso século, e reinterpretado por cada um de nós: pois é somente você quem poderá sair da caverna e ver o mundo lá fora por si mesmo, ninguém poderá fazer esta travessia em seu lugar.

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


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6.8.18

A psicanálise ainda é necessária?

O mundo moderno nos faz questionar a necessidade de terapia. Afinal, com os avanços da biologia do comportamento, a descoberta das influências químicas sobre o nosso humor, poderíamos trocar anos de análise por um medicamento receitado pelo psiquiatra.

Os tempos modernos exigem também agilidade na solução dos problemas. Não temos tempo para investigar suas causas. Precisamos de uma técnica eficiente, rápida e barata, para logo nos sentirmos funcionando bem.

Será que a psicanálise ainda é necessária nesse mundo? A resposta é sim, mais do que nunca. Há um engano perverso em acreditar que se pode curar-se de um envenenamento ingerindo mais veneno, mas assim agem aqueles que esperam da racionalidade moderna a saída para sofrimentos que são eminentemente modernos.

Por trás da demanda de solução rápida está a própria ansiedade, que sem repensá-la nunca se poderá estar em paz com nada.

Dos comprimidos de felicidade esperam-se mudanças sem responsabilização, como se o destino sempre dependesse de alguém ou algo que não si próprio.

Sócrates havia dito que uma vida sem reflexão é uma vida que não merece ser vivida. Pois parece que aceitamos que, na demanda de praticidade do mundo moderno, em que cada app do seu celular faz o trabalho duro de cem homens, não temos mais por que refletir. Sobretudo refletir sobre nós mesmos.

É preciso reconhecer que o padecimento nos diz outra coisa. Há mais da vida que uma existência irreconhecível, arrastada por um tempo cotidiano incontrolado, em que o contentamento se resume a ansiedade de qual será nosso próximo consumo.

Se alguns pensam monótono, deitar-se no divã do psicanalista resiste hoje como uma oportunidade de aventura para aqueles que ainda ousam desbravar a vida.

Resta algo de místico da psicanálise: o psicanalista como iniciado em sua própria análise sobre os segredos e paradoxos do desejo, e que agora está disposto a receber um neófito para auxiliá-lo em sua jornada pessoal. Há uma sabedoria que se transmite na experiência, que está para além de cursos e livros.

Contra todas as demandas modernas que nos dizem “não pense, apenas faça”, a psicanálise nos convida a refletir sobre a nossa estética existencial. Nosso lugar, escolhas, gozos e perspectivas. Fazendo valer o discurso socrático, é tomar o caminho de uma vida que vale a pena a ser vivida.

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Nine Köpfer/Unsplash

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23.2.17

Sócrates e a discordância construtiva

Texto por José Francisco Botelho em A Odisseia da Filosofia (Ed. Abril). Os comentários ao final são meus.

Dialética é uma dessas palavras escutadas com frequência, mas cujo sentido geralmente fica embotado pela fora do hábito e o peso do jargão. Na Antiguidade, contudo, ela tinha um significado claro: era a utilização do diálogo como ferramenta filosófica.

Para entender de que forma Sócrates transformou a história da dialética, vamos fazer uma recapitulação rápida – pois o sentido das coisas fica mais claro quando elas são comparadas com o que veio antes e depois. No início do século 5 a.C., Zenão de Eleia criou a dialética erística: um tipo de discurso em que o filósofo antecipa os contra-argumentos de seus adversários e utiliza-os para defender sua própria tese. No caso de Zenão, o debate era apenas imaginário: a palavra final ficava sempre com o autor da obra.

Depois, veio o diálogo sofístico, que era praticado face a face, entre dois interlocutores reais. Os sofistas não estavam interessados em descobrir grandes verdades; utilizavam o diálogo como ferramenta retórica, para vencer debates e influenciar a opinião do público. Aí entra o toque particular de Sócrates: para ele, o diálogo era um método de buscar a verdade por meio de perguntas e respostas. Ao contrário dos sofistas, ele partia do princípio de que a mente humana pode, sim, captar a realidade final das coisas – desde que assuma a sua ignorância de antemão.

Para os sofistas, o mais importante na filosofia era o uso persuasivo da linguagem – a verdade seria apenas uma questão de perspectiva e o que realmente importava era a habilidade em defender qualquer ponto de vista. Já Sócrates acreditava que a linguagem era uma ferramenta, e não um fim em si mesma. E, enquanto Zenão de Eleia usava a dialética com o objetivo de defender um ponto de vista decidido de antemão, os diálogos socráticos têm final aberto. Sócrates alimentava a dúvida, para que a verdade não fosse sufocada pelo peso das ideias falsas.

A teoria está explicada; mas, na prática, como funcionava o diálogo socrático? Sócrates geralmente começava lançando perguntas aparentemente simples sobre assuntos supostamente básicos: O que é o amor? O que é virtude? O que é educação? Em seguida, analisava cada resposta de forma implacável, questionando cada palavra e cada conceito usado por seus interlocutores – mas (e isso é muito importante) o questionamento socrático era sempre feito em tom amigável, sem arrogância, em uma tentativa de construir o conhecimento de forma partilhada, coletiva.

Existe no método socrático uma provocação atualíssima, que parece feita sob medida para o nosso século, cheio de som, fúria e desrazão. A arte do diálogo, conforme praticada por Sócrates nas tardes e noites de Atenas, era ao mesmo tempo implacável e civil. Implacável porque colocava em cheque todas as certezas herdadas, sem pruridos. Civil porque, se demolia ideias humanas, fazia-o em nome da humanidade, com o intuito de tornar possível uma sabedoria sem pés de barro.

A dialética de Sócrates não servia para defender posições arraigadas; lançava-se, cortesmente, contra todas elas. Partia do princípio de que a verdade absoluta não é monopólio de nenhum dos interlocutores; mas, contrapondo-se as aparentes verdades individuais, podia-se abrir caminho para uma visão mais clara e sólida das coisas. Em outras palavras: para Sócrates, a discordância não era uma força negativa, mas construtiva. Dois mil e quatrocentos anos se passaram e ainda estamos por assimilar essa lição.

Aqueles que ousassem embarcar na afável demolição socrática acabavam com uma impressão inquietante, mas potencialmente salutar: a de que todas as suas certezas eram relativas e, portanto, precisavam ser revistas. O objetivo de Sócrates era, exatamente, lançar o interlocutor em uma espécie de vazio – mas um vazio onde novas reflexões poderiam surgir, desimpedidas, em livre fluxo. “O alvo do método socrático”, escreve Richard Robinson em Plato’s Earlier Dialectic, “é arrancar os homens de sua sonolência dogmática e despertá-los para a verdadeira curiosidade intelectual”.

Como exemplo, vamos dar uma olhada no diálogo Laques, de Platão [ou seja, uma conversa entre Laques e Sócrates]:

“Laques, você acha que a coragem é algo bom ou reprovável?”

“Algo bom, certamente.”

“E quanto à tolice? É também uma coisa boa?”

“De forma alguma, Sócrates. A tolice é reprovável.”

“Imaginemos agora dois homens. Um sabe mergulhar, o outro nunca entrou na água. Ambos são desafiados a fazer um mergulho até o fundo do mar. Ambos aceitam o desafio, com grande perseverança de espírito. Qual dos dois é o mais corajoso?”

“O que não sabe mergulhar, é claro.”

“Contudo, qual dos dois é o mais tolo? O que tem o devido conhecimento técnico das artes do mergulho, ou o que se enfia na água sem mal saber nadar?”

“O mais tolo, nesse caso, é o mergulhador inexperiente.”

“Você havia me dito que a coragem é algo bom, enquanto a tolice é reprovável. Mas agora chegamos à conclusão de que, nesse caso, o mais corajoso não é o mais perseverante, e sim o mais tolo.”

“É fato, Sócrates.”

“Você continua achando que sua definição está correta?”

“De forma alguma. Eu estava errado. Que coisa estranha, Sócrates! Parece que não consigo expressar em palavras o que parecia claro em meu pensamento; sinto que sei o que é a coragem, mas, se tento defini-la, ela me passa a perna e foge de mim.”

“Ora, meu caro Laques, sejamos então como o bom caçador, que jamais desiste de perseguir sua presa. Tenhamos perseverança de espírito. Avante!”

Nesse lapidar diálogo socrático, o filósofo não estava sugerindo que a coragem fosse algo inútil ou estúpido – afinal de contas, ele próprio dera mostras exemplares de bravura no campo de batalha [Sócrates foi soldado ateniense em sua juventude]. O que Sócrates demonstrou é que, na maior parte das vezes, não sabemos direito sobre o que estamos falando – mesmo quando falamos de assuntos aparentemente elementares.

E assim, de interlocutor em interlocutor, Sócrates ia demolindo certezas: tornou-se, em suas próprias palavras, um “vagabundo loquaz”, andando por Atenas a fazer perguntas e mais perguntas a quem se dispusesse a respondê-las. Sua amistosa impertinência conquistou muitos seguidores entre os jovens atenienses. Além de Platão, o encantamento socrático também seduziu Alcibíades, seu companheiro de batalhas.

No Banquete, o jovem guerreiro descreve desta forma o efeito de Sócrates sobre a mente dos ouvintes entusiastas: “Quando escuramos Sócrates, pensamos inicialmente que seus discursos são ridículos: pois, no exterior, estão cobertos por frases e palavras absurdas. Mas, quando olhamos mais a fundo, descobrimos que as palavras de Sócrates são as únicas que realmente fazem sentido”.


Comentários
Pode parecer simples resumir as três vertentes da dialética, e ainda explicar a essência do diálogo socrático em poucos parágrafos. Mas passa longe de ser: outros que se meteram a tentar explicar a vasta história da filosofia ocidental precisaram de muito mais palavras. José Francisco Botelho, escritor e tradutor do sul do Brasil, é um mestre em passar esse tipo de conhecimento filosófico adiante. Eu o conheci inicialmente lendo seus memoráveis artigos para a revista Vida Simples. Depois o encontrei também como colunista da Veja. Mas foi neste livro, encontrado ao acaso numa banca de jornal, que pude compreender toda a extensão da sua habilidade para resumir conceitos grandiosos em parágrafos muito fáceis de serem lidos.

Outros autores precisaram de muitas centenas de páginas para explicar de forma aprofundada a história da filosofia no Ocidente. José precisou de menos de 300. Mas todo o seu cuidado em usar tais páginas da melhor forma possível é claro e evidente ao longo da obra. Se você quer conhecer mais sobre a filosofia, não existe introdução melhor e mais eficiente do que A Odisseia da Filosofia, que ainda pode estar dando bobeira numa banca ou livraria a poucos metros da sua casa. Não perca essa oportunidade!

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Crédito da imagem: Louis J.Lebrun (Socrates speaks)

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28.8.15

Memes para reflexão, parte 2

« continuando da parte 1

(clique nas imagens abaixo para abri-las em nossa galeria de memes no Facebook)

Sócrates
No início eu estava sem muitas ideias, e achei por bem pesquisar por “memes filosóficos” no Google. Encontrei pouca coisa que me interessou, mas este sobre Sócrates, que achei originalmente em inglês, me pareceu um meme digno para iniciar a série.

Há mesmo muitas formas de se analisar a afirmação que o grande sábio de Atenas não se cansava de repetir: “Tudo o que sei é que nada sei”. Muitos talvez a achem incompreensível, afinal se você sabe que não sabe, é porque já sabe alguma coisa. Outros provavelmente a consideram alguma espécie de “falsa modéstia”, já que Sócrates vencia praticamente todas as suas discussões “mesmo sem saber de nada” (também existem memes sobre isso online).

Na verdade, eu creio ser exatamente o oposto da “falsa modéstia”, e daí o meme ter me interessado... Talvez seja mais fácil me fazer entender através de um pequeno experimento mental:

Imaginemos que tudo o que sabíamos antes de entrarmos no colégio formasse um círculo de raio “x” em torno de nós mesmos. A “borda” desse círculo seria o nosso contato com “o desconhecido”, e na medida em que vamos aprendendo, dia após dia, aula após aula, pensamento após pensamento, este círculo vai crescendo junto como nosso novo conhecimento adquirido...

Ora, no dia em que nos formamos no colégio este círculo pode ter crescido enormemente, para um raio de “20x” ou “100x” ou “1000x”, não importa, o que importa é que na medida em que a “borda” do círculo vai crescendo, a nossa fronteira com “o desconhecido” vai se tornando cada vez mais extensa.

É como a física de partículas, que descobriu o átomo, depois os prótons, nêutrons e elétrons, e finalmente os quarks. Ou a cosmologia, que descobriu que na verdade cada estrela era um sol, e depois que havia algumas galáxias além da Via Láctea, e finalmente que há incontáveis galáxias viajando pelo espaço em grandes aglomerados. Ou seja: cada vez que aprofundamos nosso conhecimento da natureza, surgem mais questões, e mais vias a serem trilhadas.

E, se o conhecimento do que há lá fora é tão vasto, nada indica que o conhecimento do que há dentro de nós mesmos, ainda que nem sempre puramente objetivo, fique atrás.

Assim sendo, faz muito sentido encarar esta existência de maneira mais socrática, mais humilde, e considerar que o que sabemos é uma gota d’água perto do oceano do que ainda falta conhecer. Não nos adianta muita coisa, portanto, amar a Sócrates e ignorar solenemente o seu exemplo de vida.


Lúcifer
Embora Isaías muito provavelmente estivesse se referindo a um antigo rei da Babilônia, através de metáforas, quando relatou a sua “queda do céu” no Antigo Testamento, fato é que o mito do Anjo Caído se tornou extremante popular nos últimos milênios. Bem, é sobre este mito que quis me referir ao trazer o primeiro meme da série de minha autoria (como, aliás, o são todos os demais a partir daqui).

A despeito dos inúmeros problemas lógicos em se crer numa entidade que é “oposta ao Criador” mesmo tendo sido criada por ele (como tudo o mais), o que sempre me interessou na ideia do Anjo Caído é a questão incômoda acerca da sua insistência milenar na ignorância.

Pois, pensem bem, ainda que você tenha se rebelado contra o Criador, ainda que tenha atraído um enorme exército de seguidores para “combater a sua luz”, como você esperaria ganhar tal batalha?

Ora, se todos somos filhos do Criador, se todos nós somos formados por sua substância, como seria possível vencer? Antes de montar um exército para tentar assassinar Deus, deveríamos obviamente começar por nós mesmos, já que também somos formados por Deus... Seria muito mais lógico nos matar. E, de fato, qualquer suicida provavelmente causa mais dor a Deus do que todas as tentativas de “invasão do céu” pelas hordas infernais, pois a simples ideia de “invadir o céu a força e, sei lá, humilhar a Deus (?)” é absurda.

Outros podem argumentar que Lúcifer, sabendo muito bem que não tem como vencer, se dedica apenas a “roubar almas” de Deus, as corrompendo. Mas, ainda que ele aumentasse enormemente o seu exército usando deste expediente, no fim das contas do que adiantaria tudo isso? Fato é que a sua batalha continuaria sendo invencível.

Assim sendo, se esse tal Anjo Caído de fato ainda não se arrependeu e abandonou a ignorância após tanto tempo, ou ele é apenas uma espécie de fantoche, ou autômato, “programado” pelo Criador para exercer a sua função de “rei das trevas”, ou ele é simplesmente o maior bode expiatório que já existiu!

» Em breve, + memes!

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Crédito das imagens: Raph/Google Image Search

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12.8.15

Entre a esquerda e a direita: os comentários (parte final)

Parte da série “Entre a esquerda e a direita”, onde Alfredo Carvalho e Igor Teo responderam minhas perguntas, e agora estou comentando os assuntos abordados. Para conhecer mais sobre a proposta da série e seus participantes, não deixe de ler nossa apresentação.

Entre a pobreza e a desigualdade
Os seus críticos dizem que é o livro mais vendido e menos lido dos últimos tempos, mas fato é que desde que publicou O Capital no Século 21, Thomas Piketty foi subitamente catapultado ao posto de “economista pop star”, algo que certamente não temos visto com tanta frequência por aí.

A tese principal que o economista francês traz ao mundo em sua obra, amparada por calhamaços de estudos e estatísticas econômicas, é a de que os países desenvolvidos vêm registrando uma elevação da concentração de renda num ritmo consideravelmente mais rápido do que o próprio crescimento econômico. Ora, isto significa basicamente dizer que, sob o signo do capitalismo moderno, a desigualdade entre os ricos e os pobres vem se tornando um abismo cada vez mais instransponível. Ele tem razão?

Na verdade, não poderia estar mais correto. E não é que essa desigualdade seja algo “concebível”, como aquele varejista que tem uma renda 20 vezes maior do que um dos seus gerentes de setor, ou aquele milionário “bem nascido” que recebeu uma herança superior ao patrimônio total de todos os habitantes de uma cidadezinha de Minas, não, é algo que realmente vai além da imaginação: estamos falando de algumas pessoas que detém mais riqueza do que o PIB de inúmeros países somados.

Um estudo apresentado pela entidade Oxfam às vésperas do Fórum Econômico Mundial de Davos, no início de 2015, demonstrou que a eclosão da crise econômica mundial, em 2008, fez com que o ritmo da desigualdade se acelerasse ainda mais. Segundo o estudo, em 2009, os 1% mais ricos do planeta acumulavam cerca de 44% do PIB global; em 2014, chegamos a relação de 1% para 48%; e, em meados de 2016, a previsão é a de que os 1% mais ricos deterão metade das riquezas do mundo. Não sei quanto a vocês, mas sempre que penso nisso me dá a impressão de que a desigualdade é tão avassaladora que simplesmente não conseguimos concebê-la racionalmente, ou talvez simplesmente não queiramos pensar muito sobre o assunto...

Já li muitas críticas às estatísticas que Piketty usou como base para elaborar sua tese. Mas, ainda que ele tenha errado num ou noutro cálculo, fica muito difícil desmontar a essência da sua tese. É fato, a desigualdade no mundo sempre foi grande, mas hoje está atingindo níveis simplesmente estratosféricos. E sabem por quê? Porque na realidade nunca acumulamos tanta riqueza – no passado éramos mais pobres por igual, e hoje somos mais ricos, embora de maneira enormemente desigual.

Essa constatação histórica do desenvolvimento da economia humana, juntamente com a ciência e a tecnologia, é precisamente a única forma viável de contrapormos as ideias de Piketty. Neste sentido, acredito que o economista italiano radicado nos EUA, Luigi Zingales, seja a voz mais sã a se levantar e analisar de forma crítica o best-seller de Piketty.

Como professor da Universidade de Chicago, Zingales está literalmente no centro do pensamento liberal, e como tal, traz aquela outra visão que muitos simpatizantes da esquerda fazem questão de ignorar, a de que, se o capitalismo moderno trouxe muita desigualdade, também trouxe muita riqueza. Assim, chegamos àquela pergunta fatídica: É melhor sermos pobres por igual, ou relativamente ricos, enquanto uma pequena elite se torna absurdamente rica?

Vamos deixar esta resposta para depois. Primeiro, é preciso considerarmos que, a despeito de suas visões de mundo, nem Zingales nem Piketty podem ser situados precisamente nas extremidades da esquerda ou da direita, como aliás é comum com todos os grandes pensadores...

Quando perguntado por um repórter da Folha de São Paulo sobre a relação do título do seu livro com a obra-prima de Karl Marx, numa alusão a possiblidade de ser um comunista ou anticapitalista, Piketty respondeu assim:

“O problema é que há gente que vive ainda na Guerra Fria e tem necessidade de inimigos anticapitalistas. Não sou esse inimigo. Creio no capitalismo, na propriedade privada e nas forças do mercado.

Nasci tarde demais para ter a menor tentação que seja pelo comunismo de tipo soviético. Isso não me interessa. Ao mesmo tempo, acho que temos necessidade, basta ver a crise de 2008, de instituições públicas muito fortes para regular o mercado financeiro e as desigualdades produzidas pelo capitalismo.”

Pulemos então para a entrevista com Zingales no Estadão. Quando lhe perguntaram se existe alguma intervenção aceitável do Estado na economia, eis o que ele disse:

“O mercado precisa de regras para operar. A pergunta é quem vai implementá-las e mantê-las funcionando. Mas, além disso, é importante entender que a criação de uma rede de proteção social pode ser considerada uma intervenção pró-mercado.

Os empreendedores buscam com frequência lobbies para conseguirem subsídios. Quando uma empresa está prestes a falir, o empresário diz que precisa de ajuda porque os trabalhadores vão ficar desempregados. O meu ponto de vista é que, se temos uma boa proteção social, não é preciso se preocupar com os trabalhadores, e as empresas podem falir sem problema. Num modelo de livre mercado, as empresas precisam falir, mas os indivíduos não precisam sofrer.”

Ora, é impressão minha, ou parece que os baluartes do socialismo e do neoliberalismo chegaram a concordâncias surpreendentes sobre a economia e a política?

Vejam bem que nem Piketty nem Zingales pretendem carregar tais alcunhas, e ainda que fosse o caso, muitas vezes “socialismo” e “neoliberalismo” são somente palavras cujos significados se perdem na complexidade de um mundo de ideias cada vez mais conectadas, um fluxo onde quase tudo parece poder mudar da noite para o dia.

No fundo, ambos estão defendendo um capitalismo de real livre mercado, livre dos grandes monopólios, cartéis e lobbies políticos, onde nenhuma empresa possa ser “grande demais para quebrar”, mesmo que ela seja um banco, precisamente porque haverá uma rede de proteção e bem estar social capaz de cuidar de uma nova leva de desempregados, até que novas empresas possam absorvê-los. Isso nada mais é do que o socialismo e o capitalismo andando de mãos dadas, às vezes um pouco mais a direita, às vezes um pouco mais a esquerda. Ou seja, o grande terror dos extremistas, mas quem sabe a única solução para o mundo atual...


A resposta para o amanhã
Pobreza ou desigualdade? Privacidade ou segurança? Estado ou Mercado? Socialismo ou capitalismo? Esquerda ou direita?

A verdade é que, se quisermos nos certificar de que teremos um futuro melhor do que o presente, nós devemos responder tais perguntas em debates amigáveis, ou reuniões políticas onde tanto o governo quanto a oposição não somente tenham a voz assegurada, mas que, sobretudo, tenham uma ideologia genuína, e se prestem a defender no poder aquilo que sempre defenderam antes de chegarem ao poder.

Pois nada é mais distante da Política do que este Grande Negócio Eleitoral, onde os discursos são escritos por marqueteiros, e não por estadistas.

Pois nada é mais nefasto para a Política do que ter um grande partido político de ideologia incerta, que ora defende isto, ora aquilo, de acordo com a direção do vento, ou do bocado do Orçamento que conseguirá abocanhar em acordos obscuros em prol da garantia da “boa governança”.

Assim, eu prefiro não responder a nenhuma dessas questões, mas deixá-las em aberto para que vocês, da Mansão do Amanhã, possam não somente refletir sobre elas, como quem sabe até encontrarem alguma inspiração para se aventurarem na Política, com “P” maiúsculo.

Quando foi condenado pela polis ateniense por corromper seus jovens discípulos com novas ideias, foi dada a Sócrates a opção de se exilar e evitar a morte pela ingestão de veneno. O grande filósofo optou por permanecer em sua polis e aceitar o veredito. Há muitos que dizem que sua decisão se baseou inteiramente em seu enorme respeito para com a Justiça de Atenas. Mas, creio eu, talvez o velho sábio não encontrasse muita utilidade em prosseguir com sua existência, se não fosse para incitar os jovens a terem novas ideias...

Assim, ao não aceitar o exílio em troca da própria vida, Sócrates também se recusou a deixar que suas ideias fossem exiladas do mundo. O que essa bela história nos ensina é que a única resposta possível para o amanhã deve necessariamente partir do Amanhã.

Portanto, não é somente reclamando dos nossos representantes no Executivo, no Legislativo e no Judiciário que iremos conseguir mudar alguma coisa mais depressa. Se você quer realmente que este país chegue a ser, finalmente, o “país do futuro”, não há melhor caminho do que ser, você mesmo, um ser da Política.

E, se você é jovem, há todo um universo de possibilidades em aberto. Se for o caso de seguir neste caminho, tão sagrado quanto profano, lembre-se de que a Política não se faz em gabinetes, departamentos ou centrais sindicais isoladas a esquerda ou a direita; a Política se faz entre a esquerda e a direita.


Não há nada de errado com aqueles que não gostam de política.
Simplesmente serão governados por aqueles que gostam.

(Platão)

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5.8.15

Alumínio

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Há algum tempo atrás li num livro que Napoleão, o imperador da França, tinha uma pequena coleção de talheres de alumínio, e que os guardava somente para si e os seus convidados mais ilustres. Os demais usavam talheres de ouro mesmo.

Isto porque, na sua época, a produção de alumínio em larga escala havia sido recém-descoberta, e ainda era tão cara que os talheres ou joias feitos de alumínio tinham muito mais valor do que os mesmos forjados em ouro. Somente algumas décadas depois, ao final do século XIX, é que novas descobertas científicas permitiram que a produção de alumínio se tornasse bem mais barata [1].

Mas não consta que durante o reinado de Napoleão os alquimistas franceses tenham substituído o ouro pelo alumínio. Que eu saiba, eles continuaram tentando transformar o seu chumbo em ouro, como antes.

Ocorre que o ouro dos alquimistas nada tinha a ver com o ouro dos talheres comuns de Napoleão. Se tratava de um ouro mais etéreo, mais espiritual, mais simbólico. Um ouro, de fato, muito mais difícil de produzir do que aquele ouro mais comum. No entanto, um ouro que não se sujeitava as leis de escassez, da oferta e procura – enfim, um ouro que nunca esteve à venda.

Outra importante consideração a fazer sobre os alquimistas é que eles não valorizavam seus mestres pelo seu peso em ouro, mas sim pela sua luminosidade.

Na antiga Atenas um grande mestre das ideias também se tornou puro ouro. Mas ele fazia questão de ressaltar que nada sabia. As ideias tinham valor por si mesmas, ele provavelmente pensava, e o fato de orbitá-las não o fazia seu dono, apenas o seu divulgador. Ele era apenas um espelho devidamente polido, tudo o que fazia era refletir alguma luz vinda sabe-se lá de onde...

E se ele repetia há todo momento que tudo o que sabia era que nada sabia, é porque era sábio o suficiente para compreender a grande e vil armadilha que se arma para aqueles que julgam que o seu ouro é sua propriedade, e não a propriedade de toda a humanidade.

Pois que se a fonte dourada é represada pelas alucinações do ego, ela perde a sua pureza, e se torna fétida.

Afinal, aquele que se torna imperador de si mesmo produz não talheres, mas o próprio alimento para todos aqueles que vagam por este mundo, esfomeados e desamparados. São eles quem precisam ser alimentados, e não o ego!

Assim, o sábio que conquistou os seus próprios países, que marchou sobre a própria sombra e a trouxe para o seu exército, dispõe de riqueza inimaginável.

Mas como isso valeria mais do que ouro?

Ora, se os pretensos alquimistas tivessem sucesso, e se todo o chumbo do mundo se transmutasse em ouro, os talheres mais valiosos passariam a ser de prata. Isso já não diz muito sobre o valor que damos ao ouro?

No entanto, o outro ouro, o ouro dos verdadeiros alquimistas, será sempre o bem mais valioso! E no dia em que ele deixar de ser tão raro, no dia em que for tão comum quanto o alumínio de Napoleão, então esta terra estará cheia de imperadores sem súditos, e um céu dourado terá sido derramado sobre o mundo...

Há uma batalha diária, feroz e violenta, para que cada pensamento se livre do seu chumbo, e se eleve e se doure e se torne sublime!

Para aqueles que creem que o céu está lá fora, cheio de deuses misteriosos, esta é uma guerra sem sentido.

Mas para aqueles que trouxeram seus deuses para dentro, esta é a única guerra que merece ser travada, a grande guerra alquímica.


raph’15

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[1] Essa história também é contada neste artigo: Você sabia que o alumínio chegou a valer mais do que o ouro?

Crédito da imagem: Google Image Search/todayifoundout.com

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8.8.14

Conectados, parte 2

« continuando da parte 1

Informação, segundo uma interpretação antiga, é “o ato de dar forma a mente”; segundo uma interpretação moderna, é “qualquer evento que afeta o estado de um sistema dinâmico”.


A grande pescaria

“Tu, como pai da escrita, esperas dela com o teu entusiasmo precisamente o contrário do que ela pode fazer. Tal coisa tornará os homens esquecidos, pois deixarão de cultivar a memória; confiando apenas nos livros escritos, só se lembrarão de um assunto exteriormente e por meio de sinais, e não em si mesmos. Logo, tu não inventaste um auxiliar para a memória, mas apenas para a recordação. Transmites aos teus alunos uma aparência de sabedoria, e não a verdade, pois eles recebem muitas informações sem instrução e se consideram homens de grande saber, embora sejam ignorantes na maior parte dos assuntos. Em consequência, serão desagradáveis companheiros, tornar-se-ão sábios imaginários ao invés de verdadeiros sábios.”

Segundo Sócrates, conforme descrito no Fedro de Platão [1], é esta a repreensão que Amon, rei dos deuses egípcios e representante da força criadora da vida, impõe a Toth, o antigo deus do conhecimento e da magia, assim que fica sabendo que este ensinaria aos homens mortais a arte da escrita. Não obstante, como sabemos, a humanidade acabou ganhando tal presente (e, se não fosse através de Toth, haveria de ser através dos tantos outros deuses, de diversas outras culturas e mitologias, associados a escrita e ao conhecimento).

Mas o filósofo grego não parecia convencido de que aquele era realmente algum ganho para as pessoas:

“O uso da escrita, Fedro, tem um inconveniente que se assemelha à pintura. Também as figuras pintadas têm a atitude de pessoas vivas, mas se alguém as interrogar conservar-se-ão gravemente caladas. O mesmo sucede com os discursos. Falam das coisas como se as conhecessem, mas quando alguém quer informar-se sobre qualquer ponto do assunto exposto, eles se limitam a repetir sempre a mesma coisa. Uma vez escrito, um discurso sai a vagar por toda parte, não só entre os conhecedores, mas também entre os que o não entendem, e nunca se pode dizer para quem serve e para quem não serve. Quando é desprezado ou injustamente censurado, necessita do auxílio do pai, pois não é capaz de defender-se nem de se proteger por si.”

Para Sócrates, a disseminação dos discursos escritos, ainda que da autoria dos filósofos mais sábios, seria um enorme perigo, pois lhe parecia óbvio que o autor não poderia comparecer a todo e qualquer local onde ele era lido ou debatido, de modo que, se alguém não o compreendesse, ou pior, se alguém mal intencionado o utilizasse para os seus próprios propósitos, subvertendo a ideia original, o autor nada poderia fazer para evitar. A luz da Grécia tinha razão e antecipou muito do que vimos nos últimos milênios desde o surgimento da escrita, mas por outro lado ele bem sabia que não havia o que fazer: o conhecimento e a tecnologia jamais andam para trás.

Se houvesse sobrevivido aos séculos como o mito em torno de sua pessoa, Sócrates talvez encontrasse um certo consolo no advento da Web e, mais precisamente, da Web 2.0.

Segundo o próprio Tim Barners-Lee, o termo carece de sentido, pois a Web atual usa componentes tecnológicos surgidos antes mesmo da sua criação, mas o fato é que nome pegou: Web 2.0 é um termo popularizado a partir de 2004 pela empresa americana O’Reilly Media para designar uma segunda geração de comunidades e serviços, tendo como conceito “a Web como plataforma”, envolvendo wikis, redes sociais e sites que prestam serviços.

O que deveria agradar Sócrates não é exatamente a vasta quantidade de informação da Wikipedia, ou o número de piadas infames que se lê nas redes sociais todo santo dia, mas sim a capacidade de qualquer cidadão criar um blog e publicar seus textos e discursos numa plataforma que pode ser acessada e lida virtualmente por qualquer pessoa do mundo com acesso a Web; e não são poucas!

A princípio, poderíamos pensar que este seria apenas o pesadelo sobre o qual Amon alertou a Toth elevado a enormes potências, pois os discursos seriam lidos por tanta gente que seria inviável para o autor defender suas ideias o tempo todo. Isto é um ponto, mas ocorre que na Web 2.0 os navegantes não apenas consomem informação, mas a produzem... No caso dos blogs, nada impede que eles comentem abaixo dos textos (se o blog permitir, é claro) e dialoguem diretamente com o autor. Neste caso, o autor continua podendo defender seus discursos. Menos mal...

A questão é que chegamos então a um problema ainda mais intrigante: se todo e qualquer cidadão pode criar um blog e publicar seus textos, como faremos para saber quais os blogs que merecem ser lidos?

Ao contrário do que possa parecer, esta questão da “relevância da informação” não é nova. De fato, no próprio Fedro, o filósofo com olhos de touro já citava o assunto – vejamos o trecho onde Fedro indaga se Sócrates não estaria sendo muito duro com a atividade da escrita:

“Mas, Sócrates, estás comparando com divertimentos vulgares a belíssima atividade de um homem que se deleita em escrever discursos sobre a justiça e as outras virtudes!

É verdade, meu caro Fedro! Mas acho muito mais bela a discussão dessas coisas quando alguém semeia palavras de acordo com a arte dialética [2], depois de ter encontrado uma alma digna para recebê-las; quando esse alguém planta discursos que são frutos da razão, que são capazes de defender por si mesmos e ao seu cultivador, discursos que não são estéreis mas que contém dentro de si sementes que produzem outras sementes em outras almas, permitindo assim que elas se tornem imortais. Aos que as levam consigo, tais sementes proporcionam a maior felicidade que é dado ao homem possuir.

Na verdade, isso é muito mais belo – concluí Fedro.”

Em última instância, a função da filosofia é proporcionar ao homem o contato com tal felicidade. Após o contato, todo filósofo pleno dessa felicidade não terá objetivo mais recompensador do que o de passar tal conhecimento adiante, de modo a que outros também possam alcançar a felicidade. Se há “filósofos” que não fazem isso, é porque nunca alcançaram esta sabedoria; e não exatamente porque creem que a filosofia deva ser uma forma de sofrimento intelectual, ou um conjunto de sistemas e regras do pensar, que servem mais para confundir a mente do que aplainá-la.

E, assim como na filosofia, em todas as demais artes há sempre a possibilidade de nos depararmos com discursos que tocam diretamente a nossa essência, e que nos fazem dialogar com nós mesmos, e nos conhecer cada vez mais. Sócrates e Amon não estavam, desta forma, condenando toda a forma de escrita, toda a forma de discurso, mas apenas a maioria deles, os irrelevantes, os que nada têm de importante a dizer para nossa alma.

Se é verdade que hoje a Web é um grande mar de irrelevância, não é verdade que isto, por si só, seja motivo para nos desanimar em nossa jornada atrás de conhecimento. Pelo contrário, hoje não precisamos mais consumir somente a informação que nos chega pelos grandes afluentes da mídia, hoje podemos também, tal qual exímios pescadores, atirar nossas redes também nos pequenos córregos e riachos, e buscar por pequeninas pérolas que passam por lá – esta é a grande pescaria da era digital.

Mas, para que aprendamos a reconhecer tais joias, é preciso navegar também adentro, e descobrir que tais pedras nascem todas de uma mesma montanha; que se eleva tão, tão alto, que quase eclipsa o próprio sol.

É precisamente lá, no topo desta grande pedra, além das ideias de certo e errado, que os blogueiros da alma se encontram...

» Em seguida, a era das bolhas...

***

[1] Veja outros trechos em O discurso da alma. A tradução do grego é de Alex Marins (Ed. Martin Claret).

[2] A arte de, no diálogo, demonstrar uma tese por meio de uma argumentação capaz de definir e distinguir claramente os conceitos envolvidos na discussão.

Crédito da foto: Wilhelm von Gloeden (Sócrates na fonte)

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14.11.13

Eu não acredito em idade

Sim, esta é uma frase que sempre digo as pessoas quando o assunto envolve o tema “idade”. A maior parte delas apenas desconversa ou ignora completamente o que foi dito. Algumas ficam admiradas e me olham com uma aparência confusa: “Hmm, isto deve ser algo muito profundo, melhor não perguntar nada”. E somente umas poucas chegam a me perguntar: “O que você quer dizer com isso?”. Penso que está na hora de responder...

Primeiramente, é importante frisar que esta é uma das conclusões puramente intuitivas que trago de minha infância. “Eu não acredito em idade, eu nunca acreditei em idade” – é algo que simplesmente “nasceu comigo”, se é que é possível dizer. Não foi algo que li nalgum lugar, e nem mesmo algo que, somente pelo fato de haver lido em algum lugar, se tornaria parte da minha essência. Eu não acredito em idade, é parte da minha essência, e desde minha infância tenho tentado descobrir o que exatamente isto significa.

Quando pensam em idade, a maioria das pessoas pensa – conscientemente ou não, quer admita ou não – em uma espécie de relógio de areia onde cada grão que escorre pela fresta abaixo é um dia a menos, um dia que ficou para trás. E, da mesma forma, quanto menos grãos de areia restam na parte superior do relógio, menos tempo há para viver. Neste sentido, falar em idade é basicamente falar em morte: quanto maior o número, quanto mais próximo dos 70, 80, 100 anos, mais próxima estará a morte.

Eu ainda vou retornar ao assunto, mas por agora gostaria apenas de deixar claro que o fato de eu não crer em idade não significa que ignore a existência da morte. Da mesma forma que não ignoro que, com o passar das horas do dia, e com o pôr do sol e a chegada da noite, eventualmente irei deitar minha cabeça num travesseiro e dormir (ah não ser que esteja jogando RPG ou numa rave, mas isto têm sido cada vez mais raro em minha vida, para o bem ou para o mal).

Dito isto, após muito refletir cheguei a conclusão de que para mim existem em realidade três tipos distintos de “idades”. Embora eu creia nas três, talvez percebam que nenhuma delas tem relação direta com o que as pessoas usualmente chamam de idade.

A primeira idade em que tenho fé é a idade fisiológica. Ora, seja lá o que seja o “eu” ou a alma, é certo que, ao menos neste mundo, habitamos um corpo humano. E este corpo humano possuí diversas características, físicas e mentais, que são desenvolvidas ao longo da infância e da juventude, até a chamada idade adulta. Diz-se que um adulto é um ser humano que vive numa sociedade onde o texto de algum pedaço de papel afirma que, de acordo com sua idade, ele pode se casar, ter relações sexuais, votar, dirigir um automóvel, etc. O valor numérico destas idades varia de acordo com a região e a cultura do planeta. Na África há muitos adultos com 13 anos, enquanto que na maior parte do globo a idade da maioridade é 18 (19 na Coréia do Sul, 20 no Japão e 21 nos EUA). Como eu sou um sujeito que segue a maior parte das leis, sou obrigado a concordar e botar fé em tais números.

Mesmo o cérebro humano, dizem os neurologistas, têm suas “idades”. Por hora do nascimento, um cérebro humano pesa cerca de 350 gramas e têm ¼ do tamanho de um cérebro adulto.  Com um 1 ano de idade, já têm o dobro do peso, 700 gramas, e metade do peso da versão adulta. Aos 6 anos, já têm 90% do tamanho final. Aos 12 anos, o córtex pré-frontal atinge sua fase final de desenvolvimento, que abrange toda a adolescência. Recentemente, cientistas têm discutido se este desenvolvimento não ultrapassaria em muito a idade dita adulta, geralmente os 18 anos, para terminar ainda muitos anos depois – o que estenderia, teoricamente, o tempo da adolescência, pois somente um “adulto com o córtex pré-frontal plenamente formado” teria condições de pensar com “toda a racionalidade condizente a fase adulta”...

Desta forma, ainda que eu acredite na idade fisiológica, isto por si só não me dá certezas se este ou aquele jovem já é mesmo adulto, se têm sua racionalidade “plena”, ou se ainda está em fase de desenvolvimento. Por via das dúvidas científicas, digamos que alguém na casa dos 30 anos estaria plenamente desenvolvido. Este sou eu: plenamente desenvolvido e, segundo uma amiga minha bem mais jovem, “já meio velhinho”.

E isto me leva para a segunda idade em que acredito, a idade espiritual. Bem sei que muitos aqui não irão concordar, mas fato é que também, desde minha infância, apesar de crer na morte, também creio na existência pós-morte e, da mesma forma, na existência pré-nascimento. Ou seja, não é que eu creia em vida após a morte, mas creio, isto sim, em vida após a vida, e em vida antes da vida. Creio em muitas e muitas vidas, enfim, e isto também está intimamente associado a intuições e lembranças de minha infância.

Quero lembrar que não é minha intenção “evangelizar” esta crença adiante, mas apenas explicar os motivos de minha descrença em idade – motivos, portanto, subjetivos. Dessa forma, para não me alongar muito, basta dizer que, quando lembramos de outras vidas e outras mortes, quem sabe da mesma forma que lembramos de viagens de nossa infância, ou do dia em que desmaiamos durante nosso primeiro porre alcóolico (embora eu não tenha tido tanta sorte, pois tenho uma grande dificuldade em perder a consciência), toda a vida atual é vista por um outro aspecto, um outro ângulo.

Dessa forma, se alguém me diz que estou “meio velhinho”, isto para mim faz tanto sentido quanto dizer que eu estou “a muito tempo nesta viagem de trem”. Não importa se os outros cismam em contar as horas até a próxima estação, eu não preciso mais me preocupar com isso, pois sei que a próxima estação é somente isso: mais uma estação nesta viagem infinita pelo Cosmos. Estação Terra, estação anos-luz da Terra – tanto faz, são todas estações.

Eu não sei se consegui me fazer compreender, pois isto é difícil de explicar com palavras fora de poemas, mas em todo caso acredito que a próxima idade ainda será esclarecedora...

Finalmente, creio na idade das montanhas.

Cícero dizia que “filosofar é aprender a morrer”. Há muitos que se admiram até hoje com Sócrates mais por sua serenidade ante a morte do que propriamente com suas ideias (“Mas eis a hora de partir: eu para morte, vós para a vida. Quem de nós segue o melhor rumo ninguém o sabe, exceto os deuses” [1]).

Já Schopenhauer, influenciado pelas ideias religiosas do Oriente, afirmava que “para seu enorme espanto, um homem se vê de repente existindo, após milhares de anos de não existência; vive por algum tempo, e então transcorre de novo um período igualmente longo em que ele não existe mais. O coração rebela-se contra isso, sentindo que não pode ser verdade.” [2]

Há muitos pensadores modernos, como Jim Holt, que não têm tanta fé na existência pós-morte, e admitem a plenos pulmões o seu grande medo do Nada: “O medo da morte vai além da ideia de que o fluxo da vida continuará sem nós [...] É a perspectiva do Nada que provoca em mim certa náusea – senão puro e simples terror. Como encarar esse Nada?”. [3]

Epicuro, apesar de tampouco crer na existência após a morte do corpo, lidava com o tema de forma muito natural: “Quando a morte está, eu não estou. Quando eu estou, ela não está. A morte, o dito mais terrível dos males, não significa nada para mim”. [4]

Dessa forma, não é bem a crença em existências anteriores e posteriores a esta vida, a esta estação, que nos alivia do peso da morte, do peso do Nada. Este peso não tem propriamente a ver com um medo paralisante de algo que um dia chegará, e que está neste momento sendo contado no relógio de areia que chamamos idade; este peso tem a ver com uma falta de sentido existencial, um vácuo aberto dentro do peito, um grande tédio, um Nada que pela lógica jamais pode haver existido, mas que não obstante pode nos atormentar por cada momento da vida.

Filosofar pode, de fato, ser aprender a morrer. Tanto quanto aprender a morrer é aprender a subir montanhas...

Uma outra coisa que trago da minha infância é a Serra da Mantiqueira, ao sul de Minas Gerais. Isto já não tem nada ver com lembranças de outras estações, mas com a suprema sorte de haver, nesta mesma estação, tido a oportunidade de passar proveitosos períodos de férias em um hotel fazenda de minha família.

Foi na Mantiqueira que aprendi a subir e subir, por entre florestas antigas que estão por lá há centenas de estações, pisando em rochas que sobrevivem há milhares, há milhões!

Foi na Mantiqueira que aprendi a olhar para baixo do topo do mundo, e observar (mesmo antes de voar de avião) como há tantos e tantos homens e mulheres e crianças brincando em seus terrenos pequeninos, em suas fazendas pequeninas, em suas casas de brinquedo, em suas caixas de areia.

Eles juntam montes de areia, colocam seus enfeites e um telhado para proteger das chuvas. Eles vivem lá boa parte de suas vidas. Eles guardam por lá boa parte do que amontoaram em suas viagens. Eles mal sabem quantas montanhas e estações existem pelo Cosmos...

O que a idade das montanhas me ensinou, e têm até este momento me ensinado, é que não devemos por certo entrar em pânico ante ao Nada. Se iremos dormir para não mais acordar, ou se iremos sonhar com outras viagens e outras estações, fato é que nada do que somos, nem mesmo do que nos forma, pode de fato ser aniquilado, arremessado ao Nada.

Pois as montanhas são a prova de que o Nada não existe. Elas estão lá, imponentes, acima de todos nós, nos lembrando de que há coisas maiores, bem maiores, cósmicas, que existiram e continuarão a existir muito após esta nossa pequena viagem.

E se vamos acordar para um novo sonho ou não, pouco importa. O que importa é não deixar o entusiasmo escapar por entre os dedos da alma. Que se vamos ou não deixar de existir um dia, isto não é algo que seja definido, de forma alguma, por nossa idade. E eu não acredito em idade.

***

[1] Platão. Fédon.

[2] Arthur Schopenhauer, O vazio da existência.

[3] Jim Holt. Por que o mundo existe? (Intrínseca).

[4] Epicuro. Carta a Meneceu (UNESP).

Crédito da foto: raph + instagram (Serra da Mantiqueira)

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6.9.12

O que Sócrates não disse

Para Cármides, Sócrates diz que se tornou um xamã durante a batalha de Potidéia, quando ainda era um jovem soldado grego [1]. Para a grande maioria dos estudiosos, entretanto, não é crível que Sócrates tenha passado por uma iniciação espiritual em meio à guerra. Tais coisas, supõe-se, não teriam como ocorrer nesse tipo de ambiente. Será mesmo?

No Banquete, Alcibíades relata, talvez, o êxtase socrático de maior duração, 24 horas ininterruptas de transe: Sócrates imóvel, insensível às exigências normais do corpo e a tudo o que ocorre em torno dele, totalmente ausente. Ora, mas Alcibíades era um companheiro de Sócrates na batalha da Potidéia, e tal relato se refere à experiência mística socrática bem no meio da guerra!

Dizem então, os estudiosos, que o xamanismo socrático é nada mais que uma metáfora: Sócrates é capaz de curar a alma pela palavra, assim como os xamãs curam por seus encantamentos. Na verdade, os estudiosos tem razão em dizer que Sócrates curava a alma pela palavra, mas isto não é somente uma metáfora: é a essência da magia. Sócrates era, portanto, um xamã, um feiticeiro, exatamente porque sabia “curar pela palavra”.

Nem tudo que o homem com olhos de touro experienciava em seus êxtases podia, no entanto, ser dito... Conta-nos Alcebíades que, após um dia em transe na Potidéia, Sócrates volta a “realidade normal”, faz uma prece ao sol, e depois age normalmente, como se absolutamente nada tivesse transcorrido. Essa maneira de retomar contato com a realidade ordinária denota o caráter místico da experiência. Mesmo o destinatário da oração, o sol, indica uma relação de Sócrates com a natureza e os elementos que não provém da religião grega clássica [2].

Esta iniciação xamãnica tampouco foi o único êxtase socrático. No caminho para a festa organizada por Agatão no Banquete, Sócrates estava a seguir com outro convidado, Aristodemos, mas durante o caminho “isola-se em seus pensamentos” e fica para trás. Aristodemos chega sozinho a casa de Agatão, que envia um criado para buscar Sócrates. O escravo o encontra de pé, sobre o pórtico da casa vizinha, mas o filósofo não responde aos seus chamados. Aristodemos explica que é inútil insistir: o fenômeno é habitual em Sócrates; isso se apodera dele em qualquer lugar, mas após um tempo ele acaba por retornar. Os outros não esperam por “seu retorno a esta realidade”, e quando Sócrates “chega”, já estão no meio da refeição.

Hoje em dia um sujeito como Sócrates seria taxado de “completamente lunático”, mas em sua época foi conhecido como um dos homens mais sábios de toda Grécia, ou pelo menos entre os seus seguidores e amigos, que como sabemos não foram poucos; e podemos contar dentre eles alguns dos maiores filósofos da história do Ocidente. Porque, afinal, seguiam aos ensinamentos, a “palavra xamãnica”, de um “homem louco?

Pode-se questionar, claro, se o transe socrático se impunha à força, ou se Sócrates tinha como escapar dele. Não temos, é evidente, uma resposta precisa. Talvez Sócrates, sentindo vir o êxtase, não pudesse evitá-lo, talvez considerasse esse estado tão superior às convenções sociais que achava absurdo privar-se dele. Apesar disso, de acordo com os relatos dos livros de Platão, Sócrates não parece ter “o controle da situação”: é arrebatado sem ter desejado nem previsto, por vezes, literalmente, no meio da estrada.

É evidente que gostaríamos de saber o que vivenciava o sábio grego durante esses longos arrebatamentos, que visões lhe poderiam ser oferecidas, que conhecimento tiraria delas. Quando chegou ao banquete, Agatão lhe pediu para que ele tomasse o lugar a seu lado, e lhe contasse sobre “as descobertas” que acabara de fazer. Mas Sócrates esquiva-se, e encerra o incidente com uma ironia: “Basta estar perto de um sábio para participar de sua ciência, e vou pôr-me ao lado de ti, que acabas de obter tal sucesso com [a análise da] tragédia”. Agatão não se engana, sabe que nada mais vai saber acerca do “incidente”.

Em realidade, ninguém ousava insistir nestes questionamentos... Um pudor compreensível diante do inconcebível. Não se fala dessas experiências, pois estão ligadas ao incomunicável, ao que nem a “palavra mágica” de Sócrates era capaz de dar conta. Esse saber, a sophia, não passa de um espírito para o outro, é um conhecimento que não se transmite e do qual Sócrates jamais se refere diretamente.

O encantador ateniense teve a honestidade de não explorar seus êxtases para apresentar-se como detentor de saberes divinos, o que significa que jamais pretendeu transmitir uma revelação ou um conhecimento “superior”. Paradoxalmente, afirmam outros estudiosos, vê-se Sócrates sempre repetir que “nada sabe”.

Mas a verdadeira questão em jogo é: “nada sabe em relação ao que?”. Vemos no pensamento socrático inúmeras referências aos mitos antigos dos reinos das almas [3], embora ele certamente jamais afirme “ter alguma certeza em relação a isso”. Mesmo ao ser condenado a morte, se pergunta “se estaria em situação melhor ou pior do que aqueles que ficariam do lado de cá”. Mas se a morte não fosse nada, no entanto, ele nada teria de se preocupar, afinal... Sócrates, porém, parecia se lembrar, parecia saber de algo que poucos homens na história compreenderam. No relato de sua morte, todos os seus amigos próximos estavam aos prantos, e ele parecia tratar a ocasião como “algo trivial” ou, quem sabe, apenas mais um de seus êxtases a se aproximar – só que este seria mais longo.

Aquele que se julga “normal” não encontra outra alternativa que não julgar Sócrates como “um louco”, da mesma maneira que muitos céticos de hoje em dia julgam as práticas místicas “uma loucura coletiva”. Mas, afinal, o que seria exatamente esta loucura em que as pessoas podem “entrar e sair”, e depois disso seguirem com suas “vidas normais”, sem terem nenhum tipo de incapacidade mental relacionada à prática em si? Sócrates foi um soldado, serviu bem sua pátria, e depois tornou-se um sábio, um filósofo, e encantou aos jovens, e enfeitiçou ao pensamento ocidental, muito embora pudesse muito bem ser julgado, segundo os padrões da “normalidade”, um perfeito lunático!

Não é sua culpa que tenham se usado de seu pensamento para construírem dogmas. Sócrates, afinal, não deixou nada escrito [4], e tampouco afirmou que tinha certezas. Todo o seu pensamento é baseado nas suas próprias dúvidas, sobretudo na maior delas, aquela que se colocava frente a algo em que não quis acreditar por toda a vida: “Que era, realmente, o maior sábio da Grécia” [5]... Passou a vida buscando por alguém efetivamente sábio, mas se viu cada vez mais solitário na empreitada.

Houvesse Sócrates encontrado alguém que tivesse, como ele, subido por breves momentos no alto da caverna, e visto ao sol diretamente, talvez pudesse ter com quem falar acerca do indizível. Talvez não, pois afinal as palavras, estas cascas de sentimento, estas cascas de êxtases pregressos, talvez estas sejam mesmo incapazes de explicar a inconcebível natureza da Natureza. Aquele que acha que sabe, não sabe. Aquele que sabe que não sabe, este começou, finalmente, a saber...


“Medita agora e examina a fundo, gira teu pensamento em todas as direções, recolhido sobre ti mesmo. Depressa, se cais em um impasse, salta para outra ideia de teu espírito; e que o sono doce ao coração esteja ausente de teus olhos”. (Sócrates em As nuvens, de Aristófanes, 700-705)

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Bibliografia recomendada
Sócrates ou o despertar da consciência, de Jean-joël Duhot (Edições Loyola); Sócrates, o feiticeiro, de Nicolas Grimaldi (Edições Loyola).

[1] Em Cármides, de Platão.

[2] De fato, uma das acusações que levaram a sua pena de morte foi exatamente a de ateísmo: não seguir aos deuses locais, mas “à um outro deus desconhecido”.

[3] Ele também foi iniciado nos chamados Mistérios de Elêusis, embora muito pouco, ou quase nada para ser mais exato, nos tenha chegado acerca do significado oculto, esotérico, destes rituais.

[4] Há uma célebre e profundamente irônica crítica de Sócrates a escrita descrita no Fedro, de Platão.

[5] A pitonisa do Oráculo de Delfos uma vez lhe afirmou isso quando ele perguntou quem seria o homem mais sábio da Grécia. Ora, era ele mesmo!

Crédito das imagens: [topo] Wikipedia (Jacques-Louis David, A morte de Sócrates); [ao longo] Google Image Search

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20.4.12

Antes que se apague a chama

Eu queria lhes apresentar um amigo...

Foi um dos maiores educadores que já se viu e, no entanto, diz-se que seu primeiro trabalho foi de auxiliar da mãe, Phaenarete, que era parteira. Ainda assim, ao observar um parto complicado da mãe, já demonstrou a extensão de seu pensamento: “Minha mãe não irá criar o bebê, apenas auxiliá-lo a nascer, e tentar diminuir a dor do parto. Porém, se ela não realizar o parto, talvez ambos, a mulher e seu filho, morram... Eu também serei um parteiro, um parteiro do conhecimento que jaz na alma das pessoas, mas, por ignorância dele, elas não se dedicam devidamente ao seu nascimento. Eu os ajudarei fazer nascer sua sabedoria.”

Este era Sócrates, o maior dos filósofos, a luz perene de Atenas. Ele que serviu sua cidade-estado como quem serve a um ideal maior do que ele próprio, uma paideia, uma cultura universal condensada e absorvida pela cultura de um só povo, uns 70 mil que, não obstante, influenciaram a linguagem e as ideias de todo o Ocidente. E, servindo a tal pátria, lutou em diversas guerras como soldado, felizmente escapando ileso de todas elas. Ao fim da carreira de soldado, poderia haver se aposentado da vida, mas foi aí, pelo contrário, que sua vida de sábio e educador começou.

Tendo consultado o oráculo em Delfos e recebido a inquietante resposta de que era “o homem mais sábio de toda Grécia”, prontamente dedicou-se a abordar outros homens ditos sábios, na esperança de provar que o oráculo estava errado. Como, para sua surpresa, descobriu que todos aqueles que se julgavam sábios, em realidade não o eram, passou a perseguir a sabedoria – que ele mesmo julgava não possuir – noutro mundo.

Sócrates buscou aos jovens, e os jovens buscaram a Sócrates, como as abelhas buscam as flores, e as flores as abelhas. Sabiam, de alguma forma oculta, que necessitavam uns dos outros: os jovens precisavam de um parteiro para que sua própria sabedoria florescesse, e o filósofo, em seu papel de parteiro do conhecimento, necessitava do contato direto com o fogo das almas recém-chegadas ao mundo, antes que sua chama houvesse sido apagada pelos hábitos moribundos da estagnação dos homens ignorantes.

Precisamente por isso, mais do que por ter professado servir a um Deus desconhecido, foi Sócrates acusado e sentenciado a morte por seu próprio povo: corromper aos jovens. Ora, mas não poderia ter sido diferente – aqueles que haviam se acostumado com o musgo e o breu das cavernas, jamais poderiam suportar aqueles jovens falando sobre uma luz, uma divina luz, a irradiar sob os campos da superfície das mentes libertas do claustro.

Sócrates demarcou a alternância do entendimento da justiça, da ética e da política como elementos de um conjunto de regras de convívio social, para a era da justiça, da ética e da política a serem realizadas primeiramente na própria alma, a juíza de si própria, num conflito perene para que deixasse de ser escrava de seus próprios instintos inferiores, de sua ignorância, e se reacendesse em chamas, no fogo que veio do Alto, e do qual ainda poderiam se lembrar – como ideias inatas de um Grande Bem.

Não é culpa do velho atarracado com seus olhos de touro que a Igreja tenha, muitos séculos depois, se apropriado deste conceito e determinado que ele seria deste ou daquele jeito: um Céu Eterno, contrapondo um Inferno Eterno. O Céu de Sócrates era, antes de tudo, o Céu da liberdade, da amizade, da fraternidade, do amor ao saber. Não poderia jamais ser delimitado por dogmas ou manuais de como seria exatamente tal região, até mesmo porque, para o filósofo, tal Céu estava por ser erigido em alguma época futura, onde todos os jovens houvessem feito o parto de sua própria sabedoria, sua própria potencialidade, com a ajuda do grande parteiro, ou de outros que viriam após ele... O Deus de Sócrates estava no futuro, mas sua chama atingia o passado.

Ao ser condenado por ingestão de cicuta, seus amigos mais próximos lhe imploraram que fugisse da cidade para viver no exílio. Sócrates, porém, os fez tentar compreender: não havia cidade para onde fugir, Atenas era sua paideia, e sua paideia era todo o mundo. Havia ali permanecido desde o nascimento, e por 70 longos anos, não somente porque pensava estar no centro físico do mundo conhecido, mas principalmente porque acreditava ser ali o centro espiritual de todo o horizonte. Foi em Atenas, e com ideias, que Sócrates lutou toda sua guerra... Fugir, naquele momento, seria o mesmo que debandar de uma batalha enquanto soldado, somente por medo de perecer em combate. Sócrates não tinha medo da morte, mas antes da desonra, algo que poderia fazer com que todo o seu pensamento, e tantos e tantos partos, houvessem sido em vão.

Mas, ainda mais do que isso, Sócrates sabia de um outro mundo, aquele mundo onde a chama que observara na memória dos jovens ardia em puro esplendor e essência. Por boa parte da vida procurou fazer com que os jovens enxergassem tal mundo antes que a chama se apagasse por completo... Agora, era a sua vez de chegar, uma vez mais, ao mundo das essências. Se estaria em melhor posição que aqueles que permaneceriam no mundo das sombras, deixou que cada um decidisse por si só.

“Levou a taça aos lábios e com toda a naturalidade, sem vacilar um nada, bebeu até à última gota.

Até esse momento, quase todos tínhamos conseguido reter as lágrimas; porém quando o vimos beber, e que havia bebido tudo, ninguém mais aguentou. Eu também não me contive: chorei à lágrima viva. Cobrindo a cabeça, lastimei o meu infortúnio; sim, não era por desgraça que eu chorava, mas a minha própria sorte, por ver de que espécie de amigo me veria privado. Critão levantou-se antes de mim, por não poder reter as lágrimas. Apolodoro, que desde o começo não havia parado de chorar, pôs se a urrar, comovendo seu pranto e lamentações até o íntimo todos os presentes, com exceção do próprio Sócrates.

- Que é isso, gente incompreensível? Perguntou. Mandei sair às mulheres, para evitar esses exageros. Sempre soube que só se deve morrer com palavras de bom agouro. Acalmai-vos! Sede homens!

Ouvindo-o falar dessa maneira, sentimo-nos envergonhados e paramos de chorar. E ele, sem deixar de andar, ao sentir as pernas pesadas, deitou-se de costas, como recomendara o homem [que lhe deu] o veneno. Este, a intervalos, apalpava-lhe os pés e as pernas. Depois, apertando com mais força os pés, perguntou se sentia alguma coisa. Respondeu que não. De seguida, sem deixar de comprimir-lhe a perna, do artelho para cima, mostrou-nos que começava a ficar frio e a enrijecer. Apalpando-o mais uma vez, declarou-nos que no momento em que aquilo chegasse ao coração, ele partiria. Já se lhe tinha esfriado quase todo o baixo-ventre, quando, descobrindo o rosto – pois o havia tapado antes – disse, e foram suas últimas palavras:

- Critão (exclamou ele), devemos um galo a Asclépio. Não te esqueças de saldar essa dívida!

"Assim farei!", respondeu Critão. Vê se queres dizer mais alguma coisa. A essa pergunta, já não respondeu. Decorrido mais algum tempo, deu um estremeção. O homem o descobriu; tinha o olhar parado. Percebendo isso, Critão fechou-lhe os olhos e a boca.

Tal foi o fim do nosso amigo, Equécrates, do homem, podemos afirmá-lo, que entre todos os que nos foi dado conhecer, era o melhor e também o mais sábio e mais justo.” (Fédon – Platão)

Feliz foi Sócrates, o filósofo que viveu entre amigos, e não entre discípulos.

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Crédito da imagem: Sven Hagolani/Corbis

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