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16.1.15

A incrível história de Zé Perri

Recentemente se completaram 70 anos da morte de Antoine de Saint-Exupéry, e toda a sua obra literária entrou em domínio público (em quase todo o mundo, exceto EUA e França). Isso incluí, é claro, sua obra mais conhecida, um dos livros mais vendidos do século passado e deste, O Pequeno Príncipe. Porém, como descrito no epílogo da minha tradução [1] de Le Petit Prince (o original, em francês, pois as traduções são consideradas obras variantes e, em sua grande maioria, não entraram em domínio público), Saint-Exupéry foi muito mais do que um escritor de contos infantis... Para começar, já há uma longa discussão sobre se O Pequeno Príncipe é ou não uma obra infanto-juvenil, e pela longa duração deste debate (praticamente 70 anos, desde o lançamento nos EUA) há um certo consenso em que ela é mesmo uma obra infanto-juvenil, e não é, ao mesmo tempo...

E se no campo literário Saint-Exupéry nos deixou obras-primas desconhecidas da maioria dos admiradores do seu príncipe pequenino, como Terra dos homens e Cidadela (que permaneceu inacabada após sua morte), a própria vida do escritor foi muito mais fantástica do que muitos podem imaginar... Muitos sabem que ele serviu na guerra como piloto do exército francês, mas talvez o início de sua carreira como aviador seja o período que tenha definido a maior parte das influências que nos traz em seus livros, seja literalmente, seja por grandiosas metáforas:

Saint-Ex, como era chamado pelos amigos, foi um dos jovens pilotos que se aventuraram pelos ares nos primórdios da aviação, na década de 1920. Como piloto da extinta Aéropostale (que mais tarde viria a ser uma das companhias aéreas que deram origem a Air France), Saint-Exupéry sobrevoou não somente a Europa e a África, como também a América do Sul e o Brasil... Ou pelo menos é o que conta mais uma das lendas acerca de sua vida.

A cidade de Florianópolis acabou entrando para o rol das poucas cidades brasileiras a receber os aviões da Aéropostale entre 1927 e 1931. E, por extensão, uma parte de seus moradores conviveu com os estrangeiros que transportavam cartas e encomendas de outros países. No caso, franceses que pousavam na ilha para abastecer e realizar pequenos reparos nas aeronaves sempre que faziam a rota Rio de Janeiro-Buenos Aires. Saint-Exupéry não estava oficialmente nesse grupo, mas, como então diretor de exploração da companhia Aeroposta Argentina (cargo que assumiu em 1929, com 29 anos), teria dado seus pulos em Florianópolis para visitar os amigos e inspecionar a linha aérea ao longo de 1930.

Provavelmente o fazia sem alarde, já que o único registro comprovado de sua estada na ilha se contrapõe aos relatos de um tal Zé Perri que esteve no bairro do Campeche umas dez vezes e gostava de comer peixe e conversar com um pescador em especial, seu Deca (Manoel Rafael Inácio), à época um jovem de 20 anos, que gostava de tocar sanfona e papear...

Aí começa toda a celeuma. Embora seja indiscutível a assimilação de Saint-Ex, ou Zé Perri, pela cultura local, há uma pequena corrente de defensores da ideia de que o escritor não esteve na ilha como creem muitos moradores. À frente dessa corrente está o engenheiro aposentado João Carlos Mosimann, estudioso do tema há mais de 20 anos. "Não há nenhum documento que prove que Saint-Exupéry tenha estado aqui tantas vezes. No dia em que houver, acredito nessa história."

Talvez o maior documento que comprove esta e outras histórias acerca de Saint-Ex ou do que surgiu de sua vasta imaginação seja, exatamente, a sua persistência na história. Saint-Ex, o pequeno príncipe ou mesmo Zé Perri não irão embora, eles viverão no coração dos seus admiradores, sejam pessoas grandes ou pequeninas.

Vejam abaixo o documentário da AMAB (Associação Memória da Aéropostale no Brasil) sobre a incrível história de Zé Perri (aprox. 48 min.):

***

[1] Adquiram o e-book com minha tradução de O Pequeno Príncipe, pelo preço de um café!

Crédito da imagem: Google Image Search/raph

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2.1.15

Lançamento: O Pequeno Príncipe

As Edições Textos para Reflexão trazem em 2015 o seu livro digital mais elaborado, com mais de 40 ilustrações de tela cheia (ver galeria) e uma cuidadosa tradução de um dos maiores clássicos do século XX – O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry:

"Saint-Exupéry escreveu e ilustrou o nosso mundo interior. Ao saber deste pequeno milagre ocorrido em meio a um mundo em plena guerra, temos a esperança renovada de que lá dentro, em nosso planetinha mais íntimo, ainda brinca e ri com doçura a nossa criança mais frágil e preciosa... É difícil não se deixar corromper pelo peso do mundo das pessoas grandes. Mas, sempre que se sentir oprimido por ele, saiba que ainda terá este livrinho a sua inteira disposição."

Um ebook já disponível para o Amazon Kindle e também na Saraiva Digital:

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Abaixo, segue talvez o principal capítulo do livro, onde o viajante pequenino encontra a raposa (clique nas ilustrações para vê-las em tamanho maior):


E foi aí que apareceu a raposa...

“Bom dia”, disse a raposa.

“Bom dia”, respondeu educadamente o pequeno príncipe, apesar de que não a viu em canto nenhum quando se virou.

“Estou aqui, ao lado da macieira.”

“Quem é você? Nossa, você é muito bonita.”

“Eu sou uma raposa”, disse a raposa.

“Venha brincar comigo”, convidou o pequeno príncipe. “Estou um tanto infeliz...”

“Eu não posso brincar contigo, ainda não fui cativada.”

“Ah! Me desculpe.”, disse o pequeno príncipe.

Mas, após pensar um tantinho, perguntou:

“O que isto significa, ‘cativar’?”

“Você não é daqui”, disse a raposa. “O que é que veio buscar nessas redondezas?”

“Eu busco por pessoas”, disse o pequeno príncipe. “O que significa ‘cativar’?”

“As pessoas têm armas, e nos caçam. É algo muito perturbador. Elas também costumam criar galinhas. Bem, estes são os seus únicos interesses... Você procura por galinhas?”

“Não”, disse o pequeno príncipe, “eu procuro por amigos. O que significa ‘cativar’?”

“É algo muito esquecido hoje em dia”, disse a raposa. “Significa estabelecer laços.”

“Estabelecer laços?”

“Isso. Para mim, por exemplo, você ainda não passa de um garotinho, igual a cem mil outros garotinhos. E eu não tenho necessidade alguma de estar em sua presença, assim como você não tem necessidade de estar na minha.
Afinal, para você eu não passo de uma raposa, igualzinha a cem mil outras raposas que existem por aí... Se você me cativar, no entanto, nós passaremos a ter a necessidade de estarmos juntos. Para mim, você será um garotinho único em todo o mundo. E para você, eu serei uma raposa como nenhuma outra na Terra...”

“Estou começando a entender”, disse o pequeno príncipe. “Há uma flor... Eu acho que ela me cativou...”

“É possível. Aqui na Terra vê-se de tudo.”

“Oh, mas não foi na Terra!”

A raposa ficou intrigada, e um tanto curiosa:

“Foi noutro planeta?”

“Sim.”

“E há caçadores nesse planeta?”

“Não.”

“Ah, que interessante! E há galinhas por lá?”

“Não.”

“Nada é perfeito”, suspirou a raposa...

Mas logo ela retomou a conversa:

“Minha vida é um tanto monótona. Eu caço as galinhas, e os homens me caçam. Todas as galinhas são iguaizinhas, assim como todas as pessoas. Dessa forma, eu fico um pouco entediada...
Mas se você me cativar, será como se o sol viesse para iluminar a minha vida. Eu saberei do som de passos que serão diferentes do som de quaisquer outros passos.
Outros passos me fazem correr de volta para minha toca debaixo da terra, mas os seus me chamarão, como música, para sair do meu esconderijo.
E olhe: vê os campos de trigo lá no sopé da colina? Bem, eu não como trigo, então os campos de trigo nada têm a me dizer, e isto é triste... Mas você, você tem cabelos dourados. Pense como será maravilhoso quando houver me cativado!
O trigo, que também é dourado, me trará lembranças de você, e eu passarei a amar ficar contemplando os campos de trigo, e ouvindo o barulho do vento passando por eles...”

A raposa ficou olhando para o pequeno príncipe por um bom tempo, e depois lhe pediu:

“Por favor, me cative!”

“Eu gostaria muito”, respondeu o pequeno príncipe. “Mas eu não tenho tanto tempo. Eu tenho amigos por descobrir, e muitas coisas ainda por compreender.”

“Alguém só consegue compreender aquilo que cativa. As pessoas já não têm tempo para compreender coisa alguma. Elas compram tudo pronto nos seus mercados, mas não há loja alguma onde a amizade possa ser comprada, e assim as pessoas não têm mais amigos.
Se você realmente quer um amigo, me cative...”

“O que eu preciso fazer para lhe cativar?”, perguntou o pequeno príncipe.

“Bem, você precisa ser muito paciente. Primeiro, você vai se sentar a uma certa distância de mim – desse jeito – na grama. Então eu olharei para você de canto de olho, e você não deverá dizer nada. Palavras são uma fonte de mal entendidos. A cada dia, no entanto, você irá se sentar um pouquinho mais perto de mim...”

No outro dia o pequeno príncipe retornou ao mesmo local...

“Teria sido melhor que viesse no mesmo horário”, disse a raposa. “Se, por exemplo, você vier às quatro da tarde, então desde as três da tarde eu já começarei a ficar feliz. Daí eu ficarei cada vez mais feliz na medida em que as horas forem passando. Às quatro horas, eu já estarei inquieta e preocupada, mas lhe mostrarei o quão feliz fiquei em lhe ver!
Mas se você vier a qualquer hora, eu nunca saberei em qual hora meu coração deverá se preparar para recebê-lo... É preciso que obedeçamos a certos ritos...”

“O que é um rito?”, perguntou o pequeno príncipe.

“São coisas que também foram esquecidas nos dias de hoje”, disse a raposa. “Os ritos são o que faz um dia ser diferente do outro, e uma hora diferente da outra. Há, por exemplo, um rito entre os homens que me caçam: toda quinta-feira eles vão dançar com as garotas do vilarejo. Daí a quinta-feira é um dia maravilhoso para mim!
Nesse dia eu posso passear até bem longe, posso ir até as vinhas... Mas, se os caçadores fossem dançar a qualquer dia, então todo dia seria para mim como qualquer outro, e eu não teria a quinta-feira para descansar.”

Assim, o pequeno príncipe cativou a raposa.
E, quando a hora da sua despedida se aproximou, a raposa lhe disse:

“Ah, eu vou chorar.”

“Mas isto é sua culpa”, disse o pequeno príncipe. “Eu nunca lhe quis nenhum mal; mas você insistiu para que eu a cativasse...”

“Sim, é verdade”, disse a raposa.

“Mas agora você vai chorar!”

“Sim, é verdade.”

“Então isto não lhe trouxe nada de bom! Você não sai ganhando em nada...”

“Ganho sim”, disse a raposa, “por causa da cor dos campos de trigo.”

E então ela ainda acrescentou:

“Vá observar novamente as rosas. Agora você deverá compreender que a sua rosa é única em todo o mundo. Daí, venha me dizer adeus, e eu lhe darei de presente um segredo.”

O pequeno príncipe se foi para ver as rosas novamente:

“Vocês não são nem um pouco parecidas com a minha rosa”, ele as disse. “No momento vocês ainda são como nada. Ninguém as cativou, e vocês ainda não cativaram ninguém. Vocês são como a minha raposa quando a vi pela primeira vez. Ela era somente uma raposa como cem mil outras raposas. Mas hoje nós somos amigos, e ela é para mim uma raposa única em todo o mundo.”

E as rosas ficaram muito desapontadas...

“Vocês são belas, mas são vazias”, ele prosseguiu. “Ninguém iria morrer por vocês. De fato, um transeunte qualquer poderia pensar que a minha rosa se parece muito com vocês... Mas ela, apenas ela, é mais importante do que todas vocês, pois foi somente ela a rosa que eu reguei; foi somente ela a rosa que eu coloquei sob a redoma de vidro; foi somente ela que eu protegi com o pára-vento; foi somente por ela que eu matei as larvas (exceto as duas ou três que salvei para que se tornassem borboletas).
E foi somente ela que eu tive paciência de escutar, enquanto se queixava ou se gabava, ou mesmo quando não dizia absolutamente nada. Pois ela é a minha rosa.”

E assim, ele retornou para se despedir da raposa:

“Adeus”, ele disse.

“Adeus”, disse a raposa. “E agora, como prometido, aqui vai o meu segredo. De fato, é um segredo bem simples: é somente com o coração que podemos ver corretamente; o essencial é invisível aos olhos.”

“O essencial é invisível aos olhos”, repetiu o pequeno príncipe, para que tivesse certeza de que iria se lembrar.

“Foi o tempo que perdeu com a sua rosa o que fez dela uma rosa tão importante.”

“Foi o tempo que perdi com a minha rosa...”, repetiu o pequeno príncipe, para que tivesse certeza de que iria se lembrar.

“As pessoas esqueceram esta verdade”, disse a raposa. “Mas você não deve esquecer. Você se torna eternamente responsável pelo que cativou. Você é responsável por sua rosa...”

“Eu sou responsável por minha rosa”, repetiu o pequeno príncipe, para que tivesse certeza de que iria se lembrar.


(tradução de Rafael Arrais)


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28.9.14

O último voo de Saint-Exupéry

Em Janeiro de 2015 a obra-prima de Antoine de Saint-Exupéry, Le Petit Principe, ou O Pequeno Príncipe, entrará finalmente em domínio público em boa parte do mundo (exceto nos EUA e na França).

Como podem imaginar, lançaremos nesta data mais um livro digital das Edições Textos para Reflexão, com a tradução cuidadosa de Rafael Arrais, e todos os desenhos originais da obra, de autoria do próprio Saint-Exupéry, a cores, em boa definição e ocupando páginas inteiras!

Já que ainda não podemos lhes trazer trechos da tradução (afinal, o original em francês ainda não se encontra em domínio público), pensamos que seria interessante lhes trazer o epílogo completo, assim como, ao final, a capa, em que fizemos o máximo para homenagear a capa original da década de 1940:

***

Epílogo: O último voo de Saint-Exupéry

O Pequeno Príncipe, um clássico adorado por pessoas grandes e pequeninas, completa 70 anos...

Em Abril de 2014 a exposição The Little Prince – A New York Story, em plena Nova York, trouxe os manuscritos originais de Antoine de Saint-Exupéry, o francês autor da obra. Pouca gente sabe que ele morou em Nova York por dois anos, durante a Segunda Guerra Mundial, e escreveu o livro enquanto residia na América. A primeira edição foi publicada, em 1943, por uma editora americana, e não francesa.

A curadora da exposição, Christine Nelson [1], diz que a ideia para o livro sempre esteve rondando a cabeça de Saint-Exupéry, e prossegue, “Desde que era pequeno, gostava de desenhar, mas nunca foi um desenhista profissional, e nunca havia ilustrado um livro antes. Mas você via frequentemente em seus manuscritos alguns pequenos desenhos nas margens, e muitas vezes o desenho retratava uma pequena pessoa. E chegando perto da publicação de O Pequeno Príncipe, os traços dessa pequena pessoa passaram a tomar a forma do personagem.”

Tais ilustrações também se pareciam muito com o próprio autor. Diz a lenda que foi uma amiga sua de Nova York que o incentivou a transformar o personagem em um livro. A amiga se chamava Elisabeth Reynal, e era casada com o dono da editora (Reynal & Hitchcock) que veio a publicar o livro.

Saint-Exupéry escreveu sua obra mais famosa em vários lugares da metrópole norte americana. Tinha um apartamento ao sul do Central Park, escreveu um pouco ali; tinha uma amante – Silvia Hamilton – na Park Avenue, em Upper East Side, e escreveu muito por lá também; tinha um grande amigo da escola de artes – Bernard Lamat –, que tinha um lindo estúdio de arte, e ele também escreveu parte de sua obra por lá; e, finalmente, também trabalhou em Long Island, numa casa que alugou durante um verão.

O tempo que passou em Nova York, entretanto, foi mesmo breve. Saint-Exupéry era um piloto da força aérea francesa, e havia atuado em missões diversas, principalmente no Marrocos. Aos 43 anos, estava prestes a deixar a América para voltar à África como piloto, e foi exatamente neste período que o livro veio a ser publicado. De fato, foi quase na mesma semana, em Abril de 1943, em que ele voltava a atuar como piloto da aeronáutica francesa, que o livro chegava às livrarias de Nova York.

Quando o avião e seu piloto desapareceram durante uma missão para coletar informações do movimento das tropas alemãs, durante a guerra, o seu livro ainda estava longe de alcançar o sucesso mundial que viria a ter mais tarde. Saint-Exupéry decolou o seu P-38 Lightning de uma base aérea na Córsega, em 31 de Julho de 1944, e nunca mais retornou... Passou a viver na memória e, sobretudo, no imaginário de seus leitores.

Levou mesmo um certo tempo para que a magia de O Pequeno Príncipe conquistasse a legião de admiradores que tem até hoje. Uma coisa importante que temos de lembrar é que quando Saint-Exupéry chegou aos Estados Unidos, no final de 1940, ele já era um escritor best-seller. Já tinha publicado Terra dos Homens e Piloto de Guerra, livros que foram grandes sucessos de venda na América daquela época. Quando O Pequeno Príncipe foi lançado em 1943, até alcançou um relativo sucesso de venda, mas ficou na lista dos mais vendidos por uma única semana, enquanto outros livros do autor chegaram a ficar até 20 semanas nesta mesma lista.

O livro não foi, portanto, um sucesso imediato. Foi construindo esse sucesso ao longo dos anos; o que, com certeza, aumentou após o desaparecimento do autor, e quando finalmente veio a ser publicado na França, sua terra natal, em 1946 [2].

Nelson, tentando explicar o sucesso da obra, nos diz que “O Pequeno Príncipe é um livro decepcionantemente simples a primeira vista. Tem uma história muito simples, ilustrações muito ingênuas e, no entanto, várias camadas de leitura. Ele tem uma mensagem muito simples que todos podem apreciar e compreender – claro que estou falando da mensagem da raposa que diz que o essencial é invisível aos olhos e só pode ser sentido com o coração. Uma criança pode apreciar e entender esta mensagem, assim como qualquer adulto.

A questão é que a cada vez que o pequeno príncipe encontra um personagem adulto em sua viagem pelo universo, ele representa algumas características que nós, humanos, enfrentamos ao longo da vida – a arrogância, a vaidade, o materialismo, e, no caso do homem que bebe demais, a vergonha. Isso tudo são características que adquirimos à medida que vamos crescendo e aprendendo a nos relacionar com as outras pessoas”. São “defeitos”, se formos analisar assim, que precisam ser trabalhados e, se tudo correr bem, domesticados.

Há muito de Saint-Exupéry no seu O Pequeno Príncipe, mas também há muito de Saint-Exupéry no personagem narrador da obra, o piloto. Ele também era piloto e também teve um acidente no deserto, como o narrador da história. O foco do livro e suas ilustrações, no entanto, é no narrador contando a história do pequeno príncipe. Então acompanhamos a sua viagem fantástica pela narrativa e as ilustrações, mas não há uma ilustração sequer do narrador, isto é, do piloto (Saint-Exupéry chegou a esboçar uma, mas não foi incluída na versão final).

a raposa é a chave para o segredo do pequeno príncipe. É este personagem quem o ensina o que é mais importante na vida: o essencial é invisível aos olhos. Quando eles se encontram, a raposa quer ser seduzida, quer criar um significado para a sua relação. E, em troca, ela o ensina a ser paciente, saber esperar, curtir o momento, e, finalmente, chegar a ter um vínculo, um vínculo especial, com outro ser que nos cativou, e que também cativamos.

Muita gente não gosta ou despreza esta obra, dizendo que é muito “sentimental”. Nelson ainda nos diz que “certamente este livro não atrai todo mundo, e isto está bom. Eu tenho convivido com este livro há alguns anos – lendo, relendo, e o estudando em todos os detalhes. Tenho o sentimento de que é uma história realmente profunda. Sim, é sentimental. Sim, tem uma mensagem muito simples. Tem uma moral, se preferir, mas acredito que seja uma bela moral. Penso que a história é contada com uma grande sabedoria. As camadas de melancolia e tristeza que estão por baixo são tão profundas, principalmente quando você lembra que a guerra estava ocorrendo, e qual era o sentimento de Saint-Exupéry em relação a ela, que o fato dele ter transformado a sua experiência da guerra, durante um período de tanto desespero no mundo, em uma história tão abundante de esperança, é um enorme triunfo!”

***

Quando partiu da Córsega em seu avião, Saint-Exupéry usava uma pulseira que foi encontrada anos depois do seu desaparecimento. Depois que ele sumiu, em 1944, não ficou claro, por muito tempo, o que exatamente havia acontecido. Mas, em 1998, um pescador na costa de Marselha encontrou em sua rede de pesca uma pulseira de prata, na qual estava inscrito o nome de Saint-Exupéry. Então se descobriu que essa era a pulseira que ele usava quando o avião caiu. Em 2004, os destroços do seu avião também foram achados numa localidade próxima – mas seu corpo jamais foi encontrado...

Em todo caso, quais eram as chances de um objeto tão pequeno ser pescado do mar? Tal achado possibilitou a confirmação do local onde Saint-Exupéry morreu, e também a recuperação dos destroços do seu P-38 Lightning; e foi também mais um incrível elemento a ser adicionado ao mito de Antoine de Saint-Exupéry, o homem que se tornou, ao menos no imaginário de muitos dos seus admiradores, o próprio pequeno príncipe.

Esta obra é, portanto, o seu último voo, um voo eterno pela imaginação das pessoas de todo o mundo – sejam elas grandes ou pequeninas.

***

[1] Os depoimentos de Christine Nelson foram retirados do programa GloboNews Literatura que foi ao ar em Abril de 2014, no canal de TV a cabo GloboNews.

[2] Segundo a Universia Brasil, O Pequeno Príncipe é o segundo livro mais traduzido do mundo (após a Bíblia Sagrada), com mais de 250 traduções. Também já vendeu, em todo mundo, mais de 140 milhões de exemplares.

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