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3.12.18

Encontrando o animal de poder (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo trago mais um depoimento pessoal, desta vez acerca da minha experiência mística na busca pelo meu animal de poder, uma das práticas espirituais mais antigas da humanidade, filha do xamanismo ancestral. Tudo ocorreu, entretanto, num prédio em plena Avenida Paulista, no V Simpósio de Hermetismo (2016), organizado pela Associação Educacional Sírius-Gaia. Sem a condução do antigo tambor de Fernando Maiorino, tal aventura seria impossível... (edição especial do Colossi Estúdio Gráfico).

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


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19.11.18

Nenhum mestre chama a si mesmo de mestre

Estive recentemente num encontro de espiritualistas em São Paulo, nele havia alguns mestres que subiram num palco para falar aos demais. Um deles representava a Ordem Sufi Naqshbandi no Brasil, que é parte do misticismo islâmico. Ao se dirigir a plateia, onde certamente havia mais discípulos do que mestres, ele tratou de nos trazer uma reflexão muito relevante, logo de início:

“Como pode um aprendiz falar de tesouros que ele ainda não possui?”.

Sheikh Ahmed Shakir ainda não se considera um mestre, e provavelmente tem razão. Mas, ainda que fosse um mestre, ele jamais chamaria a si mesmo de mestre. É precisamente assim que somos capazes de julgar, se é que isso é possível, quem é mestre, e quem diz ser mestre (e não é).

O atual mestre da Ordem Naqshbandi vive no Chipre, uma ilha ao sul da Turquia. Segundo Ahmed, quando um mestre sufi está prestes a morrer, ele transfere a incumbência de “mestre da ordem” para um de seus discípulos. Se isto não ocorrer, a ordem inteira se encerra, como já ocorreu com a Ordem Mevlevi, fundada por seguidores do grande poeta do séc. XIII, Jalal ud-Din Rumi, e também inventor do sama, a dança dos sufis (ou dervixes) rodopiantes. Em meados do século XX, o último mestre dos Mevlevi foi morto devido a perseguições políticas, sem transferir a incumbência a ninguém, e os seus discípulos em grande parte “migraram” para a Naqshbandi, que ainda tinha um mestre vivo. Por isso hoje a Ordem Naqshbandi é a representante do conhecimento esotérico, oculto, da dança inventada por Rumi. Os demais a praticam de forma essencialmente artística, não mais puramente espiritual.

Ahmed também nos explicou que uma linhagem de mestres tem origem num profeta. Profetas reais são raríssimos, e usualmente fundam religiões. Maomé foi o último profeta, segundo se crê no islamismo, e há uma linhagem contínua, uma “linhagem dourada”, desde Maomé até o atual mestre da Ordem Naqshbandi. Quem sabe Ahmed seja o próximo.

Mas não importa, nenhum mestre chamaria a si mesmo de mestre, ao menos não para um total desconhecido. Ainda que carregue consigo segredos imemoriais, poderes quase sobrenaturais, conhecimentos ocultíssimos, um mestre se faz mestre por reconhecer que sempre haverá muitos discípulos no Caminho, e ele mesmo talvez jamais deixe de ser um...

Se não crê em mim, basta analisar o que disse Issa, ou Jesus Cristo (Issa é o seu nome islâmico), considerado por muitos como “o mestre dos mestres”:

Dia virá em que farão tudo isso que eu tenho feito, e ainda muito mais (trecho de João 14:12)

Ora, se um dia faremos tudo o que fez o mestre, significa que um dia todos seremos mestres. Mas, então, o mestre ainda seria mestre?

É assim que percebemos duas coisas muito importantes: (1) que todo mestre só é mestre em relação ao seu discípulo; e (2) que todo mestre deseja ardentemente que o seu discípulo também se torne mestre um dia.

Assim sendo, um mestre jamais chamaria a si mesmo de mestre, jamais se apresentaria a um total desconhecido dessa forma, pois o objetivo dele não é reinar acima de uma turba de discípulos ou não discípulos ignorantes, mas antes torná-los melhores, quiçá tão “mestres” quanto ele próprio, ou ainda mais sábios!

E se o Sheikh Ahmed ainda não aceita ser chamado de mestre, sequer na presença de discípulos, no mesmo encontro em São Paulo havia um mestre de fato, já mais velho e com um fiel grupo de discípulos em todo o mundo:

Atma Nambi Guruji nasceu em um pequeno vilarejo no sul da Índia, estado de Tamil Nadu, onde cresceu de uma forma simples, em meio às plantações de arroz. Seus pais nunca lhe impuseram religião alguma, permitindo seu crescimento com a liberdade que uma criança merece e precisa. Atmaji, como é chamado pelos discípulos, teve seu primeiro mestre aos 10 anos de idade, um brâmane que comandava as cerimônias e rituais do templo de Shiva em sua vila. Seu desenvolvimento com esse mestre estendeu-se até seus vinte e poucos anos, período em que aprendeu bem a língua inglesa e o Bakit Yoga – a Yoga da Devoção.

O restante da história do Atmaji vocês poderão conferir no vídeo ao final do artigo, mas antes de encerrarmos, cabe contar uma anedota sobre ele. Todo ano Atmaji vem ao Brasil dar palestras (ou satsangs) no Rio, em São Paulo, e em Campo Grande/MS, onde eu moro. Numa dessas palestras havia todo um marketing por detrás, com banners online e cartazes, o anunciando como “um grande sábio indiano”. Isso não é feito com nenhum tipo de má intenção, o valor arrecadado nas palestras é quase simbólico, e o valor total mal paga a viagem da Índia ao Brasil. Portanto, seria perfeitamente compreensível que Atmaji se portasse como um “grande mestre”, ainda que não se autointitulasse um.

Pois bem, mas eu nunca esquecerei do dia em que ele, adentrando o espaço de uma das palestras, deu de cara com um imenso cartaz onde ele aparecia como um “grande mestre”, quase um ser sobrenatural. Ele simplesmente olhou para aquilo e disse algo como: “this is bullshit, everyone can achieve illumination” (isso é besteira, qualquer um pode conquistar a iluminação).

E, na sequência, ele continuou a fazer o que tem feito há décadas, desde que ele mesmo atingiu a sua iluminação, na Índia: trazer convites aos demais, melhorar este mundo, formar novos mestres, um discípulo por vez.

Com vocês, um mestre do Caminho:

***

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (sufis dançando o sama); [ao longo] um amigo (eu, ao lado de Atmaji e Sheikh Ahmed, no VII Simpósio de Hermetismo, em São Paulo).

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28.12.17

O Tudo e o Nada

Após ter acompanhado seu nascimento e crescimento desde o início, é com muita honra que hoje prosseguimos com a parceria deste blog com o canal Conhecimentos da Humanidade no YouTube, apresentado por Bruno Lanaro e Leo Lousada.

E desta vez, surpresa!, sou eu mesmo que apareço no vídeo. Logo após o Simpósio de Hermetismo deste ano (Novembro de 2017), tive o prazer de visitar a casa do Bruno e, ao ver o "set de filmagens" do canal, decidimos simplesmente ligar a câmera e falar sobre "alguma coisa". Claro que achei que a oportunidade era ideal para falar sobre o Tudo e o Nada, que os leitores do meu blog (e, principalmente, do meu livro Ad infinitum) sabem bem que se trata de um tema recorrente das minhas reflexões.

O meu objetivo, portanto, é mais estabelecer uma base de questionamentos filosóficos a partir da premissa inicial de que "existe algo e não nada" do que propriamente "evangelizar" alguma crença ou filosofia particular adiante. Assim sendo, o ideal é que vocês mesmos se questionem e busquem pelas próprias respostas, pois eu não tenho pretensão alguma de ditar regras de pensamento.

Feliz Ano Novo! (tudo vibra e nada está parado, inclusive este nosso planetinha)

» Saiba mais sobre o andamento da minha tradução do Caibalion

» Saiba mais sobre o meu livro: Ad infinitum

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27.11.17

Minha impressão sobre o Simpósio de Hermetismo

Texto de Danilo Kiss, um grande entusiasta da Ciência, que a meu pedido gentilmente falou da sua experiência em seu primeiro Simpósio de Hermetismo.

Antes falar sobre minha impressão em relação ao Simpósio, vou tentar ser breve em relação a minha história, até para que as pessoas entendam o motivo desse texto estar aqui. Minha  família de uma certa forma é bem religiosa, onde como a maioria dos Brasileiros se voltou ao Cristianismo. Cresci vendo minha avó materna a rezar terço, escutando orações na rádio pontualmente às 18:00hs, via quando pessoas pediam para que as benzessem quando não estavam se sentindo bem. Com um prato fundo cheio de água e pingando gostas de óleo que banhava em seus dedos, ela fazia sua oração e com sinal da cruz – pingando o óleo na água via a situação da pessoa no momento – se as gotas se justassem ou cresciam, era sinal de quebranto ou mal olhado, se as gotas se mantivessem no lugar estava tudo bem. De fato as pessoas ligavam para agradecê-la, reportando estarem melhores.  Seu enorme santuário com as mais diversas imagens de santos, anjos , de Cristo e Buda, além de ser devota de Nossa Senhora de Aparecida. Minha mãe também não foge a esse ritual. Acordo às 05:30hs para ir trabalhar, e quando saio ela esta ligada em um canal de orações, com seu terço nas mãos, onde o mesmo processo se repete da parte da noite.  Pessoas ligam para serem  benzidas por ela também. Meu pai é agnóstico e tenho três irmãos: um umbandista, outro espírita kardecista e o mais novo maçom, e eu cético em relação a tudo isso que descrevi até agora.

Meus questionamentos em relação a divindades e na crença de um deus criador, que olha por tudo, que sabe o que faz, e que não posso questioná-lo, começou quando tinha por volta de nove anos de idade. Lembro-me  olhando para uma folha em branco, tentando entender como algo pudesse amassá-la sem alguma interferência externa. Era assim que via toda aquela história de um deus que veio do nada, para criar e ser dono de tudo. Em meio às conversas que tinha com meus pais em relação ao meu ceticismo, resolveram me colocar para fazer a primeira comunhão quando tinha quatorze anos de idade, e na segunda aula o Padre (Fernandes) responsável pelas aulas de catecismo, disse a minha a mãe de forma serena que meu lugar não era ali, e que logo entenderiam – talvez fosse pelos meus questionamentos. Ao completar dezoito anos fizeram com que começasse crisma, e confesso que só fiz por causa da minha avó. Nessa época já estudava a história das religiões, bem como Astronomia. Como não encontrava algo que me fizesse acreditar de fato em tudo que via dentro da religião e em relação a um criador onipotente, onisciente e onipresente, resolvi estudar o macro, o começo de tudo.

Comecei a me dedicar a Física e hoje com trinta e oito anos curso Universidade de Astronomia. Nesses quase vinte anos de tudo, tudo (ou quase tudo) das dúvidas que eu tinha em relação aos mistérios não revelados (ou revelados) de forma incoerente pela religião, encontrei na Ciência – Física e Biologia são os ramos da Ciência que mais estudo atualmente, além claro da Astronomia, em que descobri que tudo não foi feito em sete dias, pois para ser gerada a primeira estrela foi necessário milhões de anos. Ao contrário do que muitos conseguem fazer, ainda não consegui traçar um paralelo ou um denominador comum entre Religião e Ciência. Religiosos, místicos, benzedeiros, padres, pastores e líderes de qualquer religião acham que a comunhão entre Ciência e Religião é dizer apenas sobre as bênçãos das divindades, com a tão falada e nebulosa Física Quântica, ou ainda pior: tudo aquilo que a Ciência não explica a Religião consegue – ambas situações tornaram-se clichê. É fato que existem pessoas espiritualizadas e da Área Científica, que conseguem traçar um relacionamento entre as duas coisas. Tenho um grande amigo assim. Físico e que acredita nessa cumplicidade entre a espiritualidade e as partículas subatômicas, o que pra mim ainda é extremamente utópico. Por mais que eu acredite (e tenha provas) que a energia que emitimos apenas pelo nosso pensamento seja algo extraordinariamente forte, me limito apenas àquilo que eu realmente consegui provar. Provar não para outros, mas para mim mesmo! Sabe aquela história de cada coisa no seu lugar? Sigo mais ou menos dessa forma. Mas aí você pode me perguntar se a Ciência explica tudo... E eu digo que para quase tudo que questionei até hoje, sim! Mas esta longe de explicar tudo tudo, afinal nada explica a totalidade do que existe.

Em meus estudos em relação às religiões, frequentei todos os principais cultos para entender o que se passava em cada uma delas, onde cheguei a uma conclusão. A espiritualidade como fonte de saber e de harmonia interna é ótima ferramenta para aqueles que precisam, mas o ser humano que tem por trás dos passes e das incorporações não! Já vi de tudo: desde “reze cem ave marias e cem pais nossos” pelo dízimo que não consegui dar, até que “deus não quer suas moedas, pois ele precisa de notas para terminar suas obras na eternidade”, até aqueles que davam passe em você no centro espírita e lá fora batiam na mulher e ignoravam os filhos. Que tipo de vibração um mamífero desses vai reportar a uma pessoa?  

Enfim, foi nesse estudo sobre as religiões, que em meados de 2015 encontrei uma página no youtube chamada Conhecimentos da Humanidade, com um vídeo sobre a introdução as Religiões. Dali pra frente me tornei um espectador e fã da página, pois tratavam do assunto religioso de forma imparcial, e principalmente com cunho histórico, que era exatamente o que gosto de estudar. Assistindo alguns vídeos tomei conhecimento de um Simpósio que seria realizado no início de Novembro (2017) – o Simpósio de Hermetismo e Ciências Ocultas. Confesso que dez anos atrás acharia um absurdo o fato de pensar em participar de algo relacionado a Ciências Ocultas, afinal pra mim não existe nada mais transparente que a Ciência natural. Me permiti ir a esse Simpósio e ver o que os participantes tinham a dizer, além de conhecer as pessoas que fazem parte de um grupo fechado de discussão referente ao canal Conhecimentos da Humanidade [grupo de apoiadores do canal no Padrim]. São pessoas extraordinárias, cada uma na sua percepção de fé e espiritualidade, onde não entendo de onde tiram tanta paciência para escutar as chatices de um cético :)

Finalmente chegou o grande dia! Na verdade foram dois dias seguidos: sábado e domingo. Um dia antes ainda pensava se deveria mesmo participar, mas posso dizer que foi uma experiência um tanto diferente na minha vida. Já ao chegar ao local onde teriam as palestras, me deparei com um cartaz do lado de cima da porta: “Simpósio de Hermetismo e Ciências Ocultas”. Respirei fundo! Logo vi uma pessoa com uma longa capa preta e capuz, outra vestida como uma bruxa. Tenso! Já estava na companhia de uma pessoa do grupo (Gidy Sampaio), e alguns minutos depois fui recepcionado pelo Léo Lousada, um dos organizadores do Simpósio e responsável pelos conteúdos no canal Conhecimentos da Humanidade.  Ele me  levou ao encontro de outro idealizador do canal, Bruno Lanaro, onde mais uma vez fui extremamente bem recepcionado. Entrei no local e pude ver todos aqueles meus amigos virtuais, inclusive Raph Arrais (você o conhece bem :), que tranquilamente e humildemente  veio se apresentar, além da Karina, Diego, Daniela e Rodrigo. Fiquei muito feliz em conhecê-los pessoalmente. São todos do bem, cada um no seu estilo. Tive conversas riquíssimas com cada uma delas, e agradeço muito por isso! Minutos depois me sentia totalmente fora de contexto, pois era muita gente espiritualizada, cada um de sua maneira, em seu entendimento diferente. Mas fui forte, e logo começaram as palestras. Uma a uma fui observando, divagando, pensando, fazendo paralelos com minhas crenças, mas me permiti deixar todo meu ceticismo e meu pensamento científico da porta pra fora.

Nos dois dias de Simpósio percebi que cada Ordem e Religião tendem a puxar o que mais se adequa a crença de cada um em um determinado grupo. A verdade, a magia, os deuses, as energias etc. Todos possuem uma comunhão dentro das determinadas crenças. Penso que poderia existir apenas uma para englobar tudo, seria mais coerente não? Mas talvez o ser humano precise dessas diversas possibilidades, pois nós somos assim. Queremos pertencer a um grupo específico, e a maneira mais fácil de se organizarem é a separação pelos ideais. Percebi também que mesmo com tantos pontos diferentes, o intuito é lavar ao mesmo lugar. Observei que sempre que abordavam o assunto Religião vs. Ciência cometiam algum deslize, e percebi também que a preocupação em querer linkar as duas coisas é muito grande, mas acredito que seja mais uma forma de se falar aleatoriamente sobre o assunto.  Hoje me parece que o créme de la créme da Religião em conjunto com a Ciência é a Física Quântica. O fato é que nem a Ciência sabe exatamente como empregá-la dentro do próprio meio científico, que é onde se abre brechas para oportunistas. Vejo que a parte mística ou ocultista começa onde a ciência deixa de explicar – e é aí que para mim começa o grande problema. A Ciência em cem anos veio para desmistificar milênios de mitos e/ou interpretações de livros sagrados e profetas.  Tenho que dizer que não presenciei muitos paralelos em relação a Ciência e Religião, a não ser quando uma espectadora disse que a Bíblia era “quântica”, mas até aí absorvi bem essa questão :) Bom, não estava em um Simpósio de Ciências, então de uma certa forma relevei o que foi dito, sem problema algum.

Cada palestrante representando a diversidade de Ordens e Religiões deixava sempre a entender que o bem comum para uma vida melhor, e consequentemente construir uma harmonia entre todos os seres – seja ela animal, vegetal ou mineral –, é o respeito, a bondade e o amor, dessa forma alcançando a espiritualidade de forma mais tênue. Senti isso também nas pessoas que lá estavam. Cada um da sua forma buscava o conhecimento e principalmente uma forma de elevação espiritual para se tornarem pessoas melhores. Não que com meu ceticismo também não busque tais atributos, mas a diferença que vi em relação a essa busca são os meios.  Procuro ser uma pessoa boa, ter atitudes condizentes com o amor, respeitar a Natureza não para agradar divindade ou ter uma vida eterna, mas ser feliz enquanto a vida aqui no Planeta Terra durar. Não peço nada a nenhuma divindade, apenas agradeço todos os dias. Para quem? Para minha mente! Se existe uma energia onisciente, onipotente e onipresente ela sabe exatamente o que estou passando, o porquê e do que preciso, logo não tenho necessidade de pedir nada. Se tiver algo além da morte do corpo, ótimo, se não tiver nada, tudo bem também. Apesar de saber que nosso corpo de fato é só energia, e não existe a morte de energia e sim a sua transformação, não me arrisco a dizer o que acontece depois que ela se livra da matéria densa que é o nosso corpo. Isso deixo para meus amigos com mais elevação espiritual que eu :)

Quanto a minha impressão final em relação ao Simpósio, posso dizer que foi muito boa, na verdade muito melhor do que esperava! Me arrisco a dizer que esse encontro sirva mais para pessoas como eu. Para os demais acredito que seja mais um complementando de sua busca. Escutar o que o outro lado tem a dizer é muito importante, é respeitar a fé e suas crenças, afinal é isso o que nos faz ser uma pessoa melhor dia após dia. Ouvi magos, bruxas e benzedeiros falarem sobre a forma com que enxergam a vida, e posso dizer que foi muito rico. Por mais que isso não faça parte do meu dia a dia, é bonito saber que há pessoas que através de sua magia se preocupam em ajudar o próximo. Senti muita cumplicidade, harmonia, respeito e principalmente o amor de todos!

Amor – um nome curto, com um significado enorme e tão difícil de ser empregado verdadeiramente em nosso dia a dia, mas quando é feito tudo de forma sincera percebemos a diferença que faz. O amor quando empregado de forma verdadeira, e aí não importa a Religião, a Ordem , ou apenas a percepção intrínseca: ele mudará sua casa, seu bairro, sua cidade, seu país... ele mudará o mundo! E foi exatamente isso que aprendi no Simpósio – não importa os meios, mas sim o final de tudo! E talvez o deus, as divindades, os santos, os guias, os anjos sejam apenas a forma de amor materializada da qual eles tanto falam. Talvez tudo isso seja apenas o amor! Pretendo voltar nas próximas edições e entender esse enorme mundo. E que dessa forma amemos mais, todos os dias!

***

Crédito da imagem: Martin Satler/unsplash

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7.12.16

Avistando tribos, parte 2

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).


« continuando da parte 1

A Águia aterrissou numa rocha mais elevada bem próxima a entrada da gruta, e me olhou fundo nos olhos. Não havia comunicação por palavras, apenas processos de pura intuição – e, afinal de contas, é preciso sempre lembrar que ela mesma era parte de mim.

Não sei exatamente como corre o tempo em tais experiências místicas, é certo que o que se passou jamais caberia nos 10 minutos em que Maiorino permaneceu tocando o seu tambor mágico, mas ainda assim boa parte da jornada já havia sido gasta em encontrar meu animal de poder, então não restava muito tempo, e talvez por isso o que senti a seguir se parecesse mais com um chamamento para um último voo, antes que aquele portal ancestral se fechasse.

Sim, um voo! Não foi como nos filmes do Senhor dos Anéis, devo deixar claro. Não havia ali nenhuma águia gigante em que pudesse pular no cangote. Era o voo da Águia e o meu voo, ao mesmo tempo, como se fôssemos um, ou ao menos como se eu pudesse ver através dela, com a sua peculiar acuidade visual... Assim voamos por extensos territórios, e pude ver que o meu Templo, afinal, parecia ser tão vasto quanto um país inteiro!

Não me entendam mal: muito pouca coisa do que vi era criação minha. Ocorre que, de alguma forma, quando caminhamos muito tempo na via espiritual, cruzamos com outros caminhantes, outras doutrinas, outras formas de enxergar este Cosmos. E, se nosso coração é aberto e interessado o suficiente nessa exploração toda, é claro que ganhamos algo em troca, ganhamos um mundo inteiro por ser explorado, lá dentro (ou lá fora, no próprio Plano Astral? a verdade é que não importa, o que importa é o que foi visto).

Nas extensas matas abaixo a Águia avistou muitas e muitas tribos, tribos que viviam em montanhas, próximas aos rios, em planícies de caça, e na profundeza das florestas. Nada disso era novidade para mim, tudo isso era apenas a própria jornada de nossos ancestrais por este vasto mundo ao qual chamamos Terra, ou Gaia.

Talvez seja mais fácil explicar com um breve relato de um outro dia, quando pude conversar com um caboclo, ou espírito de indígena, incorporado num médium num centro espírita ecumênico. Vocês já devem saber que os meus questionamentos nesses casos passam longe do trivial, “como vai meu emprego?” ou “será que minha mulher está me traindo?” etc., eu prefiro perguntar coisas que realmente me interessam, e naquele dia eu perguntei:

Vocês que foram perseguidos e exterminados por nossos ancestrais, que chegaram de barcos vindos de outras terras, porque continuam voltando aqui para nos ajudar?

E o caboclo, com o sorriso mais triste do mundo, me respondeu assim:

Meu filho, todos nós somos da mesma Tribo, nós voltamos para ajudá-los a relembrar. A doença da tribo daqui é esse grande esquecimento!

E quando se carrega esse entendimento, essa compreensão, marcada a ferro e a fogo na própria alma, não é difícil avistar tribos no horizonte de si mesmo. Desde que saímos da África, nós, os homo sapiens, temos montado muitos acampamentos e muitas fogueiras pelo mundo todo. O próprio termo xamã tem origem nos povos indígenas da Sibéria, e significa “aquele que enxerga no escuro”. Talvez as fogueiras tenham auxiliado nisso.

Em meu voo, foi chegando à tardinha, e as fogueiras começaram a ser acesas. Que espetáculo belíssimo! O tipo de cena que compensa todas as dificuldades e percalços neste caminho espiritual, e todo o sangue que foi deixado nos espinhos...

Mas então, naquele prédio em plena Avenida Paulista (lembram dele?), o toque do tambor começava a variar seu ritmo, era o momento de se preparar para voltar ao mundo do grande esquecimento.

A Águia pousou no topo de uma montanha, e um pouco antes de retornar, por um brevíssimo instante, eu pude me ver ali, metamorfoseado, meio homem, meio águia. Um homem com cabeça de águia. Nada que já não tenhamos visto na arte mais antiga do mundo...

***

“Sim, mas e de que adianta tudo isso?”, você pode me perguntar... A ideia, é claro, não é encerrar essa jornada após haver encontrado nosso animal de poder. De fato, este encontro é somente o seu início!

Uma das coisas que o Maiorino disse na sua palestra, antes da prática com o tambor, e que achei muito interessante, é que deveríamos iniciar o estudo de nosso animal de poder pelo seu comportamento na Natureza. Ou seja, nada de livros de simbologia ou mitologia, o estudo deveria começar pelos livros de biologia.

Como veterinário (dentre muitas outras especialidades), Maiorino sabia exatamente do que estava falando: é claro que a simbologia também importa, mas é o comportamento do animal em si que poderá nos dar mais pistas sobre nós mesmos, afinal a prática do xamanismo é indissociável da Natureza, como já foi dito.

Assim, por exemplo, posso me reconhecer de cara em duas características muito conhecidas das águias: caçar de forma solitária ou em pares; planar por longos períodos nas correntes de vento do alto, observando tudo o que se passa lá embaixo, para atacar com precisão qualquer presa desavisada.

Ora, não é isso o que tenho feito por tantos anos em meu blog? Planado pelas doutrinas, pelas filosofias, pelas religiões e teorias científicas, na maior parte do tempo só, às vezes com a ajuda de poucos amigos interessados, para de vez em quando descer e apanhar com minhas garras um ou outro pensamento, uma ou outra ideia, uma ou outra reflexão, que achei que dariam uma refeição apetitosa?

Voltando ao O Espírito do Xamã, Mike Williams também conta uma história que tem a ver com águias: “Os xamãs buryat do lago Baical, no sul da Sibéria, receberam seu poder dos deuses, ou tenger. Num esforço para dar fim ao sofrimento na Terra, o deus dos céus, Tengri, enviou uma águia para ensinar o xamanismo às pessoas. Mas elas não entenderam a língua da águia, então a uniram a uma mulher e a esta deram seu poder. Ela se tornou o primeiro xamã dos buryat.”

E assim, desde a primeira xamã até hoje, tudo o que as tribos do Alto têm tentado fazer é ensinar as tribos aqui de baixo a acender as suas próprias fogueiras, e sinalizar:

Ei! Nós estamos aqui! Nós nos lembramos de porque estamos aqui!


***

Nota: Encontrei um trechinho em vídeo da palestra do Fernando Maiorino, que entrou ao vivo no Facebook do pessoal da página Conhecimentos da Humanidade.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search; [ao longo] Susan Seddon Boulet (Shadow Play)

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6.12.16

Avistando tribos, parte 1

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).


Eu havia finalmente encontrado a gruta. Não era uma caverna, um buraco no chão ou nalgum tronco oco, mas uma gruta, e bem debaixo da cachoeira que eu costumava sempre ver ao longe... E agora, tão perto, era belo assistir a corredeira passar por cima de mim, salpicando gotículas que pairavam por todo o ambiente. Até o musgo nas pedras era de um verde que talvez só existisse mesmo ali, dentro de mim.

Mas eu não estava ali para admirar a Natureza que a mente imagina, estava ali para adentrar a gruta, e encontrar o meu animal de poder!

Ao mesmo tempo em que estava lá, frente a frente com a entrada escura que me encaminharia para algo desconhecido debaixo da terra, também estava em plena Avenida Paulista, confortavelmente sentado ao lado das dezenas de inscritos no V Simpósio de Hermetismo (2016), escutando ao ritmado e potente toque de tambor de Fernando Maiorino, fundador do Núcleo Xamânico Casca da Tartaruga, o primeiro palestrante daquele sábado.

Como o próprio Maiorino havia dito na apresentação que antecedeu aquela prática, “para o xamã os mundos sonhados são tão reais quanto este”. Num certo sentido, a experiência espiritual pela qual muitos de nós passamos na busca por nosso animal de poder era ainda mais real do que o mundo em que vivemos de olhos abertos, mas na maior parte das vezes desatentos para o que há de belo na Natureza lá fora. Afinal, a capacidade de estar atento à tanta beleza depende essencialmente da beleza que encontramos lá dentro, em nossas cavernas ancestrais e no seu entorno.

Segundo Maiorino, deveríamos fechar os olhos e relaxar a mente, permitindo que ela “inventasse as coisas livremente”. Essa invenção, obviamente, era guiada pelo passo a passo do ritual: “Se veja numa floresta, sinta o ambiente a sua volta, a grama, a corpulência das árvores, a brisa etc. Então procure por uma caverna, ou algum buraco no chão, um tronco oco de árvore, qualquer coisa que você possa se meter dentro. Entre nele e, ao aparecer um animal, lhe pergunte – Você é meu animal de poder?”

Em O Espírito do Xamã, o estudioso e praticante de xamanismo Mike Williams explica que o animal de poder, ou nagual, “não é um totem, não representa uma pessoa ou sua linhagem, e não é um animal real. Só é possível interagir com o animal de poder num plano paralelo. Cada pessoa tem um animal de poder próprio, que a acompanha por toda a vida, estando ela ciente disso ou não”. Na realidade, o animal de poder representa um aspecto expressivo de nosso próprio mundo interior, de nosso inconsciente mais ancestral e profundo. Conhecer nosso animal é talvez a mais antiga e sobrevivente prática de autoconhecimento da humanidade, muito anterior à religião arcaica, a filosofia e tudo o que veio depois...

Obviamente que o tambor tinha forte influência no ritual, era ele o instrumento primordial para a condução aos chamados estados alterados de consciência, que permitiam que a mente “inventasse tanta coisa”. Como bem resumiu Maiorino, “o tambor representa o útero de Gaia, e o seu som, a batida do coração da Terra”. A experiência xamânica é indissociável da experiência de contato com a Natureza, ainda que todos estivéssemos de fato bem no centro de uma das maiores metrópoles do planeta, que não foi exatamente sábia em sua urbanização.

Uma coisa que provavelmente auxiliou em minha jornada sob o som do tambor é o fato de que o meu Templo Astral [1] já é situado num espaço natural e aberto. Normalmente estou ao lado de um imenso carvalho, sentado numa pequena pedra sobre a grama, em cima de um monte, e à distância vejo um rio passar, vindo de uma cachoeira bem mais ao fundo, a minha direita, caindo de uma montanha um pouco maior.

Assim que fechei os olhos estava lá, como sempre. Tudo o que tive de fazer foi me levantar e me virar, pois sabia que atrás de mim havia uma floresta. Em meu ceticismo (subjetivo) eu honestamente pensei que provavelmente veria muitas araucárias e quem sabe eucaliptos, pois é esta a flora da Serra da Mantiqueira ao sul de Minas Gerais, onde vou desde pequeno passar algumas das minhas férias, e de longe o lugar do planeta onde mais me embrenhei no mato, por assim dizer. Mas nunca me toquei de que a charada já estava posta: ora, se em meu Templo eu sempre estive ao lado de um carvalho, era mesmo para se supor que a floresta seria de frondosos carvalhos – e, de fato, era exatamente assim.

É preciso deixar claro que nunca tive muita facilidade para esse tipo de ritual de “imaginação de coisas”. Até mesmo por isso eu construí mentalmente o meu Templo de forma bastante elaborada, para sempre ter ao menos uma boa base para as viagens internas. Nessa aventura ao som do tambor de Maiorino, no entanto, eu vi e vivenciei muita coisa, muito mais coisa do que seria verossímil acontecer nos 10 minutos em que durou a prática.

Mas, assim como nos sonhos, onde muita coisa pode ocorrer em pouco tempo, e onde vemos muitas coisas, mas sem usar os olhos, e escutamos a tudo, sem usar os ouvidos, e por vezes falamos, sem mexer os lábios, exatamente assim se passou naquele longo sonho lúcido em meu mundo interior.

Enquanto num prédio da Avenida Paulista um antigo tocador de tambor se aproximou de onde eu estava sentado, e com ele o seu som mágico, em meu Templo eu imediatamente iniciava a minha jornada... Adentrando a floresta, parcamente iluminada pelos poucos raios de sol que venciam os carvalhos gigantes, procurei e procurei por alguma caverna ou buraco que fosse, mas estranhamente era sempre atraído para o som do rio e da cachoeira distante. Me embrenhei profundamente na mata, descendo e subindo níveis, sem encontrar nenhuma caverna ou animal, até que, de repente, vi uma abertura na floresta, e ao passar por ela me dei de cara com a cena inicial deste relato: a gruta por baixo da cachoeira, a água caudalosa passando por cima, as gotas transparentes flutuando pelo ar, o musgo de um verde peculiar, e a entrada escura, rumo ao fundo da terra.

Naquele momento eu busquei seguir os comandos ritualísticos a risca: “Entre na caverna e, ao aparecer um animal, lhe pergunte – Você é meu animal de poder?”. Assim, era óbvio que eu tinha de entrar naquela gruta escura. Mas algo me deteve. Não foi o medo nem nada parecido, pois eu de fato estava ansioso por encontrar algum animal que fosse. Foi algo mais inusitado: o ressonante piar de alguma ave, lá no alto, que descia em círculos em minha direção. Era ela quem não me deixava entrar!

Assim, acomodando meus olhos a claridade que vinha do alto, e desviando das gotas da cachoeira, pude contemplá-la em toda a sua beleza e magnitude: uma Águia de penas brancas e acinzentadas [2], imperadora do ar, vinha circulando pelo céu...

Ela havia me escolhido há quem sabe tantas vidas, e era ali, precisamente na entrada da gruta, o nosso reencontro tão esperado. O tipo de reencontro que será lembrado por muito, muito tempo.

» Em seguida, voando com a Águia...

***

[1] Segundo Marcelo Del Debbio, “o Templo Astral é uma das primeiras coisas que um estudioso de ocultismo aprende a fazer, em praticamente qualquer Ordem ou Fraternidade que ingresse. Trata-se de uma construção no Plano Mental e Astral de um refúgio onde o magista pode descansar a mente, preparar uma viagem astral e guardar suas ferramentas. Trata-se de um local onde ele pode até mesmo realizar rituais se não dispor de espaço físico no Plano Material para tal”. Eu devo acrescentar que uso o meu Templo para tudo, desde breves meditações a trabalhos espiritualistas em geral, seja no campo do espiritismo e umbanda, seja no campo da magia. Saiba como criar o seu.

[2] Aqui é preciso ser sincero e admitir que o que eu vivenciei foi mais o conceito, o símbolo de uma águia. O que me chamou mais a atenção foi o seu rosto (os olhos e o bico), e não tenho certeza se era uma águia de cabeça branca, aquela mais famosa que é inclusive símbolo dos EUA, ou alguma outra espécie. Para este relato, eu optei por considerar a espécie Geranoaetus melanoleucus, a águia serrana, por ser uma espécie que vive em território brasileiro. Talvez seja só o incômodo de um cético, me perdoem.

Crédito das fotos: [topo] AESG/Divulgação (Fernando Maiorino durante o V Simpósio de Hermetismo); [ao longo] avespampa(.)com(.)ar (Águia Serrana)

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8.9.16

Simpósio de Hermetismo, 2016

O Simpósio Brasileiro de Hermetismo e Ciências Ocultas, organizado pela Associação Educacional Sirius-Gaia, chega à sua quinta edição. Comprometido com os valores de pluralidade, autoconhecimento e evolução o evento este ano orbita o tema A Grande Obra: o caminho e a responsabilidade.

Poucos temas poderiam ser tão importantes e tão desafiadores. A realização da Grande Obra é o objetivo de quem se compromete com o autoconhecimento: conhecer-se e integrar sua Verdade à Vida, a ponto de que não exista ato fora dela - é a ambição máxima para um Hermetista.

Existem diversos nomes para tal Estado tanto quanto existem filosofias: descoberta e exercício da Verdadeira Vontade, Iluminação, Despertar, tornar-se Justo etc. Os nomes variam tanto quanto os métodos existentes, mas a meta final é uma: manifestar na terra a Verdade de cada um.

Cada caminho diverge do outro tanto quanto cada caminhante diverge do outro, mas todos trazem em comum algumas características:

» Trata-se de um caminho. Não se espera uma solução imediata, do dia para a noite, mas um caminhar gradual e que se constrói passo a passo no dia a dia do magista.

» Traz responsabilidade. Aquele que conhece a Verdade torna-se responsável por se comportar de acordo com ela e, muitas vezes, torna-se também responsável por todos aqueles que ainda vivem em estado de torpor e desconhecimento.

O V Simpósio Brasileiro de Hermetismo e Ciências Ocultas traz, portanto, em 2016, a exposição e conversação entre as mais diversas filosofias a respeito desses três pontos: o caminho, a prática e a responsabilidade daquele que busca a realização da Grande Obra. O evento ocorrerá durante os dias 26 e 27 de Novembro em São Paulo, no Espaço Federal, na Avenida Paulista, 1776, primeiro andar (próximo ao metrô Trianon-Masp).

» Inscreva-se já! (quanto mais cedo, menor o valor)

» Veja a programação completa

***

Nota: Já me inscrevi para o Simpósio deste ano, e devo estar pessoalmente no evento (como espectador). Se você curte este blog, além de poder me encontrar por lá, provavelmente deverá curtir o que os palestrantes têm a nos passar. Mas, para além do ganho de conhecimento, o que é mais interessante num evento como esse é exatamente poder encontrar pessoalmente todos os demais "loucos" que se interessam por tais assuntos. Há uma sensação de comunidade e pertencimento que pode ser bastante agradável aqueles que têm a alma aberta :)

Crédito da foto: AESG/Divulgação

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23.11.15

Onde vivem os magos

Um mago é antes de tudo um ser desperto. Nesse sentido, o “despertar” não significa necessariamente a aquisição de um “conhecimento secreto”, tampouco torna este próprio mago alguém superior aos demais. Pelo contrário, o verdadeiro mago é aquele que já se iniciou no caminho que conecta todos os seres e todas as coisas, e já percebeu que não faz sentido pensar num céu de escolhidos. Sabe que, se o céu não for erigido aqui, neste mundo, neste tempo, ele será sempre um céu vazio, uma fantasia pobre, um anti-mito.

Tais magos aprendem a reconhecer seus próprios pensamentos e a filtrar o que vem de fora. E assim, com o tempo, com apenas algumas vidas passageiras, uma espécie de milagre acontece, e onde antes se via um charco de caos e desejos desenfreados, passa a se ver um sistema que guia a tudo e a todos rumo a uma montanha de onde é possível ver toda a paisagem, e esta paisagem se torna a imagem daquilo que é lembrado para sempre. Às vezes temos visto tal paisagem em nossos sonhos mais iluminados...

Aqui neste país tropical, todos esses que sonham juntos um mesmo sonho por vezes se encontram em São Paulo. Em plena Avenida Paulista, enquanto uns estão indo ao banco, ou fazer compras, ou simplesmente assistir ao cover do Elvis (e nada contra nada disso), outros estão indo encontrar consigo mesmos, e com a essência da realidade. Este evento ocorre praticamente uma vez por ano, o último foi no fim de semana passado.

Abaixo lhes trarei alguns trechos do que vi, ouvi e senti no IV Simpósio de Hermetismo e Ciências Ocultas [1]:

Signos Intermediários na Astrologia, Marcelo Del Debbio

“A linguagem astrológica preenche a arte com os seus símbolos mais profundos, particularmente no Renascimento.”

“Não há saltos abruptos entre as energias que os signos simbolizam, mas variações graduais, como tudo no tempo da natureza.”

“Quem nasce entre os dias 21 e 22 de cada mês está mais próximo dos intervalos entre os signos, isto é, dos signos intermediários.”

“O estudo de tais signos intermediários é um avanço sobre a astrologia tradicional, o que prova que ainda há muito por ser estudado e compreendido.”

“Todos os signos trazem potencialidades boas e más, o que cada um vai desenvolver vai de acordo com o seu livre-arbítrio.”

Alquimia e Hermetismo, Giordano Cimadon

“A gnose é uma experiência, uma ‘doutrina sem forma’ que se manifesta na própria alma, e não em livros.”

“No estado de consciência adequado, até mesmo os eventos mais cotidianos da vida se tornarão uma aventura espiritual.”

“A gnose é o terceiro componente principal da formação da cultura ocidental, após a racionalidade e a fé dogmática.”

“Para os gnósticos, Deus não é homem, mulher, velho, jovem, nem animal nem planta nem mineral, pois se encontra além da epistemologia [conhecimento racional].”

“O aqui é um ponto além do espaço. O agora é um ponto além do tempo. Viver no aqui e agora, portanto, é viver na eternidade.”

Mitos e Lendas Celtas: Decifrando Nossa Rica Herança Espiritual, Cláudio Crow

“Mitologia, espiritualidade, religião, filosofia e história são, no fundo, uma só coisa, e não podem ser compreendidas em separado.”

“As verdades presentes nos mitos não são proclamadas por profetas, mas nascem de nós mesmos, de nossa essência eterna.”

“Os deuses e as deusas da cultura celta são emanações da paisagem, indissociáveis da natureza. Para a cultura celta, a morte de um rio seria a morte de uma deusa.”

“A mente celta jamais se sentiu atraída pela linha reta, e evita formas de ver e perceber o mundo que se satisfaçam com a certeza.” (John O’Donohue)

“O druida [sacerdote celta] não vê o outro mundo, vê este mesmo mundo com outros olhos, e deve se dedicar a trazer a perfeição do céu para a terra.”

Hermeticaos: Magia não é “bug”, é “cheat code”, Felipe Cazelli [2]

“A verdadeira treta na discussão se Deus existe ou não nem é a questão existencial em si, mas uma disputa que envolve a resposta da pergunta, ‘Quem vive melhor, o ateu ou o crente?’. Diante disso, eu gosto da solução que um amigo meu encontrou; ele diz que ‘é um ateu não praticante’.”

“A verdade é uma experiência. Assim sendo, os devotos das religiões organizadas são, em sua grande maioria, uma galera que acredita piamente nas experiências dos outros, algumas de milênios atrás, e se abstém de ter as suas próprias experiências desta verdade.”

“Estes são os fundamentos do ocultismo ocidental: (a) Não tem credo, mas hipóteses que precisam ser testadas, ainda que subjetivamente; (b) Muitos acabaram se convencendo de que há mesmo um mundo invisível; (c) Da mesma forma, que há uma ordem no universo, e que nada existe sem um propósito; (d) Igualmente, que tudo evoluí, do caos para a ordem, do simples para o complexo; (e) Que aprendemos através das reencarnações; (f) Que as circunstâncias de nossas vidas servem para o nosso desenvolvimento; (g) e finalmente, que há espíritos que podem afetar a realidade a nossa volta.”

“A magia é arte, a arte, e esta é uma afirmação grave! Pois, como uma arte, a magia não tem realmente regras definidas. O ritual mágico é uma experiência arbitrária, e nem mesmo um estado de consciência alterado se faz necessário para que ele seja realizado. No fim das contas, você consegue o que pediu, se a sua crença for praticada diariamente, e se o que deseja tem meios de se manifestar de acordo com as leis naturais.”

“Se a energia é a massa acelerada a velocidade da luz, a massa, isto é, a matéria, é uma ‘energia lerda’. Isto é bom, pois que se a realidade é puramente mental, há um delay entre o que você pensa e o que você efetivamente realiza. Assim, nós estamos nesse mundo, sobretudo, para aprendermos a controlar a mente, que nunca desliga. O dia em que não vermos problema em ver nossos desejos realizados imediatamente, sem delay, estaremos já iluminados, e não será mais necessário vivermos por aqui.”

Nos Sagrados Caminhos da Y’urema, Rita Andreia de Cássia

“A natureza é sagrada e viva, e Y’urema é a árvore, e também a deusa, que liga a terra e o céu.”

“O mundo está doente porque os homens se distanciaram do seu lado feminino.”

“Nós temos fé que existe um espírito vegetal que nos cura...”

“A Y’urema é uma árvore de muitos, muitos galhos... Ela é a maior entidade dos cultos ameríndios.”

“No fundo, toda a magia terá a cor que você pensar.”

A Magia na Umbanda, Alexandre Cumino

“Zélio de Moraes fundou a umbanda em Niterói/RJ, em 1908, com 17 anos de idade. Foi a entidade que ele incorporava, o Caboclo das 7 Encruzilhadas, quem idealizou o ritual de umbanda. A umbanda é a primeira religião nascida exclusivamente no Brasil.”

“Este caboclo foi reconhecido como um padre católico em uma vida passada por um médium espírita vidente, mas ele responde ao médium que ‘somente uma encarnação não resume o que é um espírito, e hoje eu prefiro ser um caboclo’.”

“A umbanda faz questão de ser uma religião, e cultuar os orixás e os santos católicos. A umbanda, ao contrário do espiritismo, não tem ‘centro’, tem ‘templo’, com altar e uma ritualística formal.”

“Uma falange é composta por muitos espíritos anônimos usando um mesmo nome para se identificar. Assim sendo, não há somente um Preto Velho, uma Maria Padilha ou um único Caboclo Pena Branca, mas muitos deles.”

“Na umbanda e nos demais cultos africanos, a chamada Direita se encarrega de trazer a energia positiva, enquanto que a Esquerda se dedica a repelir a energia negativa. Dessa forma, ambas têm a sua função, que é sempre benéfica (em se tratando de magia divina).”

***

[1] Se trata de pequenos trechos e frases que anotei em meu caderno. Não significa que tenha sido exatamente o que os palestrantes disseram, mas antes já a minha interpretação, por vezes resumida, do que foi dito. Finalmente, vale notar que infelizmente eu não tive tempo de assistir todas as palestras (apesar de ter assistido somente cerca de metade da palestra do Alexandre Cumino, decidi incluí-lo também).

[2] O próprio título da palestra do Cazelli já encerra um conhecimento profundo, que merece uma explicação: um bug seria como que uma espécie de falha no sistema de um game; já um cheat code seria um código que permite “burlar” certas regras do jogo. Ora, se a realidade é um sistema mental, um mago não está se aproveitando de nenhuma suposta falha deste sistema, mas antes se aproveitando desses tais códigos que permitem alterar suas regras – o detalhe é que tais códigos já estavam inseridos nela, desde o início dos tempos.

Crédito das fotos: Raph e AESG

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24.8.15

Simpósio de Hermetismo, 2015

A foto acima foi tirada em 2012, durante o III Simpósio de Hermetismo em São Paulo, organizado pela Associação Educacional Sirius-Gaia. Se notarem bem, eu também estou ali no meio do pessoal...

A boa notícia é que este ano finalmente teremos o IV Simpósio, também em São Paulo, no mês de Novembro. A ótima notícia é que, até amanhã, você ainda pode se inscrever no evento com o preço promocional.

Mas, o que diabos é um Simpósio de Hermetismo?

A Filosofia Hermética é base de tradições milenares, perpetuadas através dos diversos métodos adotados nos diferentes Círculos Iniciáticos, que permitem aos praticantes a expansão da consciência através do autoconhecimento, seu desenvolvimento enquanto indivíduo (e consequentemente do mundo que o cerca) e a superação das fronteiras do ordinário.

As Ciências Ocultas unem o conhecimento místico à ciência e procuram desvendar de forma clara e compreensível aquilo que é “extraordinário” ou, em outros termos, aquilo que vai além do “conhecimento ortodoxo”, a ciência convencional.

Esta sabedoria antiga durante muito tempo permaneceu restrita às diversas Ordens ou Escolas de Mistérios, guardadas do acesso do público em geral, não apenas por seu caráter “secreto”, mas porque sua linguagem simbólica encontra-se além da visão objetiva ou dos interesses da maioria das pessoas, permanecendo “oculta” para elas.

O Simpósio deste ano chega a sua quarta edição, com o mesmo objetivo de promover e sustentar o debate a respeito de diversas práticas ocultistas e filosóficas, reunindo no mesmo evento diferentes correntes e Escolas Ocultistas para compartilhar sua visão e sua prática.

O evento ocorrerá durante os dias 20 a 22 de Novembro em São Paulo, no Espaço Federal, na Avenida Paulista, 1776, primeiro andar (próximo ao metrô Trianon-Masp). Veja a programação completa.

***

Nota: Já me inscrevi para o Simpósio deste ano, e devo estar pessoalmente no evento (como espectador) durante todo o Sábado (21) e a manhã de Domingo (22). Se você curte este blog, além de poder me encontrar por lá, provavelmente deverá curtir o que os palestrantes têm a nos passar. Mas, para além do ganho de conhecimento, o que é mais interessante num evento como esse é exatamente poder encontrar pessoalmente todos os demais "loucos" que se interessam por tais assuntos. Há uma sensação de comunidade e pertencimento que pode ser bastante agradável aqueles que têm a alma aberta :)

Crédito da foto: AESG/Divulgação

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2.8.15

Os conhecimentos da humanidade

Há pouco mais de dois meses o canal Conhecimentos da Humanidade publicou o seu primeiro vídeo no YouTube. Segundo Léo Lousada e Bruno Lanaro, apresentadores, roteiristas e editores dos episódios, o seu objetivo é:

"Aqui nós iremos te levar pra uma viagem através da história da humanidade, abordando os conhecimentos das tradições ocidentais e orientais. Falaremos sobre religião, misticismo e mitologia, assim como um pouco de história, ciência e curiosidades sobre os temas abordados."

Quando ambos disseram isso em seu primeiro episódio, com caixas de War, Dungeons & Dragons e Battletech na estante as suas costas, eu honestamente não coloquei tanta fé; mas já na sequência do primeiro episódio ficou claro que aquilo parecia muito mais do que um vídeo caseiro que dois amigos decidiram filmar e divulgar no YouTube.

A verdade é que fui um homem de pouca fé. Léo Lousada é um dos integrantes da Associação Educacional Sirius Gaia, um dos responsáveis pela organização dos Simpósios de Hermetismo em São Paulo (dos quais falarei mais em breve aqui no blog), e um amigo virtual que ainda não tive a oportunidade de conhecer pessoalmente. Já Bruno Lanaro, que eu não conhecia, me parece ser um grande estudioso de mitologia e espiritualidade, particularmente da parte oriental do globo.

Bem, e o que eles conseguiram nesses dois meses foi muito mais do que arranjar um cenário para esconder o seus gostos nerds (nada contra os gostos nerds!): os vídeos do seu canal não só são muito bem planejados, roteirizados e apresentados, como formam uma sequência que promete nos trazer um conhecimento genuíno das nossas tradições espiritualistas, e isso já é muito, muito mais do que 99% do que vemos por aí... E a melhor coisa é que eles parecem muito disciplinados, e nos trazem um novo episódio, de cerca de 10 a 15 minutos em média, religiosamente toda a quinta-feira. Por um trabalho gratuito e feito com carinho, está ótimo.

Até agora eles já falaram sobre locais sagrados e, na série sobre religiões, já passearam sobre o xamanismo, o hinduísmo e o zoroastrismo. É precisamente o primeiro episódio desta série que decidi lhes trazer abaixo. Mas em seu canal no YouTube vocês podem conferir muitos outros vídeos interessantes. Bom aprendizado a todos!

***

Crédito da imagem: Conhecimentos da Humanidade (Léo Lousada e Bruno Lanaro)

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9.11.12

A iniciação de Márcio Lupion

Outra grande alma que vi pelo III Simpósio de Hermetismo é Márcio Lupion, monge, arquiteto, franciscano, liberto [1]. Eis o que disse acerca da própria iniciação [2] (o comentário ao final é meu):

No primeiro dia, após Marcio ser aceito como aluno no Ashram foi um momento de imensa felicidade, pois depois de tanto tempo de leitura e espera, conseguir fazer parte das aulas era um triunfo pessoal enorme; para aquele que leu a vida do Paramahansa Yogananda e viu a dificuldade que o swami teve para encontrar seu mestre, ser aceito equivalia encontrar a própria libertação.
E não era um lugar qualquer, pois ali se reunia toda sua história pessoal, sua busca espiritual, os livros, sua memória sagrada. Parecia que ele havia se preparado para encontrar esse swami, naquele exato dia, um verdadeiro e feliz renascimento!

Na primeira aula, dividida em cinco yogas diferentes, começava-se pela Hatha Yoga, depois eram mais minutos de pranayamas - aqueles exercícios de respiração que preparam o corpo para a meditação, onde a mente vai silenciando, passo a passo, o batimento cardíaco vai diminuindo, chegando em um determinado momento em que simplesmente se sentava pra meditar, com a mente calma, o corpo tranqüilo e aí aprendia-se a ouvir, a mergulhar no silêncio, de um modo profundo, repleto de bem-aventurança e uma paz incomensurável.

Aos 20 e poucos anos, percebia-se o mundo somente agora, no momento em que sua mente se esvaziava, que as aflições do corpo silenciavam e não se sentia mais o corpo, onde ele começava nem terminava, não se tinha noção de tempo, nem da sua própria respiração; eram horas de silêncio onde, de repente, um sino tocava, e a partir dele, cantava-se mantras que falavam de Ganesha, Shiva, Krishna e de Rama, mesmo sem saber direito quem era Krishna, quem era Rama, cantava-se por 15, 20 minutos com uma devoção impressionante. As aulas eram divididas como em qualquer Ashram que se preze, segunda e quarta-feira, as meninas; terça e quinta-feira, os meninos, das 19:00h as 20:30h.

Foram meses e meses de exercícios com uma alegria indescritível. Cada vez que ele se sentava para meditar, ao voltar da meditação, sabia e sentia que era outra pessoa. Em nenhuma meditação verdadeira, a pessoa que se senta é a mesma que se levanta. A cada dia o ego, ou o que restou dele, ia se esvanecendo, se extinguindo e a vacuidade que a meditação trazia junto com bhakti e as canções...

Seu mestre falava que na "volta para casa" precisava-se de duas asas de anjos, uma asa chamada meditação, silêncio interior, mente vazia, som guardado, silencioso, corpo e gesto silencioso; a outra asa era a devoção, amar realmente Deus. Os Avatares são as pessoas que vêm para a Terra sem ego e promovem ajuda a todos os seres ao seu redor, a amar todo esse sistema de forma incondicional.
Quando se cantava, entendia-se o que era esse amor... Ao sair do Ashram à noite, Marcio pegava o ônibus para casa, sentava e sentia de verdade cada ser humano, os olhos do trocador, cansado, sonolento, atrás da catraca e, cada um ali, que enfrentava uma rotina, carregando pelas costas o peso do dia, ficando às vezes duas horas olhando pela janela sem ver nada; sentia mentes e corpos cansados e pessoas sem esperança. Mas de uma forma incrível, para ele, andar do lado do mais humilde era infinitamente melhor do que sentar na faculdade ao lado das pessoas que estavam curtindo a vida. Não conseguia entender como elas festejavam enquanto em volta haviam pessoas com falta de alegria, sem possibilidades...

Os contrastes foram ficando cada vez mais acentuados. Qanto mais meditação mais devoção, mais silêncio, menos ele conseguia viver com pessoas que achavam essa vida maravilhosa; não a vida do comer dos pássaros, do vento, a vida pura; mas a vida mental, a vida imposta, aquela vida em que a gente fala que as pessoas viraram pessoas de-mentes, pessoas que mentem para elas mesmas, porque a natureza da mente - me desculpem o trocadilho - é produzir mentiras. E no meio dessas mentiras pessoais, ele começou a entender o que é o ego, uma persona, uma máscara que as pessoas usavam para se colocar sempre em uma condição melhor do que elas mesmas, melhor do que os outros e, em alguns casos, até, em condições piores, doentes, porque aquilo desfazia algum tipo de bem que até hoje não entende.

O ego é a nossa máscara e a meditação tira a nossa capacidade de ver o ego no outro. Nesses meses, chegar perto de qualquer pessoa de atitudes mundanas, engajadas na realidade vigente, era incômodo, era uma sensação de dor física que pegava o estômago, um enjôo... e com o ouvido familiarizado agora ao silêncio, não conseguia conversar, nem mais jogar conversa fora. Parecia que a vida era mais importante do que relatar coisas que aconteceram de forma superficial ou simplesmente julgar o outro, falar, analisar o outro sem estar dentro dele. Como é que pode a meditação e a devoção o levarem a sentir o outro, falar de uma pessoa que você já sabe o que está sentindo?

Naqueles dias era praticamente desnecessário falar ou conviver com qualquer pessoa, porque parecia que você sentia realmente que a vida que habita dentro de cada um de nós, é a mesma que habita todo o cenário externo, e você percebia que cada pessoa queria somente ser feliz, e viver em paz, mas parecia que o tempo já não importava, era um contraste enorme entre essa sensação, esse brilho no olhar de cada pessoa, como se fosse uma criança perdida nos olhos de um adulto, era impressionante a diferença entre este ser que habitava em cada um de nós e os pensamentos externos, tendenciosos, os pensamentos do ego.
Naquele dia, Marcio entendeu uma frase simples que martelava em sua cabeça sobre o Cristo, "o Cristo ser o que ele é". Ramana falava o tempo inteiro em ser, os mestres falam sempre que temos que manifestar a nossa essência pura.

Assim, ele compreendeu quem era Cristo... e o anti-Cristo... Aquilo que não é nada essencial, a superficialidade das ações, gestos, da fala, era uma doença e tantas vezes via o seu mestre passar, sorrir e gesticular com a boca aqueles barulhinhos de "tsc, tsc, tsc", de desaprovação... e dizia: o homem está doente"... sorria e comentava: "penso e logo desisto". Passava sempre sincero, verdadeiro, honesto, leve, gentil, carregando o peso de todos em seus olhos, mas nunca lhes devolvendo nenhum mal estar.

Assim era a vida de aluno daquele Ashram... Determinado dia, lá para o dia 15 de agosto, de um ano que nem se recordava mais, talvez 1982, teve uma crise de choro, comprou flores e frutas, e foi ao Ashram, eram 17:00h e a aula começaria 2 horas depois. Fazia isso algumas vezes para meditar, mas nesse dia chegou sem motivo algum.
A mãe do Ashram, a Mãe Sutra - que significa ensinamento, falou: filho, você vai ser iniciado hoje? Ele falou: não, não sei, só cheguei mais cedo para meditar. Aí, ela disse: coloca a sua roupa branca e espera no vestiário, por favor. De repente, ele escutou uma batida no vestiário, seu mestre entrou e falou: Bom, você, já está há algum tempo aqui como aluno e chegou o dia de morrer, chegou o dia da sua iniciação, vem comigo que chegou a hora de você optar, se você quer realmente a felicidade plena, ou simplesmente caminhar como os outros homens que ficam entre a alegria e a dor. Venha comigo, filho!

"Neste céu de liberdade, Pai, deixe meu país despertar" (Tagore)

***

Comentário
No Simpósio, Márcio deu um relato comovente e sincero acerca de seu primeiro vislumbre do sagrado (dentro de si mesmo), quando entrou em estado alterado de consciência ao assistir, no cinema, a obra prima de Zeffirelli - Irmão Sol, Irmã Lua -, que conta a história de Francisco e Clara de Assis, dois dos maiores santos de nossa história. Santos não pela família em que nasceram, cargos que ocuparam, livros que escreveram, mas pelo exemplo de amor... E só se ama como seres assim quando se descobriu a fonte que não seca, a sarça que arde pelo fogo de si mesma, o Amor Sem Fim, dentro do próprio ser. Daí então se sabe o que é Cristo, e anti-Cristo... Márcio é um bom exemplo de como isso ainda pode ocorrer em qualquer lugar, em qualquer época, ou mesmo na Liberdade.

[1] Conheça seu extraordinário trabalho em projetos de reformas (redesigns) de cenários urbanos: kallipolis.org

[2] O texto foi retirado do blog Stigmatized Girl.

Crédito da imagem: Kallipolis Arquitetura (projeto Caminho do Imperador, de reforma do cenário urbano do bairro da Liberdade, em São Paulo)

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6.11.12

O recitador

Numa noite quente, enquanto retornava de seu passeio pelo deserto, Yeshua reencontrou o rabino andarilho, que um dia havia lhe convidado para sua sinagoga. Parecia cintilante em meio aquela noite sem tantas estrelas, uma alma entusiasmada sempre parecia mais com um oásis em meio a tanta secura...

Andarilho – Rabi! Rabi! Finalmente encontrei-o novamente. Estive perdido, com saudades de tua luz, então decidi abandonar as sinagogas e rumar para o deserto, atrás de tuas pegadas!

Mensageiro – Mas porque abandonou sua sinagoga?

Andarilho – Os textos antigos me escravizavam, eu quero uma nova religião, uma nova interpretação. Eu quero ser livre como tu e teus pescadores, me ajude a ser também um pescador de almas.

Mensageiro – Mas rabi, existe um lugar para cada um de nós neste grande deserto, e cada um de nós deve fazer sua parte para que ele um dia se torne um pomar.

Andarilho – Não me chame de rabi, tu que és o Rabi da Alma, e agora eu sei disso... Todos aqueles textos antigos, de nada nos servem mais, tu veio renovar à tudo, tu veio trazer uma nova lei; Tu nos oferta a Verdade, e os livros de minha sinagoga são incapazes de transmiti-la.

Mensageiro – E você acha que eu vim negar a lei antiga, apagar o texto e escrever um outro? Rabi, rabi, eis o que ocorre: a Verdade já está nos textos, e espalhada pelos ventos, pelas pedras e os galhos secos, mas nós temos dificuldade em interpretá-la, em criarmos olhos de enxergar, e compreender... Vou demonstrar o que quero dizer: você conhece a história de como Moshê guiou nosso povo para longe do jugo do Faraó?

Andarilho – Sim, claro... Mas peço encarecidamente que me rememore, pois algo me diz que, saindo de tua boca, será uma nova história, um novo êxodo...

Assim, Yeshua começou a recitar:

Mensageiro – Moshê foi encontrado no Nilo, o rio sagrado, pela filha do Faraó. Admirada pela presença de um filho das águas, decidiu educá-lo como um príncipe dentro da metrópole. Mas, apesar de sábio, Moshê cresceu inquieto, turbulento, como a água que deseja sair da represa...
Diz-se que, ao ver um feitor egípcio açoitando um escravo israelita, foi tomado de imensa compaixão para com o escravizado, e por uma cólera avassaladora contra seu opressor. Matou-o com um pensamento.
Assim, apesar de príncipe do Egito, foi obrigado a fugir da metrópole, para escapar da pena de morte do Faraó. Agradeceu a mãe, e iniciou um longo exílio pelo deserto, levando consigo boa parte dos escravos israelitas. Agora, eram todos livres, e ele era o seu santo pastor pelas areias escaldantes e as noites frias.
Diz-se que o Faraó mudou de ideia, e mandou legiões de soldados em seu encalço, para que os trouxessem de volta a sua metrópole. Moshê pensou que sua mãe poderia estar com saudades dele, mas não poderia retomar uma vida onde houvessem escravos  e opressores por toda a parte – e decidiu apertar o passo, embora não soubesse ao certo para onde fugir de tantos soldados.
Numa dessas noites, enquanto caminhava ao redor da aldeia, como eu mesmo costumo fazer, eis que Moshê se depara com um pequeno arbusto em chamas, a iluminar sua noite como a mais bela das estrelas. Seu fogo não findava, pois parecia ser o gerador de si mesmo. Moshê criou olhos de enxergar, e compreendeu a mensagem que Jeová havia lhe transmitido. Alegrou-se: agora, finalmente, sabia para onde lavar seu povo!
Diz-se que, antes que pudesse adentrar aos territórios prometidos por Jeová, foi encontrado e encurralado pelos soldados do Faraó. E lá estava Moshê, com seu povo liberto, e duas opções: arriscar a travessia do Mar Vermelho, ou render-se ao desejo do Faraó.
Moshê decidiu arriscar um milagre. Levantou, com toda convicção e vontade, seu longo cajado; e, quando o pousou ao solo, veio uma ventania, com nuvens esvoaçantes, que dividiu ao próprio mar a sua frente em duas imensas colunas, cada qual com 36 carpas douradas a nadar tranquilamente em direção à outra margem, como que apontando o caminho, e dizendo: “Venha Moshê, traga contigo todo o teu povo liberto, agora basta dar o primeiro passo”...
E ele, inspirando longamente, tomou da coragem final e adentrou, com seu povo, ao mar. Assim, na medida em que caminhavam dentre as colunas, eram abençoados e elevados, de modo que os soldados que vinham atrás, mesmo com suas carruagens e camelos, escorregavam e tropeçavam uns nos outros, até que metade foi levada pelas águas, quando as colunas desceram.
Diz-se que a outra metade retornou e, contando a notícia ao Faraó, fez com que este enlouquecesse ante sua ausência. Mas Moshê havia vencido, e era livre, finalmente livre. Com a ajuda de seu povo, plantou na Terra Prometida um imenso bosque; e diz-se também que, até hoje, todo aquele com a vontade suficiente para atravessar o deserto, e mergulhar ao mar, é recebido por este povo liberto e alegre, na outra margem da Alma do Mundo.
Isto foi o que compreendi da história da fuga de Moshê do Egito...

O outro rabi tinha lágrimas nos olhos, transbordando de luz irradiada:

Andarilho – Deus te ilumine em todos os teus passos, no deserto ou acima do mar, tu és um recitador divino!

Mensageiro – Mas tudo o que fiz foi ler o mesmo texto que você leu, ó rabi. Agora que sabe do mesmo que sei, vai e retorna a sua sinagoga, e trata de os ensinar tudo isso... Pois eu vim trazer a este mundo todo o tipo de luz que tenho visto na casa de meu Pai. Mas algumas luzes são cintilantes demais para que sejam expostas de uma vez ao mundo. Você, que tem olhos para enxergar, e não ficar cego, será aquele que guardará este segredo, até que um dia este deserto esteja suficientemente ungido e umidificado, para que a luz possa ser exposta, a fim de que o povo do futuro também possa, como Moshê, rebelar-se contra seu Faraó, meditar no deserto, atravessar o mar, e atingir sua própria terra de boa aventurança.
Vá em paz, ó rabi!


(escrito com base na interpretação compartilhada por Rafael Chiconeli no III Simpósio de Hermetismo, em São Paulo, Novembro de 2012)


raph’12

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Este conto é uma continuação direta de "O filho da vida". A série se concluí em "O amante".

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Crédito da foto: RelaXimages/Corbis

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5.11.12

Geometria Sagrada na Dança

Recentemente participei do III Simpósio de Hermetismo, em São Paulo, onde tive a oportunidade de conhecer diversas grandes almas... Ainda citarei algumas delas aqui no blog, mas fico feliz de começar trazendo este belo texto de uma dançarina do Cosmos, Paola Blanton [1] (o comentário ao final é meu):

Geometria é o primeiro de muitos prazeres para a Dançarina Celestial. A harmonia simples de um círculo chama os aspectos mais puros e inocentes de nossas almas - círculos na areia, no céu, nos nossos joginhos. Oh, como nós brincavamos, lembra-se? Girando e rindo, pura alegria...

Para a frente vai a vida num espiral, de modo que nós, presos em ciclos e vórtices, ainda seguramos nossos centros, nossos pequenos centros instintivos.

A Dançarina Celestial descobre seu corpo como uma bússola instintiva; orientando ela para um mundo sujeito às mesmas leis, orientações e dinâmicas. Ela herda a Dança Circular, dançando por alegria e centro tribal. Na harmonia do círculo ela aprende as direções cardeais e alinha seu eixo com o da Terra.

Ela logo descobre o corpo como uma ferramenta de escritura. Ela começa a traçar os contornos de seu universo, pintando em 3D, esculpindo esferas de poesia que derretem de volta para o caos até que ela expressa-los novamente no ciclo de vida / morte / vida das ideias. Ela acrescenta o poder da visão a suas criações, enxergando-os interna e externamente, deixando-os expandir no espaço.

Girando sozinha no espaço, ela se une com a energia dinâmica do círculo. Em espírito de oração, ela permite que a força circular a transforme. No centro do vórtice, o corpo torna-se uma ferramenta de revelação, capaz de revelar os mistérios mais profundos de seu Ser.

No centro do vórtice, há grande poder de cura enquanto nossas impurezas começam a se separar de nossos corpos físicos e energéticos. A Dançarina Celestial entra no jogo, girando, espiralando, surfando, voando, explodindo e implodindo em meio do caos. Ela sabe que o caos é um energia que pode moldar, transmitir e transmutar. Mas ela mantém seu centro, porque que ela tenha aprendido algumas coisas por aqui, e o Grande Fluxo é uma delas.

É por isso que ela não tenta conter ou parar esta energia, porque a Dança do Universo nunca pára, e, além disso, como você pode segurar o oceano em um dedal? Ela dança como parte e partícula, tecendo e ondulando entre fios e cordas e teorias e realidades. Órbitas se enfrentam e épocas se encerram, mas o Universo continua girando, e nós também.

É por isso que eu danço. Porque o simples apreciação de um círculo é apenas o começo de um direito de nascença de consciência cosmicamente proporcionado. Movimento é o estado natural do Universo, e nós somos parte do Universo. Movendo-se em círculos e ciclos, nós re-criamos os grandes códigos geométricos do Universo. Nós vivenciamos nossos centros, velocidades, centrífugas, expansões, contrações...Começamos a ampliar nossos sentidos e despertar nossas faculdades sutis. Nós sutilmente fundimos nossos navios genéticos, nossos corpos, com o Grande Fluxo através dos sacramentos da respiração e suor - purificando nossos corpos ao limparmos a nossa percepção.

E quando condensa a essência purificada de volta a nossa Ânfora, gota por gota, como um perfume raro, o círculo está lá para cumprimentar cada gota, irradiando para fora numa piscina de luz líquida, essência destilada em repouso. E assim vai, até a próxima.

Dançarinos Celestes, todos nós somos, e somos todos um. Não há falcoeiro, falcões colegas, há apenas o Fluxo, em espiral e vivo, movendo-se e respirando. Vamos celebrar a Dança Celestial juntos, em comunhão consciente e para a alegria e cura da tribo. Em círculos, em fogueiras, na praia, no sonho, eu vou te encontrar lá, meu povo, e nossas almas vão voar.

"Nada está parado, tudo se move, tudo vibra" (Lei da Vibração, do Hermetismo)

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Comentário (livremente inspirado no texto acima):

Quando estou antevendo qualquer tristeza que possa se prolongar por falta de cuidado (mental), eu danço. Danço a noite, em casa, só, ou as vezes com a lua como espectadora e reflexo. Ouço antigas canções judaicas, ou modernas inspirações que surgiram na Islândia, ou qualquer cantiga que algum povo já cantou em volta de uma fogueira...

As vezes sou o auxiliar de um aborígene, o vento que sopra em torno da tenda do xamã, um gaulês desgovernado numa taberna medieval, uma cigana (e não há nada a se acrescentar sobre elas), um japonês fazendo cosplay de si mesmo, um dervixe, um átomo girando em torno do reflexo do Sol (pois que é noite). E giro, giro, junto ao ritmo, em silêncio...

E, quando paro de rodopiar, estou suado, bastante suado... É que cansa converter tristeza em alegria, mas através da dança, nem sinto esse tal cansaço.

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[1] Saiba mais sobre Paola em seu site pessoal: www.paolablanton.com

Crédito da imagem: Desconhecido.

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3.10.12

Simpósio de Hermetismo, 2012

O Hermetismo abrange um conjunto de teorias e práticas da filosofia oculta e da magia, conhecidas pela humanidade há milhares de anos. Prima por desvendar o que está além da ciência tradicional, procurando descortinar os segredos do Universo e do ser humano. As Ciências Ocultas buscam embasamento científico para explicar o conhecimento de fundamento místico.

Esta sabedoria antiga, durante muito tempo permaneceu restrita às diversas Ordens ou Escolas Ocultistas, sendo inacessível ao público em geral.

Com realização da Associação Educacional Sirius-Gaia, o Simpósio Brasileiro de Hermetismo e Ciências Ocultas tem por objetivo apresentar e promover o debate sobre as práticas ocultistas voltadas para o autoconhecimento, com a participação de diversas correntes e Escolas Ocultistas, e o compartilhamento de suas filosofias.

Em 2012 o evento ocorrerá na cidade de São Paulo, nos dias 2, 3 e 4 de novembro, no Grande Auditório do Bunkyo, no bairro da Liberdade.


Informações e inscrições:
» www.simposiohermetismo.com.br

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Obs: Conforme prometido ano passado, este ano estarei por lá.

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