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21.8.18

O Sexo e a Morte (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo trago uma reflexão sobre a relação entre o sexo e a morte, que nasceram juntos há mais ou menos um bilhão de anos, quando os organismos evoluíram e deixaram de se reproduzir somente pela bipartição, algo que favoreceu muito a evolução das espécies. Também iremos avaliar se a violência ainda tem lugar no sexo sadio, e se as simulações de estupro no xvideos não deveriam ter o mesmo status da zoofilia: isto é, serem ilegais.

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


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4.4.18

As grandes questões do ocultismo (tomo I)

Nada é tão escondido que não possa ser revelado através de seu fruto (Paracelso)


Hoje uma boa parte dos leitores do meu blog provavelmente conhecem alguma coisa de ocultismo, e alguns até se consideram ocultistas. Eu, entretanto, só vim conhecer melhor o ocultismo após cruzar no caminho com o meu amigo Marcelo Del Debbio. Através dele, percebi que o ocultismo era algo bem diferente do que se julga na chamada “opinião popular”. Ainda assim, mesmo tendo adquirido um conhecimento mais aprofundado do tema, eu ainda sinto que muitas vezes faltam consensos e sobram divergências quando as próprias vertentes ocultistas dialogam entre si.

Há gente que crê que ocultista é somente quem já chegou a praticar algum ritual vestindo mantos e empunhando espadas ou adagas, há magos do caos que acham isso tudo uma besteira, enquanto há leitores da teosofia que se dizem ocultistas porque seguem os ensinamentos da Madame Blavatsky; há quem diga que se trata de uma ciência, há quem diga que é religião, há quem diga que não é nenhum dos dois... Ora, eu me pergunto se essa confusão toda não contribuí ainda mais para o descrédito do chamado ocultismo na opinião popular.

No fim das contas, talvez seja mais proveitoso tentar definir o ocultismo não pelo que ele é, mas pelo que ele não é:

Não, o ocultismo não é “coisa do Demônio”.
Não há associação mais direta quando mencionamos o termo “ocultismo” a um leigo do que ao “Demônio”. Tudo bem que contribuíram para isso muitos filmes e contos de terror ao longo da história, mas é estranho de se pensar: muitas vezes, até mesmo quem não acredita na existência de um Demônio, de um “Senhor de todo o mal”, ainda assim crê piamente que ocultismo e satanismo (seja o que isso for) são mais ou menos a mesma coisa.

A crença num Demônio Mal adversário de um Criador Bom pode ser traçada ao zoroastrismo, e sua presença no cristianismo se deve muito a antiga crença de Agostinho de Hipona, o grande doutor da Igreja, nas doutrinas de Mani (que era admirador, por sua vez, da dualidade zoroastrina). Agostinho, é claro, afirma ter deixado de lado suas crenças pagãs, assim com a sua antiga vida boêmia, mas uma coisa é afirmar “eu renego Mani”, outra é ter a absoluta certeza de que nada, mesmo que inconscientemente, foi transportado para o seu próprio pensamento. Como sabemos, Agostinho provavelmente esteve enganado sobre si mesmo nesse ponto.

No entanto, ainda que você mesmo creia nesse Demônio, talvez lhe surpreenda que o próprio criador do satanismo não acreditava nele. É difícil saber se as histórias acerca da vida de Anton LaVey são verdadeiras, pois ele mesmo admitiu ter mentido bastante (e, de certa forma, em boa parte o próprio satanismo de LaVey é uma grande zoação), mas a sua biografia não autorizada (e, portanto, mais fidedigna) nos conta que ele trabalhou alguns anos de sua juventude como organista (tocador de órgão) em bares e prostíbulos dos EUA nos anos 1940. Ora, ocorre que, nos mesmos locais onde ele foi contratado para tocar aos sábados, também achou emprego para tocar aos domingos, em cultos e espetáculos cristãos...

Então ele percebeu que os mesmos ditos cristãos que juravam seguir os preceitos de sua religião aos domingos, menos de 24 horas antes estavam pagando prostitutas nas casas noturnas em que LaVey tocava. Assim, o seu satanismo não surgiu nem de uma adoração a algum Demônio nem propriamente de um ódio intrínseco ao cristianismo: LaVey simplesmente não suportava era a hipocrisia de muitos dos cristãos da sua época.

Fosse hoje em dia, talvez ele já estivesse contente em criar uma página de memes zoando o cristianismo nas redes sociais. Mas, já lá pelos anos 1960, a sua forma de extravasar esse sentimento foi criando uma espécie de “religião zoeira”; que, no entanto, trazia muitos ensinamentos profundos retirados de vertentes ocultistas mais antigas que defendiam o chamado “caminho da mão esquerda” (do qual ainda falaremos mais para frente).

Nada disso, no entanto, tem qualquer coisa a ver com um Demônio real, muito menos com “pactos de venda de alma” e baboseiras desse tipo. Que há maldade no mundo, disso não temos dúvida; mas essa maldade está no coração dos seres (encarnados ou não), e não numa espécie de “bode expiatório cósmico”, condenado a ser a fonte de toda maldade pela eternidade. Nem no zoroastrismo antigo havia crença tão infantil...

No entanto, se formos considerar os demônios como aspectos negativos de nós mesmos, então um de seus grandes estudiosos, segundo consta na tradição judaico-cristã, foi justamente o Rei Salomão (sim, aquele carinha mesmo, lá da Bíblia). Uma das tradições magísticas mais conhecidas é a Ars Goetia, onde se estuda o sistema, dado de presente a Salomão pelos anjos, que lhe conferia poder e controle sobre os principais demônios conhecidos. Assim, se o ocultismo também lida com demônios (e não com “o Demônio”), saiba que isso vem desde Salomão.

Não, o ocultismo já não é mais um “conhecimento vedado”.
Segundo Del Debbio, a origem dos grupos ou ordens onde algum conhecimento precioso era “guardado” do resto das pessoas ocorreu ainda na época da construção das pirâmides, e perpassou séculos e séculos onde os segredos da construção de castelos, fortalezas, barcos, juntamente com a forja das armas e armaduras de metal, eram antes de mais nada questões militares, que tocavam a própria segurança de reinos e países, da mesma forma como até hoje os segredos para a produção de armas nucleares são vedados a maior parte das nações.

Ocorre que, nos primórdios da humanidade, a ciência, a filosofia e a religião ainda eram como “uma coisa só”, e é natural imaginar como os mesmos grupos que guardavam os segredos da construção de templos religiosos, por exemplo, guardavam igualmente os segredos de seus rituais mais profundos. Além disso, é preciso lembrar que durante boa parte de nossa história a grande maioria da humanidade foi iletrada, analfabeta. Os eclesiásticos tampouco ajudavam: foi somente em 1534, por exemplo, que uma tradução da Bíblia para o alemão alcançou o grande público, graças ao reformador Martinho Lutero. Até a Reforma, não era do interesse da Igreja Católica ter o seu maior livro sagrado acessível à leitura da maior parte da população. Por que será?

Foi também devido às perseguições da Igreja na Europa que boa parte das ordens secretas que sobreviveram até os dias atuais foi inicialmente formada. Elas não podiam simplesmente divulgar certos conhecimentos a qualquer interessado, não somente pela necessidade de um estudo anterior para que o leigo tivesse condições apropriadas de interpretar aqueles conhecimentos, como também pelo fato de que havia vários “olheiros” da Inquisição prontos para enviar qualquer infiel pra fogueira.

Felizmente, a humanidade evoluiu e, a despeito de suas mazelas, ao menos o advento da era racional-científica, desde meados do século XIX, acabou trazendo uma liberdade muito maior para o tráfego do antigo conhecimento oculto. Está certo que hoje esse tipo de conhecimento é considerado uma espécie de “heresia irracional” pela Academia (que esqueceu que foi graças a ele que a ciência moderna deu o seu grande salto, quando Copérnico e Galileu beberam nas fontes do hermetismo), mas ao menos ela não manda seus hereges para a fogueira – se contenta em ridicularizá-los por “falta de provas”, somente.

Hoje sites, blogs e canais do YouTube falam abertamente de ocultismo, e anunciam suas ordens e eventos para os que quiserem praticá-lo de fato. Porém, mesmo antes da era da internet, tal tipo de conhecimento já vinha sendo aberto ao grande público, passo a passo, sobretudo através da literatura. Desde Aleister Crowley ao próprio Alan Moore, exemplos não faltam.

Vivemos na era em que Baphomet é encontrado em imagens na internet associado ao Homer Simpson. É um tempo onde há tanta, tanta informação disponível, que não há mais real necessidade de se ocultar nada: o próprio mecanismo da web faz com que somente aqueles realmente curiosos, preparados ou não, encontrem o ocultismo.

O grande problema está, evidentemente, em se tratar tudo isso como uma grande brincadeira. Em ser um “satanista” somente para irritar os seus pais e “chocar a sociedade”; ou pior, em crer realmente em “contratos com o Demônio”: tudo isso demonstra que não basta saber ler para ser alfabetizado nos assuntos da alma. É preciso interpretar o mundo e, sobretudo, o seu próprio interior. Isso nenhum site, nenhum vídeo topzera do YouTube poderá fazer por você – e é justamente por isso que ainda há espaço para as ordens nos dias de hoje, ainda que elas não precisem mais ser totalmente secretas. Elas existem para auxiliar o verdadeiro caminhante.

Não, nem todo ocultista é “charlatão”.
De fato, a maioria não é. O ocultismo em grande parte trata dos assuntos da alma, das questões internas, da nossa interpretação do mundo, da nossa própria mente. A grande maioria dos alquimistas jamais acreditou realmente que poderia verter chumbo em ouro, mas acreditava na realidade na transmutação da alma ignorante e animalesca num ser apto a refletir a luz do Alto, num ser que constrói em si o seu próprio tesouro.

É muito fácil chamar Baphomet, Pã ou Cernunnos de demônios sem jamais ter se dignado a pesquisar 30 minutos na web acerca deles. É muito fácil associar os rituais de cura e outros efeitos medicinais ao chamado efeito placebo, sem saber explicar ao certo o que diabos ele é. É muito fácil colocar o tarot e a astrologia no mesmo saco dos “signos de jornal” e dos “trago a pessoa amada em 3 dias” sem antes buscar conhecê-los mais a fundo, nem que seja para entender melhor porque grandes homens e mulheres de nossa história o utilizavam para o seu processo de autoconhecimento.

É claro que existem charlatões no ocultismo, sobretudo pelo fato de que ninguém sabe ao certo definir o que é exatamente o ocultismo. Mas, se tem uma coisa que o verdadeiro ocultismo não é, é charlatanismo.

» No tomo II: o caminho da mão esquerda; o caminho da mão direita.

***

Crédito das imagens: [topo] Rembrandt (A Festa de Belazar); [ao longo] Roe Mesquita.

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20.3.13

De falos e orifícios

Os eclesiásticos parecem definitivamente ter dificuldades com a ideia de que nossos falos e orifícios precisam entrar uns nos outros; e, principalmente, que esta dança sexual possa, ao mesmo tempo em que gera vida, nos dar grande prazer.

Em algum canto da antiguidade, em alguma interpretação apressada de Platão, entendeu-se, sabe-se lá como ou porque, que “o sexo era sujo”. Isto, pois o corpo humano era precário, perecível, sempre sujeito a morte. Apenas a alma era “limpa”, imperecível, imortal, e deveria ser nossa grande preocupação mantê-la “tão pura quanto possível”, tão distante dos “prazeres carnais” quanto fosse necessário.

Hoje a virgindade de Maria, a mãe de Jesus, é um dogma da Igreja Católica Apostólica Romana. Isto não quer dizer que os primeiros cristãos tenham acreditado automaticamente que Maria “engravidou do Espírito Santo”, mas sim que a discussão já “se esvaziou” – Que nenhum teólogo deveria continuar perdendo seu tempo com ela.

Muitos não sabem, mas diversos dogmas do cristianismo foram exaustivamente discutidos e, dessa forma, elaborados nos primeiros séculos após a morte e ressurreição do Cristo (pois muitos não constam na bíblia, ao menos não numa descrição direta). Orígenes (nascido em 185), por exemplo, duvidava que Cristo fosse Deus, e também que “um Deus de amor e misericórdia pudesse permitir que um de seus filhos sofresse num inferno eterno”. Já Ário de Alexandria, pouco menos de um século depois, concordava com Orígenes quanto a distinção entre Cristo e Deus, além de simplesmente não compreender o que diabos era exatamente a tal “trindade perfeita”.

Somente em 325, no Concílio de Nicéia, as ideias de Ário (arianismo) e Orígenes foram consideradas heréticas, ou seja: “erradas”. O próprio Agostinho de Hipona, que nasceu décadas após o Concílio, estabeleceu as bases atuais do dogma do Pecado Original [1] – Somente muitos séculos, portanto, após Jesus haver pregado na Galileia. Agostinho foi admirador do neoplatonismo e do maniqueísmo, e embora não admitidamente (no caso do maniqueísmo), ambas as doutrinas, através dele, exerceram profunda influência sobre o cristianismo que se seguiu.

Ora, e se Mani (fundador do maniqueísmo) exerceu alguma influência em Agostinho, certamente esta influência até hoje é percebida no cristianismo. Mani considerava Zoroastro (profeta persa, fundador do zoroastrismo), Buda e Jesus “pais da Justiça”, e pretendia sistematizar suas mensagens individuais numa doutrina de “verdade completa”. E o que o cristianismo herdou de Mani, através de Agostinho, foi exatamente a ideia central do zoroastrismo: que existe uma guerra semieterna entre um “deus bom” e um “deus mau” [2].

O problema é que não termina aí: Mani calhou de chegar a conclusão de que a matéria era “intrinsecamente má”, e a alma, “pura e boa”. Ainda hoje acusam Platão por ter “inserido” esta ideia equivocada no cristianismo, mas mesmo esta concepção é apressada e superficial [3]: se houve culpa de alguém, além dos próprios cristãos da época, que se abstiveram de debater o assunto por mais tempo, esta culpa recaí mais decisivamente no inconsciente de Agostinho – em suas memórias da época em que seguia a doutrina de Mani e, principalmente, em seu vastamente documentado arrependimento da antiga vida boêmia (e sexual).

Estou aqui a condenar Agostinho? Claro que não. Este grande sábio da antiguidade deixou-nos inumeráveis passagens de grande teor filosófico [4]. Porém, na questão do Pecado Original, simplesmente lamento profundamente as conclusões a que chegou...

Afinal, se o ato de comer uma maçã proibida pode ser responsável pela condenação do sexo as trevas, pela eternidade, fica muito difícil saber onde a razão se escondeu nesta teoria. Poderia me estender aqui sobre o assunto de Adão, Eva e a Serpente, mas já falei sobre isso noutros artigos [5], e gostaria ainda de retornar ao problema dos falos e orifícios.

Ora, fica evidente que a Imaculada Conceição é um dogma que se esvaziou dos significados simbólicos dos mitos ainda mais antigos [6], e se revestiu de um supremo puritanismo que pretende “salvar” Maria do ato sexual – como se este fosse alguma coisa relacionada ao “deus mau” do maniqueísmo.

Mas Maria não precisa ser “salva” de nenhum Pecado Original. O sexo não é uma espécie de doença contagiosa, e ninguém se torna “impuro” por praticá-lo. O que nos torna impuros, o que realmente mancha nossas almas, é a ignorância, a intolerância, a falta de empatia, a brutalidade do pensamento ou, para resumir, o próprio “afastamento de Deus”.

Alguém já definiu o puritano como “aquele que se escandaliza ante o fato de que alguém, nalgum lugar, pode estar tendo prazer”. Muitas das vezes, os puritanos são sujeitos altamente sexuais, mas que se viram obrigados a varrer toda sua sexualidade para debaixo do tapete da consciência. Não fosse assim, como seria possível haver tantos eclesiásticos praticando os atos sexuais mais desajustados, quando defendem exatamente o oposto disto? É isto o que ocorre quando “fingimos eliminar nosso lado animal com dogmas e orações”. É este, afinal, o grande pecado: recusar-se a admitir que somos humanos, demasiadamente humanos.

Intrinsecamente, não há problema algum em darmos algumas aberturas para nosso lado animal. Não fosse por isto, pelo que Schopenhauer chamou de “a força da vida” (antecipando em muitas décadas os psicólogos evolutivos), sequer estaríamos aqui para contar a história da espécie. E o sexo, de todo tipo – heterossexual, homossexual, bissexual –, é perfeitamente natural, se encontra na Natureza (e, se vocês tem alguma dúvida, pesquisem por “bonobos” no Google [7]).

Aliás, é melhor, muito melhor, darmos alguma abertura a fera sexual que nos habita, ainda que de vez em quando, do que fingir que ela não está lá, ou pior, acreditar que ela pode ser afastada com orações repetidas da boca para fora, que não passaram pela profundidade da alma.

Pois todo aquele que conhece a alma sabe que, de fato, o sexo é bom, e tem sido bom a incontáveis vidas... Mas sabe também que há algo ainda melhor, uma espécie de gnose deste mistério, um entreolhar da “força da vida”, que anseia por si mesma, mais e mais. Um fogo que arde sem se ver, e que não se apaga nunca, mas pelo contrário: queima cada vez mais alto e forte.

Que há muitos ignorantes que condenaram o sexo as trevas, mas que ao puni-lo com violência e intolerância, praticam pecados no mínimo muito piores do que qualquer promiscuidade envolvida no ato sexual...

Mas aqueles que se largaram no fogo da alma, e queimaram seu antigo corpo, sua antiga ignorância, renasceram junto ao Cristo, e desvendaram enfim o que Zoroastro quis dizer:

Não é o sexo que é mau. Não é o corpo que é mau. Não é a matéria que é má. A maldade reside na alma, e nos olhos, de quem vê... E que é a maldade, senão a suprema ignorância da Natureza?

***

[1] Um contemporâneo de Agostinho, monge ascético (e que jamais foi boêmio), chamado Pelágio, combateu veementemente o dogma do Pecado Original, mas foi considerado herege pelo bispo de Roma.

[2] Isto é, claro, segundo uma concepção altamente superficial do zoroastrismo. Infelizmente, no entanto, ainda que inconscientemente, Agostinho foi influenciado por tal pensamento, e ele se encontra até hoje no cristianismo (basta ter olhos para ver).

[3] Ver O mito da caverna comentado.

[4] Foi, por exemplo, o primeiro a analisar o aspecto psicológico do tempo de forma aprofundada (ao menos, no Ocidente).

[5] Ver Serpentes.

[6] Os mitos sobre filhos gerados por mulheres virgens são numerosos, constituindo uma ideia corrente já muito antes do cristianismo. Mesmo no Oriente, 2 mil ou 3 mil anos antes de Cristo, entidades mitológicas e fundadores de religiões eram considerados “filhos de mães virgens e puras”. Esta virgindade, no entanto, não necessariamente vinha associada de uma “condenação ao ato sexual”. Era, muitas vezes, apenas uma metáfora para “uma divindade que gerou a si mesma”.

[7] Ver 3 chimpanzés.

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Crédito da foto: Wikimedia Commons (Templo de Lakshana, Índia)

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11.4.12

Agostinho Play

» Parte da série: Play a myth

Se houveram aqueles que souberam falar diretamente ao reino da alma, caminharam no mundo também alguns raros seres que adentraram o reino do mito, e dissolveram seus egos num oceano de bem-aventurança. Embora fossem ainda eles mesmos, eram também um portal vivo para o Infinito, habitados pelos mais belos deuses que a mente humana foi capaz de identificar. Estes são os que falam em nome do amor: os santos...

Jogue, represente, interprete, brinque: play a myth.

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(clique na imagem para abrir em tamanho maior)

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» Saiba mais sobre Agostinho, o santo boêmio, neste belo depoimento de uma filósofa que o detestava

» Veja mais posts sobre Agostinho neste blog

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Crédito da imagem: Rafael Arrais + Google Image Search

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23.5.11

Reflexões sobre o tempo, parte 2

« continuando da parte 1

“Existe este gigantesco híper-momento onde tudo ocorre, apenas nossa mente está ordenando tudo em passado, presente e futuro.” – Alan Moore.

O tempo em nossas mãos

Santo Agostinho de Hipona talvez tenha sido o primeiro homem a se aprofundar na reflexão filosófica sobre o tempo. O grande pensador do cristianismo abriu caminho para sua análise com um comentário bastante peculiar:

“Que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. [1]”

Então, logo após, colocou em xeque a própria noção da divisão do tempo em passado, presente e futuro:

“Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo claro e brevemente? [...] e de que modo existem aqueles dois tempos – o passado e o futuro – se o passado já não existe e o futuro ainda não veio? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse para o pretérito, como poderíamos afirmar que ele existe, se a causa da sua existência é a mesma pela qual deixará de existir? [2]”

Para tentar resolver tal paradoxo, Agostinho foi se aprofundando cada vez mais no problema do tempo, até que seu caminho puramente lógico lhe levou a uma intrigante conclusão, talvez uma das conclusões mais importantes da história da filosofia – e que até hoje não foi superada por nenhum pensador que lhe precedeu:

“O que agora transparece é que, não há tempos futuros nem pretéritos. É impróprio afirmar: Os tempos são três: pretérito, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer: os tempos são três: presente das coisas passadas, presente dos presentes, presente dos futuros. Existem pois estes três tempos na minha mente que não vejo em outra parte: lembrança presente das coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras. Se me é lícito empregar tais expressões, vejo então três tempos e confesso que são três. [3]”

Mas a solução de Agostinho não era propriamente uma solução, ela apenas deslocava o problema do tempo para nossa percepção subjetiva do mesmo. Isso significava, é claro, que o tempo não poderia realmente ser medido de forma objetiva, e tampouco era uma medida absoluta. Agostinho havia precedido Einstein em muitos séculos, o ex-boêmio havia se embriagado, desta vez, não de vinho, mas do conhecimento do Cosmos... Ele já sabia que o tempo não poderia ser o mero movimento dos corpos:

“Ninguém me diga, portanto, que o tempo é o movimento dos corpos celestes. Quando, com a oração de Josué, o Sol parou, a fim de ele concluir vitoriosamente o combate, o Sol estava parado, mas o tempo caminhava. [4]”

Podemos ser céticos com relação ao fato do Sol ter realmente parado, mas a essência lógica do pensamento agostiniano estava tão correta na época quanto nos dias atuais...

Atualmente, o tempo é um tema especialmente quente na física. A procura por uma teoria unificada (das quatro grandes forças da natureza) força os físicos a reexaminar diversas suposições básicas, e poucas coisas são mais básicas que o tempo. Alguns físicos argumentam que não existe algo como o tempo. Outros acham que o tempo deveria ser promovido em vez de rebaixado. Entre essas duas posições há a fascinante ideia de que o tempo existe, mas não é fundamental. Um mundo estático dá, de certa forma, origem ao tempo que percebemos. Essas ideias vêm sendo debatidas desde a época dos filósofos pré-socráticos, mas só agora os físicos as estão levando mais a sério como genuínas possibilidades para teorias científicas consistentes... De acordo com uma delas, o tempo pode resultar da maneira como o universo está dividido; ou seja, o que percebemos como tempo reflete a relação entre as partes.

O que normalmente chamamos de tempo é tão somente uma maneira de descrever o ritmo de um movimento ou mudança, tal como a velocidade em que pulsa o coração, ou ainda a velocidade de giro de um planeta. O curioso é que tais processos podem ser relacionados diretamente um ao outro, sem fazer referência ao tempo em si. Por exemplo, tanto podemos afirmar que a luz viaja a 300 mil km/s, que o coração dá 75 batimentos por minuto ou que a Terra faz uma rotação por dia quanto, igualmente, poderíamos dizer que enquanto o coração humano dá 108 mil batidas, a Terra gira em torno de seu eixo uma vez; ou que, por exemplo, a luz viaja a 240 mil km por batimento cardíaco.

Assim, alguns físicos dizem que o tempo é uma moeda comum, tornando o mundo mais fácil de descrever, mas não tendo existência independente. Medir os processos em termos de tempo poderia ser como usar o dinheiro em vez da troca direta de bens e serviços, em nossas relações comerciais. Por exemplo, se uma xícara da café custa US$ 2, um par de tênis custa US$ 100, e um carro usado sai por US$ 2 mil, poderíamos simplesmente esquecer do dólar e concluir de uma forma mais simples, talvez, que um par de tênis vale 50 xícaras de café, enquanto que um carro usado sairia por mil xícaras. Nós usamos moedas para facilitar a vida, pois ninguém vai querer comprar um carro com mil xícaras de café. No entanto, cédulas monetárias nada mais são do que folhas de papel com curiosas gravuras impressas, é a nossa crença em seu valor que as fazem valer isto ou aquilo. Não seria o tempo, portanto, apenas o resultado de nossa crença de que existe um tempo?

O filósofo francês Maurice Merleau-Ponty argumenta que o próprio tempo não flui realmente e seu fluxo aparente é produto de nossa atitude de “colocar secretamente dentro de um rio uma testemunha de seu curso”. Ou seja, a tendência de acreditar que o tempo flui é resultado de esquecer de colocarmos a nós mesmos – e nossas conexões com o mundo – no quadro geral. Merleau-Ponty estava falando de nossa experiência subjetiva de tempo e, até recentemente, ninguém imaginou que o tempo objetivo pode, ele mesmo, ser explicado como resultado dessas conexões. O tempo pode existir apenas ao quebrar o mundo em subsistemas e olhando para o que os une. Nesse cenário, o tempo físico surge pelo mérito de pensarmos sobre nós mesmos como separados de todo o resto [5].

Se optarmos por nos arriscar a realmente encarar o problema do tempo face a face, precisamos retornar a origem de tudo o que há, ao Big Bang, pois que Einstein também nos provou que tempo e espaço são ambos constituintes, fios tecedores do tecido do espaço-tempo. Não é possível falar de um sem falar do outro, e não é possível falar de ambos sem falar do todo, de todo o Cosmos.

O grande Espinosa, em sua genial análise do primeiro capítulo de sua “Ética”, já havia chegado a conclusão de que “uma substância não pode criar a si mesma”. Como a história cósmica é uma sucessão de transformações e danças de matéria e energia, pela lógica somos obrigados a concluir que tudo o que há é fruto de uma única substância.

Talvez o Cosmos seja como a roda da carroça do velho Lao Tsé, sempre a percorrer os velhos sulcos... Talvez o eixo seja a essência, através da qual a substância se irradia para o aro, que parece-nos girar... Supomos que ele realmente gira, principalmente porque vivemos neste aro, porque estamos todos conectados – somos poeira de estrelas, fagulhas divinas das fornalhas solares, enfim, somos também parte da mesma substância...

Enquanto o aro gira, sustentado pelo eixo, parece-nos que os eventos realmente se sucedem. Mas, e se o aro for o espaço-tempo, sendo constantemente sustentado e mantido pela irradiação que parte do eixo, temos que o tempo, assim como o espaço, nada mais é do que fruto da dança cósmica que a substância de Espinosa têm nos agraciado observar desde o início das eras.

Se for este o caso, não devemos nos angustiar com a profundidade do infinito, tampouco com a ansiedade do futuro ou a saudade dolorida do passado. Se tudo o que há é a substância, tudo o que há é também este momento, o momento em que temos o tempo nas mãos e a vontade, a sagrada vontade, para o esculpir a nosso bel-prazer. Talvez o paradoxo de Agostinho nem precise ser resolvido, não enquanto ainda temos coisas mais urgentes para resolver. Se o passado já não existe, e o futuro não chegou, agarremos ao presente com toda nossa alma, e façamos dele um hino em homenagem à substância, um hino para toda eternidade.

» Na continuação, o final dos tempos...

***

[1] Confissões, livro XI (14).

[2] Confissões, livro XI (14).

[3] Confissões, livro XI (20).

[4] Confissões, livro XI (23).

[5] As referências científicas dos 4 últimos parágrafos foram retiradas do excelente artigo "O tempo é uma ilusão?", do filósofo da ciência Craig Callender, para a Scientific American (edição especial #41, “A longa história do universo”).

***

Crédito das imagens: [topo] Laurence Acland/First Light/Corbis; [ao longo] Joe Sachs/Corbis.

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27.7.10

Poemas vivos

A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
– Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.

Manuel Bandeira (poema "Preparação para a morte")

***

A morte não é nada.
Apenas passei ao outro mundo.
Eu sou eu. Tu és tu.
O que fomos um para o outro ainda o somos.

Dá-me o nome que sempre me deste.
Fala-me como sempre me falaste.
Não mudes o tom a um triste ou solene.
Continua rindo com aquilo que nos fazia rir juntos.

Reza, sorri, pensa em mim, reza comigo.
Que o meu nome se pronuncie em casa
como sempre se pronunciou.

Sem nenhuma ênfase, sem rosto de sombra.

A vida continua significando o que significou:
continua sendo o que era.
O cordão de união não se quebrou.
Porque eu estaria fora de teus pensamentos,
apenas porque estou fora de tua vista?

Não estou longe,
Somente estou do outro lado do caminho.
Já verás, tudo está bem.
Redescobrirás o meu coração,
e nele redescobrirás a ternura mais pura.
Seca tuas lágrimas e se me amas,
não chores mais.

Atribuído a Sto. Agostinho

***

Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.

Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.

Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa.
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.

Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.

Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais:
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.

A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não estás morto, entre ciprestes.
Neófito, não há morte.

Fernando Pessoa (poema "Iniciação")

***

Sob a impressão de tais poemas, espero conseguir extrair do Alto a inspiração necessária para a próxima série de artigos – Quase Morte...

Crédito da foto: vribeiro

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4.12.06

O turbilhão

Já dizia Santo Agostinho: “O passado já não existe e o futuro ainda não existe. (…) O presente não tem nenhuma duração, se a tivesse, dividir-se-ia em passado e futuro.” - Portanto, o que importa é o que nós somos, o que conquistamos moralmente para nós mesmos, o quanto fomos capazes de evoluir até agora... Mas, e que "agora" seria esse então? Não importa.

Não importa, porque se nossa medida de grandeza fosse baseada no quanto conseguimos juntar em nossas casas ou em cofres de bancos, ou a quantas instituições de caridade doamos todo ano, ou a quantas pessoas nos conhecem ou quantas notas saem sobre nossas vidas nos jornais todos os dias, enfim, acho que teríamos muitos grandes homens e grandes mulheres nesse mundo.

Mas, como Sócrates o fez, é preciso aprender a julgar quem é sábio e quem apenas se julga como tal... Não extamente pelos outros, mas antes por nós mesmos. Aprender o que é realmente a sabedoria nos aponta o único caminho pelo qual deveríamos estar sujando nossas botas de lama. São vários os caminhos para a sabedoria, e todos, guiados por nosso próprio amor ao saber, levam para dentro de nós mesmos.

Como estamos sempre em trânsito, nessa viagem quase que eterna de nossa pequena Via Láctea pelos confins do cosmos, tudo a nossa volta também é dinâmico, está sempre em movimento. Não adianta querer guardar quinquilharias nas gavetas, trajes finos nos armários, medalhas e troféis no sótão... O turbilhão que move esse universo não poupa a nada nem a ninguém, mais poderoso do que o próprio tempo, ele só cessa ante os portais que levam a algo ainda mais poderoso.

Sim, pois que nada adentra aos portais de nossa própria alma, ah não ser nós mesmos. Lá, somos onipotentes, embora ainda não possamos exercer essa onipotência em todo seu potencial... Mas mesmo assim, tudo que guardamos na alma "o ladrão não leva e as traças não devoram".

Sábio é aquele que guarda um ensinamento dentro d'alma, e não precisa vasculhar toda sua biblioteca para encontra-lo novamente. Sábio é também quem carrega toda a sua casa sempre consigo mesmo, e prefere o som leve de uma harpa que pode carregar, do que uma sinfonia belíssima tocada em piano, mas que lhe pesa mais do que qualquer outra coisa, por ainda não poder decifra-la. Sim, mesmo aqueles que guardam seus amores a sete chaves dentro de seus corações não podem ser censurados, pois que não há coisa mais valiosa do que um amor, e é perigoso deixar um amor perdido enquanto se corre atrás de outro.

Mas, acima de tudo, sábio é aquele que não se preocupa em decorar tantas orações, pois que sabe que diante de tamanha imensidão, a única coisa que pode dizer ao descobrir que dentro de si mesmo existe uma imensidão ainda maior e mais bela, é somente isso mesmo...

"Obrigado".

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