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28.1.19

Yin e Yang (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo vamos abordar os dois elementos fundamentais da filosofia taoista: Yin e Yang. Seria algo sempre Yin, ou sempre Yang? Sim. Não. Talvez. Depende... Se tudo correr bem, iremos aprender que no taoismo tudo depende do ponto de vista, visto que tudo está em constante movimento e mutação. Ao final, ainda faremos um exercício de respiração bem louco! (edição por Colossi Estúdio Gráfico)

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11.7.18

Os 10 melhores livros sagrados (Reflexões no YouTube)

Para comemorar o décimo episódio de REFLEXÕES, trago minha singela lista com os dez maiores, melhores e mais importantes livros sagrados da história da humanidade até aqui (na minha humilde opinião é claro). Desde o "Cosmos" de Sagan ao "Bhagavad Gita", iremos transitar por filosofia, religião, espiritualidade e ciência, sempre em busca da experiência com o Sagrado, ou Natureza, ou Substância, ou Tao... bem, você entendeu!

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15.5.18

O que é a filosofia chinesa?

A expressão filosofia chinesa é bastante controversa, sobretudo porque o termo em chinês que denota filosofia (zhexue) foi cunhado apenas no século XIX. Se estivermos com ele nos referindo ao Confucionismo, ao Taoismo, ao Budismo, e outras correntes de pensamentos presentes na China, devemos estar cientes que estamos usando um conceito historicamente posterior para representar algo muito mais antigo. Utilizamos um conceito ocidental para representar retrospectivamente uma série de investigações, reflexões e debates de pensadores que sequer conheciam o termo.

Os pensadores chineses da antiguidade discutiram questões sobre ética, governabilidade, sociedade, metafísica, natureza e linguagem, as quais entendemos hoje serem do escopo da filosofia. Porém, eles não as entendiam como parte de uma disciplina específica de conhecimento. Tratava-se do conhecimento de maneira geral.

As principais discussões filosóficas da China Antiga iniciaram em torno do problema político. Pensadores como Confúcio buscaram definir o que é a moralidade e o bom governo do povo. O propósito do conhecimento era o desenvolvimento da virtude.

A filosofia chinesa, no entanto, não possui um posicionamento único. Diversos pensadores discordaram entre si e criaram diferentes escolas de pensamento. Neste texto, pretendemos caracterizar brevemente as principais correntes, sinalizando a pluralidade do pensamento oriental.

1. Confucionismo
Perturbado pelas inquietações políticas, Confúcio propôs uma reforma ética da sociedade de seu tempo. Confúcio desejava eliminar a corrupção dos comportamentos daqueles que estavam no poder. Tal processo devia iniciar com a educação dos líderes da sociedade.
No confucionismo, a educação possui um alto valor. O objetivo da educação é o cultivo de uma vida ética e disciplinada. A grande ênfase a tais aspectos deu um retrato ao confucionismo como uma filosofia rígida e conservadora, baseada em estritas regras morais.
Essencialmente, a visão de Confúcio consistia em desenvolver uma moralidade para que os líderes fossem capazes de governar a sociedade de forma ética. O bom governo deveria atender às necessidades do povo de uma forma humanista, valorizando a amabilidade e a cortesia.

2. Taoismo
O taoismo surgiu como uma crítica ao confucionismo, considerado como excessivamente moralista. Entretanto, o taoismo é mais do que uma mera oposição a Confúcio, pois desenvolveu uma metafísica própria que marcou profundamente o pensamento chinês.
O conceito chave do taoismo é o Tao, comumente traduzido por caminho. Marcado por mutabilidades, o caminho não pode ser compreendido, apenas vivenciado. Seguir o Tao, ao contrário das disciplinas morais desenvolvidas por Confúcio, é agir de acordo com sua própria naturalidade, muitas vezes de modo pouco antropocêntrico.
Segundo os taoistas, quando as pessoas são ensinadas a se comportarem de uma determinada maneira, elas se conformam àquela forma específica de agir. Tornam-se obedientes e infelizes. Enquanto os confucionistas valorizavam o poder dessa educação moral, os taoistas diziam que ela tinha um aspecto limitador.  O objetivo do taoismo era, portanto, recuperar a espontaneidade para além das formas criadas pelo homem. Agir livre de coerções indevidas.
Por reciprocidade, o taoismo valorizava não apenas a liberdade pessoal, mas também a apreciação da espontaneidade do outro. Neste sentido, o taoismo possui uma ética de não-interferência. O que significa evitar ideias absolutas, inflexíveis ou metodologias unilaterais.

3. Chuang-Tzu
Chuang-Tzu foi um filósofo taoista de um período mais tardio desta escola. Tornou-se conhecido pelo seu ceticismo em relação à ideia de existir um observador privilegiado ou um juiz imparcial sobre qualquer assunto. Para Chuang-Tzu, não existe teoria correta. Cada julgamento carrega consigo os valores pessoais de quem a defende.
Toda perspectiva filosófica parte de uma determinada forma de compreender o mundo. Cada indivíduo só pode compreender o mundo a partir do próprio lugar em que está inserido. O conhecimento, portanto, é sempre um tipo de interpretação, e não a representação fidedigna da realidade.
Tal compreensão teve grande influência no modo em que os pensadores chineses lidavam com as divergências. Ao invés de buscarem eliminá-las através de uma verdade única que demonstrasse a falsidade das demais, eles valorizavam os diferentes aspectos de um pensamento, procurando estabelecer uma posição conciliadora.

4. O sincretismo e o pensamento correlativo
Diante de uma grande divergência de perspectivas que não adentraremos aqui além do confucionismo e o taoismo (poderia se falar ainda sobre escolas menores, como o moismo, o legalismo etc.), os pensadores posteriores da filosofia chinesa passaram a sintetizar elementos de diferentes doutrinas em sua própria abordagem.
Ao contrário de como fazemos no Ocidente, não é difícil encontrarmos um taoista, por exemplo, que possuísse uma leitura de Confúcio e tentasse aproveitar seus ensinamentos. Para um pensador chinês, mais importante do que a escola específica de onde surgiu uma ideia, ou quem defendeu uma ideia, está o valor daquela ideia, se ela é aplicável ou não.
A prática sincrética do Oriente teve uma consequência ambígua. Se por um lado vemos uma maior liberdade para lidar com as ideias, podendo os pensadores se servir de múltiplas contribuições; por outro, a falta de rigor metodológico fez com que muitas escolas perdessem sua raiz original, abandonando a especificidade do que caracterizava o seu discurso.
As discussões da filosofia chinesa, a princípio voltadas para a ação e o comportamento, absorveram gradualmente concepções e práticas já existentes na religião popular chinesa. Embora não fosse o objetivo inicial de pensadores como Confúcio e Lao-Tzu (taoismo), suas filosofias não foram indiferentes às práticas populares, como a adivinhação, a astrologia, a medicina e o culto aos ancestrais.
Ao mesmo tempo em que essas filosofias transformaram a religiosidade chinesa, foram também transformadas a partir do contato e do sincretismo com as crenças e costumes populares, sendo que hoje é comum termos acesso a elas muito mais pelo seu viés religioso do que filosófico.
Deste modo, por exemplo, se originalmente o conceito de Tao não envolvia um aspecto cosmológico, com o passar do tempo se tornou uma forma de representar os fenômenos e as correlações entre o céu, a terra, o clima e até seres espirituais na medida em que as preocupações filosóficas chinesas foram se deslocando da ética ao misticismo.
O neoconfucionismo, por sua vez, passou a absorver elementos de outras doutrinas, ampliando sua visão humanista – inicialmente focada na política e no desenvolvimento de virtudes – para incorporar as correlações entre as esferas humana e natural através do pensamento correlativo.
O pensamento correlativo da cultura tradicional chinesa traça correspondências sistemáticas entre várias ordens da realidade, tais como o corpo humano, a política e os astros. Ele presume que essas ordens são homólogas e relacionadas entre si. Por exemplo, desastres naturais podiam representar maus presságios em assuntos políticos, ou as ações do governo estavam ligadas aos fenômenos da ordem natural, como estrelas, plantas, ventos, chuvas, pássaros e insetos.
O pensamento correlativo influenciou profundamente a filosofia, e ainda hoje, nas abordagens medicinais, o corpo humano é entendido como um microcosmo em que saúde e doença precisam ser compreendidas de maneira holística. A arquitetura chinesa, outro exemplo, leva em consideração aspectos psicológicos, fisiológicos, geográficos e até mesmo astrológicos.
Hoje é muito difícil separarmos o holismo místico da filosofia chinesa de suas primeiras preocupações sobre ética e política. A compreensão correlativa e holista dos fenômenos se tornou uma característica essencial da filosofia chinesa como a conhecemos e de suas diversas práticas derivadas.

5. Budismo chinês
Apesar da origem do budismo não ser chinesa, a sua introdução na China teve grandes influências sobre a filosofia. Diversos pensadores buscaram articular o budismo com conceitos já existentes, sobretudo com o taoismo.
A origem do budismo é indiana, e aspectos de sua filosofia, como o ascetismo, a meditação, a crença numa percepção extrassensorial e ideias sobre continuidade da consciência, já faziam parte do pensamento indiano. A novidade introduzida pelo seu fundador, o Buda Siddartha Gautama, foi a concepção de uma consciência não individual.
O budismo rejeita uma concepção individualizada e permanente de Eu característica do pensamento indiano. Em seu lugar, propõe o Eu como um fenômeno impermanente, em constante mudança, em que nossa individualidade não passa de uma ilusão causada por uma conjunção de impressões. A filosofia budista entende que o indivíduo deve aceitar a impermanência para alcançar a iluminação, distanciando-se do apego aos desejos que conduzem ao sofrimento.
Um aspecto bastante valorizado no budismo chinês foi, diante de oposições e diferenças de pensamento, a adoção do caminho do meio como solução para a questão da dualidade, o que remete a mais uma modalidade de síntese, estratégia característica do pensamento chinês diante das divergências filosóficas.

***

Para concluir...
Vemos como o pensamento chinês é marcado por uma diversidade. Existe e existiram diferentes escolas que divergiram em uma variedade de questões. Os debates promovidos por essas diferenças fizeram com que a filosofia chinesa se transformasse ao longo dos séculos, e através de inúmeras sínteses, essas compreensões foram se entrelaçando com o passar da história.

Além disso, as preocupações iniciais sobre o comportamento humano virtuoso ou autêntico e a construção de uma sociedade ideal foram dando lugar e sendo reinterpretados à metafísica e ao misticismo. Hoje, uma das principais influências da filosofia chinesa ao Ocidente é a concepção de uma visão holista sobre saúde e espiritualidade, conhecida através de práticas medicinais (como a acupuntura) e religiosas (como a meditação).

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Diem Nhi Nguyen/unsplash

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27.11.15

Lançamento: Lições do Caminho

As Edições Textos para Reflexão publicam novamente um livro de Igor Teo, colunista do portal Teoria da Conspiração:

"Neste livro, o autor mergulha nos mistérios do taoísmo para recolher ensinamentos práticos para uma vida saudável. Buscando inspiração no Tao Te Ching, O Livro do Caminho e da Virtude, Teo integra a sabedoria desta tradição com a perspectiva moderna da psicologia e da psicanálise.

Chegar ao seu próprio Caminho, singular e particular a cada sujeito, e desenvolver-se nele, é também conduzir-se a uma vida simples, virtude encontrada nos ensinamentos taoístas. Deste modo, ao longo de 50 reflexões, encontram-se não apenas lições, mas diários de um Caminho e um caminhante (afinal, não há como separar aquele que caminha do seu caminho) para a elaboração pessoal do leitor."

Um livro digital disponível para download gratuito em diversos formatos, ou em versão impressa, no formato "pocket book":

Baixar grátis (ePub) Baixar grátis (Amazon mobi) Baixar grátis (pdf) Comprar versão impressa

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Abaixo, segue na íntegra o capítulo 30 da obra...


Quem busca conhecimento, aprende algo novo a cada dia. Quem busca o caminho, desaprende algo a cada dia.

Na vida, muitas vezes possuímos certas ideias preconcebidas de como as coisas devem ser. Acreditamos que aprender é como construir um edifício, onde sempre se acrescenta um andar. Como se sempre fosse uma operação de acréscimo.

Ao trilhar o caminho, no entanto, o homem descobre que muitas vezes é o contrário que deve ser feito. Isto é, se despir de certas ideias, retirar aquilo que lhe foi colocado pela vida, para então poder viver de forma plena.

Tal operação se assemelha a uma escultura que chega ao escultor como uma pedra bruta. É no trabalho de elaboração que o escultor vai quebrando a pedra, retirando o excesso, para modelar sua bela arte.

Assim procede o mestre de si, retirando de si um pouco mais a cada vez. A tarefa de autoconhecimento não é um acumulo de mais saber, mas se despir dos excessos para descobrir que, ao fim, nada resta além do próprio caminho.

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15.7.15

A sabedoria do silêncio interno

Este é um texto de autoria anônima, atribuído ao taoísmo, que se tornou célebre pela web. Os comentários ao final são meus.


Pense no que vai dizer antes de abrir a boca. Seja breve e preciso, já que cada vez que deixa sair uma palavra, deixa sair uma parte da sua energia vital (chi). Assim, aprenderá a desenvolver a arte de falar sem perder energia.

Nunca faça promessas que não possa cumprir. Não se queixe, nem utilize palavras que projetem imagens negativas, porque se reproduzirá ao seu redor tudo o que tenha fabricado com as suas palavras carregadas de chi.

Se não tem nada de bom, verdadeiro e útil a dizer, é melhor não dizer nada. Aprenda a ser como um espelho: observe e reflita a energia. O universo é o melhor exemplo de um espelho que a natureza nos deu, porque aceita, sem condições, os nossos pensamentos, emoções, palavras e ações, e envia-nos o reflexo da nossa própria energia através das diferentes circunstâncias que se apresentam nas nossas vidas.

Se se identifica com o êxito, terá êxito. Se se identifica com o fracasso, terá fracasso. Assim, podemos observar que as circunstâncias que vivemos são simplesmente manifestações externas do conteúdo da nossa conversa interna. Aprenda a ser como o universo, escutando e refletindo a energia sem emoções densas e sem preconceitos.

Porque, sendo como um espelho, com o poder mental tranquilo e em silêncio, sem lhe dar oportunidade de se impor com as suas opiniões pessoais, e evitando reações emocionais excessivas, terá a oportunidade de uma comunicação sincera e fluida.

Não se dê demasiada importância, e seja humilde, pois quanto mais se mostra superior, inteligente e prepotente, mais se torna prisioneiro da sua própria imagem e vive num mundo de tensão e ilusões. Seja discreto, preserve a sua vida íntima. Desta forma irá se libertar da opinião dos outros e terá uma vida tranquila e benevolente, invisível, misteriosa, indefinível, insondável como o Tao.

Não entre em competição com os demais, a terra que nos nutre já nos dá o necessário. Ajude o próximo a perceber as suas próprias virtudes e qualidades, a brilhar. O espírito competitivo faz com que o ego cresça e, inevitavelmente, crie conflitos. Tenha confiança em si mesmo. Preserve a sua paz interior, evitando entrar na provação e nas trapaças dos outros. Não se comprometa facilmente, agindo de maneira precipitada, sem ter consciência profunda da situação.

Tenha um momento de silêncio interno para considerar tudo que se apresenta e só então tome uma decisão. Assim desenvolverá a confiança em si mesmo e a sabedoria. Se realmente há algo que não sabe, ou para que não tenha resposta, aceite o fato. Não saber é muito incômodo para o ego, porque ele gosta de saber tudo, ter sempre razão e dar a sua opinião muito pessoal. Mas, na realidade, o ego nada sabe, simplesmente faz acreditar que sabe.

Evite julgar ou criticar. O Tao é imparcial nos seus juízos: não critica ninguém, tem uma compaixão infinita e não conhece a dualidade. Cada vez que julga alguém, a única coisa que faz é expressar a sua opinião pessoal, e isso é uma perda de energia, é puro ruído. Julgar é uma maneira de esconder as nossas próprias fraquezas.

O sábio tolera tudo sem dizer uma palavra. Tudo o que o incomoda nos outros é uma projeção do que não venceu em si mesmo. Deixe que cada um resolva os seus problemas e concentre a sua energia na sua própria vida. Ocupe-se de si mesmo, não se defenda. Quando tenta se defender, está a dar demasiada importância às palavras dos outros, a dar mais força à agressão deles.

Se aceita não se defender, mostra que as opiniões dos demais não o afetam, que são simplesmente opiniões, e que não necessita convencê-los de nada para ser feliz. O seu silêncio interno o torna impassível. Faça uso regular do silêncio para educar o seu ego, que tem o mau costume de falar o tempo todo.

Pratique a arte de não falar. Tome algumas horas para se abster de falar. Este é um exercício excelente para conhecer e aprender o universo do Tao ilimitado, em vez de tentar explicar o que é o Tao. Progressivamente desenvolverá a arte de falar sem falar, e a sua verdadeira natureza interna substituirá a sua personalidade artificial, deixando aparecer a luz do seu coração e o poder da sabedoria do silêncio.

Graças a essa força, atrairá para si tudo o que necessita para a sua própria realização e completa libertação. Porém, tem que ter cuidado para que o ego não se infiltre… O poder permanece quando o ego se mantém tranquilo e em silêncio. Se o ego se impõe e abusa desse poder, este irá se converter num veneno, que o levará rapidamente a ruína.

Fique em silêncio, cultive o seu próprio poder interno. Respeite a vida de tudo o que existe no mundo. Não force, manipule ou controle o próximo. Converta-se no seu próprio mestre e deixe os demais serem o que têm a capacidade de ser. Por outras palavras, viva seguindo a via sagrada do Tao.


Comentários
A primeira coisa que me lembro de haver me perguntado quando achei o Tao Te Ching numa livraria há muitos anos atrás foi algo como, “O que diabos é o Tao?”. Ora, acredito que qualquer um que cruze com o taoísmo pela primeira vez, principalmente no Ocidente, tenha a mesma dúvida.
Deste lado do mundo aprendemos a ser demasiado racionais, precisamos separar tudo em categorias, embrulhar e guardar em pequenas caixas, enfim, precisamos saber o que é alguma coisa antes sequer de decidirmos se vamos dedicar alguns minutos de nosso precioso tempo a ela.
Pior, então, é quando cremos que realmente sabemos o que são as coisas em profundidade. Daí, muitas vezes, cremos que este saber por si só nos torna superior aos demais, e que não temos praticamente nada a aprender com “os que nada sabem”.
Repare como tudo isso ocorre sob o ponto de vista do ego. Este nosso lado ignorante, e por isso mesmo tão necessário, que acredita ser algo a parte do todo, da natureza, do universo, dos seres. Neste caso, o Tao é como um guia para os andarilhos, ele aponta uma direção para que possamos caminhar e assim, nessa longa caminhada, irmos lentamente, passo a passo, domesticando nosso ego, até que ele se torne um animal sob nosso controle, e não como era anteriormente, um cão raivoso que ladra para todos os desconhecidos, julgando a tudo e a todos...
Ocorre que, para o Tao, nada é inteiramente conhecido, tampouco desconhecido. O Tao apenas é.

Rafael Arrais é um cara que escreve um blog, e que também já traduziu o Tao Te Ching da versão clássica inglesa de James Legge para o nosso bom português.

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Veja também:
» Os significados ocultos no Yin-Yang
» Deus no Taoismo

Crédito da imagem: H. Koppdelaney

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28.4.15

Entre a esquerda e a direita: os comentários (parte 2)

Parte da série “Entre a esquerda e a direita”, onde Alfredo Carvalho e Igor Teo responderam minhas perguntas, e agora estou comentando os assuntos abordados. Para conhecer mais sobre a proposta da série e seus participantes, não deixe de ler nossa apresentação.

O duelo dos bois
Todo final de junho o Bumbódromo de Parintins, no Amazonas, recebe um dos maiores espetáculos de cultura popular do Brasil. É assim desde os idos de 1965, quando alguns jovens católicos organizaram o primeiro Festival Folclórico de Parintins, onde 22 quadrilhas se apresentaram, junto com os dois bois, o Caprichoso e o Garantido. Mas foi somente no ano seguinte que começou a disputa anual entre os bois: afinal, era preciso saber qual boi havia realizado o desfile mais bonito, e “vencido” a festa.

E assim é até hoje... No entanto, em 1982 ocorreu o impensável – o boi Caprichoso, em protesto contra as notas recebidas no ano anterior, se recusou a participar da festa, e foi substituído pelo boi Campineiro. Conforme o previsto, naquele ano o Garantido venceu facilmente a disputa. De lá para cá, isso felizmente nunca mais aconteceu. Ocorre algo curioso com o duelo dos bois de Parintins: embora todos amem o seu boi e odeiem o boi adversário, a verdade é que, sem o adversário, não haveria festa alguma!

Esta lógica dualista, longe de ser uma curiosidade cultural ou esportiva, é algo muito mais antigo e profundo... Segundo o taoísmo, não há nada que possa ser anterior ao Tao, uma coisa misteriosa que deu origem a tudo o que há. Entretanto, o primeiro conceito que advém do Tao, aquele que permite que nossa razão compreenda alguma coisa, é exatamente o conceito da dualidade, do yin e yang.

Segundo a ideia que engloba tanto yin quanto yang, cada ser, objeto ou pensamento possui um complemento do qual depende para a sua existência, e esse complemento também existe dentro de si. Dessa forma se deduz que nada existe no estado puro: nem na atividade absoluta, nem na passividade absoluta, mas sim em transformação contínua. Além disso, qualquer ideia pode ser vista como seu oposto quando visualizada a partir de outro ponto de vista. Neste sentido, toda a categorização seria apenas uma conveniência da lógica...

Tudo bem, mas e o que todo esse papo de bois e energias complementares tem a ver, afinal, com a Política? Bem, talvez não muito pela superfície, mas certamente pelas profundezas – afinal, assim como o yin e o yang, e assim como o Caprichoso e o Garantido, esquerda e direita são tão somente referências para organizar o pensamento, e categorizar e organizar algumas ideias. Neste sentido, tanto a direita quanto a esquerda são vitais para a Política: elas não existem para serem “vencidas”, mas existem para que a própria Política seja possível.

Afinal, pensem bem, se só existisse a esquerda, ou a direita, como exatamente saberíamos diferenciar uma vertente política da outra, como saberíamos dizer a diferença entre um e outro partido? Seria o mesmo que uma festa no Bumbódromo onde somente um boi saísse vencedor todo ano. O nome dele? Tanto faz...

Tais dualidades tocam a essência da própria filosofia. Não são poucos os casos de filósofos que se tornaram célebres exatamente por se opor as ideias de outros pensadores famosos que lhes precederam. A própria origem do embate entre esquerda e direita, segundo muitos analistas, remete a uma época anterior a própria Revolução Francesa.

Thomas Hobbes e Jacques Rousseau jamais se encontraram pessoalmente, pois o primeiro morreu pouco mais de 30 anos antes do nascimento do último, e ainda assim, suas ideias se encontram em choque até os dias atuais. Para Hobbes, o estado natural do ser humano é um estado de guerra, violência e conflito. O filósofo inglês defendia a necessidade da existência de um grande governo soberano, um monarca poderoso capaz de, pela força, garantir a ordem do Estado, para que os pequenos grupos opostos não entrassem em guerra e trouxessem o caos; algo que, segundo sua filosofia, seria certamente inevitável em cenários de “vácuo de poder”. Já Rousseau acreditava que o que determinava o poder de um monarca era tão somente o sistema estabelecido, mas discordava veementemente que este soberano representaria efetivamente "o maior poder". Para o pensador suíço, tal poder adivinha da maioria dos cidadãos, e somente uma democracia plena seria capaz de estabelecer os alicerces para um mundo mais pacífico e feliz.

Em suma, Hobbes acreditava que o homem era caótico por natureza, e precisava ceder parte de sua liberdade se quisesse viver num Estado seguro. Rousseau, pelo contrário, acreditava que o homem era bom por natureza, e era exatamente o atual sistema, que regulava a sociedade da época, aquilo que o corrompia. Hobbes favorecia a segurança sobre a liberdade. Rousseau acreditava que a liberdade plena garantiria, por si só, um mundo mais seguro.

Assim, poderíamos quem sabe, dizer que Hobbes era o “conservador”, e Rousseau o “progressista”. Um não acreditava que grandes revoluções sociais favoreceriam a vida em sociedade, o outro clamava ardentemente pela revolução, e assim vai... Independente da preferência por um ou outro pensamento, é importante frisar que tanto Hobbes quanto Rousseau queriam o melhor para a humanidade. O embate de suas ideias, desta forma, não deveria ser compreendido como um duelo “do bem contra o mal”, seja onde rotulemos um ou o outro. Rotular ideologias como “boas” ou “más” talvez seja, até hoje, o maior equívoco do debate político.

De fato, seria simples dizer que Rousseau venceu a disputa, e que hoje a maior parte da humanidade vive em democracias plenas, livre dos monarcas e dos estados totalitários. Seria simples rotular as ideias de Rousseau como “as ideias boas”. Mas, a verdade é que não é tão simples, nunca é.

Vivemos efetivamente numa democracia plena, onde vale a máxima “uma pessoa, um voto”? Favorecemos realmente a liberdade acima da segurança, e conseguimos, assim, preservar a nossa privacidade? A defesa dos estados totalitários é, de fato, algo que já se perdeu no passado? Para começarmos a analisar tais questões, talvez a dualidade “esquerda e direita” já não seja suficiente – talvez precisemos usar outros eixos, e diagramas!


Em defesa da liberdade
David Nolan foi um ativista político norte-americano, grande defensor do libertarianismo. Nolan acreditava que a dualidade “esquerda e direita” era incapaz de abranger todo o espectro do pensamento político de um indivíduo, e foi assim que criou o famoso Diagrama de Nolan, onde temos, além do eixo “esquerda e direita”, um novo eixo onde os indivíduos podem defender a “liberdade” ou o “totalitarismo”.

Na prática, que o seu Diagrama faz é associar a ideia de “liberdade individual” a “esquerda”, e a ideia de “liberdade econômica” a “direita”. Há muitos esquerdistas que podem chegar a conclusão de que tudo o que Nolan pretendeu com seu Diagrama foi colocar o libertarianismo “no melhor dos mundos”. De fato, provavelmente foi isso mesmo, mas ainda assim o seu Diagrama, que é também uma espécie de “teste ideológico”, tem como grande virtude a capacidade de nos fazer enxergar as vertentes políticas como algo muito mais diverso e complexo do que “o preto no branco” ou “o bem versus o mal”.

Poderíamos, por exemplo, tentar situar as duas potências mundiais em seu Diagrama: EUA e China. Diríamos, então, que nos EUA há tanto liberdade econômica (baixa intervenção do Estado no Mercado) quanto individual (democracia plena, ausência de censura governamental etc.). Já na China teríamos algo como o oposto – baixa liberdade econômica (grande intervenção do Estado no Mercado) e individual (não há eleições diretas para a presidência, buscas na internet são censuradas etc.). Muito bem, ainda que o cenário fosse assim, tão “preto no branco”, fato é que os dois sistemas parecem funcionar muito bem, afinal estamos falando das duas maiores economias do globo.

Abaixo da superfície e das aparências, no entanto, podemos encontrar “sinais opostos” em ambos os casos: graças a Edward Snowden, “desertor” da grande agência de espionagem norte-americana, sabemos hoje que os olhos virtuais dos EUA representam uma grande ameaça a privacidade online global. Na China, já sabíamos que isso ocorria. Nos EUA, descobrimos há pouco tempo. Da mesma forma, o próprio gigante asiático, a despeito de continuar em teoria sendo um Estado comunista, é hoje a grande locomotiva do capitalismo global. Certamente há uma incômoda ironia no fato de uma das empresas de ponta da tecnologia mundial, a Apple, delegar boa parte do trabalho de montagem dos seus gadgets a trabalhadores chineses que, para dizer o mínimo, carecem dos mais básicos direitos trabalhistas, e por isso mesmo são baratos, muito baratos...

No fim das contas, todo esse jogo de desfiles de bois e construção de diagramas é absolutamente incapaz de abranger todas as ideias políticas que desfilam pelo mundo. Diz-se que na democracia o convívio de tais ideias, assim como o surgimento de ideias novas, é o grande objetivo da Política. Mas, e quando algumas ideias têm mais “poder de barganha” do que outras? E quando as ideologias são compradas, e a democracia se torna nada mais do que um “grande negócio”? Será que o pior totalitarismo é aquele que se percebe a olhos vistos, como um grande Leviatã, ou será que há formas ainda piores de represamento das ideias, e bem mais sorrateiras?

» Em breve, o Grande Negócio Eleitoral...

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Crédito da foto: O bom daqui/Divulgação

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9.3.15

Os significados ocultos no Yin-Yang

Oh, como é puro e tranquilo o Caminho,
pode ser que continue para além do Céu!
Não sei de quem possa ser filho,
pode ser anterior ao próprio Imperador de Jade
(Tao Te Ching, IV)

O Imperador de Jade, na mitologia chinesa, governa o céu e toda a existência abaixo dele, sendo o equivalente de um "deus criador primordial" das mitologias ocidentais, como Gaia [1] ou Javé. Quando o Tao Te Ching afirma que o Tao, ou o Caminho, pode ser anterior a tal divindade, ele estabelece com grande propriedade o quão misterioso e oculto é o Tao.

O Tao, conceito central do taoismo, não é só um caminho físico e espiritual; ele também é identificado com o Absoluto que, por divisão, gerou os opostos/complementares yin e yang, a partir dos quais todas "as dez mil coisas" que existem no universo foram criadas. Isto quer dizer exatamente o que parece: o Tao é o Tudo, pois é precisamente este o significado de "as dez mil coisas" no taoismo, isto é, Tudo o que existe.

Há muitos filósofos ocidentais que tentaram abordar este conceito de Tudo. Espinosa, talvez o mais bem sucedido, o chamou de "a substância que não poderia haver criado a si mesma". No taoismo usualmente o Tao/Tudo é abordado de forma indireta, precisamente através dos conceitos de yin e de yang.

Segundo a ideia que engloba tanto yin quanto yang, cada ser, objeto ou pensamento possui um complemento do qual depende para a sua existência, e esse complemento também existe dentro de si. Dessa forma se deduz que nada existe no estado puro: nem na atividade absoluta, nem na passividade absoluta, mas sim em transformação contínua. Além disso, qualquer ideia pode ser vista como seu oposto quando visualizada a partir de outro ponto de vista. Neste sentido, toda a categorização seria apenas uma conveniência da lógica.

Em suma, yin e yang seriam a fase seguinte do Tao, princípio gerador de todas as coisas, de onde surgem e para onde se destinam... Parece complexo abordar tal assunto de forma puramente racional não? Em realidade todos estes conceitos, Tao, yin e yang, costumam ser melhor compreendidos por nossa intuição do que por nossa razão. Eles dizem respeito a alma de todas as coisas, e não as coisas em si.

No vídeo abaixo, uma animação retirada da palestra do educador John Bellaimey para o TED, temos mais uma tentativa de explicar os significados ocultos de yin e yang. Se possível, assista esses 4 minutos com a mente relaxada, para que sua intuição possa aflorar:

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[1] Há uma correlação possível entre o Caos da mitologia grega e o Tao. Gaia é filha de Caos, assim como yin ou yang são "filhos" do Tao.

Crédito da imagem: Google Image Search

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21.8.14

Marina e o Tao da Política

Quero me desculpar uma vez mais com os leitores por ter de me aventurar novamente na política, e mais precisamente no atual momento político do Brasil. Eu sempre tento evitar tocar no tema, mas desta vez não tive como me segurar, é algo que precisa sair de mim, transbordar em palavras... Portanto, como não sou nenhum especialista em ciências políticas, vou tratar do tema através do que eu entendo, e que a meu ver está em sua essência, o taoísmo (ou a arte de se perceber e compreender os opostos).

“Não sou nem de esquerda nem de direita”. Há muitos especialistas em ciências políticas que abominam quando alguém diz isto. Para os especialistas da chamada “direita”, denota algum grau de alienação. Para os especialistas da chamada “esquerda”, denota que “o sujeito é de direita, mas não quer admitir”. Então, vamos lá, eu admito, sou de Esquerda. Mas não a esquerda dos projetos de poder, não a esquerda do neofeudalismo, não a esquerda das revoluções pela força das armas...

Eu bem sei que o Che Guevara vende muitas camisetas, mas não posso concordar com ele quando diz que “há que endurecer, mas sem perder a ternura”. Para mim, não há como endurecer sem perder a ternura, uma coisa é totalmente incompatível com a outra. A Revolução que eu acredito não é armada, é a Revolução da liberdade das ideias, do compartilhamento de informações, da junção de etnias, culturas e visões de mundo diversas. Meu revolucionário não se chama Che, mas Aaron, Aaron Swartz, o homem do amanhã (que infelizmente, foi massacrado pelo mundo do ontem).

E, se eu sou de Esquerda, devo agradecer todos os dias por haver Direita. E devo respeitá-la quando o respeito é recíproco. Num país do século 21 onde não há oposição, onde não há visões contrárias, não há Política e tampouco liberdade. Há feudalismo (ou neofeudalismo), há sobretudo um grande resquício de Idade Média. Por outro lado, nem sempre os “sonhos de soberania do reinado” vêm do governo; tantas vezes vêm daqueles que controlam o sistema, a informação, e que se veem cada vez mais desesperados num século onde o conhecimento é cada vez mais livremente compartilhado, onde os pensamentos voam cada vez mais libertos.

“É somente porque há escuridão que sabemos o que é a luz. É somente porque há frio que sabemos o que é o calor. É somente porque há tempestade que sabemos o que é a tranquilidade”. Taoísmo básico. Uma eterna dança de opostos – e o mesmo, é claro, ocorre na Política. O problema está em associar o “bem” a um dos lados, e o “mal” ao outro. Os extremistas são grandes especialistas neste tipo de coisa, os verdadeiros mestres da falácia do “8 ou 80” – “ou está comigo, ou está contra mim”.

No entanto, é até estranho de se pensar, mas os extremistas necessitam ardentemente uns dos outros. Bin Laden necessitava ardentemente de George Bush, e vice versa. O Hamas necessita ardentemente de um governo de extrema direita em Israel, e vice versa. Até mesmo aqui pelo Brasil, como vimos nas manifestações populares de Junho de 2013 e nos meses subsequentes, os Black Blocs necessitavam ardentemente de uma polícia militarista e violenta, e vice versa... Um antigo rabino já havia resumido muito bem, “Quem com ferro fere, com ferro será ferido”.

O que muitos de nós que são seduzidos pelas extremidades não percebem é que os extremistas acabam por ajudar uns aos outros. O maior “mal” dos extremistas não é o “lado oposto”, mas o fim do conflito, o mundo dos moderados, dos pacíficos, dos mansos. Dizem que os mansos estão “em cima do muro”, que são “alienados” e etc. Um antigo andarilho (que também era muito manso) já havia resumido isto também:

“A alma vem primeiro. Se você não mudar o que a alma deseja, você irá apenas substituir a dominação romana por outra dominação, e nada nunca irá mudar. Primeiro você deve mudar o homem por dentro. Então o homem pode mudar o que está a sua volta. É o desejo de riquezas e poder que faz com que o homem queira dominar os outros. É o desejo que precisamos mudar, precisamos primeiro libertar a alma. Com amor.” [1]

Então chegamos ao atual momento político do país, onde dois partidos que vieram da mesma família ideológica brigam entre si como irmãos raivosos, e creem piamente que um é o oposto do outro. O irmão da “direita” acusa o outro de “haver tomado controle do parquinho, e não querer mais sair de jeito nenhum”; já o irmão da “esquerda” retruca que “todos os garotos ricos estão com vocês, e eles falam um monte de mentiras para tentar convencer os garotos pobres de que queremos controlar os brinquedos, e isso não é verdade!”.

A verdade... A verdade é uma coisa complicada em Política. Uma das principais razões da criação da Política e da Democracia, e que pareceu clara aos filósofos gregos, é que “ninguém é o dono da verdade, até mesmo porque não existe verdade absoluta”. Desta forma, a Política nasceu como forma de criar um diálogo muito necessário entre os pensamentos e crenças opostas, de forma que não seja necessária uma guerra ou matança para decidir quem, afinal, “tinha razão”. E, da mesma forma, os acordos servem para que a vontade da maioria seja realizada, sem que no entanto a vontade da minoria seja ignorada, ridicularizada, ou censurada...

O maior divertimento para quem, como eu, se equilibra na mureta do caminho do meio, é observar como as pessoas raivosas de um lado muitas vezes se comportam como o reflexo das pessoas raivosas do outro. Isto nunca foi tão evidente quanto quando Marina Silva surgiu como possibilidade de “terceira via” para o governo do Brasil.

Antes de mais nada, devo dizer que eu não voto em Marina no primeiro turno das eleições de 2014. Mas não deixo de votar nela porque a abomino, deixo de votar nela simplesmente porque acredito que exista um candidato imensamente superior a ela e a todos os demais, que se chama Eduardo Jorge. Eu poderia lhes trazer mais parágrafos e parágrafos explicando o motivo pelo qual Eduardo, assim como tantos outros bons candidatos que não abandonaram suas ideologias na Política do país, dificilmente vencerá alguma eleição enquanto não jogar o jogo do Grande Negócio Eleitoral, e aceitar os milhões de financiamento das empreiteiras e outras grandes empresas, e então ser eleito com o rabo preso (e etc.), mas acredito que isto todos vocês já estão cansados de saber. Então, prossigamos...

Quando Marina tentou criar sua Rede, preferiram liberar para o Kassab e encrencar com ela. Quando Marina se aliou a Eduardo Campos, disseram que “ela jamais aceitaria ser vice” e que “ela quer somente o poder”. Quando, finalmente, a tragédia em Santos nos privou da companhia do neto do grande Miguel Arraes na vida política brasileira, Marina despontou como possibilidade altamente viável para vencer as eleições para a presidência. E adivinhem o que ocorreu? Os extremistas passaram a acusá-la de “pertencer ao outro lado”. Eu não sei quanto a vocês, mas eu me divirto muito comparando frases como estas [2]:

“Depois de Collor de Mello e FHC, Marina é o novo ilusionismo da direita.” (Sergio Saraiva)

“Confesso ao leitor: tenho calafrios com a imagem de um segundo turno entre Dilma e Marina. É uma visão assustadora.” (Rodrigo Constantino)

Daqui a pouco podem ser grandes amigos...

Se é quase automático o repúdio da extrema direita a candidatura de Marina, é um tanto quanto irônico que muitos “direitistas” se vejam quase que obrigados a apoiá-la num segundo turno, por aparentemente (segundo as pesquisas de opinião) ser a única capaz de retirar a presidenta Dilma Rousseff do poder.

É mais hilário, no entanto, ver a extrema esquerda se comportar exatamente como a direita, só que para atacar uma adversária que, até outro dia, estava brincando no mesmo parquinho.

É hilário ver as línguas venenosas nos blogs chapa branca e nas redes antissociais alertarem para “a teocracia evangélica que se aproxima”, enquanto quase que ao mesmo tempo, vemos Dilma se dirigir nestes termos aos religiosos da Assembleia de Deus [3]:

“O Brasil é um Estado laico, mas, citando um salmo de Davi, eu queria dizer que feliz é a nação cujo Deus é o Senhor.” (Dilma Rousseff)

Eu quero crer que Dilma estava apenas lendo um discurso do seu “marqueteiro” de campanha. Pois além da frase já não fazer o menor sentido, denota no mínimo um grau enorme de falsidade, considerando que a presidenta sempre foi, para dizer o mínimo, “católica não praticante”. O que o Grande Negócio Eleitoral não faz pelas ideologias e as crenças dos políticos...

Agora, vejamos o que a própria Marina, que sempre foi extremamente religiosa (só que de verdade: antes católica, e depois evangélica), tem a dizer sobre a relação entre a fé e o Estado [4]:

“Eu acho que a grande conquista do nosso país é ser um Estado Laico. Um Estado Laico não pode ser confundido com um estado ateu. Um Estado Laico serve para defender os direitos de quem crê e de quem não crê. E a construção da laicidade do Estado é uma construção da Reforma Protestante, é uma pena que as pessoas tenham esquecido disso. Havia uma Igreja oficial que na época estava intimamente ligada ao Estado, e esta foi uma grande contribuição do protestantismo, o conceito de separação entre Igreja e Estado.” (Marina Silva)

Então, Marina é conta às pesquisas com células-tronco? Contra a legalização do aborto? Contra o casamento gay? Muito provavelmente... Porém, ao contrário de outros políticos de ideologias maquiadas pelo marketing eleitoral, ela **sempre** defendeu suas convicções, e não mudou de ideia para ganhar votos. Da mesma forma, nada, absolutamente nada, indica que o fato de ela ser eleita acarretará no arquivamento ditatorial destas ideias. Ela pode fazer plebiscitos (aliás, como Dilma propõe em muitas áreas essenciais), vetar de forma ditatorial, jamais (e ainda que fosse o caso, o próprio PT, na oposição, ajudaria em muito a derrubar qualquer veto do tipo).

Finalmente, temos o costumeiro ataque da “esquerda” que visa associar Marina aos grandes empresários e banqueiros, como se isto por si só fizesse dela uma “bruxa do mal”... Quanto a esta última questão, prefiro deixar uma frase do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que reflitam, e aproveito para encerrar esta minha breve excursão pelo pântano da política brasileira [5]:

“Não tem lugar no mundo onde o [banco] Santander esteja ganhando mais dinheiro que no Brasil” (ex-presidente Lula)

***

[1] Em realidade um trecho de A última tentação de Cristo, de Nikos Kazantzakis. Porém, acho verossímil que Jesus tivesse uma visão parecida. Em todo caso, o que importa aqui é a mensagem em si.

[2] Escolhi dois jornalistas que dão voz a opiniões de extrema esquerda (Luis Nassif Online) e extrema direita (Rodrigo Constantino/Veja). Não quero aqui fazer nenhum tipo de comparação entre eles para além disso. A frase de Saraiva foi retirada do artigo O discreto charme de Marina Silva, publicado no blog de Luis Nassif. A frase de Contantino foi retirada de sua coluna para a Veja, intitulada Marina vem aí? Ou: A Rede da demagogia.

[3] Fonte: Reuters Brasil.

[4] Retirado de vídeo que anda viralizando no YouTube, intitulado Marina Silva - Democracia, laicidade e não preconceito (o trecho inicia em torno de 01:45). Fiz uma ligeira adaptação ao final para deixar mais clara a citação.

[5] Fonte: Estadão. O ex-presidente Lula citava o episódio envolvendo o banco Santander, que emitiu, uma semana antes, um comunicado sugerindo que se a presidente Dilma Rousseff fosse reeleita haveria uma deterioração na economia brasileira.

Crédito das imagens: [topo] raph (montagem com imagens de Che Guevara e Aaron Swartz); [ao longo] raph (montagem em cima de cartaz do filme Malévola da Disney, com Angelia Jolie)

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11.8.14

Conectados, parte 3

« continuando da parte 2

Placebo: se origina do latim placeo, placere, que significa agradar. Entende-se efeito placebo como a melhoria dos sintomas e/ou funções fisiológicas do organismo em resposta a fatores inespecíficos e aparentemente inertes (sugestão verbal ou visual, comprimidos inertes, cirurgia fictícia, etc.)


A arte de se estourar bolhas

Em 1970, Linus Pauling, célebre bioquímico americano, ganhador tanto do Nobel de Química quanto do Nobel da Paz, lançou um livro chamado Vitamin C and the Common Cold (A Vitamina C e o Resfriado Comum) que é até hoje o grande responsável pelo maior efeito placebo da história [1]. Pela tese de Pauling, a ingestão de altas doses diárias de vitamina C seria responsável não somente pelo tratamento de resfriados, como pela manutenção de uma “boa saúde” geral do organismo.

Somente em 1986 o professor A. Stewart Truswell, da Universidade de Sidney, publicou o resultado de 27 experimentos para validar a tese de Pauling, alguns realizados desde o início da década de 1970, e chegou a conclusão de que a ingestão de vitamina C, particularmente em altas doses (mais de 500mg/dia), não tinha nenhum efeito considerável no tratamento dos sintomas da gripe, tampouco na redução de sua duração. No entanto, 16 anos após o lançamento do livro de Pauling, a Indústria Farmacêutica já havia consolidado um mercado lucrativo com base nela – como era de se esperar, até hoje há inúmeros comerciais na TV falando sobre como a vitamina C auxilia a tratar resfriados...

Se até hoje você, como eu, toma vitamina C quando está com gripe, ainda que saiba que ela não tem efeito científico comprovado, é porque está tirando vantagem do efeito placebo para “convencer a sua mente” de que ela é um agente de cura. Neste caso, “crer na cura”, como já dizia Hipócrates, pode ser parte importante de um tratamento bem sucedido. Até hoje a ciência mal faz ideia do que é exatamente o efeito placebo [2], mas ele nos deixa ao menos uma importante lição – nós definitivamente somos, em maior ou menor grau, sugestionáveis.

Recentemente, um estudo científico publicado na revista da Academia Nacional de Ciências dos EUA provocou rebuliço no mundo online. Os pesquisadores se valeram do Facebook, provavelmente a maior rede social do mundo nos dias de hoje, para tentar comprovar como o que lemos em nosso próprio feed de notícias [3] pode afetar positivamente ou negativamente o nosso humor e estado de espírito em geral [4].

O estudo analisou 689.003 usuários (dentre os que usam o Facebook em inglês) cujos feeds foram propositalmente alterados para mostrar posts mais positivos ou negativos de seus amigos. O resultado? Quando o usuário via mais posts positivos em seu feed, escrevia mais comentários positivos. Quando via mais posts negativos, escrevia mais comentários negativos... A comunidade online se indignou principalmente pela invasão de privacidade deste tipo de pesquisa, já que ninguém soube que estava sendo “testado”. Entretanto, o que a pesquisa demonstrou é que, apesar de em menor escala, somos sugestionáveis também nas redes sociais. Ou, noutras palavras, a nossa dieta de informação define, muitas vezes, uma parte considerável do nosso estado de espírito.

Há algo próprio da chamada Web 2.0 que é ainda muito, muito mais grave do que a influência das notícias que os seus amigos postam no Facebook. Ocorre que nesta nova era da Web, a maior parte dos sites também se tornaram serviços e, desta forma, requerem que você se cadastre neles para os utilizar. Mas o cadastro é somente o primeiro passo. Em sites de compras como a Amazon, por exemplo, cada uma das suas compras passadas (e até mesmo cada item à venda pelo qual você já navegou um dia dentro da Amazon) pode servir de “base de dados” para lhe trazer sugestões sobre “o que comprar a seguir”.

No caso das compras, isto geralmente é bem anunciado nos termos de adesão do site, e ainda que 99% das pessoas jamais leia esses termos, fica até mesmo óbvio que suas compras passadas estão servindo de guia para os anúncios do site. No caso das redes sociais, particularmente do Facebook, nem sempre é fácil notar o que está sendo feito dos seus dados nos bastidores...

Um dos conceitos que foram vitais para o sucesso prolongado do Facebook é algo aparentemente muito simples: um botão, um botão de curtir (ou like button, em inglês).

Ora, computadores não podem ler sua mente, mas podem ler cada um dos cliques no botão de curtir que você deu, desde que começou a usar o Facebook. Com isso, o servidor consegue saber quais são os amigos e as páginas que você mais gosta dentro da rede social, e assim criar um filtro customizado para o seu feed de notícias. Aquela menina que posta fotos de biquíni quase toda semana, e que você sempre curte? Está no topo da lista do seu feed. Aquele amigo chato da época de colégio que só posta vídeos de música clássica, e que você nunca curtiu sequer uma vez? Está na lista dos excluídos do seu feed, e ainda que você continue amigo dele, em meio aos seus quase 500 amigos, a chance de ver qualquer postagem dele é ínfima, senão zero.

O que este tipo de atividade cria, na prática, são bolhas de conteúdo dentro do seu Facebook. De modo que, se um dia você finalmente arrumar um namoro sério, é bem provável que a sua namorada ache um tanto estranho o seu feed onde aparecerão diversas fotos de sua amiga de biquíni (dica: não mostre o seu feed a ela). E, da mesma forma, se um dia você por acaso ver Gustavo Dudamel regendo uma orquestra enquanto trocava de canal na TV a cabo, será um tanto improvável que fique uns minutinhos por lá e aprenda a apreciar música clássica, pois aqueles posts do seu amigo de infância nunca mais apareceram para você.

O que é mais nocivo nesta era das bolhas de conteúdo, no entanto, é que com o tempo, se você não tomar cuidado com o que anda curtindo em seu Facebook, é bem capaz de seu feed de notícias trazer tão somente as notícias de quem concorda com suas posições ideológicas, ou de quem gosta do mesmo tipo de música que você, ou vê os mesmos filmes e lê os mesmos livros.

No taoísmo, a filosofia da China antiga, aprendemos que os opostos são necessários para que nos tornemos aptos a enxergar o caminho do meio. Se formos analisar as ideologias políticas conforme o editor da Superinteressante [5], os esquerdistas extremos creem que a fonte de todo o bem é o Estado, enquanto que os direitistas extremos creem que esta fonte é o Mercado. Não é difícil perceber como um, na verdade, precisa do outro – um Mercado sem a regulação do Estado pode enveredar para um capitalismo tão consumista que extinguirá os recursos naturais necessários para a manutenção da humanidade na Terra; já um Estado que trancafie o Mercado numa prisão de burocracias sem fim fará com que a economia do país definhe, ferindo primeiramente os mais pobres, exatamente aqueles que gostaria de auxiliar.

Aos que conseguem transitar pelos extremos, aos que são capazes de enxergar os dois lados da moeda, está até mesmo óbvio que não há uma fonte única de bem absoluto, assim como tampouco há uma fonte de mal absoluto – o que há são ideias opostas, e a arte da Política consiste exatamente em se chegar a consensos que são capazes de atender os anseios da maioria, ao mesmo tempo em que levam em consideração as opiniões da minoria (sem a oprimir, sem a ridicularizar, sem a censurar).

Não é tão difícil assim de entender. No entanto, se nos últimos anos tudo o que você têm visto no seu feed de notícias do Facebook são opiniões radicais à favor de somente um lado, é bem capaz de você, como ser sugestionável que é, cair na falácia do “8 ou 80” (ou uma ideia está totalmente certa, ou totalmente errada), e demonizar um dos lados, enquanto crê que a sua forma de pensar é “evidentemente a mais correta, já que todos os meus amigos concordam”.

É preciso tomar cuidado, muito cuidado, com este tipo de “pensamento encapsulado em bolhas”, pois foi com ideias muito parecidas que os regimes mais autoritários e sanguinários da história política foram implementados. A Web precisa ser livre, realmente livre, e não somente mais uma sucursal das agências de marketing das multinacionais, ou das “ideologias enlatadas” do Grande Negócio Eleitoral.

De vez em quando, clique também no botão de curtir de uma ideia que não concorde, mas que esteja bem elaborada. De vez em quando, pratique a arte de se estourar bolhas... Lembre-se de que, assim como todos os demais seres humanos, você também pode estar errado.

» Em seguida, Aaron, o homem do amanhã...

***

[1] Saiba mais no artigo (em inglês) Vitamin C: Do High Doses Prevent Colds?, por Charles W. Marshall, Ph.D.

[2] Veja também o nosso artigo Placebo-Nocebo.

[3] Uma lista onde aparecem as publicações de nossos amigos e das páginas que seguimos no Facebook.

[4] Saiba mais no artigo Nossas Emoções Estão Surgindo em Bolhas Criadas Pelo Facebook, por Derek Mead.

[5] Denis Russo Burgierman. Não deixe de conferir o seu excelente artigo sobre o tema, A maldição do esquerdo-direitismo.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Linus Pauling em sua fazenda, em meados da década de 1980); [ao longo] Google Image Search.

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9.9.13

Lançamento: A Arte da Guerra

Neste lançamento luxuoso das Edições Textos para Reflexão, trazemos outra obra milenar da antiga China, A Arte da Guerra.

O grande paradoxo do célebre tratado militar de Sun Tzu é exatamente o de expor os horrores da guerra enquanto aconselha a melhor forma de realizá-la.

A grande questão oculta nele, emprestada do taoísmo, é o reconhecimento de que a guerra é terrível, mas também inevitável, e o seu aconselhamento se dá precisamente numa abordagem de "suavização do horror". Ora, se a guerra é inevitável, cabe ao bom governante e estrategista tratá-la com muita seriedade, e só enviar seus soldados para as batalhas que possam efetivamente ser vencidas.

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***

Abaixo, segue uma amostra com um dos capítulos do livro (a tradução é de Frater Sinésio):

Capítulo 3: Estratégia ofensiva

[1]

Sun Tzu disse: Na arte da guerra, o melhor é tomar o país do inimigo por inteiro e intacto, sem arrasá-lo, sem destruí-lo.

Por isso, é melhor recapturar um exército inteiro que destruí-lo; é melhor capturar um regimento, tropa ou companhia inteiras do que destruí-las.


[2]

Portanto, lutar e conquistar em todas as batalhas não é a excelência suprema; a excelência suprema consiste em minar a resistência do inimigo e vencê-lo sem que haja qualquer batalha.


[3]

Assim, a forma mais elevada de comando é interromper os planos inimigos; a segunda melhor é prevenir a junção das forças inimigas; a seguinte nesta ordem é atacar o exército inimigo no campo; e a pior é montar cerco a cidades muradas.


[4]

A regra é não atacar cidades muradas se isso puder ser evitado.

A preparação de proteções, abrigos móveis e dos diversos equipamentos de guerra irá demorar até três meses; e empilhar montes contra os muros demorará outros três.


[5]

O general, incapaz de controlar a sua raiva, lançará os homens para o assalto como um enxame de formigas, como resultado um terço dos seus homens serão abatidos, enquanto o interior da cidade permanecerá intocado.

Tais são os efeitos desastrosos de um cerco.


[6]

O líder habilidoso domina as tropas inimigas sem nenhuma batalha; captura as suas cidades sem lhes pôr em cerco; derrota o seu reino sem operações de campo prolongadas.


[7]

Com as suas forças intactas ele disputará o domínio do Império, e assim, sem perder um único homem, o seu triunfo será completo.

Esta é a maneira de se atacar através da estratégia.


[8]

É regra na guerra, se as nossas forças são dez e as do inimigo um, rodeá-lo; se as nossas são cinco e as do inimigo um, atacá-lo; se formos duas vezes mais numerosos, dividir o nosso exército em duas frentes de ataque.


[9]

Se o inimigo nos igualar no campo, podemos entrar em batalha, mas se formos ligeiramente inferiores em número, o ideal é evitar o conflito em campo aberto.

E se formos muito inferiores em todos os sentidos, a melhor estratégia é a fuga.


[10]

Assim, apesar de uma luta obstinada poder ser realizada por uma pequena força, no fim ela será capturada por uma força maior.


[11]

O general é um bastião do Estado; se o bastião for completo em todos os pontos, o Estado será forte; se o bastião for defeituoso, o Estado será fraco.


[12]

Há três maneiras de um líder trazer má sorte sobre o seu exército:

Comandar o exército a avançar ou recuar, ignorando que ele não pode obedecer. A isto chamamos “fazer mancar o exército”.

Tentar governar um exército da mesma forma que se administra um reino, ignorando as duras condições em que se encontra um exército em campanha. Isto causa revolta nos soldados.

Empregando os seus oficiais sem avaliar suas capacidades, ignorando o princípio militar da adaptação às circunstâncias. Isto mina a confiança dos soldados.


[13]

Dessa forma, quando o exército está inseguro e desconfiado, é certo que outros problemas virão de outros príncipes feudais.

Isto é simplesmente trazer a anarquia ao exército, atirando a vitória para longe.


[14]

Assim sabemos que há cinco pontos essenciais para a vitória:

Será vitorioso aquele que sabe quando lutar e quando não lutar.

Será vitorioso aquele que sabe lidar com forças superiores e inferiores.

Será vitorioso aquele cujo exército seja animado pelo mesmo espírito em toda a sua hierarquia.

Será vitorioso aquele que, protegendo-se, aguarda para atacar um inimigo desprotegido.

Será vitorioso aquele que tem capacidade militar e não sofre interferência do seu soberano.


[15]

Daí o ditado: “Se conhece o inimigo e conhece a si próprio, não precisará temer pelo resultado de uma centena de batalhas.

Se conhece a si mesmo, mas não ao inimigo, para cada vitória sofrerá uma derrota.

Se não conhece o inimigo nem conhece a si próprio, sucumbirá em todas as batalhas”.


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30.8.13

Há arte na guerra?

Tudo começou quando descobrimos como plantar e estocar grãos. Foi então que deixamos de ser caçadores-coletores para começarmos a nos tornar “donos de terras”. Então, outros caçadores perceberam que era menos arriscado saquear a comida estocada de aldeias pacíficas do que caçar animais ferozes. E, finalmente, houve outros guerreiros caçadores, talvez mais espertos, que se ofereceram para proteger as tribos em troca de um pagamento em grãos. Isto foi a origem dos exércitos e, de lá para cá, todas as guerras foram iniciadas por motivos muito parecidos.

Embora os governantes e generais tenham tentado convencer aos demais dos motivos de suas guerras se valendo das lendas e propagandas mais elaboradas, a verdade crua é que continuamos fazendo guerra por interesse em recursos, territórios e riquezas.

Se há eras atrás nos satisfazíamos com um saque de grãos, com o tempo as riquezas minerais, particularmente o ouro, passaram a ser o foco principal das guerras. Hoje em dia guerreamos por petróleo, o ouro negro, pelo menos até que ainda reste um barril que seja por ser extraído dos confins da terra. Isto por si só explica porque o primeiro mundo não se interessa em fazer “guerras preventivas” na África, onde temos ditadores tão ou mais sanguinários quanto no Oriente Médio. Mas no mundo árabe, como sabemos, há ainda bastante ouro negro. Enquanto houver petróleo, ainda haverá guerras por lá – quem sabe ainda tenhamos mais um século de conflitos...

Depois, o que será? Lítio? Diamantes? Uma volta ao ouro? Tanto faz, os caçadores se tornaram sedentários, mas parece que ainda há uma parcela da alma humana que insiste em permanecer coletora.

Abordando a guerra por esse aspecto, fica difícil imaginar onde Sun Tzu, lendário estrategista militar da China antiga, viu alguma “arte” nesta atividade. O grande paradoxo do seu célebre tratado, A Arte da Guerra, é exatamente o de expor os horrores da guerra enquanto aconselha a melhor forma de realizá-la.

A grande questão oculta nele, emprestada do taoísmo, é o reconhecimento de que a guerra é terrível, mas também inevitável, e o seu aconselhamento se dá precisamente numa abordagem de “suavização do horror”. Ora, se a guerra é inevitável, cabe ao bom governante e estrategista tratá-la com muita seriedade, e só enviar seus soldados para as batalhas que possam efetivamente ser vencidas.

Em realidade, o que Sun Tzu nos ensina é que quase todas as batalhas já estão ganhas ou perdidas antes mesmo de haverem se iniciado. É precisamente o conhecimento das inúmeras variáveis envolvidas na guerra que faz os vencedores e os perdedores.

Mas a excelência suprema ainda se encontrava em conhecer tão bem o inimigo ao ponto de conseguir vencê-lo sem que nenhuma batalha fosse necessária: seja pela diplomacia, seja pela propaganda, seja pelo suborno ou até por vias mais obscuras. Evitar o derramamento de sangue seria sempre uma estratégia superior, uma legítima arte.

Era isto que também nos advertia o Tao Te Ching...

Caso um rei peça conselhos a um mestre do Tao,
que o seu conselho não seja
“exibir a glória do reino pela força de suas armas”.
Tal ação certamente encontraria uma reação.
Toda força excessiva logo encontra outra força contrária.

Sempre que um exército permanece muito tempo estacionado,
o campo desaparece, e surgem os espinhos.
Onde quer que se encontrem grandiosos exércitos,
a colheita será pobre.

O general virtuoso realiza o ataque decisivo, e retrai.
Vence uma batalha, e poderia vencer ainda outras,
mas este seria um risco.
Ele não deseja alardear sua habilidade de estrategista,
nem saquear e destruir todos os reinados em seu caminho.
Ele entra na guerra por necessidade,
jamais para exibir a força de sua armada,
e nem mesmo pelo desejo da conquista.

Quando os homens recorrem à força excessiva,
quando são violentos,
eles logo envelhecem.
Pois a violência se opõe ao Tao,
e tudo o que se opõe ao Tao morre prematuramente.

Esta é a “advertência contra a violência”.


Tao Te Ching, verso 30 (tradução de Rafael Arrais)

***

Este texto será parte do Prefácio do próximo lançamento das Edições Textos para Reflexão: A Arte da Guerra, de Sun Tzu.

***

Crédito da imagem: Ayon (esta será a capa do nosso livro)

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9.6.13

Lançamento: Tao Te Ching

Tao Te Ching

Nesta tradução exclusiva do Tao Te Ching a partir da tradução clássica de James Legge para o inglês, Rafael Arrais (poeta, escritor, editor e autor do blog Textos para Reflexão) usa do auxílio precioso das interpretações do ocultista britânico Aleister Crowley e do filósofo brasileiro Murillo Nunes de Azevedo para compor uma visão moderna da antiga sabedoria de Lao Tse. Não se trata de uma tradução para os que adoram ao Tao como numa religião organizada, mas antes para os que o amam e desejam seguir no Caminho Perfeito; ou ainda, para aqueles que nunca ouviram falar dele...

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***

Conforme já falamos da tradução e do prefácio, agora traremos alguns trechos do livro em si:

O conhecimento da imortalidade

Aquele que conhece os homens
possui um grande intelecto.
Aquele que conhece a si mesmo
é possuído por uma grande iluminação.

Aquele que conquista batalhas é forte.
Aquele que conquista a si mesmo é realmente poderoso.

Aquele que se satisfaz com o que tem
é rico.
Aquele que mantém firme sua ação
alcançou a Vontade.

Aquele capaz de se adaptar a todas as situações
alcançou a longevidade.
Aquele que morre e, no entanto, não perece,
alcançou a imortalidade.

***

A doença do saber ilusório

Saber, e saber que nada sabemos, é a mais alta realização.
Não saber, e achar que se sabe, é uma doença.

Por simplesmente considerarmos o mal
que este tipo de doença nos traz,
nós nos preservamos dela.
O sábio não carrega tal doença consigo,
pois ele sabe do seu mal.

***

O caminho para o Céu 

Aquele que enche um vaso até que transborde,
ao carrega-lo, espalhará a água por todo o caminho.
Aquele que afia em excesso uma faca
arruinará o seu corte.

Quando um salão está cheio de ouro e jade,
seu dono viverá na insegurança.
Quando a riqueza e o status conduzirem a arrogância,
a ruína virá sem tardar.

Quando finda a boa obra
e nosso nome começa a tornar-se célebre,
esta é a hora de nos recolhermos a obscuridade.

Este é o caminho para o Céu!

***

A antecipação das dificuldades

Aquele que segue o Caminho age
sem mesmo pensar em agir.
Conduz seu trabalho
sem ansiar pelos resultados.
Prova do fruto
sem discernir se é doce ou azedo.
Considera igualmente o grande e o pequeno,
o muito e o pouco.
Repele toda a violência
com gentileza.

O mestre do Tao antecipa as dificuldades
quando elas ainda são fáceis de se lidar;
e inicia grandes realizações
quando elas ainda são pequeninas.
Todas as grandes dificuldades no mundo
um dia foram pequenas;
e da mesma forma, todas as coisas grandiosas
tiveram um início modesto.
Dessa forma, o sábio jamais pensa em fazer algo grandioso,
e assim acaba por realizar grandes obras.

Quem promete realizar muitas coisas,
tem dificuldades em manter a palavra.
Quem costuma desconsiderar a dificuldade da empreitada
acaba por se embaraçar nela,
e torna-la ainda mais difícil do que era inicialmente.
Dessa forma, o sábio em tudo vê dificuldade,
e ao antecipar uma dificuldade
acaba por evita-la totalmente.

***

Os frutos do Tao

Aquele que planta de acordo com o Tao,
criará raízes firmes que não podem ser arrancadas;
sua colheita jamais será perdida.

Seus filhos, e os filhos de seus filhos,
uma geração após a outra,
todos devem honrar ao templo dos seus ancestrais.

Cultive o Tao em si mesmo
para que sua virtude cresça da raiz.
Cultive o Tao na família
para que essa virtude se manifeste.
Cultive o Tao na vizinhança
para que a virtude perdure.
Cultive o Tao no Estado
e a virtude se tornará abundante.
Cultive o Tao no Reino
e seus frutos saciarão a fome de todos.

Aquilo que o Caminho modifica
pode ser observado por seus frutos
na pessoa, na família, na vizinhança,
no Estado e no Reino...

Como eu conheço aos frutos do Tao?
Pelo sabor!


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28.5.13

Ó, asno meu!

Monge sorrindo

Um dia encontrei-me com um antigo mestre
que trilha o Caminho há tanto tempo
que já não sabe se segue para leste ou oeste...

Disse-lhe assim:
“Mestre Chuang, agora já sei da dualidade das coisas;
o Yin passivo e o Yang ativo, como a mulher e o homem,
a terra e a chuva, o caminho da mão esquerda
e o da mão direita, o bem e o mal!”

E ele, que não chamava a si mesmo de mestre,
levantou-se da sombra da macieira onde descansava
e sorriu enquanto me massacrava:
“Ó, asno meu! De onde tirou tamanha imbecilidade?”

Eu, é claro, pedi que me ensinasse de sua maioridade,
e ele me ensinou sem dizer uma palavra...

Trepou de um meio pulo na macieira
e com sua mão esquerda retirou uma maçã da beira;
depois saltou de volta e se acomodou recostado ao tronco
e comeu do fruto meio tonto,
saboreando lentamente cada pequena parte
enquanto me olhava com arte
(seus olhos continuavam a sorrir).

Depois de deixar somente um pálido fiapo de maçã,
retirou com a direita cada uma de suas pequenas sementes
e depois correu até o outro monte
(eu o segui, quase a mostrar os dentes).

Lá, do alto do outro monte, arremessou cada semente numa direção,
e foi como se algum vento houvesse me soprado nos ouvidos:
“Cada semente é um universo; Quando isto tudo começou?
Quando isto tudo termina? Qual nome lhe daremos?
Imensidão!”

Então compreendi que até mesmo a mais frágil macieira
ainda tem suas raízes encravadas na Terra;
no Céu pela vida é capaz de buscar
e uma doce maçã nos ofertar.

***

Antes de ir-me, Mestre Chuang ainda me ensinou assim:
“Olá asno, hoje irei lhe demonstrar o segredo dos dois caminhos,
o da mão direita e o da mão esquerda”.
E ele simplesmente aproximou ambas as mãos,
quase até que encostassem (mas sem encostar) e disse:
“Elas não se encostam, e no entanto uma sabe da outra;
Ó asno meu, é este o segredo do magnetismo dos opostos –
Não há opostos!”

E esta foi uma lição de que me lembro até hoje,
sempre que saboreio uma nova maçã.


raph’13

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Crédito da foto: Anders Overgaard

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13.5.13

Tao Te Ching a caminho...

O próximo projeto para as Edições Textos para Reflexão é consideravelmente mais ambicioso que os demais: Tao Te Ching – O Livro do Caminho Perfeito.

Trata-se do livro essencial do taoísmo e de um dos maiores livros sagrados da humanidade. Diz a lenda que foi escrito (entre 350 e 250 a.C.) pelo próprio Lao Tse, um misterioso sábio chinês, a pedido de um guarda de fronteira, enquanto ele aguardava para ser liberado a ultrapassá-la... Quem sabe, uma das maiores contribuições da burocracia para a sabedoria humana!

Estarei, claro, traduzindo do inglês, e não diretamente do original. Entretanto, estarei muito bem “assessorado”. Usarei como base a tradução clássica de James Legge, mas contanto com as interpretações de Aleister Crowley e Murillo Nunes de Azevedo. Vejam mais detalhes abaixo, no que será um trecho do início do livro:

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Nota sobre a tradução

Na língua chinesa escrita de estilo antigo, cada palavra, em geral, era escrita usando um único caractere (monossilábico); era um estilo muito mais conciso e literário do que a língua falada. Como o Tao Te Ching foi escrito no estilo antigo, o texto é extremamente conciso e não é de interpretação fácil mesmo para um chinês. O significado de cada monossílabo, no meio de uma série continua de caracteres sem pontuação, não surge espontaneamente; as frases têm uma estrutura mais difícil de detectar. As palavras que rimam sugerem as frases que estão presentes, mas nem sempre elas estão lá e nem sempre a estrutura fica perfeitamente clara. Sabe-se também que na época de Lao Tse não havia uma escrita unificada, porque a China não estava ainda politicamente unificada, e que o significado e pronúncia de muitos caracteres se foi alterando com o tempo.

Neste cenário, seria deveras complexo e pretensioso traduzir tal obra direto do original. Felizmente, no entanto, posso contar com a tradução clássica de James Legge para o inglês. Legge (1815 – 1897) foi um missionário escocês que viveu na China e dedicou boa parte da vida a estudar sua cultura. Além de ter sido o primeiro professor de chinês na Universidade de Oxford, é reconhecido por haver composto uma das traduções mais fiéis do Tao Te Ching para o inglês.

Mas não é tudo. Em minha tradução de Legge para o português conto com uma “assessoria” muito especial. A primeira é a interpretação do famoso e polêmico ocultista britânico, Aleister Crowley (1875 – 1947):

“Durante minhas andanças solitárias pelas montanhas de Yun Nan, a atmosfera espiritual da China me penetrou a consciência, graças a ausência de qualquer impertinência intelectual de meu órgão de conhecimento. O Tao Te Ching revelou sua simplicidade sublime a minha alma, pouco a pouco [...] A filosofia de Lao Tse se comunicou comigo, a despeito das tentativas persistentes de minha mente em tentar conformá-la com minhas noções pré-concebidas do que o seu texto deveria significar” (The Tao Teh King [Liber CLVII], trechos da Introdução).

O grande mago não pôde evitar a tentativa de reinterpretação do livro para a língua inglesa. No verão de 1918, realizou sua nova tradução com o auxílio de um amigo, chamado Amalantrah, que lia o significado de cada ideograma chinês, traduzindo-o ao inglês, enquanto Crowley os interpretava e anotava:

“Eu completei minha tradução em três dias, mas durante os últimos cinco anos tenho constantemente reconsiderado cada sentença. O manuscrito foi emprestado a numerosos amigos e intelectuais que comentaram meu trabalho, e aspirantes do Tao que apreciaram sua adequação ao espírito do ensinamento do Mestre. Aqueles que se desapontaram com a tradução de Legge estavam entusiasmados com a minha” (Idem).

A segunda “assessoria” de que desponho é a espetacular tradução do Tao de Ching, também à partir de Legge e outras versões inglesas para o português, de Murillo Nunes de Azevedo (1920 – 2007), engenheiro, escritor e filósofo brasileiro. Membro da Sociedade Teosófica desde 1950, professor em diversas universidades brasileiras durante 30 anos, monge budista, Murillo traduziu e escreveu ele mesmo uma vasta obra sobre diversas tradições espirituais e religiosas, do Tantra ao Taoísmo, do Budismo da Terra Pura ao pensamento teosófico de Helena Blavatsky. Segundo suas próprias palavras, Murillo “procura a visão global de uma realidade que teima em não ser captada pelos seres humanos mais preocupados com os problemas das suas vidas pessoais e seus pequenos mundos de 'faz-de-conta'” (Wikipedia).

De posse da tradução de Legge e das interpretações de Crowley e Murillo, penso que posso chegar a uma espécie de “tradução no caminho do meio”, nem tanto a Terra, nem tanto ao Ar. Meu sucesso ou insucesso, no entanto, será julgado pelos leitores...

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Para dar uma ideia de como ocorre meu processo de tradução, trarei abaixo, na sequência, quatro versões para o quarto poema do Tao Te Ching (meu predileto): iniciando com Legge e Crowley (em inglês), depois trazendo a tradução de Murillo e, finalmente, a minha.

IV

The Tao is (like) the emptiness of a vessel; and in our employment of it we must be on our guard against all fullness.
How deep and unfathomable it is, as if it were the Honoured Ancestor of all things!

We should blunt our sharp points, and unravel the complications of things; we should attemper our brightness, and bring ourselves into agreement with the obscurity of others.
How pure and still the Tao is, as if it would ever so continue!

I do not know whose son it is. It might appear to have been before God.

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THE SPRING WITHOUT SOURCE

The Tao resembles the emptiness of Space; to employ it, we must avoid creating ganglia. Oh Tao, how vast art Thou, the Abyss of Abysses, thou Holy and Secret Father of all Fatherhoods of Things!

Let us make our sharpness blunt; let us loosen our complexes; let us tone down our brightness to the general obscurity. Oh Tao, how still art thou, how pure, continuous One beyond Heaven!

This Tao hath no Father; it is beyond all other conceptions, higher than the highest.

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A FONTE DE TUDO

O Caminho é vazio e inesgotável,
profundo como um abismo.
É como se fosse o ancestral das dez mil criaturas.
Suavizai o corte
Desfazei os nós
Diminuí o brilho.
Deixai que as rodas percorram os velhos sulcos.
Devemos considerar nosso brilho
a fim de que nos harmonizemos com a escuridão dos outros.
Como é puro e tranquilo o Caminho!
Não sei de quem possa ser filho
pois parece ser anterior ao Soberano do Céu.

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A FONTE SEM ORIGEM

O Caminho é como o vazio de um vaso.
Ao utilizá-lo, devemos nos guardar de todo excesso.
Oh, e como é vasto, profundo como um abismo!
É como se fosse o Ancestral de todas as coisas.

Deixemos que as rodas percorram
os velhos sulcos da estrada.
Devemos cegar nossas adagas,
desfazer os nós
e diminuir o brilho
para que nos harmonizemos com a escuridão alheia.

Oh, como é puro e tranquilo o Caminho,
pode ser que continue para além do Céu!
Não sei de quem possa ser filho,
pode ser anterior ao próprio Imperador de Jade.


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