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3.4.18

Viviane Mosé fala sobre a sociedade em rede

Ontem tive o privilégio de ver ao vivo, na Câmara Municipal de Campo Grande/MS, a palestra do maior pensador vivo do país, que por acaso é uma mulher, e se chama Viviane Mosé.

Iniciando seu discurso há 100 mil anos, desde o surgimento da consciência humana, passando pela descoberta de nossa mortalidade, pela agricultura e pela invenção de imprensa, Mosé chega enfim a grande revolução de nosso tempo, a internet, com todo o seu potencial maravilhoso e todas as suas revelações monstruosas de nós mesmos: uma sociedade deprimida em busca de algum rumo, em geral dominada pelos discursos fáceis, radicais, mas que tem a sua frente a imensa tarefa de aprender a viver em rede, a educar e ser educada, e a abandonar uma visão excessivamente racional da vida em prol de uma presença emocional, aqui e agora...

Tudo isso tentou falar a filósofa e poetisa de um fôlego só. Estejam preparados, não é vídeo para se ver sem prestar atenção. Se trata de um verdadeiro vendaval filosófico:

Obs.: Ela começa a falar em 00:14:50. Infelizmente o Facebook não permite inserção de tempo inicial num vídeo compartilhado desta forma.


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15.2.12

Schiller e a dimensão estética

Texto de Viviane Mosé em "O homem que sabe” (Ed. Civilização Brasileira) – pgs. 147 a 150. As notas ao final são minhas.


Somente através da beleza da manhã é possível penetrar a terra do conhecimento (Schiller)


Para Anatol Rosenfeld [1], a concretização de muitas ideias kantianas apenas esboçadas coube a Schiller, especialmente no domínio da estética.

O homem, pensa Schiller, é determinado pelas forças da natureza e, na grande maioria das vezes, perde para ela. A única liberdade humana consiste em não se deixar escravizar, o que implica exercer o senso moral por meio da linguagem e do pensamento [2]. A capacidade humana de criar valores representa o domínio próprio do homem; eles são o modo humano de se contrapor à natureza, por isso não derivam da necessidade, mas da liberdade. É por “claro saber e livre decisão” que o homem troca o estatuto de independência, no estado natural, pelo do contrato, no estado moral. [3]

No entanto, esta contraposição entre a natureza de um lado e o homem de outro se compõe com um combate que pode aniquilar o homem, porque gera uma luta sem fim [4]. Somente o senso estático, ele diz, como um terceiro caráter, pode fazer a ponte entre estes dois domínios [5]; é ele que desfaz esta polaridade, porque aproxima o que a razão afasta. Se a razão teórica precisa decompor, separar, o senso estético se caracteriza por compor, aproximar. O senso estético existe para reunir o que a razão teve de separar.

Enquanto apenas luta contra a natureza, por meio do conhecimento que fragmenta o mundo tentando conhecê-lo ou dominá-lo, o homem perde, porque, em última instância, é sempre finito, mortal [6]. Mas ele pode, auxiliado pelo senso estético, não lutar contra o mundo, o que implica em não fragmentá-lo, mas se ver inserido nele e, fortalecido pelo sentimento de pertencimento, tornar-se capaz de lidar com as perdas. A faculdade do juízo, diz Kant, é a capacidade de pensar o particular contido no universal, por isso somente ela é capaz de desfazer a unidade fictícia e provisória do sujeito particular, reinserindo-o na totalidade que o sustenta e alimenta [7]. É a sua consciência individual, ou seja, é o saber de si como provisório que o faz sofrer. Quando o homem se sente inserido no todo, o sofrimento particular perde importância e ele, então, não sucumbe, e vence a natureza não pela força, mas pelo puro exercício da liberdade moral, que fortalece, amplia, alarga a alma.

A faculdade de julgar, ao se construir como uma livre combinação entre as faculdades, sem a necessidade de emitir um juízo sobre o objeto, mas sobre si mesma, termina por entrar em uma relação de harmonia com a natureza, dando esta sensação de pertencimento, de entendimento sem conceito, de participação [8]. A dimensão estética, o lugar por excelência do sentir, que elabora os afetos, é também aquilo que nos alimenta e fortalece [9]. Em vez de apenas buscar vencer objetivamente o mundo, o homem pode, ainda e fundamentalmente, fortalecer a si mesmo para ser capaz de lidar com o mundo. A elaboração do sentir, que acontece no juízo de gosto, resulta neste fortalecimento do homem, especialmente porque se dá no próprio homem, não está em relação de causalidade com nada exterior a ele, com nenhum objeto. O senso estético diz respeito a como nos sentimos em relação ao mundo, não diz respeito ao mundo, por isso se dá no domínio da liberdade e não da necessidade.

Mas a elaboração da faculdade de sentir também interfere no domínio teórico da razão, quer dizer, em nossa inteligência argumentativa, filosófica e científica. Nossa capacidade estética é uma das três dimensões essenciais da razão pura, que, para exercer o seu domínio, como razão teórica, prática ou estética, precisa da integração destas três faculdades: sensibilidade, imaginação, entendimento [10]. A cultura deve, por isso, cuidar para que a razão se institua pelo desdobramento integrado dos diferentes domínios que a compõe, o que exige uma mobilização integral das potencialidades do humano. Um caráter pleno é aquele no qual a saúde da cabeça, do pensamento, e a pureza da vontade, do corpo, formam um todo [11].

Esta totalidade dos diferentes domínios do humano, que Schiller percebe fragmentados e isolados em seu tempo, no entanto, estava harmoniosamente integrada na cultura grega arcaica:

“Naqueles dias do belo acordar das forças espirituais, os sentidos e o espírito não tinham, com rigor, domínios separados. [...] Por mais alto que a razão subisse, arrastava sempre consigo, amorosa, a matéria, e por finas e nítidas que fossem as suas distinções, nada ela mutilava. Embora decompusesse a natureza humana para projetá-la, aumentada em suas partes, no maravilhoso círculo dos deuses, não o fazia rasgando-a em pedaços, mas sim compondo-a de maneiras diversas, já que em deus algum faltava a humanidade inteira. Quão outra é a situação entre nós mais novos. [...] Eternamente acorrentado a uma pequena partícula do todo, o homem só pode formar-se enquanto partícula.” [12]

***

[1] Crítico e teórico de teatro germano-brasileiro que escreveu a introdução de Cartas sobre a educação estética da humanidade, de Friedrich Schiller. O texto de Mosé é centrado nesta obra específica do filósofo alemão.

[2] Por isso todo livre-pensador, religioso ou não, irá defender que só é verdadeiramente livre quem exercita seu próprio pensamento.

[3] O contrato da vida em sociedade pede que respeitemos a liberdade dos outros e, consequentemente, por vezes limitemos a nossa. Mas é de bom grado que o sábio limita a própria liberdade, pois no fundo sabe que dessa “limitação”, virá liberdade ainda maior – o amor.

[4] Darwin a chamou de “a guerra da fome e da morte”. Obviamente no estágio humano nossa questão com a natureza não é mais exatamente a sobrevivência através da caça e coleta, mas a busca pela vivência em um mundo infestado por ideias em conflito.

[5] A ponte entre um território de morte e um território de vida – o amor. Como podem ver este remédio-pensamento tem mesmo inúmeras utilidades.

[6] E, se fosse infinito e imortal, não haveria necessidade de lutar contra a natureza, em todo caso. O homem, como aliás todo ser vivo tendendo a consciência, é um ciclo de existências frágeis e finitas, mas que se renovam e renovam, tendendo a uma consciência cada vez mais apurada. Sem a morte não haveria vida cíclica, nem evolução alguma.

[7] O Chefe Seattle já dizia que o homem não tece a teia da vida: é apenas um fio dela. O que fizer a teia, fará a si próprio. Nesse jogo cíclico de personalidades que vem e vão, sábio é aquele que mira na potencialidade, no particular conectado ao universal, assim como todos estamos, em última instância, conectados pelos átomos a formar o Cosmos detectável.

[8] Julgar os outros considerando não o que um indivíduo fez ao outro, mas o que um grande conjunto de seres fazem e são levados a fazer, em suas relações uns com os outros, e com a Natureza à volta – e, finalmente, guardar o julgamento apenas para si. Que melhor receita para a sabedoria?

[9] Agora vocês já sabem: o amor alimenta, o amor fortalece.

[10] Poderíamos substituir “entendimento” por “tolerância”, para nos adequarmos melhor à linguagem atual.

[11] Poderíamos usar apenas esta última frase isolada, e diriam se tratar de um texto místico oriental, e não filosófico ocidental. A grande diferença entre as abordagens, entretanto, fica restrita ao campo da linguagem – em essência, falam sobre uma mesma coisa.

[12] Schiller, Cartas sobre a educação estética da humanidade, carta VI. Reparem como Schiller não tem pudores em usar a palavra “espírito”, enquanto Mosé parece fugir da menção a todo custo. É o “preconceito velado da palavra”, ou algo assim, muito comum nos dias fragmentados de hoje.

***

Crédito da foto: Wikipedia (monuemnto em Weimar com estátuas de Goethe e Schiller, os grandes poetas alemães, lado a lado - eles eram bons amigos em vida)

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4.11.09

Poemas presos

muitas doenças que as pessoas têm são
poemas presos
abscessos tumores nódulos pedras são
palavras
calcificadas
poemas sem vazão

mesmo cravos pretos espinhas cabelo
encravado
prisão de ventre poderia um dia ter sido
poema

pessoas às vezes adoecem de gostar de palavra
presa
palavra boa é palavra líquida
encorrendo em estado de lágrima

lágrima é dor derretida
dor endurecida é tumor
lágrima é alegria derretida
alegria endurecida é tumor
lágrima é raiva derretida
raiva endurecida é tumor
lágrima é pessoa derretida
pessoa endurecida é tumor
tempo endurecido é tumor
tempo derretido é poema

palavra suor é melhor que palavra cravo
que é melhor que palavra catarro
que é melhor que palavra bílis
que é melhor que palavra ferida
que é melhor que palavra nódulo
que nem chega perto da palavra tumores internos
palavra lágrima é melhor
palavra é melhor
é melhor poema

(...)

Parte da seqüencia "Poema Preso", por Viviane Mosé

***

Crédito da foto: Juliana Coutinho

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