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4.7.12

Uma breve citação não aleatória...

Há aqueles que criticam o aparente excesso de significado das grandes religiões. Creem que os homens criaram a deuses e céus e infernos, e até mesmo a ideias de carma, simplesmente por não terem coragem de encarar o aleatório.

Eu já não sei... Voltaire um dia disse a uma senhora aflita: "Minha senhora, acredito em uma providência geral, mas não numa providência particular que salvou o seu pássaro que estava machucado"... Isso já é fugir do aleatório?

Na verdade, para fugir do aleatório primeiramente deveríamos descobrir onde há exatamente aleatoriedade na Natureza que não, quem sabe, num jogo de dados. De fato o elétron na física quântica tem a probabilidade de estar aqui ou acolá, passando por esta ou aquela fenda, mas não há um espectro de aleatoriedade infinita aqui: apenas possibilidades dentro de um mesmo "campo".

Talvez o mais aflito seja o gato de Schrödinger, que não sabe nem se está vivo ou morto... Na verdade, as vezes o medo do inferno pode ser pior do que o medo do "sonho sem sonhos", muito embora tenhamos tido inúmeros deles durante várias noites desta vida.

Não sei mais quem eu era há 15 anos atrás. Será que aquele quem eu era morreu? Será que devo estar enlutado por isso? Será que a ideia da reencarnação me conforta?

Tudo passa, tudo flui, tudo muda, e nada se perde. Nunca vi, em toda a minha vida, uma única pedra chutada que tenha chutado a si própria. Há por aí, sem dúvida, algum deus brincalhão chutando pedras... Mas não aleatoriamente... Esta é a sua brincadeira, quem mais tem vontade para brincar assim?

raph'12

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Crédito da imagem: Don Johnston/All Canada Photos/Corbis

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31.1.10

Evolução: até onde vai o acaso?

Texto de Chris Impey em "O universo vivo" (editora Larousse). Tradução de Henrique Monteiro. As notas ao final são minhas.

A recorrência de determinadas formas bem-sucedidas, juntamente com a efemeridade da maioria das espécies, levou a uma tensão entre duas idéias na teoria da evolução: a contingência e a convergência. O paleontólogo Stephen Jay Gould foi o defensor mais eloquente da idéia de que o acaso desempenhou papel decisivo na evolução [1]. Gould foi um personagem de grande importância e decisivo no campo da evolução – magistral como pesquisador e escritor popular, ainda que às vezes arrogante e refratário no seu modo de pensar.

Gould usava o Folhelho Bugess como seu exemplo central. O Folhelho Bugess é um modelo muito bem-preservado da profusão de formas de vida exóticas que apareceram nos oceanos da Terra pouco mais de 510 milhões de anos atrás. A maioria das linhagens não sobreviveu – Gould sustentava que não havia como prever quais desses organismos bem-adaptados subsistiria. Eventos caprichosos como impactos e meteoros tornaram a evolução altamente contingente. Segundo essa teoria, os micróbios podem ser comuns em planetas como a Terra ao longo do cosmos, mas os mamíferos e os répteis seriam improváveis, e os primatas e humanos com certeza muito raros.

Simon Conway Morris, um paleontólogo da Universidade de Cambridge, era um estudante de graduação quando tomou contato pela primeira vez com o achado valioso do Folhelho de Burgess. Sua interpretação dos mesmos fósseis [2] que Gould observara levou-o a uam conclusão muito diferente. Conway Morris não nega o papel desempenhado pela sorte, mas observa que as estratégias evolucionárias são limitadas pelas leis da física e não acontecem em um ambiente de possibilidades ilimitadas.

Peguemos como exemplo às asas e aos olhos. O vôo evoluiu separadamente entre insetos, mamíferos (o morcego) e répteis (notavelmente o pterossauro, um leviatã voador do Triássico). O desenho das asas é diferente em casa caso, mas a vantagem evolucionária de ganhar os céus é inegável. A visão foi descoberta, e às vezes reinventada, em criaturas tão diferentes quanto mamíferos, cefalópodes e insetos. Se você observar um polvo, o olho que verá é tão misterioso quanto o seu, mas ele tem uma ascendência completamente diferente. Todos esses são exemplos de convergência [3].

Conway Morris identificou um impressionante número de exemplos de convergência. Ele reconhece o elemento acaso da evolução, mas sustenta que a vida encontrou soluções semelhantes para o problema da sobrevivência inúmeras vezes seguidas. Por isso ele é otimista quanto à inevitabilidade de animais grandes e complexos e até mesmo da inteligência. Em sua pesquisa intitulada “Sintonizando as freqüências da vida”, ele escreve: “Onde quer que exista vida, haverá, no momento devido, uma mente. Se essa mente será sempre como a nossa é outra questão.

O naturalista britânico D’Arcy Thompson chamou a atenção para a convergência cerca de um século atrás, mas alguns dos exemplos mais intrigantes ocorrem no nível molecular. Dois grupos de peixes sem nenhuma relação um com o outro usam o mesmo anticongelante natural para combater os efeitos da água fria. O truque é realizado por um proteína codificada por uma seqüência dos mesmos aminoácidos repetidos indefinidamente. No caso, o peixe Nototheniidae da Antártica surgiu de 7 a 15 milhões de anos atrás, ao passo que o bacalhau ártico apareceu do outro lado da Terra há 3 milhões de anos. Em outro exemplo, anticorpos idênticos foram encontrados em duas espécies altamente distintas, o cação-lixa e o camelo. Circuitos genéticos semelhantes foram localizados na bactéria E. coli e na levedura, mostrando que a convergência também ocorre em níveis superiores de organização molecular.

A convergência molecular endossa o fato de que a criação de elementos pesados nas estrelas proporciona uma base universal para a bioquímica, assim como o fato de que componentes básicos como aminoácidos são encontrados em uma vasta gama de ambientes cósmicos. Existe um número astronômico de proteínas possíveis, assim como de outras moléculas biologicamente úteis. Ainda assim, a vida escolheu um número modesto [4] – propagada ao nível de genes, essa especificidade contribui para limitar as funções e as formas das espécies.

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[1] O acaso é um nome fortuito que os cientistas encontraram para intitular "não fazemos idéia das causas reais". A idéia de acaso vai lentamente caindo por terra na medida em que as causas vão sendo identificadas e compreendidas, por exemplo, pela idéia de convergência (exposta logo a seguir no texto). Ainda que, conforme o próprio Impey admita um pouco anteriormente a este texto: "Na evolução, assim como na maioria dos outros ramos da ciência, não faz sentido perguntar por quê. Só faz sentido perguntar como". Ou seja: como cientista, você não pergunta porque um mecanismo que ainda não compreende inteiramente executa as suas funções de modo surpreendentemente coordenado. Primeiro procura entender como ele funciona. Os "porquês" ficam com a religião e a filosofia.

[2] Muitas vezes se pensa que na ciência não existem interpretações distintas para teorias bem fundamentadas, e obviamente não é o que ocorre. Na verdade um dos trunfos da ciência é a sua capacidade de abarcar interpretações distintas e por vezes opostas, sem que os cientistas se achem no direito de humilhar ou fazer pouco caso de seus opositores (bem, pelo menos os cientistas de verdade).

[3] Talvez a evolução da vida seja como uma corrida off-road: todos largam do mesmo ponto e seguem estradas distintas, mas para passar a outra fase da competição precisam encontrar o check-point; Até que em algum desses pontos de passagem surja, finalmente, uma mente. Nesse sentido, não é possível afirmar que a vida não siga algum plano. Muito embora daí a afirmar que este plano seja um design divino já requira alguma dose de crença.

[4] Quando um cientista como Impey usa o termo "a vida escolheu", é o caso típico de uso de linguagem metafórica. Será que todo cientista é um poeta? Ou será que as vezes a intuição acaba "burlando" a linha se segurança do ceticismo materialista? Talvez o Deus da ciência, a tal "vida que faz escolhas", seja o Deus do Acaso, um Deus desconhecido...

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Crédito da ilustração: Simon Conway Morris e Masanori Gukuhari (espécies exóticas do Folhelho Burgess).

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1.12.09

De onde vem o sol

Em latim, temos uma curiosa semelhança entre as palavras casu e occasu. A primeira significa acaso, e a última, ocaso. A palavra ocaso hoje significa, dentre outras coisas, “o momento do dia em que o sol se põe”, e também “o ponto cardeal que indica o local onde ele se põe”. Já a palavra acaso nos chega com um significado bem diverso a primeira vista: “algo que ocorre sem causa aparente, um evento de causa desconhecida”.

Ora, sabemos que na natureza todo efeito tem causa. Se esta máxima não fosse verdadeira, dificilmente nossa ciência e mesmo nossa filosofia teriam chegado aonde chegaram. Imaginar um efeito sem causa é imaginar a fantasia na realidade, e o aniquilamento das leis naturais: nesse caso, passes de mágica e milagres deveriam ocorrer à todo momento em nossa volta. Evidentemente a realidade não é bem assim – por mais que ainda nos falte compreender a maior parte dos mecanismos da natureza, sabemos que tanto aqui na terra quanto em galáxias a milhões de anos-luz de distância, todo efeito tem causa, e as leis naturais continuam sendo válidas. Uma das características do universo que permitem que a ciência e, particularmente, a cosmologia, se desenvolvam, é exatamente essa: a simetria da natureza.

Simetria não necessariamente significa design, mas significa organização. Organização de acordo com sutis e elegantes leis que englobam todo o Cosmos. Os povos antigos, no entanto, talvez não conhecessem tão bem a tais leis como temos a felicidade de conhecer na era atual. O sol, que possibilitava a vida e a colheita, e afastava as sombras da noite, vinha de algum ponto distante além do horizonte, nascendo de sabe lá onde e se pondo do outro lado da terra. Lindo, demasiadamente maravilhoso – porém estranho, demasiadamente misterioso. Talvez, para os povos antigos, o nascer do sol e o por do sol fossem eventos tão extraordinários, embora inexplicáveis, que eles achavam que sua causa exata permaneceria oculta por todos os tempos. O acaso e ocaso do sol era um baile diário, sagrado, incomensurável, desconhecido...

No Egito antigo, porém, Eratóstenes precisou apenas de duas estacas de madeira, alguns ajudantes disciplinados, e uma mente curiosa, para descobrir o mistério das sombras que se moviam com o tempo. Eratóstenes, através das sombras de meras estacas, descobriu não só que a terra era esférica, como calculou sua circunferência com a precisão de algumas centenas de metros. Dizem que alguns livros da grande biblioteca Alexandria, que se perderam, já mencionavam que a terra era um esfera que girava ao redor de um sol fixo. Infelizmente os bárbaros e os dogmas venceram o brilho de Alexandria, e a humanidade só pôde comprovar tais previsões muitos séculos depois.

Hoje sabemos que o sol também se move, juntamente com a galáxia, juntamente com o restante do universo em expansão. Somos poeira a girar em vórtices pelo turbilhão do Cosmos. Nossa ciência percorreu um longo caminho desde que os antigos ainda olhavam para o sol com um misto de assombro e desconfiança... porém, ainda temos muito mais a avançar.

Na ânsia por explicações fáceis, que não resolvem as grandes questões da existência, muitos preferem relegar todo o Cosmos, tudo o que ocorre e ocorreu, ao acaso. Eles se esquecem que o acaso não existe enquanto explicação, mas apenas enquanto não-explicação. Dizer que o universo surgiu do acaso é o mesmo que dizer “o universo surgiu de alguma causa que nos é desconhecida” – não muito distante de dizer que a origem do universo é um “mistério divino”, não muito distante dos antigos que olhavam para o sol e fantasiavam sobre terras além do horizonte inalcansável.

Mesmo na mecânica quântica, onde tudo parece aleatório, as previsões teóricas sempre se comprovaram com acuidade quase inacreditável frente á tamanha bizarrice da natureza. Dizer que a aleatoriedade quântica poderia explicar como um universo surgiu do nada é o mesmo que dizer que um unicórnio rosa pode surgir nesse momento, em meio aos átomos que se agitam no ar a sua volta. Até que um unicórnio nos ameace com seu chifre, tudo o que poderemos afirmar com honestidade é que não fazemos a menor idéia do porque as partículas se comportam como se comportam no mundo do muito pequeno... Mas, ainda que flutuações quânticas pudessem explicar como partículas podem surgir do vácuo, ainda assim não explicaria como poderiam surgir do nada, visto que o vácuo está muito distante de ser o nada.

Enquanto andamos por esse Cosmos seguindo a luz do ocaso, não deixemos que a noção do acaso sem causa nos contamine a mente e nos faça desistir de prosseguir nessa infinita jornada de conhecimento. Do real conhecimento da causa de todo esse mecanismo elegante do sistema-natureza, e não apenas das respostas fáceis que pairam sobre aqueles que continuam a temer o desconhecido – tal qual aos antigos, temendo que o sol se pusesse para nunca mais voltar.

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Crédito da foto: Joseph Umbro

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