Após ter acompanhado seu nascimento e crescimento desde o início, é com muita honra que hoje prosseguimos com a parceria deste blog com o canal Conhecimentos da Humanidade no YouTube, apresentado por Bruno Lanaro e Leo Lousada.
Neste roteiro, trouxe de volta um antigo artigo sobre as muitas formas de crença ou descrença em Deus ou nos deuses, e acredito que o resultado final tenha ficado muito bom. Logo nas primeiras horas, o vídeo chegou a uma centena de comentários, não deixe de dar o seu também. Afinal, o que é Deus pra você?
Texto de Danilo Kiss, um grande entusiasta da Ciência, que a meu pedido gentilmente falou da sua experiência em seu primeiro Simpósio de Hermetismo.
Antes falar sobre minha impressão em relação ao Simpósio, vou tentar ser breve em relação a minha história, até para que as pessoas entendam o motivo desse texto estar aqui. Minha família de uma certa forma é bem religiosa, onde como a maioria dos Brasileiros se voltou ao Cristianismo. Cresci vendo minha avó materna a rezar terço, escutando orações na rádio pontualmente às 18:00hs, via quando pessoas pediam para que as benzessem quando não estavam se sentindo bem. Com um prato fundo cheio de água e pingando gostas de óleo que banhava em seus dedos, ela fazia sua oração e com sinal da cruz – pingando o óleo na água via a situação da pessoa no momento – se as gotas se justassem ou cresciam, era sinal de quebranto ou mal olhado, se as gotas se mantivessem no lugar estava tudo bem. De fato as pessoas ligavam para agradecê-la, reportando estarem melhores. Seu enorme santuário com as mais diversas imagens de santos, anjos , de Cristo e Buda, além de ser devota de Nossa Senhora de Aparecida. Minha mãe também não foge a esse ritual. Acordo às 05:30hs para ir trabalhar, e quando saio ela esta ligada em um canal de orações, com seu terço nas mãos, onde o mesmo processo se repete da parte da noite. Pessoas ligam para serem benzidas por ela também. Meu pai é agnóstico e tenho três irmãos: um umbandista, outro espírita kardecista e o mais novo maçom, e eu cético em relação a tudo isso que descrevi até agora.
Meus questionamentos em relação a divindades e na crença de um deus criador, que olha por tudo, que sabe o que faz, e que não posso questioná-lo, começou quando tinha por volta de nove anos de idade. Lembro-me olhando para uma folha em branco, tentando entender como algo pudesse amassá-la sem alguma interferência externa. Era assim que via toda aquela história de um deus que veio do nada, para criar e ser dono de tudo. Em meio às conversas que tinha com meus pais em relação ao meu ceticismo, resolveram me colocar para fazer a primeira comunhão quando tinha quatorze anos de idade, e na segunda aula o Padre (Fernandes) responsável pelas aulas de catecismo, disse a minha a mãe de forma serena que meu lugar não era ali, e que logo entenderiam – talvez fosse pelos meus questionamentos. Ao completar dezoito anos fizeram com que começasse crisma, e confesso que só fiz por causa da minha avó. Nessa época já estudava a história das religiões, bem como Astronomia. Como não encontrava algo que me fizesse acreditar de fato em tudo que via dentro da religião e em relação a um criador onipotente, onisciente e onipresente, resolvi estudar o macro, o começo de tudo.
Comecei a me dedicar a Física e hoje com trinta e oito anos curso Universidade de Astronomia. Nesses quase vinte anos de tudo, tudo (ou quase tudo) das dúvidas que eu tinha em relação aos mistérios não revelados (ou revelados) de forma incoerente pela religião, encontrei na Ciência – Física e Biologia são os ramos da Ciência que mais estudo atualmente, além claro da Astronomia, em que descobri que tudo não foi feito em sete dias, pois para ser gerada a primeira estrela foi necessário milhões de anos. Ao contrário do que muitos conseguem fazer, ainda não consegui traçar um paralelo ou um denominador comum entre Religião e Ciência. Religiosos, místicos, benzedeiros, padres, pastores e líderes de qualquer religião acham que a comunhão entre Ciência e Religião é dizer apenas sobre as bênçãos das divindades, com a tão falada e nebulosa Física Quântica, ou ainda pior: tudo aquilo que a Ciência não explica a Religião consegue – ambas situações tornaram-se clichê. É fato que existem pessoas espiritualizadas e da Área Científica, que conseguem traçar um relacionamento entre as duas coisas. Tenho um grande amigo assim. Físico e que acredita nessa cumplicidade entre a espiritualidade e as partículas subatômicas, o que pra mim ainda é extremamente utópico. Por mais que eu acredite (e tenha provas) que a energia que emitimos apenas pelo nosso pensamento seja algo extraordinariamente forte, me limito apenas àquilo que eu realmente consegui provar. Provar não para outros, mas para mim mesmo! Sabe aquela história de cada coisa no seu lugar? Sigo mais ou menos dessa forma. Mas aí você pode me perguntar se a Ciência explica tudo... E eu digo que para quase tudo que questionei até hoje, sim! Mas esta longe de explicar tudo tudo, afinal nada explica a totalidade do que existe.
Em meus estudos em relação às religiões, frequentei todos os principais cultos para entender o que se passava em cada uma delas, onde cheguei a uma conclusão. A espiritualidade como fonte de saber e de harmonia interna é ótima ferramenta para aqueles que precisam, mas o ser humano que tem por trás dos passes e das incorporações não! Já vi de tudo: desde “reze cem ave marias e cem pais nossos” pelo dízimo que não consegui dar, até que “deus não quer suas moedas, pois ele precisa de notas para terminar suas obras na eternidade”, até aqueles que davam passe em você no centro espírita e lá fora batiam na mulher e ignoravam os filhos. Que tipo de vibração um mamífero desses vai reportar a uma pessoa?
Enfim, foi nesse estudo sobre as religiões, que em meados de 2015 encontrei uma página no youtube chamada Conhecimentos da Humanidade, com um vídeo sobre a introdução as Religiões. Dali pra frente me tornei um espectador e fã da página, pois tratavam do assunto religioso de forma imparcial, e principalmente com cunho histórico, que era exatamente o que gosto de estudar. Assistindo alguns vídeos tomei conhecimento de um Simpósio que seria realizado no início de Novembro (2017) – o Simpósio de Hermetismo e Ciências Ocultas. Confesso que dez anos atrás acharia um absurdo o fato de pensar em participar de algo relacionado a Ciências Ocultas, afinal pra mim não existe nada mais transparente que a Ciência natural. Me permiti ir a esse Simpósio e ver o que os participantes tinham a dizer, além de conhecer as pessoas que fazem parte de um grupo fechado de discussão referente ao canal Conhecimentos da Humanidade [grupo de apoiadores do canal no Padrim]. São pessoas extraordinárias, cada uma na sua percepção de fé e espiritualidade, onde não entendo de onde tiram tanta paciência para escutar as chatices de um cético :)
Finalmente chegou o grande dia! Na verdade foram dois dias seguidos: sábado e domingo. Um dia antes ainda pensava se deveria mesmo participar, mas posso dizer que foi uma experiência um tanto diferente na minha vida. Já ao chegar ao local onde teriam as palestras, me deparei com um cartaz do lado de cima da porta: “Simpósio de Hermetismo e Ciências Ocultas”. Respirei fundo! Logo vi uma pessoa com uma longa capa preta e capuz, outra vestida como uma bruxa. Tenso! Já estava na companhia de uma pessoa do grupo (Gidy Sampaio), e alguns minutos depois fui recepcionado pelo Léo Lousada, um dos organizadores do Simpósio e responsável pelos conteúdos no canal Conhecimentos da Humanidade. Ele me levou ao encontro de outro idealizador do canal, Bruno Lanaro, onde mais uma vez fui extremamente bem recepcionado. Entrei no local e pude ver todos aqueles meus amigos virtuais, inclusive Raph Arrais (você o conhece bem :), que tranquilamente e humildemente veio se apresentar, além da Karina, Diego, Daniela e Rodrigo. Fiquei muito feliz em conhecê-los pessoalmente. São todos do bem, cada um no seu estilo. Tive conversas riquíssimas com cada uma delas, e agradeço muito por isso! Minutos depois me sentia totalmente fora de contexto, pois era muita gente espiritualizada, cada um de sua maneira, em seu entendimento diferente. Mas fui forte, e logo começaram as palestras. Uma a uma fui observando, divagando, pensando, fazendo paralelos com minhas crenças, mas me permiti deixar todo meu ceticismo e meu pensamento científico da porta pra fora.
Nos dois dias de Simpósio percebi que cada Ordem e Religião tendem a puxar o que mais se adequa a crença de cada um em um determinado grupo. A verdade, a magia, os deuses, as energias etc. Todos possuem uma comunhão dentro das determinadas crenças. Penso que poderia existir apenas uma para englobar tudo, seria mais coerente não? Mas talvez o ser humano precise dessas diversas possibilidades, pois nós somos assim. Queremos pertencer a um grupo específico, e a maneira mais fácil de se organizarem é a separação pelos ideais. Percebi também que mesmo com tantos pontos diferentes, o intuito é lavar ao mesmo lugar. Observei que sempre que abordavam o assunto Religião vs. Ciência cometiam algum deslize, e percebi também que a preocupação em querer linkar as duas coisas é muito grande, mas acredito que seja mais uma forma de se falar aleatoriamente sobre o assunto. Hoje me parece que o créme de la créme da Religião em conjunto com a Ciência é a Física Quântica. O fato é que nem a Ciência sabe exatamente como empregá-la dentro do próprio meio científico, que é onde se abre brechas para oportunistas. Vejo que a parte mística ou ocultista começa onde a ciência deixa de explicar – e é aí que para mim começa o grande problema. A Ciência em cem anos veio para desmistificar milênios de mitos e/ou interpretações de livros sagrados e profetas. Tenho que dizer que não presenciei muitos paralelos em relação a Ciência e Religião, a não ser quando uma espectadora disse que a Bíblia era “quântica”, mas até aí absorvi bem essa questão :) Bom, não estava em um Simpósio de Ciências, então de uma certa forma relevei o que foi dito, sem problema algum.
Cada palestrante representando a diversidade de Ordens e Religiões deixava sempre a entender que o bem comum para uma vida melhor, e consequentemente construir uma harmonia entre todos os seres – seja ela animal, vegetal ou mineral –, é o respeito, a bondade e o amor, dessa forma alcançando a espiritualidade de forma mais tênue. Senti isso também nas pessoas que lá estavam. Cada um da sua forma buscava o conhecimento e principalmente uma forma de elevação espiritual para se tornarem pessoas melhores. Não que com meu ceticismo também não busque tais atributos, mas a diferença que vi em relação a essa busca são os meios. Procuro ser uma pessoa boa, ter atitudes condizentes com o amor, respeitar a Natureza não para agradar divindade ou ter uma vida eterna, mas ser feliz enquanto a vida aqui no Planeta Terra durar. Não peço nada a nenhuma divindade, apenas agradeço todos os dias. Para quem? Para minha mente! Se existe uma energia onisciente, onipotente e onipresente ela sabe exatamente o que estou passando, o porquê e do que preciso, logo não tenho necessidade de pedir nada. Se tiver algo além da morte do corpo, ótimo, se não tiver nada, tudo bem também. Apesar de saber que nosso corpo de fato é só energia, e não existe a morte de energia e sim a sua transformação, não me arrisco a dizer o que acontece depois que ela se livra da matéria densa que é o nosso corpo. Isso deixo para meus amigos com mais elevação espiritual que eu :)
Quanto a minha impressão final em relação ao Simpósio, posso dizer que foi muito boa, na verdade muito melhor do que esperava! Me arrisco a dizer que esse encontro sirva mais para pessoas como eu. Para os demais acredito que seja mais um complementando de sua busca. Escutar o que o outro lado tem a dizer é muito importante, é respeitar a fé e suas crenças, afinal é isso o que nos faz ser uma pessoa melhor dia após dia. Ouvi magos, bruxas e benzedeiros falarem sobre a forma com que enxergam a vida, e posso dizer que foi muito rico. Por mais que isso não faça parte do meu dia a dia, é bonito saber que há pessoas que através de sua magia se preocupam em ajudar o próximo. Senti muita cumplicidade, harmonia, respeito e principalmente o amor de todos!
Amor – um nome curto, com um significado enorme e tão difícil de ser empregado verdadeiramente em nosso dia a dia, mas quando é feito tudo de forma sincera percebemos a diferença que faz. O amor quando empregado de forma verdadeira, e aí não importa a Religião, a Ordem , ou apenas a percepção intrínseca: ele mudará sua casa, seu bairro, sua cidade, seu país... ele mudará o mundo! E foi exatamente isso que aprendi no Simpósio – não importa os meios, mas sim o final de tudo! E talvez o deus, as divindades, os santos, os guias, os anjos sejam apenas a forma de amor materializada da qual eles tanto falam. Talvez tudo isso seja apenas o amor! Pretendo voltar nas próximas edições e entender esse enorme mundo. E que dessa forma amemos mais, todos os dias!
Desde o final do século passado, com o seu monumental A dança do universo, o físico e escritor Marcelo Gleiser já se alçava como um dos maiores divulgadores de ciência nacionais. De lá para cá, só tem melhorado, particularmente por não reduzir o escopo da sua curiosidade somente a ciência, como também a arte, a espiritualidade, a meditação, as mitologias, e até mesmo as religiões. Talvez nada disso tenha tornado Gleiser um cientista melhor, mas certamente o tornou um ser humano melhor.
Tudo isso fica claro e evidente nesta espetacular entrevista que ele deu para o Canal Livre da Band no último final de semana. O mote inicial da conversa é a possibilidade de vida fora da Terra, mas ao longo do programa eles também falam de muito, muito mais coisa. Dentre outros grandes momentos, é particularmente profundo aquele em que ele explica porque é agnóstico, e não ateu.
Aliás, nesta e em outras abordagens acerca da relação da ciência com a crença, Gleiser está inteiramente alinhado com o saudoso Carl Sagan, que nunca teve pudor em falar de espiritualidade (e tampouco foi ateu, e sim agnóstico). De fato, faz algum tempo que Gleiser é o nosso Sagan brasileiro. Vejam só:
(clique na imagem acima para abrir o vídeo da primeira parte do programa no site da Band)
Abaixo seguem os links para as 3 demais partes:
» Parte 2 (a colonização de outros planetas)
» Parte 3 (ciência e religião)
» Parte 4 (questões metafísicas)
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Obs.: Também não posso deixar de ressaltar a participação do jornalista Salvador Nogueira, que ajudou muito com suas perguntas muito bem elaboradas. Não é para menos, pois se trata de um dos nossos melhores jornalistas na área de ciência.
Um cientista diz que o universo surgiu do nada. Para ele, isto quer dizer que não há um Criador, nem espíritos nem almas, e boa parte ou mesmo a totalidade do que classificamos como espiritualidade não passa de mera fantasia provocada por algum estranho tilintar de neurônios em nosso cérebro. "Assim", diz o cientista, "estou defendendo a racionalidade e me valendo do ceticismo".
Ora, se formos na origem da etimologia de tais termos, descobriremos que a racionalidade implica em ser sensato e sempre questionar suas próprias crenças, buscando razões razoáveis para crer, ou continuar a crer, no que quer que seja. Some-se a isso o ceticismo, que filosoficamente implica em exaltar a dúvida e evitar as certezas, e temos efetivamente um manual prático contra todo e qualquer dogma, assim como todas as pressuposições ilógicas que encontramos por aí, ainda que venha da boca de um cientista.
Um cientista diz que o universo surgiu do nada. Ainda que seja amparado por "estudos", e ainda que ele se diga "cético e racional", não seria nem racional nem cético de nossa parte crer no que ele afirma sem questionar... E, questionando, poderíamos começar pela pergunta, "O que é o nada? Você pode defini-lo? Você já o observou, ou detectou com instrumentos? Você sabe como, quando e onde ele existiu? Será que poderá voltar a existir um dia?".
Se formos usar novamente a etimologia, descobriremos que, no frigir dos ovos, o "nada" é um termo que se refere a algo que não somente não existe, como não pode ser definido, nunca pôde, e jamais poderá. O "nada" não é o vácuo cósmico, que mesmo sem nenhuma espécie de matéria, nem nenhum átomo passageiro, ainda é preenchido por campos gravitacionais, radiação, flutuações quânticas etc. O "nada" não é o vazio, pois ainda que houvesse algum canto deste universo perfeitamente vazio, a própria qualidade do vazio implica em "algo a ser preenchido", o que evidentemente não é o "nada". O "nada" não é algum estado de consciência, alguma espécie de metáfora para a morte, nem mesmo para o nirvana. Ainda que muitas pessoas e doutrinas usem o "nada" para se referir a alguma outra coisa, fato é que, pela lógica mais pura e cristalina, o "nada" não pode existir, nem neste momento, nem em qualquer momento do passado ou do futuro. Tampouco ajuda usar o "nada" entre aspas, pois "nada" e nada também continuam sendo somente palavras.
Dizem que Deus também é somente uma palavra. No entanto, neste caso, ainda que seja uma palavra que se refere a algo que transcende a própria linguagem, e que não pode ser definido pelo uso das palavras, fato é que Deus tem uma qualidade essencial que o difere do nada: o primeiro definitivamente existe, enquanto o último definitivamente não existe. De fato, esta é a única certeza da filosofia e do ceticismo filosófico: existe algo, e não nada. Seja o que for este "algo", seja que nome queiramos dar a ele, "Deus" ou "Tudo" ou "Natureza" ou "Absoluto" etc., fato é que ele existe.
Carl Sagan foi um ardoroso defensor da ciência, da racionalidade e do ceticismo. Apesar de ele não crer num Criador conforme descrito nos manuais de verdades absolutas, ele não foi ateu, e sim agnóstico. Ou, como ele mesmo disse um dia, "Um ateu tem que saber muito mais do que eu sei. Um ateu é alguém que sabe que não existe um Deus". Sagan não tinha tanta certeza de que Deus, ou algo análogo a esta ideia transcendente, não existe. Em seu monumental Contato, inclusive, ele chega a postular que um suposto Criador poderia ter incluído na própria matemática mensagens cifradas que poderiam indicar sua existência. Tudo ficção, é claro, mas quem disse que a ficção não existe? A ficção definitivamente também é algo, e não nada.
Já Neil deGrasse Tyson, o cientista que encontrou com Sagan quando jovem, e que o considera um ídolo, tampouco acredita dispor de informações suficientes para abraçar o ateísmo e abandonar o ceticismo. Conforme ele confessa, "Eu não consigo me reunir e falar com todos numa sala sobre o quanto não acreditamos em Deus. Apenas não tenho energia para isso". O único "ista" pelo qual Tyson deseja ser reconhecido é o "cientista". Tyson definitivamente não é daqueles que tem certeza de que algo surgiu do nada.
Segundo Terence McKenna, a ciência moderna se baseia num princípio: dê-nos um milagre espontâneo e a gente explica o resto. Atualmente este "milagre" se chama Big Bang, e é a teoria mais aceita para o início do espaço-tempo, isto é, do universo onde vivemos. Talvez, quem saiba, existam muitos outros universos, mas isso também faz parte da especulação científica, e não pode sequer ser testado, quiçá comprovado. Então, o que resta? Uma teoria extremamente embasada em dados e observações sobre tudo o que ocorreu desde que o universo surgiu, sabe-se lá de onde, do quê, e em qual tempo.
Toda essa questão da Criação e do sentido da existência é o que tem angustiado mentes filosóficas e questionadoras desde o advento da história humana, provavelmente até mesmo antes da invenção da linguagem. Tudo ou nada, Deus existente e definido ou não existente e indefinido, tudo ter um sentido, nada ter um sentido: todas essas conclusões apressadas nada mais são do que os dois lado da mesma moeda, e esta moeda se chama "a acomodação ante o fim da angústia".
Ora, e tanto ateus quanto crentes encontram sua acomodação em dogmas: "existe", "não existe". Tanto faz, os questionamentos cessam da mesma forma, e a vida "fica resolvida". Mas os filósofos não querem ter esta vida resolvida, eles se recusam a se acomodar ante a angústia da existência. Enfim, eles aprenderam a amar a dúvida, a conviver com ela a cada momento de suas vidas, e analisar esta vida sob um prisma de muitas possibilidades.
No fim das contas, nos prometeram os antigos, todos os paradoxos serão reconciliados. Podemos acreditar neles? Talvez não com a razão puramente objetiva, mas quem sabe com o uso da emoção amparada pela razão, com o diálogo com nossa própria intuição, com a contemplação de nosso mundo subjetivo, com o autoconhecimento, com o passo a passo rumo adentro, com a descoberta de terras ocultas, esquecidas dentro de nós mesmos...
Depois de muito tempo, e muitas vidas, acho que estou começando a compreender que todos os paradoxos já estavam reconciliados desde o início, desde nosso primeiro questionamento, desde que reconhecemos esta única certeza: existe algo, e não nada.
Trechos do artigo de José Francisco Botelho para a revista Vida Simples. Os comentários ao final são meus.
Em Élida, no oeste da Grécia, vivia um pintor de minguados recursos e parcos talentos chamado Pirro. Ganhava a vida fazendo afrescos, mas é de se imaginar que sua clientela fosse pouco exigente: os antigos cronistas garantem que suas pinturas eram perfeitamente esquecíveis. Pirro compreendeu, decerto, que seus dotes pictóricos nada tinham de olímpicos; talvez embalado pela desilusão artística, resolveu tornar-se filósofo.
Foi uma decisão propícia: a nova ocupação levou-o – literalmente – longe. Naquela época, um rapaz baixote e megalomaníaco ocupava o torno da Macedônia, a maior potência militar da Europa. Em 356 a.C., o monarca de 22 anos marchou rumo ao Oriente, com o plano de espalhar seus domínios até os confins do mapa-múndi. Além dessas ambições desmedidas, Alexandre – que, apesar da estatura mínima, foi apelidado de “o Grande” – nutria veleidades literárias e filosóficas. Mesmo nas barracas militares, costumava dormir com um exemplar da Ilíada embaixo do travesseiro; e gostava de alardear que seu professor de retórica e metafísica fora o sublime Aristóteles.
Pois bem: em sua jornada de conquista universal, Alexandre alistou não apenas lanceiros, arqueiros e espadachins, mas também pensadores abstratos. E, dessa forma, o pintor frustrado tornou-se turista global: no séquito de Alexandre, Pirro embrenhou-se pela Pérsia, pela Arábia, pelo Egito; atravessou o árido coração da Ásia, molhou os pés no Ganges e respirou as brisas geladas do Himalaia. Ao longo da travessia, deparou-se com a indomável variedade da espécie humana: conheceu povos que veneravam crocodilos e chacais, outros que adoravam o fogo, outros que conversavam com as estrelas; na Índia, encontrou sábios que viviam no meio da floresta, alimentando-se de folhas secas e vestidos com cascas de árvores.
Do Mar Mediterrâneo às praias do Índico, o ser humano buscava a verdade; mas, em todo o vasto mundo, Pirro não encontrara uma única verdade igual a outra. Convenceu-se de que nada é convincente: de volta a Grécia, passou a pregar uma nova e estranha doutrina, segundo a qual todo conhecimento humano é mera suposição. Já não existe verdade segura, só nos resta esmiuçar o mundo de forma incansável, sem jamais nos determos em conclusões inquestionáveis: da infinita insegurança nasce a incabível curiosidade. Por isso, os seguidores de Pirro ficaram conhecidos como os céticos – do grego sképtomai, que significa “examinar” ou “investigar” [1].
A incerteza, para muita gente, é sinônimo de angústia – mas, para os seguidores de Pirro, ela é uma eficaz terapia. Ao longo da história, dogmas inumeráveis estontearam a humanidade; nós, pobres mortais, vivemos correndo atrás de certezas que sempre se encontram na curva do horizonte. A necessidade de ter razão pode nos tornar desarrazoados: quantas vezes não percebemos que andamos esbravejando sobe coisas que só conhecemos pela metade (ou nem isso) [2]?
Perante essas agruras, a terapia cética é de uma simplicidade implacável: antes de afirmar qualquer coisa, deveríamos admitir que não podemos afirmar tudo. Aceitar os limites do conhecimento humano é uma forma de libertação: quem abraça a eterna dúvida encontra a paz de espírito ou ataraxia, virtude que os antigos valorizavam sobe todas as coisas.
[...] O ceticismo, como tantos vocábulos profundos, perdeu um tanto do sentido original, à força de ser repetido ou mesmo sequestrado: Pirro consideraria dogmáticas muitas pessoas que hoje se declaram céticas. Digamos que alguém pergunte a um Pirro moderno se ele acredita em Deus. À primeira vista, existem duas respostas possíveis: sim ou não. O senso comum diria que a posição cética corresponde à segunda alternativa. Mas, nesse caso, o senso comum está enganado: para um cético clássico, devemos suspender o juízo a respeito de assuntos logicamente insolúveis.
É possível imaginar um universo criado por uma inteligência transcendente, além da compreensão humana; é também possível imaginar um cosmos solitário e materialista, sem outro sentido além do bailado dos átomos. Ou seja: ambas as hipóteses são verossímeis, mas nenhuma delas é verificável. Não podemos bater uma radiografia do universo e constatar a presença ou ausência de Deus, como quem identifica um órgão ou uma cartilagem; logo, tanto o sim quanto o não correspondem a um salto de fé.
O ateísmo, nos olhos pirrônicos, é apenas uma crença, igual às outras. Pirro, aliás, tornou-se sacerdote da antiga religião grega, após seu retorno a Élida; e George Berkeley, um dos nomes mais célebres do ceticismo moderno, era bispo da Igreja Anglicana.
Mas não precisamos nos alçar a enigmas metafísicos para testas a terapia pirrônica. Mesmo que deixemos o sentido do cosmos à escolha de cada um, veremos que o método tem efeitos salutares quando aplicado às coisas do dia a dia. Os céticos da Antiguidade colocavam em dúvida até mesmo o testemunho dos sentidos; alguns questionavam o brilho do Sol, a doçura do mel, ou a vermelhidão das coisas vermelhas [3] – mas não precisamos ir tão longe. Será suficientemente cético quem se ativer a esta máxima: somos criaturas finitas, enquanto a verdade é infinitamente complexa – e o universo talvez não caiba em uma casca de noz.
Isso não implica renunciar a toda a opinião – podemos deixar a suspensão total do juízo ao velho Pirro, em suas divagações. [...] Para nós, basta recordar que toda perspectiva humana é parcial. A visão completa das coisas só pertence aos deuses – e, bem, eles costumam guardar seus segredos com muito afinco.
Os antigos cartógrafos tinham o hábito de escrever, nas bordas dos mapas marítimos, o lema latino nec plus ultra – “daqui não passarás”. O objetivo era assustar os navegantes audazes – e lembrá-los de que toda viagem tem de chegar ao fim. O dogmatismo também anda, sempre, a rabiscar términos e limites na geografia da mente; com regra e esquadro, ele insiste em tascar pontos-finais à aventura do pensamento.
Nessas horas, um gole do antídoto pirrônico vem a calhar. Pois ele nos devolve a medida certa de modéstia e ousadia: não sabemos tudo; e, por isso mesmo, temos de acreditar que a busca continua. Sejamos então como Alexandre, que não quis se deter na Babilônia, nem em Persépolis, nem nos desertos do Afeganistão; seguiu marchando enquanto pôde e, ao olhar as estrelas, exclamava com sonhadora melancolia: “Há muitos mundos lá em cima; e não poderei conquistar nem mesmo este mundinho nosso, aqui embaixo”.
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[1] O ceticismo original nasceu, com Pirro, de uma constatação tão simples quanto profunda e humilde: a de que nenhum ser humano detém a verdade absoluta. Há uma parábola sufi que diz que Deus carregava um espelho e esse espelho era chamado “Verdade”. Um dia, ele deixou cair, e seu vidro se quebrou em inúmeros pedacinhos. Cada pessoa que descobriu um desses pedacinhos acreditou que havia descoberto toda a verdade, e foram raras as que chegaram à conclusão de que a verdade absoluta não pode nunca ser a propriedade de uma só pessoa, de uma só doutrina ou filosofia. É isto precisamente o ceticismo de Pirro: não uma negação da verdade, mas um reconhecimento de que ela só pode ser encontrada em parte, e somente por aqueles que não desistiram de continuar investigando.
[2] Infelizmente é muito comum encontrarmos entre os que se satisfazem com dogmas e certezas absolutas gente que não está aqui em busca de uma verdade para satisfazer as suas dúvidas internas, mas antes para expô-la aos demais, por vezes de forma grosseira e violenta, numa necessidade quase que insaciável de “ter razão”. Ironicamente, tais pessoas são as que se encontram, quase sempre, mais distantes da razão.
[3] O ceticismo moderno está, talvez irremediavelmente, contaminado pelo positivismo da Academia. O que isto quer dizer, basicamente, é que hoje é muito comum crermos que nossas dúvidas só podem ser solucionadas por comprovações objetivas, muitas vezes em um laboratório, e acompanhadas por calhamaços de estudos científicos e/ou estatísticas. Isto é bom, por exemplo, para o desenvolvimento da tecnologia; mas é muito ruim para o desenvolvimento do ser humano. Os céticos antigos questionavam tudo, é verdade, mas também aceitavam as comprovações subjetivas de suas próprias experiências pessoais, ainda que não pudessem, com isso, “evangelizar” suas comprovações adiante. Ocorre que Pirro e seus seguidores não perdiam seu tempo tentando convencer os outros de nada – nem do que existe, nem do que não existe.
Normalmente não damos muita atenção as produções dos canais de TV públicos, mas sua qualidade vem gradualmente melhorando... Prova disso é a série Retratos de Fé, da TV Brasil.
Esta série consiste de episódios de pouco mais de 20 minutos onde há um espaço aberto para que os mais variados grupos religiosos possam transmitir a sua mensagem de fé e expressar o que há de sagrado em sua doutrina de forma direta, sem nenhum tipo de mediação ou interferência ideológica. A cada semana, um episódio aborda um determinado credo, cujos seguidores entrevistados podem se expressar livremente na tela, apresentando suas concepções, crenças, cerimônias, vivências e manifestações religiosas, num verdadeiro aprofundamento religioso. Vejamos um trailer da série:
O que achei mais interessante nesta série é que ela é realmente ecumênica, abrindo espaço tanto para vertentes cristãs evangélicas as mais diversas (como a Bola de Neve e a Igreja Quadrangular) até as crenças mais antigas e ancestrais (como as tradições indígenas e os cultos de origem africana). Para terem uma ideia, há até mesmo um episódio sobre Wicca, e outro exclusivo para Ateus e Agnósticos, numa abordagem realmente livre de preconceitos... Para assistir todos os episódios da série online e gratuitamente, basta acessar o site da série e escolher o que deseja ver.
Para episódios inéditos, basta sintonizar na TV Brasil toda a quinta-feira às 20h (horário de Brasília), com reprises aos sábados, às 10h.
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Crédito da imagem: Retratos de Fé/TV Brasil/Divulgação (filmagens do primeiro episódio, sobre o Islamismo no Brasil)
Este vídeo – na verdade o vídeo de uma projeção – está em péssima qualidade, mas por se tratar de uma conversa entre dois seres plenos de espiritualidade, achei por bem trazer para cá...
Em 1991 o Dalai Lama, líder espiritual tibetano que foi obrigado a se exilar de sua terra natal devido a opressão do governo chinês, concedeu uma entrevista a Carl Sagan, provavelmente o maior divulgador de ciência do século XX, e que também sempre demonstrou interesse genuíno pela história das religiões – particularmente as orientais.
O que vemos no vídeo acima é, no entanto, apenas uma parte do diálogo, que transcrevo abaixo [as notas ao final são minhas]:
[Carl] Então deixe-me perguntar agora, se me permite, algumas perguntas sobre religião... O que acontece se a doutrina de uma religião, digamos o budismo, seja contrariada por algum achado, alguma descoberta na ciência, digamos, o que um crente no budismo faz nesse caso?
[Dalai] Para os budistas isso não é um problema. O próprio Buda deixou claro que o importante é a sua própria investigação. Você deve conhecer a realidade, não importa o que a escritura diz.
No caso de você encontrar uma contradição, em oposição a explicação das escrituras, então você deve confiar na descoberta em vez da escritura [1].
[Carl] Isso não é muito parecido com a ciência?
[Dalai] Sim, isso mesmo. Então eu acho que o conceito budista básico é que no início vale mais a pena permanecer cético [2]. Em seguida, realizar experimentos através de meios externos, bem como meios internos.
Se através da investigação as coisas se tornarem claras e convincentes, então é hora de aceitar ou acreditar [3]. Se, por meio da ciência, existir prova de que após a morte não há continuidade da mente humana, ou continuidade da vida; se isto for provado, então teoricamente falando, os budistas terão de aceitar isso [4].
[Carl] Então, o que isso faria com a doutrina da reencarnação?
[Dalai] Bem, eu não acho que, veja você, no que diz respeito à existência de uma continuidade da mente ou da vida após a morte... Esse conceito [a reencarnação], eu acho, tem mais razões coerentes.
Embora a aceitações desse tipo de teoria não consiga resolver todas as suas dúvidas, e não podem lhe dar a satisfação completa, ainda assim, tal teoria ainda é melhor do que a teoria da não-existência. Se não houver continuidade da vida, ou do ser, então a questão permanece: Qual a causa original de todas as galáxias, incluindo este planeta?
Por exemplo, há a Teoria do Big Bang... Tudo bem se foi assim que aconteceu, mas não importa... Então, por que aconteceu? [5] Então, ou você tem de aceitar que as coisas acontecem por acaso [6], sem uma causa específica, o que é desconfortável, pois várias perguntas permanecem; ou outra explicação seria [a existência de] um Criador.
Do ponto de vista budista, isso também não soa como resposta. Por que é que um Criador cria essas coisas? Mais perguntas permaneceriam...
[Carl] Então, você acredita em Deus?
[Dalai] Deus, no sentido de alguma realidade última – então sim, nós aceitamos isso. Mas Deus no sentido de um Criador todo-poderoso, os budistas não aceitam.
[Carl] Portanto, não há constatação concebível da ciência que faria você dizer que a doutrina budista está errada, ou que você não é mais um budista?
[Dalai] Eu acho que uma descoberta científica [realizada] através de cuidadosos experimentos, isto os budistas terão de aceitar de uma vez. Sem problemas.
Alguns cientistas, ou alguns budistas com mentalidade científica – como acho que deveríamos chamá-los –, dizem que não consideram o budismo como uma religião, mas sim uma ciência da mente. Às vezes eles chamam o budismo de uma ciência interior...
Assim, de acordo com a minha própria experiência, como resultado de me encontrar com cientistas – nos últimos anos tive muito contato com eles –, principalmente no campo da cosmologia, da neurobiologia, e também da física, principalmente no campo da mecânica quântica; e, claro, da psicologia – acho que nestes campos há muitos paralelos em comum.
Acho que nessas discussões que realizamos ao longo desses campos [7]... Eu como budista me beneficiei muito do que aprendi com suas descobertas. É muito útil para um budista [participar dessas conversas]. Ao mesmo tempo, alguns cientistas também mostram um interesse genuíno nas explicações budistas para os assuntos envolvidos.
E uma coisa é muito clara: No que diz respeito as ciências mentais, o budismo é altamente avançado.
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[1] Reparem que o Dalai Lama fala em “nossa própria investigação”. Enquanto Sagan afirma que “alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias”, há muitos que se comprazem com o fato de muitas alegações espiritualistas não haverem (ainda) sido comprovadas em laboratório. Porém, a espiritualidade (e particularmente o budismo) vive de evidências extraordinárias, porém subjetivas. O máximo que conseguimos medir por aparelhos, até o momento, é o estado cerebral de monges budistas em meditação – e isto já é material para anos e anos de estudo. Sobre o tema, recomendo a leitura do livro O cérebro espiritual, do Dr. Mario Beauregard e Denise O’Leary (Ed. BestSeller).
[2] Eu pessoalmente estenderia este conselho a toda e qualquer prática espiritualista. Não há como se crer profundamente sem haver tido a experiência, é como “acreditar que a água do mar é salgada” porque se leu sobre isso nalgum livro... Mergulhar, e sentir o sal nos próprios lábios, é um outro nível de evidência – uma evidência que não se encontra em livros nem em experimentos científicos objetivos.
[3] Reparem como esta abordagem budista em nenhum momento procura “evangelizar” a própria crença, nem muito menos convencer ninguém de nada. O budismo, como ciência da mente, confia que cada um de nós – seres que possuem mentes – será capaz de, ao seu tempo, encontraras suas próprias evidências, e crer ou descrer por experiência própria. Isto nada tem a ver com evangelizações de crentes ou descrentes.
[4] Obviamente que, como Sagan gostava de dizer, “a ausência da evidência não é a evidência da ausência”, ou seja: é muito difícil comprovar objetivamente que algo não existe. No entanto, existem vários fenômenos “estranhos” que ocorrem em hospitais do mundo inteiro que parecem corroborar com uma ideia de continuidade da consciência durante o processo de morte. Sobre o tema, recomendo a leitura do livro O que acontece quando morremos, do Dr. Sam Parnia (Ed. Larousse).
[5] É precisamente esta abordagem que separa os espiritualistas dos cientistas mais céticos. Uma coisa é se perguntar, “Como funciona a gravidade, como ela afeta os corpos celestes?”, outra muito diferente é se perguntar, “Por que, afinal, existe a gravidade? Por que a Terra foi formada a partir da poeira estelar? Por que existe a vida?”.
[6] O que não é muito diferente de aceitar que não sabemos por que diabos elas acontecem, e desistimos de continuar tentando saber... É este o tal “desconforto” ao qual o Dalai Lama se refere. Talvez fosse mais honesto dizer, numa postura genuinamente agnóstica, “São tantas as variáveis em jogo que hoje o mistério do surgimento do espaço-tempo nos parece algo sem causa definida, pois é impossível conhecermos todas essas variáveis atualmente”. Segundo Immanuel Kant, tal mistério pode nunca ser totalmente solucionado...
[7] A visão preconceituosa de que os budistas ficam “meditando sem fazer nada isolados do restante do mundo” está um tanto distante da realidade. Se forem perguntar a um monge budista “o que ele faz além de meditar”, ficará um tanto surpreso com a sua agenda agitada – incluindo animadas discussões existenciais, científicas e filosóficas.
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Crédito da foto: Divulgação/Google Image Search (Carl Sagan e Dalai Lama)
Obrigado a Luc Anderssen por haver postado o vídeo legendado no YouTube
Muito se debate sobre a existência ou não existência de Deus. Como alguns devem saber, eu considero este um debate particularmente inútil.
Há ateus ferozes que acusam de infantil e fantasioso qualquer um que creia num “velho de barba muito branca que sabe de antemão quando cada fio do seu cabelo cairá”. No entanto, isto foi um espantalho de deus que foi criado; e qualquer místico, isto é, qualquer um que já observou a Deus de relance, sabe que se trata somente de um espantalho.
No fundo, todos nós, mesmo os ateus mais ferozes, sabemos por intuição própria que nada pode surgir do nada, nem mesmo um espantalho ou as leis que permitem as flutuações quânticas no vácuo. Até mesmo os yorubás, que trouxemos acorrentados de sua terra natal, e que tanto acusamos de “paganismo”, sabem que os orixás não surgiram do nada e tampouco criaram a si mesmos – são, todos eles, filhos de ainda outra entidade que os precedeu, chamada Olorun, e para a qual não se fazem oferendas ou cultos, pois ela já é todas as oferendas e já se encontra presente em todos os cultos.
E, se não acreditam nos yorubás, podem ler o grande Espinosa, que disse algo muito parecido em sua Ética demonstrada à maneira dos geômetras. O que Espinosa talvez não tenha compreendido é que a “demonstração geométrica” era em realidade desnecessária, sendo apenas uma espécie de óculos para enxergar com a razão lógica o que a intuição já enxergava muito bem há tempos, e sempre enxergou!
No entanto, o fato de sabermos que existe um Deus anterior e acima de qualquer espantalho ou “teoria do tudo” não significa que saibamos exatamente como é a face deste Deus, ou sequer que ele tenha alguma face...
É neste sentido que há muitos místicos que concordam plenamente com os agnósticos: “Nós o vimos de relance, mas não sabemos se um dia o veremos face a face”. Ou, como diria Feynman, “a inefável natureza da Natureza”!
Neste depoimento extraordinário para o Big Think, Neil deGrasse Tyson explica o porque de não ser exatamente um agnóstico, e muito menos um ateísta, mas tão somente um cientista, um livre pensador, e educador:
Transcrição de parte do depoimento
Muitas vezes me perguntam, ocasionalmente de uma maneira acusatória:
"Você é ateísta?".
Sabe, o único "ista" que eu sou é cientista, certo?
Eu apenas penso por mim mesmo [1].
No momento em que o vinculam a uma filosofia ou movimento, eles transferem toda a bagagem que vem com isto para você!
E quando quiser ter uma conversa, eles irão afirmar que já sabem tudo o que é importante saber sobre você, pode causa desta associação.
E esta não é a maneira de se ter uma conversa. Desculpe, não é.
Seria melhor se explorássemos as ideias uns dos outros em tempo real, ao invés de atribuir um rótulo.
O que as pessoas estão atrás é sobre minha postura sobre a religião, a espiritualidade, ou Deus.
E eu diria, se pudesse encontrar uma palavra que chegasse mais perto, que seria agnóstico. Uma palavra que data do século XIX.
Para se referir a alguém que não sabe, mas realmente não viu evidência para isto, embora esteja preparado para abraçar a evidência se estiver lá. Ok?
Existem muitos ateístas que dizem: "Bom, todos os agnósticos são ateístas." Ok.
Sou constantemente reivindicado pelos ateístas. Eu acho isto intrigante.
De fato, na minha página da Wikipedia, diz-se que sou ateísta. Então eu corrijo: "Neil deGrasse Tyson é um agnóstico".
Volto uma semana depois, e diz-se novamente que sou ateísta... Em uma semana!
Tais termos não são a mesma coisa, e lhe direi porque:
Ateístas que conheço, que orgulhosamente vestem a camisa, são ateístas ativos! Está na cara deles, ateístas!
E eles querem mudar políticas, eles estão tendo debates. Eu não tenho o tempo, o interesse e a energia para fazer nada disso.
Sou um cientista. Sou um educador. Meu objetivo é fazer as pessoas pensarem direito em primeiro lugar, e ficarem curiosas sobre o mundo natural.
E isto é tudo, não vou além disto.
E é estranho que a palavra "ateísta" até mesmo exista! [2]
Eu não jogo golf, e há uma palavra para não-jogadores de golf?
Eu não consigo me reunir e falar com todos numa sala sobre o quanto não acreditamos em Deus. Apenas não tenho energia para isto.
Então, ser agnóstico me separa da conduta dos ateístas. Mas no fim do dia, seria melhor que eu não fosse de categoria nenhuma.
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[1] Recordemos que a ciência em si não é nem espiritualista nem materialista, nem ateísta nem teísta, mas os cientistas, como seres humanos, não têm como escapar de estar "aqui ou acolá". Acho que o que o Tyson quis dizer (ao longo de todo o depoimento) é que simplesmente odeia rótulos de qualquer tipo, e prefere "conhecer as pessoas por detrás dos rótulos". Nesse sentido eu concordo com ele.
[2] Mas vale lembrar que, bem antigamente, o termo "ateísta" se referia não exatamente a quem não acreditava em nenhum deus, como parece ser o uso mais comum atualmente, mas principalmente a quem não seguia os rituais e os deuses das religiões "dominantes" de uma dada região. Exatamente por isso, Sócrates, Jesus e Espinosa foram acusados de ateísmo, embora todos acreditassem, cada um a sua maneira, nalgum deus.
Deus não se demonstra
Não está aqui ou ali
Não disse isto ou aquilo
Deus é uma experiência
Um pensamento antes da linguagem
Pois que não é uma palavra
Nem um conceito, nem uma ideia, nem uma filosofia...
Deus não é nada que possamos defender com palavras, com cascas de sentimento...
Deus é o puro sentimento
Deus não é o puro sentimento
Deus apenas é
“Ele passou por aqui” – diz-nos a testemunha
Passou pela alma, tal qual leve brisa a escorar pelo ombro...
“Onde foi agora?”
Para todo lugar
Para nenhum lugar
O agnóstico tem razão ao dizer que não podemos compreender a Deus, nem a existência de Deus...
Assim como os poetas não podem compreender a poesia, o amor...
O amor é como um pássaro fugidio
A sombra de uma nuvem – um leve acinzentado pairando pela paisagem
O animal fantástico, a Fênix!
Há muitos poetas-caçadores que tentaram captura-la, mas nenhum deles jamais trouxe a prova...
Nenhuma pena da Fênix para contar a história
Apenas a experiência
O deslumbre e o espanto
De observar a mais bela das aves a voar...
Mas, e onde estaria agora, para onde teria voado?
A ave do amor voou para além do horizonte da linguagem
A fronteira entre a sua terra e a terra do pensamento
Parece-nos intransponível...
Somente os poetas-loucos souberam construir essa tal ponte
Entre a razão e o amor
Em seus pensamentos há uma luz que brilha ainda antes que possam dizer:
“Estou pensando”
E então dizem o que não podem dizer:
“Estou pensando no amor”
“Estou pensando em Deus”
Há essa ponte entre duas terras:
A terra onde tudo está separado em pequenas caixas, como segredos hermeticamente fechados;
E a terra onde tudo jaz junto, unido, conectado...
O amor é a ponte
O amor é uma fonte
Deus está a aguardar na outra margem
Deus não está a aguardar na outra margem
Deus é uma experiência
Ao longo de vários anos participando e observando discussões filosóficas e religiosas, pude observar que, muitas e muitas vezes, as pessoas se digladiam muito mais por não conseguirem compreender o que a outra efetivamente pensa, do que por qualquer outro motivo mais importante. Usualmente, o que causa esse tipo de desentendimento é o fato de que alguns termos – particularmente os que englobam a crença ou descrença em um Criador – são compreendidos de maneiras diversas pelas pessoas.
Por exemplo, para alguns um ateu é alguém que afirma categoricamente que Deus não existe (seja quem ou o que for). Para outros – incluindo ateus – o ateísmo não chega a fazer tal afirmação. Para alguns atenienses Sócrates era ateu, embora ele estivesse um tanto longe disso, tanto que mais tarde sua filosofia influenciou decisivamente um grande teísta: Sto. Agostinho. Já Epicuro dizia não se preocupar com os afazeres dos deuses – e também foi taxado de ateu. Dizem que Einstein acreditava no “deus de Espinosa”, mas seria esse deus o mesmo deus do Antigo Testamento? Richard Dawkins deixa claro que não, e em seu polêmico Deus, um delírio se dedica a atacar apenas o deus bíblico, e não a concepção panteísta do Cosmos. Confuso, não?
Para tentar auxiliar em tantas definições, teísmos, ateísmos e outros “ismos”, elaborei um pequeno glossário de termos abaixo, que é propositadamente curto – e, obviamente, não tem a pretensão de esgotar o assunto, mas apenas de ajudar a resolver melhor alguns debates. Comece perguntando: “que tipo de ismo você segue exatamente, afinal?”, antes de ter certeza do que exatamente o outro crê ou não crê...
Teísmo
O teísmo, derivado do grego Théos (Deus), é a crença na existência de um ou mais deuses. No politeísmo acredita-se em diversos deuses, mas no henoteísmo, apesar de admitir-se a existência de um panteão, há também um Deus supremo, criador do Cosmos. No monoteísmo reduz-se a divindade a apenas um único ser supremo, usualmente taxando outros deuses de semideuses, divindades ou demônios (do grego daemon) – que em certas doutrinas também podem assumir o papel de intermediários entre os homens e o Deus supremo.
O teísmo filosoficamente deriva diretamente do antigo questionamento: “porque afinal existe algo, e não nada?” – Que por sua vez remete a crença em uma espécie de ser consciente (embora não necessariamente um velho barbudo ou um avatar profético) que arquitetou todo o Cosmos. Pode ser, talvez, resumido como “a crença em um Criador pessoal”.
A grande maioria dos teístas também compartilha a crença de que Deus não somente pode intervir diretamente (e, usualmente, de forma sobrenatural) nos eventos da existência humana, como também pode transmitir revelações e segredos cósmicos através de profetas, sonhos e experiências religiosas em geral.
Creem em uma causa primeira: sim. Creem em um Criador pessoal: sim. Creem em intervenções sobrenaturais: quase sempre sim. Creem em revelações divinas e dogmas: sim.
Deísmo
O deísmo tem suas raízes nos antigos filósofos gregos e, sobretudo, na doutrina aristotélica da “primeira causa”. Voltou a florescer no Iluminismo, sobretudo através de Galileu, Newton, Voltaire e outros. No deísmo admite-se que o Cosmos não é obra do acaso, e que portanto deva existir um Criador. Porém, os deístas creem que é papel do homem se aproximar de Deus através da razão, e não o contrário. Em suma, os deístas negam as revelações divinas e têm uma concepção naturalista do Cosmos, usualmente negando também a possibilidade de intervenções sobrenaturais.
Os deístas creem em um relojoeiro que sabia enxergar muito bem, tão bem que arquitetou todo o Cosmos de forma magistral. Tão perfeita, que lhe é mesmo desnecessário intervenções específicas. Conforme disse uma vez Voltaire a uma senhorita: “Minha senhora, acredito em uma providência geral, mas não numa providência particular que salvou o seu pássaro que estava machucado”.
Creem em uma causa primeira: sim. Creem em um Criador pessoal: geralmente sim. Creem em intervenções sobrenaturais: quase sempre não. Creem em revelações divinas e dogmas: não.
Panteísmo (ou “espinosismo”)
O panteísmo associa o conceito de Deus ao próprio Cosmos: a totalidade de todas as coisas no universo, na natureza. Einstein dizia que havia duas formas de se enxergar a vida: uma é pensar que não existem milagres, a outra é conceber tudo a sua volta como um milagre. Obviamente, Einstein queria dizer que as próprias leis naturais, a própria simetria e harmonia do Cosmos, eram em si mesmas um milagre persistente – ao menos para aqueles que tinham olhos para ver.
Essa concepção de Cosmos remonta novamente a Grécia antiga, sobretudo aos estoicos. E foi bebendo dessa fonte que Benedito Espinosa concebeu a Deus como “a substância que não pode criar a si mesma, mas que gerou tudo o mais a partir de si”. Esta é uma bela síntese para um questionamento ancestral, e exatamente por isso Espinosa é até hoje tão admirado (apesar de ter sido excomungado do judaísmo, sob a acusação curiosa de ateísmo).
Se no início de sua ÉticaEspinosa engendra o conceito de Deus de forma “geométrica e precisa”, é preciso se aventurar no restante do livro para perceber que o filósofo holandês também acreditava que esse tal Deus era capaz de nos trazer profunda felicidade existencial, sobretudo quando alinhamos nossa intuição com a “vontade do Cosmos”. Era esse deslumbramento que Einstein sentia constantemente, ao desvelar os segredos da natureza.
Creem em uma causa primeira: sim. Creem em um Criador pessoal: não. Creem em intervenções sobrenaturais: não. Creem em revelações divinas e dogmas: não.
Pandeísmo O pandeísmo nasceu da fusão do panteísmo com o deísmo, e se trata de um concepção divina do Cosmos, que só pode ser compreendida através da razão.
Panenteísmo
O panenteísmo é um doutrina muito similar ao panteísmo, mas compreende que Deus é “o Cosmos e algo a mais”. Ou seja, que o universo está contido em Deus, mas Deus não se limita apenas ao universo.
Agnosticismo
Thomas Henry Huxley, um biólogo inglês, cunhou o termo “agnóstico” (do grego agnostos, “ausência do conhecimento”) em 1869, mas a essência do agnosticismo foi melhor desenvolvida pelo filósofo alemão Immanuel Kant. No agnosticismo, admite-se que a questão ancestral acerca da natureza exata da “primeira causa” não pode ser resolvida com base no conhecimento atual da humanidade, e talvez jamais venha a ser efetivamente solucionada. Geralmente isso significa apenas que os agnósticos se posicionam com ceticismo em relação à existência de Deus: não podem afirmar que existe, nem tampouco que não existe. Ou, como dizia Carl Sagan, um grande agnóstico: “a ausência da evidência não é a evidência da ausência”.
O agnosticismo possuí algumas vertentes interessantes: os fideístas creem que essa mesma questão da “primeira causa” realmente não pode ser resolvida pela razão, mas sim pela fé. Também é possível ser um agnóstico teísta– que crê em Deus, mas não crê que pode compreendê-lo; ou ainda, bem mais comum, um agnóstico ateísta – que não crê em Deus, embora tampouco afirme que não exista.
Se formos considerar a essência do ceticismo filosófico, para um cético só é mesmo possível ser um agnóstico, há menos que este cético tenha passado por experiências religiosas subjetivas, e que por conta delas tenha passado a crer em Deus.
Creem em uma causa primeira: geralmente sim, embora não saibam resolve-la. Creem em um Criador pessoal: não (exceto no fideísmo). Creem em intervenções sobrenaturais: não (exceto no fideísmo). Creem em revelações divinas e dogmas: não (exceto no fideísmo).
Ateísmo
Em sua origem antiga, o ateísmo (do grego atheos, “ausência de Deus”) sempre foi um termo profundamente arraigado na religião, visto que usualmente significava a negação dos deuses e práticas religiosas locais. Claro que o ateísmo na antiguidade também poderia significar literalmente a descrença em todo e qualquer deus, mas esses casos eram muitíssimo raros. Mesmo grandes profetas e filósofos foram acusados de ateísmo, a despeito de sua óbvia crença em Deus ou em deuses, dentre eles contamos até mesmo Sócrates e Jesus Cristo.
Com o passar dos séculos e, sobretudo, com o aflorar das ciências naturais após o Iluminismo, o ateísmo em seu sentido de “descrença total em Deus” passou a ser cada vez mais comum. Teoricamente, aquele que se declara ateu na era moderna estará afirmando categoricamente que “não existe um Criador”, e também geralmente poderemos adicionar à afirmativa: “tampouco existe uma causa primeira com objetivo definido”. Ou seja, um ateu moderno não vê sentido ou desígnio divino no universo.
Mas esse tipo de definição do parágrafo acima não é compartilhado por todos, tampouco pelos próprios ateus – e há muitos ateus que se colocam, em realidade, como agnósticos, ou agnósticos ateístas (ver acima), apesar de se definirem “apenas como ateus”. Esse tipo de afirmação gera muitos desentendimentos, pois há muitos teístas e mesmo deístas que se sentem ultrajados com o fato de alguém se sentir na condição de afirmar que “não existe um Criador nem um sentido para a causa primeira” – muito embora nem sempre seja o que alguém que se autointitule ateu queira realmente dizer.
Em suma, há muitos agnósticos que gostam de se dizer ateus apenas para se colocarem ainda mais claramente em oposição às concepções teístas, sobretudo aquelas originárias das doutrinas dogmáticas.
Creem em uma causa primeira: por vezes sim, embora em todos os casos neguem um sentido ou desígnio divino no universo. Creem em um Criador pessoal: não, e por vezes podem ter “certeza que não existe Criador algum”. Creem em intervenções sobrenaturais: não. Creem em revelações divinas e dogmas: não.
Antiteísmo
O antiteísmo (alguns chamam de neo ateísmo ou novo ateísmo) é uma vertente moderna do ateísmo que não se contenta em apenas se declarar ateísta, como critica veementemente o teísmo e, por vezes, atua de forma militante, tentando convencer as pessoas de que Deus não existe. Embora os antiteístas provavelmente entendam a si mesmos como “evangelizadores da ciência e do racionalismo”, eles na prática lembram muito mais uma versão distorcida dos próprios evangelizadores teístas.
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Observação (1): É preciso sempre lembrar que a ciência não é ideologia ou doutrina, não é materialista nem espiritualista, monista ou dualista, teísta ou ateísta. A ciência é tão somente o conhecimento da natureza detectável, e o estudo de seus mecanismos. Há muitos grandes cientistas da história que eram teístas, deístas, panteístas, etc.
Observação (2): Embora um teísta fundamentalista provavelmente me julgue um ateu, e um antiteísta radical provavelmente me julgue um teísta, eu na realidade estou situado mais ou menos entre o Panteísmo, o Deísmo e o Pandeísmo.
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Vídeo
Este artigo serviu de base para o roteiro do vídeo O que é Deus para você? no canal Conhecimentos da Humanidade do YouTube.
Texto de Adjiedj Bakas e Minne Buwalda em "O futuro de Deus" (A Girafa) – pgs. 59 a 62. Tradução de Silmara Oliveria. As notas ao final são minhas.
Glocalização é um novo fenômeno, um derivado da crescente globalização. Estamos constatando que as ideias universais e os processos envolvidos na globalização são interpretados e absorvidos de maneiras diferentes, conforme a perspectiva e a história de cada grupo regional, cultural e religioso – isto é, no nível local [1].
Europa e Rússia
O antigo continente europeu foi o lugar onde, após a Revolução Francesa, o Liberalismo, o Humanismo e o Ateísmo começaram a evoluir. Apesar do continente ainda ser predominantemente cristão, com a maioria dos católicos romanos no sul e os protestantes no norte, as sociedades europeias são atualmente caracterizadas pelo multiculturalismo, no qual há coexistência de religiões de todas as partes do mundo, principalmente nas áreas urbanas.
Desde a Segunda Guerra Mundial, o número de cristãos oficialmente afiliados a uma igreja reduziu-se na maior parte da Europa, o que foi interpretado por várias décadas como um sinal de secularização. Mas os cientistas sociais têm uma opinião diferente sobre esse fenômeno, e o chamam de desinstitucionalização. Frederic Lenoir, editor do Le monde des religions, escreve: “Os indivíduos ultramodernos desconfiam das instituições religiosas [...] e não acreditam mais no futuro brilhante que a ciência e a política sugerem; entretanto, ainda assim deparam com grandes questões sobre sua origem, sofrimento e morte” [2].
E assim descobrimos que, quando questionados, a maioria dos europeus indica que ainda são religiosos ou espiritualmente interessados, mas menos apegados às instituições religiosas que outrora dominavam o continente. Muitos criam sua própria religião pessoal, com elementos do Cristianismo, Paganismo, religiões do Oriente etc. [3] Isso é o que chamamos de individualização da religião.
[...] Na Rússia e em alguns países do antigo Pacto de Varsóvia, a antiga Igreja Ortodoxa Oriental está passando por uma revitalização, mas 70 anos de regras comunistas seculares tiveram sua influência, e a igreja da Rússia não está tendo a mesma força que teve na época czarista [4]. Os membros ortodoxos da Igreja Ortodoxa Russa estão em grande parte inclinados ao nacionalismo político e chauvinismo, mas a maioria dos russos não é ortodoxa e pratica uma forma mais leve e tolerante do Cristianismo Ortodoxo Oriental.
A Igreja Ortodoxa Russa é muito respeitada tanto pelos seguidores quanto por não seguidores, que a veem como um símbolo do patrimônio e da cultura da Rússia. [...] De acordo com uma pesquisa realizada pelo Centro de Pesquisa de Opinião Pública e publicada em 2007, 63% dos entrevistados consideram-se ortodoxos russos, 6% muçulmanos e menos de 1% budista, católico, protestante ou judeu. Porém, as taxas de natalidade na Rússia são muito baixas, exceto nos grupos muçulmanos do Cáucaso, então a porcentagem de muçulmanos na sociedade russa vai aumentar nas próximas décadas [5].
Assim como muitos outros países desenvolvidos, a Rússia está testemunhando uma expansão do Neopaganismo, principalmente nas cidades grandes, como Moscou e São Petesburgo. Os elementos xâmanicos pagãos são associados à mentalidade da Nova Era, à mitologia eslava e as figuras cristãs. O Paganismo Tradicional ainda predomina em áreas siberianas remotas – o termo xamã vem das culturas turco-mongólica e tungúsica, na Sibéria [6].
Os Estados Unidos
O secularismo é muitas vezes explicado como sendo o resultado dos altos níveis de prosperidade, mas os EUA contestam essa afirmação. De acordo com o teólogo e sociólogo norte-americano Peter Berger, a explicação está principalmente no passado. O Iluminismo Europeu foi anticlerical e antirreligioso em sua essência, e o Iluminismo Norte-Americano não. Os intelectuais seculares foram, em todo o caso, muito menos importantes na América. Na Europa, o Iluminismo foi visto como uma libertação da fé, ao passo que nos EUA significava que você tinha a liberdade de seguir a fé de sua escolha.
Um fato crucial que explica o fato de a Europa (Ocidental) secular e a América religiosa terem se distanciado é o desenvolvimento divergente que aconteceu em ambos no século 19. Nos EUA, a dinâmica social foi controlada por todos os tipos de movimento religiosos dissidentes, ao passo que na Europa, o controle ficou nas mãos do movimento trabalhista. Os EUA também eram um país de imigração que recebia muitos refugiados religiosos e onde igrejas exerciam um papel importante de emancipação. Isso significava que a religião era vista de formas bem diferentes nos EUA e na Europa.
De acordo com uma pesquisa realizada pelo Pew Rsearch Center e publicada em 2007, 78,5% dos norte-americanos se consideram cristãos, sendo 51,3% protestantes e 23,9% católicos romanos. O segundo maior grupo é aquele dos “não afiliados”, incluindo agnósticos e ateus, que correspondiam a 16,1% em 2007. A religião nos Estados Unidos não é apenas notável por seu alto nível de aderência se comparada a outros países desenvolvidos, mas também por sua diversidade. Uma das razões é que os imigrantes se atêm ao seu passado religioso e introduzem novas igrejas no país.
Em uma pesquisa de abrangência nacional publicada em 2006, pesquisadores da Universidade de Minnesota descobriram que, apesar da crescente aceitação da diversidade religiosa, havia uma suspeita em relação aos ateus por parte de outros norte-americanos, que os classificavam abaixo dos muçulmanos, recentes imigrantes e outros grupos menores quanto ao “compartilhamento de sua visão sobre a sociedade norte-americana” [7]. Além disso, eles associavam ateus a atributos indesejáveis, como comportamento criminoso, materialismo e elitismo cultural.
Entretanto, o número de norte-americanos que se consideraram não afiliados aumentou de 14,3 milhões em 1990 para 34,2 milhões em 2008, o maior aumento entre todas as “denominações” norte-americanas [8]. Isso não significa necessariamente que os norte-americanos em geral estão ficando menos religiosos; na verdade, os religiosos estão ficando mais ligados às suas crenças. Nos EUA, a mídia e o comércio exercem um papel importante na disseminação de religião e da ética religiosa.
[1] Um curioso exemplo da glocalização da religião são os vários artesanatos do presépio do natal católico, de acordo com a região do globo. Eu recentemente vi um presépio onde os reis magos eram nitidamente andinos, inclusive com roupas de região do Peru.
[2] Há uma espécie de raciocínio “8 ou 80” entre alguns anti-teístas que supõe que qualquer um que não seja filiado há uma igreja, ou que não se declare um “religioso praticante”, seja automaticamente ateu. De certa forma eles têm razão, se considerarmos o ateísmo em sua origem antiga, como uma contestação das doutrinas eclesiásticas oficias... Mas não quer dizer que não creiam mais em Deus, e muito menos que não pratiquem a espiritualidade há seu próprio modo.
Enfim, o Barão de Telve (F.P.) talvez tenha resumido melhor a questão: “Não posso aceitar Jeová, nem a humanidade. Cristo e o progresso são para mim mitos do mesmo mundo. Não creio na Virgem Maria nem na eletricidade.”
[3] Por isso que sempre digo: minha religião é meu pensamento. Para os que consideram isso um egocentrismo, respondo prontamente: Deus é nosso amor. E como poderia ser de outra forma?
[4] Um dos tantos erros graves do comunismo e secularismo conforme praticado na Rússia, como em outros locais do globo, foi pretender eliminar a religião da vida das pessoas, quase como se fosse uma espécie de “ópio para o povo”; Quando ela é muito, muito mais do que uma generalização apressada ad absurdum.
[5] É quase unanimidade entre os pesquisadores da área que o Islã ultrapassará o Cristianismo como um todo em uma ou duas décadas, conforme já ultrapassou o número de católicos no mundo (porém devemos lembrar que o próprio Islã é dividido em vertentes, como os sunitas e xiitas). Como seu crescimento se dá sustentado em altas taxas de natalidade, também será a religião com maior número de jovens do globo (se é que já não é hoje).
[6] O Xamanismo é o exemplo mais antigo da glocalização religiosa no mundo, pois surgiu, sabe-se lá como, em inúmeros pontos do globo, ainda na transição da pré-história para a era atual; Sendo ainda hoje praticado de forma muito parecida por inúmeros povos, primitivos e modernos, em todo o mundo. Claro que, entre os indígenas, o xamã é em realidade o pajé, e assim por diante – mas todos esses termos têm essencialmente o mesmo significado.
[7] Seria tão bom se não houvesse esse deus-barreira se interpondo entre crentes e descrentes. Muito melhor incluir um Deus Cósmico em seu lugar, um Deus que é, sobretudo, amor e conexão. Mas para isso ainda faltará uma “abertura de consciência” mais abrangente no mundo, a glocalização do amor.
[8] Ação e reação, diriam alguns...
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Crédito das imagens: [topo] Andrej Rublev/Corbis (Arcanjo Miguel); [ao longo] Creation Museum (Adão e Eva).
Mais algumas frases e pensamentos que perambularam por minha mente e meu twitter:
"Hoje melhor do que ontém. Amanhã, eu posso esperar. Há tanto para conhecer aqui dentro, lá fora... Meus passos são curtos, eu mal comecei."
"A saudade nunca passa, mas só tem saudade quem realmente vive... A melhor saudade ainda é a saudade do futuro."
"Pior do que amar e perder, é nunca haver sequer amado. Quem ama, e perde, perde muito, mas não perde o amor."
"Que a sina das coisas é se transformar e decompor, mas o amor se tranforma apenas, jamais se decompõe."
"A Terra não gira em torno do Sol. Tudo gira em torno de tudo, inclusive o Sol, os outros sóis e todas as galáxias do Cosmos."
"O Sol nunca deixa de nascer, as núvens ciumentas é que as vezes querem ele todo só para elas. Ainda que mesmo nesses dias, seu calor continue invicto. Não há núvem passageira capaz de impedir sua irradiação."
"Informação é qualquer forma de evento que afeta o estado de um sistema dinâmico. Do latim informare: dar forma a mente. Então reflitamos: a quais espécies de informação nós temos dado forma?"
"Não são bombas nem tratados de paz que mudam o mundo, mas nosso interesse em uns e noutros."
"Não inicie um diálogo dizendo que Deus existe, ou que não existe, mas sim perguntando: o que é Deus para você?"
"É impossível crer na inexistência de um Criador e ser cético ao mesmo tempo."
"Entre o ateísmo e o agnosticismo existe um vão talvez maior do que, por exemplo, o que separa o agnosticismo do panteísmo."
"Não existe drama maior para um espiritualista do que saber que não está a altura do que ele próprio escreve. Mas ficar parado, jamais!"
As bases filosóficas do agnosticismo foram assentadas no séc. XVIII por Kant e Hume. O termo, porém, foi cunhado pelo biólogo britânico Thomas Huxley em 1876 – ele definiu o agnóstico como aquele que acredita que a questão da existência de Deus não pode e talvez jamais possa ser resolvida.
O evangelho do agnóstico
“O Cosmos é tudo que existe, que existiu ou existirá” – Assim, com essa frase inesquecível, Carl Sagan inaugura o primeiro episódio da série de 13 documentários intitulada "Cosmos", veiculados na TV americana em 1980, e depois no restante do mundo. Ao pretender explicar ciência e cosmologia para o público leigo, Sagan acabou criando um épico que abrange também muitas questões existenciais, história, mitologia, religião e espiritualidade em geral.
Em alguma costa rochosa, em alguma praia do globo, Sagan observa as ondas, os pássaros, o vento, e algum tempo depois nos traz outra pérola em sua narrativa: “Recentemente, aventuramo-nos um pouco pelo raso (do Cosmos), talvez com água a cobrir-nos o tornozelo, e essa água nos pareceu convidativa. Alguma parte de nosso ser nos diz que essa é a nossa origem. Desejamos muito retornar, e podemos fazê-lo, pois o Cosmos também está dentro de nós. Somos feitos de matéria estelar, somos uma forma do próprio Cosmos conhecer a si mesmo.”
Sagan era profundo conhecedor de religiões e mitologia, além de cientista e cético, mas não era nem ateu nem teísta ou deísta, era puramente agnóstico. Seu evangelho era constituído de uma obra de divulgação científica totalmente voltada para tal espanto, tal deslumbramento, tal amor pela natureza e todo o Cosmos a sua volta. Essa era a boa notícia de Carl...
Para muitos teístas, o fato de existirem pessoas que não creem em um Deus pessoal, ou que pelo menos não tem certeza de sua existência, parece causar um certo desconforto. Não é raro perceber, em qualquer pessoa ligada a doutrinas eclesiásticas, uma tendência a classificar ateus, agnósticos, céticos, e às vezes simplesmente todo e qualquer cientista, como “gente sem fé”, perdida, afastada de Deus, e até mesmo imoral.
Mas a verdade é que, a despeito do aparente consenso dos eclesiásticos, a moralidade, o amor, não são exclusividade daqueles que oram todos os dias a Deus, que frequentam missas, que consultam algum manual da Verdade Absoluta frequentemente. Para o religioso superficial, isto que digo não levanta muitas questões – “Ora, mas é exatamente assim: uns são bons, outros maus, crer em Deus não faz de ninguém um santo”. Sim, isso faz sentido, mas a questão é mais profunda...
Se Deus existe – e para teístas e deístas ele certamente existe –, porque ele “permite” que algumas de suas criaturas vivam sem sequer crer nele?
Em outro produto da obra de Sagan, o livro de ficção “Contato”, que também deu origem a um excelente filme homônimo, é descrito um contato com inteligências extra-terrestres de uma forma verossímel e científica. Existe também um conflito entre as crenças de cientistas e religiosos – em dado momento, a protagonista do primeiro contato (no livro são vários contatos ao longo das décadas, no filme há apenas um), uma cientista agnóstica, nos traz uma importante indagação:
“Se Deus quisesse nos mandar uma mensagem e escrituras antigas fossem a única forma que pudesse imaginar, ele poderia ter feito um trabalho melhor. E ele dificilmente teria que se confinar a escrituras. Por que não há um monstruoso crucifixo orbitando a Terra? Por que a superfície da Lua não é coberta com os Dez Mandamentos? Por que Deus deveria ser tão claro na Bíblia e tão obscuro no mundo?”
Ao contrário do que muitos eclesiásticos possam imaginar, esta mensagem não denota um pensamento que diminua de alguma forma a importância da Bíblia, mas antes um pensamento que aumenta enormemente a amplitude do que há de sagrado no mundo – o reino é todo o Cosmos. E não poderia ser de outra forma...
Podemos encontrar neste mundo ateus, agnósticos, teístas e deístas, sim isso tudo é verdade. Mas será muito difícil encontrar algum ser que negue a existência de um sistema que rege todo o universo. Seja a crença nas leis fundamentais da natureza, seja a crença nos desígnios divinos, seja um misto de ambos, todos creem em algum sistema, cuja função pode ainda ser um mistério – mas que há de ser buscado, há de ser resolvido passo a passo, por todos nós, juntos!
Sim, nós realmente somos a forma do Cosmos conhecer a si mesmo. E pouco importa, na prática, se tal Cosmos é um ser pessoal, uma força cósmica ou até mesmo um acaso miraculoso – pois no fim, conforme postularam Kant e Hume, não compreendemos ainda muito bem nenhum deles, não podemos ainda resolver tal questão. Será que poderemos um dia?
Para resolvê-la, talvez não bastem apenas orações e experiências místicas, apenas meditação e autoconhecimento, mas também o estudo meticuloso, prático, objetivo, material, profundamente mundano, da natureza a nossa volta. Há muitos gigantes da história da ciência que, buscando talvez um deus barbudo senhor dos exércitos, acabou esbarrando em verdades muito mais profundas. Talvez buscando um reino confinado a um pequeno pedaço de rocha na periferia da uma de bilhões de galáxias, acabou esbarrando no infinito.
E, se mesmo hoje existem seres que buscam aos mistérios de Deus sem sequer crer nele, que se aventuram pelas entranhas dos átomos e quarks, pelo reino bizarro da mecânica quântica, pelos códigos ocultos do DNA, pelos quasares e sóis distantes, pelas singularidades de seções inimagináveis do espaço-tempo, deixem que busquem, pois de uma coisa teremos sempre a certeza: é impossível estar “fora” de Deus.
Talvez o trabalho deles seja tão importante para o mundo quanto os mandamentos dos evangelhos. O importante é encarar as boas novas não como enigmas solucionados, mas como o início de um caminho, subjetivo e objetivo, interior e exterior, que preenche toda nossa existência.
Amai sim, o próximo, e toda a vida, como a ti mesmo. Mas amai a coletividade da vida, amai os átomos que nos conectam a tudo e a todos em uma teia sem fim, amai ao Cosmos acima de todas as coisas.
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Crédito das imagens: Divulgação (Cosmos de Carl Sagan).