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8.7.19

4 Amores: Filia

Neste vídeo continuamos nossa jornada pelo Amor, desta vez falando de Filia, o amor que se traduz em amizade. Para tal, vamos conhecer a história do professor Leo Busgaglia, que em 1969 criou um curso numa universidade americana que falava basicamente de... Amor! Após lecionar por anos sobre o tema, e estudar a obra de centenas de autores, Buscaglia resumiu tudo em 7 princípios básicos que devem estar na mente de todos aqueles que buscam abastecer a sua alma, e não somente o seu intelecto.

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


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2.3.18

O Jardim de Epicuro

Há cerca de 2.300 anos caminhou sobre a antiga Grécia um pensador que alçou a felicidade ao centro da sua filosofia, e que segue em boa parte incompreendido até os dias atuais.

Epicuro nasceu em 341 a.C. na ilha de Samos, onde passou a infância e a juventude, tendo aprendido a filosofia platônica através do acadêmico Pânfilo. Com cerca de 18 anos, vai morar em Atenas, cidade natal de seu pai, a fim de cumprir os dois anos do treinamento militar obrigatório. Durante seu breve tempo de soldado, se torna amigo do futuro dramaturgo Menandro.

Tendo se mantido em Atenas, numa época em que tanto a Academia de Platão quanto o Liceu de Aristóteles ainda funcionavam em pleno vapor, encontrou oportunidade para continuar seus estudos. Após haver sido forçado a ir se juntar aos pais e outros colonos atenienses que haviam sido expulsos de Samos pelo sucessor de Alexandre Magno, vive por alguns anos na cidade de Colófon, na costa asiática.

Depois perambula por várias regiões da Grécia, quando já está colocando em prática a sua filosofia, e conquista pelo caminho diversos seguidores igualmente filósofos, como Pítocles, Heródoto e Meneceu, que o acompanham pelo resto da vida.

Em 306 a.C., finalmente regressa a Atenas, onde adquire uma ampla casa com um grande jardim, lá fundando a sua famosa escola, reconhecida pelos séculos como “O Jardim de Epicuro”. Tal escola, no entanto, era muito diferente da Academia ou do Liceu: nela, tanto mestres quanto discípulos costumavam conviver juntos a maior parte do tempo, não somente nas aulas de filosofia em si, mas também nos almoços e lanches, nas conversas e brincadeiras, e por vezes até mesmo na cama.

A doutrina de Epicuro, conhecida também como epicurismo, era basicamente centrada na importância do prazer e da felicidade no cotidiano da vida:

O prazer é o princípio e o fim da vida feliz. O homem que alega não estar ainda preparado para a filosofia ou afirma que a hora de filosofar ainda não chegou ou já passou se assemelha ao que diz que é jovem ou velho demais para ser feliz.

Obviamente, Epicuro foi tanto exaltado quanto apedrejado ao longo dos séculos, justamente pelo foco central que a felicidade tinha em sua filosofia. Mas, será que tanto os que o exaltaram quanto os que o demonizaram entenderam exatamente de que tipo de felicidade o pensador grego falava?

Epicuro considerava que a felicidade era sustentada em três pilares principais (desde que uma pessoa tivesse acesso aos bens mínimos para uma existência sadia, como moradia, alimentação e roupas):

A amizade
Quando fundou o seu Jardim em Atenas, Epicuro já convivia com um grupo inseparável de amigos, incluindo aí suas irmãs e esposas, embora não esteja tão claro se as mulheres participavam plenamente dos estudos filosóficos (algo já extremamente heterodoxo para a vida grega de então). Convivendo a maior parte das horas do dia ao lado de seus amigos e discípulos, Epicuro colocou em prática a parte mais essencial da sua filosofia:

De todas as coisas que nos oferecem a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é a aquisição da amizade. Antes de comer ou beber qualquer coisa, reflita com mais atenção sobre sua companhia do que sobre o alimento em si, pois que alimentar-se sem a companhia de um amigo é o mesmo que viver como um leão ou um lobo.

A liberdade
Epicuro e seus amigos fizeram uma segunda inovação radical. Para que não precisassem trabalhar para pessoas de quem não gostavam ou se submeter aos seus caprichos, se afastaram do mundo comercial ateniense e formaram o que poderia ser hoje descrito como uma comunidade autossustentável, cultivando seus próprios alimentos e abraçando um modo de vida mais simples, em troca de sua quase total independência financeira do resto da cidade.

Assim, como nenhum de seus amigos tampouco se envolveu com os negócios ou a política ateniense, não havia entre eles nenhum senso de status, nenhuma necessidade real de exibir posses nem conquistas materiais ou políticas.

A reflexão
Tais epicuristas talvez tenham formado a primeira comunidade hippie do mundo, mas é preciso lembrar que eles se dedicavam a filosofia todos os dias, que a sua felicidade era também algo sempre em construção.

Todos os frequentadores do Jardim eram encorajados a refletir. Muitos de seus amigos eram escritores. Segundo Diógenes Laércio, somente Metrodoro, por exemplo, teria escrito doze obras, entre elas: Sobre o caminho que conduz à sabedoria. Todas se perderam, infelizmente, juntamente com a quase totalidade dos cerca de 300 livros atribuídos exclusivamente ao próprio Epicuro (algumas poucas cartas nos restaram, como a famosa Carta sobre a felicidade, a Meneceu).

São famosas as reflexões epicuristas acerca dos deuses e da morte, por exemplo. Da morte, disse Epicuro na Carta a Meneceu:

Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; e, ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui.

Quanto aos deuses, ele acreditava que eles viviam noutro mundo, onde desfrutavam da felicidade divina, e que pouco se interessavam pelo nosso. Não caberia aos homens, portanto, temer ou se angustiar com os desígnios divinos, mas tão somente tê-los como modelos de bem-aventurança, modelos para o auxílio da busca do homem pelo estado de felicidade, e não como motivo para angústias inúteis. Neste sentido, Epicuro se aproximava dos atomistas, e chegou muito perto do que hoje é compreendido como agnosticismo teísta.

Afinal, Epicuro foi hedonista?
Embora muitas vezes pareça que Epicuro buscava o prazer a qualquer custo, a realidade estava bem distante disso. Os epicuristas na verdade buscavam um estado de espírito definido como Ataraxia. Neste estado, nos encontramos sem inquietações ou preocupações, e nosso ânimo em geral estará sempre equilibrado.

Epicuro acreditava sim na felicidade que adivinha de se estar com amigos na mesa, mas não precisava ser num banquete. De fato, o mero consumo de queijo, para os epicuristas do Jardim, era algo para ser celebrado somente de tempos em tempos. Ter queijo à mesa, portanto, já era considerado um luxo. O mesmo se estende para todo o resto dos chamados “bens materiais”:

Com relação aos desejos, alguns são naturais e necessários; outros são naturais e desnecessários. E há aqueles que não são nem naturais nem necessários.

O que é natural e necessário para a felicidade:
Casa, comida e roupa; Amigos; Liberdade; Reflexão filosófica.

O que é natural, mas desnecessário para a felicidade:
Palacete; Terma privada; Banquetes; Empregados; Peixe e carne.

O que não é nem natural nem necessário para a felicidade:
Fama; Poder político; Status.

Seguindo a essência dos ensinamentos de Epicuro, podemos imaginar nossa felicidade como um copo onde é necessário haver alguma água, talvez até pouco menos da metade, para que tenhamos alguma felicidade. Esta água corresponde a termos moradia, alimentação adequada, e algumas roupas para o convívio social básico. Dali em diante, podemos aumentar nossa felicidade na medida em que enchemos o copo com alguns luxos a mais, como uma alimentação mais elaborada, uma casa mais espaçosa e bem decorada etc. O que Epicuro nos afirma, no entanto, é que de nada adianta continuarmos enchendo o copo: a água vai simplesmente transbordar, e a nossa felicidade continuará inalterada.

Assim, se associarmos a água deste copo às nossas riquezas materiais, nós veremos que a partir de certo limite, um limite bem menor do que costumamos imaginar, o mero acúmulo de dinheiro não nos garantirá mais felicidade alguma...

Se quisermos realmente ser felizes, é bom que saibamos que há algo que vale muito mais do que o dinheiro, algo que é realmente capaz de nos preencher de entusiasmo e alegria perenes: o amor – seguido da liberdade e da reflexão.

***

Bibliografia
Carta sobre a felicidade, a Meneceu, Epicuro (UNESP); As consolações da filosofia, Alain de Botton (Rocco); Epicuro e a felicidade, documentário de Alain de Botton para a BBC.

Vídeo
Este artigo serviu de base para o roteiro do vídeo O Jardim de Epicuro - A Felicidade no canal Conhecimentos da Humanidade do YouTube.

Crédito das imagens: [topo] Antal Strohmayer, O Jardim dos filósofos (1834); [ao longo] raph; Google Image Search.

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6.5.13

Ainda é cedo

Noutro dia fui ver Somos tão jovens, filme que conta a trajetória musical inicial de Renato Russo e retrata com certa competência o estado espiritual de sua juventude em Brasília. O filme propositadamente se encerra antes de ter de falar das fases mais tristes de sua vida, e portanto deveria ser apenas mais um fim de tarde agradável no cinema... E era, até o finalzinho do filme, quando Renato canta Ainda é cedo. Apesar de ser uma cena de certo teor emocional, não parecia justificar o fato de eu haver chorado em pequenas cascatas ao longo de boa parte da música. Havia algo a mais que eu não havia identificado ainda... Algo que parecia estar mais profundo dentro de mim.

Eu gosto muito de fingir que este blog é impessoal – e tenho certeza que há muitos que acreditam. Mas, na prática, nunca foi, é apenas fingimento mesmo.

Não sei se estavam por aqui em 2006, quando ele começou, mas alguns de vocês devem saber que eu comecei este blog em homenagem a uma amiga. O nome dela é Flávia Lopes, e ela é poetisa.

Se hoje mesmo eu ainda conto nos dedos os poetas que conheço pessoalmente, antes de haver o blog e a própria massificação do acesso a internet no país, eu conhecia somente ela. E quem é poeta sabe: você pode ter pais, familiares, amigos próximos, mas somente outro poeta poderá entender de certos assuntos existenciais. Somente um poeta pode servir a uma certa carência de todo poeta, que é poder se comunicar com os outros sem as palavras, essas cascas de sentimento...

Eu me comunicava com ela sem as palavras. À noite, no telhado do seu prédio na Tijuca (no Rio de Janeiro; ela morava numa cobertura de um prédio antigo de onde dava para passear no telhado), contemplávamos tanto as estrelas quanto os gatos e transeuntes das calçadas – tudo nos interessava, mas nada precisava realmente ser dito.

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo [1]

***

Flávia era grande fã de Renato Russo e sua trupe, eu só fui virar fã de verdade anos depois de sua morte. Então é isto que o tempo me fez: começar este blog, e virar fã da Legião Urbana; e ambos são fruto direto do tempo que já não há: o tempo de visitar minha amiga, seja a noite ou de dia.

Dizem que inventamos essas histórias de vida após a morte para suportar a dor da perda de alguém querido, mas me custa identificar onde exatamente isto nos ajuda, se não podemos realmente visitar quem lá está, e retornar, exatamente como eu fazia quando passava pela Tijuca. A Tijuca onde minha amiga mora está hoje inacessível para mim...

Se eu creio que ela ainda existe? Claro que sim, mas isto não me serve exatamente de conforto. Não é isto o que me conforta, se querem saber.

Não me conforta, pois não sei o que ela anda lendo, nem quais gatos ela cria hoje, nem mesmo que tipo de videogame ela anda jogando do outro lado do véu. Serão games mais modernos, ou aqueles clássicos que jogávamos na sua casa? Isto que eu não sei!

A questão não é, portanto, se ela ainda se lembrará do meu nome quando me encontrar noutro canto do Cosmos. A questão é que ela será muito diferente, e eu também, pois estamos sempre mudando, sempre morrendo e renascendo. E terá passado muito tempo, então quem seremos nós um para o outro?

Seremos ainda poetas? Talvez... O que me conforta é saber que pelo menos o time de futebol ela irá manter. Então, como nossa única briga foi por causa de futebol (e prometemos nunca mais brigar por causa disso), eu espero poder encontrar com ela para pode instigá-la e brigarmos outra vez (e quebrar a promessa): “E o seu time hein? Meia vida depois, ainda sempre vice!”.

De resto, o que sobra? Só a saudade, e palavras escritas em sangue...

Ela fazia muitos planos
Eu só queria estar ali
Sempre ao lado dela

Sei que ela terminou
O que eu não comecei
E o que ela descobriu
Eu aprendi também, eu sei

E eu dizia: - Ainda é cedo
cedo, cedo, cedo, cedo... [2]

***

Eu não me importo em ocultar que muito da minha poesia é escrito com sangue:

Já se perguntou, amiga, o que aqui fazemos?
Nesse telhado, de frente para o luar,
E os espaços infinitos entre as estrelas,
E os espaços finitos entre todos nós...
Já se perguntou, alguma vez,
O que será que estamos a observar?

(...) Será que existe o telhado?
Será que existe essa conversa?
Será que existem gatos a pular?
Ou, antes de tudo isso,
Existem amigos, e amizades,
Existem seres conscientes de si,
E consciências etéreas, esvoaçantes...
Indetectáveis senão pelo amor, e pela dor,
De observar ao mais belo luar
Sem ter minha amiga para conversar? [3]

Na poesia, mesmo as cascas de sentimento parecem conseguir trazer algum resquício metafísico do sentimento, da sensação, da intuição, do amor e da alma do mundo... Ou pelo menos foi tudo isto que aprendi com minha amiga.

No filme de Renato, a personagem que é sua melhor amiga, e para quem ele supostamente compõe Ainda é cedo, se trata na realidade de um amálgama das três melhores amigas da sua juventude. Além de tudo, ela ainda está lá, ela reaparece.

No meu caso, será um pouco mais complicado. Por isso chorei daquela maneira no cinema, hoje sei. E por isso continuarei chorando sempre que calhar de relembrar minha amiga, hoje também sei. Mas ainda que seja tão dolorido tudo isso, há um alento, uma consolação, que não tem absolutamente nada a ver com vida após a morte...

Tem a ver com esta vida, que necessita ser vivida intensamente, como se não houvesse o amanhã que na verdade não há. Conforme os estoicos diziam: é preciso viver atento ao chamado do Barqueiro. Isto que vivemos aqui é somente a aventura de um náufrago em meio ao Oceano. É preciso estar atento, pois o Barco ainda irá velejar para muitas outras ilhas, e cruzar com muitos outros faróis a iluminar a neblina espessa. E não somos somente nós a navegar: cada um está a seguir o seu caminho!

Se ainda sofro com a ferida aberta da saudade? Sofro, e choro, e sangro!

Mas é melhor amar e perder que nunca haver sequer amado. É melhor ter uma poetisa somente na memória do que não a ter em canto algum, por antes nunca a haver conhecido... E que privilégio, que privilégio foi a ter conhecido!

De resto, o que sobra? Apenas a selvageria e a compaixão...

Depois de ter-lhe revelado tanto,
O que eu tenho,
Para minha causa?
Para meus prantos?
O que eu toquei,
O que eu senti?
Entre suas muitas faces?
Escondidas dentre mil mentiras?

(...) Depois de procurar todo esse tempo,
O que eu chorei,
O que eu quebrei?
A não ser meu ser incomodado,
A não ser minhas marés de vaidade?
Envoltas por poemas e livros,
Dentre selvageria e compaixão. [4]

***

Outra coisa que passa pela minha mente de vez em quando é uma pergunta estúpida: “Se eu pudesse trocar todo este blog, e tudo o que consegui com ele, pela vida de minha amiga, eu trocaria?”.

Sim, é uma pergunta estúpida e os estoicos também já sabiam disso: há coisas que nos cabe decidir, e há outras, muitas outras, que estão além da nossa capacidade de escolha...

Esta pergunta não tem resposta, pois a Natureza é simplesmente como é, e o tempo, passado ou futuro ou eterno, é apenas este momento e o que fazemos dele...

E eu sei meu amor, que disciplina é liberdade, e compaixão é fortaleza, e ter bondade é ter coragem, e também sei que lá em casa há um poço de águas tão límpidas e cristalinas. Mas, ainda assim, eu trocaria... Se pudesse, trocaria, e nem pensaria muito sobre o assunto.

Como ti, amiga, continuarei buscando. Continuarei buscando... Afinal, ainda é cedo...

Busco um canto
em que todas as crenças,
se consumam,
e todas as raças
se despatriotizem,
e todas as doenças
se extinguam,
e todos os  braços
se encontrem.

Busco um canto
em que a paz
se solidifique,
em que os sábios
não se corrompam,
e que as luzes
jamais apaguem.

Busco um canto
em que toda humanidade
em uníssono,
acompanhe,
e que a melodia,
atravesse séculos
de progressos e sangue,
e nos traga de volta
o dom da eternidade. [5]


Sou poeta e cronista - o lirismo é a amálgama destes dedos, confronta a vicissitude de meus passos. Conheci, desde a infância, o poder incutido na alma das palavras, como moldá-las, seduzindo cada frase, ora liberta e sem destino, repentina, ora trabalhada. Se me privassem de tal dom, necessidade ou vício, decerto enlouqueceria... (Flávia Lopes)  

***

[1] Tempo perdido (trecho), Legião Urbana.

[2] Ainda é cedo (trecho), Legião Urbana.

[3] A conversa (que não houve) (trecho), Rafael Arrais.

[4] Poema sem título (trecho), Flávia Lopes.

[5] Eternidade (trecho), Flávia Lopes.

Um conto por raph’13

***

Crédito das imagens: [topo] Divulgação (Somos tão jovens); [ao longo] Flávio (o último namorado dela, e também meu amigo).

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5.12.12

A idade do ser, parte 2

« continuando da parte 1

"A pior das loucuras é, sem dúvida, pretender ser sensato num mundo de doidos." (Erasmo de Rotterdam)

A ilha errante de Azeroth

Aos 19 anos, estava terminando a faculdade, gostava de assistir basquete americano na TV, e jogar Role Playing Games [1] na casa de amigos até a alta madrugada. Teve uma ou outra paixão, mas naquele ano não conseguiu engatar um namoro duradouro. “Que bom, assim não preciso faltar o RPG” – pensou, mas a verdade é que sangrava por dentro (da alma).

15 anos depois, aos 34, estava casado, morando noutra cidade, e trabalhando com algo que não tinha muito a ver com a faculdade que fez, embora gostasse mesmo assim. Ainda jogava basquete, e voltou a acompanhar o campeonato americano assim que seu time conseguiu retornar aos playoffs finais após quase uma década de vacas magras. As paixões antigas viraram amizades duradouras (quando foi possível).

Não podia mais jogar RPG na casa dos amigos, mas passou muitos anos jogando num mundo virtual, com milhares de outros jogadores do mundo todo, alguns deles seus amigos da “vida real”. E, dessa forma, ainda era o mesmo de antes, poderia pensar: ainda arremessava bolas ao cesto nas tardes de sábado, e ainda poderia jogar RPG com os amigos no mundo de Warcraft [2], caso assim desejassem... Tudo era exatamente como antes, a mesma vidinha de sempre. Será?

Muitas vezes reencontramos paixões antigas, ex-namoradas ou ex-namorados, antigas amizades da época de colégio, e alguma coisa dentro de nossa alma percebe: mudou, o mundo mudou, os convívios e amizades mudaram, a personalidade mudou, a alma mudou... Pretendemos, em nossa inocência no paraíso ilusório que criamos para nós mesmos, sermos sempre os mesmos, imortais, ancorados no que já somos. “Não mudarei!” – brada alguém em nossa alma: “Serei sempre eu mesmo, com estes mesmos defeitos, estas mesmas qualidades, estes mesmos amigos, estas mesmas crenças e descrenças!”.

No entanto, conforme já disse um sábio antigo: tudo vibra, tudo tem seu ritmo, nada está parado. A maior parte das células de nosso corpo não tem mais do que uma década de idade. Ao longo da vida, todas as células que nos formavam ao nascermos terão morrido, e sido substituídas... O que permanece? Um fluxo, um teatro mental, uma encenação cerebral? E, ainda assim, quem nos garante que este teatro têm nos apresentado a mesma peça, a exata mesma peça, de 15 anos atrás? Quem nos garante que as máscaras que usávamos então, ainda são as mesmas?

Muitas vezes o folião não percebe como suas máscaras têm mudado, carnaval a carnaval... E não é preciso se converter a Nosso Senhor Jesus Cristo ou a Nosso Doutor Richard Dawkins para efetivamente mudarmos. Para mudar, basta viver!

Da mesma forma que cada novo dia recebe fótons inteiramente novos do sol matinal, em nosso cérebro algumas células estão morrendo, e outras nascendo. Em nossa personalidade, ideias, símbolos, crenças, informações, pensamentos, estão em constante mutação e afloramento. Não as represemos! É de nossa natureza mudar, e todo questionamento é divino... Foi da dúvida, e não do dogma ou da certeza infalível, que surgiram à religião, a filosofia, a ciência, a arte e a mitologia. Foi para reencenar este turbilhão de ideias internas, quem sabe, que Deus nos deu a imaginação. Mas então, para que tudo isso? Para que imaginar, ou vivenciar, todos esses bailes sem fim?

***

Na primeira vez que adentrou Azeroth, o mundo de RPG virtual, veio a convite de seus amigos em sua cidade natal. Nasceu novamente como humano, mas um humano feito de pixels, que habitava a capital Stormwind, e soltava raios de gelo pelas mãos! Ganhou muita experiência e níveis de poder ao se agrupar com seus amigos virtuais, e enfrentar a horda inimiga, seus orcs e trolls, ao longo de toda a Azeroth. Quando chegou ao nível máximo, adentrou Molten Core e matou o Demônio em pessoa (ou pixels), ganhando poderosos tesouros... Mas depois, com o tempo e as repetições, após matar o Demônio pela 42º vez, enjoou.

Voltou ao “mundo real”, e só se lembrava de suas aventuras em Azeroth num ou noutro sonho... Mas então, o mundo de Warcraft se expandiu, e agora seus amigos lhe chamavam para renascer novamente neste baile de pixels. Entretanto, ele estava relutante: “Não vai dar, fazem muitos anos que parei, eu mal lembro como era o jogo, e as regras mudaram muito, vou ter de subir de nível com um outro personagem, tudo de novo”.

Ao que seu amigo respondeu: “E eu também. Mas quem disse que jogamos este jogo para estarmos sempre no nível máximo, e sempre com os mesmos personagens? Jogamos porque somos amigos, e gostamos de nos aventurar juntos, ora bolas!”.

Estranho de se pensar, seu amigo tinha toda razão... Desta vez, criou um monge panda [3] que nasceu numa ilha formada no casco de uma gigantesca tartaruga, a navegar por Azeroth. Depois escolheu defender a horda, e fez muitos amigos entre os orcs e trolls que, da outra vez, eram seus inimigos mortais. Uma nova vida, uma nova encenação, uma nova personalidade virtual – não importa, o importante é que estava ali para se divertir com os amigos, reais ou virtuais [4].

Assim também é este dito “mundo real”, e se aqui não podemos soltar bolas de fogo ou voar nas costas de dragões, podemos ainda imaginar tudo isto, pois que tudo, no fim do dia, surgiu da imaginação. Em nossa mente, nada nos impede de nos reunirmos com aqueles que amamos, ainda que seja no casco de uma tartaruga gigante, numa ilha errante.

Vivemos nesta idade humana, nesta humanidade, que por vezes nos acusa de sermos loucos por imaginarmos que, nalgum dia, adentramos masmorras obscuras dentro de nós mesmos, e por lá enfrentamos terríveis dragões, e conquistamos tesouros fantásticos. Se lhe acusam de tudo isto, não faz mal, minta para eles: “Sou são, e não comungo com tais loucuras”.

Porém, entre seus amigos, entre todos os iniciados, continue batalhando para que sua loucura seja feita de luz. Cada vez mais luz...

» Em seguida, alienígenas entre nós...

***

[1] Jogo de interpretação de personagens, criado por Gary Gygax e Dave Arneson no século passado, a partir de jogos de tabuleiro com miniaturas.

[2] World of Warcraft, ambientado no mundo imaginário de Azeroth, foi o primeiro RPG online a alcançar a marca de 10 milhões de assinantes mensais no mundo, e até hoje domina boa parte deste mercado.

[3] Aos iniciados: um pandaren, nova raça da expansão Mists of Pandaria.

[4] Boa parte disto é uma narrativa fictícia, se eu realmente estivesse voltando a jogar World of Warcraft, este blog estaria seriamente ameaçado :)

Crédito das imagens: [topo] Elmore; [ao longo] Divulgação (World of Warcraft: Mists of Pandaria)

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26.11.12

Uma visita a Zygmunt Bauman

Em Julho de 2011, uma equipe do Café Filosófico (TV Cultura) foi recebida pelo professor Zygmunt Bauman, em sua casa, na cidade de Leeds, Inglaterra. Previsto para durar aproximadamente sessenta minutos, o encontro se alongou por cerca de três horas. Bauman revelou-se uma pessoa de extrema simpatia e cordialidade com a equipe que virtualmente “invadiu” sua casa naquela tarde de verão inglês com câmeras de cinema, gravadores de som e equipamentos profissionais de iluminação.

Bauman os recebeu em um ambiente familiar despojado, marcado por imagens de sua esposa Janina Bauman, de seus filhos e netos e de muitos livros em variados idiomas. Foi uma longa conversa que tratou de expectativas para o século XXI, internet, a necessidade de construção de políticas globais, a construção de uma nova definição de democracia, e finalmente, a necessidade da constante elaboração e reelaboração de nossas identidades sociais em uma era de modernidade líquida...

Trecho em destaque: Os 500 amigos do Facebook
Um viciado do Facebook gabou-se para mim de que havia feito 500 amigos em um dia. Minha resposta foi que eu vivi por 86 anos, mas não tenho 500 amigos. Eu não consegui isso. Então, provavelmente, quando ele diz "amigo", e eu digo "amigo", não queremos dizer a mesma coisa. São coisas diferentes.

Quando eu era jovem, um nunca tive o conceito de "redes". Eu tinha o conceito de laços humanos, de comunidades, esse tipo de coisa, mas não redes. Qual é a diferença entre comunidade e rede? A comunidade precede você. Você nasce numa comunidade. Por outro lado, temos a rede. O que é uma rede? Ao contrário da comunidade, a rede é feita e mantida viva por duas atividades diferentes. Uma é conectar e a outra é desconectar.

E eu acho que a atratividade do novo tipo de amizade, o tipo de amizade do Facebook, como eu a chamo, está exatamente aí. Que é tão fácil de desconectar. É fácil conectar, fazer amigos. Mas o maior atrativo é a facilidade de se desconectar. Imagine que o que você tem não são amigos online, conexões online, compartilhamento online, mas conexões off-line, conexões de verdade, face a face, corpo a corpo, olho no olho.

Então, romper relações é sempre um evento muito traumático. Você tem que encontrar desculpas, você tem que explicar, você tem que mentir com frequência e, mesmo assim, você não se sente seguro porque seu parceiro diz que você não tem direitos, que você é um porco, etc. É difícil, mas na internet é tão fácil, você só pressiona delete e pronto.

Em vez de 500 amigos, você terá 499, mas isso será apenas temporário, porque amanhã você terá outros 500... E isso mina os laços humanos.

Os laços humanos são uma mistura de benção e maldição. Benção, porque é realmente muito prazeroso, muito satisfatório, ter outro parceiro em quem confiar e fazer algo por ele ou ela. É um tipo de experiência indisponível para a amizade no Facebook; então, é uma benção. E eu acho que muitos jovens não tem nem mesmo consciência do que eles realmente perderam, porque eles nunca vivenciaram esse tipo de situação.

Por outro lado, há a maldição, pois quando você entra no laço, você espera ficar lá para sempre. Você jura, você faz um juramento: até que a morte nos separe, para sempre. O que isso significa? Significa que você empenha o seu futuro. Talvez amanhã, ou no mês que vem, haja novas oportunidades. Agora, você não consegue prevê-las. E você não será capaz de pegar essas oportunidades, porque você ficará preso aos seus antigos compromissos, às suas antigas obrigações.

Então, é uma situação muito ambivalente. E, consequentemente, um fenômeno curioso dessa pessoa solitária numa multidão de solitários. Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo.


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12.11.12

O voo da arara

Alguns sonhos parecem como que deslocados no tempo... E algumas vidas, também...

Era uma vida cheia de trabalho nos portos, e cheia de contemplação no mar. Cuidava de um grande barco de uma companhia espanhola, saia de Málaga e perambulava pelo Mediterrâneo, algumas vezes alcançando a Turquia, antes de retornar. Seu barco estava quase sempre estocado de alimentos ou moedas, mas pouquíssimos livros – se conseguisse ler durante os solavancos das ondas sem enjoar, já teria terminado toda a obra de Platão.

Mas o que mais fazia era sentar na proa, nas horas vagas, e contemplar... Todo aquele mar, a separar civilizações tão antigas, lhe transmitia imensa paz. Sentia-se triste por ver tão pouco os filhos e a mulher em Málaga, mas prometera a si mesmo que iria se aposentar alguns anos antes, para que pudesse conviver ao menos com sua filha caçula, a sétima, a primeira mulher.

Ainda assim, os sonhos sempre lhe atormentavam. Eram como uma lembrança antiga, de grandes batalhas entoadas em nome de Deus, mas que mais pareciam um açougue no Inferno. Seria ele mesmo um desses cruzados que foram derramar sangue árabe muito longe de casa? Como poderia ser, se desde que se entendia por gente havia sido um legítimo espanhol? Se nunca havia pego uma espada, mas apenas o leme de um barco? O que seriam afinal tais sonhos, se perguntava enquanto contemplava o sol se pôr por detrás de Creta.

Naquela noite sonhou um sonho bem diferente. Ouviu centenas de piares de pássaros e, ao subir na proa, viu que se tratava de pequenos pássaros azuis rechonchudos, de uma espécie que nunca havia visto antes. Alguns deles seguravam com as patas, em conjunto, um livro estranho. Ao abri-lo, viu que se tratava de uma coleção de pinturas de rostos e bustos, muito familiares por sinal... De alguma forma, neste sonho, soube que se tratava dele mesmo, em outras épocas. Antes da sua própria imagem em Málaga, vinha o guerreiro cruzado; mas se interessou mais pela imagem à direita e, quando olhou para ela, desmaiou.

Despertou numa imensa carruagem de vários cômodos que estava, por alguma estranhíssima magia, a correr por debaixo da terra... Surpreendentemente, achou aquilo tudo normal, e desceu com os outros quando a carruagem parou. Todos tinham vestes estranhas, e embora parecessem arrumados para alguma grande ocasião, nenhum homem usava peruca... Deu de ombros e os seguiu pelo que pareceram escadarias de um imenso templo subterrâneo. Ao chegar no alto, olhou para o portal que dizia: “Ave Paulista”. Seria um imperador romano desconhecido?

Estava num imenso pavimento onde carruagens estranhas, grandes e pequenas, rápidas e barulhentas, se moviam para cá e para lá. E, na via em que estava, todas as pessoas também se moviam, para cá e para lá... Achou aquilo tudo tão cômico que mal reparou nas grandes torres que cercavam a paisagem e, de tão altas, impediam que visse o sol. “Será que estou no céu? Mas as pessoas aqui parecem tão atarefadas, e não vejo nenhum pomar”, pensou consigo mesmo.

Decidiu seguir duas meninas que passavam por perto, pois elas pareciam menos atarefadas. Conseguia ouvir seus pensamentos antes das palavras familiares que pronunciavam, mas que não conseguia entender inteiramente – parecia espanhol ou português, e ao mesmo tempo nem tanto... Mesmo assim, entre um e outro pensamento, percebeu que falavam de sexo e afins. Isto não era estranho, estanho era o fato de ambas falarem em ter relações com homens e com mulheres! “Estranho, se me lembro bem, o padre disse que esse tipo de gente não estaria no céu”...

Seguiu-as até a entrada de uma imensa biblioteca. Nunca havia visto tantos livros juntos, nem com tantas cores diferentes. Procurou por “Filosofia” e achou as obras de Platão que ainda não havia lido. Decididamente estavam escritas em português, mas pegou de uma, Fedro, e começou a tentar ler. Foi então que viu: um imenso pássaro de penas vermelhas e bico encurvado, belíssimo, empoleirado no alto da estante ao seu lado. Era um pássaro falante ou, pelo menos, pensante:

“Crá! Crá! O que está fazendo aqui, meu rapaz? Esta não é a sua época!”

“Isto aqui não é o céu?” – estava começando a pensar que poderia ser, pois o céu certamente teria bibliotecas como aquela.

“Crá! Isto aqui é o seu próprio mundo, mas no futuro!”

“Futuro? Mas, e o que diabos eu estou fazendo aqui?”

“Ora, sendo você mesmo, no futuro... Crá!”

“Mas, eu já estou morto? Então isto não é o céu, mas o purgatório?” – decididamente, se o purgatório tinha uma biblioteca daquelas, o céu seria realmente maravilhoso!

“Crá! Crá! Meu rapaz, é hora de ir, é hora de voar de volta. Você está somente sonhando um sonho inadequado, onde já se viu!”

E o imenso pássaro o agarrou pelos ombros com as patas e, sem machucá-lo nem um pouquinho, voou por entre as prateleiras de livros lustrosos, através da entrada, e para o céu azul... Foi então que olhou para baixo e viu que estava na maior cidade do mundo! Antes de desmaiar novamente, ainda encontrou forças para um último diálogo:

“Espere! Me diga ao menos que tipo de pássaro é você?

“Crá! A’rara! A’rara’pyrang! Mas você vai me conhecer como arara vermelha...”

“Mas, e onde você vive? É perto de Málaga?”

“Não, meu rapaz, é muito distante de Málaga. Um oceano distante! Crá! Crá!”

“E que terra é essa? A Atlântida?”

“Quem sabe, quem sabe? Crá! Crá! Esta é a terra que iremos, eu e você, morar um dia...”

Foi então que percebeu que aquele pássaro era uma amiga... Mas, antes que pudesse perguntar de onde exatamente a conhecia, o voo da arara se fez completo, e ele mergulhou de volta, dentro de si mesmo, de volta para seu velho barco, e contemplação.

Acordou com um sorriso nos lábios, só não se lembrava exatamente porque...


para A’rara Brasil.


raph’12

***

Crédito da foto: Edu Fortes

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11.8.12

Irmandade

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


“Minha religião é meu pensamento”.

Foi à primeira vez que ouvi isso de outra pessoa, e foi de uma amiga. Estávamos visitando uma exposição no Centro Cultural Banco do Brasil sobre a Amazônia; e não me lembro nem ao certo o que estávamos conversando, mas tocava no assunto da tolerância religiosa, da tolerância às opções de caminhos escolhidas pelas almas alheias; e minha querida amiga me disse isso.

E ela disse do jeito certo, do jeito que eu gostaria de ter ouvido. Ela não disse “conforme você costuma dizer, minha religião também é meu pensamento”, nem tampouco “gosto muito daquilo que você diz, que sua religião é seu pensamento”. Ela disse somente isto: “minha religião é meu pensamento”. Lindo! Em seu olhar, ela pareceu ter compreendido a mensagem... Eu fui apenas quem a recebeu e passou adiante.

Já faz muito tempo que, quando me perguntam sobre qual seria a minha religião, eu tenho esta “reposta pronta”. Mas poucos a compreendem, não por culpa deles, nem minha, mas simplesmente porque pouco se dão conta de que a religião não é como escolher um time de futebol, ou então dizer assim: “não gosto de futebol, sou ateu para o futebol”. Mas alto lá, é possível ser ateu e religioso!

O religare, o religio, a religião, é à vontade de caminhar adiante rumo a uma espécie de reconexão com nossas origens, com o mistério de onde um dia saímos como seres ignorantes, e para onde pretendemos retornar como seres conscientes. Jesus disse, no Evangelho de Tomé, que “o Reino de Deus está espalhado pela Terra, mas os homens não o vêem”. Carl Sagan disse, em seu Cosmos, “que nós desejamos compreender nossa origem, e que podemos, pois somos feitos de material estelar, somos uma forma do Cosmos compreender a si mesmo...”; Escolha seu caminho: Jesus, Sagan; Deus, o Cosmos; Ou tantos outros caminhos – o importante é continuar caminhando.

“Mas isso não se faz com o pensamento, e sim com a fé, ou a razão, ou a filosofia, etc.” – Será mesmo? Pois eu digo que o único animal sagrado que o nosso pensamento ainda não capturou foi o Amor, mas continuaremos tentando. Nós queremos pensar em Deus, nós queremos pensar no Cosmos, nós queremos pensar no Amor. E porque temer? Admita então: “minha religião é meu pensamento”.

Mas fale para si, e apenas para si, como minha amiga falou. Pois eu não quero ditar regras, nem muito menos preceitos morais, e menos ainda pretender lhe dizer que este caminho é melhor do que aquele. Sim, existem cientistas que não crêem em Deus. E existem religiosos que não crêem na ciência. E existem filósofos que gostam de questionar a absolutamente tudo. Mas quem não crê no Amor? Quem, dentre todas as almas no mundo, não crê que existe um sistema, e que o percebemos, e que necessitamos saber dele, cada vez mais? Só não mergulhou no mundo quem está morto em vida, represado pelo dogma – o dogma da crença, ou da descrença. Não importa ao pensamento crer ou descrer, e sim experienciar, estar aqui, existir para o mundo! 

“Nada é mais útil ao homem do que o próprio homem”.

Foi o que disse o grande Espinosa. Para ele, o ser humano poderia ser a coisa mais preciosa na vida de outro ser humano, particularmente quando possuíam afinidade de pensamento. Uma afinidade de tal modo específica que, de certo modo, alguns poderiam mesmo se comportar e caminhar juntos, como uma só mente, um só corpo... Apenas esta comunidade, esta Eclésia do Amor, é digna de nota – as demais sempre serão apenas igrejas.

Por isso tudo eu fico extremamente grato, e realizado, por encontrar certa ressonância do que se passa no meu pensamento também pelo pensamento alheio. É exatamente assim, uma palavra por vez, uma frase, um conjunto de signos, cascas de sentimento, um pensamento a se refletir adiante, um artigo, um conto, um poema por vez, que procuro, quem sabe, melhorar a vizinhança. Seria esta a minha Verdadeira Vontade, diria um outro amigo...

Mas de nada adiantaria toda a sabedoria do mundo, sem o Amor. De nada adiantaria todos os manuais de natação, se não houvéssemos já mergulhado. De nada adiantaria todas as equações da física, se não nos espantássemos mais com a inconcebível natureza da Natureza.

Vivamos, não apenas sobrevivamos. Sejamos uma irmandade, não apenas uma comunidade. E caminhemos à frente, sem medo do que pode lá haver, sem ansiedade pelo que o horizonte pode estar nos escondendo... O horizonte está em todo lugar. O pensamento permeia o Amor como as águas de um oceano a uma enorme ilha rochosa, que um dia ainda será a praia mais bela de todo o Cosmos.


Minha religião é meu pensamento
Minha vida é minha bíblia
Minha igreja é meu coração
Deus é nosso amor

***

Crédito da imagem: Tony Hallas/Science Faction/Corbis

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8.4.12

Amar e perder

Uma das coisas que mais traz sentido a nossa existência é o amor. Embora não seja algo passível de ser totalmente abarcado pela filosofia – ou, pela razão, por assim dizer –, tivemos a sorte de poder contar com alguns grandes pensadores que trataram do amor, e da perda do amor. O que seria mais traumático, amar e perder, ou jamais ter amado verdadeiramente? A resposta para essa questão, tão essencial, muitas vezes esbarra em nossa falta de compreensão do que quer que seja “amar verdadeiramente”. Quase sempre, só nos damos conta de um amor verdadeiro após o termos perdido...

Em seus Ensaios sobre a amizade, Michel de Montaigne nos traz um exemplo do tipo [1]: “O falecido Senhor de Monluc, o marechal, quando conversou comigo sobre a perda do filho (um cavalheiro muito corajoso, de grande futuro, que morreu na Ilha da Madeira), enfatizou, entre outras tristezas, o luto e a mágoa que sentiu por nunca ter se mostrado para o filho e por ter perdido o prazer de conhecê-lo e aproveitar sua companhia. Tudo por causa de sua mania de lidar com ele com a gravidade de um pai rígido. Ele nunca falara sobre o imenso amor que sentia pelo filho e sobre como ele o considerava digno de sua virtude. ‘E tudo o que o pobre menino viu de mim’, disse ele, ‘foi um rosto fechado, cheio de desprezo. Ele se foi acreditando que eu não era capaz de amá-lo ou de julgá-lo como ele merecia. Para quem eu estava guardando tudo isso, a afirmação do amor especial que eu cultivava em minha alma? Será que ele não deveria ter sentido o prazer trazido por ela e todos os elos da gratidão? Eu me forcei, me torturei, para manter essa máscara boba e assim perdi a alegria de sua companhia – e também sua boa vontade, que deveria ser muito pouca para comigo. Ele nunca recebeu de mim nada além de rispidez ou conheceu nada além de uma fachada tirana’.”

Tal relato tão sincero de uma relação familiar do século XVI nos demonstra como passam os séculos, mas nossa angústia existencial muitas vezes gravita em torno do amor, o grande Sol da vida. No entanto, vivemos como roedores encondendo-se nas tocas e túneis de nossa alma, sempre com medo de encarar tal luz solar frente a frente, sem as máscaras apropriadas. Toda nossa sociedade, todo nosso racionalismo: um grande manual para quando e como amar. Obviamente, um manual absurdo e enganador. O amor é livre, não segue liturgias nem manuais de boa conduta, e jamais, jamais pode ser capturado – assim como os raios solares, que podem no máximo aquecer nossa mão, mas não encerrarem-se nela.

Não há como se amar com garantias, seguros de perdas. O risco de se amar é o risco de se viver, verdadeiramente: eis a essência do existir. Quando Montaigne cita a verdadeira amizade em seus Ensaios, está a falar em realidade do verdadeiro amor. Supreendentemente, seu grande amor não foi sua esposa ou algum parente, mas um amigo (e estamos aqui falando de uma amizade sem conotações sexuais, por favor). “Pior”, um amigo que conheceu já no fim de sua vida, e que conviveu por pouco anos, já que ele era mais velho:

“Em nosso primeiro encontro, que acabou acontecendo por acaso em uma grande festa em uma cidade, nos descobrimos tão amigos, tão conhecidos, tão unidos, que, a partir dali, ninguém foi mais próximo do que nós dois [...] Por ter tão pouco tempo para durar e por ter começado tão tarde, já que nós dois éramos homens feitos e ele alguns anos mais velho do que eu, não havia tempo a perder seguindo o padrão das amizades menores e comuns, que exigem tantas precauções e longas conversas preliminares. Essa amizade não tinha nada a seguir a não ser a si mesma [...] Não havia nada em especial, mas algum tipo de quintessência em que tudo se misturou e, tendo capturado minha vontade, me fez mergulhar e me perder na dele. E, tendo capturado a sua vontade, também o fez mergulhar e se perder na minha com uma fome e uma vontade iguais. Digo ‘perder’ com convicção. Não guardávamos nada um do outro. Nada era dele nem meu.”

Montaigne citava Étienne de La Boétie, um filósofo conterrâneo da França, e para o qual escreveu este e outros belíssimos trechos em sua homenagem, nos seus Ensaios, já anos depois da morte do grande amigo. Há que se notar com que entusiasmo Montaigne fala sobre uma amizade tão grandiosa, um verdadeiro entrelaçamento de almas, mas que no fundo também se tratava de um amargo lamento sobre a perda de alguém tão querido... Amar e perder, será esta a nossa sina? Será que o sofrimento, a ferida aberta da saudade persistente, valem os breves períodos da mais pura das felicidades?

Epicuro não tinha esse tipo de dúvida, para o filósofo grego, que era conhecido por morar com os próprios amigos e filósofos em uma casa de largo jardim, só a amizade valia a pena: “De todas as coisas que nos oferecem a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é a aquisição da amizade... Alimentar-se sem a companhia de um amigo é o mesmo que viver como um leão ou um lobo.”

Essa busca pela felicidade na amizade, no querer o bem ao outro, não poderia ser eclipsada nem mesmo pela morte. Afinal, para Epicuro, a morte era o mesmo que nada: “A morte não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no entanto, a maioria das pessoas ora foge da morte como se fosse o maior dos males, ora a deseja como descanso dos males da vida” [2].

É então que, conforme nos alertou o Dalai Lama, vivemos como se não fôssemos morrer, e morremos como se jamais tivessemos vivido [3]... Esta sim é a sina dos que se abstém de amar, por temor da perda, e terminam os seus dias com um certo arrependimento obscuro de nunca terem tido a chance de absorver um pouco da luz do Sol, mesmo que para nunca mais ter a mesma experiência... Quem vai saber? Quem pode definir quantas vezes irá amar, e quantas vezes irá perder o amor? Quantas vezes será verdadeiramente feliz, para então voltar ao estado de tristeza habitual: a tristeza de ter experimentado o Céu, para uma vez mais cair no pântano do Mundo?

A única coisa que o sábio poderá responder é: “não sabemos, não fazemos a menor ideia”. Porém, do pequeno monte de sua sabedoria, ainda que tenha rolado uma vez mais abaixo, o sábio pôde ver, ainda que de relance, toda a imensidão da montanha que se estende no País do Amor. É para lá que ele, desde aquele dia, deseja retornar... É para este objetivo que ele dedica boa parte dos seus dias, e um bom tanto dos seus pensamentos... É precisamente esta ponte, a ponte que se eleva sobre o pântano das máscaras e dos hábitos moribundos, e se conecta a toda a liberdade, e todo o divino risco do amor, que ele deseja percorrer agora: pé ante pé, sonho após sonho, ele deseja nalgum dia acordar neste Céu de Liberdade.

E, uma vez tendo chegado lá, talvez toda a mágoa, toda a dor, toda a saudade, toda a profunda tristeza da perda de tantos e tantos amores pelo caminho, seja recompensada pela visão de tal Sol, de onde todos os suspiros de primeiro encontro partiram, e para onde todas as derradeiras lágrimas de despedida escorreram de volta... É isto, é apenas isto, o grande sentido, a misteriosa e escancarada essência da vida: é, sim, melhor, muito melhor, ter amado tanto, e cada vez mais, e ter sofrido tanto por saudade deste amor, e cada vez mais, do que nunca haver sequer amado, do que se despedir desta vida sem saudades, sem grandes tristezas e sem momentos de felicidade realmente dignos de nota. O que conta é o amor: não importa se o tempo passou, o amor ainda estará lá, aguardando ser redescoberto na luz da eternidade.


Para Teresa, Flávio, Flávia, e todo o amor envolvido...

***

[1] Publicado no Brasil com o título de Sobre a amizade, num pequeno livro da Editora Tinta Negra, com a luxuosa introdução de Viviane Mosé (filósofa brasileira).

[2] Trecho de Carta sobre a felicidade (a Meneceu), publicado pela Editora Unesp.

[3] Na verdade este é um antigo ditado da sabedoria milenar oriental, do qual não sabemos ao certo o autor original.

Crédito da foto: Heide Benser/Corbis

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2.1.12

Uma brisa de amor

Te tenho como amigo, mesmo nas horas de dor
Porém desejo-te de outras maneiras...
Quero abraçar-te, embriagar-me em teu odor
Perder as estribeiras

Mas eis que penso se desejar-te assim
Não seria perder isso que já temos...
A poesia de você junto a mim
A fantasia do que vivemos

E então você me diz: o amor nada deseja
Desde que sopra por tudo que há
Não há carícia que já não seja

O amor tudo já tem, mas é difícil o conquistar...
Difícil é deliciar-se numa brisa de amor
E deixá-la seguir – livre – a percorrer o mar

raph'12
(após um tweet de Carol Phoenix)

***

Crédito da foto: Stock4B-RF/Corbis

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21.10.11

Frases (8)

Ainda mais algumas ideias que passaram voando e foram observadas primeiramente no meu twitter, e agora aqui:


"Existe uma parte do amor que independe do tempo, para ela o próximo minuto se equivale ao minuto anterior."

"Se para a indiferença, o melhor caminho seja o amor, para o ódio, o melhor caminho talvez seja a indiferença..."

"A maior magia é a magia que usa a verdadeira essência de todos os símbolos, a substância que os preenche e dá movimento, vida - a magia do amor."

"Amar não é seguir preceitos morais. Não é sacrifício nem mesmo ilusão. Amar é um privilégio - uma boa aventura."


"Uns são cadáveres atrasados, outros ideias por aflorar."

"Muitos vivem sem se dar conta da falta do personagem principal de sua própria história: a alma."

"Histórias desconexas, sem muito sentido aparente: onde a alma jaz perdida nalgum canto do ser."

"Cada ser é uma história em construção: em quantas histórias seremos coadjuvantes?"


"Duvidar se a alma afinal existe: é muito melhor do que ter a certeza de que há seres sem alma. Os escravos, mulheres e animais que o digam..."

"E qual guerra poderia ter sido santa? Essa é uma ideia estranha para mim..."

"Um dos memes mais antigos da humanidade: "Deus me livre!"; Mas ainda acho que "Graças a Deus" é mais antigo..."


"Que deus estranho esse que não acreditas, que te faz seguir seus ritos mesmo sem crer neles."

"Melhor não seria não seguir os ritos do Deus sem Ritos do que seguir os ritos do deus que não acreditas? Ou quem sabe fazer da própria vida teu rito, desse modo se assemelhando ao Deus sem Ritos..."


"Se não considerarmos as opressões e agressões sofridas, o preconceituoso tem mais a perder do que o alvo do seu preconceito."

"Diz-se (com razão, acredito) que uma das melhores coisas da vida é poder conhecer amigos na mesma sintonia de pensamento que nós. Amar... E o preconceito sendo a ignorância a priori do pensamento alheio: quantas e quantas oportunidades perdidas de convivência e amizade... Seja preconceito de cor, gênero, religião, gosto musical, etc. - No fim, quem perde mais, quem está mais sozinho, é o preconceituoso."


"Os milagres ocorrem, quase que sempre, nas pequenas coisas."

"E que são pequenas coisas? Tudo são pequenas coisas, tudo é milagre. E que é nossa vida, senão um conjunto de milagres a nos cruzar sem que percebamos a parte mais ínfima?"

"Viemos da Luz, de onde a Luz se originou dela mesma. Existimos para ver em parte, e quem sabe dia chegará que a vejamos face a face..."


"O melhor souvenir: uma concha da praia, uma pedra da montanha, um aroma no ar."

"Olhar aquele velho graveto, aquela pedrinha rachada, e pensar: aqui passei as melhores vidas da minha existência. Aqui, na Terra."

"E então contemplar as estrelas, e agradecer: obrigado por todos esses diamantes que nos dão forma."

"E então observar o infinito além do horizonte de um grupamento de galáxias, e compreender: é para lá que eu vou..."


"Nalgum dia a Natureza acordou inspirada, e resolveu ser ainda mais criativa do que antes: inventou o sexo e a morte."

"Atenção: este mundo é desaconselhável para menores de 18 anos. Estamos todos aqui esperando que envelheçam o mais brevemente possível."


"O que eu tento ser é um turista das egrégoras alheias, um experimentador de crenças e pensamentos diversos. Vejam ali, na paisagem: bandos de memes a voar..."

"A gramática da ciência e da espiritualidade é feita de interrogações e vírgulas, e não de exclamações e pontos finais."

"A Verdade Absoluta só será Absoluta quando não for mais Verdade. O Absoluto não é Verdade nem Mentira, simplesmente é (após "L")."

"Não há porque fazer barganha com Deus: tudo já nos foi dado, basta percebermos."


"A água lava. O vento leva. A vida leve." (Carol Phoenix)

"Aprendemos a sobreviver, mas não a viver. Adicionamos anos e anos a nossa vida, mas não vida aos nossos anos." (George Carlin)

"Conhecer alguém aqui e ali que pensa e sente como nós, e embora distante, esteja sempre perto em espírito: eis o que faz da Terra um jardim habitado." (Goethe)

"Um dos maiores prazeres concedidos na Terra é o de encontrar corações que simpatizem com o seu." (Allan Kardec)

"De todas as coisas que nos oferecem a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é a aquisição da amizade." (Epicuro)

***

Crédito da imagem: Resident on Earth

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16.8.11

Café com poesia

Nem sempre gostei de café
Mas nos últimos tempos tenho apreciado
Xícaras após o desjejum
Não sei que tempos...

Às vezes, amiga, nada é o que é,
E tudo que temos ansiado
Reduz-se a tantos e tantos momentos
Que se tornam apenas um

Pegue as atendentes, por exemplo:
Algumas são mais carinhosas
Mas outras tiram um expresso sem igual
Às vezes, quando quero conversar,
Não me importo do café estar aguado
Mas noutras, quero apenas o melhor aroma,
O melhor café –
A nada dou a devida atenção
Nada é o que é...

Nem sempre gostei de café
Mas num dia li nalgum lugar que fazia bem
E desde então a cada bebericada
Tenho me sentido mais poético!

Mas, amiga, você que é poeta deve saber...
Na verdade o café ajuda a evitar infarto
Em quem está farto é de viver

E, mesmo, assim, há apenas uma chance,
Uma porcentagem
Uma incerta indefinição:
Da vida se fartar, ou infartar,
Eis a questão...

Eu não sei em que medida o café me ajudou
A ser mais poeta
Com qual matemática
Tem me auxiliado a tocar n’alma alheia
Mas sei que nunca fui tão poeta
Nunca fui tão eu mesmo
Quanto quando estava contigo
E o mundo todo estava alheio...

Nem sempre gostei de café
Mas será que foi ele quem me tornou mais poeta
Ou fui eu quem, acreditando nisso,
Não me importei de expor-me em verso?

Sei que hoje, amiga, uns tem me chamado assim:
De poeta
De conhecedor d’alma alheia
Mas como posso conhecer a alma de alguém
Senão da mesma forma que te conheci
E a trouxe para dentro de mim mesmo?

Se eu sou poeta, isso também é por sua causa,
E de todos os seus versos que adentraram minh’alma
E de todas as conversas sem sentido
E de todas as xícaras de café que não tomamos
Pois a poesia, como o amor, não faz sentido,
Nem se mede em porcentagens
Mas, de alguma forma sabemos,
Bem lá no fundo
Que ela é tudo que é


Para Flávia...

raph'11

***

Crédito da foto: Kerrick James/Corbis

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29.7.11

4 amores, parte 3

« continuando da parte 2

Nós mesmos seremos amados por pouco tempo e depois esquecidos. Mas o amor terá sido suficiente; todos aqueles impulsos do amor retornam ao amor que os produziu. Mesmo a memória não é necessária no amor. Existe uma terra da vida e uma terra da morte e a ponte é o amor, a única sobrevivência, o único significado. (Thornton Wilder)

Filia: a felicidade

Em algum canto de 1969, um homem começa a falar do amor. É a primeira aula de um curso sem direito a créditos da Universidade da Califórnia do Sul (USC), nos EUA. O nome do curso é Love 1A, e quando Leo Buscaglia o propôs a reitoria, nem o seu prestígio como professor adorado pela grande maioria dos alunos evitou que tentassem dissuadi-lo da ideia. “Vai ser ridículo, qual aluno vai querer passar o semestre inteiro estudando sobre o amor?”.

No entanto, a primeira aula já conta com mais de 20 alunos. Em realidade, nos anos seguintes, o Love 1A se tornaria um sucesso estrondoso, com até 200 inscritos todo ano, e cerca de 600 na lista de espera (o que era, em todo caso, o máximo). Por todos os cantos do mundo dito civilizado, as pessoas suplicam por amor, por senti-lo, por compreendê-lo, por viver em seu nome... Mas quão poucas efetivamente dão ao menos um passo em sua direção. A aula do professor Buscaglia talvez fosse à maneira mais simples de começar a caminhada.

O Dr. Amor, como eventualmente chegou a ser conhecido, já como famoso palestrante da televisão americana, e tendo seus livros vendidos no mundo todo, nos contou sobre o principal motivo pelo qual tomou coragem para propor uma aula sobre o amor: “No inverno de 1969, uma de minhas alunas, inteligente e sensível, suicidou-se. Pertencia a uma distinta família de classe média alta. Seu aproveitamento escolar era excelente. Era muito querida por todos e tinha sempre programas para fazer. Num determinado dia de janeiro, foi de carro para os penhascos de Pacific Paradises, em Los Angeles, deixou o carro ligado, caminhou até a beira de um rochedo íngreme que se debruçava sobre o mar e pulou para a morte. Não deixou qualquer bilhete, nem uma palavra de explicação. Tinhas apenas 20 anos.”

Há muitos que dizem que o pós-modernismo comprovou a falência das ideologias racionalistas, que prometiam que a idade da razão, da ciência e da tecnologia, nos elevaria a um novo patamar de saúde, progressos e realizações. Na verdade o que aumentou foi nossa expectativa de vida e nosso índice de desenvolvimento humano, mas as questões profundas, espirituais, permaneceram sem solução... Buscaglia descobriu, talvez após passar dois anos viajando pelo Oriente, que não seriam os intelectuais, os cientistas, os padres e pastores, e muito menos o governo, quem resolveriam nossa questão com o amor – teríamos de buscá-lo por nós mesmos. Não são vacinas, comprimidos, carros do ano, livros de auto-ajuda, livros sagrados, sermões religiosos ou científicos, nem mesmo homens pregados em cruzes para morrer, quem nos salvam... Apenas o amor nos salva, e por isso era vital aprender a amar.

Após muito debater com os próprios alunos acerca do amor, e também se baseando na extensa obra de mais de 400 autores, Buscaglia chegou a algumas premissas básicas acerca do tema:

(a) Ninguém pode dar aquilo que não possui. Para dar amor, você deve ter o amor; (b) Ninguém pode ensinar aquilo que não sabe. Para ensinar o amor, você precisa compreendê-lo; (c) Ninguém pode conhecer aquilo que não estuda. Para estudar o amor, você precisa viver no amor; (d) Ninguém pode apreciar aquilo que não aceita. Para aceitar o amor, você deve tornar-se receptivo a ele; (e) Ninguém pode ter dúvida daquilo em que deseja acreditar. Para acreditar no amor, você deve estar convencido do amor; (f) Ninguém admite aquilo a que não se entrega. Para se entregar ao amor, você deve ser vulnerável a ele; e finalmente: (g) Ninguém vive aquilo a que não se dedica. Para se dedicar ao amor, você deve estar sempre crescendo no amor.

Ora, e o que seria exatamente crescer no amor? Em sua tentativa de equacionar o amor, os cientistas o chamaram de “uma relação de troca onde há benefícios mútuos”, e o colocaram como alguma espécie de atividade onde o produto final é, coletivamente, sempre superior ao estado inicial, individualmente. E os cientistas tinham razão. Mas aí está o estranho paradoxo: quem doa amor, nada perde, apenas ganha ainda mais amor. Eis que o amor empresta sua essência do infinito, e a matemática do infinito está além de qualquer razão, de qualquer equação...

Após ter passado pelos outros amores – porno, onde seres são utilizados como coisas; e eros, onde há um troca genuína, porém fugaz, de prazer –, acredito que finalmente tenhamos chegado a um patamar mais profundo: filia (ou philia) é a palavra grega para amizade e irmandade. Todos sabemos que o ato sexual tem sua duração, que apesar de poder ser prolongada por até mesmo por várias horas através de técnicas orientais pouco conhecidas da maioria, certamente não irá durar por semanas, muito menos por anos. Numa analogia, podemos afirmar que a paixão que se baseia na atração sexual também terá seus dias contados. Por muitos séculos, e através de muitas sociedades distintas, a principal função do amor era a reprodução e, quem sabe, a educação dos filhos. No final das contas, os casamentos serviam mais para que a continuidade do sangue familiar fosse garantida, do que para que houvesse efetivamente uma relação de amor entre os seres. Se não acreditam nisso, pesquisem sobre a história das monarquias europeias, e todos os seus reis e rainhas, e todos os seus casamentos “sagrados”.

Mesmo nas formas de poligamia, há muito das questões da reprodução e proteção mútua envolvidas. Nas épocas de escassez de alimentos e, sobretudo, nas épocas de guerras, eram as grandes famílias que sobreviviam, e muitas culturas optaram por não se limitar pela monogamia. Mas a monogamia existe, certamente que existe: temos raros e belos exemplos de homens e mulheres que permaneceram companheiros de outros homens ou mulheres por anos a fio; por vezes, por toda uma vida...

Ora, mas se formos analisar do ponto de vista pura e simplesmente evolucionista, mecanicista, animal, a monogamia é antes um grande desperdício: para que desperdiçar uma vida se reproduzindo apenas com uma outra pessoa, se teremos maiores chances de propagar nossos genes nos reproduzindo com o maior número de pessoas, e as mais saudáveis possíveis? Porque, enfim, sermos homossexuais, e, quando muito, adotarmos e criarmos os filhos dos outros, nos abstendo de propagar nossos próprios genes? Talvez, porque no fundo, aqueles que conseguiram chegar a esse patamar de amor são antes companheiros do que amantes, antes seres que buscam a fecundação de amizades, e não de óvulos.

Também no campo religioso, quem chega a essa distinta concepção do amor, não trata a Deus como um agente de barganhas ou um simples mantenedor de rituais sagrados. Antes o entendem como um amigo, aquele amigo que podem sempre contar, pois que hoje sabem que nunca os abandonou, e tampouco poderia abandonar – sua essência nos preenche a todos, ele está em tudo o que existe.

E é aqui, nessa distinta passada no caminho do infinito, que percebemos pela primeira vez o êxtase que se sinaliza no horizonte à frente... Pela primeira vez sentimos um facho de luz da felicidade pura a nos ricochetear pela alma – não aquela alegria que sempre esteve fadada a ser, brevemente, substituída por alguma tristeza, para logo após virar alegria novamente; mas antes aquele contentamento interno, aquela paz de espírito, aquela felicidade que permanece.

Todos somos ainda alunos do curso Love 1A, e foi exatamente um dos alunos de Buscaglia quem nos trouxe uma definição que talvez resuma da melhor forma essa espécie de amor de que estive falando:

“Acho que o amor é muito parecido com o espelho. Quando amo alguém, essa pessoa torna-se meu espelho e eu me torno o dela; e refletindo-se um no amor do outro, vemos o infinito”.

» Na continuação, o amor derradeiro: ágape... Antes, porém, trarei 3 posts que serão um interlúdio nesta série.

***

Nota: Todas as citações de Leo Buscaglia (e de seu aluno) foram retiradas de seu best-seller: “Amor” (Ed. Nova Era).

***

Crédito das fotos: [topo] Kate Mitchell/Corbis; [ao longo] Roger Ressmeyer/Corbis (Buscaglia em palestra ao ar livre).

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