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6.11.18

Onde vivem os deuses (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo vamos nos aventurar pela roda dos deuses, e falaremos do Uno tanto do ponto de vista da pura lógica quanto do ponto de vista teológico e religioso. Veremos também como o culto a Deusa Mãe se perdeu juntamente com o Matriarcado, e como o "deus tataravô" se tornou o deus cósmico da Bíblia. No meio do caminho, ainda falaremos de anjos, orixás, e deuses mensageiros... Ao final, ainda recito um poema de minha autoria, quando talvez descubramos, finalmente, o que diabos é Deus.

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24.10.18

Anjos e Devas

Em diversas religiões é comum a existência de seres espirituais de diferentes categorias. Eles podem variar em termos de desenvolvimento espiritual, moral, poderes e entendimento.

No budismo existem muitos reinos espirituais ou planos de existência que fazem parte de sua cosmologia. Nos estados de privação temos, por exemplo, os asuras (demônios), espíritos famintos e os animais. Podemos renascer como demônios como resultado de karma ruim. Há também diferentes categorias de reinos de devas. Quando temos um bom karma podemos renascer como devas ou como humanos.

É verdade que o reino humano (manussa loka) encontra-se abaixo de muitos dos reinos de devas na hierarquia. Porém, ao atingir os estados de jhanas, um ser humano torna-se capaz de atingir os reinos dos devas.

Na cosmologia do budismo, nascer como ser humano é considerado o melhor tipo de nascimento, pois possui um equilíbrio único de prazer e dor, que é ideal para nos libertar dos ciclos de nascimentos e mortes.

Os devas experimentam muito mais prazer que dor e se encontram em reinos mais elevados do que os humanos. Em compensação, por se encontrarem em estados de tanta alegria, eles não sentem a urgência de se libertar e portanto se torna difícil para eles atingir o nirvana. Por sua vez, os demônios experimentam muito mais dores do que prazer, o que se torna um estado que dificulta enormemente o desenvolvimento espiritual.

Nós humanos normalmente buscamos o prazer e fugimos da dor, o que acaba nos gerando um problema similar ao enfrentado pelos devas: nós ficamos tão distraídos com os prazeres e alegrias que nos esquecemos de trilhar o Caminho Nobre, ou não vemos tanta urgência para isso.

As religiões indianas costumam compensar esse problema sugerindo uma vida de mais simplicidade, meditação, leitura das escrituras ou, em alguns casos, a prática de certas penitências. As austeridades não devem ser excessivas, ou cairíamos num estado similar aos demônios: muita dor impede o desenvolvimento espiritual. Devemos seguir, como Buda sugeriu, o Caminho do Meio, que o nascimento humano já proporciona naturalmente. Basta então adotar as práticas corretas.

Disso tudo concluí-se uma coisa: apesar de na hierarquia os devas (similares aos anjos do cristianismo) se encontrarem num estado superior, por possuírem bom karma, nascer como ser humano é melhor do que ser deva. Através dos estados refinados da mente (jhanas) podemos “ser como devas”. Ao atingir os quatro primeiros jhanas materiais alcançamos um estado mental equivalente ao dos devas. Porém, ao atingir os jhanas imateriais atingimos reinos acima daqueles que os devas podem alcançar, até que conquistamos a iluminação, que é, espiritualmente falando, praticamente inacessível a eles. Por isso é comum que devas escutem os discursos de humanos que já conquistaram alguns jhanas imateriais e as primeiras etapas da Iluminação. Ajahn Mun costumava discursar para devas mesmo antes de se iluminar, quando já estava avançado no entendimento.

Pode-se dizer que existe um ensinamento semelhante no cristianismo. Nós costumamos olhar os anjos como se eles estivessem numa categoria muito acima daquela dos humanos, mas não é bem assim.

O Corão nos conta que, no princípio, Deus criou Adão num estágio de desenvolvimento espiritual até mesmo acima dos anjos. Por isso Deus ordenou que os anjos se ajoelhassem diante dele. Porém, Lúcifer teria se recusado e por isso ele foi expulso do paraíso, de acordo com o islamismo.

É dito no cristianismo que os anjos se encontram constantemente na presença de Deus. Por isso, eles não têm dúvidas de sua existência. São Tomás de Aquino nos conta que eles não possuem corpos materiais, mas espirituais. Sendo assim, são capazes de apenas dois pecados principais: orgulho e inveja, tidos como os piores, pois são pecados do espírito e não da carne.

Os humanos, por outro lado, são capazes de realizar os sete pecados capitais. Eles também não são capazes de ver Deus. Num primeiro olhar, consideraríamos isso como uma desvantagem, certo?

Porém, não é bem assim. De forma similar ao budismo, é dito que os humanos se encontram num equilíbrio de dor e prazer ideal para adquirirmos humildade. É verdade que Adão e Eva caíram, porque pecaram. Eles queriam ser como Deuses, assim como Lúcifer. Porém, a “punição” de Lúcifer e de Adão foram diferentes. Na verdade, essa punição tem mais relação com uma condição que nos ensinará a humildade mais facilmente.

Nós humanos nos tornamos mortais. Porque morremos podemos valorizar mais a vida, considerando-a preciosa. Isso irá apressar nossa urgência de nos desenvolvermos espiritualmente. A mesma urgência que os devas não possuem, já que eles vivem muito mais que nós.

Para completar, porque os seres humanos podem cair em mais pecados que os anjos, eles poderão aprender a humildade com rapidez. Irão reconhecer que são fracos. Da mesma forma que no budismo é dito que, porque o ser humano experimenta certo grau de dor, ele irá buscar atingir a iluminação com mais urgência, sem tantas distrações.

E, finalmente, uma questão chave: Deus não se mostra claramente para os seres humanos. É dito que Deus mantém uma distância epistêmica de nós, não deixando sua existência totalmente clara, pelo mesmo motivo que ele respeita nossa liberdade: é superior escolher o bem quando é possível optar pelo bem ou pelo mal do que se não tivéssemos escolha nenhuma. De forma análoga, é superior acreditar em Deus quando ele não se mostra claramente do que caso ele deixasse bem claro que existe.

Os anjos caminham sempre na presença de Deus e não têm dúvidas de sua existência. É muito mais difícil caírem em pecado, por não terem corpos. Sendo assim, a missão deles é diferente. Eles podem, por exemplo, nos guiar, nos ajudar e nos inspirar.

Não é que os anjos sejam inferiores aos humanos no cristianismo. Em muitos aspectos, os anjos são superiores aos humanos, da mesma forma que os devas são superiores: por não terem corpos, possuem muitos poderes especiais que nós humanos não possuímos. E por terem um nível mais elevado de entendimento espiritual (afinal, os anjos sempre estão com Deus e os devas se mantém sempre num estado equivalente aos jhanas materiais), eles são capazes de saber coisas que desconhecemos.

No entanto, a fraqueza humana pode se tornar uma força que nos torna capazes de ir mais longe. No catolicismo é dito com muita clareza que quando um ser humano se torna um santo, o seu desenvolvimento espiritual se torna tão elevado quanto o de um anjo. Da mesma forma que uma pessoa ao atingir jhanas materiais torna-se tão elevado quanto um deva.

Existe essa passagem misteriosa na Bíblia:

“Ousa algum de vós, tendo algum negócio contra outro, ir a juízo perante os injustos, e não perante os santos? Não sabeis vós que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo deve ser julgado por vós, sois porventura indignos de julgar as coisas mínimas? Não sabeis vós que havemos de julgar os anjos? Quanto mais as coisas pertencentes a essa vida?” (1Cor 6:1–3)

Existem diferentes interpretações para essa passagem. Alguns dizem que os humanos que se tornarem santos serão aqueles a julgar os anjos caídos no Juízo Final.

E não podemos nos esquecer que no catolicismo há Maria, mãe de Deus. Ela só está abaixo da Santíssima Trindade. Encontra-se até mesmo acima dos anjos. O que nos sugere que um ser humano possui o potencial de atingir um estágio até mesmo superior ao dos anjos, como é o exemplo de Adão no islamismo, quando estava no Jardim do Éden, e de Maria no catolicismo.

Vejo isso como um teste de Deus para ambos: para anjos e para humanos. Os humanos devem desenvolver humildade lembrando que Deus e os anjos se encontram acima deles na hierarquia. E os anjos devem desenvolver humildade lembrando que Deus está acima deles e os seres humanos possuem um potencial de elevarem-se a alturas que somente Deus sabe, de acordo com o nível de santidade de cada um.

Porém, a isso o catolicismo não coloca nenhuma dúvida: um santo é equivalente a um anjo. Não em natureza, mas em nível espiritual e de entendimento. Por isso eles podem adquirir até o poder de fazer milagres, originalmente apenas pertencente a anjos. E por isso quem atinge jhanas materiais no budismo pode adquirir alguns poderes psíquicos, como os devas.

Que tudo isso nos sirva de reflexão e para recordarmos: nascer como humano é realmente uma bênção extraordinária. Podemos chegar a alturas que nem imaginamos, mas primeiramente é preciso tornar-se digno disso, baixando a cabeça, com humildade, prestando homenagem a todos que são mais sábios que nós e aprendendo com eles.

Wanju Duli é escritora – Contato: facebook.com/WanjuDuIi

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Crédito da imagem: wikimedia (Buddha preaching Abhidhamma in Tavatimsa)

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3.9.18

Chá com Abramelin

Quando a Wanju Duli aceitou meu convite para ser colunista deste blog, ela já estava bem no meio do chamado Ritual da Sagrada Magia de Abramelin, uma das práticas místicas mais minuciosas e demandantes do ocultismo (principalmente da maneira que está sendo conduzida). O texto que trago aqui é a introdução de um de seus blogs (e, acreditem, ela já teve muitos!), chamado Chá com Abramelin, onde ela vem nos trazendo resumos diários do Ritual. Eu raramente trago textos tão longos neste blog sem separá-los em várias partes, mas neste caso abrirei uma exceção. O texto foi originalmente publicado na Páscoa de 2018:


Enfim, o grande dia!

Nessa auspiciosa ocasião, dia da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. A gloriosa Páscoa!

Eis que Abraão, o Judeu, recomenda que se inicie a Sagrada Magia de Abramelin no primeiro dia após a Páscoa cristã ou judaica. Optei por iniciá-la após a Páscoa cristã, uma vez que estou mais conectada ao cristianismo.

Mas o que é a Magia de Abramelin? Por que resolvi iniciá-la? E quem sou eu, afinal?

São perguntas que merecem respostas consideravelmente longas, mas irei me esforçar para ir direto ao ponto. Raramente consigo fazer isso, uma vez que sou mais conhecida por minhas digressões. Ainda assim, me proponho a tentar.

Sempre gostei de religiões. Talvez meu problema seja amá-las demais. Na adolescência li muitos livros religiosos, como a Bíblia, Alcorão, Bhagavad Gita, Dhammapada, Tao Te Ching, dentre outros.

Por que eu precisava ter apenas uma religião? Eu amava todas, queria mergulhar em todas, até me afogar.

Aparentemente meu tempo aqui nesse mundo (meu Kronos), nesse plano, seria finito, teria um limite. Poderia ser uma boa coisa optar por uma direção de acordo com minhas inclinações.

Acabei me envolvendo mais com o budismo Theravada e com o catolicismo. Isso não me impediu de continuar admirando todas as outras religiões. Particularmente o hinduísmo e o judaísmo, que seria como uma mãe dessas outras duas.

Aos 13 anos me envolvi com leituras e práticas de ocultismo. Li e reli muitas das obras de Eliphas Levi. Foi ele que me ensinou a admirar o cristianismo, já que ele foi seminarista e teve muito contato com a teologia e a filosofia dessa religião.

Eventualmente ouvi falar da Operação de Abramelin e dos rumores do quanto ela era perigosa e difícil de realizar.

O que uma adolescente de 14 ou 15 anos faria com essa informação? Na época eu já havia lido algumas dezenas de famosos livros de filosofia, literatura, ocultismo e religião. Já havia testado algumas práticas e estava ansiosa por algo mais profundo, que não tocasse apenas a mente ou a carne, mas o espírito.

A perspectiva de essa magia ser árdua e um desafio à sanidade era imensamente atraente. Era um bônus que me tentava e me convidava.

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20.4.18

As grandes questões do ocultismo (tomo III)

« continuando do tomo II

Seja feita a Vossa vontade assim na terra como no céu (Oração do Pai Nosso)


Muitos devem conhecê-lo como “aquele ocultista inglês que apareceu na capa do disco dos Beatles”, outros ainda como “o profeta do novo Aeon de Hórus”; mas Aleister Crowley preferia se autointitular “Mestre Therion”, ainda que a mídia de sua época o chamasse de “o homem mais perverso do mundo”. Não se pode dizer que Crowley passou desapercebido por aqui...

Quanto a ser um ser perverso, eu preferiria guardar esse tipo de julgamento para assassinos em massa, torturadores e defensores da tortura, terroristas em geral, gente que suga sangue de verdade dos outros – Crowley nunca fez nada disso, pelo menos que se saiba. No entanto, se você julga que “todo ocultista é perverso porque trata com o Demônio”, então talvez seja melhor reler o que já foi dito no tomo I.

Na verdade, Crowley foi uma espécie de Allan Kardec bem mais liberal, principalmente no que tange ao sexo e a participação em ordens esotéricas. Eu explico: assim como Kardec, que codificou sua obra-prima (O Livro dos Espíritos) a partir de perguntas e respostas a jovens médiuns incorporadas, Crowley fez algo parecido com o seu Livro da Lei, com a diferença relevante que se valeu da mediunidade de sua própria esposa na época, ao contrário do fundador espírita, que recorreu a quatro adolescentes.

Bem, na verdade há mais diferenças: enquanto Kardec jamais psicografou diretamente de algum espírito, Crowley na realidade usou a mediunidade da esposa apenas para ter o contato inicial com uma entidade espiritual chamada Aiwass, que por sua vez falava em nome de Hórus, o antigo deus egípcio dos céus. Foi “escutando a voz de Aiwass ditando por sobre o seu ombro esquerdo”, sem ser visto, que Crowley redigiu todo o Livro da Lei. Segundo o ocultista, a voz era “de um timbre profundo, musical e expressivo, com tons solenes, voluptuosos e tenros, flamejante e despida de tudo que não fosse o conteúdo da mensagem. Não um baixo, talvez um rico tenor ou barítono”.

Assim sendo, o seu processo de escrita pode ser considerado profético; como ocorreu com Maomé, que redigiu o Alcorão também pelo ditado do anjo Gabriel (neste caso, com a ajuda de secretários letrados). Mas, seria Aiwass um anjo? Um espírito? Um aspecto do inconsciente do próprio Crowley? Seja como for, o que importa é a mensagem, não como ela chegou a este mundo... e a mensagem de Crowley fala sobretudo de Vontade. Não uma vontade como outra qualquer, o desejo de tomar um sorvete, ou de comprar um carro – nada disso, ele falou de thelema, e a sua lei foi resumida neste trecho relativamente conhecido do público em geral:

Faze o que tu queres há de ser o todo da Lei.
O amor é a lei, amor sob vontade.

“Torne-se aquilo que você é”
Friedrich Nietzsche resgatou esta antiga frase de Píndaro mais ou menos na mesma época em que Crowley também buscava, justamente, descobrir a si mesmo, saber o que na realidade habitava em seu ser mais profundo.

Saber quem se é não deixa de ser um primeiro passo necessário para se tornar o que se é. Assim sendo, também podemos traçar um paralelo até o antigo templo de Delfos, onde segundo Platão, Sócrates leu e foi decisivamente inspirado pela frase: “conhece-te a ti mesmo, e conhecerás aos deuses e ao universo”.

Curiosamente, não há nada mais difundido na modernidade ocidental, nada mais na moda, do que as frases marqueteiras que lhe incentivam a “encontrar o que realmente ama”, e seguir em frente a partir dali, rumo à felicidade... O problema é que o que você ama, do ponto de vista de nosso mundo consumista, invariavelmente estará fora de você, será um produto. Existem variações, é claro, às vezes você mesmo pode ser o produto, como as musas fitness que estão sempre em forma, sempre felizes, sempre “profundamente espiritualizadas”.

Mas, se o caminho para nossa essência fosse tão simples, se as agências de marketing pudessem de fato realizar o mergulho em nós mesmos, todos já seríamos profundamente místicos: não, é só o caminhante quem pode mergulhar; instrutores de mergulho, ou pior, manuais de natação, jamais substituirão tal experiência.

Talvez fraquejemos. Talvez, como Crowley, nós não consigamos seguir 100% do tempo as nossas próprias instruções angelicais, e acabemos mais hedonistas, mais epicuristas que se perderam da ataraxia, do que gostaríamos de admitir. Mas ninguém disse que o caminho para a Verdadeira Vontade seria simples como um passeio no parque. Também já nos disse o doce rabi: “não vim trazer a paz, mas a espada”. Também nós mesmos precisaremos caminhar isolados no deserto, para também sermos tentados pelos nossos próprios demônios, para que possamos compreender, para que possamos saber, enfim, qual é a nossa Vontade, a nossa thelema.

A alma do universo inteiro
Para facilitar a compreensão da lei trazida ao mundo por Crowley, talvez seja mais fácil recorrer a outro monumento do ocultismo britânico, Mr. Alan Moore [1]:

Quando cumprimos a vontade de nosso verdadeiro Eu, nós estamos inevitavelmente cumprindo com a vontade do universo. Na magia, ambas as coisas são indistinguíveis. Cada alma humana não é, de fato, uma alma humana: é a alma do universo inteiro. E, enquanto você cumprir a vontade do universo, é impossível fazer qualquer coisa errada.

Muitos dos magos como eu entendem que a tradição mágica ocidental é uma busca do Eu com “E” maiúsculo. Esse conhecimento vem da Grande Obra, do ouro que os alquimistas buscavam, a busca da Vontade, da Alma, a coisa que temos dentro que está por trás do intelecto, do corpo e dos sonhos. Nosso dínamo interior, se preferir assim. Agora, esta é, particularmente, a coisa mais importante que podemos obter: o conhecimento do verdadeiro Eu.

Assim, parece haver uma quantidade assustadora de pessoas que não apenas têm urgência por ignorar seu Eu, mas que também parecem ter a urgência por obliterarem-se a si próprias. Isto é horrível, mas ao menos vocês podem entender o desejo de simplesmente desaparecer com essa consciência, porque é muita responsabilidade realmente possuir tal coisa como uma alma, algo tão precioso. O que acontece se a quebra? O que acontece se a perde? Não seria melhor anestesiá-la, acalmá-la, destruí-la, para não viver com a dor de lutar por ela e tentar mantê-la pura? Creio que é por isso que as pessoas mergulham no álcool, nas drogas, na televisão, em qualquer dos vícios que a cultura nos faz engolir, e pode ser vista como uma tentativa deliberada de destruir qualquer conexão entre nós e a responsabilidade de aceitar e possuir um Eu superior, e então ter que mantê-lo.

Entendem agora como a espada do Cristo era, de fato, afiada? É impossível alcançar nossa alma, nossa Verdadeira Vontade, sem antes morrer para a “vontade do ego”, sem antes morrermos para nossa natureza animal e renascermos, como o próprio Cristo, na plena posse de nossa natureza humana, no sentido mais pleno de “ser humano”.

Faze o que tu queres: porém há poucos que conseguem estar de fato conectados, todo o tempo, a este “tu”, a este Eu superior, para cumprirem a sua própria Vontade.

Há de ser o todo da Lei: não há Lei maior do que a Lei do Cosmos, da Natureza, do Sagrado. Somente ela dá conta da totalidade de nossa existência, e de todas as demais existências, em todos os tempos, em todos os cantos do universo.

O amor é a lei: não há em todo o universo algo mais eterno, mais transcendental, mais primordial que o amor. O amor é a essência da realidade, e tudo o que há segue em seu caminho tão somente para despertar a sua própria compreensão do que vem, de verdade, a ser o amor.

Amor sob vontade: fôssemos criados já como seres plenamente amorosos, na plena compreensão do amor, seríamos como anjos, como autômatos criados para servir as leis universais, e não seres humanos que, em sua animalidade, em sua Vontade, conseguem evoluir por si próprios. Há Vontade porque alguém lá no Alto não quis que fôssemos robôs.

Assim é que se cumpre a Lei e a Vontade do Céu, e se Crowley lhes parece um mensageiro demasiado sinistro, saibam que o antigo rabi da Galileia não disse coisa muito diferente. Esta é uma tradução mais fidedigna do trecho do Pai Nosso com o qual iniciamos este tomo (veja quem tiver olhos para ver):

Faze com que se realize a tua vontade, na terra, à imagem do céu (Oração do Pai Nosso; tradução ecumênica)


» No tomo final: Ars Magica.

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[1] Trecho do doc The Mindscape of Alan Moore.

Crédito das imagens: Google Image Search (respectivamente: Aleister Crowley e Alan Moore).

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22.3.18

A Nona Elegia de Duíno

Por que, se poderia iniciar como coroação, e assim ser gasto,
este espaço do Ser, pouco mais negro do que todo
o verde à volta, com pequeninas ondas nas pontas
de cada folha (como uma brisa sorridente): por que, então,
tem de ser humano – e um destino fugidio
ansiando por outro destino?...

Oh, não porque a felicidade existe,
este lucro tão precipitado de uma perda iminente;
não pela curiosidade, ou por se exercitar o coração
que lá poderia estar, na coroação...

Mas porque estar aqui já é muito, e porque tudo
o que se encontra à nossa volta parece clamar por nós,
essas coisas efêmeras que, estranhamente, nos inquietam.
Nós: o que há de mais efêmero. Uma vez
tocamos cada coisa, só uma vez. Uma única vez, e nunca mais.
E nós também, uma só vez. E nunca mais.
No entanto, esta única vez, este ter sido, ainda que só uma vez,
uma coisa da terra – isto parece irrevogável.

E assim, nós seguimos adiante, querendo conquistá-la,
tentando segurá-la em nossas mãos acanhadas,
no olhar que nos transborda, e no coração que se cala.

Tentamos nela nos tornar. Mas a quem ofertá-la?
Nós a seguraríamos para sempre... Ah, que será, aliás,
que nós carregamos à outra dimensão? Não a contemplação
que aprendemos por aqui, lentamente, e nada
do que já se passou. Nada.

O sofrimento então. Acima de tudo, então, o que é difícil,
a longa experiência do amor, que seja – aquilo que é
completamente indizível. Mas, mais tarde,
espalhado nas estrelas, de que ele nos serve:
ainda é melhor se calar.

Uma vez que o andarilho não traz nenhum punhado de terra
da encosta da montanha para o vale, nada que possa ser dito,
mas somente uma palavra conquistada, uma flor de genciana,
pura, azul e amarela.
Estaríamos nós aqui, quem sabe, para dizer: casa,
ponte, fonte, portão, jarro, árvore, janela –
e acima de tudo: coluna, torre...
Mas para recitar, compreenda, oh, para recitar as coisas
como elas mesmas jamais falariam de si mesmas,
jamais assim, tão profundamente.
Não é esta a intenção secreta da Terra discreta?
Atrair os amantes uns aos outros,
até que cada uma das coisas da natureza
se delicie com o que sentem?

Soleira: o que é isso para dois amantes
que igualmente desgastam as próprias soleiras
de seus antigos portões?
Sim, eles também as desgastam pouco a pouco,
após tantos e tantos dos que aqui já passaram,
e antes dos que ainda virão... simples assim.

Eis aqui a era do que pode ser dito: aqui está a sua casa.
Fale, e seja testemunho. Mais do que nunca
as coisas que podem ser tocadas estão desvanecendo,
e o que as destituí e substituí é um Ato sem Imagem.

Um ato, sob uma casca que se romperá, tão cedo
quanto a sua ação interna a transborde,
e estabeleça um novo limite para si mesma.
Entre as marteladas, sobrevive nosso coração,
assim como a língua entre nossos dentes
que, apesar do que fazem,
continua exaltando a existência.

Cante ao Anjo o louvor do mundo, não o que não pode ser dito:
você não pode impressioná-lo com as glórias do seu sentimento:
no seu universo, onde tudo é mais profundamente sentido,
você é mero aprendiz.
Então, mostre a ele uma coisa simples, talhada em era após era,
que vive sempre perto das mãos e sob a sua vista.

Diga a ele as coisas. Ele ficará mais maravilhado: assim como você,
quando visitou o cordoeiro de Roma, ou o ceramista do Nilo.
Mostre a ele quão alegres podem ser as coisas,
quão suas e sem culpa; mostre como uma lágrima de tristeza
escorre tão pura, e serve como coisa, ou morre como coisa:
tais coisas efêmeras, elas olham para nós em busca da salvação;
logo nós, que somos os mais efêmeros.

Torça para que as transmutemos, completamente,
lá em nossos corações invisíveis, torça para que as vertamos
em nós, oh, em nós, infinitamente! Em o que quer
que nós sejamos, no fim das contas.
Terra, não é isto o que deseja: elevar-se em nós
de forma oculta? – não é este o seu sonho,
ser algum dia invisível? – Oh Terra! Invisível!

Qual seria o seu comando urgente que não a transmutação?
Oh amada Terra, eu lhe atenderei. Oh, creia em mim,
não serão mais necessárias tantas Primaveras
para me convencer: apenas uma,
ah, uma Primavera… já seria mais do que o meu sangue
pode suportar.

Sem lhe dar nomes, eu fui verdadeiramente seu, desde os primórdios de mim.
Você sempre esteve certa, e a sua inspiração mais sagrada
é esta morte, a morte mais íntima.

Veja, ainda vivo. Sobre o quê? Em mim
nem infância nem futuro diminuem...
Uma vida, uma vida caudalosa
transborda em meu coração.


(A Nona Elegia de Duíno, por Rainer Maria Rilke, e tradução de Rafael Arrais).

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Crédito da imagem: Google Image Search

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7.10.17

Blade Runner 2049: em busca do milagre (parte 2)

« continuando da parte 1

Este artigo pretende ser uma análise filosófica e espiritualista do filme Blade Runner 2049, aqui não irei me focar especificamente em aspectos técnicos ou artísticos (embora a direção de Denis Villeneuve seja belíssima), mas antes na minha própria análise pessoal da simbologia do filme. Obviamente, o texto a seguir contém spoilers que podem atrapalhar a experiência de se assistir a obra pela primeira vez. Assim sendo, se ainda não a viu, recomendo enormemente que vá assistir antes de prosseguir nesta leitura.

***

Pistis Sophia
Ainda no gnosticismo, num dos evangelhos considerados apócrifos há uma referência a Pistia Sophia como “a Toda Progenitora”, ou seja, a criadora de todas as coisas da alma. Sophia, que também quer dizer “sabedoria”, é também muitas vezes vista como o aspecto feminino de Deus, ou a Alma ela mesma, isto é: a Alma do Mundo.
Segundo algumas vertentes gnósticas, é de Sophia que vieram todas as almas, mas infelizmente acabaram aprisionadas no mundo do Demiurgo, o mundo material, e o equivalente a Jornada do Herói de cada alma individual seria justamente, através da gnose espiritual, conseguir retornar para sua casa, a Grande Alma.
Ora, quando K. vai investigar o orfanato onde teria crescido a criança que procura, acaba tendo uma experiência de rememorar algo que supostamente havia sido implantado em seu cérebro de replicante: uma memória de quando era criança, sendo que ele teoricamente nunca havia sido criança. Ao encontrar o objeto que havia escondido na época de sua memória, um pequeno cavalo esculpido em madeira, no mesmo local, só que no mundo real, K. prontamente passa a considerar que ele mesmo poderia ser a criança, isto é, que ele próprio era o milagre que estava buscando.
Mas ele duvida, a memória poderia ser falsa ainda assim, e tudo poderia ser algum complô estranho. Assim, K. vai até a designer de memórias de Wallace: Dra. Ana Stelline, uma freelance que trabalha fornecendo as memórias infantis mais realistas possíveis para a nova linha de androides. Ao encontrá-la num galpão hermeticamente vedado, K. descobre que a designer havia nascido com uma doença grave (que lhe conferia baixa imunidade), e que havia passado boa parte da vida naquele galpão, isolada atrás de uma barreira de vidro. No entanto, naquele espaço puro, livre do peso e das doenças daquele mundo de chumbo, a designer, isto é, a própria Sophia, podia trabalhar livremente naquilo que sabia fazer melhor: criar belas memórias. Mesmo assim, memórias falsas.
Ocorre que K. pede a ela que analise sua própria memória, que não é exatamente uma memória feliz, e ela percebe que se trata de uma memória real, “pois memórias reais trazem sentimentos reais, e são facilmente identificáveis”. O estranho da cena toda é que, apesar de K. ficar transtornado com a confirmação de que sua memória era real, a própria designer parece ainda mais abalada que ele. Só saberemos o porquê na última cena do filme [1].

A terrível perfeição
Ainda segundo as antigas fontes gnósticas, uma das intepretações associa o Demiurgo a Samael, o Anjo da Morte, o Anjo Caído, o Deus Cego. O fato de Wallace ser inteiramente cego no filme apenas corrobora esta metáfora. Ora, Samael, tendo sido expulso do Céu, leva consigo sua hoste de “anjos perfeitos”, que assim atuam em seu nome. Obviamente que tais anjos são terríveis em sua perfeição, pois seguem as ordens do Demiurgo sem pestanejar, como seres sem alma, psicopatas. No filme, a personagem Luv é justamente um desses anjos, um anjo replicante, que segue o Deus Cego de forma dogmática.
Porém, tanto K. quanto Luv são fruto da nova linhagem de androides, e de certa forma ambos perseguem o mesmo milagre (a criança), ainda que por razões diversas. Outra questão interessante sobre ambos é que K., apesar de passar por fortes reações sentimentais em seu interior, praticamente não as demonstra; já Luv, que age sempre de maneira fria e calculista, por diversas vezes derrama lágrimas no filme, lágrimas que parecem tão artificiais quanto sua alma [2]. Impossível não reconhecer aqui, novamente, a dualidade entre nossos pensamentos materiais (Luv) e espirituais (K.); sim, pois como já disse Joseph Campbell, todos os mitos dizem respeito a nós mesmos.
A cena onde K. derrota Luv literalmente debaixo d’água é mais um simbolismo de nosso inconsciente: o pensamento materialista não foi extirpado de nós, continua lá no fundo, mas agora é nosso lado espiritual que surge do inconsciente para dar real significado a vida. O monstro terrível, angelical e sedutor, foi enfim domesticado – K. é o herói a assumir o timão de sua própria embarcação.

Deckard, o Ancião
Em sua longa investigação, K. acaba descobrindo que a mãe replicante era Rachel, a personagem pela qual Deckard, o Blade Runner do primeiro filme, se apaixona. Eventualmente K. parte para encontrar Deckard escondido num cassino abandonado numa zona de alta radiação, onde teoricamente não habitam humanos. Seguem-se algumas das cenas mais belas do cinema neste nosso século, e eles eventualmente se encontram. Inicialmente Deckard tenta se livrar de K., mas acaba sendo convencido de que ele viera para ajudar.
Nesta altura K. acredita que Deckard é seu pai, mas não chega a contar nada. Ainda que de forma brevíssima, Deckard assume o papel de Ancião ou de Mestre, aquele que aconselha o herói. Infelizmente, no entanto, não há muito tempo para que eles convivam, pois os lacaios de Wallace vêm em seu encalço e acabam sequestrando Deckard.
Noutra cena essencial do filme, Deckard se encontra aprisionado na sede da corporação de Wallace, e este lhe apresenta uma cópia supostamente exata de Rachel (ainda jovem, claro), tentando lhe seduzir para que ele pudesse contar onde diabos está a criança, o milagre. Obviamente, o grande objetivo do Demiurgo é exterminar a alma, e tornar o mundo puramente material. Interessante que os sonhos de ascensão ao Paraíso no mundo de Wallace correspondem às colônias humanas noutros planetas. Porém, são literalmente paraísos artificiais, uma vez que tudo o que Wallace consegue produzir é sintético. Mesmo os seus replicantes não passam de androides estéreis, ele jamais conseguiu fazê-los se reproduzir.
Ao observar a cópia de seu grande amor, no entanto, Deckard afirma para o Demiurgo: “não é ela, eu sei o que é real”. Ora, o que é real é justamente o amor, e o amor pertence à Pistis Sophia, não ao mundo do Demiurgo. Não importa o que ele faça, jamais terá poder para gerar amor, gerar vida real, seja ela humana ou replicante.

É preciso alma para amar
Noutra cena tocante do filme, K. anda pela cidade e, ao atravessar uma espécie de ponte de pedestres, se depara com uma projeção gigante de Joi, a garota-holograma. Ocorre que ele havia guardado a memória de sua própria Joi num aparelho que foi destruído pelos lacaios de Wallace. Assim sendo, a “sua Joi” havia se perdido para sempre, e ali ele via uma “Joi genérica”. E esta Joi o chama pelo mesmo nome usado pela anterior, de “Joe”. Ora, assim fica claro que a paixão entre K. e a sua Joi era mero fruto de uma programação. Não havia alma no seu aparelho de Inteligência Artificial, apenas ele poderia ter uma alma, e é preciso haver alma para haver amor.
Dessa forma, o que K. havia amado era tão somente um ser imaginário. Ao contrário de Deckard, que amou uma replicante com alma, e por isso gerou nela um filho, um milagre. Afinal, Deckard “sabia o que era real”, enquanto K. ainda teria de passar por muitas e muitas aventuras para descobrir.

O fim de uma Jornada é o início de outra
Finalmente, após haver descoberto que na realidade Deckard e Rachel haviam tido uma filha, não um filho, K. mesmo assim não se desvia nem por um momento de sua missão e acaba conseguindo, com muito custo, resgatar Deckard e levá-lo ao encontro de sua filha real.
Pouco antes de entrar no galpão onde ela reside, Deckard pergunta para K. se “está tudo bem”, e ele afirma que sim. Na sequência, K. se deita sobre as escadas e, após Deckard já haver entrado no recinto, ele parece apenas contemplar os flocos de neve caindo levemente do céu. Há uma profunda sensação de paz: o herói cumpriu sua Jornada, e está preparado para a próxima. No fundo, não importava se K. era ou não a criança, o milagre, mas sim se ele tinha ou não uma alma. K. parece ter chegado a conclusão de que, sim, tem uma alma, e daí em diante sua vida passa a ser de fato uma jornada espiritual, livre, na medida do possível, das seduções do Demiurgo. Não será uma vida desprovida de dor, é certo, mas pelo menos uma vida preenchida de sentido.
Já a última e belíssima cena do filme mostra Deckard, o Ancião, o Herói no Fim da Jornada, encontrado o milagre “em carne e osso” pela primeira vez. Sua filha era todo o tempo a própria designer de memórias dos androides de Wallace, a própria Pistis Sophia, a Alma do Mundo. É esta a iluminação, o sentido final de toda e qualquer jornada espiritual – a contemplação da Alma. E aqueles que já sabem disso, tornam-se nesta Criação, cocriadores, artistas do espírito. Este filme é só mais um exemplo disso.

***

Obs.: Não deixe de ver também esta profunda análise do Blade Runner original feita pelo meu amigo Acid (do blog Saindo da Matrix). Veja também a parte 1 e a parte 2 de sua análise da simbologia presente na obra.

[1] Inclusive, a primeira cena do filme é justamente o Grande Olho da Alma se abrindo, o que remete ao próprio despertar do protagonista. Aliás, eu recomendo que revejam o filme considerando desde o início que tudo o que transcorre de iluminado, até o último floco de neve, é uma Criação da criança-milagre, Pistis Sophia. Só recomendo que levem algum lenço; isto é, se tiverem alma!

[2] Há outras interpretações menos focadas em mitologia que afirmam que Luv somente derrama lágrimas quando presencia a morte de outros replicantes, jamais de humanos (apesar de que ela parece se emocionar ao assassinar a chefa de K.). De fato, é uma possibilidade, talvez ela estivesse interiormente lutando contra si mesma para se libertar da programação de Wallace. Em todo caso, mesmo aqui continua valendo a interpretação de que K. consegue "desobedecer" a sua programação, enquanto Luv não, e me parece que este "livre-arbítrio" tem tudo a ver com a proximidade da alma, do amor, enfim, do lado mais espiritual da vida.

Nota final: o gnosticismo na obra de Philip K. Dick
Pode parecer estranho, mas Philip K. Dick foi um escritor de ficção científica profundamente ligado ao gnosticismo. Como não sou nenhum especialista em sua obra literária, indico a vocês este artigo de meu amigo Giordano Cimadon, da Sociedade Gnóstica Internacional; e também este texto escrito por Eduardo Pinheiro, um especialista em sua obra, para o blog Papo de Homem.

Crédito das imagens: Blade Runner 2049/Divulgação

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27.9.16

Existem os anjos?

Não sei se os anjos existem,
mas sei que há mundos sem fim,
estrelas incontestáveis
a salpicar a noite –
não desejariam tantas e tão belas
serem admiradas por nós
aqui embaixo?

Não foi sua luz criada
para ser contemplada?
Para guiar os girassóis,
aquecer os corações
e reger as primaveras?

E estes pássaros
que vêm bailar pelo bosque,
e anunciar a nova manhã
em pios melodiosos,
seriam eles tão belos,
seriam eles tão pássaros,
seria, enfim, a natureza tão natureza
sem nós aqui
a observar tamanha imensidão?

Não sei se os anjos existem,
mas sei que mesmo aqui embaixo,
nesse mundo de chumbo,
ainda estamos ao alcance das estrelas,
e sua luz ainda nos acaricia,
e sussurra em nossos ouvidos
canções mudas e eternas
na linguagem da alma...

E, se tal idioma existe,
é provável que os anjos filólogos
estejam somente esperando
que nós nos tornemos
literatos do coração:

“Olá meu irmão, minha irmã,
olá andarilhos dos reinos de baixo,
hoje vocês já sabem nossa língua,
hoje já posso lhes falar sobre os mistérios
e as maravilhas infindáveis
que nós voadores catalogamos
nos mundos de cima”


raph'16

***

Crédito da imagem: Google Image Search/Den Belitsky

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4.9.15

Aylan

Primeira vez que vi anjinha foi em noite fria. Anjinha escorregou do céu e entrou em quarto de eu. Tinha vestido todo branco que nem a lua, e era tão bonita que nem mamãe. Papai e mamãe não gosta que eu vá para longe brincar com gente que não sei o nome, no parque e na rua e todo lugar. Dizem que quem a gente não sabe o nome pode ser homem mau e machucar eu. Mas anjinha não diz o nome dela.

Anjinha vai e volta de escorrega do céu ainda muitas noitinha. Como já conheço ela brinco com ela e tudo e não preciso saber de nome. Mas anjinha já sabia meu nome quando me viu primeira vez: Aylan.

Quando era bebê não sabia nada. Mas papai me diz que somos filhos do Curdão. Então eu cheguei no mundo lá em Babani, onde mamãe e papai e irmãozinho morava. Babani era lugar bonito cheio de criança que nem eu, e árvore e flor e parque e gente com sorriso. Assim eu fiquei grandinho e não era mais bebê, e achei que iria ficar para sempre ali com mamãe e papai e irmãozinho e gente amiga, no Curdão.

Um dia falei para mamãe da anjinha, e ela não gostou. Disse que essas coisa é de povo atrasado que não conhece Alá. Disse que Alá é maior que tudo e tem coração gigante que ama todo mundo. Disse que anjinha podia ser coisa da minha cuca, coisa que veio na cabeça. Não entendi mamãe nunca porque anjinha escorregava do céu, coisa que nunca vi nenhuma gente fazer. E nunca vi esse Alá.

Mas eu continuava crescendo e brincando de monte. Numa noite que tava ventando quente e fiquei olhando pro teto, anjinha apareceu e tava triste. Ela disse que ficaria tempos sem escorregar e vir a noite brincar comigo. Disse que mundo tava meio doido e que eu e mamãe e papai e irmãozinho logo teria de viajar pra bem longe. Que era perigoso, mas que ia cuidar de nós, e que um dia ela voltava para me ver. Fiquei triste de ver ela indo embora, não sabia quando ia ver anjinha de novo.

Um dia, muitos dia depois, acordei com um BUM. Papai entrou correndo no quarto de eu e irmãozinho e disse para gente ir pra baixo da cama no quarto de mamãe. Disse que era nova brincadeira que a gente ia fazer toda hora que desse um BUM. Tava com medo. Nesses dia e noite tinha muitos, muitos BUM, e a casa tremia toda que nem na história dos porquinho.

Assim foi muito tempo e eu e irmãozinho já não saia muito de casa. Em volta de casa tudo ficava cheio de pó e bem cinza, cheiro ruim! Não ia mais a parque, nem sabia se tinha parque ainda. Babani tava sendo atacada pelos homens mau do Isi. Papai falou que o povo do Curdão ia defender cidade e com máquina de fazer BUM iam fazer povo mau correr pra longe.

Eu tinha saudade de anjinha, mas não falava para mamãe nem papai porque eles já tava muito chatiado com tanto BUM que estourava em Babani. Mamãe chorava mais que irmãozinho. Eu não chorava porque meu pai falou que não era bom de homem chorar. E eu não era mais bebezinho.

No dia que papai chorou, foi porque tinha de sair de casa, sair de Babani e do Curdão. Papai pegou terra de Babani na mão e beijou, e disse que um dia a gente voltava, mas que a gente tinha de ir para a terra da titia, no Nanadá, para ter escola e parque e brincadeira para eu e irmãozinho de volta. Papai disse que a gente ia pra Tuquia e ia pegar um barco bem bonito na praia. Eu nunca tinha ido na praia nem andado de barco! Achei que anjinha tava enganada em preocupar comigo. Era muito bom fazer viagem depois de ficar tantos tempo em casa sem nada para brincar, com mamãe e irmãozinho chorando, e tanto BUM, BUM, BUM!

Assim a gente pegou camião cheio de pessoa que não sabia o nome. Mas papai disse que era tudo gente boa, que também tinha de viajar com a gente. Ali naqueles dia andando no camião com tudo tremendo, fiquei com fome e sede vez de quando, mas foi legal porque vi muitas terra de longe e conheci algumas crianças já maiores que eu. Algumas delas chorava vez de quando também. Não eu, porque sabia que anjinha tava de olho em eu, em mamãe, papai e irmãozinho.

A gente chego na praia. Que lindo o marzão. Nossa dava vontade de ir correndo lá no fundo até ver o que tinha do outro lado. Mas papai disse que eu não podia andar na água e que afundar era perigoso e coisa assim. Disse que para a gente andar em cima da água tinha de ir de barco.

Mas quando chego o barco papai ficou muito chatiado. Disse que era barquinho pequeno demais para toda a gente. Mesmo assim a gente foi. Eu gostei porque nunca tinha ido de barco, e tremia menos que camião. A gente toda apertada em barco era que nem brincadeira em parquinho com todas criança na areia. No começo as onda balançava a gente mas não muito, e assim foi indo e indo e indo, e já quase não via nem praia nem Tuquia nem Babani. Tinha saído do Curdão e indo pro Nanadá.

Depois as onda começou a balançar demais a gente. Teve gente que fez coisa feia e cuspiu comida para fora. Mas eu não fazia isso porque sabia que era coisa feia. Assim foi indo toda a gente no barco, cheio de medo. Irmãozinho começa a chorar e muita gente começa a reza para Alá. Mas eu não sei reza e daí eu só lembrava da anjinha que disse que ia cuidar de nós.

Então o barco viro e caí na água gelada do mar. Tava gelada demais e não lembro direito o que passou. Lembro que papai gritava e tentava segurar eu e irmãozinho e mamãe, mas não deu para ele segurar nós tudo porque vinha muitas onda, sobe e desce de onda enorme no mar. Assim eu nem senti direito quando escorreguei que nem fazia a anjinha, só que de baixo pra cima.

Escorreguei do mar para o céu e lá tava a anjinha e um pavão bem bonito. Não dava para entender em que casa eu tava, nem se anjinha tava triste ou feliz. Anjinha tava é preocupada com resto de nós que ficou no mar. Eu não, porque tava bem melhor ali do que na água gelada, e sabia que anjinha ia ajudar mamãe e papai e irmãozinho a chegar no Nanadá.

Eu não, eu não queria ir pro Nanadá ver titia. Queria ver anjinha, então para mim tava bom. Mas eu queria saber só uma coisa, então disse pra ela:

“Mas por que homens mau do Isi vem e faz maldade em Babani se nós nunca fez maldade para eles?”

Assim, anjinha deu sorriso que nem os tempo que vinha de noite escorregar no meu quarto e me disse:

“Aylan, eles se esqueceram a tempo demais como é ser criança...”


raph’15

***

O documentário Kobani Vive traz o olhar do fotógrafo brasileiro Gabriel Chaim sobre as ruínas de Kobani, a cidade curda que derrotou o Estado Islâmico, perto da fronteira entre a Síria e a Turquia. Através dele, podemos imaginar porque o pai de Aylan Kurdi decidiu fugir de Kobani, onde vivia, para tentar alcançar sua irmã no Canadá:

» Assista Kobani Vive

Crédito da imagem: Khalid Albaih

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4.4.14

A Confraria dos Espelhos

Somente a visão da entrada da gruta lhe causava arrepios. Fazia anos, ou talvez vidas e eras, que ele não retornava aquele lugar, e no entanto a relva em seu entorno e até mesmo as pequenas pedras ainda lhe pareciam estranhamente familiares. A verdade é que nunca seria capaz de realmente esquecer, pois que foi naquela pequena fenda de montanha que ele finalmente abandonou as sombras da Caverna, e conheceu o Sol. O mesmo local ainda lhe trazia, ao mesmo tempo, toda a tristeza e toda a alegria do mundo.

"Não importa, eu vim aqui realizar a minha missão" – pensou, e logo após penetrou na escuridão...

Como seus olhos já não estavam mais habituados a enxergar nas sombras, empunhava a sua espada, a mesma com a qual desferiu o golpe mortal no Guardião da Passagem, e alcançou a liberdade. Hoje ela não era mais um instrumento de morte, mas um artefato mágico – uma espada que gerava a sua própria luz. Apesar de tênue e azulada, era esta a luz que permitia que ele pudesse se guiar terra adentro, rumo ao coração das sombras, há muito abandonado, mas que hoje era novamente o seu destino.

De vez em quando encontrava um ou outro andarilho escalador, desgastado e solitário, a gemer e choramingar pelo caminho. Isso lhe trazia de volta as emoções de outrora, todas as dúvidas e sofrimentos, todos os temores e descompassos da alma, que acreditara terem se aniquilado, mas que em verdade sempre estiveram ainda lá, nos porões do inconsciente.

"Anjo! Anjo! Me diga quanto falta, por favor!" – gritou um coitado desesperado a tatear, quase cego, o chão da caverna.

"Tenha perseverança, confie em si mesmo... Não há nada a temer nem a duvidar, há luz e amor em todo lugar, sempre houve e sempre haverá. Mesmo eu consegui chegar ao Alto, tenho certeza de que um dia também conseguirá." – lhe respondeu, tentando escolher as melhores palavras que lhe vinham a mente naquele momento.

"Mas quanto falta? Quanto falta? Ora, me ajude, me ajude! Me disseram que vocês nos ajudariam ao final da subida..."

"Exato meu amigo, e é esta a minha missão atual. Mas de nada adiantaria eu lhe carregar para o Alto se você ainda não tem olhos para enxergar na Claridade. Eu apenas lhe tornaria cego. Confie em mim, em breve sua jornada se tornará mais fácil e menos sofrida, e todos os paradoxos serão reconciliados!"

E abandonou, com o coração doído, aquele ser que mais parecia um reflexo dele mesmo, há muito tempo atrás... "E, de certa forma, talvez todos sejamos reflexos uns dos outros" – pensou consigo mesmo enquanto a escuridão o abraçava cada vez mais...

Foi quando o ar já estava denso e úmido, e quando as paredes de pedra não mais lhe permitiam descer, que ele encontrou o sinal na parede rochosa. Era ali que ele deveria esperar o sinal das trombetas. Era quase insuportável permanecer naquela escuridão abafada, e a cada respiração seus pulmões ardiam com o ar fétido de desejos desenfreados, como espectros que pairavam por todos os recantos daquele mundo subterrâneo. Mas devia esperar, iria esperar – era esta a sua grande missão!

No cinto trazia uma pequena bolsa de pano contendo a relíquia que os seus irmãos da Confraria lhe haviam confiado. Ao sinal das trombetas, tudo o que deveria fazer era retirar o objeto da bolsa e apontá-lo em direção ao pequeno facho de luz que ainda insistia em penetrar o subterrâneo e vencer toda aquela escuridão. Não era uma luz qualquer, mas de uma frequência que somente os olhos mais treinados conseguiam perceber. Todos os longos anos que passou aprendendo com seus mestres na Confraria talvez pudessem mesmo se resumir a uma espécie de "educação dos olhos" para enxergar aquela luz...

Então, repentinamente as trombetas ecoaram fundo por toda a Caverna, e enquanto os andarilhos perdidos tapavam os ouvidos para se protegerem daquele som ensurdecedor, ele soube que era o momento: retirou o pequeno espelho do cinto e, o colocando ante o facho solar, pôde enfim vislumbrar a todos os seus outros irmãos da Confraria dos Espelhos posicionados noutras partes da Caverna, cada um refletindo a luz um do outro, de modo a iluminar toda aquela escuridão – como há muitas eras não se via!

E, ainda que por um breve momento, todos os andarilhos e todos os escravos de Abaixo puderam vislumbrar todas as matizes de cor das pinturas ancestrais que salpicavam por todos os cantos e paredes, mas que antes lhes passavam desapercebidas. E assim todas as grandes histórias, todos os grandes heróis de outrora e todos os mitos eternos foram uma vez mais vislumbrados.

Era assim, exatamente assim, que os seus irmãos faziam para trazer mais agentes para a Confraria. Muitos eram convocados e muitos ouviam as trombetas e vislumbravam as antigas pinturas e os símbolos das rochas, mas somente alguns tomavam coragem para prosseguir até o Alto. Não importa: passo a passo, eles ainda tinham todo o tempo do mundo...


raph’14

***

Crédito da foto: Stephen Alvarez/National Geographic Stock/Caters News

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22.2.13

Frases (13)

Mais frases que vieram com o vento, geralmente primeiro aparecem no meu twitter, depois aqui:


"Somente em silêncio podemos ouvir o que não foi dito, nem escrito."

"Onde estarão os anjos? No céu não se viu... Anjos arteiros, estavam cá embaixo, distribuindo convites de amor aos que faltaram a cerimônia."

"Assim são os anjos: vivem no Céu, trabalham no Inferno."

"As vezes nossos esforços para melhorar a vizinhança podem ser vistos como 'nada mais que uma gota no oceano'. Mas o oceano é feito de gotas."


"O monoteísmo é uma vogal, o paganismo um alfabeto. Os ateus creem que ele serve apenas para se escrever palavras." (após Moore)

"Na antiga Grécia, em nenhum deus faltava a humanidade inteira. Desde que fossem muitos. A humanidade não caberia apenas num deus." (após Schiller)

"Os deuses são como as letras de um alfabeto da alma humana. Mas ninguém sabe quem criou essa linguagem, ela parece ser anterior ao Pai do Céu."

"A luz branca é decomposta num prisma. Não há branco: só luz. Assim é com os santos, deuses e orixás: a luz de um só Deus em cores infinitas."


"A prova de que existe a alma? Fernando Pessoa a navegar..."

"A alma que se reconhece jamais será consumida ou consumidora."

"'Causa aleatória': somente um outro nome que dão para o Grande Desconhecido."

"Nem todo religioso é dogmático. O dogma é uma represa, mas a religião precisa ser um rio, já que precisa chegar ao Oceano, seja o que ele for."


"A depressão é um dos negócios mais lucrativos da modernidade."

"Não há punição maior do que o trauma da culpa."

"Eis o que é a Alquimia: a depuração da alma, a transformação de sentimentos de Chumbo em sentimentos de Ouro."


"Ah! Os amantes e seus conflitos... Em último caso, tornam-se bons amigos. Num dia afortunado, podem se amar perdidamente, se acharem em si, e amar por amar, e viver para amar."

"'Trago a pessoa amada', dizem por aí... As vezes leva 3 dias, as vezes leva 3 vidas, ou mais..."

"Eu não acredito em idade, só lembro da minha porque fica chato não saber quando perguntam (não que acredite nela, para mim é só um número)."

"O maior clássico do futebol mundial: nem Brasil x Argentina, nem Barça x Real, mas Com Camisa x Sem Camisa."


"Os satanismos da vida, tanto os ingênuos de metaleiros quanto o satírico de LaVey, por vezes são espelho invertido do que se opõem." (Thuin)

"Como alguém pode ser si mesma enquanto estiver aceitando que os outros a digam para ser si mesma?" (Igor Teo)

"Um livro é a prova de que os homens são capazes de fazer magia." (Sagan)

"Now and Here = Nowhere; Éden is now and here, Éden is nowhere." (Campbell)

"Se você não me achar em você, nunca me achará. Pois, tenho estado contigo, desde o começo de mim." (Rumi)

***

Crédito da foto: Gideon Mendel/Corbis (protestantes contra o sistema financeiro europeu fantasiados, abril de 2009)

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29.1.13

O software angélico que roda no eixo do mundo, parte final

« continuando da parte 2

Eu tendo a pensar o Paganismo como um tipo de alfabeto, de linguagem. É como se todos os deuses fossem letras dessa linguagem. Elas expressam nuances, sombras de uma espécie de significado ou certa sutileza de ideias, enquanto o Monoteísmo é só uma vogal, onde tudo está reduzido a uma simples nota, e quem a emite nem sequer a entende (Alan Moore).

“Watson derrota a humanidade”
Essa foi uma das manchetes para a vitória de Watson, um computador que ganhou dos melhores competidores que a raça humana tinha disponível no Jeopardy!, um jogo de perguntas e respostas da TV americana. Como seus concorrentes humanos, Watson não estava ligado à internet. Tudo o que ele tinha à disposição era uma memória de 15 mil gigabytes com alguns milhões de textos arquivados e uma capacidade de processamento equivalente à de 2.800 micros caseiros. Um computadorzão bem programado, só isso.
Os cérebros humanos por trás são tão importantes que o próprio Watson errou questões por bobeira de programação. Um dos deslizes: perguntaram qual categoria da elite do automobilismo tem o nome de uma tecla de computador. "F-1" era a resposta. Qualquer batedeira tem capacidade de processamento para cruzar uma lista de nomes de teclas com uma de categorias de corridas. Mas a coisa mais próxima que Watson tinha para dizer era "Nascar". Falha dele? Não, dos programadores - a Fórmula 1 é solenemente ignorada nos EUA.
O erro nessas horas é imaginar que as máquinas são uma espécie à parte. Computadores são só alicates e martelos mais complexos. E quando você marreta o dedo não é culpa da natureza do martelo, mas sua, que não soube "programar" a martelada. A vida é melhor com martelos. Com supercomputadores também [1].
O que os bons observadores constatam, portanto, é que não existe nem existirá exatamente uma inteligência artificial, mas apenas uma ferramenta que é a extensão de alguma inteligência natural, que a programou. Computadores somente computam informação, mas são os seres que as interpretam, são os seres que as moldam em suas mentes, e as passam adiante, com uma nova forma e uma nova luz. E quem sabe disso, torna-se, nesta Criação, um cocriador.

Os muwakkals
Os sufis, místicos do Islã, dizem que assim como no corpo físico de um indivíduo muitos germes nascem e se desenvolvem como seres vivos, de forma análoga, existem também muitos seres no plano mental, chamados muwakkals ou elementais. Estes são entidades ainda mais etéreas nascidas do pensamento humano, e assim como os germes vivem no corpo humano, tais elementais sobrevivem de seus pensamentos. Segundo os místicos do Islã, o homem muitas vezes imagina que seus pensamentos não têm vida; ele não percebe que eles são mais vivos do que os germes físicos, e que eles também passam por nascimento, infância, juventude, velhice e morte. Eles trabalham contra ou a favor dos homens de acordo com sua natureza. Os sufis afirmam que os criam, elaboram e controlam. Um sufi os repete e os educa através de sua vida; ele forma seu exército e subjuga seus desejos.
Para os descrentes, a possibilidade de que nossa mente possa criar “pensamentos vivos”, e os educar para que sigam adiante com vidas próprias, pode parecer algo mais próximo do pensamento mágico do que da ciência. Mas, se procurarem saber o que Richard Dawkins, apóstolo do ateísmo, descreveu tão bem em sua obra prima, O gene egoísta, chegarão a um conceito muito próximo dos muwakkals sufi – apenas Dawkins os chamou de memes.
Sejam o que for, entretanto, estamos aqui analisando a possibilidade lógica de que seres possam ser criados “com algum grau de perfeição” do nada, sem passar por evolução alguma. Sejam robôs com inteligência artificial, sejam memes, sejam muwakkals, todos estes são candidatos, mas absolutamente nenhum deles é realmente capaz de se enquadrar no que buscamos. Pois o que buscamos, de fato, não existe: uma ferramenta, um computador, um algoritmo, um pensamento vivo – todos são tão somente extensões da mente que os criou em primeiro lugar, e não seres que evoluem por conta própria. No fim, um robô será sempre um robô.

O Grande Desconhecido
Conforme já dissemos, muitas mitos de criação das mais diversas e antigas culturas humanas falam de um “deus obscuro e ocioso”, que criou tudo o que há, inclusive os demais deuses, e depois se retirou. Olorun, afinal, não aceita oferendas, pois já possuí todas as oferendas do Cosmos, pois que é o próprio Cosmos, e estamos neste momento, como em todos os outros, encharcados por sua substância divina. No Evangelho de Tomé, Jesus também diz que o Reino de Deus se encontra espalhado pela Terra, mas os homens não o veem. No taoismo, o Tao é aquela substância “anterior ao Soberano do Céu”, um “vazio” que a tudo preenche, profundo e inesgotável. Benedito Espinosa a chamou de “a substância que não poderia haver criado a si mesma”. Mesmo o cristão de religiosidade mais superficial a conhece como algum elemento estranho chamado de Espírito Santo...
Mas e qual é o santo, iogue, rabi ou guru, que pode bater no peito e bradar: “Eu sei o que é Deus”? E, ainda que saiba, será mesmo que qualquer outra mente, qualquer outra máquina de interpretar a realidade, poderá chegar exatamente a mesma concepção? Como saber de que forma seu amante lhe ama? Como saber de que forma uma pessoa sente dor?
Para criar uma torta de maçã a partir do nada, antes seria preciso criar todo o universo... Para compreender exatamente como outro ser sente, ama ou sofre, antes seria preciso ser todo o universo.
Seria preciso conhecer o Grande Desconhecido, o Inefável, o Inalcançável, como ele mesmo se conhece. E esta é a aventura, a jornada, o prazer de todo verdadeiro religioso: religar-se a Deus.

O software angélico que roda no eixo do mundo
Tendemos a ver o xamanismo, o politeísmo e o paganismo em geral com certa desconfiança, particularmente no Ocidente. O que o monoteísmo sempre nos ensinou é que os pagãos são incapazes de perceber a mais básica das ideias: que tudo o que existe necessariamente surgiu de algo eterno e incriado, um Deus antes dos deuses... Entretanto, como já vimos, sempre existiram pagãos que sabiam perfeitamente disso, e devemos antes nos sentir orgulhosos destes sábios ancestrais, que muito antes dos hebreus já haviam chegado a tal concepção maravilhosa: a ideia de que há um Deus, uma substância ou ser incriado, anterior a tudo, causa primeira de tudo, o que se opõe ao nada... Aquele quem primeiro disse, quem sabe, “Eu sou”.
Como podemos ter alguma esperança de conhecer este Infinito? Ora, da mesma forma que temos esperança de um dia conhecer todas as leis da Natureza... A ciência nos ensinou, na verdade, uma lição que lhe era ainda muito anterior: separar o Infinito em pequenas partes, em aspectos e reflexos, para quem sabe um dia, estudando e compreendendo, amando e sentindo, uma a uma, cheguemos a uma compreensão melhor e mais profunda daquele Ser que tanto incomodou a Nietzsche: “Eu quero Te conhecer, Desconhecido” – disse o alemão quando ainda jovem, para uma plateia de jovens.
Assim como a ciência elaborou a Biologia, a Física, a Química ou a Neurologia, a mitologia elaborou o Soberano do Céu, Palas Atena, Hermes, Odin, Oxalá, e tantos outros deuses (e orixás) que são tão somente pequenas partes do Uno, aspectos do Infinito... Os deuses são o alfabeto com o qual a mente humana é capaz de reencenar, neste mundo objetivo, os fatos subjetivos de sua própria alma. Toda a mitologia é uma encenação da alma humana, toda a mitologia diz respeito a você: “Você venceu o seu monstro interior? Você morreu para seu lado animal, para renascer, três dias depois, como um novo ser?”.
Mas, seja este Grande Desconhecido quem for, talvez tenha tanta necessidade de nos amar, e reconhecer a si mesmo, através de nós, quanto nós temos esta necessidade ancestral de caminhar em sua direção – cada vez mais adentro. Nesta grande aventura, talvez também sejamos como o João no Pé de Feijão, que precisa escalar o axis mundi, e retornar com a galinha dos ovos de ouro... Ou talvez sejam precisas várias tarefas de Hércules, muitas e muitas aventuras, e inúmeras vidas.
Podemos então precisar de aliados, pois a longa jornada por vezes vai além de nossas capacidades humanas... E se o Grande Desconhecido não pode se revelar ainda, se é ainda muito arriscado que o vejamos face a face, sem estarmos amadurecidos para tal momento, quem sabe ele não nos ajude de outra forma?
Um software é uma sequência de instruções a serem seguidas e/ou executadas, na manipulação, redirecionamento ou modificação de uma informação ou acontecimento. Na mente divina existe tudo o que há, o Todo é mental. Na própria engenharia da realidade, ou mesmo no eixo que liga a Terra ao Céu, e o consciente ao inconsciente, pode sim haver um software rodando sem que o percebamos. Não fomos nós os programadores – os anjos podem ser robôs, portanto, mas robôs programados pelo Grande Arquiteto, o Programador dos programadores, o Deus dos deuses.
Eles são o Seu presente para esta grande aventura, e dizem que existem 72 deles a bailar pelo axis mundi. De vez em quando, um poeta vê uma de suas asas no céu, e de alguma forma sabe que não se trata apenas de um pássaro...

***

[1] O texto dos últimos 3 parágrafos foi retirado de um artigo de Pedro Burgos e Alexandre Versignassi para a revista Superinteressante, edição 290.

Crédito da imagem: Latajace

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28.1.13

O software angélico que roda no eixo do mundo, parte 2

« continuando da parte 1

E foram todos os dias de Enoque trezentos e sessenta e cinco anos. E andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus para si o tomou. (Gênesis 5:23-24).

Seriam os anjos e demônios seres como nós?
Se até agora tendemos a concluir que os deuses e orixás não poderiam ser seres pessoais, conquanto não poderiam haver passado por alguma espécie de evolução, o mesmo não necessariamente se aplica aos anjos e demônios.
É claro que nos mitos monoteístas, diz-se que os anjos foram criados como seres já perfeitos, servos eternos dos desígnios de Deus. Neste caso, seriam algo similar aos deuses, que operam as forças naturais. Mas o problema desta linha de pensamento é que esses mesmos mitos também nos contam que há alguns anjos que se rebelaram contra o Criador, e que desde então foram condenados a habitar o Inferno e, quem sabe, serem sempre maus, por toda a eternidade.
Com isso se quer dizer que o livre-arbítrio foi inventado, precisamente quando um anjo chamado Lúcifer (portador da luz) decidiu se rebelar contra a “programação” do Criador. Afinal, qualquer ser criado “já perfeito, pronto e acabado”, não passou por evolução alguma e, dessa forma, não é “perfeito” pelo seu próprio mérito, mas antes por alguma forma de “programação”. Tais anjos seriam então como robôs, autômatos sem vontade própria. Mas, se não teriam vontade, como diabos Lúcifer teve a vontade de contrariar seu Pai?
Eu penso que este problema tem duas soluções lógicas, e não mais do que duas: (a) Lúcifer na realidade também foi “programado” para contrariar a Deus, e tudo o que têm feito desde então, em realidade, é tão somente o que foi “programado” para fazer [1]; (b) Lúcifer na verdade seria um ser como nós, e sua decisão de contrariar ao Criador denota, metaforicamente dentro deste mito profundo, o estágio em que o ser se torna autoconsciente, que “desperta” para o conhecimento do bem e do mal, da vida e da morte, e para o fato de que possuí uma alma capaz de interpretar o mundo e fazer escolhas [2].
Ora, se ficarmos com a última opção (que, no meu entendimento, faz mais sentido), temos que anjos e demônios nada mais são do que espíritos, como nós mesmos, em maior ou menor grau de evolução cognitiva, moral e espiritual. Certamente pode parecer complicado “classificar” aos seres por sua suposta “evolução moral”; mas, na prática, é isto o que tentamos fazer todos os dias. Sempre que conhecemos algum novo amigo (ou inimigo), uma de nossas primeiras preocupações é tentar situar em que “nível de moralidade” ele opera. Claro que, muitas vezes, temos julgado errado [3], mas isto não significa que não exista uma distinção clara entre seres amorosos, sábios e morais, e seres indiferentes, ignorantes e imorais.
Antes, porém, de habitarem reinos fantásticos, acima ou abaixo do mundo, anjos e demônios talvez devam ser classificados pelo estado em que se encontram suas mentes, sua consciência, sua paz de espírito. Anjos seriam, portanto, aqueles seres com maior consciência da própria liberdade, e maior controle da própria vontade; ao passo que demônios seriam o oposto, ou seja: seres atolados num charco de desejos desenfreados, facilmente manipulados por vontades alheias, perdidos de si mesmos.

O que isto tudo quer dizer é isto aqui: anjos e demônios habitam mesmo este mundo, e não poderia ser diferente.

Os exus e as pambu njilas
Nas mitologias africanas (e, particularmente, na dos iorubás), deuses são chamados orixás, conforme já vimos. Pois bem, ocorre que no caso da umbanda sagrada, religião de origem brasileira [4], anjos e demônios são chamados de exus e pambu njilas. Exus nada mais seriam que espíritos como nós, no período entre vidas, do gênero masculino. Pombagiras seriam exus do gênero feminino (seu nome é uma corruptela do pambu njila, de origem angolana) [5].
Dessa forma, na umbanda, nem todo exu é demônio. De fato, a imensa maioria dos praticantes desta doutrina lida mesmo é com exus de amor e moral elevados – anjos, portanto.
Em todo caso, não devemos confundir os exus anjos e demônios com o Exu orixá (um dos deuses iorubás)...

O axis mundi
Me disseram que o termo Exu é derivado de “Eixo”, mas isto não posso confirmar. Em todo caso, é algo que faz sentido: o orixá Exu é o deus mensageiro, o responsável por fazer a conexão entre um mundo que está no plano com um outro mundo que está acima ou abaixo. No nosso caso, costuma-se dizer que Exu forma o eixo entre a Terra e o Céu, mas também poderia formar um eixo, igualmente, entre a Terra e o Inferno, dependendo de nossa intenção e vontade ao invocá-lo.
Desnecessário dizer que estas ideias de um axis mundi (Eixo do Mundo), e de deuses mensageiros que o percorrem, trazendo e enviando mensagens entre um plano médio e um superior (ou inferior), são abundantes em diversas mitologias. Geralmente, os deuses inventores da escrita (Toth-Hermes; Odin-Wotan) encontraram esta incrível descoberta exatamente enquanto viajavam através do Eixo, indo e retornando de um plano superior. Odin, por exemplo, chegou a se enforcar neste Eixo, que era a própria Yggdrasil (“o eixo do mundo”), e após alguns dias de “transe xamãnico”, trouxe o conhecimento das runas (forma de escrita) aos homens nórdicos.
Entretanto, isto vocês devem lembrar: dizíamos há pouco que os deuses eram forças da natureza, e não seres pessoais, que evoluem, como nós. Ora, e não é exatamente disto que se trata o orixá Exu? Uma força natural, um instrumento pelo qual nossas mentes conseguem entrar em estados alterados e acessar informações que antes nos eram ocultas?
No fundo, não importa muito ao médium ou magista se os deuses existem fora ou dentro de suas mentes... Na prática, o axis mundi poderia ser um pé de feijão mágico cujo caule gigantesco toca o próprio céu, ou o eixo interno da própria alma, que liga o plano médio, consciente, ao plano oculto, inconsciente. Dessa forma, se em nosso inconsciente há um reino celeste, ou infernal, isto depende unicamente de onde sintonizamos nosso pensamento e nossa vontade.

» Em seguida, finalmente, o software angélico...

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[1] Apesar de eu mesmo não acreditar na hipótese, admito que ela explicaria o fato de Lúcifer ser eternamente mau, sem a possibilidade de se arrepender: é que foi “programado” para assim o ser.

[2] Neste caso, o mito de Lúcifer teria vários outros paralelos na mitologia. Mesmo no próprio Gênese, o mito da Eva que comeu a fruta proibida da Árvore da Ciência do Bem e do Mal, seria essencialmente uma metáfora muito parecida. Talvez surgido num tempo próximo, mas em outra parte do mundo, temos o mito de Prometeu, o titã que roubou o fogo dos deuses, e depois foi punido. Não obstante, houve tempo de presentear este fogo aos homens, o que os tornou “superiores” aos demais animais: ou seja, eram, conforme Adão e Eva, os primeiros seres humanos conscientes de si mesmos e da própria liberdade (vontade). Também haviam conquistado a ciência do bem e do mal (graças ao sacrifício de um ser “sobre-humano”, mas que foi punido pelos deuses por sua ousadia).

[3] O massacre dos indígenas da América pelos colonizadores vindos da Europa é um belo exemplo. Os colonizadores se julgavam “seres de moral superior”. Mas por tudo o que fizeram, pelo exemplo que foi dado, fica muito claro que os ditos “selvagens” estavam, muitas vezes, num estágio moral muito mais elevado do que os ditos “civilizados”.

[4] Surgida há pouco mais de um século, em Niterói, Rio de Janeiro.

[5] Muitas vezes a umbanda também lida com espíritos que, em sua última encarnação, não eram de origem africana, mas indígena. Normalmente são chamados de caboclos ou cabocladores, e não de exus. Eles são o que restou dos indígenas devastados pelos “homens civilizados”. E eles nos perdoaram: voltam para nos ajudar, sobretudo, por amor.

Crédito das imagens: [topo] Fantasy Flight Games; [ao longo] Tetra Images/Corbis

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9.2.12

Gandalf Play

» Parte da série: Play a myth

Joseph Campbell dizia que um mito é algo que nunca existiu, mas que existe sempre. Seres mitológicos, a despeito de em alguns casos se basearem em personagens históricos reais, são em verdade conjuntos de símbolos. Alguns os usam como lembrete de feriados, outros para sintonia de bons pensamentos. Apenas alguns poucos os incorporam, e tentam ser como heróis, fazendo de sua vida uma aventura épica...

Jogue, represente, interprete, brinque: play a myth.

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Crédito da imagem: Rafael Arrais + East Mokey

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