Pular para conteúdo
9.3.12

Xamãs ancestrais, parte 2

« continuando da parte 1

Ayahuasca é uma bebida produzida a partir de duas plantas amazônicas: Banisteriopsis caapi e Psychotria viridis. O nome significa, literalmente, a “Videira dos Mortos”. Os cientistas sabem que a ayahuasca produz visões, principalmente por ser rica em DMT, um alucinógeno de ação extremamente rápida. Entretanto, os xamãs ancestrais têm conhecimento considerável do que ocorre após bebermos a ayahuasca, enquanto os cientistas não, principalmente porque a maioria jamais experimentou.

Um antropólogo em Vênus

O tempo passa sem que eu tenha noção. Fecho meus olhos, e um grande desfile de visões subitamente se inicia... Começo a prestar atenção em uma imagem em particular, ou, mais exatamente, a uma área de meu campo visual interno, onde complexos padrões geométricos entrelaçados provam, numa inspeção mais cuidadosa, ser parte de uma grande serpente, aparentemente viva, com sua cabeça e sua cauda afastadas de mim. Posso distinguir as escamas individuais, retangulares, como janelas... Existe um círculo no centro de cada retângulo, círculos púrpura, girando como fogos de artifício, brilhando com a luz escura de um outro mundo onde agora estou... Aqui? Onde é aqui? Por que é um lugar onde vejo cores que não existem na vida cotidiana?

O xamã recomeça a entoar seu ritual. A cantoria inicia em tom mais baixo, mas aumenta, e aumenta... As serpentes são muito grandes, e todo corpo, da cabeça à cauda, é claramente visível para mim. Agora as cores castanho e amarelo predominam. Lendo sobre o assunto, antes de vir a Amazônia, aprendi que pessoas em regiões e culturas diversas, de todo o mundo, encontram serpentes na jornada da ayahuasca... Elas agora formam padrões de rodas e espirais entrelaçados, se fundem e depois se dividem em duplas individuais serpenteando em volta uma da outra, como a dupla hélice do DNA... A náusea chega com força e estou agora vomitando na escuridão...

Saio do círculo ritual e volto após vomitar, agora minha cabeça está aliviada. Então, de repente, dois seres completamente feitos de luz branca surgem a minha frente. São pequeninos – cerca de 1,20m de altura –, mas estou ciente apenas da parte superior de seus corpos, não vejo os pés. Sua faces têm mais ou menos o formato de um coração, com grandes testas e queixos estreitos e pontudos. Narinas e bocas, se é que as tem, são apenas fendas em suas feições suaves. Seus olhos são completamente negros e aparentemente sem pupilas... Eles parecem querer se comunicar. A tentativa de comunicação, que me parece telepática, não está funcionando por alguma razão. Sinto ansiedade e... frustração da parte deles. A náusea retorna, os seres de luz se vão, eu volto a vomitar na escuridão...

Os três últimos parágrafos são trechos (selecionados por mim) dos depoimentos de Graham Hancock [1], pesquisador e escritor britânico que resolveu participar dos rituais xamânicos de povos indígenas da Amazônia e de regiões da África. Em seu monumental Sobrenatural, Hancock parte da análise dos signos e símbolos pictóricos da arte rupestre para fazer uma associação fortuita desse tipo de imagem com as visões “psicodélicas” usualmente experimentadas em tais rituais, pelo menos por aqueles que efetivamente experimentam a ayahuasca, a iboga, e outras bebidas rituais que “trazem visões do outro mundo”. Esta associação não foi ideia original sua, mas sim de David Lewis-Williams, um professor, antropólogo e pesquisador de arqueologia cognitiva sul africano.

Segundo o modelo neuropsicológico de Lewis-Williams, a real origem da arte rupestre e, por conseguinte, da religião primal dos povos da pré-história, poderia ser mais profundamente explicada e compreendida se levarmos em consideração que o que estava sendo ali representado eram visões provenientes de estados de transe e consciência alterada, originários de experiências rituais extremadas (como danças até a exaustão e/ou a repetição de ritmos musicais durante horas e horas de ritual) e, principalmente, da ingestão de bebidas e substâncias naturais alucinógenas. Esta era, segundo sua teoria, a maneira mais simples e lógica de justificar o porquê da arte rupestre ter características tão enigmáticas, não encontradas na natureza, mas que estão representadas tanto em cavernas europeias quanto em inúmeras regiões africanas, distantes milhares de quilômetros, e milhares de anos na história, umas das outras.

Diferentemente das outras teorias propostas pelos antropólogos em quase um século, esta está baseada em evidências bastante sólidas... Que por muito pouco não se perderam para sempre.

Até 1927, ano em que foi dada a última permissão oficial para se caçar bosquímanos, era legal para os brancos da África do Sul assassinar os san, cujas partes dos corpos eram exibidas orgulhosamente como troféus pelos matadores... Não, os bosquímanos, os san, não eram animais, eram seres humanos, como nós. Na realidade, faziam parte de uma das culturas mais ancestrais e persistentes de nossa história, e até meados do final do séc. XIX, ainda praticavam a arte rupestre. Os san eram, portanto, os continuadores de um estilo de arte que perdurou por dezenas de milhares de anos, até que fossem praticamente extintos pelos “grandes colonizadores racionais”. Poderíamos saber, afinal, se a teoria de Lewis-Williams faz mesmo sentido, desde que encontrássemos algum xamã san ainda vivo, e que ainda conhecesse os antigos rituais que originavam as visões representadas na arte rupestre. Alguns xamãs, algum conhecimento, ainda restou, mas o povo san não é mais o mesmo – seu espírito se foi, e com ele, qualquer esperança para que a arte rupestre pudesse continuar sua longa jornada.

Felizmente, alguma evidência restou, mais precisamente cerca de cem cadernos com notas escritas a mão, descrevendo a cultura e os rituais do povo san no final do séc. XIX, quando ainda praticavam sua arte nas pedras e cavernas. As entrevistas foram conduzidas pelo filólogo alemão Wilhelm Bleek e sua cunhada, Lucy Lloyd, dois acadêmicos muito adiante do seu tempo, que anteciparam com muita clareza a aniquilação que então pairava sobre o povo e a cultura san. O conteúdo de seu estudo permaneceu oculto da Academia até a década de 1930, quando um jornal sul africano fez uma breve referência aos cadernos. Apenas em meados das décadas de 1960 e 1970 os cadernos foram novamente mencionados na mídia especializada, até que Lewis-Williams finalmente colocou seus olhos neles: “mas que estranha experiência, folhear 12 mil páginas de cadernos de notas ancestrais, sobrenaturais” – descreveu o antropólogo acerca do evento.

De posse dos registros de uma cultura ancestral perdida, Lewis-Williams finalmente tinha a evidência que faltava para talvez a única teoria científica sólida jamais postulada acerca da real origem dos signos rupestres. Ainda assim, quando Hancock encontrou pessoalmente com o professor sul africano, não resistiu a lhe indagar:

“Afinal, o senhor já experimentou entrar em transe por meio de danças e batuques ritmados de tambor, ou jejuou por 40 dias até delirar, ou tomou o chá da ayahuasca ou qualquer outra substância natural psicoativa?”

Diante da negação veemente, Hancock perguntou o porquê, e Lewis-Williams deu de ombros:

Não quero fundir minha cuca e não estou nem um pouco interessado na experiência.”

Vênus, com sua superfície uniforme e seu brilho incomparável no céu noturno, sempre despertou o sonho da humanidade. A estrela vespertina parecia, certamente, um céu prometido, um mundo de luz... Entretanto, hoje sabemos que sua superfície é inóspita e, na realidade, bem mais próxima dos lagos de enxofre do inferno. Assim, também sabemos, ocorre com as drogas: num primeiro momento são estupendas, maravilhosas, mas depois viciam, e podem nos levar a ruína psíquica... Por tudo o que sabemos acerca delas, não é difícil compreender os motivos que levaram Lewis-Williams a evitar os chás alucinógenos e os estados de transe.

A questão é: os povos antigos sabem muito bem desse perigo, e por isso mesmo jamais se utilizaram de suas plantas sagradas como diversão ou mera busca do prazer. Seus rituais sempre foram controlados, e seus xamãs sempre foram raros, escolhidos a dedo por sabe lá qual entidade... E, exatamente por isso, por terem sido tão poucos e tão especiais, hoje praticamente não existem mais.

Os xamãs ancestrais já se foram há muito, e nem mesmo entre os san restou algum. O espírito de um povo desaparece, e o deixa perdido, atordoado, procurando o suicídio, há menos que tal espírito retorne para os auxiliar, como a estrela da manhã... Mas não é fugindo de Vênus que vamos vislumbrar qualquer esperança de um dia os compreender melhor. Tal qual a ciência enviou sondas robô a estrela vespertina, e hoje a compreende muito mais do que há séculos atrás, os exploradores da mente não têm outra alternativa que não mergulhar neste outro mundo, repleto de serpentes, padrões geométricos, seres de luz e armadilhas na escuridão...

Mas, para tal, sondas e robôs não nos servem, precisamos realizar a travessia por nós mesmos. Graham Hancock teve a coragem de mergulhar no próprio lago em que empreendeu seu extensivo estudo – ele é o nosso antropólogo em Vênus.

» Na continuação: Quimeras mentais, homens feridos, e o delicioso Vin Mariani...

***

Leitura recomendada: Sobrenatural, de Graham Hancock (Nova Era).

[1] Retirados do livro recomendado acima.

***

Crédito das imagens: [topo] Susan Seddon Boulet (mulher xamã dançando em ritual); [ao longo] Pinturas do xamã peruano Pablo Amaringo, que serviu também como “guia” de Hancock nos rituais com ayahuasca.

Marcadores: , , , , , , , , , , , , ,

5.3.12

Xamãs ancestrais, parte 1

Arte rupestre é o termo dado às mais antigas representações artísticas conhecidas, algumas datadas do período Paleolítico Superior (40mil a.C.), gravadas em abrigos ou cavernas, em suas paredes e tetos rochosos, ou também em superfícies rochosas ao ar livre.

A capela dentro da terra

Foi uma criança quem as viu pela primeira vez. Maria de Sautuola tinha apenas 8 anos, mas já havia entrado em uma ou outra caverna espanhola com seu pai, que era um arqueólogo amador – ou seja: que trabalha por amor. Por volta de 1870, muitas peças de arte portátil (ossos gravados, galhadas de cervo, marfim de mamute, etc.) foram encontradas em diferentes cavernas na França, sabidamente habitadas por nossos ancestrais do Paleolítico Superior, e era exatamente este tipo de objeto que Marcelino Sanz de Sautuola esperava encontrar naquela relativamente pequena caverna em Altamira, a 30Km de Santander, na Espanha. Não era a primeira visita de Sautuola a caverna descoberta acidentalmente por um capataz da propriedade de um latifundiário local, mas ele esteve sempre procurando objetos no solo, foi Maria quem primeiro teve a curiosidade de olhar para o alto, e as ver.

As pinturas rupestres nos tetos e paredes rochosas da caverna de Altamira estão entre as mais belas de toda a arte da pré-história. Alguns já a chamaram de Capela Sistina do Magdaleniano (período entre 16,5 e 14 mil anos atrás). Imaginem o espanto de Sautuola ao conceber pela primeira vez a dimensão daquela descoberta: bisões realisticamente salpicados por todas as partes da rocha, numa cor surpreendentemente viva a despeito dos milhares de anos passados desde que foram cuidadosamente pintados por artistas ancestrais. Como que espectros a flutuar no ar, eles parecem até hoje nos convidar a uma viagem há uma outra era – quando a alma humana estava presente em cada aspecto da vida, e era reverenciada como aquilo que há de mais sagrado, de mais profundo, de mais primordial...

Embora Sautuola estivesse absolutamente certo acerca da antiguidade da arte de Altamira, ele cometeu três erros quando foi tentar convencer os acadêmicos do final do séc. XIX: o primeiro era ser espanhol; o segundo foi descobrir a caverna na Espanha; o terceiro foi ser um arqueólogo amador. Todas as peças de arte do Paleolítico Superior haviam sido descobertas em cavernas francesas e, sem muita surpresa, as maiores autoridades acadêmicas eram francesas. Emile de Cartailhac e Gabriel de Mortillet eram, na época, os maiores nomes na área. Entusiastas da teoria de Darwin-Wallace e do racionalismo em voga, defendiam que a arte pré-histórica deveria obrigatoriamente ser de técnica e qualidade geral bastante inferior a arte mais moderna, como do Renascimento. Não poderia entrar na mente destes distintos senhores o fato de que nossos ancestrais poderiam pintar tão realisticamente, em cores tão vivas, em formas tão artisticamente impactantes, há dezenas de milhares de anos antes sequer da fundação da primeira civilização, antes da escrita, antes de quase tudo.

Disse Mortillet, tendo visto apenas reproduções das pinturas, sem jamais ter estado pessoalmente em Altamira: “Basta olhar para os desenhos e podemos ver que se trata de uma farsa, nada mais que um embuste. Eles foram feitos e exibidos para todo o mundo de modo que cada um possa dar uma gargalhada à custa dos paleontólogos e pré-historiadores que acreditariam em tudo”. Cartailhac se alinhou ao colega francês, igualmente sem jamais sequer ter viajado a Altamira, supôs com certa convicção que tudo não passava da obra de pastores cristãos da Idade Média, que gostariam que acreditássemos que os ancestrais do Magdaleniano veneravam, quem sabe, “deuses bisões”. Sautuola foi vítima de uma das maiores campanhas de difamação organizadas pela Academia. Segundo o seu neto relembrou já anos após sua morte, “todos os grandes cientistas europeus da época, liderados por Mortillet, e com apenas poucas exceções na Espanha, feroz e maldosamente atacaram a tese de meu avô e acusaram-no de ser um impostor”.

Somente à partir de 1895, quando gravações e pinturas rupestres foram sendo descobertas também em cavernas francesas, com um estilo muito similar ao de Altamira, foi que Cartilhac tomou coragem de ir, finalmente, até a caverna. Em sua volta, escreveu numa revista conceituada um artigo intitulado A gruta de Altamira: mea culpa de um cético. Cartilhac estava então totalmente convencido de que sim, Sautuola tinha razão, desde o início, e a arte pré-histórica poderia, sim, ter uma qualidade técnica surpreendente, muito além do que era cabível se conceber segundo as teorias da época. E pediu sinceras desculpas por ter auxiliado na campanha de difamação de Sautuola: era tarde, o arqueólogo amador já havia morrido, e coube a sua filha continuar seu trabalho. Enquanto esteve na Espanha, Cartilhac escreveu a um amigo francês: “Gostaríamos que você estivesse aqui conosco. Altamira é a mais linda, a mais estranha e a mais interessante de todas as cavernas pintadas”.

Cartilhac morreu em 1921, mas suas teorias já haviam entrado em declínio muito tempo antes, permitindo que seu protegido, o abade Henri Breuil, assumisse o seu lugar. Cada uma das contribuições de vulto que Breuil deu à disciplina da arqueologia até sua morte, em 1961, foram posteriormente descartadas pelos acadêmicos modernos como inteiramente inúteis. As ideias de Breuil, bem como as daqueles outros que ele cooptou ou apoiou, eram genuinamente ruins e foram há muito tempo refutadas pela evidência empírica. Não existem muitos campos em que alguém possa definir dessa maneira todo o saber acumulado de uma disciplina científica em quase 60 anos, mas a pesquisa da arte rupestre é uma delas...

Em todo o mundo atual existem umas poucas centenas de acadêmicos especialistas estudando arte pré-histórica. Os membros dessa “comunidade intelectual” assumem uma pesada responsabilidade – mais de 90% de todas as cavernas pintadas e gravadas do Paleolítico Superior estão permanentemente fechadas ao público, e os pesquisadores, com liberdade de entrar e sair, usufruem de um monopólio da pesquisa básica. Isso lhes permite controlar boa parte da produção de conhecimento sobre o assunto, e assegura que a história que nossa sociedade ouve acerca da vida de nossos ancestrais nas cavernas vá de encontro a sua aprovação. Em um mundo científico racionalista isso significa, obviamente, que toda e qualquer menção a religião, magia, estados alterados de consciência, entidades sobrenaturais e/ou espíritos é permanentemente proibitiva em se tratando de uma teoria acerca das origens e do real significado dos signos da arte rupestre.

Após Breuil, muitas outras teorias estiveram em voga. Já se tentou associar os animais representados na arte rupestre aos totens, mas depois se percebeu que, se assim fosse, cada caverna haveria de ter apenas um único totem animal representado (a caverna do cabrito-montês, a caverna do bisão, etc.), mas vemos uma imensa variedade de animais na grande maioria dos sítios relevantes. Chegaram a afirmar que nossos ancestrais estavam apenas se divertindo, pintando por pintar, para “matar o tempo”, uma grande diversão... Porém, por mais que seja uma ideia “alegre”, fica difícil explicar porque a arte rupestre é encontrada geralmente em cavernas de difícil acesso e, mesmo dentro de tais cavernas, nas áreas mais remotas, algumas das quais só era possível pintar deitado ou agachado, e onde até hoje os exploradores se sentem desconfortáveis em passar apenas algumas dezenas de minutos (isso com lanternas e vestimenta adequada, coisa que os ancestrais não dispunham). Também se falou em uma “magia da caça”, uma análise pobre e superficial da suposta magia em si, que serviria apenas para auxiliar na caça dos animais pintados e gravados nas rochas. Mas hoje se sabe que muitos dos animais representados na arte rupestre sequer eram caçados, sendo que alguns sequer existiam nas imediações (para não falar nos animais que jamais existiram).

O que significam, afinal, homens com cabeça de pássaro, pássaros com pernas de homens, homens se transformando em animais, e animais, em ainda outros animais... Flutuando pela rocha antiga como seres etéreos, sem um sentido de horizonte e perspectiva... O que significam os “homens feridos”, transpassados por dezenas de lanças e flechas, homens a sangrar pelo nariz, a dançar em posições estranhas... E os padrões geométricos, os pontos, as linhas, os zigue-zagues, as serpentes surgindo caoticamente de imagens abstratas. Porque diabos, afinal, a arte rupestre parece mais uma obra de Kandinsky?

Para responder a tais perguntas com alguma sincera esperança de efetivamente chegar a alguma conclusão mais útil que as do último século da arqueologia moderna, um homem precisou, afinal, fazer o que os xamãs ancestrais faziam: ele bebeu do seu chá, e adentrou um outro mundo, dentro de sua própria mente.

» Na continuação, as visões de Graham Hancock...

***

Leitura recomendada: Sobrenatural, de Graham Hancock (Nova Era).

***

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (arte rupestre na caverna de Altamira, Espanha); [ao longo] Sisse Brimberg/National Geographic (arte rupestre na caverna de Lascaux, França)

Marcadores: , , , , , , ,

19.11.11

Egito perdido, Egito reencontrado

Texto de Rose-Marie e Rainer Hagen em "Egipto: Pessoas – Deuses – Faraós” (Ed. Taschen [Portugal]), tradução de Maria da Graça Crespo – Trechos das pgs. 218 a 221. Os comentários ao final são meus.

O incêndio da biblioteca de Alexandria teria destruído 700.000 documentos referentes à civilização faraônica; aí se encontrava, entre outros, o único exemplar completo da lista dos reis, redigido pelo sacerdote Manétho. Considera-se que esta catástrofe pôs termo ao legado do Antigo Egito, ainda que dela se ignore a data precisa. Em 48 a.C., quando César mandou incendiar os seus arsenais, ter-se-ia propagado o fogo ao célebre templo-biblioteca? Teria sido em 391, quando o imperador romano Teodósis I, querendo impor o cristianismo como religião oficial, mandou saquear os templos pagãos? Segundo uma terceira visão, os manuscritos – ou o que deles restava – foram queimados por ordem do califa Omar.

Talvez que a biblioteca tenha sido por três vezes presa das chamas. Os manuscritos são material tão combustível que não é difícil admiti-lo. Mas nada proíbe considerar também que este incêndio tenha sido mais fictício que real [1]. As gerações seguintes se recusaram a aceitar o fim de uma grande e misteriosa tradição que [...] havia se arrastado através dos séculos.

Com efeito, as ideias religiosas dos Antigos Egípcios estavam em vias de desaparecer, e a expansão agressiva do cristianismo, e depois do Islã, aceleraram este processo. No Antigo Egito, a vida espiritual estava ligada ao templo. Assim que o clero deixou de ser legitimado ou mantido pelos soberanos locais ou pela população, a base material desapareceu.

Os sacerdotes desapareceram e o conhecimento dos hieróglifos e de outras escritas egípcias extinguiram-se com eles [2]. Foi o declínio da religião, e não as chamas, a causa do termo deste universo.

Uma herança misteriosa
Na Itália, particularmente em Roma, o culto de Ísis, originário do Egito, popularizou-se durante muito tempo, e os monumentos egípcios continuaram a fascinar os viajantes. [...] O imperador Augusto, no ano de 10 a.C., mandou que pela primeira vez se transportasse um obelisco para Roma, que hoje se encontra na Piazza de Popolo. Ergue-se em frente a São Pedro, e a cruz que lhe ornamenta o cimo assinala, de longe, que o cristianismo domina todas as outras religiões, ainda que podendo considerar-se outra interpretação, visto que os ensinamentos cristãos se apoiam na sabedoria egípcia: numerosas imagens e histórias bíblicas são provenientes do Nilo [3].

Os Egípcios pensavam que Deus tinha formado o homem com barro, concepção esta que se encontra no Antigo Testamento. O inferno cristão lembra o submundo egípcio, com os perigos e os castigos que espreitam os defuntos, e os faraós subiram ao céu anteriormente a Cristo [4]. O príncipe da Ressurreição era bem conhecido dos Egípcios, graças ao exemplo de Osíris despedaçado, cujos bocados foram reunidos por Isís, a grande Mãe, tal como Maria, venerada pelos católicos. As similaridades na concepção de Deus são notáveis: o Cristo, cordeiro pascal; a pomba do Espírito Santo correspondente à tradição egípcia, segundo o que os deuses se oferecem sob a forma animal. Quanto à Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo – toda ela é simples e tipicamente egípcia – as divindades manifestam-se sob diferentes formas, são conteúdo de uma e de outra e reagrupam-se preferencialmente em tríades [5].

Os Egípcios já contavam histórias que nos parecem inseparáveis da Natividade bíblica, como por exemplo a deusa Ísis, que prestes a ser mãe, procura um albergue, e, rejeitada por várias grandes damas, deu à luz ao seu filho no pobre abrigo de uma filha de lameiros. Ou como a de Quéops, que, como Herodes, quis mandar matar três dos seus filhos porque uma predição anunciou que eles se disputariam. No que diz respeito aos símbolos visuais, a cruz copta, a dos cristãos egípcios, é descendente direta da cruz alada, a chave da vida dos Egípcios [6].

Seria possível prosseguir indefinidamente por esta via. Estes exemplos não questionam a essência dos ensinamentos cristãos, mas abalam a concepção da Igreja, segundo a qual os textos bíblicos teriam sido, por assim dizer, ditados por Deus. Os historiadores da região sabem desde há muito que nesses textos se encontra algo do legado egípcio, e sem que os crentes tenham consciência disso, as ideias herdadas da civilização faraônica mantêm-se vivas.

A Terra negra
Os Egípcios também inventaram o calendário, dividindo o dia em 24 horas e o ano em 365 dias. Resolveram alguns problemas matemáticos e redigiram listas de doenças com as respectivas terapias. Os seus conhecimentos foram transmitidos e evoluíram por intermédio dos Gregos e dos Romanos. Mas o seu ideal de equidade e retidão, exemplar no plano da vida social, é pelo menos igualmente importante. Maât simboliza a justiça à qual todos os homens estão sujeitos – particularmente os reis – e ensina que a justiça deve ser exercida independentemente do poder. Na Europa, a deusa continua a existir sob os traços da Justiça. Nas democracias ocidentais a justiça é devida, a par do governo e do parlamento, como a terceira potência independente no centro do Estado.

Os Egípcios mostraram-nos o caminho de uma outra herança do Egito faraônico que é a alquimia que visa entre outros objetivos, fabricar o elixir da imortalidade. Este desejo de imortalidade explica a concepção egípcia da preservação do corpo defunto, que será reanimado pela alma no Além.

Vários símbolos da alquimia são também egípcios: a serpente ouroboros que morde a cauda simboliza a eternidade, e a fênix que renasce das próprias cinzas representa a ressurreição. Alexandria foi considerada o berço da alquimia. Seu pai era o deus Hermes Trimegisto, que se identifica com Toth, deus egípcio da Sabedoria e da Escrita, aquele que guia as almas no submundo. A química, tal como nós a consideramos, desenvolveu-se a partir das experiências e das técnicas dos alquimistas. Aliás, o seu nome evoca a sua origem. Kemet significa em egípcio arcaico, Terra negra; Kemet é lodo negro dos campos do Nilo, e o nome que seus habitantes deram ao Egito [7].

***

Comentários
Este livro que faz parte das comemorações de 25 anos da Taschen (1980-2005) foi concebido para ser um belo livro de arte repleto de fotos espetaculares da arte e arquitetura egípcias, mas o estilo do texto dos autores combinado com sua minuciosa pesquisa história, particularmente sobre detalhes da vida cotidiana dos Egípcios (o que bebiam, o que comiam, para quem rezavam, etc.), fez com que acabasse se tornando ao mesmo tempo um surpreendente conjunto de belos textos e imagens.

[1] Independente do legado faraônico ter ou não sido extinto por conta da destruição da grande biblioteca, fato é que sua destruição ocorreu (mesmo que em vários incêndios em separado), e que com ela se perderam grandes escritos não só dos egípcios, como dos gregos – por exemplo, Aristarco de Samos já previa na época que os planetas giravam em torno do Sol, a perda de sua obra atrasou em muito o desenvolvimento da astronomia.

[2] Somente em 1822 o jovem e genial linguista francês Jean-François Champollion decifrou a escrita em hieróglifos a partir de comparação com um mesmo texto em grego, na famosa Pedra de Roseta. Estava então fundada a egiptologia. Segundo alguns reencarnacionistas de renome, Champollion fora ele próprio um sacerdote egípcio em vidas passadas...

[3] Como ficará bem demonstrado no texto que se segue, em realidade as guerras religiosas conseguem que uma igreja seja vitoriosa sobre um território (e isso, obviamente, quase nada tem a ver com religião), mas raramente os mitos antigos são suprimidos, na verdade são incorporados as novas doutrinas dominantes, sem jamais desaparecer por completo. Considerar que o cristianismo se baseia numa doutrina que teoricamente condena o paganismo é de uma ironia monumental...

[4] A grande diferença entre o Hades e o Inferno, é que no primeiro os sofrimentos são proporcionais aos pecados, enquanto que no último ladrões de galinha e assassinos aparentemente sofrem igualmente a mesma punição (algo como queimar eternamente num lago de fogo, sem jamais perecer).

[5] Aqui foram citados Osíris e Ísis, que geram um filho: Hórus. No hinduísmo temos a trindade de Brahma, Vishnu e Shiva. Em mitologias antigas pelo mundo todo veremos diversos agrupamentos parecidos.

[6] É de uma infelicidade tremenda que sejamos obrigados a ver a chave da vida manchada pelo sangue de um grande sábio ainda crucificado nela própria. E mais triste ainda vermos a glorificação dessa imagem de sofrimento.

[7] E eis que mesmo na mitologia sagrada, tanto quanto na alquimia e na química, nada se perde, mas tudo se renova e se transforma.

***

Crédito das imagens: [topo] Corbis Art (escultura do deus Osíris); [ao longo] Kenneth Garrett/National Geographic Society/Corbis

Marcadores: , , , , , , , , , , , ,

19.6.11

Filhos de neandertais

Há muito tempo se sabe que os neandertais são uma espécie extinta, do gênero homo, que habitaram o Oriente Médio e a Europa desde cerca de 300 mil anos atrás. Também por muito tempo acreditou-se que os neandertais eram uma "espécie inferior" ao homo sapiens – chamados homo neanderthalensis –, e que eram seres quase irracionais, praticamente “homens das cavernas”, que sequer tinham a capacidade de falar qualquer linguagem. Segundo essa crença, a extinção dos neandertais, há cerca de 29 mil anos atrás, estaria explicada pela competição com o homem moderno na medida em que este avançava para ocupar todo o globo, incluindo as terras nativas onde os neandertais se desenvolveram por milhares de anos.

Em 1856, três anos antes da publicação de “A origem das espécies”, do co-autor da teoria da evolução, Charles Darwin, foram encontrados os primeiros fósseis de neandertal numa gruta do pequeno Vale de Neander, na Alemanha [1]. Este vale, que também emprestou seu nome a própria espécie neandertal, foi assim batizado em homenagem a Joachim Neander: pastor e compositor do séc. XVII, autor de cânticos religiosos ainda hoje populares entre os protestantes alemães. Consta que ele gostava de procurar inspiração neste vale, então com uma paisagem idílica. Numa tradução para o português, o nome deste vale seria Vale do Homem Novo. Numa feliz coincidência, os neandertais não poderiam ter sido batizados por nome mais apropriado – os homens novos.

Para compreender como a mesma ciência que um dia classificou os neandertais como “homens das cavernas”, recentemente “desmistificou” esta crença, e descobriu evidências de uma espécie que, em sua época, era provavelmente tão ou mais desenvolvida que o homo sapiens, precisamos antes voltar ainda mais no tempo...

Uma comparação moderna do DNA de hominídeos (espécies ancestrais do homo sapiens) e humanos vivos sugere que o homo sapiens surgiu entre 120 mil e 220 mil anos atrás na África. Um grupo de talvez apenas 10 mil deles então deixou o continente entre 50 mil e 100 mil anos atrás, talvez pelas mudanças climáticas ocasionadas por uma erupção vulcânica monumental na ilha de Sumatra (há cerca de 71 mil anos), talvez simplesmente porque decidiram explorar o horizonte à frente.

Esse movimento migratório não deve ser compreendido como um movimento exploratório, mas como uma lenta migração onde a maior parte dos descendentes terminava por permanecer nas terras próximas de onde nasceram, enquanto apenas alguns poucos continuavam seguindo adiante... Já os neandertais evoluíram a partir de um ancestral comum dos homo sapiens, provavelmente o homo erectus, e já haviam chegado a Europa e ao Oriente Médio quando os primeiros exploradores sairam da África.

Depois de um breve período de coexistência no Oriente Médio, onde tanto o homem moderno quanto os neandertais geraram filhos uns dos outros, os homo sapiens partiram para dominar a Ásia, a Oceania e as Américas – através da Ponte Terrestre de Bering, que hoje derreteu. Os neandertais preferiram, por alguma razão, continuar no próprio Oriente Médio e na Europa. Nalgum dia histórico da pré-história, os homo sapiens finalmente decidiram adentrar a Europa, e encontraram seus primos entre uma e outra caçada. O que terão pensado uns dos outros? Teria a tradição oral de suas tribos selvagens conservado as histórias de suas origens em comum? É quase certo que não – é quase certo que se entenderam como seres completamente distintos.

Os neandertais desenvolveram-se em homens e mulheres mais atarrancados, com braços e pernas menos alongados, para que pudessem conservar melhor o calor corporal no frio europeu do Pleistoceno. Seus narizes eram mais largos e sua faces, quem sabe, mais “grotescas”. Os cérebos, porém, eram maiores e algumas gramas mais pesados – os neandertais tinham aproximadamente “uma bola de bilhar” a mais de massa cerebral, em relação aos seus primos.

A teoria de que os neandertais careciam de uma linguagem complexa foi difundida até 1983, quando um osso hióide de neandertal foi encontrado na caverna Kebara, em Israel. O osso encontrado é praticamente idêntico ao dos humanos modernos. O hióide é um pequeno osso que segura a raiz da língua no lugar, um requisito para a fala humana e, dessa forma, sua presença nos neandertais implica alguma habilidade para a fala.

Muitos acreditam que mesmo sem a evidência do osso hióide, é óbvio que ferramentas avançadas como as do período musteriense, atribuídas aos neandertais, não poderiam ser desenvolvidas sem habilidades cognitivas incluindo algum tipo de linguagem falada. Pesquisadores identificaram genes extraídos de fósseis que comprovariam que os neandertais possuíam capacidade de falar. Sua fala teria sido lenta, compassada e naralizada.

Certamente os neandertais foram muito mais do que “homens das cavernas”. Porém, teriam sido eles mais inteligentes e avançados que os homo sapiens de sua época [2]? Se este foi o caso, como diabos teriam sido extintos? Porque afinal hoje continuamos nos entendendo como homo sapiens, e não neandertais?

Em 2008, cientistas anunciaram a decodificação do genoma mitocondrial do neandertal. Na época, concluíram que as evidências genéticas indicavam que os neandertais provavelmente não se misturaram com o homo sapiens, apesar de terem convivido com seres humanos modernos por milhares de anos. O genoma mitocondrial, porém, é só uma amostra do DNA de um organismo... Nos anos seguintes, até meados de 2010, cientistas sequenciaram 60% do genoma completo dos neandertais e compararam o resultado com o genoma de cinco pessoas de diferentes partes do mundo (África do Sul, África Ocidental, Papua-Nova Guiné, China e França).

Os autores do trabalho, detalhado em dois artigos na revista “Science”, afirmam que os humanos modernos e os neandertais “muito provavelmente” se cruzaram “em pequena medida”. A área em que os esparsos encontros românticos ocorreram, provavelmente, foi o Oriente Médio, à medida que o homo sapiens saía da África em direção à Ásia. De 1% a 4% do genoma do homem moderno parece ser dos neandertais, estimam os autores [3]. Apenas alguns africanos parecem possuir um genoma “completamente humano”, todos os outros povos da Terra têm traços do genoma neandertal.

Teriam os neandertais sobrevivido em nós? Seremos nós os filhos dos neandertais? Sabe-se que os registros de fósseis neandertais foram sumindo gradualmente na linha de tempo pré-histórica – primeiro, do Oriente Médio, depois do oeste europeu, então o norte e a região central, até que os últimos fósseis apontam para a península Ibérica, há cerca de 29 mil anos. O que teria “varrido” os neandertais para oeste, até sua provável extinção?

Isso, não se sabe ao certo. Mas eis que ainda temos uma última e extraordinária evidência de que os neandertais encontraram uma forma de, literalmente, permanecer entre nós: O menino do Lapedo foi descoberto em 1998, numa expedição ao Abrigo do Lagar Velho, na cidade portuguesa de Leiria, para estudar algumas pinturas rupestres descobertas anteriormente.

A relevância deste achado arqueológico, com cerca de 24.500 anos, se dá pelo fato do fóssil ter pertencido a uma criança que teria nascido do cruzamento de um homo neanderthalensis com um homo sapiens, o que revelaria que espécies diferentes de humanóides poderiam cruzar entre si e gerar descendentes. Com o menino do Lapedo podemos também sugerir que o neandertal desapareceu não por extinção, mas sim por interação entre eles e os homo sapiens, e uma absorção do mesmo.

Nós somos, portanto, os verdadeiros filhos dos neandertais. Carregamos em nós os registros de seus antepassados, e alguma parte de nosso DNA vêm deles... Talvez, quem sabe, a melhor parte.

***

[1] Na verdade partes de um esqueleto neandertal foram anteriormente encontradas na pedreira de Forbes, em Gibraltar, ainda em 1848. Mas por alguma razão estranha, a descoberta dita “original” pela história da ciência, e também certamente a mais famosa – tanto que deu origem ao nome da espécie –, foi esta alemã.

[2] Autores mais radicais, cujas teorias são consideradas fantasiosas pela maioria da comunidade científica, como Stan Gooch, em "Cities of Dreams: the Rich Legacy of Neanderthal Man Which Shaped Our Civilization" (1989), defendem mesmo que os neandertais eram detentores de uma cultura tão complexa quanto as atuais, e que teria mesmo servido para fundar muitos dos chamados arquétipos universais existentes entre os humanos modernos, em resultado da sua hibridização com os neandertais.

[3] Este valor seria o mínimo, alguns pesquisadores postulam que poderia chegar a 10% ou até mesmo a 20%. O DNA neandertal é 99,7% idêntico ao DNA do humano moderno, enquanto o DNA dos chimpanzés, por exemplo, é 99,8% idêntico ao nosso. Isso sugere, na prática, que somos todos espécies aparentadas de forma muito próxima... A diferença entre os neandertais e os chimpanzés é, entretanto, crucial – os últimos claramente nos precederam em centenas de milhares de anos na árvore evolutiva, enquanto que os primeiros têm uma origem muito mais recente, talvez não mais do que 100 mil anos anterior a nossa. O DNA neandertal é, portanto, provavelmente muito mais importante no que tange a cognição e linguagem humanas, fruto da nossa origem e inteligência em comum.

***

Nota: este artigo chegou a ficar cerca de 6h no ar (em 19/06/11) contendo graves erros nas informações científicas, particularmente na nota #3, mas agora está corrigido. Peço desculpas pela falha.

Crédito das imagens: [topo] Joe McNally, National Geographic (reconstituição de uma neandertal fêmea); [ao longo] Bettmann/Corbis (reconstituição de um neandertal macho).

Marcadores: , , , , , ,

27.8.10

A ciência da inspiração, parte 2

Continuando da parte 1

Mente: 1. Conjunto das idéias e convicções de uma pessoa, concepção, imaginação, intelecto; 2. Capacidade de raciocinar ou aprender, inteligência.

Após a caçada

Retornemos aproximadamente 200 mil anos no tempo, e observemos uma pequena comunidade de caçadores-coletores nas planícies africanas, berço de todos nós, os humanos. São ainda hominídios, humanos arcaicos, mas já possuem seus módulos mentais relativamente desenvolvidos: a inteligência geral foi herdada das outras espécies das quais evoluíram, e é responsável pelos processos básicos de instinto e sobrevivência; A inteligência naturalista desenvolveu-se ao longo da persistente guerra da fome – o conhecimento do terreno em sua volta, a análise dos rastros de presas livres deixados no solo, o cuidado para evitar plantas venenosas, etc; A inteligência técnica permitiu o manuseio de objetos e até mesmo a elaboração de ferramentas, como pedras pontiagudas que facilitam o corte da carne das presas abatidas; E, finalmente, a inteligência social evoluiu desde que reconheceram que caminhar pelo mundo em bandos era mais seguro do que enfrentar as caçadas sozinho.

Tais hominídios acabaram de retornar de uma boa caçada, e estão aproveitando o pouco tempo que resta de luz do sol no final da tarde... Alguns estão retalhando as carcaças para que a comida possa ser compartilhada; As mulheres e anciãos estão descansando, conversando, ou ensinando as crianças algumas regras básicas da vida em sociedade tribal; Já aqueles mais hábeis com os cinzéis estão afiando as pontas das lanças utilizadas na última caçada, ou ainda criando novas... Todas mais ou menos no mesmo formato, projeto de algum gênio primordial que se espalhou e manteve-se inalterado por dezenas de milhares de anos. Não havia muita criatividade, não havia muita inspiração, praticamente não existia a arte, nem a religião...

Avancemos então para cerca de apenas 50 mil anos atrás. No tempo da evolução das espécies terrestres apenas um piscar de olhos de meros 150 mil anos... Ainda estamos nas mesmas planícies do continente mãe, só que agora observando o retorno da caçada – igualmente bem sucedida – de uma comunidade de homo sapiens, humanos como nós, nossos avôs e avós ancestrais. Percebemos que eles continuam cortando as carcaças recém-abatidas (embora com instrumentos mais anatômicos e afiados, ainda de pedra), continuam fabricando novos instrumentos e afiando os desgastados, e as mulheres e anciãos continuam dando instruções básicas de vida social para os infantes. O que mudou, afinal?

Para os arqueólogos, os registros do solo dizem que mudou muita coisa, embora para os leigos talvez essa mudança passasse desapercebida. Ocorre que, na tribo de hominídios, cada grupo realizava sua tarefa em uma área em separado da aldeia; Já nos homo sapiens, todos faziam as atividades uns próximos aos outros, geralmente em torno da fogueira... Nessas longas noites de conversas e atividades após a caçada, muito do que somos hoje tornou-se possível.

Segundo o arqueólogo (sim, arqueólogo mesmo) Steven Mithen em “A pré-história da mente”, foi essa intercessão entre os módulos da mente primitiva que catapultou nossa inteligência a patamares inimagináveis para os humanos ancestrais. Subitamente, os dentes de animais caçados, que antes eram descartados, se tornaram decoração de colares; Colares estes que também serviam para demonstrar para outros membros (e mulheres, quem sabe) da mesma tribo quão bons eram os caçadores que os ostentavam; Da mesma forma, as pegadas deixadas na terra pelas presas tornaram-se também símbolos que demonstravam o tamanho e a direção em que o animal se deslocou; E logo tanto símbolos naturais quanto animais quanto os próprios homens se fundiram em pictogramas pintados em cavernas profundas – registros da história de um povo que se reconheceu como povo; Talvez ao mesmo tempo, surgiram os mitos, as forças naturais tornadas meio-homem, meio-animal, meio-espírito, meio-deus – a religião ancestral surgia em meio ao animismo e ao xamanismo, juntamente com a consciência de nossa vida e nossa mortalidade.

Esta é apenas uma teoria de Mithen, mas acredito que seja muito bem fundamentada. Essa união de módulos mentais, essa divina fluidez cognitiva, faz-se representar até os dias de hoje... Já se parou para perguntar por que a maioria das pessoas passa cerca de 2/3 de seu tempo de convívio com qualquer outra pessoa falando sobre relacionamentos com outras pessoas, ou os relacionamentos de famosos, ou quem morreu e quem nasceu? Ou porque revistas com fotos imensas de modelos de beleza que não possuem muito espaço para texto vendem que nem água? Ou simplesmente porque apreciamos tanto uma boa fofoca? Ora, Mithen sabe: porque nossa fluidez cognitiva nasceu de nosso convívio social ancestral – nada mais justo que dediquemos tanto tempo a ela ainda nos dias atuais. Ou pelo menos, se ainda nos identificamos com nosso lado animal...

Nós trocamos idéias, trocamos palavras, trocamos símbolos uns com os outros constantemente. Nosso maior dom não é a visão ou a audição ou nem mesmo a racionalidade, mas antes de tudo, a capacidade de interpretar símbolos. Um dom sim, mas que muitas vezes pode se tornar também uma maldição – principalmente quando mal fazemos idéia da extensão de tal capacidade.

A criatividade é a capacidade de reformular o que conhecemos, em geral sob a luz de uma informação nova, e de desenvolver um conceito ou uma idéia original. A fim de ser criativa, uma pessoa precisa ser crítica, seletiva e inteligente.

O processo criativo transcorre, segundo a ciência, da seguinte forma: nossos cérebros são bombardeados de forma contínua com estímulos, sendo que a maior parte é ignorada. Essa “exclusão” garante que usemos as informações mais relevantes para direcionar nossos pensamentos. A abertura de nossas mentes para informações novas promove o arranque do processo criativo. Para isso, o cérebro desativa a atenção aguda, identificada por eletrencefalograma como ondas beta (estado de alerta) e permite o aparecimento de ondas alfa, amplas e lentas (estado de relaxamento mental e ociosidade). Desse modo, os estímulos, que de outra forma poderiam ser ignorados, tornam-se conscientes e ressoam com as memórias, gerando novos pensamentos e idéias que podem ser tanto originais quanto úteis. Pois é, deve ser por isso que as pessoas têm a maioria das boas idéias no cafezinho, e não durante um dia estressante de trânsito e trabalho nas grandes cidades...

Os artistas que dominaram suas disciplinas têm uma base de conhecimento que sustenta melhorias e mudanças a partir da repetição e/ou reorganização dos padrões simbólicos que eles já dominam. Tal habilidade permite que esses processos rodem na inconsciência, liberando a consciência para a absorção e reconhecimento de estímulos inteiramente novos. Pessoas assim possuem uma alta capacidade de retornar a um estado de alerta mental quando reconhecem uma nova idéia, pois de forma recorrente as submetem a uma avaliação crítica rigorosa – “será que isto combina ou acrescenta algo a minha arte?”. Os estímulos, os símbolos que sobrevivem a esse segundo processo de pensamento criativo tendem a ser valiosos e, portanto, julgados como genuinamente originais.

Sejamos então todos artistas de nossa própria vida, pois que ela sempre será nossa obra mais importante. Após a longa caçada, após tantas noites de conversas em fogueiras amedontrados e extasiados com a imensidão da noite a volta, de alguma forma fomos guiados por essa vasta natureza a uma certa fluidez de pensamento. Em todos esses dias de homens, aprendemos passo a passo a compartilhar símbolos, idéias, pensamentos, e emoções... Nem sempre temos sido bem sucedidos em reconhecer tudo isso que há de sagrado em torno e mesmo dentro de nós – seja no mecanismo, seja no sentido. Mas o que importa é que podemos aprender com nossos erros, e melhorar um pouco, um pensamento de cada vez.

Idéias, idéias são tudo o que há além da natureza que aqui já estava quando chegamos. Idéias são tudo o que iremos deixar em retribuição. Reconheçamos então quais são as idéias que nos levarão a frente, e quais são âncoras disfarçadas de pipas, prontas a nos deixar fixados no mesmo lugar por mais uma vida inteira.

Sejamos caçadores então, e façamos de nossa caça uma verdadeira arte: cacemos não para sobreviver simplesmente, mas para viver, viver plenamente, viver em harmonia, conectados com a infinita teia da vida a nossa volta. Cacemos idéias que se escondem além da galáxia mais distante e no menor pedaço de átomo que fomos capazes de enxergar. Cacemos o horizonte à frente, cacemos os mecanismos e o sentido desse turbilhão universal, cacemos a nós mesmos, cacemos ao amor. Enfim, cacemos pela enorme felicidade e a enorme paz que essa caçada nos proporciona.

Na continuação, metáforas, poesia e o grande programador cósmico...

***

Crédito das imagens: [topo] Becoming Human; [ao longo] Werner Backhaus/dpa/Corbis

Marcadores: , , , , , , , , ,

13.10.09

Oferendas ancestrais

O bipedalismo, ou seja, a capacidade de se andar apenas com dois membros, e não com quatro, é uma característica desenvolvida por pouquíssimos animais ao longo da evolução das espécies. Como se sabe, um desses animais é o homo sapiens. Segundo a teoria de Darwin-Wallace, o homo sapiens evoluiu a partir de um ancestral comum com o chimpanzé, ou pelo menos esta era a teoria mais aceita até alguns anos atrás. Uma outra teoria acerca da evolução humana postulava que o bipedalismo foi desenvolvido sobretudo quando os humanos arcaicos, ancestrais do homo sapiens, abandonaram as regiões africanas de densas florestas e se aventuraram nas pradarias, onde a capacidade para arrancar frutos e carregar comida e armas de caça seria, talvez, mais importante do que a velocidade e equilibrio conferidas pelo andar em quatro patas, o que seria muito mais útil para se fugir de predadores.

No entanto, descobertas da arqueologia nas últimas décadas tem colocado em xeque tais teorias. Particularmente a descoberta do esqueleto de Ardi (ardipithecus ramidus) encontrado em 1992. O esqueleto demorou três anos para ser escavado pela equipe do Projeto Médio Awash, em Aramis, na Fenda de Afar, Etiópia. Sua reconstrução foi realizada por dezenas de cientistas de todo o mundo, sendo que atualmente a liderança dos estudos está em mãos de Tim White. Ele trabalha com Paleontologia e Arqueologia Paleolítica na África desde 1974, sendo professor de biologia da Universidade da Califórnia em Berkley e codiretor do projeto que atuou na retirada do achado.

Após mais de uma década de análises minuciosas, as conclusões finais dos arqueólogos e cientistas envolvidos foram finalmente publicadas na revista Nature de Outubro de 2009. A datação de Ardi como tendo vivido a 4,4 milhões de anos, e sua combinação única de bipedalidade indiscutível com os dentes molares pequenos, assim como a curiosa semelhança dos pés com os pés de outros símios, capazes de agarrar objetos com as mãos, lança muito mais dúvidas do que certezas no estudo dos cientistas.

Primeiro, fica comprovado que o "elo perdido", ou a espécie ancestral que o homo sapiens teria em comum com outros símios, teria vivido há muito mais tempo do que antes se imaginava, há pelo menos 7 milhões de anos. Isso levanta a curiosa hipótese de que os chimpanzés evoluíram por muito mais tempo após terem se "dissociado" de nosso galho evolutivo. Nesse sentido, é possível que muitas características dos chimpanzés sejam exclusivas deles, e nunca tenham estado realmente presentes em humanos arcaicos.

Mas a questão mais curiosa é que, além da bipedalidade ter se desenvolvido há muito mais tempo do que antes se imaginava (sabe-se também que ela ocorreu milhares de anos antes do aumento e evolução do cérebro humano), estudos da região onde Ardi foi encontrada comprovaram que, em sua época, há mais de 4 milhões de anos, aquela região da Etiópia era cercada por densas florestas! Isso significa que a ciência precisa arranjar uma nova e arrojada explicação para o motivo dos humanos arcaicos teremos evoluído para a bipedalidade e os caninos menores, ainda milhares de anos antes de desenvolverem a cognição peculiar da mente do homo sapiens.

Uma das hipóteses que mais me agradaram foi a descrita no documentário da Discovery Channel. Segundo essa teoria, o bipedalismo e a redução dos dentes caninos foi acompanhada das primeiras convenções sociais entre os caçadores-coletores. As fêmeas passaram a preferir machos menos agressivos, e passaram também a trocar sexo por comida, além de se comprometerem por mais tempo com a "educação" dos filhos. Isso favoreceu nos machos, e consequentemente em toda a espécie, o bipedalismo: assim poderiam se deslocar por distâncias maiores, e carregar oferendas (pequenos pedaços de comida, sejam frutos ou carne de animais abatidos) por sexo. A redução dos caninos talvez indicasse que os machos não precisavam mais competir agressivamente pelas fêmeas, e que a troca de carinho (sim, talvez pudéssemos usar esta palavra) era mais reconfortante e necessária, então, do que as lutas sangrentas pelo direito de copular com as fêmeas.

Será que isso faz sentido? Será que nossas convenções sociais, nossa organização em famílias de indvíduos, tem uma origem ancestral, bem mais antiga até do que nossa cognição avançada?

Hoje se sabe que o altruísmo é uma forma de evolução da espécie. Grupos de indivíduos capazes de colaborar entre si tem maiores chances de sobrevivência do que indivíduos solitários que caçam sozinhos. Sim, eles tem maior reserva de alimento, mas muito menos proteção contra outros predadores, e contra a própria solidão da vida selvagem... Caso possamos fazer uma associação entre o altruísmo e o que o homem moderno chama de amor, talvez o estudo científico da evolução humana nos traga lições muito mais profundas do que a mera compreensão do mecanismo pelo qual nossos corpos evoluíram. Talvez compreendamos que não foram apenas dentes que deixaram de ser pontiagudos, ou mãos que passaram a ser capazes de produzir ferramentas especializadas, mas antes a evolução social que potencializou nossas chances de sobrevivência, e nos tornou a espécie dominante deste planeta.

Talvez, as oferendas ancestrais de humanos arcaicos em troca de sexo, dando origem aos rudimentos do que hoje chamamos de família, tenha sido o momento-chave que possibilitou toda a evolução seguinte. Afinal, a partir do momento que deixamos de rastejar junto ao solo, buscando comida e sobrevivência, e passamos a andar eretos, e a enxergar as estrelas no céu, e os olhos e a face de nossos semelhantes, possivelmente tenhamos passado a desenvolver o rudimento da consciência de nós mesmos, e do que afinal viemos fazer nesta terra.

***

Crédito da imagem: J.H.Matternes

Marcadores: , , , , , , , , ,

As origens da arte

Texto de Steven Mithen em "A pré-história da mente " (Editora Unesp, tradução de Laura de Oliveira).

Os três processos cognitivos cruciais para a produção da arte - a concepção mental de uma imagem [1], a comunicação intencional [2] e a atribuição de significado [3] - estavam todos presentes na mente humana arcaica. Foram encontrados, respectivamente, nos domínios das inteligências técnica, social e naturalista. Mas a criação e uso de símbolos visuais impõe que eles funcionem juntos, harmoniosamente. Isso exigiria ligações entre domínios (das inteligências). E o resultado disso seria a explosão cultural (incluindo a origem da arte humana).

Observamos realmente uma explosão cultural começando a quarenta mil anos na Europa, com a produção dos primeiros trabalhos artísticos, e eu sugeriria que isso pode ser explicado por novas conexões entre os domínios das inteligências técnica, social e naturalista. Os três processos cognitivos, antes isolados, agora funcionavam juntos, criando o novo processo cognitivo que podemos chamar de simbolismo visual, ou simplesmente arte.

Se eu tivesse de escolher apenas uma característica da primeira arte para sustentar esse argumento, seria a incrível habilidade técnica e poder emotivo das primeiras imagens. Nenhuma analogia pode ser feita entre as origens da arte no tempo evolucionista e o desenvolvimento das habilidades artísticas na criança. Estas consistem de uma passagem gradual das garatujas às imagens representacionais, seguidas do aprimoramento gradual da qualidade das imagens. No caso de alguns jovens artistas, podemos então ver uma compreensão gradual do uso da linha e da cor para transmitir não apenas um registro do que se vê, mas os sentimentos a respeito. Não existe nada gradual sobre a evolução de uma capacidade para a arte: os primeiros objetos que encontramos podem ser comparados, em qualidade, aos produzidos pelos grandes artistas da Renascença [4]. Isso não significa argumentar que os artistas da Idade do Gelo não passaram por um processo de aprendizado; podemos na verdade encontrar muitas imagens que parecem ter sido feitas por crianças ou jovens aprendizes. Mas a habilidade de impor forma, de comunicar e interferir significados a partir de imagens já devem ter estado presentes na mente dos humanos arcaicos - embora não existisse arte. Tudo o que bastava para criar as maravilhosas pinturas da caverna de Cauvet era uma conexão entre os processos cognitivos que haviam evoluído para outras tarefas.

Antes de deixar as origens da arte, devemos voltar às peças riscadas de osso e marfim feitas pelos humanos arcaicos, como as de Bilzingsleben e Tata. Se - e este é um grande se - esses riscos foram feitos intencionalmente, como podem ser explicados? Sugiro que eles refletem o máximo da comunicação simbólica que pode ser alcançado ao depender apenas de uma inteligência geral. Os humanos arcaicos podem ter sido capazes de associar marcas com significados usando apenas suas capacidades para o aprendizado associativo. Mas depender disso teria restringido a complexidade das marcas e dos significados. Existe uma semelhança entre a simplicidade das capacidades de produzir instrumentos dos chimpanzés comparadas às dos humanos arcaicos, e a simplicidade das marcas intencionais dos humanos arcaicos comparadas às dos humanos modernos. Os chimpanzés dependem da inteligência geral [5] para a comunicação "simbólica". Como resultado disso, os chimpanzés e os humanos arcaicos parecem alcançar "sub-realizações" nessas atividades, em vista de seus feitos em domínios comportamentais para os quais possuem inteligências especializadas.

[Retirado do capítulo 9: O big bang da cultura humana: as origens da arte e da religião]

***

[1] Por exemplo, produzindo artefatos como machados de mão a partir de moldes mentais, a inteligência técnica.

[2] A comunicação intencional é fruto da inteligência social e surgiu juntamente com a linguagem gestual, assim como formas primitivas de vocalização.

[3] Caçadores-coletores dependiam da interpretação detalhada de marcas de cascos e pegadas de animais deixadas na natureza, os "símbolos naturais". Este é um atributo da inteligência naturalista:

"As marcas involuntárias de animais representam uma série de propriedades em comum com as "marcas" intencionais ou símbolos dos humanos modernos, como as pinturas em faces de rochas ou os desenhos na areia. Elas são inanimadas. Ambas estão espacial e temporalmente deslocadas do evento que as criou e o que elas significam. As pegadas, assim como os símbolos, devem ser colocadas na categoria certa se formos atribuir-lhes os significados corretos. Por exemplo, a pegada de um veado vai variar dependendo de ter sido feita no barro, na neve ou na grama, assim como o desenho de um símbolo vai variar segundo a face da rocha ou o estilo individual do artista."

[4] Pessoalmente acredito que o autor exagerou bastante na comparação, embora seu argumento continue sendo válido mesmo assim.

[5] O que seria, segundo o autor, um domínio não especializado da inteligência. É na "conexão" das outras inteligências "dentro" do campo da inteligência geral que surgiu a cognição avançada dos humanos modernos.

***

Crédito da foto: Wikipedia

Marcadores: , , , , , , ,