Pular para conteúdo
19.3.11

O fogo de Prometeu, parte 1

Na mitologia Grega, Prometeu foi um titã defensor da humanidade, conhecido por sua astúcia e inteligência. Ele foi responsável por roubar o segredo do fogo divino e dar aos mortais, ato que foi punido pelos deuses de várias formas...

A caixa de Marie

Conta-nos um mito grego que Pandora foi à primeira mulher. Feita à semelhança das deusas imortais, destinou-a Zeus à espécie humana, como punição por terem recebido de Prometeu o fogo divino. Foi enviada a Epimeteu, a quem Prometeu recomendara que não recebesse nenhum presente dos deuses. Vendo-lhe a radiante beleza, Epimeteu esqueceu quanto lhe fora dito pelo irmão e a tomou como esposa.

Ora, tinha Epimeteu em seu poder uma caixa que lhe haviam dado os deuses, que continha todos os males. Avisou a mulher que não a abrisse. Pandora não resistiu à curiosidade. Abriu-a e os males escaparam. Por mais depressa que providenciasse fechá-la, somente conservou um único bem, a esperança. E dali em diante, foram os homens afligidos por todos os males.

A razão da presença da esperança com os males deve ser procurada através de uma tradução mais acurada do texto grego. A palavra em grego é elpís (£λπίς), que é definida como “a espera de alguma coisa”. Ela pode ser traduzida como esperança, mas essa tradução seguramente é arbitrária. Uma tradução melhor poderia ser "antecipação", ou até o temor irracional. Graças ao fechamento por Pandora da caixa no momento certo, os homens sofreriam somente dos males (como os vícios, as pragas e a violência), mas a humanidade não teve o conhecimento antecipado deles, o que provavelmente seria pior. Eles não viveriam o temor perpétuo dos males por vir, tornando suas vidas possíveis. Prometeu se felicita assim de ter livrado os homens da obsessão com a própria morte.

Como todos os mitos relevantes, a história de Prometeu, Epimeteu e Pandora é uma narrativa do que nunca existiu, mas que existe sempre, como dizia Campbell... Há muito tempo o homem tem se deparado com os segredos aparentemente insondáveis da natureza, e desde cedo houveram muitos que afirmavam que era inútil seguir adiante: não se podia desafiar aos deuses. Mas outros, tal qual Prometeu, não esmoreceram ante o desconhecido, e é precisamente graças a esses últimos que devemos boa parte de nossa filosofia, de nossa ciência, e porque não dizer, de nossa espiritualidade.

Este paradoxo entre a inconcebível natureza da Natureza – parafraseando Feynman – e o nosso esforço milenar para compreendê-la e domá-la, tal qual um tigre feroz, é algo que permeia toda a história de nossa cultura. Não é raro, mesmo nos dias atuais, vermos pessoas aflitas com os rumos atuais de nossa ciência, rumos que parecem desvelar segredos que não deveriam ser desvelados. Segredos que deveriam caber apenas aos deuses, não aos homens – desde a interferência nos processos de natalidade, passando pela clonagem, o uso de células embrionárias, a suposta tentativa de se criar “vida artificial”, até o mais perigoso dos fogos divinos, a energia nuclear... Porém, uma vez que montamos no tigre, não é possível domá-lo, mas também não é possível pular. O que podemos fazer é agarrar firmes em seu pêlo, e esperar pelo melhor.

Marie Curie foi uma cientista polonesa que exerceu a sua atividade profissional na França. Foi à primeira pessoa a ser laureada duas vezes com um Prêmio Nobel – de Física, em 1903, pelas suas descobertas no campo da radioatividade, e com o Nobel de Química de 1911, pela descoberta dos elementos rádio e polônio. Foi uma diretora de laboratório reconhecida pela sua competência, e certamente uma das maiores cientistas da história (contando-se homens e mulheres).

A radioatividade é um fenômeno – natural ou produzido pelo homem –, pelo qual algumas substâncias ou elementos químicos, chamados radioativos, são capazes de emitir radiações, as quais têm a propriedade de impressionar placas fotográficas, ionizar gases, produzir fluorescência, atravessar corpos opacos à luz ordinária, etc. As radiações emitidas pelas substâncias radioativas são principalmente partículas alfa, partículas beta e raios gama. A radioatividade é uma forma de energia nuclear, e consiste no fato de alguns átomos como os do urânio, rádio e tório serem “instáveis”, perdendo constantemente partículas alfa, beta e gama (raios-X). O urânio, por exemplo, tem 92 prótons, porém através dos séculos vai perdendo-os na forma de radiações, até terminar em chumbo, com 82 prótons estáveis.

Marie não sabia, mas a radioatividade, este campo da ciência que até hoje deve muito aos seus estudos, acabaria por decretar o seu fim. Ela morreu em 1934, de leucemia, devido, seguramente, à exposição maciça a radiações durante o seu trabalho. Madame Curie acabou por abrir sua própria caixa de Pandora, desvelando tais mistérios ocultos, mas extremamente perigosos, da natureza. Para nossa sorte (ou azar), Marie foi poupada de saber do perigo a que se submetia enquanto estudava a radioatividade... Não fosse por sua coragem, não em lidar com elementos radioativos aos quais desconhecia o perigo, mas em se impor a uma sociedade profundamente machista como uma eminente cientista, hoje certamente saberíamos ainda menos sobre os perigos e as aplicações práticas da radioatividade.

Como sabemos, nos dias atuais boa parte das armas de destruição em massa, assim como boa parte da energia produzida em usinas, vem da energia nuclear e da radioatividade... Certamente há muitos pacifistas e ecologistas que teriam preferido que jamais as tivéssemos descoberto, que Prometeu nos poupasse desse conhecimento. A natureza, porém, tem os seus próprios planos... O universo não está parado, tudo vibra e flui incessantemente, e toda vida e toda consciência estão destinadas a evoluir, passo a passo. Se o presente de Prometeu foi um conhecimento que nos fará avançar mais e mais na compreensão do Cosmos, ou o decreto de nosso fim, só o tempo, e o que faremos com ele enquanto sociedade, poderá nos dizer.

Há, no entanto, mais um mistério que talvez tenha passado desapercebido no mito de Prometeu e Pandora... Ora, se os deuses sabiam que não podiam confiar nos titãs, e sua astúcia e curiosidade, porque então iriam confiar nos filhos dos titãs? Sim, Prometeu roubou o fogo divino, mas foi precisamente com ele que criou o homem. E, ainda que Pandora tenha sido criada pelos deuses, me parece óbvio que eles já sabiam, de antemão, que ela também não resistiria à curiosidade – que abriria a caixa. Não se trata, portanto, de um teste de fidelidade, pois se os titãs houvessem controlado sua curiosidade, nenhum homem existiria... E, se Pandora não houvesse aberto a (maldita?) caixa, certamente não teríamos chegado a conhecimentos tão ocultos e perigosos, mas estaríamos estagnados!

Talvez os deuses não gostem mesmo da estagnação, e por isso seu maior divertimento tem sido pregar peças nos homens, e rir quando estes se sentem culpados por sua própria curiosidade. Eis que a curiosidade é, ela também, divina. Eis que devemos abrir a todas as caixas, de Pandora ou de Marie, e também domar a todos os tigres selvagens... Mas sem jamais perder o senso da responsabilidade, e o respeito a essa maravilhosa, e por vezes letal, natureza da Natureza.

Na continuação – quando as coisas dão errado: Chernobyl e a Floresta Vermelha.

***

Crédito das imagens: [topo] Maicar.com (O roubo do fogo, pintura de Christian Griepenkerl); [ao longo] Wikipedia (Pandora, pintura de Jules Joseph Lefebvre).

Marcadores: , , , , , , , , ,

14.3.11

O sexo e a morte

Ao contrário do que uma análise superficial possa dar a entender, muitas são as relações entre o sexo e a morte. Para começar, na história da vida, eles nasceram praticamente juntos: até 1 bilhão de anos atrás, só existia vida na Terra na forma de organismos unicelulares, o que vale dizer, não existia sexo nem morte, pois um organismo unicelular se reproduz sem necessidade de uma cópula, apenas dividindo-se em dois, e ao fazê-lo, ele "morre" como indivíduo, e as duas células em que se dividiu constituem sua descendência.

Parece prático, mas atravanca a evolução, que, como se sabe, depende da rápida transmissão aos descendentes das mutações "boas", assim consideradas por significarem adaptações evolutivas. É do interesse da espécie, portanto, que a linhagem dos portadores das adaptações evolutivas prospere o quanto antes. Mas como cada célula dá origem uma linhagem única e específica, cada uma delas é como uma gota no oceano. Até que os portadores das mutações "boas" se tornem majoritários, decorrerá um tempo imenso.

Foi então que surgiu o sexo e a morte. Agora, para haver reprodução, não basta que cada organismo faça cópias de si mesmo, ad infinitum. É necessário haver, não uma cópia, mas uma combinação, e é justamente isto o que oferece a reprodução sexuada. A cada cópula bem-sucedida, embaralham-se novamente os genes, produzindo uma variedade de resultados. Tal como no pôquer, teremos jogos bons e maus. Um único exemplar masculino, oriundo de um jogo "bom", pode transmitir suas boas cartas a uma variedade de fêmeas, dando origem, não a uma única, mas a várias linhagens. E depois? Bom, aí que entra a morte. É do interesse da espécie que as gerações novas, por serem portadoras das adaptações evolutivas, tornem-se majoritárias o quanto antes. Mas se os exemplares das gerações antigas, ainda mal adaptadas, tiverem um tempo de vida demasiado longo, eles passarão a fazer concorrência aos jovens, retardando-os em seu percurso. É necessário que os velhos desapareçam - e é para isto que há a morte [1].

Na verdade, o que a visão estritamente materialista nos traz – no sentido de tratar apenas da evolução física das espécies – é esta lição ancestral de que, sem sexo e sem morte, não haveria tamanha evolução de seres tão complexos quanto praticamente qualquer animal que vemos a olho nu, e inclusive o próprio homo sapiens. Em suma, para a natureza, o sexo e a morte se complementam, o primeiro atuando como agente potencializador da evolução, o último atuando como agente renovador.

Mas eis que surge a consciência e com ela tantas e tantas perguntas sem resposta. Se somos a forma do Cosmos conhecer a si mesmo, por vezes tememos que nada em todo Cosmos fosse capaz de aplacar nossa angústia perante a existência... Por isso não é de surpreender que tenha surgido nossa distinta visão espiritual do mundo, evento talvez exclusivo do homo sapiens, o que o destaca definitivamente de todos os outros seres terrestres na árvore da vida.

No ato do sexo profundo, realizado não somente com o corpo, mas também com alma, há um momento de êxtase onde a consciência é subitamente alterada, em muitos casos perdida ou esquecida... Nas tradições espiritualistas do Oriente, o sexo profundo é também chamado de pequena morte. Existe uma relação interessante entre ambos, a nível de processo de consciência e não apenas físico e material: ambos são uma espécie de encontro – no sexo encontramos o amor presente em outro ser afim; na morte, encontramos o amor presente no eterno renovar da vida. Pois que seria a vida, afinal, que não um supremo ato de amor, de criação? E o que seriam o sexo e a morte, senão os mecanismos pelos quais a vida segue o seu rumo?

Mas há que se ter uma visão equilibrada entre tais polos aparentemente opostos, para se conquistar um conhecimento abrangente em relação a existência, uma distinta paz de espírito própria dos sábios de outrora, das mais diversas tradições espiritualistas, que souberam tratar o sexo e a morte como dois lados da mesma moeda, como componentes sagrados da própria vida...

Sem tal equilíbrio, a sociedade se vê envolta em uma “esquizofrenia do politicamente correto”. Desde o advento do cristianismo até poucas décadas atrás, o Ocidente – e este é só um exemplo, pois os polos se alternam – passou por um longo período de aversão a exposição pública do sexo. Tal qual bonobos arrependidos, os homens e mulheres certamente continuaram a fazer sexo, e bastante, mas precisavam ocultá-lo da sociedade, e por vezes confessá-lo, em extrema vergonha, ao deus do confessionário. Interessante de se notar, entretanto, que nessa época a morte não era algo abominável – pelo contrário, era bastante comum a família toda, inclusive as crianças, se reunirem em torno de um parente moribundo, em sua própria casa, em sua própria cama, para se despedirem. O sexo era sujo, mas a morte era a promessa de purificação na vida eterna.

Após tanta supressão do sexo, a polaridade havia de se inverter. Então veio o pós-modernismo, o rock and roll e a revolução sexual do Ocidente. Desta feita, o sexo e o prazer eram exaltados e cada vez mais expostos a toda a sociedade – não importa se alguns não estavam tão interessados, era a época do advento da mídia de massa. E todos precisavam ver os exuberantes corpos nus de homo sapiens, a se admirar e se roçar tal qual bonobos ferozes: todos precisavam experimentar. Ser virgem era subitamente o mais novo pecado!

Mas, se o sexo era agora algo tão belo e prazeroso, a morte por sua vez tornara-se medonha e obscura. Até mesmo o envelhecimento haveria de ser mascarado. Era preferível morrer jovem, por alguma overdose sensorial, do que sequer imaginar habitarmos um corpo envelhecido e decrépito. E eis que a própria morte em si deveria ser algo disfarçado, “resolvido” e esquecido o quanto antes. Não se trazia mais os moribundos para morrerem em casa, mas os mantinham até onde fosse possível nos hospitais. As CTIs se tornaram o purgatório, e a cerimônia do velório um ritual macabro, do qual todos haviam de comparecer com certo asco, e fugir o mais breve possível, e daí esquecer...

Então, como diria o Dalai Lama, passamos a viver como se jamais fossemos morrer, e a morrer como se não tivéssemos vivido. Que nessa anestesia mental, ora ignoramos o sexo, ora ignoramos a morte. Mas nada parece ter resolvido nossa angústia: nem a espiritualidade superficial das religiões de barganha, nem a ciência superficial do modernismo tecnológico que pretende que seres sejam máquinas. Que não é pelo pagamento de orações, pelo recitar repetitivo de dogmas esquecidos, ou pela insistência em reconstruir nosso corpo, na esperança que pareça “eternamente jovem”, que encontraremos a solução.

A solução está tão somente em pensar, em abrir os olhos e ver, e assim melhor viver... E vivendo, conhecer a si próprio, o próprio corpo e cada uma de suas rugas, a própria mente e cada um de seus medos, o próprio espírito e cada uma de suas sombras. E quem sabe nalgum dia compreender, como os sábios de outrora, e de hoje, que desde épocas imemoriais, desde muito antes do despertar de nossa consciência, tudo já era assim: não existe propriamente nem o sexo nem a morte, mas antes de tudo, apenas o amor a gerar esse oceano de vida, em constante renovação.

***

[1] Boa parte dos três primeiros parágrafos foi retirada de um artigo do escritor Pedro Mundim.

***

Crédito das imagens: [topo] x-art; [ao longo] Sung-Il Kim/Corbis.

Marcadores: , , , , , , ,

11.3.11

Ras Tafari

Muitos creem que no mundo moderno não existe espaço nem oportunidade para o surgimento de novas religiões, aos moldes das religiões já milenares, mas a espiritualidade jamais deixará de nos surpreender... Em 2008, a Universidade de Hamburgo anunciou oficialmente que arqueólogos alemães, depois de uma pesquisa comandada pelo professor Helmut Ziegert, descobriram os restos do palácio da rainha de Sabá, datados do século X a.C., em Axum, uma cidade sagrada da Etiópia, sob um antigo palácio real. A rainha de Sabá foi, na Torá, no Antigo e no Novo Testamento, no Alcorão, na história da Etiópia e do Iêmen, uma célebre soberana do antigo Reino de Sabá. A localização deste reino pode ter incluido os atuais territórios da Etiópia e do Iêmen.

De acordo com a Torá e o Velho Testamento, a rainha de Sabá teria ouvido sobre a grande sabedoria do rei Salomão de Israel, e viajado até ele com presentes de especiarias, ouro, pedras preciosas, e belas madeiras, pretendendo testá-lo com suas perguntas, como está registrado no Primeiro Livro de Reis (10:1-13). O relato prossegue apontando a rainha como maravilhada pela grande sabedoria e riqueza do rei Salomão, e pronunciando uma bênção sobre a divindade do rei. Salomão respondeu, por sua vez, com presentes e "tudo o que ela desejou", após o qual a rainha retornou ao seu país. A tradição etíope posterior afirma com segurança que o rei Salomão realmente seduziu e engravidou sua convidada, e possui um relato detalhado de como ele o fez (no Kebra Negast, coletânea de mitos etíopes), um assunto de importância considerável para o povo etíope, já que a linhagem de seus imperadores remontaria àquela união.

Haile Selassie (1892–1975), nascido Tafari Makonnen e posteriormente conhecido como Ras Tafari, foi regente da Etiópia de 1916 a 1930 e imperador daquele país de 1930 e 1974. Herdeiro duma dinastia cujas origens remontam historicamente ao século XIII e, tradicionalmente, até o rei Salomão e a rainha de Sabá, Haile Selassie é uma figura crucial na história da Etiópia e da África.

O movimento rastafari ou Rastafar-I (rastafarai) é um movimento religioso que proclama Haile Selassie como a representação terrena de Jah (Deus). Ele nada mais seria do que o messias prometido. O termo rastafari tem sua origem em Ras ("príncipe") Tafari ("da paz") Makonnen, o nome de Haile Selassie antes de sua coroação. O movimento surgiu na Jamaica entre a classe trabalhadora e camponeses negros em meados dos anos 20, iniciado por uma interpretação da profecia bíblica em parte baseada pelo status de Selassie como o único monarca africano de um país totalmente independente e seus títulos de Rei dos Reis, Senhor dos Senhores e Leão Conquistador da Tribo de Judah, que foram dados pela Igreja Ortodoxa Etíope.

O próprio Selassie, em realidade, jamais aceitou o título de messias. Tampouco era alguma espécie de "santo": durante o seu governo, a repressão a diversas rebeliões entre as etnias que compõem a Etiópia, além daquele que é considerado como o fracasso do país em se modernizar adequadamente, lhe rendeu críticas de muitos contemporâneos e historiadores. No entanto, Selassie era um orador talentoso, e alguns de seus discursos foram considerados entre os mais memoráveis do século XX. Suas visões internacionalistas levaram a Etiópia a se tornar membro oficial das Nações Unidas, e sua experiência e pensamento político ao promover o multilateralismo e a segurança coletiva provaram-se relevantes até os dias de hoje.

Seu célebre discurso na Liga das Nações em 1936 serviu de inspiração para a canção "War", um dos maiores clássicos do cantor de reggae jamaicano Bob Marley - também indiretamente um dos maiores divulgadores do movimento rastafari no mundo. Veja o trecho principal do discurso de Selassie:

Enquanto a filosofia que declara uma raça superior e outra inferior não for finalmente e permanentemente desacreditada e abandonada; enquanto não deixarem de existir cidadãos de primeira e segunda categoria de qualquer nação; enquanto a cor da pele de uma pessoa não for mais importante que a cor dos seus olhos; enquanto não forem garantidos a todos por igual os direitos humanos básicos, sem olhar a raças, até esse dia, os sonhos de paz duradoura, cidadania mundial e governo de uma moral internacional irão continuar a ser uma ilusão fugaz, a ser perseguida mas nunca alcançada. E igualmente, enquanto os regimes infelizes e ignóbeis que suprimem os nossos irmãos, em condições subumanas, em Angola, Moçambique e na África do Sul não forem superados e destruídos, enquanto o fanatismo, os preconceitos, a malícia e os interesses desumanos não forem substituídos pela compreensão, tolerância e boa-vontade, enquanto todos os Africanos não se levantarem e falarem como seres livres, iguais aos olhos de todos os homens como são no Céu, até esse dia, o continente Africano não conhecerá a Paz. Nós, Africanos, iremos lutar, se necessário, e sabemos que iremos vencer, pois somos confiantes na vitória do bem sobre o mal.

Interessante de se pensar: muitos dos que são atraídos ao reggae pela qualidade da música, e também por sua relação com a maconha, jamais sequer ouvirão falar ou praticar o rastafarianismo. A maconha em si é usada pelos rastas não para diversão ou prazer, mas sim para limpeza e purificação em rituais controlados. Trata-se, em suma, de uma religião moderna, mas com bases mitológicas muito bem sedimentadas por textos sagrados de pelo menos duas religiões milenares...

Que grande ironia - tantos judeus, cristãos e muçulmanos de certa ignorância a desdenhar dos "maconheiros negros com cabelo esquisito ouvindo músicas africanas", e no fim das contas, são dos devotos a um dos descendentes diretos do rei Salomão que eles desdenham. Bem, talvez Jah prefira mesmo dançar o reggae que pode ser cantado em qualquer parte da natureza, do que se sujeitar a hipocrisia eclesiástica.

***

"War", de Bob Marley - Playingforchange

***

Agradecimentos aos viajantes do "Não Conta Lá em Casa", programa do canal de TV a cabo Multishow, pela descrição de parte dessa incrível história enquanto visitavam a Etiópia.

Crédito da imagem: Wikipedia (Haile Selassie)

Marcadores: , , , , , , , , , ,

22.2.11

Nova Andalus, parte 2

continuando da parte 1

De fato, o crescimento do islamismo é exponencial. Durante séculos, o catolicismo desfrutou o privilégio de ser a religião com o maior número de fiéis. Já não é assim. Em 2008, o monsenhor Vittorio Formenti, que trabalha na edição do relatório anual de estatísticas do Vaticano, revelou ao L’Osservatore Romano, órgão oficial da Igreja, que atualmente há 1,3 bilhão de muçulmanos no mundo e apenas 1,1 bilhão de católicos. O futuro, de todo modo, favorece os seguidores de Maomé. No ritmo atual de expansão do islamismo, em menos de vinte anos os muçulmanos serão 30% da humanidade. O número de católicos então representará 16,7% da população mundial e os cristãos serão 25%.

A despeito do desespero de certos cristãos ante tal situação [1], fato é que a taxa de natalidade fará com que os muçulmanos continuem em crescimento avançado... Mas será que isso bastará para que o pan-islamismo declare-se vitorioso na Europa?

Ora, o alto índice de fertilidade tem a ver com o papel subalterno da mulher e a valorização da família numerosa na sociedade islâmica. Mas as condições socioeconômicas influenciam tanto quanto as normas religiosas. Em mais da metade dos países com maioria muçulmana, o PIB per capita está abaixo de mil dólares anuais. Isso equivale a um quarto da renda brasileira. Países pobres, famílias maiores. Um temor crescente entre os países europeus é ter sua identidade cultural – marcadamente cristã – ameaçada pelo crescimento da população muçulmana. Na França, imigrantes islâmicos e seus descendentes representam 10% da população. Entre os jovens franceses, o porcentual de muçulmanos sobe para 30%.

Sim, ao que tudo indica Gadafi estava correto quanto ao crescimento do expoente islâmico na Europa. O que ele não contava é que isso não garantiria um Império Árabe unificado, nem na Europa nem na própria terra de Maomé, a começar pelo seu próprio país...

Amparados pelas riquezas do outro negro, o petróleo que existe em abundância (por enquanto) em diversas regiões do Oriente Médio, os ditadores, reis e califas mantiveram-se no poder, sob o discurso religioso de um Império Árabe unificado. Mas ao longo dos anos, a despeito de suas restrições a qualquer liberdade de pensamento contrário ou oposição política, esqueceram-se que um Império se faz também para seu próprio povo, e não única e exclusivamente para o benefício de algumas elites governantes.

Com o advento da internet e das redes sociais, tornou-se cada vez mais complexo para ditadores como Gadafi impedirem que as vozes contrárias e insatisfeitas se reunissem e ganhassem força juntas... Ainda mais quando os insatisfeitos, os pobres e miseráveis, se tornam a grande maioria da população jovem.

No fim, a "estratégia" dos ditadores pan-islâmicos virou-se contra eles próprios: a taxa de natalidade provocará o seu fim. O novo sempre vem, e não há Império que resista ao pensamento de um povo oprimido, quando este conquista sua liberdade – a liberdade de pensar e se comunicar.

Dessa forma, ironicamente através dos avanços da modernidade que se devem também as grandes contribuições científicas de Al-Andalus, o povo islâmico uma vez mais chegou à conclusão que sempre ocasionou a derrocada dos grandes impérios: sim, a nação é um mito, o passado é uma nação estrangeira, e o único país que existe é o país de todos nós, seres livres em busca de sua felicidade.

O ano de 2011 começou com o advento das revoltas de populações em diversos países árabes. Obviamente cada país tem o governo e a política que merece, mas é impossível não notar que este contágio de liberdade, disseminado pelas redes de internet, é tão somente a hecatombe de um processo até mesmo inevitável – não há como manter um povo longe de sua liberdade por muito tempo, e os próprios textos sagrados denotam isso muito bem. A história se repete, em um novo tempo, em um novo contexto, mas ainda assim se repete – o novo sempre vem.

Neste processo, uma imagem é tão marcante que resumirá muito bem onde o pan-islamismo estava errado [ver imagem que ilustra este artigo, acima]... Durante os protestos no Egito, que culminaram com a renúncia de seu então ditador, milhares de manifestantes se reuniram na Praça Tahir (“da libertação”), no Cairo, para um protesto na maior parte do tempo pacífico. Ainda assim, durante o Salat, um dos 5 períodos de oração diários do islamismo, pudemos ver os muçulmanos ajoelhando-se em direção a Meca e orando, enquanto o restante dos manifestantes, aparentemente não-islâmicos, permanecia de pé.

Esta imagem é marcante porque demonstra claramente que uma crença religiosa não é nem nunca foi motivo para que seres acreditassem que deveriam viver separados, ou como inimigos.

Ser islâmico é submeter-se a Allah, e talvez nesta submissão as palavras ditadas pelo anjo Gabriel devam ser seguidas acima de todas as outras. Mas em nenhum momento Gabriel afirmou que os não-islâmicos eram inimigos, ou que mereciam morrer – ainda que se recusassem a se converter ao Islã. De nada adianta tentar converter aos outros pela força, o máximo que conseguiremos, nesse caso, foi o que os últimos 2 mil anos nos demonstraram: ora conquista-se este ou aquele território, ora os perdemos novamente; ora oprimimos a liberdade deste ou daquele povo, ora todo povo readquire sua liberdade, ou é extinto; ora matamos, ora morremos, mas o novo sempre vem.

E a verdade derradeira é aquela que sempre populou as mentes dos verdadeiros profetas, dos místicos, dos poetas, dos seres amorosos, dos sábios: somos tolos por fazer guerra a nossos irmãos.

Al-Andalus foi resultado da conquista, mas não da guerra. Após as desavenças iniciais, eis que as três religiões fontes de tantos conflitos mundiais puderam conviver em harmonia por breves períodos de glorioso ecumenismo cultural, artístico, filosófico, científico, e até mesmo religioso. Queira Deus, queira Allah, que da reconquista de sua liberdade perdida, o povo muçulmano se reúna não em um novo Império Árabe, que em verdade nunca foi totalmente unido, mas em uma Nova Andalus, um novo país além de tantas nações ilusórias, um país de almas afins, que não necessitará de guerras santas para se afirmar – mas apenas da única submissão que sempre nos será a mais cara das conquistas, a submissão ao amor.

***

[1] A título de anedota, este vídeo criado por uma igreja bastista brasileira denota o tipo de desconforto que certos cristãos sentem ante o avanço do islamismo (o vídeo contém informações demográficas bastante apuradas):

***

Crédito da imagem: REUTERS/Dylan Martinez

Marcadores: , , , , , , , , , ,

Nova Andalus, parte 1

Achadu ala ilaha ila Allah. Achadu ana Mohammad Rassululah (Testemunho que não há outra divindade senão Deus. Testemunho que Maomé é seu profeta mensageiro). Pronunciando este testemunho 3 vezes ante 2 testemunhas, podemos nos converter ao islamismo. Mas o que significa ser um islâmico?

O islamismo nasceu quando o profeta Maomé “intuiu” o Alcorão. Os ensinamentos de Allah (palavra árabe para Deus) estão contidos no Alcorão (Qur'an, "recitação"). Os muçulmanos acreditam que Maomé recebeu esses ensinamentos de Allah por intermédio do anjo Gabriel, através de revelações que ocorreram entre 610 e 632 d.C. Maomé recitou essas revelações aos seus companheiros, muitos dos quais se diz terem memorizado e escrito no material que tinham à disposição.

Maomé estabeleceu não só uma nova religião, como também uma nova organização política unificada na península Arábica, a qual logo após sua morte, sob o subsequente domínio dos califas do Rashidun e Omíadas, experimentou uma rápida expansão do poder árabe para muito além da península, sob a forma de um vasto Império Árabe muçulmano.

Edward Gibbon escreveu em sua “História do Declínio e Queda do Império Romano”, um dos maiores tratados da história das civilizações:

Sob os últimos Omíadas, o Império Árabe estendia-se por uma jornada de duzentos dias do leste para o oeste, dos confins da Tartária e Índia até as praias do Oceano Atlântico. [...] Em vão buscaríamos a união indissolúvel e a obediência fácil disseminados no governo de Augusto e dos Antoninos; mas o progresso do Islã difundiu por este amplo espaço uma semelhança generalizada de modos e opiniões. A língua e as leis do Qu'ran eram estudadas com igual devoção em Samarcanda e Sevilha: os mouros e os hindus abraçavam-se como conterrâneos e irmãos em peregrinação à Meca; e a língua árabe era adotada como idioma popular em todas as províncias a oeste do rio Tigre.

O islamismo talvez tenha atingido seu ápice quando Al-Andalus, ou a “colonização” islâmica da Península Ibérica, viveu seus dias de paz e ecumenismo, onde quase todas as grandes culturas da história estiveram reunidas. A população de Al-Andalus era muito heterogênea e constituída por árabes e berberes (uns e outros muçulmanos), moçárabes (os hispano-godos que, sob o domínio muçulmano conservaram a religião cristã), e judeus. Para além destes existia outro grupo, os muladis, que eram os cristãos que se tinham convertido ao islamismo. Os moçárabes e judeus, apesar de algumas restrições, tinham liberdade de culto, e se mantiveram integrados as cidades islâmicas, o que resultou em um período de vivência pacífica e ecumênica sem precedentes na história.

Abd ar-Rahman II foi um dos primeiros governantes que se esforçou por converter a sua corte em Córdoba num centro de cultura e sabedoria, tendo recrutado com esse objetivo vários sábios do mundo islâmico. Essa integração pacífica de culturas e religiões diversas resultou em inúmeros legados artísticos e científicos. Principalmente na arquitetura, que até hoje pode ser admirada em partes da Espanha onde as mesquitas permaneceram intactas, e na matemática, particularmente pela disseminação do conceito do número zero – de origem hindu – pelo Ocidente.

Entretanto, foram os próprios islâmicos ortodoxos quem trataram de destruir sua “Meca” das artes e ciências. Insatisfeitos com a convivências harmoniosa entre muçulmanos e não-muçulmanos, enfraqueceram Al-Andalus o suficiente para que, ironicamente, fosse reconquistada pelos cristãos até o fim do século XV. Depois, as Cruzadas e todas essas guerras inúteis, que são proclamadas “em nome de Deus”, mas que obviamente servem apenas para que reis e califas conquistem e reconquistem territórios e poder econômico.

Alguns creem que o passado é uma nação estrangeira, mas este precioso mito das nações sempre foi um poderoso aliado para que os reis, califas e ditadores pudessem manter seu próprio povo sob rédeas curtas – rédeas para a mente. Desde a derrocada de Al-Andalus (e, de certa forma, desde a morte de Maomé e da divisão entre muçulmanos xiitas e sunitas), o grande Império Árabe descrito por Gibbons tem somente se dividido e enfraquecido.

O pan-islamismo é um movimento político que evoca a unidade dos Estados islâmicos, cujas raízes se situam em Jamal al-Din al-Afghani, divulgador de ideais pan-islâmicos no mundo árabe. Ele possuía uma visão romântica da história do povo árabe e marcada por um profundo pensamento anti-iluminista, renegando as ideias de Jean Jacques Rousseau e François Voltaire, por exemplo.

Em 1969, o revolucionário Muammar Gadafi tomou o poder na Líbia através de um golpe de estado. Na qualidade de presidente do conselho da revolução, nacionalizou a indústria do petróleo e converteu-se no primeiro representante do pan-islamismo. Gadafi fechou as danceterias, bordéis e bares trazidos pelos americanos, impondo a toda Líbia respeito aos preceitos e morais do islamismo, proibiu a exportação de petróleo para os EUA e confiscou propriedades internacionais. A Líbia tornou-se então, por décadas, um exemplo vivo da decadência do islamismo, um exemplo que refletia-se em ditaduras similares por toda a região do Oriente Médio.

Apesar das condições de não-liberdade a que submetia seu próprio povo, em sua loucura Gadafi aparentemente acreditava que o islamismo ainda iria dominar novamente a Europa. Toda a reestruturação do Império Árabe, assim como o novo avanço sobre o continente europeu, se daria por um mecanismo tão antigo quanto o ser humano, a natalidade:

Há sinais de que Allah garantirá vitória ao Islã na Europa sem espadas, sem armas, sem conquistas. Não precisaremos de terroristas ou bombas homicidas. Os mais de 50 milhões de muçulmanos na Europa a transformarão em um continente islâmico em poucas décadas.

Teria ele razão? Sim e não.

continua na parte 2

***

Crédito da imagem: Wikipedia (turistas visitam pátio do palácio de Alhambra, um dos legados de Al-Andalus)

Marcadores: , , , , , , , , ,

17.2.11

Reflexões sobre a evangelização, parte 3

continuando da parte 2

As bases filosóficas do agnosticismo foram assentadas no séc. XVIII por Kant e Hume. O termo, porém, foi cunhado pelo biólogo britânico Thomas Huxley em 1876 – ele definiu o agnóstico como aquele que acredita que a questão da existência de Deus não pode e talvez jamais possa ser resolvida.

O evangelho do agnóstico

“O Cosmos é tudo que existe, que existiu ou existirá” – Assim, com essa frase inesquecível, Carl Sagan inaugura o primeiro episódio da série de 13 documentários intitulada "Cosmos", veiculados na TV americana em 1980, e depois no restante do mundo. Ao pretender explicar ciência e cosmologia para o público leigo, Sagan acabou criando um épico que abrange também muitas questões existenciais, história, mitologia, religião e espiritualidade em geral.

Em alguma costa rochosa, em alguma praia do globo, Sagan observa as ondas, os pássaros, o vento, e algum tempo depois nos traz outra pérola em sua narrativa: “Recentemente, aventuramo-nos um pouco pelo raso (do Cosmos), talvez com água a cobrir-nos o tornozelo, e essa água nos pareceu convidativa. Alguma parte de nosso ser nos diz que essa é a nossa origem. Desejamos muito retornar, e podemos fazê-lo, pois o Cosmos também está dentro de nós. Somos feitos de matéria estelar, somos uma forma do próprio Cosmos conhecer a si mesmo.”

Sagan era profundo conhecedor de religiões e mitologia, além de cientista e cético, mas não era nem ateu nem teísta ou deísta, era puramente agnóstico. Seu evangelho era constituído de uma obra de divulgação científica totalmente voltada para tal espanto, tal deslumbramento, tal amor pela natureza e todo o Cosmos a sua volta. Essa era a boa notícia de Carl...

Para muitos teístas, o fato de existirem pessoas que não creem em um Deus pessoal, ou que pelo menos não tem certeza de sua existência, parece causar um certo desconforto. Não é raro perceber, em qualquer pessoa ligada a doutrinas eclesiásticas, uma tendência a classificar ateus, agnósticos, céticos, e às vezes simplesmente todo e qualquer cientista, como “gente sem fé”, perdida, afastada de Deus, e até mesmo imoral.

Mas a verdade é que, a despeito do aparente consenso dos eclesiásticos, a moralidade, o amor, não são exclusividade daqueles que oram todos os dias a Deus, que frequentam missas, que consultam algum manual da Verdade Absoluta frequentemente. Para o religioso superficial, isto que digo não levanta muitas questões – “Ora, mas é exatamente assim: uns são bons, outros maus, crer em Deus não faz de ninguém um santo”. Sim, isso faz sentido, mas a questão é mais profunda...

Se Deus existe – e para teístas e deístas ele certamente existe –, porque ele “permite” que algumas de suas criaturas vivam sem sequer crer nele?

Em outro produto da obra de Sagan, o livro de ficção “Contato”, que também deu origem a um excelente filme homônimo, é descrito um contato com inteligências extra-terrestres de uma forma verossímel e científica. Existe também um conflito entre as crenças de cientistas e religiosos – em dado momento, a protagonista do primeiro contato (no livro são vários contatos ao longo das décadas, no filme há apenas um), uma cientista agnóstica, nos traz uma importante indagação:

“Se Deus quisesse nos mandar uma mensagem e escrituras antigas fossem a única forma que pudesse imaginar, ele poderia ter feito um trabalho melhor. E ele dificilmente teria que se confinar a escrituras. Por que não há um monstruoso crucifixo orbitando a Terra? Por que a superfície da Lua não é coberta com os Dez Mandamentos? Por que Deus deveria ser tão claro na Bíblia e tão obscuro no mundo?”

Ao contrário do que muitos eclesiásticos possam imaginar, esta mensagem não denota um pensamento que diminua de alguma forma a importância da Bíblia, mas antes um pensamento que aumenta enormemente a amplitude do que há de sagrado no mundo – o reino é todo o Cosmos. E não poderia ser de outra forma...

Podemos encontrar neste mundo ateus, agnósticos, teístas e deístas, sim isso tudo é verdade. Mas será muito difícil encontrar algum ser que negue a existência de um sistema que rege todo o universo. Seja a crença nas leis fundamentais da natureza, seja a crença nos desígnios divinos, seja um misto de ambos, todos creem em algum sistema, cuja função pode ainda ser um mistério – mas que há de ser buscado, há de ser resolvido passo a passo, por todos nós, juntos!

Sim, nós realmente somos a forma do Cosmos conhecer a si mesmo. E pouco importa, na prática, se tal Cosmos é um ser pessoal, uma força cósmica ou até mesmo um acaso miraculoso – pois no fim, conforme postularam Kant e Hume, não compreendemos ainda muito bem nenhum deles, não podemos ainda resolver tal questão. Será que poderemos um dia?

Para resolvê-la, talvez não bastem apenas orações e experiências místicas, apenas meditação e autoconhecimento, mas também o estudo meticuloso, prático, objetivo, material, profundamente mundano, da natureza a nossa volta. Há muitos gigantes da história da ciência que, buscando talvez um deus barbudo senhor dos exércitos, acabou esbarrando em verdades muito mais profundas. Talvez buscando um reino confinado a um pequeno pedaço de rocha na periferia da uma de bilhões de galáxias, acabou esbarrando no infinito.

E, se mesmo hoje existem seres que buscam aos mistérios de Deus sem sequer crer nele, que se aventuram pelas entranhas dos átomos e quarks, pelo reino bizarro da mecânica quântica, pelos códigos ocultos do DNA, pelos quasares e sóis distantes, pelas singularidades de seções inimagináveis do espaço-tempo, deixem que busquem, pois de uma coisa teremos sempre a certeza: é impossível estar “fora” de Deus.

Talvez o trabalho deles seja tão importante para o mundo quanto os mandamentos dos evangelhos. O importante é encarar as boas novas não como enigmas solucionados, mas como o início de um caminho, subjetivo e objetivo, interior e exterior, que preenche toda nossa existência.

Amai sim, o próximo, e toda a vida, como a ti mesmo. Mas amai a coletividade da vida, amai os átomos que nos conectam a tudo e a todos em uma teia sem fim, amai ao Cosmos acima de todas as coisas.

***

Crédito das imagens: Divulgação (Cosmos de Carl Sagan).

Marcadores: , , , , , , , , , ,

9.2.11

Reflexões sobre a evangelização, parte 2

continuando da parte 1

Conversão religiosa é a adoção de uma nova identidade religiosa, ou uma mudança de uma identidade religiosa para outra. Isto envolve tipicamente o devotamento sincero a um novo sistema de crença, mas também pode ser concebido de outras maneiras, como a adoção em uma identidade de grupo ou linha espiritual.

Pequeno manual para a conversão do infiel

Todos os sistemas de crença ou doutrina religiosa se baseiam em espécies de guias, manuais passo a passo para uma vida de religiosidade mais profunda e verdadeira, em suma, uma religação mais eficiente e efetiva. Porém, me parece que podemos dividi-los em dois grandes grupos: aqueles em que o campo de aprendizado se dá única e exclusivamente por vontade e esforço próprios de cada um, sem a possibilidade de atalhos ou barganhas; e aqueles em que existe uma possibilidade de se avançar por meio de bênçãos e milagres, por barganhas diretas com Deus, em troca deste ou daquele benefício divino – um arrebatamento ao Céu, algum milagre ou salvação de última hora, ou simplesmente uma iluminação espiritual.

No segundo grupo se encontram a maior parte das igrejas ou sistemas eclesiásticos. Também pode-se dizer que este tipo de religiosidade é muito mais comum no Ocidente do que no Oriente. Por exemplo, quando determinada doutrina afirma que “só seremos salvos se aceitarmos Nosso Senhor Jesus Cristo em nosso coração”, ela opera por forma de barganha: aparentemente, o único caminho será esse, e o mérito da salvação não será exclusivamente nosso, mas muito mais uma forma de “retribuição divina” por nossa fidelidade. Ainda assim, aceitar o Senhor ainda é algo que tem mais lógica do que simplesmente doar quantias enormes de dinheiro a alguma igreja em troca da benção direta desse mesmo Senhor. Afinal, o que diabos Deus fará com seu dinheiro? Afinal, porque somente este ou aquele eclesiástico é responsável pela contabilidade divina?

No primeiro grupo, se encontram a maior parte dos religiosos que não necessariamente tem igreja. Também pode-se dizer que este tipo de religiosidade é muito mais comum no Oriente. Tais fiéis são antes fiéis a Deus, e mesmo que tenham alguma igreja ou grupo de estudos, e um dia os venha a abandonar, não necessariamente abandonará a própria doutrina em si. Estes fazem de suas casas, seus corações, suas mentes, sua única e inabalável catedral – onde sempre poderão orar, onde confessam antes de tudo a si mesmos.

Por exemplo, os dois primeiros versos do Livro do Caminho Perfeito, a obra principal do taoismo, dizem que “o caminho que pode ser seguido não é o Caminho Perfeito”. Superficialmente isto é um tanto paradoxal, é como se fosse apresentado um manual passo a passo para algum Céu em que, logo de início, já fosse afirmado que este manual não poderia ser seguido... No entanto, o que Lao Tsé queria dizer é análogo ao que muitos grandes sábios sempre afirmaram: que o caminho espiritual é próprio de cada um. Ou seja, o discípulo jamais poderá seguir o mesmo caminho do mestre, ele poderá no máximo utilizar seu exemplo de vida como base para construir o seu próprio caminho. Pois assim como não existem seres idênticos na criação, da mesma forma não existem caminhos idênticos para a religação ao Cosmos.

A mim me parece que a abordagem do primeiro grupo tem muito a ensinar ao segundo. Em realidade, existe uma disparidade tão grande e evidente à nível de profundeza espiritual entre tais grupos, que há de se perguntar se o segundo não é, em sua maioria, um grande agrupamento de visões equivocadas da religião mais aprofundada, universal, cósmica...

Há muitas igrejas, por exemplo, que foram edificadas inteiramente sobre textos sagrados aos quais se atribuí uma espécie de “ditado” direto de Deus. Não são como o Livro do Caminho Perfeito, uma mera tentativa de um sábio aconselhar aos outros sobre sua própria experiência de tentar compreender a Deus, mas antes a própria palavra de Nosso Senhor, verdadeiros Guias da Verdade Absoluta [1].

Se é que tais textos sejam mesmo o que os eclesiásticos pretendem que sejam, se é que não tenham sido enormemente adulterados com o passar do tempo, a evolução das sociedades, ou simplesmente por inúmeras traduções e compilações, ainda assim há que se pensar: se temos um nossa frente a Verdade codificada em palavras, em símbolos de escrita, será que isso nos bastará? Será que teremos plenas condições de interpretar corretamente tal Verdade? Acredito que a história das guerras religiosas nos traga uma boa resposta a essas perguntas – afinal, nenhuma guerra, nenhuma matança poderia, jamais, ser santa!

Obviamente que mesmo no Ocidente, que mesmo em tais igrejas com seus Guias Infalíveis, encontram-se os moderados, os da “ala mística”, ou que compreendem a religião, o religare, de forma mais aprofundada. Tenho certeza que esses jamais ergueriam uma espada, obrigando algum pobre coitado a se “converter” a sua doutrina...

Pois como poderia alguém, nalgum dia insano, converter outro alguém ao seu próprio pensamento, a sua própria doutrina, pela força? Pela sedução das palavras? Pelo terror anunciado de um lago de enxofre eterno aguardando todos aqueles que não se salvarem, que não aceitarem Nosso Senhor?

Ora, perguntem aos índios da América, perguntem aos negros da África, se eles nalgum dia se converteram ao Deus desses homens que os trataram como mercadoria, como escravos, como selvagens “sem alma”, mas nunca como irmãos, como seres na mesma caminhada para o Cosmos de onde todos foram catapultados na imensidão infinita. Dizer, da boca para fora, “eu aceito Nosso Senhor”, não significa que tenham aceitado. A liberdade jaz na mente e, assim como o caminho espiritual, é exclusiva de cada um, graças a Deus.

William James, um dos fundadores da psicologia, em seu grandioso tratado “Variedades da experiência religiosa”, postula que a conversão religiosa verdadeira pode aparentemente ocorrer de uma hora para outra, do dia para noite, em algum insight momentâneo, mas que quase que certamente já vinha sendo edificada, lentamente, nos calabouços ocultos do inconsciente. Que nossa questão com Deus é universal, todos temos de seguir este caminho, ainda que alguns o sigam inconscientemente ou o chamem de estudo da natureza – o importante é que, a nossa maneira, estamos todos caminhando à frente, aprimorando nossas potencialidades.

Lao Tsé e outros sábios sempre souberam que jamais poderiam converter alguém – o máximo que poderiam fazer era dar o exemplo, falar sobre sua própria experiência espiritual, sobre os percalços e as consolações do caminho, e esperar pacientemente que cada um, por si só, a seu próprio momento, convertesse a si mesmo.

Que não existe manual para o caminho alheio, apenas para o nosso próprio. O único infiel que tem de ser convertido é aquele que se encontra em nossa própria alma. Somos o juiz e o escravo, o apóstolo e o seguidor, o mestre e o discípulo, de nossa própria causa. Temos de ser fiéis ao nosso próprio ser, ao nosso tanto de fagulha divina que, ainda assim, é e sempre foi a única maneira com que Deus falou conosco – como o vento que sempre nos envolveu, embora não saibamos ao certo por onde ele tem passado.

A seguir, o evangelho do agnóstico...

***

[1] Muito embora, mesmo no taoismo existam lendas que colocam Lao Tsé como uma espécie de deus na Terra. Da mesma forma que existem religiosos superficiais no Ocidente, existem também no Oriente. Este texto não pretende ser, portanto, uma exaltação da religiosidade oriental como “superior”. Apenas procura atestar que a religiosidade pura, não eclesiástica, é muito mais comum na cultura oriental – independente de seus seguidores as terem compreendido ou não.

***

Crédito das imagens: [topo] Trinette Reed /Corbis; [ao longo] Ma Dan/XinHua/Xinhua Press/Corbis.

Marcadores: , , , , , , , ,

4.2.11

Reflexões sobre a evangelização, parte 1

Evangelizar: de “evangelista”, εúάγγελος em grego koiné (dialeto popular da antiguidade), que significa “boas novas” ou “boas notícias”. Evangelizar significa, portanto, trazer as boas novas ao conhecimento dos homens.

As boas novas

Nem todos concordarão com a definição dada acima para o verbo “evangelizar”. Para um termo tão essencial ao cristianismo, surpreende que seja tão complexo defini-lo – mesmo entre os próprios cristãos.

Há muitos religiosos (não apenas cristãos) que creem piamente que sua principal função enquanto pertencentes a um grupo doutrinário ou igreja seja precisamente repercutir aos quatro cantos do mundo tudo o que sua respectiva doutrina dita. No caso particular de doutrinas que nos trazem mandamentos e preceitos morais, isso invariavelmente significa que, para tais religiosos, evangelizar significa não apenas trazer um consolo espiritual ou alguma boa notícia do reino de Deus, mas também ditar como as pessoas devem se portar em sociedade, normalmente afim de não caírem em “tentações e maus caminhos”, e alcançarem o Céu após a morte.

Eu costumo sempre lembrar que religião e igreja não são a mesma coisa. Religião (re-ligare) é a religação a Deus ou ao Cosmos, uma experiência profundamente subjetiva que é percebida e praticada pelos homens desde a pré-história – particularmente através do xamanismo. Igreja (ekklesia) significa uma comunidade dos escolhidos de Deus – um grupo ou elite de pessoas que teoricamente possuem alguma espécie de “conhecimento oculto” capaz de fazer com que os homens possam se elevar ao Céu ou alcançar o reino de Deus.

A definição de religião pressupõe um Deus universal, um ser cósmico que pode inclusive ser confundido ou interpretado como o próprio Cosmos em si, e para o qual cada um de nós se inclina a retornar, passo a passo, por seus próprios meios, seguindo um caminho pessoal, subjetivo, intransferível. Já a definição de igreja dá a entender que Deus está a eleger um grupo de escolhidos, destinados a alguma tarefa especial no mundo – e a todos os demais, aos que se afastaram de sua doutrina, geralmente não são esperadas boas notícias após a morte. No melhor dos casos, serão enviados a alguma espécie de “limbo” onde irão aguardar um julgamento que, teoricamente, pode ser “aliviado” pelas orações daqueles que estão no grupo de escolhidos, os eclesiásticos.

Dessa forma, embora todo membro de igreja seja religioso, nem todo religioso será um membro de igreja.

Mesmo os evangelhos, por exemplo, não foram somente aqueles quatro escolhidos pela “comissão” de Constantino para compor o Novo Testamento. Existiriam muitos outros, e, sobretudo, existiriam muitos seguidores destes outros textos, taxados de apócrifos (segundo alguns, “errado, falso, não autêntico”, segundo outros, “livro ou texto secreto, conhecimento oculto”). Estes que foram chamados por Constantino de gnósticos, e perseguidos e assassinados ou obrigados a se “converter” ao “cristianismo oficial”, na verdade sempre chamaram a si mesmos de cristãos, e praticavam sua religiosidade em pequenos grupos, em colinas, em cavernas, em qualquer lugar – pois compreendiam que o reino de Deus abrange todo e qualquer lugar, todo e qualquer tempo, e não necessitavam de apóstolos ou padres para lhes ensinar a direção.

Muitos evangelhos apócrifos foram escondidos em vasos e enterrados em cavernas na região onde viveu Jesus, pois do contrário teriam sido queimados como todos os outros condenados por Constantino. Mas ao longo dos séculos eles foram sendo desenterrados, na medida em que a igreja de Constantino vinha perdendo sua força e sua capacidade de ditar o que os homens deveriam ou não considerar como “autêntico”. Em Nag Hammadi foi achado um dos evangelhos mais profundos de que se tem notícia, o Evangelho de Tomé – nele Jesus nos dá uma pista de onde se encontra, afinal, o reino de Deus:

Jesus disse: Se aqueles que vos guiam vos disserem: vê, o Reino está no céu, então os pássaros vos precederão. Se vos disserem: ele está no mar, então os peixes vos precederão. Mas o reino está dentro de vós e está fora de vós. Se vos reconhecerdes, então sereis reconhecidos e sabereis que sois filhos do Pai Vivo. Mas se vos não reconhecerdes, então estareis na pobreza, sereis a pobreza. (versículo 3)”.

Sem dúvida tal definição do reino é um tanto paradoxal. Ora, se ele já se encontra aqui e agora, dentre nós e a volta de tudo e de todos, como poderá algum padre, algum pastor, algum guru espiritual, algum evangelizador, nos apontar a correta direção?

Aparentemente, todas as direções são corretas. Porém, ao mesmo tempo, há que se ter olhos para vê-las. Não se trata, portanto, de buscar alguma espécie de grupo de escolhidos, alguma espécie de salvação do fim dos tempos, através do conhecimento de uma doutrina em específico, ou através deste ou daquele preceito moral... Não, jamais foi assim tão simples, jamais será tão fácil!

Gibran Khalil Gibran, o grande poeta do Líbano, dizia que “Nenhum homem poderá revelar-vos nada senão o que já está meio adormecido na aurora do vosso entendimento.” – Ora, é precisamente isso que nos ensinaram os grandes sábios de outrora, desde Lao Tsé a Sócrates; é precisamente isso que Jesus queria dizer com o “Mas se vos não reconhecerdes, então estareis na pobreza, sereis a pobreza”.

Estamos num mundo repleto de boas novas por todos os lados, debaixo de pedras e dentre os galhos partidos, além das nuvens e próximo a beirada dos rios e oceanos, muito além das estrelas mais longínquas e ao mesmo tempo tão próximo como nosso pensamento mais querido. Não nos cabe decorar ou recitar orações ou fórmulas mágicas para adentrar ao reino das boas novas, que estas são apenas muletas para aqueles que ainda não conseguem se erguer por si mesmos. Cabe-nos tão somente olhar para dentro, conhecer a nós mesmos, evangelizar ao nosso mais precioso inimigo.

E para aquele que conseguiu evangelizar a si próprio, aquele que alcançou tal nirvana da alma, não será sequer necessário buscar seguidores – eles mesmos o reconhecerão. Não será sequer necessário anunciar a boa nova, seu olhar já a trará como pérola misteriosa em oceano profundo. Não será sequer necessário fundar uma doutrina ou igreja, que esta já foi fundada desde o início dos tempos. A igreja é o próprio reino, a igreja é o Cosmos.

A seguir, o pequeno manual para a conversão do infiel...

***

Crédito da imagem: Neil Guegan/Corbis

Marcadores: , , , , , , , , ,

26.1.11

É o fim do caminho?

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É à noite, é a morte, é o laço, é o anzol

Esses são os versos iniciais de “Águas de Março”, célebre música composta por Tom Jobim no fim dos anos 50. Tom compôs este e diversos outros sucessos enquanto visitava o sítio da família na localidade de Poço Fundo, a 40 minutos de Petrópolis. A beleza da região serrana do Rio de Janeiro parece sem dúvida ter ajudado muito em sua inspiração. A poesia de Jobim fala sobretudo da vida – o vento ventando; uma ave no céu; é a promessa de vida no teu coração – e da morte – é o fim do caminho; é a noite; o fim da ladeira.

Ultimamente a natureza não tem esperado Março para enviar suas águas. Em Janeiro de 2011 a região serrana do Rio registrou a maior tragédia natural de que se tem notícia no estado: as chuvas vieram muito fortes e praticamente todos os morros tiveram deslizamentos de terra, matando centenas de pessoas, soterradas pelas próprias casas – particularmente em Nova Friburgo e Teresópolis. A casa onde Tom Jobim compôs suas canções também foi levada pela enxurrada.

Este desastre natural, entretanto, não se compara ao terremoto que devastou quase completamente Lisboa, a capital de Portugal, em 1755. Em uma época onde a população mundial era muito inferior a atual, estima-se que morreram entre 10 e 100 mil pessoas naquele que é até hoje o terremoto mais letal da história. Até aquela época era muito comum atribuir os desastres naturais a “ira divina”, num tipo de associação de ideias que data da pré-história... Entretanto, o terremoto de 1755 suscitou respostas divergentes dos filósofos iluministas. Gente como Voltaire parece ter se cansado de ficar sempre a mercê da “ira divina”, e tratou de analisar a existência como ela realmente o é – um ciclo de vida e de morte.

Nossa sociedade moderna parece ter enorme dificuldade em lidar com a morte. Tirando as funerárias e as seguradoras, parece que ao capitalismo a morte é um tremendo desperdício: altos funcionários e CEOs que acumularam conhecimento e experiência por décadas e décadas subitamente se tornam incapazes por razão do envelhecimento, se aposentam, e depois simplesmente se despedem de nós. Atores de cinema ou TV, de fama mundial, que trazem renda garantida aos grandes estúdios, subitamente se vão ainda durante as filmagens do próximo blockbuster. Até mesmo aquele economista de renome que sempre consultávamos antes de realizar nossas aplicações na bolsa de valores, ele também se vai, e não sabemos mais a quem consultar.

O capitalismo, entretanto, parece não sentir falta dos informais, das donas de casa, dos lixeiros, dos carpinteiros, dos pedreiros, dos pequenos trabalhadores do campo, enfim, dos pobres. A informação que se perde quando estes se vão não parece de tanta importância para que o giro da roda do dinheiro continue sua constância – mas fato é que todos morrem. Todos podem ser levados pela enxurrada, pelos tremores, pelos acidentes, pela violência e ignorância dos homens, ou simplesmente pelo próprio tempo em que aqui se vive. Sim, pois não há dia em que não estejamos a morrer: todas as nossas células morrem e são substituídas por outras, inúmeras vezes, durante a vida de nosso corpo. Nesse sentido, a própria vida é uma tragédia constante...

Porque então estarrecer-se com a sombra da morte? Se a morte é apenas o último tilintar dos neurônios no cérebro – estes que também morrem e nascem a todo dia – então a morte é apenas um sonho sem sonhos. Morremos então, todo dia, conscientemente – pois sabemos da degeneração celular –, e inconscientemente – quando nos deitamos na cama e sonhamos uma vez mais, até o dia seguinte, até o próximo ciclo do Sol.

Porque então agradecer aos deuses por ter sido poupado de uma tragédia, se toda a tragédia é em si uma tragédia? Por vezes, teria sido melhor não ter sido poupado, ao menos se compreendemos a morte como o fim do caminho. Nas religiões orientais, particularmente no hinduísmo, o aspecto destrutivo de Deus é tão bem compreendido quanto o aspecto criativo. Entende-se, sobretudo, que a existência não é uma história simples, um “era uma vez...”, com início, meio e fim – mas antes um ciclo incomensurável, uma existência cósmica que se estende até as beiradas do infinito, uma história onde falar em início e fim faz tanto sentido quanto falar no nascer e no por do Sol.

Em todo caso, os céticos dificilmente entenderão como pode este povo tão simples, aparentemente tão ignorante, continuar louvando ao Deus do cristianismo mesmo após tamanha tragédia natural. Tragédia natural é ato divino, é coisa da natureza, e da natureza cabe o cuidado de Deus. Se ele poupa alguns e toma outros, porque agradecer, porque se revoltar, porque enfim, acreditar?

É que naqueles que creem, mesmo que seja na sombra da sombra do Deus de todo o Cosmos, reside esta distinta intuição de que nada ocorre ao acaso, até mesmo porque ninguém sabe o que diabos é o acaso... E se o próprio acaso for ele mesmo mais um deus, será em todo caso tão desconhecido quanto Aquele outro. E ainda que permaneçam fiéis ante a maior das tragédias, como os apóstolos a serem pregados nas cruzes, é porque em seu íntimo sabem, de alguma forma, que a morte não é o fim do caminho, mas apenas a passagem de um ambiente ao outro, na grande casa do Cosmos.

Mas e aqueles que não creem? O que lhes resta senão encarar face a face este aparente “grande nada”, o vazio, o buraco negro que suga tudo o que há? Talvez, conforme os estóicos e epicuristas, devam se contentar com o que podem mudar, o que podem decidir, o que podem sentir, no aqui e no agora. E, conforme disse Carl Sagan, de alguma forma se contentarem com viver na memória daqueles que os amam – a vida após a vida – embora não estejam mais aqui para saber...

E, finalmente, aqueles que compreendem a morte mais profundamente, sabendo perfeitamente que ela é ao mesmo tempo um fim e um recomeço, ao mesmo tempo uma enorme mudança e uma fugaz renovação, ao mesmo tempo o arauto do desespero e a promessa da evolução, não há que se ater aos fantasmas das mentes alheias. Não há que se estagnar com o tempo e a vontade nas mãos. Não há que cair na ilusão de que o mundo todo é tão somente isto que vivemos aqui, neste planeta ínfimo na periferia de uma de bilhões e bilhões de galáxias do Cosmos... Somos, sim, seres a viajar por esse universo infinitamente belo, tanto pelo milagre da vida quanto pelo caos da destruição, que no fim apenas permite que a vida se renove e renove, rumo a algum lugar cada vez mais alto na montanha divina, rumo aos galhos ao topo da árvore da vida, onde o Sol pode ser visto em toda a sua glória, e onde tudo o que há é amor a irradiar-se nos mais variados espectros de pura luz.

Aos que tem olhos para ver, restará sempre esta promessa de vida em seus corações. Não de um céu de tédio eterno, mas do trabalho contínuo, do caminhar passo a passo, do navegar em mar revolto e noite fria, mas sempre rumando ao próximo farol.

Perto deste conhecimento, perto desta visão distinta do jogo da vida consigo mesma, do turbilhão de seres e potencialidades a desafiar a entropia cósmica, um mero terremoto, uma pequena enxurrada, é tão significativa quanto à destruição de um ninho de formigas... Embora mesmo a menor das formigas seja, ela também, parte da mesma teia que nos conecta a todo o Cosmos.


E se viver é morrer a cada instante,
Entregamo-nos, então, à eternidade.
Mas se viver é sofrer na escuridão,
Entregamo-nos de corpo e alma à caridade.

(trecho final de poema de Otávio Fossá)

***

Elis Regina e Tom Jobim cantando "Águas de Março".

Crédito da foto: Wikipedia (ruínas do Convento do Carmo, destruído no terremoto de 1755)

Marcadores: , , , , , , , , , ,

3.1.11

The lessons of evolution

(translated by the author from the orginal portuguese article, “As lições da evolução”)

All of those who did not enlisted themselves in holy wars can learn some lessons from Darwin-Wallace’s theory concerning the origin and evolution of the species. Lessons about how nature works not only at the physical level, but at the spiritual level as well. Those who think that the evolution determined the triumph of materialism against other philosophies of nature are just wrong. If modern sciente opted to “forget” Alfred Russel Wallace, who was a spiritualist, at least it couldn’t do anything about what Charles Darwin wrote at the last paragraph of “The Origin of Species”:

“Thus, from the war of nature, from famine and death, the most exalted object which we are capable of conceiving, namely, the production of the higher animals, directly follows. There is grandeur in this view of life, with its several powers, having been originally breathed by the Creator into a few forms or into one; and that, whilst this planet has gone circling on according to the fixed law of gravity, from so simple a beginning endless forms most beautiful and most wonderful have been, and are being evolved.”

We know that this theory never pretended to explain the surge of life nor of the human consciousness, but the mecanism from which life evolved from the ancient and most simple life forms over Earth. Even then, and not without good reasons, it became one of the pilars that sustains the modern materialist thinking that says that all we are can be explained just by the particles that forms our bodies and brains – even when we actually don’t have a clue about which particles forms our counsciousness, but that’s another story.

What I would like to show here, though, is that the evolutuon theory also brings some huge lessons for a spiritualist view of existence:

We are all one
Even at physical level, we are formed by particles, by dust from distant stars that came to our planet over meteors and, mixing with other elements at Earth’s cradle, mysteriously created the very first living organisms. From organisms as simple as bacterias, everyone else surged, evolving from the same life code, the DNA. Today science proved that there are no human races, our genome is almost identical from australian aborigene to the white european. Not only racism is ignorance, but the notion that we are beings apart at creation, that irrational animals should serve us as objects, is absurd. The indians already knew that we are all one, that nature is only one, and that we are all connected; But, in modern age, scientific proof was needed for our eyes to be opened once more. This is nature’s biggest lesson: next time you look at a small squirrel by the ground, know that we are only here because their ancestors, our ancestors, survived the great extinction of the dinossaurs. We are sons of the squirrels, and the bacterias, because on this cosmic path, nobody is more special than anybody, the same opportunity to live and evolve was given to all of us.

We benefict ourselves from exchanges
The concept of “pure race” was definitely dumped by evolution. If nazism surged on the world, it was because their leaders were also ignorant, and lost the opportunity to learn from nature. Isolated human beings, reproducing only in small local communities, are much more vulnearble to viruses and diseases overall, because they simply didn’t had enough mixtures with genomes from other human beings that walked across distant places of Earth.
Altough, more even, we know that commercial, cultural and religious exchanges were fundamental for humanity’s development as a whole. It was with the silk route, from India to Europe and Middle East, that many civilizations begun to develop faster and faster. It was by the time when many philosophical and religious douctrines met at the same peaceful place that much of our global knowledge solidified: from Ancient Greece to Alexandria, from Al-Andaluz to European Renaissance.
If we made those archievements through the exchange of genes, market goods and knowledge, who knows where we could reach with the exchange of love?

Altruism is one species’s evolution
From bacterias that spends energy to produce a viscous substance that make their colonies float over water’s surface and became more protected, to the ancient gift exchange among homonidies, where male brought food from their hunts as payment for having sex with the females, altruism has been comproved as one species’s evolution.
Those who hunt alone will have more food when he kills his prey, but history shows that those species who hunt as a group obtains an evolutionary advantage: when everybody helps each other out, even having to share the hunt, they have much more chances of avoiding dying by starving, alone, because the probability of getting a good hunt each day is much bigger for groups with more eyes and more sharp weapons.
Since ancient times, nature have been teaching us that mystery: the more we share with other beings, more potential we develop to share even more. Love is neverending fuel, the fire from it’s pyre is eternal and the wind only make it grow more and more...

From adversity comes the greatest evolutionary leaps
No species evolved with little stress lives, be it by the abundance of preys to be hunted or by the complete ausence of predators. Without adversity, be it a starving predator or one’s stomach begging for energy, beings wouldn’t had any good reason to evolve.
Altough we all like peace, that everything “works as planned”, we cannot expect that adversities pass always far from us. That would be, at the long range, a big trap. Stagnation, be it physical, be it mental, be it spiritual, is the greatest evil of mankind. The dark age of medieval Europe showed us that dogmas do not serve as our salvation, and that absolut truths manuals are of no help if the people is yet ignorant of the real intepretation of those truths. To aquire knowledge doesn’t make anybody a saint: it’s needed to practice, it’s needed to step deep in the mud, it’s needed to face the desert and comprehend that, be stagnation anywhere still alive, nature won’t let us relax.
The “war of nature”, which Darwin spoke about above, is the path where it’s mecanism keep pushing us, over and over, always upwards.

Environment shapes us
Deep water small cataclysms, caused by the interruption in the leak of high temperature waters from terrestrial crust, can cause the extinction of whole ecological niches, killing small coral reefs and other species from ocean’s deep. A river changes it’s course, monsoons are interrupted, and entire empires are extinct, or move to invade new territories, like is the usual case in southern Asia history...
In our vain hope that we were the center of the whole Cosmos, we believed that it were the gods who should serve us, even by the path of so many forms of bargains. Even today, there are scientists who believe that they can dictate the routes of nature, “creating” new species or slowing indefinitely the aging of body’s cells. All in vain: nothing is still, everything flows, everything vibrates. Nature moves in cycles, and between glacial ages over Earth, the humans have surged with all of their knowledge.
But not all knowledge is vain. The greatest proof of this is in the comprehension that it’s the environment which molds the evolution of the species, much more than the battles for survival. And even here, once more, the indians were correct: we are all connected, more even with the environment around us.

Nature is free
Men have been trying to comprehend the mecanisms of nature, but even today they fail miserably over any kind of deeper prediction about where the wind gotta blow next. To predict climate over a short time is possible, but over the long range it’s not: nature insists in raising it’s veil, and among the smallest events that, for not knowing their true cause, we call as “chaotic” or “random”, nothing can be predicted efectively from the future. Nor where the wind gotta blow, nor where the earth gotta shake, nor up to where evolution gotta bring us.
Darwin used to say that the destiny of species “tends towards perfection”. Even it being so complex to define perfection, nature will never get tired of surprising us. In just a few seconds of the cosmic year, men were born with all their knowledge. Perfection is the tomorrow, is what is yet to come, is the potentiality of the etereal consciousnesses dancing over the ages and the species – and nobody can really tell where all of this gotta end. Of it’s agenda, life itself cares: nature is free.

Life is the function of the system
Even every system having it’s function, there are many who opt to ignore that even nature-system has one. In every particle that insists to mold organisms that behave in an anti-entrophical way during the time they are alive, lies a piece of the sacred code; Which codified, tells along infinite chemical reactions among the cosmic whirlwind: “To produce life, that is my function”.

The law of evolution
Nor the strongest, nor the most intelligent. Survives and evolves those who better adapt to the environment’s conditions, and it’s constant changes.
Physically, we are part of the species which obtained the biggest sucess over adapting to the Earth’s environment. We explored and occupied the most remote zones of our planet, and today we are in the very first steps of launching ourselves over the vast Cosmic ocean. Which we still lack, if not an adaptation of the consciousness? If not to explore and to occupy our infinite interior?

article by Rafael Arrais

***

Image credits : [top] Louie Psihoyos/CORBIS (Paleontologist Doug Zhiming); [middle] Bettmann/CORBIS (Neanderthal)

Marcadores: , , , , , , , , ,