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2.1.14

O ano em que virei editora

É claro que todo escritor sonha em publicar um livro, mas até cerca de um ano atrás tudo o que havia conseguido publicar era um livro com tiragem quase “caseira”, vendido sobretudo entre familiares e amigos, e alguns outros livros de RPG, contos, poemas e artigos antigos deste blog, todos disponibilizados diretamente como PDF para download.

Há cerca de um ano atrás, porém, eu estava angustiado e esperançoso ao mesmo tempo. Angustiado por ter de finalizar meu livro, Ad infinitum, que vinha sendo escrito há cerca de 3 anos, e esperançoso por crer que, após seu lançamento, eu finalmente me veria livre daquele fardo, e poderia me dedicar somente ao blog e aos videogames novamente.

É claro que todo escritor fica feliz e aliviado ao ter seu livro publicado, mas até cerca de um ano atrás eu mal poderia imaginar que, após Ad infinitum, ainda viriam 11 outros livros, a grande maioria de outros autores.

Foi “quase sem querer” que tudo ocorreu... Após haver autopublicado meu livro em formato impresso, através do Clube de Autores, estava eu folheando uma revista na banca de jornais próxima da minha casa quando soube, através de uma matéria de meia página, que a Amazon não somente havia recém chegado no Brasil com o seu leitor de livros digitais, o Kindle, como já era possível a autopublicação de ebooks através do serviço Kindle Direct Publishing.

Como já era cliente da Amazon há muitos anos (inclusive tendo ganhado boas comissões através da venda de livros de RPG através de um site antigo que mantive no final da década de 90), fui testar o serviço... A princípio, bastava enviar um arquivo Word relativamente bem diagramado, uma capa e uma descrição, escolher o preço final de venda, que a Amazon publicava e vendia a obra. O autor ainda ficaria com entre 35% a 70% do valor das vendas – algo imensamente superior aos 5% a 10% do mercado impresso.

Na prática, não era assim tão simples. O arquivo Word do Ad infinitum que enviei não resultou em um ebook que me agradasse, e como sou “relativamente perfeccionista”, precisei estudar um pouco melhor acerca da arte da diagramação de livros digitais... Para minha surpresa, descobri que em seu estado mais essencial, um ebook nada mais é do que html, a mesma linguagem de código que monta as páginas da web, e a mesma linguagem com a qual trabalho profissionalmente há quase uma década!

Apesar de não ter sido algo tão trivial, consegui aprender a montar um epub, que é o formato de livro digital mais utilizado no mundo todo. Com isso, o caminho estava aberto para autopublicação não somente na Amazon, mas também na Kobo, que também havia recém-chegado ao país, em parceria com a Livraria Cultura [1].

Até aqui, tudo certo: ter um livro disponível em impresso e em versão digital, sendo vendido na grande Amazon, já era uma conquista e tanto para quem, até poucos meses antes, não sabia nem se ou quando exatamente conseguiria finalizar o tal livro... Mas isto ainda era somente o início – foi navegando pelas listas de mais vendidos da Amazon brasileira que me deparei com algo bastante intrigante...

Eu não pude deixar de notar que havia diversos livros digitais de Fernando Pessoa com preços muito diferentes uns dos outros. Enquanto muitos eram vendidos a cerca de 15 ou 20 reais, o que seria um preço comum para ebooks, outros custavam 5 reais ou até menos do que isso, e não pareciam dever em nada, na qualidade da capa e da diagramação, aos demais.

Quando fui me informar melhor sobre essa disparidade de preços, acabei compreendendo o que se passava. Ocorre que Fernando Pessoa morreu em 1935, de modo que em 2005, 70 anos após sua partida, toda a sua obra entrou definitivamente em domínio público no mundo todo. Isto significa, dentre outras coisas, que qualquer um pode editar seus livros como bem entender, sem dever nenhum centavo de direitos autorais aos antigos detentores de seus direitos de publicação.

Ora, isto também significava que eu mesmo poderia publicar minha própria antologia da poesia e da prosa do grande poeta português. E foi exatamente o que fiz a seguir, daí nascendo o ebook Navegar é preciso, que até hoje é muito bem sucedido em vendas, principalmente na Amazon.

Mal podia suspeitar, há um ano atrás, que me tornaria não somente um escritor publicado na Amazon, mas um editor, um tradutor e, porque não, uma editora!

Após Pessoa, que não necessitava de tradução alguma, fui atrás dos melhores autores e livros que li na vida, buscando a viabilidade da autopublicação dos mesmos. Com isso, logo na sequência encontrei uma rara tradução de Friedrich Nietzsche que já se encontrava em domínio público e, com a ajuda de meu amigo Frater Sinésio, que ajudou na revisão do texto, publiquei o célebre Assim falou Zaratustra pelo preço de um café expresso (ou menos) na Amazon Brasil. Até hoje, é de longe o ebook mais vendido das Edições Textos para Reflexão, sendo que raramente sai da lista dos 100 mais vendidos.

Depois, entre traduções e edições, algumas com a estimada ajuda de Sinésio, ainda consegui publicar mais 9 livros digitais durante o ano, atingindo uma média totalmente inesperada de 1 livro por mês. Embora nenhum deles tenha atingido o sucesso de vendas dos dois anteriores, há muitos que também se destacaram.

Porém, independente das vendas, que são realmente muito bem vindas, o que mais importa é que isto se tornou também um hobby extremamente prazeroso. Claro que também dá um bom trabalho (neste ano joguei muito pouco videogame), mas é um trabalho bastante recompensador – não exatamente pelos reais que caem na minha conta de banco, mas pela possibilidade de iniciar, quem sabe, algumas centenas de pessoas, em sua maioria jovens, em alguns dos maiores textos da humanidade...

Eu não estou brincando, eu realmente fui muito cuidadoso na seleção dos livros. “Cuidadoso” talvez não fosse a melhor palavra... Intuitivo, quem sabe? É que não fiz grandes planos de publicação, e fui publicando meio que conforme o coração mandava. Por exemplo, eu certamente não publicaria Nietzsche antes de Lao Tse ou Gibran, se fosse seguir minha lista de preferências, mas o fato de haver publicado Nietzsche antes dos demais foi de vital importância para o estabelecimento das vendas dos livros que vieram após, já que o livro de Nietzsche passou a anunciar a editora e, consequentemente, os demais lançamentos.

Outra questão interessante e não planejada (pelo menos, conscientemente) é a relação que existe entre os livros e seus autores. Já havia um conto em Navegar é preciso em que Pessoa mencionava Epicuro, que por sua vez também já fora alvo das críticas apaixonadas do grande filósofo alemão. Também há autores que destacam a proximidade de algumas ideias de Pessoa com as de Nietzsche que, por sua vez, foi um dos influenciadores de Khalil Gibran. A Arte da Guerra é um clássico que, sem dúvida, deve muito de suas ideias a outro ainda mais antigo, o Tao Te Ching, que por sua vez ainda influenciou parte dos conceitos de A Voz do Silêncio, de H. P. Blavatsky – que também foi traduzido para o português por ninguém menos que... Fernando Pessoa!

Mesmo Jalal ud-Din Rumi bebe da mesma fonte do gnosticismo presente nos Evangelhos de Tomé e Maria, que por sua vez também ecoa no Profeta de Gibran... Enfim, são mesmo muitas relações inesperadas entre estes poucos livros.

Portanto, eu me despeço do ano que passou com o mesmo espírito e o mesmo entusiasmo com que abraço o ano que chega... Sem tanto planejar mas, antes de mais nada, agradecer. Agradecer imensamente pela oportunidade de melhorar um pouco toda esta vizinhança, não exatamente através das minhas palavras, mas através dos dizeres de tantos gigantes de outrora. Pensamentos que já me ajudaram muito nesta vida, mas que nunca poderia imaginar que seriam publicados por mim.

É, sem dúvida, uma honra (não mais um fardo)... Espero que gostem do percurso, e que seus dias, e nossos dias, permaneçam sendo sempre este Ano Novo perene, elaborado e sustentado por tantas reflexões vindas do Alto.

02/01/2014

Rafael Arrais (autor/tradutor/editor)

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[1] O serviço de autopublicação da Kobo se chama Kobo Writing Life (KWL). Além dele e do Kindle Direct Publishing (KDP), ainda publico hoje através do Publique-se da Livraria Saraiva. Infelizmente os serviços de autopublicação da Google e da Apple ainda não estão disponíveis para alguém residente no Brasil. Para maiores detalhes acerca do mundo da autopublicação, recomendo o site Revolução eBook.

Crédito da imagem: Joel "Boy Wonder" Robinson

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2.12.13

O último suspiro

Se há uma lenda que me incomoda é a lenda da luta eterna entre a fé e a razão, a ciência e a espiritualidade. Não acho que seja assim, não creio em tal lenda, acho que foi inventada e têm sido constantemente anunciada exatamente por aqueles que beberam somente das águas paradas no charco em torno do córrego do Cosmos. Era preciso encharcar as galochas, era preciso avançar sobre o matagal, era preciso ter a água até a cintura e, só então, ter coragem para mergulhar.

Mas não mergulharam, e acharam que a ciência era somente uma descrição mecanicista da natureza, um mero conjunto de equações; E acharam, isto também, que a espiritualidade era somente o que este ou aquele deus dizia que fosse, um mísero conjunto de orações para se decorar, e anedotas para se contar na mesa de jantar pouco antes da ceia de Natal.

Ah, os eclesiásticos, eles querem nos convencer de que há algum Deus que pode ser enclausurado nas paredes de seus templos, e ser obrigado a escutar, agachado e sem poder dançar, a toda a sua lenga lenga escrita em tomos de capas douradas e encenada com mantos de pura seda. Mas foi exatamente um de seus filhos que orou nos desertos, e que nos falou que ele estava espalhado por tudo o que há, e que os ventos traziam seu perfume.

E os acadêmicos? Eles querem passar em seus vestibulares e publicar suas pesquisas minuciosas nas revistas mais badaladas. Eles querem provar suas teorias do tudo, e as esfregar na cara de todos aqueles que ainda ousam acender uma vela para um santo ou orixá. O que ganham com isso? Melhor seria se eles mesmos acendessem suas velas para os deuses – o deus da Gravidade, o deus da Eletricidade, o deus da Energia Escura. Há muitos e muitos deuses pelo Infinito!

Mas quem, como Feynman, apenas se deleita em conhecer um pouco mais acerca da inefável natureza da Natureza? Quem, como Feynman, já compreendeu que, ao final da vida, não haverá nenhum Professor para lhes fazer um questionário final, nenhuma média que precise ser alcançada e nenhuma teoria que precise ser comprovada. E, da mesma forma, tampouco haverá algum Juiz para lhes decretar o caminho do Céu ou do Inferno.

O Inferno já existe na mente daqueles que o temem, ou que já desistiram deste mundo. No Céu, afinal, entraremos todos de mãos dadas. E, de fato, já estamos caminhando de mãos dadas. Só que, quando os da frente tropeçam, nem sempre os que lhes davam a mão se mantém firmes e o seguram onde estava. É por isso que todos tropeçam nas mesmas pedras e vagueiam em zigue-zague pela existência, cada qual procurando ser o Super-homem capaz de vencer todos os erros do ser humano.

Ah Nietzsche! Quão pouco faltou para compreender... O Super-homem não era um homem só acima dos demais, mas uma comunidade que se torna maior por pensar na mesma vibração e amar o mesmo horizonte. Esqueçamos também o que disseram o primeiro e o segundo zaratustras, eles também ficaram velhos, e o rio que corre hoje não é mais o mesmo que correu há mais de um século.

E se Deus está morto, que o façamos ressuscitar, ou reencarnar nalgum outro deus – contanto que tenha espaço para dançar, pois nisso o bigodudo estava certo!

Deus e Natureza, afinal, são apenas palavras, e as palavras deveriam servir para o entendimento dos homens e mulheres, jamais para o seu afastamento. Se os cientistas observam as estrelas mais distantes em seus aglomerados galácticos, se valendo de suas lunetas tão modernas, também os espiritualistas observam a fundo, e cada vez mais fundo, o abismo de suas próprias almas.

E o que falta, senão mergulharem? Senão construírem naves espaciais e barcos mitológicos para navegarem para dentro e para fora de si mesmos? “Deus ao mar o abismo e o perigo deu, mas nele é que espelhou o Céu”, disse o poeta que também foi navegante...

Os tempos já são chegados e a Natureza já dá os seus sinais. Extraímos metade do petróleo existente na Terra, e em poucas gerações iremos nos digladiar por água doce. Não há mais tanto tempo assim. Não é que o mundo esteja ameaçado, somos apenas nós, os seres humanos, que temos cada vez menos tempo para ajustar as coisas.

E, se não vamos mais ao Coliseu ver feras devorando escravos, disso não podemos nos abster de comemorar... Mas, como sabemos, ainda é cedo para que tenhamos a batalha por ganha. O animal ainda se esgueira pelos charcos da alma humana, e sem o fogo, sem a morte e o renascimento, estaremos fadados a continuar repetindo os caminhos em círculo de nossos ancestrais.

Se existe Deus ou o neutrino, quem vai saber? O desconhecido inexistente é idêntico ao existente. Quem já deu alguns passos neste Caminho, no entanto, sabe. Como Agostinho sabia: “Amanhã, amanhã? E porque não hoje?”.

Demoramos tantas eras, tantas gerações e vidas, para chegar até aqui. E quanto mais sabemos, mas há por saber. Mas sabemos! Sabemos que o Infinito fica ali, logo adiante, logo após o horizonte.

Até quando ficaremos separados, nos digladiando em nossas caixas de areia, enquanto há tantos bosques, prados e montanhas tão maiores? Muito maiores...

E quem já deu alguns passos neste Caminho, quem já subiu na beirada do monte, quem já viu de relance o serpentear do córrego do Ser pelas escarpas longínquas do verdadeiro Paraíso sabe.

E dá um último suspiro, e este suspiro é tudo o que os demais precisam experimentar.

Para viver na imensidão, é preciso antes morrer em si e para si.

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Crédito da foto: Oleg Oprisco

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14.11.13

Eu não acredito em idade

Sim, esta é uma frase que sempre digo as pessoas quando o assunto envolve o tema “idade”. A maior parte delas apenas desconversa ou ignora completamente o que foi dito. Algumas ficam admiradas e me olham com uma aparência confusa: “Hmm, isto deve ser algo muito profundo, melhor não perguntar nada”. E somente umas poucas chegam a me perguntar: “O que você quer dizer com isso?”. Penso que está na hora de responder...

Primeiramente, é importante frisar que esta é uma das conclusões puramente intuitivas que trago de minha infância. “Eu não acredito em idade, eu nunca acreditei em idade” – é algo que simplesmente “nasceu comigo”, se é que é possível dizer. Não foi algo que li nalgum lugar, e nem mesmo algo que, somente pelo fato de haver lido em algum lugar, se tornaria parte da minha essência. Eu não acredito em idade, é parte da minha essência, e desde minha infância tenho tentado descobrir o que exatamente isto significa.

Quando pensam em idade, a maioria das pessoas pensa – conscientemente ou não, quer admita ou não – em uma espécie de relógio de areia onde cada grão que escorre pela fresta abaixo é um dia a menos, um dia que ficou para trás. E, da mesma forma, quanto menos grãos de areia restam na parte superior do relógio, menos tempo há para viver. Neste sentido, falar em idade é basicamente falar em morte: quanto maior o número, quanto mais próximo dos 70, 80, 100 anos, mais próxima estará a morte.

Eu ainda vou retornar ao assunto, mas por agora gostaria apenas de deixar claro que o fato de eu não crer em idade não significa que ignore a existência da morte. Da mesma forma que não ignoro que, com o passar das horas do dia, e com o pôr do sol e a chegada da noite, eventualmente irei deitar minha cabeça num travesseiro e dormir (ah não ser que esteja jogando RPG ou numa rave, mas isto têm sido cada vez mais raro em minha vida, para o bem ou para o mal).

Dito isto, após muito refletir cheguei a conclusão de que para mim existem em realidade três tipos distintos de “idades”. Embora eu creia nas três, talvez percebam que nenhuma delas tem relação direta com o que as pessoas usualmente chamam de idade.

A primeira idade em que tenho fé é a idade fisiológica. Ora, seja lá o que seja o “eu” ou a alma, é certo que, ao menos neste mundo, habitamos um corpo humano. E este corpo humano possuí diversas características, físicas e mentais, que são desenvolvidas ao longo da infância e da juventude, até a chamada idade adulta. Diz-se que um adulto é um ser humano que vive numa sociedade onde o texto de algum pedaço de papel afirma que, de acordo com sua idade, ele pode se casar, ter relações sexuais, votar, dirigir um automóvel, etc. O valor numérico destas idades varia de acordo com a região e a cultura do planeta. Na África há muitos adultos com 13 anos, enquanto que na maior parte do globo a idade da maioridade é 18 (19 na Coréia do Sul, 20 no Japão e 21 nos EUA). Como eu sou um sujeito que segue a maior parte das leis, sou obrigado a concordar e botar fé em tais números.

Mesmo o cérebro humano, dizem os neurologistas, têm suas “idades”. Por hora do nascimento, um cérebro humano pesa cerca de 350 gramas e têm ¼ do tamanho de um cérebro adulto.  Com um 1 ano de idade, já têm o dobro do peso, 700 gramas, e metade do peso da versão adulta. Aos 6 anos, já têm 90% do tamanho final. Aos 12 anos, o córtex pré-frontal atinge sua fase final de desenvolvimento, que abrange toda a adolescência. Recentemente, cientistas têm discutido se este desenvolvimento não ultrapassaria em muito a idade dita adulta, geralmente os 18 anos, para terminar ainda muitos anos depois – o que estenderia, teoricamente, o tempo da adolescência, pois somente um “adulto com o córtex pré-frontal plenamente formado” teria condições de pensar com “toda a racionalidade condizente a fase adulta”...

Desta forma, ainda que eu acredite na idade fisiológica, isto por si só não me dá certezas se este ou aquele jovem já é mesmo adulto, se têm sua racionalidade “plena”, ou se ainda está em fase de desenvolvimento. Por via das dúvidas científicas, digamos que alguém na casa dos 30 anos estaria plenamente desenvolvido. Este sou eu: plenamente desenvolvido e, segundo uma amiga minha bem mais jovem, “já meio velhinho”.

E isto me leva para a segunda idade em que acredito, a idade espiritual. Bem sei que muitos aqui não irão concordar, mas fato é que também, desde minha infância, apesar de crer na morte, também creio na existência pós-morte e, da mesma forma, na existência pré-nascimento. Ou seja, não é que eu creia em vida após a morte, mas creio, isto sim, em vida após a vida, e em vida antes da vida. Creio em muitas e muitas vidas, enfim, e isto também está intimamente associado a intuições e lembranças de minha infância.

Quero lembrar que não é minha intenção “evangelizar” esta crença adiante, mas apenas explicar os motivos de minha descrença em idade – motivos, portanto, subjetivos. Dessa forma, para não me alongar muito, basta dizer que, quando lembramos de outras vidas e outras mortes, quem sabe da mesma forma que lembramos de viagens de nossa infância, ou do dia em que desmaiamos durante nosso primeiro porre alcóolico (embora eu não tenha tido tanta sorte, pois tenho uma grande dificuldade em perder a consciência), toda a vida atual é vista por um outro aspecto, um outro ângulo.

Dessa forma, se alguém me diz que estou “meio velhinho”, isto para mim faz tanto sentido quanto dizer que eu estou “a muito tempo nesta viagem de trem”. Não importa se os outros cismam em contar as horas até a próxima estação, eu não preciso mais me preocupar com isso, pois sei que a próxima estação é somente isso: mais uma estação nesta viagem infinita pelo Cosmos. Estação Terra, estação anos-luz da Terra – tanto faz, são todas estações.

Eu não sei se consegui me fazer compreender, pois isto é difícil de explicar com palavras fora de poemas, mas em todo caso acredito que a próxima idade ainda será esclarecedora...

Finalmente, creio na idade das montanhas.

Cícero dizia que “filosofar é aprender a morrer”. Há muitos que se admiram até hoje com Sócrates mais por sua serenidade ante a morte do que propriamente com suas ideias (“Mas eis a hora de partir: eu para morte, vós para a vida. Quem de nós segue o melhor rumo ninguém o sabe, exceto os deuses” [1]).

Já Schopenhauer, influenciado pelas ideias religiosas do Oriente, afirmava que “para seu enorme espanto, um homem se vê de repente existindo, após milhares de anos de não existência; vive por algum tempo, e então transcorre de novo um período igualmente longo em que ele não existe mais. O coração rebela-se contra isso, sentindo que não pode ser verdade.” [2]

Há muitos pensadores modernos, como Jim Holt, que não têm tanta fé na existência pós-morte, e admitem a plenos pulmões o seu grande medo do Nada: “O medo da morte vai além da ideia de que o fluxo da vida continuará sem nós [...] É a perspectiva do Nada que provoca em mim certa náusea – senão puro e simples terror. Como encarar esse Nada?”. [3]

Epicuro, apesar de tampouco crer na existência após a morte do corpo, lidava com o tema de forma muito natural: “Quando a morte está, eu não estou. Quando eu estou, ela não está. A morte, o dito mais terrível dos males, não significa nada para mim”. [4]

Dessa forma, não é bem a crença em existências anteriores e posteriores a esta vida, a esta estação, que nos alivia do peso da morte, do peso do Nada. Este peso não tem propriamente a ver com um medo paralisante de algo que um dia chegará, e que está neste momento sendo contado no relógio de areia que chamamos idade; este peso tem a ver com uma falta de sentido existencial, um vácuo aberto dentro do peito, um grande tédio, um Nada que pela lógica jamais pode haver existido, mas que não obstante pode nos atormentar por cada momento da vida.

Filosofar pode, de fato, ser aprender a morrer. Tanto quanto aprender a morrer é aprender a subir montanhas...

Uma outra coisa que trago da minha infância é a Serra da Mantiqueira, ao sul de Minas Gerais. Isto já não tem nada ver com lembranças de outras estações, mas com a suprema sorte de haver, nesta mesma estação, tido a oportunidade de passar proveitosos períodos de férias em um hotel fazenda de minha família.

Foi na Mantiqueira que aprendi a subir e subir, por entre florestas antigas que estão por lá há centenas de estações, pisando em rochas que sobrevivem há milhares, há milhões!

Foi na Mantiqueira que aprendi a olhar para baixo do topo do mundo, e observar (mesmo antes de voar de avião) como há tantos e tantos homens e mulheres e crianças brincando em seus terrenos pequeninos, em suas fazendas pequeninas, em suas casas de brinquedo, em suas caixas de areia.

Eles juntam montes de areia, colocam seus enfeites e um telhado para proteger das chuvas. Eles vivem lá boa parte de suas vidas. Eles guardam por lá boa parte do que amontoaram em suas viagens. Eles mal sabem quantas montanhas e estações existem pelo Cosmos...

O que a idade das montanhas me ensinou, e têm até este momento me ensinado, é que não devemos por certo entrar em pânico ante ao Nada. Se iremos dormir para não mais acordar, ou se iremos sonhar com outras viagens e outras estações, fato é que nada do que somos, nem mesmo do que nos forma, pode de fato ser aniquilado, arremessado ao Nada.

Pois as montanhas são a prova de que o Nada não existe. Elas estão lá, imponentes, acima de todos nós, nos lembrando de que há coisas maiores, bem maiores, cósmicas, que existiram e continuarão a existir muito após esta nossa pequena viagem.

E se vamos acordar para um novo sonho ou não, pouco importa. O que importa é não deixar o entusiasmo escapar por entre os dedos da alma. Que se vamos ou não deixar de existir um dia, isto não é algo que seja definido, de forma alguma, por nossa idade. E eu não acredito em idade.

***

[1] Platão. Fédon.

[2] Arthur Schopenhauer, O vazio da existência.

[3] Jim Holt. Por que o mundo existe? (Intrínseca).

[4] Epicuro. Carta a Meneceu (UNESP).

Crédito da foto: raph + instagram (Serra da Mantiqueira)

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30.10.13

E não pisquem os olhos!

Dizem que os alquimistas queriam transformar chumbo em ouro. Há um certo mistério nesta transformação: segundo Lavoisier, “na Natureza nada se perde ou se cria, apenas se transforma”; então, poderíamos pensar, como diabos uma substância se torna outra?

Do que, afinal, é feita a Natureza? O que forma a realidade (ou o que conseguimos perceber da realidade)?

Segundo Aristóteles, a realidade nada mais é do que uma relação entre substância e estrutura. Para ele, nada existe que não seja uma combinação entre elas. A substância sem estrutura é o caos (o que, no pensamento grego, equivalia ao “nada” de onde surgiu o mundo); já a estrutura sem substância é mero fantasma do ser... Mas será mesmo?

Normalmente se diz que um espiritualista crê em “espíritos e coisas imateriais”, enquanto que um cientista materialista crê “somente na matéria”. Quando analisamos sob este ponto de vista, fica parecendo que os primeiros creem em coisas etéreas, e que os últimos creem em coisas sólidas. Estranho de se pensar: foi exatamente a ciência moderna que minou completamente toda e qualquer ideia de “solidez da matéria”.

Hoje se sabe que num simples aperto de mão, se alguma parte de nossos átomos realmente se chocasse com os átomos de quem cumprimentamos educadamente, teríamos um drástico incidente nuclear do qual certamente não escaparíamos com vida. No fim das contas, somos formados por pequenos pedaços flutuantes de matéria que em realidade estão simplesmente “flutuando por aí”. A única coisa que os mantém juntos é a estrutura determinada pelas leis naturais... Mas, e quanto a substância?

Em 1844, Michael Faraday, observando que a matéria só podia ser reconhecida pelas forças que atuam sobre ela, indagou-se: “Que razão teríamos para supor que ela realmente existe?” [1]

No início do século XX a física descobriu que os próprios átomos, até então verdadeiros “arautos da solidez intrínseca da realidade”, eram, em essência, espaço vazio. Não muito tempo depois a mecânica quântica revelou ante a cientistas extremamente espantados que os constituintes subatômicos – elétrons, prótons e nêutrons, que formam os átomos – se comportavam mais como aglomerados de propriedades abstratas do que como usualmente são vislumbrados por nós leigos: pequeníssimas bolas de bilhar.

A cada nova casca da realidade desvelada pela ciência ficava mais claro que a cebola cósmica era formada por pura estrutura, enquanto que a substância em si foi se tornando cada vez mais teórica e cada vez menos empírica e observável. Segundo a teoria das cordas, a matéria poderia ser formada praticamente por pura geometria – mas uma “geometria” que tampouco pode ser detectada atualmente.

Em seu nível mais fundamental, a ciência descreve os elementos da realidade de um ponto de vista puramente relacional e estrutural, ignorando, em realidade, se existe ou não uma substância no final das contas. Ela pode nos dizer, por exemplo, que um elétron tem certa massa e certa carga, mas tudo o que isto nos informa é que o elétron tem a propensão de sofrer a ação de outras partículas e forças naturais de determinadas maneiras. Ela pode nos dizer que a massa equivale a energia, mas não nos informa efetivamente o que diabos é a energia senão uma quantidade numérica que, calculada da forma correta, se conserva igual através de todos os processos físicos do universo.

Conforme observou o filósofo Bertrand Russell em Análise da matéria (1927), “as entidades que constituem o mundo físico são como peças num jogo de xadrez: o importante é o papel de cada peça num sistema de regras que determinam como ela pode se mover, e não do que é feita tal peça”.

Talvez tenha sido John Wheeler, um físico americano, quem melhor descreveu a essência da realidade: uma cadeia estrutural de pura informação. Para se explicar melhor, ele cunhou a expressão “o it que vem do bit”. Em suas palavras: “Cada it – cada partícula, cada campo de força e até mesmo o próprio continuum espaço-tempo – deriva inteiramente sua função, seu significado, sua própria existência – mesmo que em alguns contextos indiretamente – de respostas induzidas por equipamento a perguntas sim ou não, escolhas binárias, bits. O it que vem do bit simboliza a ideia de que cada item do mundo físico tem no fundo – bem no fundo, na maioria dos casos – uma fonte e uma explicação imateriais; que aquilo que chamamos de realidade vem em última análise da colocação de perguntas sim-não, e do registro de respostas evocadas por equipamento; em resumo, que todas as coisas físicas são informacional-teóricas na origem.” [2]

Mas se as mentes mais racionais e científicas de nossa história recente nos dizem que em sua essência a realidade não passa de um fluxo de estruturas em constante mutação, sem qualquer substância subjacente, onde exatamente se encontra a antiga solidez do materialismo clássico? Onde existe, afinal, alguma substância?

Ora, a despeito de toda a metafísica presente na física moderna, há ainda uma parte do universo em que a sua explicação para a realidade ainda não penetra inteiramente: algo que se situa, ao menos em teoria, bem entre as nossas orelhas...

Para que a realidade pudesse ser explicada somente em termos de informação, seria necessário que nossa consciência e nossa subjetividade também o fossem. Dizem que os cientistas da computação estão muito próximos de criar simulações computacionais de processos mentais complexos, como “sentir dor com uma martelada no dedão” ou “sentir prazer com a vermelhidão e o perfume de uma rosa”. O filósofo John Searle, entretanto, se pergunta “porque alguém na plena possa de suas faculdades racionais suporia que uma simulação de processos mentais em computador de fato tivesse processos mentais?”.

Esta é uma longa discussão, mas o que sabemos atualmente é que a consciência e a subjetividade humanas permanecem absolutamente misteriosas, além do alcance da linguagem e de uma descrição puramente informacional... A consciência não se limita ao mero processamento de informações, a mera computação. Há algo mais, algo que utilizamos principalmente na leitura de poesia ou na contemplação de grandes peças de teatro, obras de arte, shows musicais ou, simplesmente, na observação de um jardim: a interpretação da Natureza.

Se o mundo não pode ser descrito somente por este ponto de vista absolutamente abstrato e metafísico da ciência moderna, há que se buscar onde há exatamente uma substância “palpável” por detrás de tanta teoria.

Ora, se em toda a vasta quantidade de informação do universo tudo o que se encontrou foi estrutura, é possível que a substância esteja, afinal, na própria mente que observa toda essa imensidão estrutural. Neste caso, é possível que toda a realidade – subjetiva e objetiva – seja constituída da mesma substância básica. Parece uma hipótese simples e atraente, além de maluca... Foi exatamente a esta hipótese que Bertrand Russell chegou em sua Análise da matéria. O mesmo disse Arthur Eddington (outro “Sir”) em The Nature of the Physical World (1928): “a substância do mundo é uma substância mental”.

É precisamente neste ponto que grandes cientistas e filósofos da modernidade se alinham novamente com o misticismo antigo, muito antigo, ainda que muitos sequer se deem conta disso.

Há milhares de anos houve um homem (ou talvez um mito, ou quem sabe um deus, o que neste caso não faz tanta diferença), chamado Hermes Trimegisto, que disse que “o Todo é mental”. Não foi a única coisa que disse que casa perfeitamente com a ciência moderna. Segundo ele, “o que está em cima é como o que está embaixo” – querendo dizer que as leis que regem o que está no alto do céu eram as mesmas que regem o que está aqui no solo onde pisamos; e “tudo vibra, nada está parado” – querendo dizer que, a despeito do que nossos sentidos nos dizem a todo momento, não há um só pedaço do seu corpo que esteja realmente parado no mesmo lugar. Quantos chutes e quantos acertos para Hermes, não?

A lição que parece restar disto tudo é que não importa, no final das contas, se queremos descrever a realidade através da filosofia de Aristóteles, da física de partículas aliada a mecânica quântica, ou do hermetismo antigo. O que importa é que estamos tentando descrever o que temos contemplado, espantados, há muitas e muitas eras. Que existe aí alguma substância, seja onde for, e ela não é o Nada, pois não existe o Nada.

Dizem os teístas que Deus criou o mundo à partir do Nada. Mas isto não é possível, nem mesmo para Deus – no fim, uma substância jamais se tornou outra, e Deus sempre foi o mesmo. Nunca houve a possibilidade da existência do Nada, nunca houve “0”, apenas “1”. Flutuações quânticas no vácuo não são o Nada; o tecido espaço-temporal ou o campo de Higgs não são o Nada; mesmo um espaço perfeitamente vazio, exatamente por estar “vazio” e “poder ser preenchido” não é o Nada. Não importa se ainda tateamos em meio a névoa metafísica de um universo puramente informacional onde catalogamos e computamos estrutura, sem jamais chegar a capturar qualquer substância: o fato é que existe Algo, e não Nada.

Seremos capazes de, algum dia, com toda nossa filosofia, ciência e espiritualidade, completar este tortuoso caminho de religação a esta tal substância? Seremos capazes de algum dia abrir os olhos e ver não os fótons de luz que refletem a estrutura da realidade, mas ver efetivamente a substância que faz com que ela exista?

Seja como for, neste dia, neste momento dourado, estejam atentos e não pisquem os olhos... Contemplem a substância que sempre aí esteve, que sempre existiu, estruturada de maneiras inefáveis e infinitas, dando forma a toda a vastidão informacional do Cosmos através de todo espaço e todo tempo... Contemplem com os olhos da alma, seja ela o que for...

E não pisquem os olhos!

***

[1] Esta e outras citações deste artigo foram retiradas de Por que o mundo existe?, de Jim Holt (Ed. Intrínseca).

[2] Citado em O universo inteligente, de James Gardner (Ed. Pensamento). O livro de Wheeler, de onde foi extraída a citação, é intitulado At home in the universe.
Um bit de informação equivale a menor unidade computacional que pode ser medida, ela pode assumir somente dois valores, tais como “0” ou “1”, “verdadeiro” ou “falso”, etc. Não confundir com bytes, que são conjuntos de bits (normalmente, 8 bits).

Crédito da foto: ever-look

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3.7.13

Como sobreviver numa arena

Em 1999, o mais novo lançamento do mundo dos games de tiro com visão em primeira pessoa (first person shooter ou, pela sigla, FPS) era o Quake III Arena, um jogo brutal em que jogadores do mundo todo jogam online numa arena de guerra onde dois grupos de guerrilheiros (armados com armas de fogo futuristas e extremamente letais) duelam até que um dos grupos tenha sido inteiramente exterminado. Quando isto acontece, todos os mortos retornam a vida e começa um novo duelo, e assim por diante...

Uma das inovações do game, segundo a desenvolvedora (Id Software), era a suposta “nova inteligência artificial” dos bots no jogo. Um bot (abreviação de robot) é uma aplicação de software concebida para simular ações humanas repetidas vezes de maneira padrão, da mesma forma como faria um robô. Durante o jogo, os personagens da arena controlados pelo computador (ou seja, não controlados por jogadores reais e humanos) supostamente observariam o estilo de luta dos demais jogadores, humanos ou bots, na medida em que a simulação das arenas de batalha transcorresse.

Com o tempo, seriam capazes de “pensar” em novas táticas, efetivamente se adaptando as táticas que mais venciam combates, e ignorando as táticas ineficazes para a sua sobrevivência, pois ganha o combate o grupo que sobrevive ao final [1]. Para que a inteligência artificial dos bots pudesse se desenvolver mais profundamente, entretanto, os servidores do jogo deveriam permanecer online, simulando centenas ou milhares de batalhas, por muito tempo a fio. E isto era inviável para os servidores oficiais do game, que precisam passar por manutenção semanal.

De acordo com um misterioso tópico de um fórum online (hospedado no 4Chan), em 2007 um jogador configurou um servidor pirata local do game (ou seja, hospedado em sua própria casa) para rodar indefinidamente simulações de arenas de combate entre 16 bots, sem nenhum ser humano a interagir com eles. Ocorre que este jogador esqueceu completamente do que havia feito, e como em sua casa os computadores ficavam sempre ligados, como servidores locais, a simulação rodou por longos quatro anos, até que em 2011 ele finalmente se lembrou dela!

Cada um dos 16 bots da simulação havia gerado 512 MB de informações táticas aprimoradas por centenas de milhares de partidas letais. Eram 8 GB de informações. O que elas teriam gerado? Atiradores infalíveis? Coordenação perfeita e robótica para matar da forma mais eficiente possível? O jogador resolveu entrar na simulação para ver quanto tempo seria capaz de sobreviver...

Então, para sua surpresa, ele observou que os 15 bots (ele estava jogando como o décimo sexto) nada faziam, apenas olhavam para ele e o seguiam onde quer que fosse. Não pareciam mais duelistas letais, mas antes pacifistas em busca de um sentido para estarem vagueando indefinidamente por uma arena de batalha. Aparentemente, em alguns anos de simulação, a inteligência artificial dos bots chegou a melhor estratégia para a sobrevivência: ninguém morre quando ninguém mata.

A Teoria dos Jogos é um ramo da matemática aplicada que estuda situações estratégicas onde jogadores escolhem diferentes ações na tentativa de melhorar o resultado, ou seja, o retorno de suas escolhas. Inicialmente desenvolvida como ferramenta para compreender comportamento econômico e depois usada pela Corporação RAND para definir estratégias nucleares, a Teoria dos Jogos é hoje usada em diversos campos acadêmicos.

Podemos ilustrá-la de forma simples e direta com o chamado “dilema do prisioneiro”, originalmente formulado por funcionários da RAND:

Dois suspeitos, A e B, são presos pela polícia. A polícia tem provas insuficientes para sua condenação; mas, separando os prisioneiros, oferece a ambos o mesmo acordo: se um dos prisioneiros, confessando, testemunhar contra o outro e esse outro permanecer em silêncio, o que confessou sai livre enquanto o cúmplice silencioso cumpre 10 anos de sentença. Se ambos ficarem em silêncio, a polícia só pode condená-los há 6 meses de cadeia cada um. Se ambos traírem o comparsa, cada um leva 5 anos de cadeia. Cada prisioneiro faz a sua decisão sem saber que decisão o outro vai tomar, e nenhum tem certeza da decisão do outro. A questão que o dilema propõe é: o que vai acontecer? Como o prisioneiro vai reagir?

No “dilema do prisioneiro”, temos uma situação onde o altruísmo e a confiança mútua oferece o melhor resultado final para ambos os jogadores. No entanto, isto não ocorre sem o risco de se ficar calado, confiando em seu parceiro, e ao fim ser traído por ele, e receber em retorno o pior resultado. De certa forma, a Teoria dos Jogos e o “dilema do prisioneiro” se aplicam não somente a economia e as relações de poder entre potências nucleares, mas também a uma partida de Quake III Arena... Será mesmo?

Retornando ao experimento insólito do início do artigo, o jogador resolveu “ver o que acontecia se atirasse em algum outro bot”. Para sua surpresa, ao fazer isso, ele foi atacado (e morto) não somente pelos 8 bots do outro time, como pelos 7 outros bots de sua própria equipe!

Ou pelo menos foi isto que a imagem com capturas de tela do suposto tópico do 4Chan dizia. Muitos sites de games compartilharam a notícia, e ela obteve certa fama também nas redes sociais. No entanto, como muitos podem ter imaginado, era tudo um hoax, ou seja, uma história inventada, como tantas outras que vemos nestes tempos de propagação desenfreada da informação.

Porém, ainda que não tenha ocorrido de verdade, ainda que os 16 bots com suas inteligências artificiais sejam incapazes de interpretar o resultado de suas ações (já que são ferramentas de computação, e não seres de interpretação), esta história ainda nos toca numa questão primordial: ela foi espalhada como algo verossímil, extremamente verossímil.

Penso que muitos de nós têm esta certa queda por acreditar que uma simulação computacional possa, de alguma forma incompreensível, chegar a conclusões que, no fundo, são as nossas própria conclusões, mas que não temos a vontade, ou a coragem, de coloca-las em prática.

Afinal, não se enganem: o bot do game mais avançado do ano que vem não será mais nem menos ferramenta do que um martelo ou uma bomba nuclear. Não é o martelo que mata ou constrói coisas, é quem o empunha. Não foi o material radioativo, e nem mesmo os físicos que descobriram a fissão nuclear quem arrasaram Hiroshima, foram aqueles que deram a ordem: “soltem a bomba”...

Somos, desta forma, todos prisioneiros desta enorme simulação chamada “mundo”, e só sairemos desta prisão de mãos dadas – todos serão livres somente quando não houver mais nenhum prisioneiro.

***

[1] Isto não deixa de ser uma forma de programação genética.

Crédito das imagens: [topo] Quake III Arena (captura de tela); [ao longo] Adrianna Williams/Corbis

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21.6.13

A gravidez do mundo

Como muitos devem saber, eu não entendo nada de política, nem me interesso muito por ela. Talvez exatamente por isso os analistas queiram ouvir um pouco do que eu tenho a dizer sobre a Primavera...

Primeiramente há a questão polêmica da “direita vs. esquerda”. Lhes digo que o cartaz mais interessante que vi na última semana de movimentos nas ruas dizia assim: “Esquerda? Direita? Eu quero é ir para frente!”. Isto não é algo que se limita ao Brasil; mesmo na Primavera da Espanha e da Turquia vimos manifestações parecidas de quase toda a juventude. Dizem que a juventude é apolítica porque não se alinha nem a “esquerda” nem a “direita”, será mesmo?

Segundo Denis Russo Burgierman, diretor de redação da Superinteressante e ativista pró-descriminalização de certas drogas, “esquerdo-direitistas são pessoas que acreditam que todo o bem que existe no mundo provém de apenas uma fonte. Há dois tipos de esquerdo-direitistas – aqueles que acham que a fonte de todo o bem é o Mercado e aqueles que acham que é o Estado. A estes chamamos esquerdistas, aqueles são os direitistas”. Pois bem, eu chamo a ambos de esquerdo-direitistas, pois que são apenas dois lados de uma mesma moeda, dois pontos extremos que ainda insistem numa espécie de maniqueísmo (“bem vs. mal”) que inexiste na Política.

De Política, com “P” maiúsculo, eu até acho que entendo alguma coisa. Desde que surgiu a Democracia na Antiguidade, sua essência se baseou exatamente num debate público que busca não a unanimidade de opiniões, mas a busca do entendimento e da reconciliação dos opostos em prol de uma certa ordem e uma certa direção conjunta a ser seguida pela Nação. Dessa forma, a Política existe não para que todos concordem em tudo, mas para que convivam em harmonia apesar de suas discordâncias.

É por isso que todo o extremista é anti-Político a priori. Ele não busca a Política para um entendimento, mas busca a política para a supressão das opiniões contrárias, custe o que custar... São os extremistas que devem ser combatidos e reeducados na medida do possível, pois foi através deles que surgiram regimes autoritários de “esquerda” e de “direita”, ainda que pudessem se auto intitular democráticos. Mas a Democracia só existe na Política, e não na política.

Você pode achar que o Brasil é uma Democracia, mas eu não posso concordar inteiramente com isso. Não tem nada a ver com o fato de termos o PT no governo – o PT não é o único culpado pelo que foi feito na política brasileira, mas talvez se arrependa amargamente pelo que deixou de fazer. Eu explico: numa Democracia, deve valer a máxima “1 pessoa, 1 voto”. No entanto, o que temos no Brasil e em diversos países que se dizem democráticos é uma outra máxima que nos contaminou desde meados do século passado: “X reais, 1 voto” (ou “X dólares, 1 voto”; “X euros, 1 voto”; etc).

Não estou querendo dizer que no nosso país exista compra direta de votos, mas sim indireta. O voto é obrigatório e qualquer partido para ter alguma chance de chegar ao poder precisa gastar milhões em gigantescas campanhas de marketing. O que isto tudo tem a ver com Política? Quase nada... Isto tudo tem a ver com algo que chamo, na falta de um nome melhor, “negócio eleitoral”.

Afinal, não se enganem, nenhuma empreiteira, nenhum banco, nenhuma multinacional financia um partido por ideologia, nem muito menos para melhorar a qualidade da educação e da saúde de um país. Eles fazem um investimento de risco, a médio e longo prazo. Alguns até conseguem eliminar todo o risco do investimento, ao investir em todos os partidos com chance de chegar ao poder. A última vez que um Político teve alguma chance de se eleger para um cargo majoritário com uma campanha financiada por pessoas físicas, e não jurídicas (ou seja, grandes empresas), foi na última eleição para a prefeitura do Rio de Janeiro, em 2012. Não por acaso, o candidato do PSOL foi massacrado pelos “marketeiros” tanto da “esquerda” quanto da “direita”. Isto não quer dizer que ele seja um santo messias, quer dizer apenas que era o único que realmente tinha uma ideologia não comprada!

Então não é a toa que os que entendem alguma coisa de Política defendem uma Reforma Política urgente no Brasil, com financiamento público e exclusivo de campanhas, sem voto obrigatório, etc. Assim teremos a chance de ver diversos Políticos com suas ideologias próprias (e não compradas pelas empreiteiras) se candidatando e tendo chances reais de vencer eleições. Assim teremos, eventualmente, o ressurgimento da Política e da Democracia neste país.

E isto ainda seria só o primeiro passo... Com o ressurgimento da Democracia, então tanto a Esquerda quanto a Direita, tanto os defensores do Estado quanto os defensores do Mercado, poderiam debater e chegar a concordâncias possíveis para o nosso avanço sempre à frente. Isto seria muito mais saudável para o debate público do que o “combate a corrupção” (os únicos que são favoráveis a corrupção são os próprios corruptos, então de que vale defender o óbvio?).

Pois um Mercado totalmente livre, sem nenhuma regulamentação e intervenção do Estado, descamba para uma sociedade extremamente consumista (que pode eventualmente consumir tantos recursos naturais, que a própria espécie humana se veja ameaçada [1]) e para períodos de crises e “estouros de bolhas especulativas” na economia (sendo que os banqueiros jamais pagam a conta, exceto talvez na Islândia). Da mesma forma, um Estado totalmente controlador do Mercado, longe de corresponder a teoria de Marx, na prática tem descambado mais para uma espécie bizarra de “feudalismo moderno” (embora ainda existam todos os tipos de lendas acerca de como “o Comunismo na verdade deu certo”).

É por isso que devemos agradecer esta Primavera. Se vamos citar um trecho do nosso hino nacional, que seja antes este: “E o Sol da Liberdade, em raios fúlgidos, brilhou no céu da Pária nesse instante”. Afinal, ninguém parece ter compreendido e resumido melhor o sentimento e o sentido de esperança trazido pelos jovens da Mansão do Amanhã do que Eduardo Galeano. Foi numa breve entrevista dada aos jovens espanhóis na praça Catalunya que ele deu a mais profunda declaração Política deste início de século, e é com ela que eu encerro este artigo:

Aqui vejo reencontro, energia de dignidade e entusiasmo. O entusiasmo vem de uma palavra grega que significa “ter os deuses dentro”. E toda vez que vejo que os deuses estão dentro de uma pessoa, ou de muitas, ou de coisas, ou da Natureza, eu digo para mim mesmo: “Isto é o que faltava para me convencer de que viver vale a pena”.

Então estou muito contente de estar aqui, porque é o testemunho de que viver vale a pena. E que viver está muito, muito mais além das mesquinharias da realidade política e da realidade individual, onde só se pode "ganhar ou perder" na vida! E isso importa pouco em relação com esse outro mundo que te aguarda. Esse outro mundo possível.

Este mundo de merda está grávido de um outro!

O mundo a espera de nascer é diferente, e de parto complicado. Mas com certeza pulsa no mundo em que estamos. O mundo que "pode ser" pulsando no mundo que "é". Eu o reconheço nessas manifestações espontâneas, como as desta praça.

Alguns me perguntam “o que vai acontecer?”; “e depois, o que vai ser?”. Pela minha experiência, eu respondo: “Não sei o que vai acontecer... Não me importa o que vai acontecer, mas o que está acontecendo!”. Me importa o tempo que “é”.

***

[1] Se todo o mundo tivesse os padrões de consumo dos EUA (do início deste século), precisaríamos de uns 3,5 planetas para dar conta da demanda por recursos naturais. Dizem que o equilíbrio do consumo sustentável demandaria que todo o globo tivesse os padrões de consumo aproximados da Paris da década de 60. Nada mal.

Crédito da imagem: Google Image Search + Gibran + raph

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14.6.13

Primavera Brasilis

Como sabemos, a Primavera chegou ao Brasil. Com “pleno emprego” e tudo, os jovens ainda assim foram chamados e compareceram as ruas de São Paulo e outras metrópoles da Terra Brasilis. Vimos um médico desnorteado incitando sua polícia à violência. Vimos um professor esquecido das ideologias da juventude. Vimos a “direita” e a “esquerda” alinhando seu discurso e demonstrando o que os que estavam nas ruas já sabiam há tempos: que neste país, não são tão diferentes assim.

Acreditaram que toda a manifestação era “orquestrada” por alguma “liderança oculta”. Acreditaram que ninguém iria dar bola para míseros 20 centavos de aumento das passagens de ônibus. Acreditaram que todos eram vândalos de baixa renda e baixa escolaridade, e que a melhor solução seria a repressão que a polícia militar, a despeito de estarmos a décadas do fim da ditadura, ainda sabe fazer como ninguém.

Deu no que deu. Agora, após até mesmo a Folha de São Paulo haver “mudado de opinião” tão repentinamente, sua preocupação deixou de ser com os míseros 20 centavos e com os vândalos. Agora estão preocupados com a repercussão da violência policial no exterior, com a repercussão da prisão de jornalistas na Anistia Internacional e, principalmente, em saber quem diabos é o “cabeça”, a “liderança oculta”, o sujeito mascarado...

Eu vou lhe dizer quem é o sujeito mascarado, mas só no final. Antes vou falar sobre os manifestantes, os ex-vândalos. Vi um estilista, amante de livros, que resolveu conferir as manifestações ao vivo, e desligou a TV:

Pela primeira vez me senti no lugar correto, para usar o novo jargão do protestante 2.0: “A passeata que fui me representa”.

Finalmente sinto que participei de algo ao lado de pessoas que tinham o mesmo pensamento que eu, que não estavam lá pra defender um partido ou uma causa específica, mas sim por indignação pelo tratamento concedido por parte dos nossos representantes públicos. Diferente dos protestos ao redor do mundo, nós não gritamos “palavras de ordem”. Aqui no Brasil (mais especificamente o que vi e vivi em São Paulo), até os gritos de guerra mais pesados viram festividades em forma de marchinhas: “vem pra rua vem!”. Quem estava lá entende. Não era agressivo. Era festivo.

Sinceramente, seria muito bom se víssemos isso como uma qualidade e não como defeito. A agressividade sendo trocada por chamados de convívio mútuo a de ser comemorada e louvada. Lá, antes das 20hrs, tínhamos tudo, consciência política, participação, voz e alegria. Esta foi a passeata que eu fui e assim ela terminou. Não foi a passeata que assisti pela TV ao chegar em casa, quando aquela minoria que restou resolveu quebrar tudo e roubou as manchetes da melhor e mais bonita manifestação que já participei [1].

Como o governo e a grande mídia gostariam que fossem somente alguns atos passageiros de uma minoria de vândalos. Como o governo e a grande mídia gostariam que fossem manifestações orquestradas por pequenos partidos políticos que ainda acreditam em lendas comunistas do século passado. Pois, fosse assim, eles já saberiam o que fazer. Mas não é assim, não mais. Vi também um jornalista que não teme expor sua opinião:

O esquerdo-direitismo é uma crença semi-religiosa que se tornou a ideologia dominante do mundo no último século. Esquerdo-direitistas são pessoas que acreditam que todo o bem que existe no mundo provém de apenas uma fonte. Há dois tipos de esquerdo-direitistas – aqueles que acham que a fonte de todo o bem é o mercado e aqueles que acham que é o estado. A estes chamamos esquerdistas, aqueles são os direitistas.

No fundo, esquerdistas e direitistas são dois lados de uma mesma coisa. Ambos veem o mundo em apenas duas dimensões, sem profundidade, dividido entre bons e maus. Não admira que esquerdistas transformem-se em direitistas e vice-versa com tanta facilidade – alguns dos analistas mais ferrenhos da direita passaram a juventude militando nas facções mais radicais da esquerda [2].

Vamos aprender política brasileira com o seu maior representante, o PMDB: (passo 1) Estar no poder; (passo 2) Caso não ganhemos a presidência, formar a base aliada do governo; (passo 3) Na base aliada, negociar o maior número de ministérios possível; (passo 4) Sempre que as negociações estiverem emperradas, chantagear o governo. Resultado: Passo 1 sempre garantido de uma forma ou de outra.

No entanto, existem exceções: (a) PT e PSDB nunca podem formar a base aliada um do outro. Quando um não está no poder, é obrigado a ser oposição de verdade (a diferença é que para o PSDB a ficha ainda não caiu); (b) PSTU é um partido efetivamente ideológico, mas que ainda acredita em lendas do século passado; (c) PSOL é um partido efetivamente ideológico, mas que acredita que algo de novo pode surgir neste século. Resultado: na última eleição no Rio de Janeiro (2012) “direita” e “esquerda” massacraram o candidato do PSOL, por que era o único que seguia uma ideologia. 

Os governantes deste país têm nos ensinado que ideologias são muito perigosas. Quem está no poder geralmente não gosta muito delas... Mas se você acha que eu escrevi tudo isso somente para defender o PSOL, está enganado. Nada garante que o PSOL, ao chegar ao poder, não se comporte da mesma forma que outros partidos de oposição que chegaram lá e pouca coisa mudaram. Isto por que o sistema está equivocado, antigo, corrupto. Aqui não se faz Política, se faz um “negócio eleitoral”. O que os que estão no poder mais temem, portanto, é exatamente que a Primavera Brasilis seja apolítica, isto é, Política de verdade: para começar a se refazer Política, antes é necessário fazer uma reforma geral na política. Os “P”s e os “p”s são propositais.

Vi que os manifestantes, em sua grande maioria, não somente não trazem símbolos de partidos políticos, como abominam se envolver com eles. Bandeiras de partidos são somente toleradas, não tem nada a ver com a alma desta Primavera. Os partidos Políticos do futuro ainda irão surgir. Os Políticos do futuro serão jovens, jovens de verdade, independente de sua idade.

Mas, e quem é afinal o tal mascarado?

Agora eu posso lhe contar. Você mesmo pode descobrir quem ele é, e é muito fácil. Dê um jeito de comprar uma dessas máscaras do Alan Moore, depois vá a pelo menos uma manifestação desta Primavera, seja onde estiver no país, e procure observar a tudo com os olhos de um jovem, de uma criança, de um recém-nascido... Caminhe pelas ruas como se elas fossem novas ruas. Observe os transeuntes como se eles fossem, ao menos por breves momentos, parte da sua família. E se alguém lhe apontar alguma arma de fogo ou canhão, lhe entregue uma flor.

Depois retorne para sua casa e, de frente para algum espelho, retire a máscara.

Lá estará o tal mascarado, desmascarado...


Onde a mente encontra-se sem medo e a cabeça é mantida erguida
Onde o conhecimento é livre
Onde o mundo não foi quebrado em fragmentos
Por estreitos muros domésticos
Onde as palavras vêm da verdade profunda
Onde laboriosas lutas esticam seus braços em direção à perfeição
Onde o riacho límpido da razão não perdeu o seu rumo
Afluindo ao triste deserto dos hábitos moribundos
Onde a mente é direcionada adiante por você
A pensamentos e ações sempre em constante afloramento
Nesse céu de liberdade, Pai, deixe meu país acordar

(Tagore)

***

[1] Trechos do artigo de Bruno Passos para o blog Papo de Homem: Contra o aumento das tarifas de ônibus: o protesto que eu não vi pela TV.

[2] Trechos do artigo de Denis Russo Burgierman para a Superinteressante: A maldição do esquerdo-direitismo.

Crédito da imagem: Anonymous

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16.5.13

Nunca desliga

Imaginem que Maria estava quase caindo no sono em sua rede a beira do rio, com uma revista no colo. Então de repente uma mosca pousa em seu braço, ela o sacode quase instintivamente, e continua praticamente adormecida. Mas a mosca não se dá por vencida, e fica zunindo em seus ouvidos, como é próprio de todas as moscas que evoluíram para nos atormentar... Maria pega a revista e espanta a mosca, chateada. Quem sabe agora possa voltar a dormir.

O que será que ocorreu em seu cérebro depois que “despertou” com o zunido da mosca? E como estava ele momentos antes, enquanto Maria caia no sono? Por muito tempo, os neurocientistas consideraram a hipótese de que grande parte da atividade cerebral durante o repouso se equiparava a um estado “semi-inativo”, sonolento.

Conforme tal hipótese, a atividade no cérebro em repouso representaria nada mais que um ruído ocasional, semelhante ao padrão de “chuviscos” na tela de TV enquanto o sinal está fora do ar. Então, quando a mosca zuniu e incomodou Maria, seu cérebro “despertou” para se concentrar na tarefa consciente de exterminá-la... Entretanto, estudos recentes com tecnologias de neuroimagem revelaram algo muito diverso, e estranho: mesmo quando estamos em repouso, sem fazer absolutamente nada, o cérebro continua em plena atividade!

Sim, hoje conseguimos observar o interior do cérebro e medir boa parte de sua atividade química e elétrica em tempo real. Tudo começou com o psiquiatra alemão Hans Berger, criador do eletroencefalograma (EEG), que grava a atividade elétrica no cérebro por meio de um conjunto de linhas ondulatórias sobre um gráfico.

Em ensaios seminais sobre suas descobertas com as primeiras pesquisas utilizando o EEG em 1929, Berger deduziu, a partir das incessantes oscilações elétricas detectadas pelo aparelho, que “temos de supor que o sistema nervoso central está sempre – e não somente durante o estado de vigília – num estado de considerável atividade.” Mas suas ideias foram amplamente ignoradas, até tempos recentes, bem recentes... A tecnologia para se examinar o cérebro se aprimorou: em 1970, veio à tomografia por emissão de pósitrons (PET, Positron-Emission-Tomography), que mede o metabolismo da glicose, fluxo sanguíneo e absorção de oxigênio para a extensão da atividade neuronal; já em 1992 veio à captação de imagem por ressonância magnética funcional (fMRI, functional Magnetic Ressonance Imaging), que mede a oxigenação do cérebro com o mesmo propósito.

Essas tecnologias são mais do que capazes de analisar a atividade cerebral, focada ou não, mas a maioria dos estudos iniciais levou a impressão errônea de que, na maior parte, as áreas do cérebro permanecem “tranquilas” até que sejam requisitadas a desempenhar alguma tarefa específica. Ao longo dos anos, no entanto, alguns pesquisadores [1] começaram a estudar a atividade cerebral de colaboradores simplesmente em estado de descanso, deixando a mente livre para divagar. Eles descobriram que a energia gasta pelo cérebro não varia mais do que 5% entre o estado de vigília e/ou atividade consciente e o estado de relaxamento completo, quando supostamente não fazemos absolutamente nada a não ser pensar, divagar...

A conclusão surpreendente a que chegaram é a de que boa parte da atividade geral – de 60% a 80% de toda a energia gasta pelo cérebro – ocorre em circuitos não relacionados a nenhuma evento externo. Com a devida licença dos colegas astrônomos, os pesquisadores deram a essa atividade intrínseca o nome de “energia escura do cérebro” – referência à energia não visível (não interage com fótons), mas que representa a maior parte da massa do universo.

Ficou claro, a partir desse trabalho, que o processo consciente é responsável por apenas uma parte, ainda que crítica, da atividade total de todos os sistemas do cérebro. Como Berger mostrou em primeiro lugar, e muitos outros confirmaram desde então, a sinalização cerebral consiste em um amplo espectro de frequências, que vão dos potenciais corticais lentos (SCPs, Slow Cortical Potentials) de baixa frequência até a atividade acima de 100 ciclos por segundo. Um dos grandes desafios da ciência é entender como os sinais de diferentes frequências interagem.

A orquestra sinfônica proporciona uma metáfora adequada, com sua integrada “tapeçaria” de sons provenientes de múltiplos instrumentos que tocam no mesmo ritmo. Os SCPs equivalem à batuta do regente. Só que, em vez de manter o tempo para um conjunto de instrumentos musicais, esses sinais coordenam o acesso que cada sistema cerebral exige para o vasto depósito de memórias e outras informações necessárias para se sobreviver num mundo complexo e em permanente mudança. Os SCPs garantem que as computações corretas ocorram de maneira coordenada, exatamente no momento adequado.

Mas o cérebro é muito mais complexo que uma orquestra sinfônica. Ele oscila continuamente entre a necessidade de equilibrar respostas planejadas com demandas imediatas. Os grandes expoentes da psicologia, como William James, Sigmund Freud e Carl Jung, sempre compreenderam o enorme e misterioso papel do inconsciente sobre o consciente. Que o cérebro pode até ser uma máquina de envio e reenvio de informações, um computador molecular de vasta complexidade, mas ainda assim há que se pensar no que quer que – esteja onde estiver no cérebro – interpreta as informações recebidas e elabora respostas morais e sentimentais...

Pesquisadores já sabem há algum tempo que do imenso fluxo de informações que trafegam pelo cérebro a todo instante, apenas um mísero “filete” se encaminha para os centros de processamento neurológicos. Embora 6 milhões de bits sejam transmitidos através do nervo ótico, por exemplo, somente 10 mil bits (0,16%) chegam até a área de processamento virtual do cérebro; e, destes, apenas algumas centenas participam da formulação de percepção consciente – o que é escasso demais para que possam gerar, por si mesmos, uma percepção significativa do ambiente a volta.

Tal descoberta sugere que o cérebro provavelmente faz constantes predições sobre o ambiente externo, valendo-se de insignificantes impulsos sensoriais que chegam a ele do mundo exterior. O que isto quer dizer, na prática, é que a maior parte do que vemos do mundo é imaginada e antecipada por padrões cerebrais que independem, na realidade, do que nos chega do exterior.

Ultimamente, neurocientistas tem registrado em estudos que há mesmo certas áreas do cérebro que estão em maior atividade no repouso, e que reduzem sua atividade quando precisamos realizar uma tarefa motora ou intelectual, como afugentar uma mosca ou ler um texto em voz alta. Tais áreas estão envolvidas com a lembrança dos eventos pessoais, com aspectos que tendem a determinar o nosso estado emocional e com a capacidade empática de “imaginarmos o que os outros estão pensando”.

Tudo isso nos sugere que em nosso inconsciente, e talvez em nossa essência mais íntima, somos como uma trupe teatral que escreve os roteiros e reencena para si mesma, constantemente, histórias repletas de significância emocional. A emoção, ao que parece, nunca desliga. E o mundo, o nosso mundo, nada mais é do que a peça que nos dispomos a encenar para nós mesmos. Os filetes de informação que chegam de fora podem mesmo ser quase irrelevantes perto da gigantesca quantidade de informação que moldamos dentro de nós mesmos.

Os sábios antigos, de diversas partes do mundo, pareciam já saber disso. Saber, isto é, que para conhecer o mundo, devemos antes conhecer a nós mesmos. E que, para alcançar o Céu, devemos antes olhar para dentro – se não erguermos nosso próprio Céu dentro de nós mesmos, não o encontraremos em lugar algum...


É tão difícil descrever o que se sente quando se sente que realmente se existe, e que a alma é uma entidade real, que não sei quais são as palavras humanas que possa defini-lo. Não sei se estou com febre, como sinto, se deixei de ter a febre de ser dormidor da vida. Sim, repito, sou como um viajante que de repente se encontre numa vila estranha, sem saber como ali chegou; e ocorrem-me esses casos dos que perdem a memória, e são outros durante muito tempo. Fui outro durante muito tempo – desde a nascença e a consciência –, e acordo agora no meio da ponte, debruçado sobre o rio, e sabendo que existo mais firmemente do que fui até aqui... (Livro do Desassossego - Fernando Pessoa)

***

[1] Boa parte das informações científicas deste artigo foram retiradas do artigo “A energia escura do cérebro”, capa da Scientific American de Abril de 2010 (ano 8, #95), escrito por Marcus E. Raichle – professor de radiologia e neurologia –, que é um dos principais pesquisadores no assunto aqui abordado.

Crédito das imagens: [topo] John Warburton-Lee/JAI/Corbis; [ao longo] Michael Pole/Corbis

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10.4.13

O que há para se conservar?

"Nada no mundo pode durar para sempre" (frase encontrada numa parede em Pompeia)


Os conservadores insistem em manter o mundo tal qual ele é, ou foi, nalguma “época áurea” em que tudo funcionava, e a moral e os bons costumes eram regra geral do procedimento do bom cidadão. Seu ofício mental é o de relembrar aquilo que já passou, numa tentativa hercúlea de “trazer de volta”, conservar, manter tudo como “sempre foi”.

Os conservadores vivem numa ilha de puritanismo cercada do fluxo selvagem da mudança por todos os lados. O mundo é, afinal, um fluxo... Todos que observam a Natureza percebem isso cedo ou tarde, mas os conservadores insistem em sua crença de que tudo “pode e deve permanecer como está”. É o fundamentalismo da estagnação...

Mas não devemos nos deixar iludir pelos rótulos. Chamar alguém de conservador não significa que aquela pessoa aceite a alcunha, nem tampouco que ela seja 100% conservadora. Dizem que os conservadores são “de direita”, mas há muitos conservadores “de esquerda”. Estes gostariam tanto de conservar a sua própria utopia e o seu próprio ideal, que chegam a embalsamar os seus líderes, tal qual aos egípcios antigos, talvez também mais por motivos políticos do que religiosos.

Quando a Dama de Ferro disse que “não existe essa coisa de sociedade”, estava se alinhando a uma ala dos conservadores que preferiram conservar a ideia do indivíduo. Eles creem piamente que um indivíduo pode “vencer na vida” sem ajuda da sociedade – e que, dessa forma, o Estado, que representa a sociedade, não deveria intervir nos afazeres do indivíduo que está ali, afinal, apenas para “vencer na vida”. Mas, se refletirmos um pouco, o único indivíduo que “venceu na vida” sem uma sociedade é aquele que viveu a vida toda num deserto ou no cume de alguma montanha isolada. Mas neste caso, o fato de ele haver “vencido na vida” nem faz muito sentido, não é mesmo?

Vamos ser sinceros aqui: nenhum ser humano consegue viver sozinho. Podemos não admitir ou não enxergar, mas somos seres gregários, e não há indivíduo que viva fora de uma família, ou grupo, ou sociedade... Portanto, me parece óbvio que existe uma sociedade, a grande questão é o que ela reflete. Pois que toda sociedade reflete o pensamento de seus indivíduos. Quando uma sociedade prefere “fingir que não há sociedade”, é obviamente para o proveito de uma elite, exatamente aquela que “já venceu na vida” – seja no berço, seja através do Mercado.

Por outro lado, pretender que todos os indivíduos de uma sociedade tenham direitos precisamente iguais é uma utopia ainda um tanto quanto inalcançável... Direito a educação básica, a saúde, a uma defesa nos tribunais, ok. Direito a um mesmo salário e um mesmo naco de terra, é hoje obviamente impraticável. Não estamos preparados para a grande utopia da Fraternidade Universal, e a prova disso é que sempre que isto foi tentado, terminou como uma imitação de um feudalismo bizarro, onde o “líder do partido” era uma nova espécie de senhor feudal.

Dizem que não há nada de novo debaixo do Céu, mas ainda que nenhuma substância se perca, apenas se transforme, fato é que tudo muda, tudo vibra, e nada está parado. Os ponteiros sempre se movem no Cosmos, e isto é também válido para este mundo cá embaixo... Você não está parado nenhum segundo, nem quando medita num quarto com as cortinas fechadas. As placas tectônicas se movem e carregam continentes, e este é um movimento lentíssimo... Mas o próprio planeta gira que nem pião ao largo de uma estrela, e esta estrela não está fixa. Sóis como o nosso estão girando em torno de gigantescos buracos negros no centro das galáxias, e mesmo as galáxias estão catapultadas ao Infinito, agrupadas em grandes aglomerados... Mas o conservador gostaria muito de crer que “tudo pode continuar sendo como era antes”!

O que há para se conservar? Certamente, os bons exemplos, os bons pensamentos, as mais belas emoções... Conservemos não uma fronteira ou um sistema político-econômico, mas uma sabedoria muito mais antiga do que a civilização em si. O Chefe Seattle, por exemplo, respondeu assim ao presidente americano (que fez uma oferta pela terra dos indígenas do oeste americano): “Ele diz que deseja comprar nossa terra, mas como pode um homem comprar ou vender a terra, as florestas, os rios, o céu? Esta ideia é estranha para nós”.

O que há para se conservar? Decerto não os hábitos moribundos dos charcos de pensamento estagnado; Decerto não os preconceitos e os dogmas de religiosidade represada; Decerto não a ignorância e o medo do que é novo... São os jovens que herdarão esta terra, aqueles recém-chegados da Mansão do Amanhã. Mas eis que todo o livre-pensador se mantém jovem (ou relembra de sua juventude); e todo poeta, e todo dançarino, recitam, cantam e dançam; e rodopiam num campo de ventos sempre frescos.

Louco não é o dançarino do Cosmos, louco é aquele que acha possível apanhar o vento com as mãos e o trancafiar nalguma “doutrina”... Não há nada de novo debaixo do Céu, exceto o próprio Céu – a cada vez que o ponteiro se move, tudo muda.

E o ponteiro está se movendo neste momento, e os dançarinos estão seguindo o ritmo de seu fluxo divino...

Esta dança não acaba nunca.

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Crédito da imagem: Scott Barrow/Corbis

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20.3.13

De falos e orifícios

Os eclesiásticos parecem definitivamente ter dificuldades com a ideia de que nossos falos e orifícios precisam entrar uns nos outros; e, principalmente, que esta dança sexual possa, ao mesmo tempo em que gera vida, nos dar grande prazer.

Em algum canto da antiguidade, em alguma interpretação apressada de Platão, entendeu-se, sabe-se lá como ou porque, que “o sexo era sujo”. Isto, pois o corpo humano era precário, perecível, sempre sujeito a morte. Apenas a alma era “limpa”, imperecível, imortal, e deveria ser nossa grande preocupação mantê-la “tão pura quanto possível”, tão distante dos “prazeres carnais” quanto fosse necessário.

Hoje a virgindade de Maria, a mãe de Jesus, é um dogma da Igreja Católica Apostólica Romana. Isto não quer dizer que os primeiros cristãos tenham acreditado automaticamente que Maria “engravidou do Espírito Santo”, mas sim que a discussão já “se esvaziou” – Que nenhum teólogo deveria continuar perdendo seu tempo com ela.

Muitos não sabem, mas diversos dogmas do cristianismo foram exaustivamente discutidos e, dessa forma, elaborados nos primeiros séculos após a morte e ressurreição do Cristo (pois muitos não constam na bíblia, ao menos não numa descrição direta). Orígenes (nascido em 185), por exemplo, duvidava que Cristo fosse Deus, e também que “um Deus de amor e misericórdia pudesse permitir que um de seus filhos sofresse num inferno eterno”. Já Ário de Alexandria, pouco menos de um século depois, concordava com Orígenes quanto a distinção entre Cristo e Deus, além de simplesmente não compreender o que diabos era exatamente a tal “trindade perfeita”.

Somente em 325, no Concílio de Nicéia, as ideias de Ário (arianismo) e Orígenes foram consideradas heréticas, ou seja: “erradas”. O próprio Agostinho de Hipona, que nasceu décadas após o Concílio, estabeleceu as bases atuais do dogma do Pecado Original [1] – Somente muitos séculos, portanto, após Jesus haver pregado na Galileia. Agostinho foi admirador do neoplatonismo e do maniqueísmo, e embora não admitidamente (no caso do maniqueísmo), ambas as doutrinas, através dele, exerceram profunda influência sobre o cristianismo que se seguiu.

Ora, e se Mani (fundador do maniqueísmo) exerceu alguma influência em Agostinho, certamente esta influência até hoje é percebida no cristianismo. Mani considerava Zoroastro (profeta persa, fundador do zoroastrismo), Buda e Jesus “pais da Justiça”, e pretendia sistematizar suas mensagens individuais numa doutrina de “verdade completa”. E o que o cristianismo herdou de Mani, através de Agostinho, foi exatamente a ideia central do zoroastrismo: que existe uma guerra semieterna entre um “deus bom” e um “deus mau” [2].

O problema é que não termina aí: Mani calhou de chegar a conclusão de que a matéria era “intrinsecamente má”, e a alma, “pura e boa”. Ainda hoje acusam Platão por ter “inserido” esta ideia equivocada no cristianismo, mas mesmo esta concepção é apressada e superficial [3]: se houve culpa de alguém, além dos próprios cristãos da época, que se abstiveram de debater o assunto por mais tempo, esta culpa recaí mais decisivamente no inconsciente de Agostinho – em suas memórias da época em que seguia a doutrina de Mani e, principalmente, em seu vastamente documentado arrependimento da antiga vida boêmia (e sexual).

Estou aqui a condenar Agostinho? Claro que não. Este grande sábio da antiguidade deixou-nos inumeráveis passagens de grande teor filosófico [4]. Porém, na questão do Pecado Original, simplesmente lamento profundamente as conclusões a que chegou...

Afinal, se o ato de comer uma maçã proibida pode ser responsável pela condenação do sexo as trevas, pela eternidade, fica muito difícil saber onde a razão se escondeu nesta teoria. Poderia me estender aqui sobre o assunto de Adão, Eva e a Serpente, mas já falei sobre isso noutros artigos [5], e gostaria ainda de retornar ao problema dos falos e orifícios.

Ora, fica evidente que a Imaculada Conceição é um dogma que se esvaziou dos significados simbólicos dos mitos ainda mais antigos [6], e se revestiu de um supremo puritanismo que pretende “salvar” Maria do ato sexual – como se este fosse alguma coisa relacionada ao “deus mau” do maniqueísmo.

Mas Maria não precisa ser “salva” de nenhum Pecado Original. O sexo não é uma espécie de doença contagiosa, e ninguém se torna “impuro” por praticá-lo. O que nos torna impuros, o que realmente mancha nossas almas, é a ignorância, a intolerância, a falta de empatia, a brutalidade do pensamento ou, para resumir, o próprio “afastamento de Deus”.

Alguém já definiu o puritano como “aquele que se escandaliza ante o fato de que alguém, nalgum lugar, pode estar tendo prazer”. Muitas das vezes, os puritanos são sujeitos altamente sexuais, mas que se viram obrigados a varrer toda sua sexualidade para debaixo do tapete da consciência. Não fosse assim, como seria possível haver tantos eclesiásticos praticando os atos sexuais mais desajustados, quando defendem exatamente o oposto disto? É isto o que ocorre quando “fingimos eliminar nosso lado animal com dogmas e orações”. É este, afinal, o grande pecado: recusar-se a admitir que somos humanos, demasiadamente humanos.

Intrinsecamente, não há problema algum em darmos algumas aberturas para nosso lado animal. Não fosse por isto, pelo que Schopenhauer chamou de “a força da vida” (antecipando em muitas décadas os psicólogos evolutivos), sequer estaríamos aqui para contar a história da espécie. E o sexo, de todo tipo – heterossexual, homossexual, bissexual –, é perfeitamente natural, se encontra na Natureza (e, se vocês tem alguma dúvida, pesquisem por “bonobos” no Google [7]).

Aliás, é melhor, muito melhor, darmos alguma abertura a fera sexual que nos habita, ainda que de vez em quando, do que fingir que ela não está lá, ou pior, acreditar que ela pode ser afastada com orações repetidas da boca para fora, que não passaram pela profundidade da alma.

Pois todo aquele que conhece a alma sabe que, de fato, o sexo é bom, e tem sido bom a incontáveis vidas... Mas sabe também que há algo ainda melhor, uma espécie de gnose deste mistério, um entreolhar da “força da vida”, que anseia por si mesma, mais e mais. Um fogo que arde sem se ver, e que não se apaga nunca, mas pelo contrário: queima cada vez mais alto e forte.

Que há muitos ignorantes que condenaram o sexo as trevas, mas que ao puni-lo com violência e intolerância, praticam pecados no mínimo muito piores do que qualquer promiscuidade envolvida no ato sexual...

Mas aqueles que se largaram no fogo da alma, e queimaram seu antigo corpo, sua antiga ignorância, renasceram junto ao Cristo, e desvendaram enfim o que Zoroastro quis dizer:

Não é o sexo que é mau. Não é o corpo que é mau. Não é a matéria que é má. A maldade reside na alma, e nos olhos, de quem vê... E que é a maldade, senão a suprema ignorância da Natureza?

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[1] Um contemporâneo de Agostinho, monge ascético (e que jamais foi boêmio), chamado Pelágio, combateu veementemente o dogma do Pecado Original, mas foi considerado herege pelo bispo de Roma.

[2] Isto é, claro, segundo uma concepção altamente superficial do zoroastrismo. Infelizmente, no entanto, ainda que inconscientemente, Agostinho foi influenciado por tal pensamento, e ele se encontra até hoje no cristianismo (basta ter olhos para ver).

[3] Ver O mito da caverna comentado.

[4] Foi, por exemplo, o primeiro a analisar o aspecto psicológico do tempo de forma aprofundada (ao menos, no Ocidente).

[5] Ver Serpentes.

[6] Os mitos sobre filhos gerados por mulheres virgens são numerosos, constituindo uma ideia corrente já muito antes do cristianismo. Mesmo no Oriente, 2 mil ou 3 mil anos antes de Cristo, entidades mitológicas e fundadores de religiões eram considerados “filhos de mães virgens e puras”. Esta virgindade, no entanto, não necessariamente vinha associada de uma “condenação ao ato sexual”. Era, muitas vezes, apenas uma metáfora para “uma divindade que gerou a si mesma”.

[7] Ver 3 chimpanzés.

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Crédito da foto: Wikimedia Commons (Templo de Lakshana, Índia)

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