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11.10.15

Agora, sem as rodinhas!

Quando surgiu pela primeira vez na comunidade científica, a ideia de que todo o universo tivesse se originado de uma espécie de “átomo primordial” há bilhões de anos, e que vinha se expandindo desde então, pareceu tão absurda que um famoso astrônomo da época a chamou de Big Bang num programa de rádio da década de 1940.

A intenção de Fred Hoyle, o cientista britânico defensor da teoria do universo estacionário ou eterno, era ridicularizar a teoria do belga Georges Lamaître, aquele quem primeiro propôs a ideia de que o próprio espaço-tempo se encontrava em expansão. O fato de Lamaître, para além de físico e astrônomo, ser também um padre católico, certamente levou Hoyle a supor que ele estava se baseando mais nos dogmas do Gênesis do que em ciência genuína...

Mas hoje sabemos que a hipótese do Big Bang venceu a batalha contra o universo estacionário de Hoyle, e o que determinou a vitória foram os fatos: em 1966, já próximo da morte num leito de hospital, Lamaître foi comunicado que os astrônomos Arno Penzias e Robert Wilson haviam confirmado experimentalmente a existência da chamada radiação cósmica de fundo, uma espécie de “registro fóssil” em micro-ondas da época em que todo o universo era quente e denso, apenas cerca de 380 mil anos após o seu início.

Junto com outras evidências, como a de que as galáxias ainda hoje estão se afastando umas das outras, e a observação de uma imensa abundância de elementos leves no universo, hoje a teoria do Big Bang é de muito longe a hipótese mais aceita na comunidade científica, fazendo parte do chamado “modelo padrão”. Penzias e Wilson ganharam o Prêmio Nobel de Física de 1978 por sua descoberta. Se estivesse vivo, Lamaître certamente teria o seu Nobel garantido.

A ideia de um universo eterno, entretanto, era um conceito muito mais antigo do que o advento da própria astronomia moderna; um paradigma tão cristalizado na mente humana que eventualmente também se tornou quase que um dogma científico, ao ponto de ter tirado o sono até mesmo de Albert Einstein, que relutou o quanto pôde em admitir que o universo de fato se expandia. O célebre físico alemão chegou a dizer que este foi “o pior erro de sua carreira”.

Realmente não é fácil quebrar antigos paradigmas. Demócrito e outros filósofos atomistas da Grécia Antiga, por exemplo, acreditavam que os átomos eram eternos e imutáveis. Pitágoras e seus discípulos consideravam que todo o universo era ordenado por princípios imateriais eternos de harmonia e “verdades matemáticas”. Já Platão foi ainda mais longe, e generalizou a matemática transcendente pitagórica para uma visão mais ampla de Ideias arquetípicas e universais, que incluíam a Forma de cada objeto ou qualidade, como cavalos, seres humanos, cores e bondade. Segundo o grande filósofo grego, a própria realidade era composta por “sombras e reflexos das Formas transcendentais”.

Sempre foi complexo para a mente humana imaginar uma Natureza evolutiva, que não surgiu “pronta e acabada”, com todas as suas leis e variáveis imutáveis. E isso, é óbvio, se reflete também nas ideias científicas.

Ironicamente, o mesmo paradigma de universo estacionário com leis imutáveis gerou um baita problema para a visão ateísta do mundo... De acordo com o Princípio Antrópico, se as leis e constantes cosmológicas fossem ligeiramente diferentes após o Big Bang, não teria sido possível o surgimento de formas de vida baseadas em carbono, como nós aqui neste planetinha. Uma das respostas óbvias para tal enigma é que a própria Criação foi obra de alguma espécie de inteligência superior, ou seja, a ciência se vê forçada a retornar a hipótese de um Criador.

Para contornar esse “incômodo”, muitos cosmólogos preferem pensar que há inúmeros universos além do nosso, cada um deles com leis e constantes específicas. Nesses modelos de “multiverso”, o fato de calharmos de estarmos aqui, conscientes e maravilhados, se explica pela extraordinária sorte de fazermos parte de um dos bilhões e bilhões de universos que propiciou o surgimento da vida como a conhecemos. Segundo esses modelos, não faz o menor sentido reclamarmos de qualquer espécie de azar, pois a nossa sorte em estarmos aqui vivos é tão imensamente grande que equivale a uma chance estatística inferior a sermos atingidos por um raio a cada minuto durante toda a vida (e, nesse caso, também considerando as chances de sobrevivermos a todos eles).

Portanto, se as leis e constantes são imutáveis e tudo estava determinado desde o início dos tempos, tanto faz se calhamos de existir num dos universos que possibilitou a vida baseada em carbono, ou se este universo único foi criado conforme descrito no Gênesis, as chances estatísticas provavelmente se equivalem, e tudo passa a ser uma questão de “gosto pessoal” que defina qual aposta é menos absurda do que a outra.

No fundo, todas as teorias que postulam a existência de um multiverso possuem a crença comum na primazia da matemática sobre a realidade. Mesmo que existam muitos universos além do nosso, o que os sustenta, segundo tais ideias, são fórmulas matemáticas transcendentes, como por exemplo as que formam a espinha dorsal da teoria das cordas ou teoria M. Para resumir: tais teorias nada mais são do que uma espécie de pitagorismo ultrarradical.

Mas temos outra alterativa surpreendente, defendida pelo físico Rupert Sheldrake em seu monumental Ciência sem Dogmas. A opção ao pitagorismo é a evolução das regularidades da Natureza. Tais regularidades seriam mais semelhantes a hábitos adquiridos do que a leis imutáveis que estavam lá desde o início dos tempos, e ficariam mais fortes (ou “constantes”) pelo meio da repetição, da mesma forma que aprendemos a andar de bicicleta. Segundo Sheldrake, há um tipo de memória na Natureza, e o que acontece agora é influenciado direta ou indiretamente pelo que já ocorreu antes.

Hábitos ancestrais foram estabelecidos há bilhões de anos, e estão arraigados de tal forma na Natureza que se parecem mesmo com “leis imutáveis”. Dos fótons, prótons e elétrons surgiram as moléculas, depois as estrelas e as galáxias, então os planetas, os cristais, e ao menos aqui neste planetinha, as plantas e os seres humanos.

Entre as moléculas, por exemplo, a de hidrogênio é provavelmente a mais antiga – ela já existia antes da formação da primeira estrela. As “leis” e “constantes” associadas a esses padrões arcaicos de organização estão tão bem estabelecidas que atualmente já não apresentam nenhuma mudança detectável. Em contrapartida, algumas moléculas são novíssimas, como as centenas de compostos produzidos pela primeira vez por químicos de síntese em nosso próprio século. Nesse caso, os hábitos ainda estão se formando. O mesmo ocorre com novos padrões de comportamento em animais e novas habilidades humanas.

Se eliminarmos a biologia e nos mantivermos exclusivamente na física e na química, ainda assim esta teoria tem uma vantagem gritante se comparada às teorias que postulam um multiverso como forma de explicação ao Princípio Antrópico: ela fala de coisas que podem efetivamente serem observadas e testadas!

Na verdade, sabemos que os químicos que sintetizam novas substâncias muitas vezes têm grandes dificuldades de fazer com que elas se cristalizem. Às vezes leva muitos anos para os cristais surgirem pela primeira vez. Por exemplo, a turanose, um tipo de açúcar, durante décadas foi considerada um líquido, até que, na década de 1920, ocorreu a cristalização. Depois disso, esse açúcar formou cristais em todo o mundo [1].

O xilitol, álcool de açúcar usado como adoçante em gomas de mascar, foi preparado pela primeira vez em 1891 e considerado líquido até 1942, quando surgiram cristais pela primeira vez. O ponto de fusão desses cristais era de 61ºC. Depois de alguns anos surgiu outra forma de cristal, com ponto de fusão de 94ºC e, mais tarde, o primeiro tipo de cristal desapareceu da Natureza [2] (leia novamente este parágrafo se não compreendeu ainda o quão assombroso ele é)...

Nós tendemos a ver o universo sob o nosso ponto de vista, mas ironicamente postulamos que, ao contrário de nós mesmos, ele deveria ser como que um rio congelado, uma espécie de fórmula matemática supersimétrica, superelegante, transcendente e eternamente imutável. Dessa forma, tendemos a ver a Natureza como uma espécie de supercomputador programado desde o início dos tempos para obedecer às mesmas leis e constantes, sem a mísera variação. Entretanto, basta olhar a nossa volta, como uma árvore só pode existir após haver sido broto e, ainda antes, semente. Como os filhotes de passarinho devem ser alimentados por seus pais antes de criarem força nas asas e, eventualmente, se arremessarem aos céus. Como toda a metrópole tem o seu centro histórico e, dentro dele, o seu marco inicial.

Tudo evolui do simples para o complexo, e o grande destino da vida parece mesmo ser se organizar, de alguma forma extraordinária, em consciências capazes de observar o mundo – a Natureza vendo a si mesma, compreendendo a si mesma, se espantando consigo mesma.

E não podemos saber ainda, de fato, se há mesmo um Criador que pensou nisso tudo desde o início. Talvez, quem sabe, ele esteja aprendendo conosco. Talvez ele tenha preferido nos deixar livres para descobrir as coisas, tateando o Cosmos e evoluindo por nossa própria conta.

Como quando nossos pais nos levam ao parque para nos ensinar a andar de bicicleta. No começo, colocam rodinhas para que nos auxiliem a manter o equilíbrio. Talvez, quem sabe, todo o nosso passado mineral, vegetal e animal tenha sido como que um aprendizado com o auxílio das rodinhas...

Mas hoje, hoje despertamos, hoje somos seres conscientes encarando de volta a vastidão cósmica salpicada pelas mesmas fornalhas que fundiram os elementos de nosso corpo, habituadas há bilhões de anos a este caminho ancestral que vai do átomo primordial de Lamaître a um planetinha, quiçá bilhões e bilhões deles, plenos de vida, plenos de crianças a arriscar suas primeiras voltas de bicicleta.

Até o dia em que partiremos deste pequeno parquinho para os mundos e galáxias mais distantes, e quem sabe neste dia não poderemos olhar para o Alto e dizer:

“Olhem para nós! Agora, sem as rodinhas!”

***

[1] Crystals and Crystal Growing, por Allan Holden e Phyllis Singer (1961), pp. 80 e 81.

[2] Ibid., p. 81.

Crédito da imagem: Google Image Search/shutterstock

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6.10.15

Memes para reflexão, parte 4

« continuando da parte 3

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Sois deuses
Este meme foi de longe o que causou a maior polêmica, como era de se esperar...

Todos devem saber que a Igreja Católica deve muitíssimo ao imperador romano Constantino, que ao final da vida se converteu ao cristianismo e, o que é mais importante, o estabeleceu como a religião oficial do Império Romano.

Há quem creia que foi ele próprio quem examinou todos os textos religiosos cristãos da época e decidiu quais deles formariam o Novo Testamento da bíblia cristã, juntamente com os textos judaicos mais antigos. Ora, ainda que Constantino fosse o maior especialista em cristianismo do seu tempo, e não um governante imperial com inúmeras responsabilidades, ele sozinho jamais teria dado conta de tal seleção, organização e edição monumentais.

De fato, ele jamais participou desse processo. É bem provável que ao instaurar o cristianismo como nova religião, tenha contado com uma vasta equipe de monges e escribas para escolher os livros que mencionavam a vida de Jesus. Segundo a história oficial da Igreja, no entanto, a versão final do Novo Testamento só ficou pronta entre os concílios de Hipona, em 393, e de Cartago, em 397, mais de meio século após a morte de Constantino.

Muita gente no dia de hoje questiona se os ensinamentos de Jesus não se perderam em tantas seleções, edições e traduções. Outros, ainda, sequer creem que Jesus de fato existiu... Ora, ao meu ver, é bem provável que Jesus de Nazaré tenha de fato existido, mas a possibilidade de sua vida ter sucedido exatamente como foi descrita na bíblia, em cada ponto e vírgula, já é consideravelmente mais remota.

No entanto, uma das descobertas mais extraordinárias do século passado foram os chamados “evangelhos apócrifos”, encontrados em jarros enterrados no deserto, em Nag Hammadi, na região do Alto Egito, em 1945. Tais textos pertencem inequivocamente ao período do cristianismo primitivo, e alguns deles, particularmente o Evangelho de Tomé, mencionam muitos ensinamentos de Jesus que casam ou se assemelham enormemente com as parábolas do Novo Testamento. Apesar de Jesus não haver sido crucificado nesse texto (nem, obviamente, ter ressuscitado), fato é que a sua existência é um dos maiores indícios modernos de que “existiu algum Jesus”.

Porém, ainda que não tenha existido, o que importa no final das contas é a mensagem bíblica, e a junção do que Jesus diz em João 10:34-35 e 14:12 é, no meu entendimento, um dos seus ensinamentos mais essenciais, que conseguiu sobreviver ao tempo, as edições e as traduções: Sois deuses, e dia virá que farão tudo o que tenho feito, e ainda muito mais.

O “sois deuses” a que Jesus se refere também se encontra nos Salmos do Antigo Testamento (Sl 82:6-7) e até mesmo em antigos ensinamentos do misticismo egípcio e do orfismo grego, como na célebre frase, “Eu também sou da raça dos deuses”... De fato, a ideia de que somos “deuses em formação”, cujo potencial é incalculável, está presente em diversas doutrinas espiritualistas, mas a ideia passa longe de querer significar que seremos como que “rivais de Deus”, o que seria uma ideia absurda.

Da mesma forma, seria absurdo considerar que um ser humano, por mais iluminado e sábio que seja, possa ser “Deus encarnado”... Daí a extrema importância desse belo resumo que o próprio Jesus faz de sua vida, e do sentido do seu ensinamento. Ora, se “um dia faremos tudo o que ele fez, e muito mais”, isto significa obviamente que o seu anseio não era que “substituíssemos algum deus”, mas que, através da nossa fé e do nosso amor ao Deus que paira acima de todas as coisas, chegássemos a amar da mesma forma que o Rabi da Galileia amava – que este sim, seria o maior dos milagres, e o objetivo mais grandioso de uma vida religiosa.


O cientista que estudava de tudo
Sir Isaac Newton é reverenciado como um dos maiores pensadores da ciência moderna, com contribuições inestimáveis para a física clássica e a matemática.

Ora, certamente muitos terão ouvido dizer que, além de cientista e astrônomo, ele também foi alquimista, teólogo e grande estudioso bíblico... O que muitos não devem saber, no entanto, é que ele dedicou mais tempo aos estudos bíblicos e esotéricos do que propriamente as suas célebres equações.

Mas, e o que isso quer dizer em termos práticos, puramente científicos? Absolutamente nada!

Quando criei este meme, a minha intenção não era “forçar adiante” alguma ideia de que as descobertas científicas de Newton surgiram da bíblia ou da voz de algum anjo celeste ou demônio infernal, claro que não, as suas ideias, como aliás todas as ideias do mundo, surgiram dos momentos de inspiração.

E, para vivermos inspirados, precisamos estar sempre buscando realizar aquilo que amamos. Newton certamente amava a física e a matemática, mas a sua grande motivação era “descrever a obra divina”. Não fosse a sua religiosidade, jamais teria sido cientista (ou filósofo da natureza, como eles se auto intitulavam em sua época).

Dessa forma, é preciso tomar cuidado com a “demonização” moderna de todo e qualquer pensamento dito “anticientífico” associado a alguém que faz ciência. Você pode não saber ou não acreditar, mas fato é que é perfeitamente possível ser cientista e religioso, ou cientista e filósofo, ao mesmo tempo, e mesmo assim praticar ciência genuína. Quer alguns exemplos?

(a) A própria ciência moderna deve muito ao hermetismo, que é uma ciência ocultista. A questão da Igreja com o heliocentrismo de Copérnico e Galileu tinha muito mais a ver com um embate religioso do que científico, tanto que o único que foi para fogueira de fato era um monge reformista, Giordano Bruno. Não é essa a “história oficial” nem da Igreja nem da Academia, mas todos que conhecem a fundo a história do hermetismo sabem muito bem qual foi o real motivo da sentença de Bruno.

(b) Albert Einstein, para além de ser o grande continuador da obra de Newton, foi também um profundo admirador da religiosidade latente da Ética de Benedito Espinosa, e jamais escondeu isso de ninguém.

(c) Alfred Russel Wallace, cocriador da teoria da evolução, juntamente com Charles Darwin, ao longo da vida se tornou um grande entusiasta do espiritismo, e é mesmo óbvio que o seu interesse pela evolução também se dava no âmbito espiritualista, particularmente no que tange a reencarnação. Pelo mesmo motivo, foi relegado as notas de rodapé da história da ciência, embora seja no mínimo tão responsável pela teoria da evolução quanto Darwin (há quem diga que até muito mais).

(d) Niels Bohr, Werner Heisenberg e Erwin Schrödinger, todos grandes cientistas do século passado, tinham o Bhagavad Gita, a maior obra espiritual do hunduísmo, como livro de cabeceira. Alguns deles chegaram a der relatos de que muitas vezes se inspiraram diretamente em seus conceitos para alcançarem algumas de suas descobertas.

(e) Richard Feynman, o célebre físico americano, gostava muito de desenhar e tocar bongos!

Tudo bem, este último caso foi mais para exemplificar o que quero dizer: não é que os Vedas, os textos herméticos ou as sessões espíritas tenham servido de inspiração direta para descobertas científicas, mas todos eles têm o mérito de terem mantido todos esses grandes cientistas ativos e curiosos em mais de um campo de conhecimento.

O que seria de Feynman sem as sessões de bongos? Teria sido o mesmo cientista?

Talvez, quem sabe... Mas certamente não traria aquele enorme sorriso no rosto, tampouco aquele brilho peculiar no olhar, toda a vez em que falava sobre a inefável natureza da Natureza!

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Crédito das imagens: Raph/Google Image Search

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2.10.15

Uma epidemia de autismo?

“Vivemos uma epidemia de autismo nos EUA. Se nada for feito, em 2025 um em cada dois recém-nascidos será diagnosticado com autismo.” – a conclusão não é de qualquer leigo no assunto,  mas de Stephanie Seneff, pesquisadora sênior do Computer Science and Artificial Intelligence Laboratory no mundialmente respeitado Massachusetts Institute of Technology (MIT). A Dra. Seneff, assim como muitos outros cientistas, afirma que o autismo não é um distúrbio neurológico apenas genético – é praticamente certo que ocorra devido a fatores ambientais. Dois desses fatores estão relacionados à exposição ao glifosato e a um coquetel de metais pesados, incluindo o alumínio. “Glifosato”, guarde este nome, pois já voltaremos a ele...

Antes, é preciso falar um pouco mais sobre o autismo. Trata-se de um distúrbio neurológico caracterizado por comprometimento da interação social, comunicação verbal e não-verbal, assim como de comportamento restrito e repetitivo.

Ninguém “pega autismo”, como se pega uma gripe ou doença sexualmente transmissível. Ou nascemos com autismo, ou não. Os pais costumam notar sinais nos dois primeiros anos de vida da criança. Os sinais geralmente desenvolvem-se gradualmente, mas algumas crianças com autismo alcançam o marco de desenvolvimento em um ritmo normal e depois regridem.

Segundo Temple Grandin, uma famosa autista savant (que desenvolveu grande empatia para com os animais, e pouca para com os seres humanos), autistas como ela “pensam em imagens” e, exatamente por “não serem atrapalhados pelas emoções”, estão aptos a resolver mais facilmente diversos problemas matemáticos e detectar padrões naturais que uma mente normal usualmente deixa passar em branco, simplesmente porque sua consciência está focada em aspectos, digamos, mais sociais da existência.

Mas são poucos os autistas que conseguem se destacar, como Grandin. Muitos são condenados a viver uma vida enclausurada em seu próprio mundo interno, como uma larva que entra num casulo, mas jamais chega a virar borboleta e voar para fora.

Voltando ao assunto da epidemia, mas não ao glifosato (continuem guardando o nome), há muitos americanos que desconfiam que o autismo está sendo causado por vacinas. Apesar de aparentemente absurdo, o assunto foi levado até mesmo ao recente debate dos candidatos do partido republicano à presidência dos EUA. E foi exatamente o mais cotado nas pesquisas para concorrer pelo partido, o bilionário Donald Trump, o único a defender abertamente a ideia de que, sim, as vacinas podem ter alguma relação com a tal epidemia.

Para o desespero dos médicos americanos, este assunto vem se tornando tão popular que doenças erradicadas há décadas estão retornando aos EUA, simplesmente porque alguns pais estão se recusando a vacinar seus filhos. Ora, para derrubar tal teoria, basta comparar as vacinas de hoje com as de décadas atrás, quando não havia tantos casos de autismo diagnosticados, e veremos que não, não é culpa das vacinas, ao menos não diretamente.

É aí que voltamos a Dra. Seneff e ao glifosato... A Monsanto é uma multinacional americana do ramo da agricultura e biotecnologia, sendo de longe a líder mundial na produção e comercialização de sementes geneticamente modificadas e do agrotóxico herbicida RoundUp, o mais vendido do mundo, cuja base é exatamente o glifosato.

O glifosato é um herbicida desenvolvido para matar todo tipo de ervas, usado no mundo todo, e no Brasil desde a década de 70. Há vários indícios de que ele pode ser cancerígeno, além de causar certo impacto ambiental pela destruição de bactérias que são vitais para a regeneração do solo, assim como pela má-formação de fetos de certos animais, principalmente anfíbios. Mas nada foi oficialmente comprovado, não se sabe se com a ajuda do lobby da Monsanto ou não.

A questão é que nunca se usou tanto glifosato no mundo quanto nas últimas décadas, pois a Monsanto também desenvolveu sementes geneticamente modificadas “imunes ao glifosato”, permitindo que ele pudesse ser despejado em grande quantidade sobre as plantações.

Isso significa que todos nós temos traços de glifosato na urina, e até mesmo no leite materno. Nos EUA, essas concentrações são cada vez maiores, e é precisamente aí que a teoria da Dra. Seneff começa a fazer todo sentido.

É possível que o glifosato seja inócuo para a grande maioria de nós, ou que seu efeito nocivo não seja facilmente notado, como a possibilidade de ser um agente cancerígeno. Entretanto, a coisa muda de figura quando temos a informação que ele está presente no leite materno e, dessa forma, na única dieta de um recém-nascido em seus primeiros meses de vida. É possível que o glifosato interfira na formação cerebral, já que sabemos que o homo sapiens vem ao mundo com seu cérebro ainda em plena formação, particularmente no início da vida.

Fazendo mais um “parêntesis” nessa história, vamos dar um pulo no campo espiritual... Anos atrás, quando estudei sobre o tema do autismo, eu tinha certa convicção que se tratava de uma “doença do espírito”. Isto porque, pensemos, ele só aparecia em crianças, e afetava as relações sociais, a empatia e o aspecto puramente emocional da vida. Sempre me pareceu como que uma doença programada para aqueles espíritos que “abusaram” das emoções noutras vidas, e que precisavam passar uma vida com esse aspecto “anestesiado”.

E, se tal convicção foi agora seriamente abalada por esta notícia de que o autismo pode muito bem ser causado por fatores puramente ambientais, ela não caiu inteiramente por terra em minha “rede de possibilidades” – simplesmente pelo fato de que a principal ação do glifosato nos recém-nascidos é a interrupção do bom funcionamento da glândula pineal.

Particularmente quando acompanhado de alumínio (e esse alumínio também vem das vacinas, que podem mesmo ter algum envolvimento indireto no assunto – com toda ênfase no “podem”), o glifosato interfere diretamente na boa formação da pineal, e conforme já sabemos muito pouco sobre essa glândula, sabemos menos ainda sobre o que o seu comprometimento pode acarretar. No entanto, segundo a teoria de um cientista brasileiro, Dr. Sérgio Felipe de Oliveira, a relação entre o comprometimento da pineal e a baixa empatia faz todo sentido.

O Dr. Oliveira estuda a pineal há muitos anos, e como se trata de um cientista espiritualista, não se acanha ante as possíveis “funções espirituais” associadas à glândula. O que ele encontrou em seus estudos não é nada como “a sede da alma” ou algo vago, mas cristais, cristais de apatita. Ele percebeu que algumas pessoas já nascem com a pineal cheia desses cristais, enquanto outras têm poucos ou nenhum. Assim, ele fez experimentos com ambos os grupos.

Entre aqueles que possuem os cristais, os chamados fenômenos mediúnicos, assim como a percepção de campos eletromagnéticos, são muito mais significativos. Ora, no espiritualismo sabemos que a mediunidade não deixa de ser uma percepção do mundo à volta mais desenvolvida, principalmente no que tange a empatia e as emoções. É muito comum médiuns serem alertados para “tomarem cuidado com o canal aberto”, isto é, como o fato de que, para eles, os fenômenos emocionais podem ser muito mais poderosos e, por vezes, até mesmo devastadores...

E o autismo, o que é, senão o oposto da mediunidade?

Enquanto muitos médiuns têm enorme dificuldade em erguer um casulo entre o seu mundo interior e o exterior, os autistas sofrem do extremo oposto: têm dificuldades exatamente em romperem o casulo que os mantém quase que isolados do mundo social-emocional.

Tudo bem, você pode não acreditar em nada disso, mas a questão aqui não é bem crer, mas buscar por hipóteses que façam sentido, e que não sejam absurdas a priori. E ignorar a possibilidade do autismo se originar no comprometimento das funções da glândula pineal pode não ser o melhor caminho para elucidarmos tal mistério.

Em todo caso, fato é que há sim uma característica de epidemia nos casos de autismo nos EUA. Há um aumento de 75% nos registros desde 2001, e em 2014 cerca de uma a cada 68 crianças foram diagnosticadas com algum grau de autismo (enquanto em boa parte do mundo, esse número não passa de uma a cada 500). Segundo a Dra. Seneff, esse número pode chegar a uma a cada duas, em 2015. É preciso estar de olhos abertos para que os lucros de uma multinacional americana não justifiquem o custo de termos de lidar com dezenas, centenas de milhões de autistas.

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Crédito da imagem: Google Image Search/cancerfactsheet.org

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31.8.15

Memes para reflexão, parte 3

« continuando da parte 2

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O Senhor dos Exércitos
As Cruzadas não se prestaram a “combater infiéis” somente na Terra Santa. No caminho até lá, houve algumas outras batalhas da Igreja dentro da própria Europa. Bem, “batalha” talvez não seja a melhor definição, e sim “massacre”.

Em 1209 a cidade de Béziers era habitada por cerca de 60 mil pessoas, e dentre elas havia muitos seguidores do catarismo, uma vertente mística do cristianismo que desagradava a Igreja. O problema é que nem todos dentro dos seus muros eram cátaros, o que gerou um questionamento muito pertinente de um dos comandantes do exército francês ao representante do Papa, quando eles se preparavam para invadir a cidade com uma força militar vastamente superior. O comandante perguntou: “Mas senhor, nesta cidade encontram-se vivendo em paz cristãos, judeus, árabes e cátaros. Como vamos saber quais são os inimigos?”. E o representante assim o respondeu: “Matem todos; Deus escolherá os seus!”. Béziers foi dizimada, mas não se sabe se Deus conseguiu encontrar os seus...

A ideia da “guerra do Bem contra o Mal” é poderosa e sedutora, e por isso mesmo sempre agradou aos Imperadores, Reis e Papas. De todas as ilusões que se interpõe a verdade inconveniente de que, como muitos já devem saber, todas as guerras do mundo se dão quase que unicamente pelo desejo da conquista de territórios e riquezas, a lenda do Bem contra o Mal é a mais simples de se compreender, e a mais capaz de arrebatar uma grande massa de ignorantes. Nesse tipo de guerra não há dor na consciência em dizimar inocentes, nem mesmo em estuprar mulheres e crianças, pois fica pré-estabelecido que elas são como demônios sem alma, fruto de um suposto exército comandando pelo Mal.

No entanto, talvez até mesmo uma criança já seja capaz de se questionar: “Ora, mas se Deus criou a todos nós, como ele pode ser o Senhor de um único exército?”. Acredito que a resposta seja óbvia, e este meme é uma tentativa de trazer essa reflexão à tona.


Buda, e Budai...
Uma curiosidade: na imagem cima não temos o Buda Sidarta Gautama, mas Budai, uma divindade chinesa que é costumeiramente confundida com Sidarta. Obviamente que o Buda Gautama provavelmente nunca foi muito "gordinho", até mesmo porque chegou a praticar jejuns extremos, e após atingir a iluminação, aos 35 anos, passou os próximos 45 anos de sua vida viajando pelos arredores do Nepal.

A vida de Buda se parece muito mais com a vida de um místico andarilho, como Jesus de Nazaré, que viajou a pé pelos arredores de sua cidade natal, ensinando a todos com quem cruzava. A diferença é que Buda não é conhecido por realizar milagres, como ressuscitar mortos, curar leprosos ou transformar água em vinho. Em todo caso, os ensinamentos de Buda foram tão impactantes quanto os de Jesus, o que é atestado pelo fato de terem igualmente sobrevivido por mais de dois mil anos, sem terem sido esquecidos.

No entanto, não é difícil encontrar pessoas que, por total desconhecimento da história de vida de Sidarta, creem piamente que ele passou a vida toda meditando ao lado de uma árvore, e não ajudou ninguém. O fato de sua imagem ser costumeiramente confundida com a imagem de Budai talvez ainda ajude a perpetuar essa lenda do “monge gordinho que nunca saiu do lugar”.

Tal visão, é óbvio, não poderia estar mais distante da realidade. Desde o momento em que atingiu a iluminação, é dito que o Buda passou o restante de seus dias tentando auxiliar aos demais a atingir esse mesmo grau de consciência da realidade, e de desapego para com tudo o que existe somente no fluxo do tempo.

Se há um lugar em que Sidarta passou boa parte da vida, não foi na sombra de uma árvore, mas na própria eternidade.

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Crédito das imagens: Raph/Google Image Search

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28.8.15

Memes para reflexão, parte 2

« continuando da parte 1

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Sócrates
No início eu estava sem muitas ideias, e achei por bem pesquisar por “memes filosóficos” no Google. Encontrei pouca coisa que me interessou, mas este sobre Sócrates, que achei originalmente em inglês, me pareceu um meme digno para iniciar a série.

Há mesmo muitas formas de se analisar a afirmação que o grande sábio de Atenas não se cansava de repetir: “Tudo o que sei é que nada sei”. Muitos talvez a achem incompreensível, afinal se você sabe que não sabe, é porque já sabe alguma coisa. Outros provavelmente a consideram alguma espécie de “falsa modéstia”, já que Sócrates vencia praticamente todas as suas discussões “mesmo sem saber de nada” (também existem memes sobre isso online).

Na verdade, eu creio ser exatamente o oposto da “falsa modéstia”, e daí o meme ter me interessado... Talvez seja mais fácil me fazer entender através de um pequeno experimento mental:

Imaginemos que tudo o que sabíamos antes de entrarmos no colégio formasse um círculo de raio “x” em torno de nós mesmos. A “borda” desse círculo seria o nosso contato com “o desconhecido”, e na medida em que vamos aprendendo, dia após dia, aula após aula, pensamento após pensamento, este círculo vai crescendo junto como nosso novo conhecimento adquirido...

Ora, no dia em que nos formamos no colégio este círculo pode ter crescido enormemente, para um raio de “20x” ou “100x” ou “1000x”, não importa, o que importa é que na medida em que a “borda” do círculo vai crescendo, a nossa fronteira com “o desconhecido” vai se tornando cada vez mais extensa.

É como a física de partículas, que descobriu o átomo, depois os prótons, nêutrons e elétrons, e finalmente os quarks. Ou a cosmologia, que descobriu que na verdade cada estrela era um sol, e depois que havia algumas galáxias além da Via Láctea, e finalmente que há incontáveis galáxias viajando pelo espaço em grandes aglomerados. Ou seja: cada vez que aprofundamos nosso conhecimento da natureza, surgem mais questões, e mais vias a serem trilhadas.

E, se o conhecimento do que há lá fora é tão vasto, nada indica que o conhecimento do que há dentro de nós mesmos, ainda que nem sempre puramente objetivo, fique atrás.

Assim sendo, faz muito sentido encarar esta existência de maneira mais socrática, mais humilde, e considerar que o que sabemos é uma gota d’água perto do oceano do que ainda falta conhecer. Não nos adianta muita coisa, portanto, amar a Sócrates e ignorar solenemente o seu exemplo de vida.


Lúcifer
Embora Isaías muito provavelmente estivesse se referindo a um antigo rei da Babilônia, através de metáforas, quando relatou a sua “queda do céu” no Antigo Testamento, fato é que o mito do Anjo Caído se tornou extremante popular nos últimos milênios. Bem, é sobre este mito que quis me referir ao trazer o primeiro meme da série de minha autoria (como, aliás, o são todos os demais a partir daqui).

A despeito dos inúmeros problemas lógicos em se crer numa entidade que é “oposta ao Criador” mesmo tendo sido criada por ele (como tudo o mais), o que sempre me interessou na ideia do Anjo Caído é a questão incômoda acerca da sua insistência milenar na ignorância.

Pois, pensem bem, ainda que você tenha se rebelado contra o Criador, ainda que tenha atraído um enorme exército de seguidores para “combater a sua luz”, como você esperaria ganhar tal batalha?

Ora, se todos somos filhos do Criador, se todos nós somos formados por sua substância, como seria possível vencer? Antes de montar um exército para tentar assassinar Deus, deveríamos obviamente começar por nós mesmos, já que também somos formados por Deus... Seria muito mais lógico nos matar. E, de fato, qualquer suicida provavelmente causa mais dor a Deus do que todas as tentativas de “invasão do céu” pelas hordas infernais, pois a simples ideia de “invadir o céu a força e, sei lá, humilhar a Deus (?)” é absurda.

Outros podem argumentar que Lúcifer, sabendo muito bem que não tem como vencer, se dedica apenas a “roubar almas” de Deus, as corrompendo. Mas, ainda que ele aumentasse enormemente o seu exército usando deste expediente, no fim das contas do que adiantaria tudo isso? Fato é que a sua batalha continuaria sendo invencível.

Assim sendo, se esse tal Anjo Caído de fato ainda não se arrependeu e abandonou a ignorância após tanto tempo, ou ele é apenas uma espécie de fantoche, ou autômato, “programado” pelo Criador para exercer a sua função de “rei das trevas”, ou ele é simplesmente o maior bode expiatório que já existiu!

» Em breve, + memes!

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Crédito das imagens: Raph/Google Image Search

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27.8.15

Memes para reflexão, parte 1

Muita gente passou a conhecer os memes após o advento das redes sociais online. O que pouca gente sabe, no entanto, é que os memes da internet nada mais são do que uma espécie de “subgrupo” de um conceito muito mais abrangente, poderoso, e até mesmo místico:

Um meme – conforme proposto pelo biólogo britânico Richard Dawkins – é para a memória o análogo do gene na genética, a sua unidade mínima. É considerado como uma unidade de informação que se multiplica de cérebro em cérebro, ou entre locais onde a informação é armazenada (como livros) e outros locais de armazenamento ou cérebros. No que diz respeito à sua funcionalidade, o meme é considerado uma unidade de evolução cultural que pode de alguma forma se autopropagar. Os memes podem ser ideias, línguas, sons, desenhos, doutrinas religiosas, valores estéticos e morais etc. O estudo dos modelos evolutivos da transferência de informação é conhecido como memética.

Apesar de ser um conceito puramente metafísico, ele tem sido capaz de explicar muita coisa que ocorre dentro da mente humana, particularmente no que tange a troca de informações sociais e culturais. Assim, se é verdade que muitos memes da internet não passam de pequenas peças de humor, não é verdade que todos eles possam ser considerados somente isso.

Conforme um dia nos explicou Ralph Waldo Emerson, “A chave de todo ser humano é seu pensamento. Resistente e desafiante aos olhares, tem oculto um estandarte que obedece, que é a ideia ante a qual todos os seus fatos são interpretados. O ser humano pode somente ser reformado mostrando-lhe uma ideia nova que supere a antiga e traga comandos próprios”.

É levando isto em consideração que eu pensei comigo mesmo, “Ora, se há tantos memes bobos que alcançaram tamanho sucesso em se replicar pelas mentes alheias, por que não usar do mesmo expediente para tentar refletir adiante ideias um pouco mais profundas?”.

Foi assim que me senti inspirado para criar alguns “memes para reflexão” e publicá-los em nossa página no Facebook. A minha ideia, é claro, não é criar memes “acadêmicos” ou “muito sérios”, mas me aproveitar do bom humor e do grande alcance deste tipo de linguagem online para, como sempre tento fazer, levar as pessoas a refletirem um pouco mais sobre algumas ideias que talvez estejam já velhas demais, solidificadas demais, dogmáticas demais.

Com isso não quero denegrir ou reduzir tais ideias, que são memes muito mais antigos e duradouros do que qualquer meme de internet, mas pelo contrário: mostrar outros pontos de vista para, quem sabe, trazer tais ideias ancestrais para o meio do século 21, onde há um verdadeiro Dilúvio de informação irrelevante; de modo que as ideias relevantes talvez precisem ser guardadas com carinho, na segurança de nossa Arca de Noé, esta que sempre navegou em nossa própria alma.

Na sequência, trarei alguns dos memes publicados em nossa galeria no Facebook, com uma pequena explicação sobre o que exatamente quis passar com cada um, assim como uma rápida descrição das discussões geradas por aqueles que foram mais compartilhados.

» Em breve, os memes!

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Crédito da imagem: Raph/Google Image Search

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28.7.15

Um poema misterioso

Há alguns dias um poema de autoria anônima, encontrado num pub londrino, viralizou nas redes sociais. A princípio, ele parece um poema um tanto depressivo [1]:

Hoje foi absolutamente o pior dia de todos
E não tente me convencer que
Há algo bom em cada dia
Porque, quando você olha mais de perto,
Este mundo é um lugar muito ruim
Mesmo sabendo que
Alguma bondade vem brilhar de tempos em tempos
Satisfação e felicidade não perduram
E não é verdade que
Está tudo na mente e no coração
Porque
A verdadeira felicidade pode ser obtida
Apenas se o que nos rodeia for bom
Não é verdade que o bem exista
Eu estou certo que você pode concordar com isso
A realidade
Cria
Minha atitude
Está tudo fora do meu controle
Nem em um milhão de anos me escutará dizer que
Hoje foi um bom dia

Mas havia nele uma última linha, que em realidade faz toda a diferença, e foi o que de fato o tornou viral:

Agora leia de baixo para cima


Então, o que parecia um poema refletindo a angústia de algum beberrão britânico, subitamente se torna um pequeno tratado de como nosso ponto de vista pode transformar a realidade, e uma verdadeira alquimia mental é realizada.

O mais interessante, no entanto, não foram as dezenas de milhares de leituras que tal poema conquistou no mundo todo na última semana, mas o fato de que ele na realidade foi escrito por uma garota do ensino médio de Nova York, de família judaica, chamada Chanie Gorkin.

O poema, intitulado “Worst day ever?” (“O pior dia de todos?”), já havia sido semifinalista de um concurso de poesia, no site poetrynation, e chegou a ser publicado numa coletânea por uma pequena editora americana, isso tudo em 2014.

Quando ficou sabendo do sucesso do poema da filha, Dena Gorkin se disse “chocada”, já que se considera parte de uma família “regular e pacata”. Dena ainda afirmou ao site poetrynation que Chanie está em férias escolares, sem acesso a internet, e que ainda não faz ideia do ocorrido na última semana.

Para mim, particularmente, esta bela e curiosa história evidencia como muitos de nossos jovens, no mundo inteiro, podem ser tão sensíveis e talentosos. A parte realmente triste é que há muitos artistas em potencial que jamais irão exercer sua arte, seja por questões econômicas, seja por questões culturais; afinal, mesmo em Nova York é muito difícil “viver de poesia”. Quem sabe Chanie se sinta encorajada a tentar, mas pela personalidade da mãe, acredito que será complicado...

Em todo caso, a despeito de todas as mazelas e comentários sombrios que temos visto nas redes sociais, é inegável que ela também é capaz de nos fazer sorrir de vez em quando. E, se formos capazes de manter nosso ponto de vista e nosso estado de espírito elevados, são os sorrisos que vencerão, e farão dos nossos dias não os melhores ou os piores, mas tão somente dias de aprendizado.

***

[1] A tradução do original em inglês foi feita por Gabriel Bonfim.

Crédito da imagem: Alan Copson/Jai/Corbis/Twitter/Mashable

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28.6.15

O óbito da ignorância

A Casa Branca, pela entrada da noitinha, com iluminação especial em diversas cores, celebrando a decisão histórica da Suprema Corte americana.

Foi por conta de uma certidão de óbito que os EUA finalmente foram incluídos no rol dos países que deixaram de proibir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ao lado de Holanda (a pioneira) e diversos países europeus, assim como Uruguai, Argentina, Brasil, Canadá, México, África do Sul e Nova Zelândia:

Mapa com os países onde o casamento gay já é legal.

“Quando conheci meu marido, eu soube que queria ficar com ele pelo resto da minha vida, até que a morte nos separasse. A maioria das pessoas sente isso quando encontra o amor de sua vida”, disse a BBC o americano Jim Obergefell, 48 anos, ao falar sobre John Arthur, seu parceiro por 21 anos.

Eles se conheceram em 1992 e durante duas décadas construíram uma vida juntos em Cincinnati, Ohio. Em 2011, Arthur foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica, doença que não tem cura, e começou a perder o controle de seus movimentos musculares e a fala. Ambos sabiam que o tal “até que a morte os separe” estava cada vez mais próximo, e decidiriam aproveitar uma decisão prévia da Suprema Corte americana, de 2013, que permitia o seu casamento em certos estados da federação.

O casal arrecadou US$ 13 mil com familiares e amigos e alugou um jato com equipe médica para viajar a Maryland, Estado onde o casamento gay já era permitido na época. Em 11 de julho de 2013, Obergefell e Arthur trocaram votos e alianças em uma cerimônia de menos de dez minutos, realizada dentro do avião, na pista de um aeroporto em Baltimore.

Após voltarem para casa, entraram com uma ação para que o casamento fosse formalmente reconhecido na certidão de óbito, quando Arthur morresse. Após decisão favorável de um juiz federal, o Estado de Ohio recorreu, e o caso chegou à Suprema Corte.

Foi precisamente este caso que acarretou na decisão histórica e acirrada (5 votos a 4) do último dia 26 de julho de 2015, que basicamente estendeu o direito ao casamento homossexual de alguns estados para todo os EUA. Foi para que na certidão de óbito do grande amor de sua vida não constasse a palavra “solteiro” no lugar de “casado” que Obergefell, indiretamente, ajudou a acelerar o óbito da intolerância e da ignorância na maior potência do mundo ocidental.

Claro que, não fosse por este caso, teria sido por outros. Para além do apoio incondicional a decisão da maior rede social da internet, o Facebook, o que acarretou no florescimento de milhões de fotos de perfil mais coloridas nos dias subsequentes, essas foram algumas das grandes empresas que demonstraram explicitamente o seu apoio à decisão americana:

Logos da Apple, Microsoft, Google, Facebook, YouTube, Twitter, Tumblr AmericanAirlines, Uber e Vevo.

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Uma questão bíblica
No Levítico, a Bíblia nos explica que “quando um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão” (Le 20:13). Teoricamente, todos os judeus andarilhos, que então viviam em tribos nos desertos do Oriente Médio, deveriam seguir estritamente tal lei ou seriam “punidos por Javé”. Isto fazia algum sentido na época, pois era um povo nômade, que não dispunha de cadeias para punir infratores, e nem podia se dar ao luxo de contar com homens “efeminados” que, para além de não poderem guerrear, não ajudariam na procriação, que era vital naqueles tempos.
Estar ainda ancorado nas leis do Levítico, mesmo no século XXI, é no mínimo uma enorme ignorância, até mesmo porque quem se vale dessa passagem para condenar a homossexualidade está sendo algo hipócrita, na medida em que provavelmente não segue as demais leis do mesmo livro da Bíblia, como por exemplo: “não cortar o cabelo muito curto, nem danificar as extremidades da barba” (Le 19:27); “sacrificar dois pombos a Deus 8 dias após cada menstruação” (Le 15:13-14); “jamais comer carne de porco” (Le 11:7) etc.

Pederastia
A origem desta palavra remonta a antiga Grécia, berço da democracia e de inúmeras ideias que até o nosso século ainda iluminam o Ocidente. Ela significa, literalmente, “amor por garotos”.
Na Antiguidade, a pederastia era uma relação entre um homem mais velho e um adolescente. Em Atenas este indivíduo mais velho era chamado de erastes, e sua função era a de educar, proteger, amar e agir como um exemplo para seu amado – chamado de eromenos, cuja recompensa para seu amante estaria em sua beleza, juventude e potencial.
Não está claro se tal relação passava muito além de uma iniciação sexual que durava não mais do que alguns anos, mas fato é que a sociedade grega não distinguia entre desejo e comportamento sexual com base no gênero de seus participantes, mas sim pela extensão com que tais desejos ou comportamentos se conformavam às normas sociais, que eram baseadas por sua vez no gênero, idade e status social.
Naquela época, o sexo entre homens era aceito, contanto que não deixassem de buscar constituir família nem de se alistarem para a defesa de suas cidades.

Bonobos
Os estudiosos perceberam apenas em 1928 que os bonobos formavam uma família diferente dentro da espécie dos chimpanzés, com um comportamento muito peculiar, em que o sexo está em primeiro lugar, funcionando como substituto da agressividade. O bonobo é um dos raros animais para quem não existe relação direta entre sexo e reprodução. Ou seja, como os humanos, eles fazem mais amor do que filhos. Ao contrário da maioria dos primatas, a sociedade dos bonobos é dominada pelas fêmeas e não pelos machos.
Este “matriarcado” só se torna efetivamente possível porque, ao contrário da maioria das fêmeas de outras espécies, que só são receptivas ao sexo no período fértil, as fêmeas bonobos são atrativas e ativas sexualmente durante quase todo o tempo. Além de intensa atividade sexual com seus parceiros, em que tomam a iniciativa, elas simulam relações com outras fêmeas – é justamente através do sexo que estabelecem as alianças entre si. Os machos também participam dessa espécie de homossexualidade light.
Este é apenas o mais evidente de muitos casos de relações homossexuais na natureza. Assim, se por acaso algum dito pastor, seguidor de algum estranho deus raivoso, lhe disser que ser gay é “antinatural”, você pode lhe responder assim: “Senhor Pastor, o senhor por acaso já ouvir falar dos bonobos?”.

A visão budista
Um dos alunos de Chagdud Tulku Rinpoche, o Precioso Senhor da Dança, um reconhecido mestre budista tibetano, conta que uma vez presenciou tal conversa do mestre com uma senhora que havia acompanhado uma de suas palestras:
Ela: “Mestre, o que é um homossexual?”; Ele: “Um homossexual é uma pessoa que faz sexo com o mesmo sexo.”; Ela: “Acho que o senhor não entendeu… Como o budismo vê o homossexualismo?”; Ele: “Nós não vemos o homossexualismo. No budismo, não temos o costume de ver as pessoas fazendo sexo.”; Ela: “Mestre, o que eu quero saber é a opinião do budismo sobre pessoas que fazem sexo com o mesmo sexo.”; Ele: “Alguém pode dar opinião sobre quem não conhece? Você está falando em “pessoas”. Que pessoas?”; Ela: “Qualquer uma! Qualquer uma!”; Ele: “Todas as pessoas são milagres.”; Ela: “Mas afinal o homossexualismo é certo ou errado?”; Ele: “Atos homossexuais consensuais são atos de amor.”
Tudo isso com a mesma expressão de quem vê um passarinho azul. Seguem-se aplausos e gargalhadas. Rinpoche sorri...
Há ainda este vídeo onde outro mestre, Dzongsar Khyentse Rinpoche, do Butão, fala mais prolongadamente sobre o tema. Em ambos os casos, vemos que os budistas estão mais preocupados com seu autoconhecimento e iluminação do que com a sexualidade alheia [1].

A Igreja, o Pecado e a Verdade
Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”, afirmou o Papa Francisco em 2013, durante a entrevista concedida aos jornalistas que o acompanhavam no voo de volta à Itália depois da visita de uma semana ao Brasil, surpreendendo boa parte dos vaticanistas presentes.
É óbvio, no entanto, que não há nenhuma chance no horizonte próximo de que a Igreja Católica apoie o casamento homossexual. E nem há qualquer problema nisso... A luta pelos direitos dos gays é uma luta travada na esfera secular e laica, e não na esfera religiosa. O casamento gay nada tem a ver, nem poderia ter, com o casamento conforme os rituais da doutrina cristã.
Da mesma forma, além de certos ativistas da causa gay mais agressivos e ignorantes, nenhum gay ou simpatizante está querendo atacar ou denegrir a Igreja, e muito menos o Cristo, ao lutar por seus direitos, pela igualdade, a tolerância, o amor e, sobretudo, o fim da ignorância.
Afinal, foi ele mesmo, o doce rabi da Galileia, quem nos enxortou a amar a todos, a todos, sem exceção. E, se você ainda crê realmente que a homossexualidade é um tenebroso pecado, então eu lhe convido a conhecer a Verdade e se livrar das trevas da ignorância. Espero que o conteúdo deste artigo possa lhe ajudar em parte – afinal, foi também o rabi quem nos disse que a Verdade nos libertará...

***

[1] Vale lembrar, no entanto, que o casamento homossexual ainda não é permitido oficialmente nem no Tibete (China) nem no Butão.

Crédito das imagens: [topo] Monica M. Davey/EPA (Casa Branca com iluminação em homenagem a decisão histórica da Suprema Corte americana); [ao longo] Quartz (mapa com os países onde o casamento homossexual já se tornou legal); FCKH8.com (algumas das grandes companhias que apoiaram a decisão da Suprema Corte; para boicotá-las será necessário abandonar a era da internet e voltar a vida dos anos 1970/80).

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26.6.15

Hipátia e Sinésio, parte 2

« continuando da parte 1

A Herculiano,

[...] Nós vimos com nossos próprios olhos e ouvimos com nossos próprios ouvidos a Senhora [Hipátia] que presidia, com legitimidade, sobre os mistérios da filosofia. E se acaso aqueles que compartilham tal laço de união são chamados a se relacionar, daí uma lei divina nos incita, a nós que estamos unidos pela mente, a nossa melhor parte, a honrar as qualidades uns dos outros.

[...] Viver de acordo com a razão é o alvo de todos os homens. Busquemos, portanto, tal alvo em vida; supliquemos que Deus transforme nossos pensamentos em coisas divinas, e nos dediquemos, tanto quanto for possível, a colher a sabedoria de todos os lados.


Esta outra carta de Sinésio, da qual trago somente alguns trechos [1], foi endereçada a Herculiano em 395 d.C. Nesta época ambos eram alunos de Hipátia em Alexandria, porém Herculiano (de quem sabemos muito pouco além do nome e do fato de provavelmente se tratar de um membro de alguma família rica da região) foi obrigado a retornar a sua terra natal. Logo Sinésio seguiria o mesmo caminho, e após alguns anos inesquecíveis aprendendo com sua mestra, também retornaria para onde nasceu, Cirene.

Ele ainda teria viajado algumas vezes para visitar Hipátia nos anos seguintes, porém as visitas vinham se tornando cada vez mais raras e complicadas, primeiro porque Sinésio já havia e se casado e tido seu primeiro filho, e segundo porque sua capacidade intelectual o levou, ainda que provavelmente a contragosto, a atuar na esfera política.

Em 399 Sinésio chefiou uma comitiva até Constantinopla, para negociar uma redução de impostos para sua cidade junto ao imperador Arcádio. Foi obrigado a residir por cerca de 3 anos na cidade, mas finalmente retornou com sua missão cumprida. Talvez tenha conseguido visitar prolongadamente Alexandria durante os anos seguintes, mas logo foi obrigado a retornar a Cirene novamente, desta vez para uma tarefa ingrata: comandar a defesa de suas fronteiras contra invasores vindos do deserto.

Novamente foi vitorioso, tendo inclusive elaborado um novo modelo de catapulta para as defesas da cidade. Desta feita, seus concidadãos ficaram tão entusiasmados com seus serviços prestados que decidiram lhe conceder um presente que ele, na verdade, aceitou com muita relutância: o cargo de Bispo em Cirene.

Naquele século ainda não fazia muito tempo que o cristianismo tinha sido conclamado a “religião oficial” do Império Romano. Nesta aurora da igreja cristã, os cargos de liderança eclesiástica muitas vezes tinham mais a ver com os afazeres governamentais e políticos do que propriamente com a condução das práticas religiosas.

Noutra de suas cartas que sobreviveram aos séculos, Sinésio conversa com outro companheiro das aulas de Hipátia, Olímpio, sobre a necessidade de evitar a luta por cargos, honras e carreiras políticas que satisfaçam somente ambições superficiais, e não valores humanos autênticos. Nessa correspondência, Sinésio parece consciente de que não conseguirá mais se afastar das suas obrigações na vida pública, e fala acerca do prazer de ainda poder desfrutar de alguns períodos de tranquilidade nas paisagens rurais em torno de Cirene, inteiramente dedicados à reflexão: “Temos tempo para a filosofia, mas não para fazer o mal”.

Mas ah!, quem dera todos os bispos da igreja fossem homens como Sinésio, fosse assim não somente sua mestra poderia haver escapado de seu triste destino, como todo o mundo ocidental seria outro, melhor, mais justo e mais iluminado pelo sol... A história, infelizmente, não transcorreu dessa forma.

Os eventos que terminaram no brutal assassinato de Hipátia tiveram muito mais a ver com uma disputa política pelo poder em Alexandria do que propriamente com uma disputa religiosa, tanto mais com uma disputa entre o cristianismo e o helenismo. Não, a disputa mais incendiária, desde aquele tempo, já era entre cristãos e judeus...

Os dois atores principais que ansiavam estabelecer um poder hegemônico sobre o governo de Alexandria eram Orestes, o prefeito augustal e governador secular da cidade, e Cirilo, o Patriarca (espécie de arcebispo) alexandrino. Ora, muito embora um representasse diretamente a igreja cristã, e outro exercesse um cargo público, fato é que ambos eram batizados e professavam publicamente o cristianismo. Onde estava, portanto, a disputa entre cristãos, judeus e pagãos?

Ocorre que no início daquele século, Alexandria era uma das maiores cidades do mundo, e uma potência comercial onde residiam muitas comunidades de relativa riqueza. Dentre elas, a mais rica era certamente o grupo pagão, cuja ancestralidade helênica havia garantido nobres heranças. Logo após tínhamos a comunidade judaica e enfim a comunidade cristã, que exatamente por ser a mais pobre (em média), era também a mais numerosa.

Orestes, como governador astuto, tentava sustentar suas chances de ascensão à hegemonia praticando relações amistosas com todos os três grupos. Cirilo, por outro lado, sabia que a sua única chance de agaranhar o poder total sobre a cidade seria com a vitória do cristianismo sobre as demais crenças, assim eliminando de vez quaisquer chances que Orestes poderia ter de vencer aquele embate político. Vejam bem, “embate político”, pois naquele contexto a religião era usada como mera desculpa para manobrar o povo em direção a este ou aquele projeto de poder (como vemos, até hoje não mudou tanta coisa, não é mesmo?).

Pelos seus desentendimentos constantes com a comunidade judaica alexandrina, é presumível que Cirilo tivesse um ódio pessoal para com os judeus em geral. Após várias trocas de ameaças que evoluíram com os anos, os judeus organizaram um ataque que terminou por matar muitos monges armados (chamados parabolani, que eram uma espécie de “guarda armada do Patriarca”), assim como diversos cristãos desarmados, num incêndio criminoso numa igreja.

Cirilo respondeu duramente ao ataque, destruindo sinagogas, saqueando as casas dos judeus mais abastados, e enfim expulsando toda a comunidade judaica da cidade. Este foi um resultado catastrófico para as pretensões de Orestes, pois ao mesmo tempo perdera o apoio tanto de toda a comunidade judaica (que fora banida) como de muitos cristãos, que não perdoaram o ataque dos judeus e passaram a apoiar Cirilo.

Ao governador restava somente o apoio dos helênicos; e dentre eles, todos sabiam, a maior autoridade moral se centrava em Hipátia, que além de tudo era amiga pessoal de Orestes e muitas vezes lhe aconselhava diretamente... Ora, a luz de Hipátia era ofuscante demais para que Cirilo arriscasse um debate direto, era preciso se livrar da filósofa com uma artimanha mais suja e sorrateira, uma arma usada somente pelos homens mais mesquinhos e ignorantes, mas mesmo assim extremamente eficaz: a boataria.

Numa comunidade composta majoritariamente de iletrados e propensos as mais diversas crenças mágicas, não foi muito difícil “convencer” as pessoas de que aquela mulher pagã, de família nobre e antiga, que se atrevia não somente a ensinar aos homens assuntos “não religiosos”, como também a aconselhar diretamente o governador, decerto seria uma diabólica praticante de magia negra, uma bruxa que seduzia a todos que escutavam suas palavras!

Assim chegamos aos tenebrosos eventos do dia 8 de março de 415 d.C., que prefiro não descrever, então os deixo com as palavras de Sócrates Escolástico [2]:

Foi então que a inveja se irrompeu contra esta mulher. Sucedia que ela passava muito tempo com Orestes, o que deu procedência as calúnias que a condenavam entre o povo ligado à Igreja, como se ela fosse a culpada de Orestes haver se distanciado do Patriarca. Com efeito, alguns homens que lhe faziam iradamente a mesma acusação a seguiram quando voltava para casa. Então, a arrancaram de sua carruagem e a arrastaram para o interior da igreja chamada Cesarion. Rasgaram suas roupas e depois a mataram usando cacos de cerâmica [ostraka]. Quando terminaram seu esquartejamento, tendo dilacerado cada um de seus membros, levaram o corpo para um lugar chamado Cinaron e lá o queimaram.

***

Assim deixou este mundo a maior das filósofas, cuja vida foi ainda mais grandiosa por haver sido a vida de uma mulher em meio a um mundo de homens, um brutal mundo de homens...

Se nos serve de algum consolo, tal notícia nunca chegou aos ouvidos de Sinésio, que havia morrido pelo menos um ano antes, em meio à amargura de não receber mais nenhuma correspondência de sua mestra.

Não nos cabe dizer o motivo exato pelo qual Hipátia deixou de responder ao seu querido e fiel aluno. Na sua condição de bispo, o envolvimento de Sinésio na disputa em Alexandria provavelmente não teria a auxiliado em muita coisa, embora certamente colocasse o seu cargo e a sua própria vida em risco. A filósofa, em sua sabedoria, provavelmente estaria a par do fato, e preferiu deixar que Sinésio pensasse que ela o havia esquecido.

Mas se há uma coisa essencial nesta triste e grandiosa história, é que ela não pode e não deve, jamais, ser esquecida...

***

[1] Fonte original (em inglês): Livius.org. A tradução é de Rafael Arrais.

[2] Trecho de Historia ecclesiastica. Retirado do livro de Maria Dzielska.

Bibliografia
Hipátia de Alexandria, Maria Dzielska (Relógio D’Água); Wikipedia; Livius.org

Vídeo
Este artigo serviu de base para o roteiro do vídeo Hipátia de Alexandria, a grande mestra no canal Conhecimentos da Humanidade do YouTube.

Crédito da imagem: Ágora/Alexandria/Divulgação (apesar de se valer de diversas “licenças poéticas e românticas”, este filme estrelado por Rachel Weisz no papel de Hipátia é, no geral, bem intencionado, e certamente merece ser visto)

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24.6.15

Hipátia e Sinésio, parte 1

A Filósofa,

Eu lhe saúdo, e lhe peço que saúde seus fortunados amigos por mim, majestosa Mestra. Há tempos venho lhe reclamando por não ser digno de uma resposta, mas hoje sei que não sou vítima do seu desprezo por nenhum erro de minha parte, mas porque sou desafortunado em muitas coisas, em tantas quanto um homem pode ser.

Se apenas eu pudesse receber novamente suas cartas e saber como todos estão passando – tenho certeza que estão felizes e desfrutando de boa fortuna – eu ficaria aliviado, neste caso, da metade dos meus próprios problemas, ao me alegrar pela sua felicidade. Mas hoje o seu silêncio é mais uma adição as minhas tristezas.

Eu perdi meus filhos, meus amigos, e a boa vontade de todos. A maior de todas as perdas, no entanto, é a ausência do seu espírito divino. Eu tive esperança de que isto sempre permanecesse em mim: a capacidade de vencer tanto os caprichos da fortuna quanto as voltas sombrias do destino.


A carta acima [1] foi escrita por Sinésio de Cirene no ano 413 d.C. Provavelmente seria tratada como um relato de pouca importância histórica, fruto do fim de vida amargo de um filósofo do século V, não fosse pela sua célebre destinatária, a qual o escritor lamenta profundamente a ausência: a “filósofa” em questão era exaltada como um “espírito divino” não somente por Sinésio, como por praticamente todos os seus discípulos. Ela era Hipátia de Alexandria, a mulher mais sábia de seu século, cuja luz e a lenda ainda irradiam até a era moderna.

Eis como Sócrates Escolástico, um historiador de sua época, a descreveu em sua obra Historia ecclesiastica [2]:

Havia uma mulher em Alexandria chamada Hipátia, filha do filósofo Théon, que galgou tantas realizações na literatura e na ciência, que ultrapassou em muito os filósofos de seu tempo. Tendo sido versada nos ensinamentos de Platão e Plotino, ela explicava os princípios da filosofia para os seus ouvintes, muitos dos quais viajavam enormes distância para serem instruídos por ela. Por conta de seu autocontrole e serenidade, frutos do cultivo de sua mente, ela aparecia muitas vezes em público na presença dos magistrados da cidade, e não se sentia envergonhada em participar das assembleias dos homens. Pois todos os homens que tinham notícia de sua extraordinária dignidade e virtude eram seus admiradores.

Apesar de haver sido uma das mentes mais brilhantes de seu tempo, Hipátia é mais conhecida pela maneira brutal com que foi assassinada; assim como pela forma com que as lendas em torno do ocorrido alimentaram a curiosidade tanto de pagãos quanto de cristãos, tanto de adeptos da ciência e da racionalidade quanto de homens e mulheres de fé. Antes de sabermos como ela morreu, no entanto, talvez seja mais proveitoso saber como viveu...

Residiu a vida toda em Alexandria, tendo sido descendente de uma família de relativa nobreza e destaque na sociedade da época. Seu pai, Théon, era um cientista muito conhecido, membro do Museu (ou Templo das Musas, onde também residia a célebre Biblioteca da Alexandria [3]), escritor e filósofo com especial interesse no hermetismo. Apesar do que dizem as lendas, era o pai de Hipátia o amante do paganismo (ao menos publicamente), e não ela, que ficou conhecida em seu tempo bem mais pela sua vasta erudição em ciências matemáticas e astronômicas, assim como em filosofia, do que por algum conhecimento particular dos rituais pagãos.

A sua vida privada, no entanto, era bem mais envolta em mistérios... Apesar de não nos restar nenhuma obra escrita de Hipátia que não seja relacionada à ciência [4], felizmente algumas cartas de Sinésio sobreviveram aos séculos, e nos confirmam em parte o que muitos estudiosos da sua vida intuíram.

Hipátia formou um círculo intelectual composto por discípulos que eram como que “alunos particulares”, alguns deles por muitos anos, outros ainda (como o próprio Sinésio) que a trataram como mestra até o fim da vida. Tais alunos vinham da própria Alexandria, de outras regiões do Egito, da Síria, de Cirene e Constantinopla. Pertenciam a famílias ricas e influentes; com o tempo, vieram a ocupar posições de comando na hierarquia do Estado ou na ordem eclesiástica do cristianismo nascente.

Em torno de sua mestra, esses discípulos formavam uma comunidade cujos fundamentos eram o sistema de pensamento platônico e os laços profundos de amizade. Aos conhecimentos transmitidos pelo “espírito divino” de Hipátia, davam o nome de “mistérios”. Tais conhecimentos, estes sim, eram mantidos inteiramente secretos, e jamais transmitidos a qualquer um que não fosse iniciado nos assuntos divinos e cósmicos.

Ainda que pouco saibamos atualmente sobre o que Hipátia e o seu círculo de discípulos estudavam em segredo, é certo que, entre os seus textos sagrados, contavam-se os Oráculos Caldaicos. Esses textos do hermetismo eram caros tanto ao pai de Hipátia, que os lecionou a própria filha em casa, quanto a Sinésio, que em suas obras demonstra estar plenamente familiarizado com a sua temática.

Seja como for, fato é que se Hipátia foi uma pagã no âmbito privado, jamais demonstrou, na esfera pública, nenhum interesse particular por frequentar templos dos deuses gregos ou participar de seus rituais. Ao que tudo indica, Hipátia foi muito mais uma mística do que uma adepta do ritualismo religioso.

Suas lições públicas incluíam, além da filosofia platônica, preciosas instruções da matemática e astronomia. As suas conferências tinham lugar tanto em sua própria casa, quando aberta ao público, como nas salas de leitura alexandrinas. Em ambos os casos, não era incomum ser acompanhada por multidões de admiradores e curiosos.

Ocasionalmente também era chamada a intervir nos assuntos da polis, atuando como conselheira dos assuntos municipais. A filha de Théon detinha uma grande autoridade moral, e todos os historiadores da época concordam em descrevê-la como um modelo de coragem ética, retidão, sinceridade, dedicação cívica e elevação intelectual.

Apesar de provavelmente ter sido belíssima em sua juventude, também sempre foi uma reconhecida adepta da sophrosyne, uma espécie de “estado de espírito” que, de acordo com o conceito grego antigo, incluía o bom senso e a moderação, a sanidade moral, o autocontrole e o autoconhecimento. Isso também se refletiu em sua vida sexual: Hipátia se conservou virgem por toda a vida, e não há sequer um relato consistente de quaisquer casos amorosos que tenha tido, seja com homens ou com mulheres. Aos que a questionavam sobre “quando afinal iria se casar”, ela respondia que “já era casada com a Verdade” [5].

E há quem tenha dito que o brutal assassinato de Hipátia tenha marcado o fim do helenismo e o início da hegemonia cristã. Tais lendas quase sempre mostram uma Hipátia jovem e bela sendo morta por uma multidão de fanáticos... Como ocorre muitas vezes em lendas históricas, o relato em si passa consideravelmente distante da verdade: Hipátia não poderia haver sido uma mestra tão jovem, a lecionar para homens bem mais velhos, e discursar para multidões.

Já sobre a questão entre o helenismo e o cristianismo, como já dissemos, Hipátia tampouco tinha qualquer predileção por um ou por outro – a ela interessava somente a Verdade. Tanto que um dos seus discípulos mais fiéis, e também um dos homens que mais a amou, um dia tornou-se bispo, e o seu nome era Sinésio de Cirene, o Bispo Filósofo.

» Na próxima parte, a triste e trágica morte da mulher mais sábia de Alexandria...

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[1] Fonte original (em inglês): Livius.org. A tradução é de Rafael Arrais.

[2] Fonte original (em inglês): Wikipedia. A tradução é de Rafael Arrais.

[3] Na Grécia antiga o museu era um templo das musas, divindades que presidiam a poesia, a música, a oratória, a história, a tragédia, a comédia, a dança e a astronomia. Esses templos, bem como os de outras divindades, recebiam muitas oferendas em objetos preciosos ou exóticos, que podiam ser exibidos ao público mediante o pagamento de uma pequena taxa. Dos museus da Antiguidade, o mais famoso foi o criado em Alexandria por Ptolomeu Sóter em torno do século III a.C., que continha estátuas de filósofos, objetos astronômicos e um jardim botânico, embora a instituição fosse primariamente uma academia de filosofia, e mais tarde incorporasse uma enorme coleção de obras escritas, dando origem a célebre Biblioteca de Alexandria.

[4] E mesmo essas são, em teoria, somente edições de célebres matemáticos e astrônomos da época. Devido à dificuldade em se atribuir autoria feminina a quaisquer obras da época, fica impossível confirmar o quanto dessas “edições” não se tratavam, na realidade, de “adições”.

[5] Segundo a enciclopédia bizantina Suda, ela foi esposa de “Isidoro, o Filósofo” (aparentemente Isidoro de Alexandria); porém, Isidoro só nasceu muito depois da morte de Hipátia, e não se conhece nenhum outro filósofo com este nome que seja seu contemporâneo. A Suda também afirmou que “ela permaneceu virgem” e que rejeitou o candidato mostrando lençóis manchados de sangue afirmando que eles demonstravam que não havia “nada de belo” no desejo carnal – um exemplo de fonte cristã fazendo uso de Hipátia como símbolo de virtude.

Bibliografia
Hipátia de Alexandria, Maria Dzielska (Relógio D’Água); Wikipedia; Livius.org

Vídeo
Este artigo serviu de base para o roteiro do vídeo Hipátia de Alexandria, a grande mestra no canal Conhecimentos da Humanidade do YouTube.

Crédito da imagem: Wikipedia (pintura de Charles William Mitchell [1885], provavelmente baseada nas lendas que chegavam a ver Hipátia como espécie de “heroína erótica da razão”).

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