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15.2.18

O que fica

Nenhum animal no Jardim do Éden poderia desejar o conhecimento, seja do bem ou do mal. “Bem” e “mal” são conceitos que eles ignoram completamente, somente Adão e Eva poderiam desejar buscar algo mais do que já tinham, somente os primeiros humanos poderiam abandonar a paz do puro instinto animal, que sempre simplesmente segue sua própria natureza, para se aventurar no reino da consciência de si mesmo, e do outro. E não deveria nos admirar a sua expulsão do Paraíso, o seu pecado capital, pois que tal caminho nunca foi fácil, e continua não sendo. Há muitos espinhos nas rosas vermelhas entre o Éden e o dia de hoje, e nosso sangue foi deixado lá: todo o rastro da dor humana é ainda bem visível. O que estaríamos buscando, afinal?

Eu confesso que falharei na explicação. De fato, tenho tentado usar das palavras durante toda a minha vida para explicar o que não pode ser explicado, pois que reside além delas. Como cascas de um fruto inefável, elas são a sombra invisível da chama de uma vela, o perfume que se perdeu com o vento que passou, a ave mítica que é vista de relance, e que muitos caçadores místicos afirmam ter encontrado, mas nenhum trouxe sequer uma pena! Eu confesso que tenho falhado todo o tempo, em cada texto, em cada poema, em cada parágrafo, em cada palavra: eu falo sobre o que não pode ser cientificamente comprovado, e jamais poderá. Eu falo sobre o único deus que não admite ateus, muito embora possa ser também profundamente odiado. Eu falo sobre aquilo que dói e não se sente, que arde e não se vê, que sempre andou solitário entre a gente. Enfim, eu confesso que falharei na explicação, mas falharei com dignidade.

Se é verdade que nosso primeiro contato com tal conhecimento foi através do instinto, nada nos leva a crer que seja somente através dele que podemos nos relacionar. Afinal, ainda que as palavras sejam de fato cascas de um sentimento indescritível, elas ainda podem tentar abordar tal sentimento de forma indireta, como quem apanha ar dentro de uma bexiga, e mostra algo invisível. As bexigas são as metáforas, mas o ar em si se refere a algo além delas, além de todas as metáforas do mundo, além de toda a linguagem humana.

Um explorador busca encontrar uma pérola preciosa no fundo do mar. Ele não pode retirá-la do local, então a única forma de mostrá-la a seus irmãos em terra firme é esvaziar o mar inteiro. Suponhamos que ele consiga tal façanha: ainda assim, tudo o que poderá fazer é apontar para uma joia na superfície, sem o brilho perolado que ela tem nas profundezas. Ninguém se comoverá com isso. São somente os mergulhadores eles mesmos que podem ir ao fundo e apreciar a beleza desta pérola a refletir os raios de sol vindos do alto, se refratando pelo mar inteiro, como se as estrelas da noite pudessem mandar sinais umas para as outras.

Quem se encontra em terra firme, entretanto, tem medo de morrer afogado. De fato, há acadêmicos por lá que dizem que o mar é perigoso e que, em todo caso, tal pérola jamais existiu. É apenas a fantasia dos loucos poetas que cantam sobre ela nas noites de lua cheia. O ego está acostumado com a terra firme, e quando se arrisca no mar é tão somente na beirada, longe das ondas mais afastadas. Mas eu estou falando de um naufrágio terrível, de um afogamento, de uma tragédia em alto mar. Eu falo do mar profundo, não do raso. Eu falo de onde o ego sabe que não poderá mais subsistir, e por isso sou perigoso.

Há um mundo onde os tolos, os loucos, os andarilhos, os poetas e os místicos são considerados seres incômodos e desimportantes, sem utilidade alguma para a sociedade. Afinal, o que exatamente eles constroem? Apenas castelos de areia que se perdem com a menor ventania. A sua obra não é sólida como a Ciência nem perene como a Igreja.

No entanto, há um outro mundo onde são eles justamente os reis e os sábios, e este mundo jaz além do alcance do ego, além do alcance dos seres da terra firme. Somente quem foi e mergulhou no abismo o encontrou. E, ainda que possa ter retornado, como Prometeu, o seu fogo divino será para os seres de casa como um fogo qualquer, como um poema qualquer, como uma arte qualquer, inútil.

É preciso uma guerra para que um mundo se comunique com o outro. Por isso já vieram andarilhos proféticos nos falar que chegaram em nossa terra para trazer a espada, e não a paz. Não há nada mais conflituoso do que ter de lidar com isto que fica, isto que é eterno, no mundo das coisas fugidias e mutáveis. É preciso mesmo uma espada para cortar todas as ervas daninhas da árvore do ser. É preciso muito sangue e muita dor neste processo. Mas é somente através da ferida que a luz lhe adentra.

É somente por muito bater em seu portão por dentro, que ele se abre. É somente por muito gritar de solidão em seu próprio casulo, que ele se rompe, e lhe transforma num ser alado. É somente queimando completamente no fogo deste conhecimento que você poderá se renovar inteiramente.

E assim, recém-nascido na Criação, você finalmente perceberá que o Éden sempre esteve por toda a parte, que a luz sempre foi eterna, e que todas as suas experiências em seu baile com ela, todas as reflexões e encadeamentos, todos os toques na pele alheia, foram como acariciar o próprio universo. É só isto o que conta, é só isto a essência da realidade, é só isto o que fica.

Mas se você quer um nome, falhará em compreender, assim como eu aqui falho em me fazer compreendido.

***

Crédito da imagem: Bruno Walpoth

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22.1.18

Reflexões políticas, parte final

« continuando da parte 4 | ler do início

Ideias que humilham, ideias que iluminam

Em março de 2011 um grupo de adolescentes pichou mensagens contra o governo no muro de uma escola na cidade de Deraa, no sul da Síria. O ato foi reprimido de forma brutal: alguns dos adolescentes foram presos e torturados pelas forças policiais do presidente Bashar al-Assad. Tal ação foi como uma faísca a acender uma explosão de revoltas populares em boa parte do país. Os sírios em geral já se queixavam a algum tempo do alto desemprego e da falta de liberdade política, inspirados pela chamada Primavera Árabe; assim, com a reação desproporcional do governo às manifestações que se seguiram (incluindo a morte de manifestantes), uma epidemia revolucionária cobriu as principais cidades sírias, e eventualmente surgiu uma guerra civil contra o governo central. Essa guerra dura até hoje (início de 2018), e deixou boa parte do território em ruínas.

Ora, é claro que devemos considerar a importância estratégica da Síria em meio ao complexo jogo político milenar do Oriente Médio. De um lado tínhamos o interesse da Rússia em manter seu principal aliado no domínio daquela região; do outro, tínhamos os EUA e boa parte da Europa interessados justamente em minar a influência russa. Os grupos rebeldes, como de costume, foram financiados pelos EUA, e desse caldeirão descontrolado surgiu o chamado Estado Islâmico. A moral da história é que não devemos financiar revoluções em culturas que desconhecemos... No entanto, há ainda outro ensinamento antes desse, este sim válido para todo e qualquer país democrático, independente da região do planeta: o que garante a democracia é justamente o diálogo político, a convivência pacífica, os acordos tácitos possíveis entre lados opostos, os partidos e o Congresso. Sem eles, sem alguma espécie de Estado, com suas instituições mais ou menos independentes, as coisas descambam para as “soluções antigas”: violência, guerra civil, massacres étnicos etc.

Então, se por um lado a Síria era um caso muito específico de uma região particularmente problemática do planeta, por outro o fato é que quando a política deixou de existir por lá, o que se seguiu foi algo sombrio e nefasto, algo muito pior do que mera discordância de ideias e debates de bar. E, se formos analisar como tudo isso começa, chegamos à ideia de que um lado precisa não somente vencer um debate de ideias, mas humilhar o adversário; e, depois, se possível, acabar com a sua carreira política, acabar com o seu partido, acabar com a sua vertente ideológica. Dessa forma, fica muito claro que há ideias que vêm para humilhar e destruir, e ideias que vêm para iluminar e engrandecer o debate. Das primeiras, surgiram os regimes totalitários mais sanguinários de nossa história; das últimas, surgiram os próprios alicerces de toda a civilização digna do nome.

O meu objetivo principal desde que comecei a falar de política aqui no Textos para Reflexão não foi o de defender um ou outro lado em específico [1], nem mesmo o de fazer uma análise política ou econômica aprofundada. Como poeta, eu estou mais interessado nas relações humanas do que nos ideais políticos e/ou partidários. Como amante da sabedoria, eu estou mais interessado no debate construtivo do que nos embates que buscam tão somente “destruir e humilhar o argumento contrário”. Como cidadão, eu estou mais interessado em compreender todas as nuances da polis, todos os seus pontos de vista e receitas para o melhor caminho, do que em ingressar em seitas ideológicas que creem piamente que acharam a solução de todos os nossos problemas.

Mas, enfim, antes de encerrar esta série precisamos endereçar mais uma vez o problema dos eixos ideológicos. Como vimos no início, o eixo “esquerda-direita” se mostrou absolutamente incapaz de abarcar todas as formas de ideologia política. Depois, vimos como o Diagrama de Nolan, com seu eixo adicional de “totalitarismo-liberdade”, foi capaz de abranger uma gama bem maior de ideais políticos. Finalmente, começamos a ver o Diagrama rachar ao analisarmos totalitarismos de esquerda e de direita, e depois se esfacelar completamente quando consideramos a questão da globalização (e do “globalismo”). Em nossa viagem até aqui, portanto, ficou um tanto claro como a mera existência de um eixo ideológico, por si só, é incapaz de encerrar todas as questões pertinentes a ele, e definir completamente a posição de cada ideologia.

Por exemplo, ainda no caso da globalização: ora, poderíamos construir um novo eixo à partir dela, e se numa ponta teríamos os grandes entusiastas da própria expansão das trocas econômicas e culturais entre todos os cantos do planeta, como uma Rota da Seda a percorrer todos os países, no outro teríamos o pessoal mais nacionalista, que acredita que a abertura cultural e comercial pode prejudicar a difusão de sua própria cultura local, alterando de forma nem sempre positiva os seus valores mais tradicionais, que garantiam a estabilidade política e ideológica da nação.

Bem, os nacionalistas costumam ficar no espectro do “politicamente incorreto” nessa questão, mas será que eles mereceriam ser demonizados? Será que nada do que falam merece ser levado em consideração? Será que uma cultura de séculos baseada em valores religiosos e conservadores estaria preparada para ser “invadida” por filmes com cenas de sexo, nudez e uso de drogas? E, por outro lado, será que uma cultura de séculos baseada em valores democráticos e progressistas estaria preparada para receber grandes levas de imigrantes com um pensamento completamente diverso? Tudo isso são questões que muitos nacionalistas conservadores levantam, e que não merecem ser demonizadas, mas debatidas. No mínimo, ainda que eles sejam “voz vencida”, pelo menos ficarão mais satisfeitos por terem sido ao menos ouvidos. Pode ser muito, muito perigoso deixar conservadores à margem das decisões políticas, dentre outras coisas porque ainda que eles não costumem se organizar tanto para irem as ruas protestar, quando finalmente o fazem, as ruas costumam se abarrotar de gente, uma vez que é perfeitamente normal que todas as sociedades tenham uma proporção maior de conservadores do que de progressistas (fica a dica).

***

Em meados do ano passado, quando inclusive já havia começado a escrever esta série, esbarrei na internet com uma espécie de teste de coordenadas políticas e ideológicas chamado 8values. Nele, após respondermos a 70 afirmações razoavelmente bem elaboradas com assertivas que iam de “concordo fortemente” a “discordo fortemente”, chegamos a um resultado final que mede nossas coordenadas políticas não somente em um ou dois eixos, mas em quatro eixos (com oito valores ideológicos, daí o nome do teste: “oito valores”, em português). E isso foi o que mais me chamou a atenção nele, pois parecia fazer todo o sentido usarmos alguns eixos a mais para definir melhor onde se situam exatamente nossas ideias políticas e econômicas:

O eixo econômico
Neste eixo, temos de um lado o polo ideológico que defende a igualdade, as políticas públicas e a maior distribuição de renda. E, do outro lado, o polo que defende o mercado, o incentivo ao livre-mercado e a valorização do crescimento econômico.

O eixo diplomático
Neste eixo, temos de um lado o polo ideológico que defende o nacionalismo, a defesa da independência governamental em relação às regulações globais e o maior controle do fluxo de imigrantes. E, do outro lado, o polo que defende a globalização, a defesa dos tratados de cooperação global e a maior abertura das fronteiras aos imigrantes.

O eixo civil
Neste eixo, temos de um lado o polo ideológico que defende a liberdade individual, a descriminalização do uso de drogas e uma interferência mínima do Estado nas questões de cunho privado de cada um, como sua sexualidade. E, do outro lado, o polo que defende a autoridade estatal, o combate ao uso de drogas e a possibilidade do Estado intervir em questões de cunho privado, invadindo a privacidade alheia se necessário.

O eixo social
Neste eixo, temos de um lado o polo ideológico que defende a tradição, os valores religiosos e conservadores, e uma crítica aos ditames do chamado Estado Laico. E, do outro lado, o polo que defende o progresso, os valores do racionalismo científico, e uma crítica a qualquer tipo de interferência religiosa no Estado.

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Claro que, ainda assim, tais eixos continuam não sendo valores absolutos, pois as ideologias humanas não são como a temperatura, que pode ser medida em graus. Elas se misturam e se interconectam a todo momento; elas passam por ciclos e movimentos pendulares; elas num tempo podem parecer lógicas e pragmáticas, e noutro, utópicas e apaixonadas.

O que é mais importante compreender de tudo isso é que ninguém é obrigado a “pensar em bloco”, pois de fato não existe “venda casada” quando falamos de ideologias. Por exemplo: não é porque um sujeito defende a descriminalização de todos os tipos de drogas que ele necessariamente precise defender a descriminalização do aborto; não é porque alguém se coloca contra os grandes tratados de comércio internacional que ele necessariamente precise defender o fechamento das fronteiras aos imigrantes de países pobres; não é porque uma pessoa defenda as políticas de distribuição de riquezas aos mais necessitados (como o Bolsa Família) que ela necessariamente precise se posicionar contra toda e qualquer privatização de empresas estatais... Os exemplos aqui seriam infindáveis.

O que o 8values nos ajuda, portanto, é a percebermos o quanto podemos ter em comum com nossos adversários de debates políticos, o quanto muitas vezes podemos discordar tão somente num dos eixos, enquanto concordamos em geral nos três demais. Muitas vezes, afinal de contas, debatemos mais por defendermos apaixonadamente certas “ideologias pré-moldadas” do que por realmente discordarmos absolutamente uns dos outros. O maior e mais antigo remédio para isso é aprender a pensar por si mesmo, e deixar de ser mero papagaio de seitas ideológicas mundo afora.

***

O teste 8values foi criado em Abril de 2017 por um usuário anônimo do GitHub, cujo codinome é TristanBomb. Eu gostei tanto do teste que recentemente o traduzi para o português e o hospedei em meu site. Caso queiram realizá-lo, cliquem aqui.

Algum tempo depois de haver lançado o teste em português tive a curiosidade de tentar entrar em contato com o autor original (hoje ele é um projeto colaborativo, mas a essência do teste ainda é inteiramente dele), e acabei descobrindo que se trata de um garoto do Arizona, nos EUA, provavelmente viciado em Civilization, que criou todo o projeto como um trabalho escolar quando tinha, pasmem, dezesseis anos...

Então, gostaria de levar isso em consideração e voltar à frase de Eduardo Galeano, para encerrar a série:

Este mundo de merda está grávido de um outro, e são os jovens que nos levam adiante.


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[1] Dito isso, não nego nem nunca neguei que sou de centro-esquerda e defendo o modelo político-econômico escandinavo, apesar de ter lucidez suficiente para saber que o Brasil não é uma Suécia tropical, e talvez jamais seja. No entanto, espero ter deixado claro em meus textos que somente pelo fato de eu “defender um lado” não significa que eu deseje ver “o outro lado exterminado” – muito pelo contrário, como já disse inúmeras vezes: quando o outro lado é exterminado, temos a certeza de que uma ditadura foi instaurada.

» Veja também o debate Entre a esquerda e a direita

Crédito das imagens: [topo] Dimitar Dilkoff/AFP/Getty Images (soldados infantis da guerra na Síria); [ao longo] 8values/TristanBomb/raph.

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17.1.18

Reflexões políticas, parte 4

« continuando da parte 3 | ler do início

O avanço dos monopólios globais

Donald Trump nunca foi exatamente muito querido para além da sua base eleitoral em seu próprio país, mas não podemos ignorar que aqueles que lhe apoiam costumam defender algumas de suas ideias de forma bastante fervorosa. E não, nem todos são conservadores de direita.

Por exemplo, no Peru, a coalisão de esquerda Frente Ampla organizou várias manifestações de apoio a Trump ainda durante a eleição de 2016. E, mesmo após a sua surpreendente vitória, eles continuaram a se manifestar em seu favor e contra o então presidente, Barack Obama. O objetivo deles era muito claro: Trump havia prometido cancelar o Tratado Transpacífico (TPP) assim que tomasse posse. O que a esquerda do Peru queria era derrubar mais um grande tratado de livre-comércio que favorecia a Globalização e as grandes empresas multinacionais.

O TPP vinha sendo costurado ao longo de pelo menos 5 anos pelo governo Obama com a China e outros países que são banhados pelo Oceano Pacífico. Antes da saída dos EUA, o TPP reunia 40% da economia mundial, e um mercado de pelo menos 800 milhões de consumidores. Até mesmo o atual vice-presidente dos EUA, Mike Pence, o defendeu enquanto era governador do Estado de Indiana, em 2014: “comércio significa empregos, mas também segurança”.

E, de fato, desde o advento da bomba nuclear, o mundo civilizado se inclinou para um esforço de integração econômica, social, cultural e política entre as nações que, de uma década para outra, subitamente tinham toda a razão para não guerrearem mais abertamente pela conquista de territórios, pois com as novas armas a destruição mútua de dois países nucleares envolvidos num conflito seria praticamente garantida. A todo este movimento das três últimas décadas do século passado se convencionou dar o nome “Globalização”. Em 2000, o Fundo Monetário Internacional (FMI) identificou quatro aspectos básicos da Globalização: comércio e transações financeiras, movimentos de capital e de investimento, migração e movimento de pessoas e a disseminação de conhecimento.

Muito bem, e apenas três dias após assumir o cargo de presidente dos EUA, Trump cumpriu o prometido e se retirou do TPP. Não foi somente a esquerda peruana que aplaudiu, muitos eleitores de Bernie Sanders, que perdeu as prévias do Partido Democrata para Hillary Clinton, também se entusiasmaram. Ora, até mesmo o próprio Sanders elogiou a medida de Trump: “Agora é a hora de desenvolvermos novos tratados de comércio que beneficiem as famílias de trabalhadores, e não somente as corporações multinacionais”. Sanders, como muitos devem saber, está muito mais a esquerda dentro do partido Democrata do que a mulher de Clinton. Alguns americanos chegaram a acusá-lo de ser “socialista”. Muito radical!

Bem, nesse momento vocês já devem ter percebido a imensa estranheza da coisa toda: se Trump foi considerado um candidato de extrema-direita durante a eleição de 2016, e Sanders era basicamente o representante da extrema-esquerda (até onde é possível ser de extrema-esquerda no sistema americano, obviamente), como é possível que eles concordassem em gênero, número e grau acerca da necessidade do seu país se retirar o mais breve possível do potencial maior tratado de livre-comércio da história da humanidade? Mesmo recorrendo ao Diagrama de Nolan [1], continuamos confusos: era para a esquerda combater o comércio desregulado e as grandes multinacionais, era para a esquerda, e somente a esquerda, ter tamanho asco da Globalização. Então, onde diabos Trump está situado, seria ele de esquerda?

Para resolver tal enigma eu confesso que tive de recorrer aos meus amigos da direita econômica. Devo dizer que, obviamente, a maior parte não é nenhum fã de Trump, mas foi de nossas conversas que pude entender um pouco melhor como foi que, afinal de contas, parte da direita passou a se contrapor a grandes acordos como o TPP. Eles dizem que o ódio deles é diferente do ódio da esquerda, pois eles odeiam na realidade o Globalismo, e não a Globalização... Pois é, agora teremos de tentar entender o que é esse tal de Globalismo.

Em minhas pesquisas pelas “mídias alternativas”, eu encontrei o depoimento mais sensato acerca do que seria o Globalismo na voz de Rodrigo Constantino, uma espécie de “herói nerd” da direita, isto é, do chamado liberalismo econômico. Me baseando no vídeo do Constantino no YouTube, eu consegui traçar mais ou menos as diferenças entre Globalização e Globalismo:

Características da Globalização
(a) Defesa da implementação de acordos de livre-comércio simples para a redução efetiva das barreiras comerciais e/ou do protecionismo.

(b) Tende a favorecer a maior integração entre os povos e culturas, diminuindo as chances de guerras (sobretudo nucleares).

(c) Empregos locais são afetados (são transferidos para países onde a mão de obra é mais barata, muitas vezes por poder ser explorada livremente em regimes ditatoriais), mas há benefícios à economia do país como um todo, gerando crescimento e novas oportunidades (sobretudo nas áreas tecnológicas).

(d) Tende a gerar menos burocracia e mais livre-comércio (em teoria).

Características do Globalismo
(e) Tende a favorecer os grandes acordos comerciais validados por “superburocratas sem rosto”, não eleitos diretamente pelo povo; como, por exemplo, os burocratas de Bruxelas (Suíça), que determinam os rumos econômicos da União Europeia.

(f) Na verdade a complexidade burocrática tende a aumentar em acordos econômicos “esotéricos”, cheios de cláusulas que em realidade favorecem mais a manutenção do monopólio global das multinacionais do que propriamente um livre-comércio genuíno.

(g) Assim, os empregos locais continuam sendo afetados, mas não está tão claro se o domínio dos mercados globais por multinacionais de fato melhora a economia geral dos países (isto é: o que melhora de fato a economia global é o livre-comércio, algo que não está garantido aqui).

(h) Ao invés de uma real integração de culturas, há uma tendência de imposição cultural por parte de multinacionais de mídia, como a Disney ou Hollywood como um todo (algo não necessariamente tão ruim, os nerds adoram!).

(i) Mais burocracia nos grandes acordos de comércio mundial garante o avanço dos monopólios globais, e não o livre-comércio. Tudo se torna como “um jogo de cartas marcadas”, onde só sobrevivem os “amigos do Rei”.

***

Ou seja, o que a gente que fala em Globalismo quer dizer é que o sonho do livre-comércio mundial, da grande integração de culturas sem a supressão de umas pelas outras, da ideia da garantia da paz através da maior integração econômica num mundo genuinamente livre e democrático, isto é, as grandes promessas da Globalização, que tudo isso está colocado em xeque pelo avanço dos “superburocratas sem rosto” que desejam tão somente implementar uma agenda de comércio global que favoreça somente as grandes multinacionais. Isto é, aqueles conglomerados empresariais que, no frigir dos ovos, são exatamente os que financiam os “superburocratas” e os mantém, como fantoches, onde estão.

Mas, se eu entendi bem, o que o Constantino fez foi justamente listar, um por um, todos os pontos negativos da Globalização. Afinal, não é nem preciso ser hermetista para saber que sim: obviamente a Globalização não ocorreria sem que os grandes grupos de poder tentassem ditar o seu rumo de maneira a se manterem exatamente onde estão – no topo do mundo.

Talvez seja por isso que desde que o processo de Globalização se acentuou o número de bancos nos EUA tenha se reduzido drasticamente, o que foi impulsionado pela crise de 2008. Ora, seja porque eles vêm sendo comprados por bancos maiores, seja porque simplesmente não conseguem mais “competir” com os “amigos do Rei” e entram em falência, o resultado é o mesmo: maior concentração de mercado, maior monopólio, maior poder a uma elite cada vez menor do sistema financeiro. Aonde está o sonho do livre-mercado, afinal? Talvez ele tenha sido uma espécie de mito estranho, que já existiu, e não existe mais.

Também poderíamos levantar algumas questões. Uma delas: se a maior potência econômica democrática do planeta terceiriza boa parte de seus empregos do setor industrial para outra potência ascendente, porém ditatorial e supostamente comunista, ela está defendendo propriamente o livre-mercado ou o chamado “capitalismo de Estado”? Outra: se a democracia supostamente mais bem sucedida do globo é a maior aliada de um Estado teocrático onde surgiram as ideias fundadoras do maior grupo terrorista de nosso tempo, ela está defendendo propriamente a liberdade de crenças ou os seus próprios interesses? Diga-me com quem andas que eu te direi quem és – isso também é válido nas relações comerciais?

Enfim, eu poderia falar muito mais sobre a doença do capitalismo, mas isso já foi tratado em nossa série Entre a esquerda e a direita [2], portanto me perdoem, mas vou voltar ao tema anterior para podermos encerrar...

Voltemos aos manifestantes da esquerda peruana, que gritavam e brandiam seus cartazes contra o TPP. Diga-me, com sinceridade: você acha mesmo que eles estavam lá para defender o ideário dos “superburocratas sem rosto” de Bruxelas, ou estavam tão somente tentando defender a manutenção dos seus próprios empregos? Ora, e o mesmo foi feito por boa parte dos eleitores que deram a vitória a Trump em estados americanos onde historicamente venciam os democratas. Eles estavam pensando em si mesmos, na manutenção e/ou melhora das suas condições de vida, e não em favorecer o avanço de multinacionais sobre os países alheios, ainda que muitos desses conglomerados empresariais sejam fruto do próprio sistema americano. Eles não querem saber o quanto uma multinacional de petróleo lucrou com a invasão do Iraque, eles querem um emprego com salário digno e, se possível, paz. Somente isso.

E, se os que chamam os aspectos nefastos da Globalização de Globalismo são simplesmente incapazes de dividir o mesmo espaço na rua com aqueles que sempre enxergaram o que havia de intrinsecamente errado no processo de Globalização conforme orquestrado por algumas multinacionais e um punhado de “superburocratas sem rosto”, quem vocês acham que sai ganhando nessa história?


» Na sequência, encerramos a série: o Diagrama de Nolan já foi pro saco, agora precisaremos de alguns eixos a mais...

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[1] Se não sabe do que se trata o Diagrama de Nolan, recomendamos muitíssimo que leia esta série desde o seu início.

[2] Em Entre a esquerda e a direita eu convidei dois amigos de espectros opostos das ideologias políticas para debatermos sobre política, economia e os rumos da nossa sociedade. Você pode ler sobre o tema específico da “doença do capitalismo” aqui, com meus comentários aqui.

Crédito das imagens: [topo] AP (peruanos protestam contra o TPP em Lima); [ao longo] Google Image Search (uma ilustração alegórica dos “superburocratas sem rosto”).

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7.10.17

Blade Runner 2049: em busca do milagre (parte 2)

« continuando da parte 1

Este artigo pretende ser uma análise filosófica e espiritualista do filme Blade Runner 2049, aqui não irei me focar especificamente em aspectos técnicos ou artísticos (embora a direção de Denis Villeneuve seja belíssima), mas antes na minha própria análise pessoal da simbologia do filme. Obviamente, o texto a seguir contém spoilers que podem atrapalhar a experiência de se assistir a obra pela primeira vez. Assim sendo, se ainda não a viu, recomendo enormemente que vá assistir antes de prosseguir nesta leitura.

***

Pistis Sophia
Ainda no gnosticismo, num dos evangelhos considerados apócrifos há uma referência a Pistia Sophia como “a Toda Progenitora”, ou seja, a criadora de todas as coisas da alma. Sophia, que também quer dizer “sabedoria”, é também muitas vezes vista como o aspecto feminino de Deus, ou a Alma ela mesma, isto é: a Alma do Mundo.
Segundo algumas vertentes gnósticas, é de Sophia que vieram todas as almas, mas infelizmente acabaram aprisionadas no mundo do Demiurgo, o mundo material, e o equivalente a Jornada do Herói de cada alma individual seria justamente, através da gnose espiritual, conseguir retornar para sua casa, a Grande Alma.
Ora, quando K. vai investigar o orfanato onde teria crescido a criança que procura, acaba tendo uma experiência de rememorar algo que supostamente havia sido implantado em seu cérebro de replicante: uma memória de quando era criança, sendo que ele teoricamente nunca havia sido criança. Ao encontrar o objeto que havia escondido na época de sua memória, um pequeno cavalo esculpido em madeira, no mesmo local, só que no mundo real, K. prontamente passa a considerar que ele mesmo poderia ser a criança, isto é, que ele próprio era o milagre que estava buscando.
Mas ele duvida, a memória poderia ser falsa ainda assim, e tudo poderia ser algum complô estranho. Assim, K. vai até a designer de memórias de Wallace: Dra. Ana Stelline, uma freelance que trabalha fornecendo as memórias infantis mais realistas possíveis para a nova linha de androides. Ao encontrá-la num galpão hermeticamente vedado, K. descobre que a designer havia nascido com uma doença grave (que lhe conferia baixa imunidade), e que havia passado boa parte da vida naquele galpão, isolada atrás de uma barreira de vidro. No entanto, naquele espaço puro, livre do peso e das doenças daquele mundo de chumbo, a designer, isto é, a própria Sophia, podia trabalhar livremente naquilo que sabia fazer melhor: criar belas memórias. Mesmo assim, memórias falsas.
Ocorre que K. pede a ela que analise sua própria memória, que não é exatamente uma memória feliz, e ela percebe que se trata de uma memória real, “pois memórias reais trazem sentimentos reais, e são facilmente identificáveis”. O estranho da cena toda é que, apesar de K. ficar transtornado com a confirmação de que sua memória era real, a própria designer parece ainda mais abalada que ele. Só saberemos o porquê na última cena do filme [1].

A terrível perfeição
Ainda segundo as antigas fontes gnósticas, uma das intepretações associa o Demiurgo a Samael, o Anjo da Morte, o Anjo Caído, o Deus Cego. O fato de Wallace ser inteiramente cego no filme apenas corrobora esta metáfora. Ora, Samael, tendo sido expulso do Céu, leva consigo sua hoste de “anjos perfeitos”, que assim atuam em seu nome. Obviamente que tais anjos são terríveis em sua perfeição, pois seguem as ordens do Demiurgo sem pestanejar, como seres sem alma, psicopatas. No filme, a personagem Luv é justamente um desses anjos, um anjo replicante, que segue o Deus Cego de forma dogmática.
Porém, tanto K. quanto Luv são fruto da nova linhagem de androides, e de certa forma ambos perseguem o mesmo milagre (a criança), ainda que por razões diversas. Outra questão interessante sobre ambos é que K., apesar de passar por fortes reações sentimentais em seu interior, praticamente não as demonstra; já Luv, que age sempre de maneira fria e calculista, por diversas vezes derrama lágrimas no filme, lágrimas que parecem tão artificiais quanto sua alma [2]. Impossível não reconhecer aqui, novamente, a dualidade entre nossos pensamentos materiais (Luv) e espirituais (K.); sim, pois como já disse Joseph Campbell, todos os mitos dizem respeito a nós mesmos.
A cena onde K. derrota Luv literalmente debaixo d’água é mais um simbolismo de nosso inconsciente: o pensamento materialista não foi extirpado de nós, continua lá no fundo, mas agora é nosso lado espiritual que surge do inconsciente para dar real significado a vida. O monstro terrível, angelical e sedutor, foi enfim domesticado – K. é o herói a assumir o timão de sua própria embarcação.

Deckard, o Ancião
Em sua longa investigação, K. acaba descobrindo que a mãe replicante era Rachel, a personagem pela qual Deckard, o Blade Runner do primeiro filme, se apaixona. Eventualmente K. parte para encontrar Deckard escondido num cassino abandonado numa zona de alta radiação, onde teoricamente não habitam humanos. Seguem-se algumas das cenas mais belas do cinema neste nosso século, e eles eventualmente se encontram. Inicialmente Deckard tenta se livrar de K., mas acaba sendo convencido de que ele viera para ajudar.
Nesta altura K. acredita que Deckard é seu pai, mas não chega a contar nada. Ainda que de forma brevíssima, Deckard assume o papel de Ancião ou de Mestre, aquele que aconselha o herói. Infelizmente, no entanto, não há muito tempo para que eles convivam, pois os lacaios de Wallace vêm em seu encalço e acabam sequestrando Deckard.
Noutra cena essencial do filme, Deckard se encontra aprisionado na sede da corporação de Wallace, e este lhe apresenta uma cópia supostamente exata de Rachel (ainda jovem, claro), tentando lhe seduzir para que ele pudesse contar onde diabos está a criança, o milagre. Obviamente, o grande objetivo do Demiurgo é exterminar a alma, e tornar o mundo puramente material. Interessante que os sonhos de ascensão ao Paraíso no mundo de Wallace correspondem às colônias humanas noutros planetas. Porém, são literalmente paraísos artificiais, uma vez que tudo o que Wallace consegue produzir é sintético. Mesmo os seus replicantes não passam de androides estéreis, ele jamais conseguiu fazê-los se reproduzir.
Ao observar a cópia de seu grande amor, no entanto, Deckard afirma para o Demiurgo: “não é ela, eu sei o que é real”. Ora, o que é real é justamente o amor, e o amor pertence à Pistis Sophia, não ao mundo do Demiurgo. Não importa o que ele faça, jamais terá poder para gerar amor, gerar vida real, seja ela humana ou replicante.

É preciso alma para amar
Noutra cena tocante do filme, K. anda pela cidade e, ao atravessar uma espécie de ponte de pedestres, se depara com uma projeção gigante de Joi, a garota-holograma. Ocorre que ele havia guardado a memória de sua própria Joi num aparelho que foi destruído pelos lacaios de Wallace. Assim sendo, a “sua Joi” havia se perdido para sempre, e ali ele via uma “Joi genérica”. E esta Joi o chama pelo mesmo nome usado pela anterior, de “Joe”. Ora, assim fica claro que a paixão entre K. e a sua Joi era mero fruto de uma programação. Não havia alma no seu aparelho de Inteligência Artificial, apenas ele poderia ter uma alma, e é preciso haver alma para haver amor.
Dessa forma, o que K. havia amado era tão somente um ser imaginário. Ao contrário de Deckard, que amou uma replicante com alma, e por isso gerou nela um filho, um milagre. Afinal, Deckard “sabia o que era real”, enquanto K. ainda teria de passar por muitas e muitas aventuras para descobrir.

O fim de uma Jornada é o início de outra
Finalmente, após haver descoberto que na realidade Deckard e Rachel haviam tido uma filha, não um filho, K. mesmo assim não se desvia nem por um momento de sua missão e acaba conseguindo, com muito custo, resgatar Deckard e levá-lo ao encontro de sua filha real.
Pouco antes de entrar no galpão onde ela reside, Deckard pergunta para K. se “está tudo bem”, e ele afirma que sim. Na sequência, K. se deita sobre as escadas e, após Deckard já haver entrado no recinto, ele parece apenas contemplar os flocos de neve caindo levemente do céu. Há uma profunda sensação de paz: o herói cumpriu sua Jornada, e está preparado para a próxima. No fundo, não importava se K. era ou não a criança, o milagre, mas sim se ele tinha ou não uma alma. K. parece ter chegado a conclusão de que, sim, tem uma alma, e daí em diante sua vida passa a ser de fato uma jornada espiritual, livre, na medida do possível, das seduções do Demiurgo. Não será uma vida desprovida de dor, é certo, mas pelo menos uma vida preenchida de sentido.
Já a última e belíssima cena do filme mostra Deckard, o Ancião, o Herói no Fim da Jornada, encontrado o milagre “em carne e osso” pela primeira vez. Sua filha era todo o tempo a própria designer de memórias dos androides de Wallace, a própria Pistis Sophia, a Alma do Mundo. É esta a iluminação, o sentido final de toda e qualquer jornada espiritual – a contemplação da Alma. E aqueles que já sabem disso, tornam-se nesta Criação, cocriadores, artistas do espírito. Este filme é só mais um exemplo disso.

***

Obs.: Não deixe de ver também esta profunda análise do Blade Runner original feita pelo meu amigo Acid (do blog Saindo da Matrix). Veja também a parte 1 e a parte 2 de sua análise da simbologia presente na obra.

[1] Inclusive, a primeira cena do filme é justamente o Grande Olho da Alma se abrindo, o que remete ao próprio despertar do protagonista. Aliás, eu recomendo que revejam o filme considerando desde o início que tudo o que transcorre de iluminado, até o último floco de neve, é uma Criação da criança-milagre, Pistis Sophia. Só recomendo que levem algum lenço; isto é, se tiverem alma!

[2] Há outras interpretações menos focadas em mitologia que afirmam que Luv somente derrama lágrimas quando presencia a morte de outros replicantes, jamais de humanos (apesar de que ela parece se emocionar ao assassinar a chefa de K.). De fato, é uma possibilidade, talvez ela estivesse interiormente lutando contra si mesma para se libertar da programação de Wallace. Em todo caso, mesmo aqui continua valendo a interpretação de que K. consegue "desobedecer" a sua programação, enquanto Luv não, e me parece que este "livre-arbítrio" tem tudo a ver com a proximidade da alma, do amor, enfim, do lado mais espiritual da vida.

Nota final: o gnosticismo na obra de Philip K. Dick
Pode parecer estranho, mas Philip K. Dick foi um escritor de ficção científica profundamente ligado ao gnosticismo. Como não sou nenhum especialista em sua obra literária, indico a vocês este artigo de meu amigo Giordano Cimadon, da Sociedade Gnóstica Internacional; e também este texto escrito por Eduardo Pinheiro, um especialista em sua obra, para o blog Papo de Homem.

Crédito das imagens: Blade Runner 2049/Divulgação

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6.10.17

Blade Runner 2049: em busca do milagre (parte 1)

Este artigo pretende ser uma análise filosófica e espiritualista do filme Blade Runner 2049, aqui não irei me focar especificamente em aspectos técnicos ou artísticos (embora a direção de Denis Villeneuve seja belíssima), mas antes na minha própria análise pessoal da simbologia do filme. Obviamente, o texto a seguir contém spoilers que podem atrapalhar a experiência de se assistir a obra pela primeira vez. Assim sendo, se ainda não a viu, recomendo enormemente que vá assistir antes de prosseguir nesta leitura.

***

Aviso dado, prossigamos... Como devem saber, o filme é uma continuação do clássico cult de 1982, escrito por Hampton Fancher e David Peoples, e dirigido pelo grande Ridley Scott. A sequência atual é dirigida por um diretor muito promissor, Denis Villeneuve, e compartilha do mesmo Hampton Fancher no roteiro, desta vez com ajuda de Michael Green. Ambos os roteiros devem muito ao livro Do Androids Dream of Electric Sheep? (Será que Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?), escrito por Philip K. Dick, que acabou se tornando um escritor essencial da história da ficção científica justamente com a ajuda do sucesso alcançado pelo primeiro Blade Runner.

Ambos os filmes tratam de investigações policiais engendradas numa espécie de futuro distópico onde o consumismo exacerbado levou a humanidade a uma espécie de apocalipse da natureza. Ambos trazem cenários de metrópoles americanas sombrias e chuvosas cheias de imigrantes e androides convivendo em meio a um cenário abarrotado de anúncios que mais lembra uma “Tóquio que deu muito errado”. Outra questão central em ambas as obras é a desconfiança e a confusão entre o que é real, o que é humano e o que é artificial, em diversos sentidos.

Vamos passar agora para minha interpretação direta de algumas cenas e aspectos do filme:

O herói e o milagre
Na primeira cena do filme, K. está caçando um dos replicantes antigos que conseguiram se esconder da fiscalização. Como sabemos, o seu trabalho consiste em “desligar” todos esses androides da linhagem antiga, de modo a que permaneçam somente aqueles como o próprio K., inteiramente obedientes ao sistema governamental. Assim, temos uma característica primordial do filme revelada de início: K. sabe que é um replicante, e sabe que caça aqueles de sua própria “espécie”.
No entanto, já temos nesta cena uma diferença grande em relação ao primeiro filme: a ação se passa totalmente fora de Los Angeles, numa região onde há o cultivo sintético de alimentos. Dentre outras coisas que podem passar desapercebidas, há por exemplo um tronco morto de árvore e um pequeno ramo de planta encontrado no solo ao lado dela. Temos de considerar que, na distopia onde o filme ocorre, tanto madeira quanto plantas como aquela são algo extremamente raro de se ver. No contexto da cena, tais elementos soam mais como mensagens místicas que servem para despertar o herói em sua jornada. Sim, mesmo aqui temos uma Jornada do Herói [1] em curso, embora extremamente original.
Porém, o que realmente coloca “uma pulga atrás da orelha” de K. é a frase que o replicante lhe diz, pouco antes de entrar em luta corporal e acabar “desligado”. Algo como: “Você só faz o que lhe mandam fazer, mas é assim porque ainda não viu um milagre” [2].

O milagre muda tudo
Algum tempo depois, já no Departamento de Polícia, K. traz a sua chefa uma caixa encontrada enterrada perto da árvore, e nela há uma ossada aparentemente humana. O legista analisa os ossos e concluí que se tratava de uma mulher grávida que morreu durante um parto, provavelmente uma cesariana. É o próprio K., no entanto, que ao lado de sua chefa (uma humana, a chefa do Departamento) acaba operando o zoom do aparelho e descobrindo um código de série nos ossos, o que significa que a grávida em realidade era uma replicante da série antiga!
E isto muda tudo, não somente para a própria investigação policial, que passa a ser bem mais importante e sigilosa, como para o próprio K., que confirma que aquele tal “milagre” mencionado por sua vítima era, de fato, real.
Assim chegamos a uma importante passagem do filme, quando a chefa de K. determina que ele cace e mate a criança (agora já adulta) nascida daquela androide, e ele hesita por um momento... Quando sua chefa lhe pergunta qual o problema, ele responde: “É que nunca matei alguém nascido, suponho que os nascidos tenham alma”. Depois, pouco antes de sair da sala, a sua chefa complementa: “Não se preocupe, você tem se saído muito bem sem uma alma”.

O Demiurgo
É durante a investigação de K. que somos trazidos até uma cena na sede da corporação de Niander Wallace, o megaempresário responsável pela fabricação de alimentos sintéticos e pelas novas linhagens de replicantes (dentre eles, o próprio K.). Me pareceu que este personagem está diretamente associado à ideia de Demiurgo segundo algumas teorias gnósticas.
Este Demiurgo do mal seria o próprio criador do mundo material, responsável por nos manter seduzidos e ancorados em nossos próprios desejos materialistas, assim afastados do mundo espiritual. O conhecimento gnóstico seria justamente o caminho para nos elevarmos de volta ao mundo espiritual, de onde viemos originalmente. Uma outra forma de analisar tal dualidade seria simplesmente contrastar nossos pensamentos materialistas com os espirituais. Seja como for, fato é que Wallace, apesar de pouco aparecer no filme, representa a fonte (o empreendedor) de toda a materialidade, de toda a superficialidade, de toda a ilusão, presentes naquele mundo distópico.

A garota-holograma
Quando K. chega em sua casa somos apresentados pela primeira vez a Joi, uma espécie de Inteligência Artificial holográfica que lembra muito uma espécie de avanço tecnológico em relação as atuais bonecas sexuais japonesas. Claro que a relação amorosa deles não é física, uma vez que Joi só pode ser projetada como holograma. Isto, no entanto, é resolvido quando a própria Joi contrata (via internet?) uma garota de programa replicante para dançar e eventualmente transar com K.
Joi então se “sincroniza” com a replicante e o que se segue é talvez a cena mais antológica do filme, quando K. dança ao mesmo tempo com sua “garota fantasma” e com a prostituta. Aqui podemos fazer várias análises, desde a diferença entre a figura de nosso amor imaginário que fantasiamos em nossa própria mente em relação à pessoa real a qual nos relacionamos, até a própria dualidade “corpo-alma”; sendo que a alma, obviamente, seria a figura etérea de Joi.

Somos todos replicantes?
Joi também participa de outra cena consideravelmente profunda do filme, embora possa facilmente passar desapercebida: enquanto K. está analisando um por um os registros genéticos de pessoas nascidas na época do parto da criança que ele está caçando, Joi se questiona sobre a diferença entre seres construídos por bases orgânicas (citosina, adenina, guanina ou timina, isto é, o código genético) e seres de inteligência artificial, compostos por “zeros e uns”.
Aqui há uma questão importante, de fato: enquanto seres como Joi nada mais são do que sequências de programação de códigos inventados pelo ser humano, os androides ou replicantes do mundo de Philip K. Dick são feitos de intervenções humanas em um código pré-existente, que não foi criado pelo próprio homem. Assim sendo, é perfeitamente possível que a natureza ela mesma tenha interferido na própria evolução dos replicantes, permitindo que eles eventualmente passassem a gerar filhos (o milagre), uma vez que o ser humano jamais terá domínio completo de um código que não é inteiramente seu.
Isto também remonta a velha dúvida do primeiro filme, se Deckard era ou não um replicante. Ora, nesta nova versão o herói já sabe de antemão que é um replicante, mas a dúvida passa a ser outra, mais profunda: se replicantes podem gerar o milagre da vida, não seriam eles também portadores de uma alma? Não seria o próprio K., e todos os demais androides como ele, seres com direitos humanos?
Ao mesmo tempo em que refletimos sobre isso, podemos refletir sobre nossa própria vida no “mundo real”: não seríamos nós mesmos “replicantes”, no sentido de simplesmente replicarmos as mesmas tarefas, todo santo dia, pela vida toda, até aquele momento mágico em que finalmente descobrimos nossa própria alma? Não seria, este também, o milagre pelo qual todos nós buscamos?


» Na continuação, encerramos nossa análise falando de Pistis Sophia e de anjos terríveis (clique para acessar a parte final do artigo)

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Obs.: Não deixe de ver também esta profunda análise do Blade Runner original feita pelo meu amigo Acid (do blog Saindo da Matrix). Veja também a parte 1 e a parte 2 de sua análise da simbologia presente na obra.

[1] A Jornada do Herói (também chamado de “Monomito”) é um conceito de jornada cíclica presente em narrativas mitológicas, de acordo com o antropólogo Joseph Campbell. Você pode ver um excelente vídeo sobre o assunto no canal da Carol Moreira.

[2] A frase provavelmente é um pouco diferente, estou lembrando de cabeça. Mas a essência dela é a referência ao “milagre”.

Crédito das imagens: Blade Runner 2049/Divulgação

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27.7.17

O campo além das ideias

Caminhando junto ao poente numa das regiões mais inóspitas do planeta, as margens do grande Kalahari, deserto ao sul da África, Pedro se impressiona com os hábitos de seus companheiros (além do guia turístico, é claro): os bushmen, ou povo san, caçadores-coletores que vivem em torno dos poucos poços d’água subterrânea na região há dezenas, quiçá centenas de milhares de anos.

“É interessante como a gente anda neste lugar e é incapaz de observar o que eles observam. Eles veem cada planta, fruta, cada detalhe da paisagem com outro olhar, pois isso tudo faz parte da sua sobrevivência” – conclui Pedro, ou Pedro Andrade, jornalista apresentador do programa Pedro Pelo Mundo, do canal de TV a cabo GNT. Neste episódio ele decidiu retornar a Botswana, antigo protetorado britânico que, após adquirir sua independência em 1966, multiplicou seu PIB per capta em dezenas de vezes e se encaminha para a prosperidade sem ter passado por guerra civil ou períodos ditatoriais, algo extremamente incomum para um país africano.

Mas a grande característica de Botswana é precisamente estar tão isolado do resto do mundo que, por algum milagre, o povo san pôde viver relativamente intocado até os dias atuais, preservando uma cultura e estilo de vida arcaicos, o que também pôde ser comprovado pela ciência. Segundo estudos modernos, os san possuem um dos mais elevados graus de diversidade do DNA mitocondrial dentre todas as populações humanas, o que indica que eles são uma das mais antigas comunidades do globo. O seu cromossomo Y também sugere que, do ponto de vista evolucionário, os san se encontram muito perto da “raiz” da espécie humana (homo sapiens).

No fim da noite, Pedro participa como observador dos rituais e cânticos dos san. Em torno de uma pequena fogueira, as mulheres cantam e batem palmas sentadas, e os homens dançam enfileirados em círculo. Mas não é só isso: após entrarem em transe, alguns dos xamãs [1] san incorporam seus próprios antepassados e entidades da natureza. Até mesmo o guia turístico, um branco ocidental que se apaixonou pela região e pelos san, pratica a incorporação para virar ele mesmo um xamã entre o povo ancestral. Afinal, os san são antigos o suficiente para saber que, sejamos brancos ou negros, todos somos um mesmo povo, todos saímos dali, ou de bem perto dali, há centenas de milhares de anos, para povoar o resto do planeta.

Alguma coisa antiga e profunda tocou Pedro nesta viagem, e principalmente neste breve contato com os san. É isto pelo menos que ele próprio confessa ao fim do episódio, muito embora “não saiba explicar ao certo o que é exatamente”. Decerto, o mesmo deve ocorrer com muitos ditos civilizados que têm a oportunidade de realizar este tipo de contato. Seria inútil perguntar ao próprio guia turístico e aprendiz de xamã o que é que o fez trocar a vida ocidental pela vida como guia turístico no Kalahari. Há alguma coisa de transcendente nos san, alguma alma ancestral que, de muitas formas, é também a nossa alma.

E decerto de nada adiantaria escrever um tratado sobre o assunto. Ainda que os san aprendessem inglês ou português, jamais seriam capazes de colocar em palavras as experiências místicas que, de tão constantes, quase diárias, são praticamente o seu dia a dia. Os san vivem até hoje noutro mundo, o mesmo mundo que toda a nossa espécie viveu um dia, mas que vem sendo gradativamente esquecido. Neste mundo, não faz sentido se falar em mundo material e espiritual, em vivos e mortos, em coisas sagradas: no dia a dia dos san, o material e o espiritual são basicamente uma coisa só, os vivos e os mortos jamais deixaram de se comunicar, e não há nada, absolutamente nada, que não seja sagrado.

E, como as palavras por si só são inúteis, precisamos recorrer à poesia. Como bem resumiu o poeta persa Jalal ud-Din Rumi: “Além das ideias de certo e errado há um campo, eu lhe encontrarei lá. Quando a alma se deixa naquela grama, o mundo está preenchido demais para que falemos dele. Ideias, linguagem, e mesmo a frase cada um já não fazem mais nenhum sentido”.

Para boa parte do planeta, os san são um povo selvagem que permaneceu atrasado e perdido nalgum deserto africano. Para os san, ou para os seus espíritos ancestrais, o restante do planeta é nada mais do que a família que resolveu ir caminhar para as regiões mais afastadas, até que se esqueceu de retornar. E, segundo a ciência moderna, são os san quem estão com a razão [2]. Dá o que pensar.

É costume do Ocidente avaliar a “evolução” de um povo ou civilização pela sua capacidade filosófica e científica, em suma, pela sua racionalidade. No campo espiritual, porém, as coisas são um tanto mais complexas de se julgar. O povo san, por exemplo, não pratica canibalismo, não faz sacrifícios de sangue aos deuses, não devasta o seu meio ambiente de forma predatória. Um teólogo de certo renome poderá dizer: “Ok, tudo bem, mas eles são incapazes de reconhecer um Deus único”... Mas, será que isso é algum parâmetro razoável para determinar sua “evolução espiritual”?

Há muitos reinados milenares do continente africano que veneravam os chamados orixás, que são basicamente os correspondentes dos deuses das mitologias gregas ou egípcias, e possivelmente até mais antigos. No entanto, entre diversos mitos de Criação africanos, temos um “Ser Supremo quem criou os orixás e os homens”, e seu nome é Olorum. Ao contrário dos demais orixás, Olorum não possui nem culto direto nem templo individual, além é claro de não receber oferendas, sejam de animais ou frutas ou o que for, já que Olorum “já é tudo”. Ora, muito embora seja complexo associar Olorum diretamente com Javé ou Allah, fica muito claro que, no fundo, a religião dos orixás também é, e sempre foi, monoteísta. Portanto, os africanos antigos já conheciam um Deus Criador único, e isso não foi invenção exclusiva dos povos do Oriente Médio.

Claro que nem todos os povos africanos ao longo dos últimos milênios chegaram à mesma profundidade de compreensão espiritual. Mas nós ocidentais não podemos nos gabar de estarmos muito na frente deles. Até pouco tempo atrás, nossas doutrinas mais elaboradas ainda aceitavam, na prática, que escravos não tinham alma, e que precisavam ser batizados para conseguirem sua entrada no Céu. Foi assim que muitos ditos cristãos arrancaram milhões de africanos a força de suas casas e, através de grilhões e açoites, os trouxeram para trabalhar na América. Trabalho não assalariado, evidentemente.

Nem mesmo seus nomes eles puderam trazer na bagagem. Chegando ao Novo Mundo, eram batizados com nomes como Joaquim de Jesus ou Maria de Fátima. Mas, ainda que os nomes tenham se perdido, seus espíritos ancestrais jamais lhe abandonaram. Foi assim que, no Brasil, o maior país negro do mundo, surgiu o samba, o Candomblé, a Umbanda etc. Os sobrinhos dos san perderam suas casas e seus nomes, mas os orixás persistiram, afinal aqui eles também estavam dentro de Olorum. Não há nada “lá fora”.

E, apesar dos grilhões, dos açoites e do preconceito que surge da ignorância persistente dos ditos civilizados, lá naquele campo onde vivem os poetas e os místicos, lá, além das ideias de certo e errado, lá, onde habitam os deuses e dançam os xamãs, eles nos perdoaram, eles nos aceitaram de volta, de braços abertos, de alma aberta.

E, aqueles que, como Pedro, estiveram por lá, ainda que por pouco tempo, ainda que por uma noitinha só, compreenderam: a África é todo o mundo!

***

[1] O termo “xamã” se originou do estudo dos povos indígenas da Sibéria, mas na realidade se aplica para povos ancestrais em todo o mundo. No Brasil, por exemplo, um xamã pode ser conhecido como pajé.

[2] Há diversas teorias para as origens da humanidade, mas o mais aceito atualmente é que nossa espécie surgiu na África e depois migrou para o resto do globo. Em todo caso, ainda que tenha surgido no mesmo período na Europa, teria a pele tão negra quanto à dos africanos, visto que a mutação que possibilitou a pele branca é relativamente recente, de cerca de 8.000 anos atrás (portanto mais nova que o próprio povo san).

Crédito da imagem: Google Image Search/Latinstock (povo san)

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25.5.17

A verdade

Nós, seres que refletem sobre o Cosmos, temos um problema com a verdade: nos parece que, quanto mais a cercamos com as mãos, mais ela escapa por nossos dedos, nos mostrando que moramos numa praia ainda maior e mais cheia de pequeninos grãos de areia do que um dia ousamos imaginar...

Disse o Rabi da Galileia, “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Analise esta frase de forma puramente racional, e me diga então o que seria a verdade: um homem? Um deus? Uma doutrina? Um livro, onde tais palavras foram registradas? Ora, ainda que consiga responder a tais questões, esta resposta será a sua, servirá somente para você, baseada na sua interpretação da vida, e de ninguém mais. Ainda que existisse mesmo um Manual da Verdade Absoluta, isto não nos diria nada sobre a verdade: pois caberia a cada um de nós interpretar suas palavras a sua maneira.

Vejamos um exemplo, “Disciplina é liberdade”... Diga isto para um policial militar ou um operador de tráfego aéreo e ele provavelmente discordará veementemente – é justamente a supressão da liberdade de fazer o que bem entender, e seguir regras e normas rigidamente estabelecidas, o que permite que cumpram o seu serviço da maneira que deve ser cumprido, para que o menor número possível de pessoas inocentes morra em decorrência de assaltos ou acidentes. Diga a mesmíssima frase para um zen budista, ou alguém que, através da domesticação dos desejos desenfreados da mente, encontrou a sua verdadeira vontade, e ele não só concordará, como abrirá um largo sorriso com o coração – um coração livre.

Mas, estranho de se pensar, e se encontrarmos um budista militar, não haverá momentos em sua vida em que ele precisará seguir normas rígidas de disciplina de guerra e paz, independentemente do que diga o seu coração durante tais períodos? E se o sonho da sua vida fosse justamente o serviço militar? E se ele se sente tão bem cumprindo aquelas ordens patrióticas que, ao mesmo tempo em que às cumpre, ainda se sente o homem mais livre do mundo? Há muitos que compreendem os soldados como agentes de guerra e de morte, mas em princípio o bom soldado é justamente aquele que, em todos os momentos, busca o caminho mais breve possível para a paz, e zela por ela, e a abençoa, e agradece por não ter de disparar nenhum tiro em toda a manhã em que o sol nasce em terras livres.

A verdade, portanto, é algo que nós, os seres que refletem sobre o mundo, interpretamos – algo que até hoje nenhuma máquina foi capaz de realizar. A verdade não é algo que se imprime na página de um livro ou se escreve em equações complexas, mas talvez se pareça mais como um poema de luz recitado por aqueles mais loucos dentre nós, os poetas que habitam este mundo, mas conseguem por vezes entreolhar outros mundos por entre as frestas entre os dedos, sempre que apanham mais um bocado de areia desta praia infinita...

Nos dias de Einstein, por exemplo, ainda se acreditava, cientificamente, que o Cosmos era eterno, que não teve início nem teria fim, e que jamais poderia estar se expandindo. Foi Georges Lamaître, padre e astrônomo belga, quem propôs primeiramente a teoria que, de tão absurda para a época, foi rotulada de forma sarcástica por um radialista daqueles tempos como Big Bang, ou “a grande explosão”. Somente muitos anos depois, após a descoberta da radiação cósmica de fundo, que fora prevista pelos cosmólogos que defendiam a teoria, é que ela foi alçada de vez ao status de teoria científica mais aceita para o início do universo, e dentre os físicos atuais são raríssimos aqueles que levantam algum questionamento relevante acerca da sua validade.

No entanto, não foi à toa que muitos cientistas da época a questionaram: era de fato uma verdade bíblica demais para ser realmente verdade. Um universo inteiro que cabia na ponta de um alfinete ou num ovo cósmico primordial, e que se expandiu para se tornar tudo o que há... Como pensar cientificamente sobre algo assim? Como bem resumiu Terrence McKenna: “A ciência moderna se baseia num princípio: dê-nos um milagre espontâneo e a gente explica o resto. Este milagre se chama Big Bang”.

Claro, muitos cientistas hoje se justificam dizendo que este universo pode muito bem ser apenas um de infinitos outros universos de um vastíssimo multiverso, e isto parece acalmar suas inquietações... No entanto, não somente o multiverso não pode ser empiricamente comprovado (como Javé ou Ganesha ou os discos voadores), como a sua preposição por si só não chega a resolver o problema lógico: e de onde surgiu o multiverso? Claro, podemos nos acalmar pensando que o multiverso, ou o Cosmos, é tudo o que é ou foi ou será, incriado, infinito e eterno. Einstein, Espinosa e tantos outros bem mais antigos ficariam satisfeitos, mas quem poderá dizer que esta é a verdade derradeira, absoluta?

Estamos aqui brincando nas margens deste grande oceano cósmico, profundo e desconhecido, e por vezes nos encantamos com a quantidade de grãos e pedrinhas que catalogamos nesta vasta areia a refletir o sol, mas o encanto logo logo se transforma novamente em espanto, quando a areia escorre totalmente da mão, e vemos que a nossa frente há ainda um mar infindável de descobertas por serem feitas, um mar cada vez maior.

O Rabi também nos disse que “somos deuses”, e noutra parte dos Evangelhos, nos revelou que “dia virá em que faremos tudo aquilo que ele tem feito, e ainda muito mais”. Se ele já andou sobre as águas deste mar, se já velejou fundo em seu barquinho, se já mergulhou e nos trouxe peixes para alimentar a nossa fome espiritual, não é porque devemos nos contentar com olhar e aplaudir, mas porque devemos arregaçar as calças e segui-lo, mar adentro.

E assim, velejadores de nós mesmos, também seremos o caminho, a verdade e a vida, e que cada um interprete isso como seu coração achar melhor, pois que em realidade eu lhes digo: não há outra forma de verdade.


A fonte secreta de suas almas precisa brotar e desaguar pelos córregos murmurantes até o mar; e assim o tesouro de suas profundezas infinitas seria revelado aos seus olhos abertos.
Mas não usem balanças para pesar tais tesouros desconhecidos; e não busquem explorar as profundezas de seu conhecimento com uma vara ou uma sonda, pois o Eu é um oceano sem limites e imensurável.
Não digam, “Encontrei a verdade”, mas sim, “Encontrei uma verdade”. Não digam, “Encontrei o caminho da alma”, mas sim, “Encontrei a alma andando em meu caminho”. Pois a alma anda por todos os caminhos.

(Khalil Gibran, trecho de O Profeta)

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Crédito da imagem: Steve Halama/unsplash

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24.4.17

Entre eu e você

O texto abaixo foi retirado de uma de minhas respostas dentro de um debate entre pensadores e espiritualistas.

Não sei se alguns aqui já devem saber, mas até alguns anos atrás eu costumava dizer que:

Minha religião é meu pensamento
Minha vida é minha Bíblia
Minha igreja é meu coração
Deus é meu amor

Um dia (já não lembro quando), alguém "corrigiu" o último trecho (já não lembro quem, mas sei que foi o comentário de uma mulher, na internet), de modo que passou a ficar:

Deus é nosso amor

Para mim, de fato fez toda a diferença do mundo. No momento em que li dessa forma, percebi o quanto o erro estava associado ao meu próprio ego. É óbvio que o amor divino não é "meu", nem "seu", nem "dele", ele é "nosso", necessariamente!

Há uma belíssima passagem dos poemas de Jalal ud-Din Rumi, o poeta sufi persa do séc. XIII, que fala assim:

Além das ideias de certo e errado,
há um campo. Eu lhe encontrarei lá.

Quando a alma se deita naquela grama,
o mundo está preenchido demais para que falemos dele.
Ideias, linguagem, e mesmo a frase “cada um”
não fazem mais nenhum sentido.

É desse tipo de amor divino que estou falando quando digo que "Deus é nosso amor". Não uma fonte de amor que transborda de algum canto do Cosmos e nos alcança como uma chuva permanente, mas a própria chuva, e o solo que ela rega, e a vida que cresce deste solo, e os mortos que o solo sepulta, e tudo, tudo o que há ou foi ou será.

Há este conflito entre perceber a Deus como um ser pessoal ou impessoal, o interessante é que há milênios atrás o próprio Bhagavad Gita falava precisamente disto no início do Cap. 12 (a tradução é minha, a partir da versão inglesa de Sir Edwin Arnold; no diálogo Arjuna representa o homem e Krishna, o ser divino):

Arjuna perguntou: Daqueles devotos que desejam alcançar o seu refúgio, qual deles são os melhores yogis, os que meditam e se conectam ao seu aspecto pessoal e manifesto, ou aqueles que focam a sua mente em seu aspecto universal e sem forma definida? (12.01)

Lorde Krishna disse: Considero os melhores yogis aqueles que me amam como um aspecto pessoal, com intimidade e familiaridade, pois esses terão maior facilidade em me imaginar ao seu lado. (12.02)

No entanto, aqueles que me amam como o absoluto, inefável, onipresente, indiviso, manifestado não somente numa pessoa, mas em todo o universo, infinito e eterno, o uno em tudo, se eles mantêm o seu ânimo inabalado em todas as circunstâncias da vida, se respeitam todos os seres e colaboram para o bem estar da sua vizinhança, se são capazes de compreender que a minha substância preenche a tudo o que há, foi ou virá a ser, eles também alcançarão o meu refúgio, ó príncipe. (12.03-04)

O caminho para a autorrealização é muito mais árduo para aqueles que me imaginam como o absoluto e sem forma definida, pois que a concepção do que é eterno e infinito é algo muito complexo para uma mente finita que viaja junto ao fluxo do tempo. (12.05)

Mas aqueles que me imaginam em meu aspecto pessoal, me amam e adoram, dedicam a mim todas as ações de suas vidas, e sempre meditam em mim como o seu alvo mais elevado, eles me alcançarão mais facilmente, ó Arjuma, e eu os salvarei do oceano das mortes e renascimentos. (12.06-07)

Assim, ignorando o conselho do próprio Krishna, eu mesmo optei por me arriscar a me religar não com uma divindade pessoal, mas com tudo o que existe, pois que não há neste vasto universo nenhum canto fundo o suficiente onde Ele não se encontre, nem espaço vazio e escuro o suficiente onde Ele não esteja, mesmo que oculto em flutuações quânticas.

No fim das contas, creio que o objetivo da união mística é precisamente este: de estar ao lado de Deus em todos os momentos, onde quer que esteja, e com quem esteja, pois como disse o poeta sufi enquanto rodopiava naquele campo precioso, eterno:

Entre eu e você não existe nem eu, nem você.

***

Crédito da imagem: Oleg Oprisco

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28.3.17

O sentido da vida, do universo e tudo mais

Era uma vez uma civilização intergaláctica avançada que construiu um supercomputador chamado Pensador Profundo e lhe fez a pergunta que julgaram ser a mais importante e vital de todas, “Qual o sentido da vida, do universo e tudo o mais?”.

Assim, após milênios de cálculos avançados, o Pensador Profundo finalmente chegou a uma resposta, e ela era “42”.

Esta passagem altamente metafísica é talvez o trecho mais famoso da série O Guia do Mochileiro das Galáxias, do britânico Douglas Adams, que se iniciou como um programa de radio muito bem humorado em 1978, e eventualmente se tornou a “trilogia de cinco livros” mais aclamada entre os nerds deste planeta.

O bom humor, aliás, se mantém até hoje, mesmo após a morte do autor, em 2001. Afinal, não poderíamos esperar uma resposta muito profunda para alguém que já escreveu que “no início, o universo foi criado. Isso irritou profundamente muitas pessoas e, no geral, foi encarado como uma péssima ideia” (mais um trecho da série), ou poderíamos?

O próprio Adams já tentou resolver a questão uma vez, e explicou que “a resposta é muito simples: foi uma brincadeira. Tinha que ser um número, um ordinário, pequeno, e eu escolhi esse. Representações binárias, base 13, macacos tibetanos são totalmente sem sentido. Eu sentei à minha mesa, olhei para o jardim e pensei ‘42 vai funcionar’ e escrevi. Fim da história”. Mas obviamente não foi o suficiente para aplainar a angústia dos fãs: e se ele estava querendo desconversar? E se de fato a resposta para o sentido de tudo o que há seja mesmo “42”, o que diabos isso realmente significa?

Numa “jornada mística” pelas profundezas da cultura nerd e geral, muitos leitores de Adams tentaram encontrar pistas para a resposta. Alguns encontraram associações surpreendentes, por exemplo: há um total de 42 ilustrações no original de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll; há um total de 42 Km no percurso de uma maratona; um Big Mac nos EUA já chegou a conter 42% da ingestão diária de sódio recomendada no país; o número do apartamento de Fox Mulder na série de TV Arquivo X era 42; na página 42 da versão inglesa de Harry Potter e a Pedra Filosofal, Harry descobre que é um mago; e por aí vai [1]...

Mas talvez tenham sido os programadores, esta casta da elite de sapiência entre todos os nerds, quem finalmente desvendaram o mistério oculto no “42”: de acordo com eles, 42 é o código ASCII para o asterisco (*), e o asterisco, na programação, significa “qualquer coisa”. Assim, segundo essa teoria, 42 seria mais que um número aleatório, e sim o código para algo como “a resposta para o sentido de tudo é: qualquer coisa que você quiser”.

Ainda que tudo isso ainda seja obviamente uma grande brincadeira, fato é que, mesmo que de certa forma “driblando” a pergunta com um intrincado e refinadíssimo humor inglês, Adams acabou nos trazendo este imensamente profundo ensinamento (ainda que sem querer): de fato, o sentido da vida, do universo e tudo mais é aquilo que quisermos, é aquilo o que fazemos da vida com o tempo que nos é dado viver. E isso casa perfeitamente não somente com os livros de Adams ou o pensamento de Gandalf o Cinzento, mas também com doutrinas espiritualistas muito mais antigas, principalmente as do Oriente.

Há muitos de nós, espiritualistas, que associam o sentido da vida a existência de uma força maior, uma divindade, quem sabe aquele ou aquilo que criou tudo o mais, e que seria também a sua explicação final. O que faríamos de nossas vidas, neste sentido, necessariamente estaria em conexão com tal essência. Quem sabe Joseph Campbell, eminente estudioso de mitologia do século passado, e que influenciou diretamente outro cânone nerd, Star Wars, possa explicar melhor o que estou tentando dizer:

Queremos pensar em Deus. Deus é um pensamento. Deus é uma ideia. Mas a sua referência é algo que transcende o pensamento. Ele existe além da existência... Além da categoria de ser ou não ser. Ele existe ou não? Nem existe, nem não existe. Qualquer deus, qualquer mitologia ou qualquer religião são verdadeiros nesse sentido... Assim como uma metáfora do mistério humano e cósmico.

Quem pensa que sabe, não sabe. Quem sabe que não sabe, este sim, sabe. Há uma velha história que ainda é válida. A história da busca. Da busca espiritual... Que serve para encontrar aquela coisa interior que você basicamente é. Todos os símbolos da mitologia se referem a você. Você renasceu? Você morreu para a sua natureza animal e voltou à vida como uma encarnação humana?

Na sua mais profunda identidade, você é Deus. Você é um com o ser transcendental [2].

Mas Adams, é claro, não acreditava em Deus. Não somente não acreditava, como inspirou muitos ateístas com suas obras. Por exemplo, em Deus, um Delírio, o biólogo e ateísta militante Richard Dawkins faz uma carinhosa dedicatória ao seu amigo, citando um trecho dos seus escritos que diz: “Não é suficiente ver que o jardim é belo sem ter que acreditar que há fadas morando nele também?”.

Apesar de ter sido bem menos militante no seu ateísmo do que Dawkins, o Deus que Adams desacreditava com seu bom humor incomparável era, obviamente, um Deus “comparável às fadas”: uma espécie de metáfora tirada da mitologia, onde o Criador poderia muito bem ser um ancião muito velho, de barda muito muito branca, sentado num trono no alto do Céu e com poderes de X-Men. Este não é, obviamente, o mesmo Deus de que Campbell fala logo ali em cima...

Há muitos mistérios ainda insondáveis na ciência e no conhecimento humanos. Do alto de todo o seu entusiasmo pela tecnologia, Adams foi profundamente sábio e humilde ao trazer uma não-resposta para a pergunta que foi feita ao Pensador Profundo. Na sequência da história, os seres que lhe fizeram a questão compreendem que o problema não estava na resposta, e sim na pergunta: o dia em que soubermos a pergunta definitiva para a vida, o universo e tudo o mais, talvez a resposta sequer seja necessária. Afinal, foi através das perguntas, e não exatamente das respostas, que alargamos nosso conhecimento do Cosmos até nosso estágio atual.

No entanto, faz alguns séculos que as nossas perguntas, particularmente as científicas, têm talvez se demorado muito com o que acontece lá fora. Talvez seja tempo de começarmos a nos aventurar com nossa toalha não pelas galáxias externas, não pelos bilhões e bilhões de mundos deste universo lá fora, mas pela inefável fantasia de nosso próprio interior.

E então, quem sabe, poderemos fazer esta pergunta que, se não é a última, poderá muito bem ser a primeira: Quem sou eu? Quem somos nós, de verdade?


O universo, como já foi dito anteriormente, é um lugar desconcertantemente grande, um fato que, para continuar levando uma vida tranquila, a maioria das pessoas tende a ignorar. (Douglas Adams)

***

[1] Veja mais associações incríveis neste artigo do The Independent (em inglês).

[2] Trecho de O Poder do Mito, de Joseph Campbell (livro e série de vídeos homônima).

Crédito da imagem: Google Image Search (Douglas Adams)

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