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19.11.18

Nenhum mestre chama a si mesmo de mestre

Estive recentemente num encontro de espiritualistas em São Paulo, nele havia alguns mestres que subiram num palco para falar aos demais. Um deles representava a Ordem Sufi Naqshbandi no Brasil, que é parte do misticismo islâmico. Ao se dirigir a plateia, onde certamente havia mais discípulos do que mestres, ele tratou de nos trazer uma reflexão muito relevante, logo de início:

“Como pode um aprendiz falar de tesouros que ele ainda não possui?”.

Sheikh Ahmed Shakir ainda não se considera um mestre, e provavelmente tem razão. Mas, ainda que fosse um mestre, ele jamais chamaria a si mesmo de mestre. É precisamente assim que somos capazes de julgar, se é que isso é possível, quem é mestre, e quem diz ser mestre (e não é).

O atual mestre da Ordem Naqshbandi vive no Chipre, uma ilha ao sul da Turquia. Segundo Ahmed, quando um mestre sufi está prestes a morrer, ele transfere a incumbência de “mestre da ordem” para um de seus discípulos. Se isto não ocorrer, a ordem inteira se encerra, como já ocorreu com a Ordem Mevlevi, fundada por seguidores do grande poeta do séc. XIII, Jalal ud-Din Rumi, e também inventor do sama, a dança dos sufis (ou dervixes) rodopiantes. Em meados do século XX, o último mestre dos Mevlevi foi morto devido a perseguições políticas, sem transferir a incumbência a ninguém, e os seus discípulos em grande parte “migraram” para a Naqshbandi, que ainda tinha um mestre vivo. Por isso hoje a Ordem Naqshbandi é a representante do conhecimento esotérico, oculto, da dança inventada por Rumi. Os demais a praticam de forma essencialmente artística, não mais puramente espiritual.

Ahmed também nos explicou que uma linhagem de mestres tem origem num profeta. Profetas reais são raríssimos, e usualmente fundam religiões. Maomé foi o último profeta, segundo se crê no islamismo, e há uma linhagem contínua, uma “linhagem dourada”, desde Maomé até o atual mestre da Ordem Naqshbandi. Quem sabe Ahmed seja o próximo.

Mas não importa, nenhum mestre chamaria a si mesmo de mestre, ao menos não para um total desconhecido. Ainda que carregue consigo segredos imemoriais, poderes quase sobrenaturais, conhecimentos ocultíssimos, um mestre se faz mestre por reconhecer que sempre haverá muitos discípulos no Caminho, e ele mesmo talvez jamais deixe de ser um...

Se não crê em mim, basta analisar o que disse Issa, ou Jesus Cristo (Issa é o seu nome islâmico), considerado por muitos como “o mestre dos mestres”:

Dia virá em que farão tudo isso que eu tenho feito, e ainda muito mais (trecho de João 14:12)

Ora, se um dia faremos tudo o que fez o mestre, significa que um dia todos seremos mestres. Mas, então, o mestre ainda seria mestre?

É assim que percebemos duas coisas muito importantes: (1) que todo mestre só é mestre em relação ao seu discípulo; e (2) que todo mestre deseja ardentemente que o seu discípulo também se torne mestre um dia.

Assim sendo, um mestre jamais chamaria a si mesmo de mestre, jamais se apresentaria a um total desconhecido dessa forma, pois o objetivo dele não é reinar acima de uma turba de discípulos ou não discípulos ignorantes, mas antes torná-los melhores, quiçá tão “mestres” quanto ele próprio, ou ainda mais sábios!

E se o Sheikh Ahmed ainda não aceita ser chamado de mestre, sequer na presença de discípulos, no mesmo encontro em São Paulo havia um mestre de fato, já mais velho e com um fiel grupo de discípulos em todo o mundo:

Atma Nambi Guruji nasceu em um pequeno vilarejo no sul da Índia, estado de Tamil Nadu, onde cresceu de uma forma simples, em meio às plantações de arroz. Seus pais nunca lhe impuseram religião alguma, permitindo seu crescimento com a liberdade que uma criança merece e precisa. Atmaji, como é chamado pelos discípulos, teve seu primeiro mestre aos 10 anos de idade, um brâmane que comandava as cerimônias e rituais do templo de Shiva em sua vila. Seu desenvolvimento com esse mestre estendeu-se até seus vinte e poucos anos, período em que aprendeu bem a língua inglesa e o Bakit Yoga – a Yoga da Devoção.

O restante da história do Atmaji vocês poderão conferir no vídeo ao final do artigo, mas antes de encerrarmos, cabe contar uma anedota sobre ele. Todo ano Atmaji vem ao Brasil dar palestras (ou satsangs) no Rio, em São Paulo, e em Campo Grande/MS, onde eu moro. Numa dessas palestras havia todo um marketing por detrás, com banners online e cartazes, o anunciando como “um grande sábio indiano”. Isso não é feito com nenhum tipo de má intenção, o valor arrecadado nas palestras é quase simbólico, e o valor total mal paga a viagem da Índia ao Brasil. Portanto, seria perfeitamente compreensível que Atmaji se portasse como um “grande mestre”, ainda que não se autointitulasse um.

Pois bem, mas eu nunca esquecerei do dia em que ele, adentrando o espaço de uma das palestras, deu de cara com um imenso cartaz onde ele aparecia como um “grande mestre”, quase um ser sobrenatural. Ele simplesmente olhou para aquilo e disse algo como: “this is bullshit, everyone can achieve illumination” (isso é besteira, qualquer um pode conquistar a iluminação).

E, na sequência, ele continuou a fazer o que tem feito há décadas, desde que ele mesmo atingiu a sua iluminação, na Índia: trazer convites aos demais, melhorar este mundo, formar novos mestres, um discípulo por vez.

Com vocês, um mestre do Caminho:

***

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (sufis dançando o sama); [ao longo] um amigo (eu, ao lado de Atmaji e Sheikh Ahmed, no VII Simpósio de Hermetismo, em São Paulo).

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27.7.18

Hermes, o Adivinho?

Alguns dizem que ele viveu na região de Ninus, no Egito antigo, nalgum ponto do tempo entre 2.500 a.C. e 1.500 a.C. Dizem que era legislador e filósofo, e teria escrito 36 livros sobre teologia e filosofia (que naquela época não eram tão separadas) e 6 sobre medicina, todos eles perdidos ao longo das invasões e saques e mudanças de impérios regionais. Alguns o confundem com deuses, uns o chamaram de Toth, mas ficou mais conhecido como Hermes. Hermes Trimegisto (ou Trismegisto, quem se importa), o Três Vezes Grande, fonte primária do que se convencionou chamar hermetismo.

Segundo Mircea Eliade em História das crenças e das ideias religiosas (vol. II), o hermetismo teria florescido entre os séculos III a.C. e III d.C. no mundo helênico e romano, primeiramente através da própria cultura popular e depois como filosofia profunda, onde ele situa a obra mais importante, o Corpus Hermeticum, escrito em grego. Eliade vê no hermetismo um imenso sincretismo de filosofias espirituais judaicas, egípcias, iranianas e até mesmo platônicas. É muito difícil, portanto, cravar que Hermes foi somente um homem, ou um deus, ou um grupo de sacerdotes escritores, ou que viveu somente no Egito etc. O que nos importa aqui são os famosos 7 Princípios Herméticos: teria Hermes, seja ele quem for, adivinhado em boa medida os avanços da ciência e do conhecimento modernos milênios atrás? Veremos...

I. “O Todo é Mente; o Universo é Mental.”
Se é verdade que não encontramos teorias científicas de muito destaque que associem o universo diretamente a uma mente, seria apressado afirmar que Hermes chutou em falso logo em seu primeiro princípio. Ocorre que a própria lógica da demonstração deste axioma nos remete ao próprio momento da Criação, e de como “uma substância não pode gerar a si mesma” (como resumiu Benedito Espinosa em sua Ética, muitos séculos depois): ou seja, para algo surgir sem depender de outro algo já existente, há que se ter uma criação mental.

Como já disse Carl Sagan em Cosmos, “se você quiser fazer uma torta de maçã a partir do zero, você deve primeiro inventar o universo”. É que a única forma de fazer tal torta sem depender da pré-existência dos seus ingredientes é imaginá-los, da mesma forma que imaginamos uma cadeira de madeira sem depender da pré-existência da madeira. Assim sendo, compreender o universo inteiro como uma criação mental nos leva necessariamente ao fato de ele ter tido um início no tempo.

Ora, o próprio termo “Big Bang” foi primeiramente cunhado de forma pejorativa pelo astrônomo inglês Fred Hoyle, que como quase todos os cientistas de sua época, defendiam que o universo provavelmente “esteve sempre lá”, mais ou menos do mesmo tamanho, e que não poderia, de forma alguma, estar se expandindo indefinidamente desde algum ponto no tempo onde seu diâmetro cabia na cabeça de um alfinete. Não ajudava, decerto, o fato da própria teoria do Big Bang haver sido proposta por um padre jesuíta belga, Georges Lamaître, que também calhava de se interessar por astronomia e cosmologia. Tudo aquilo parecia bíblico demais, mas no final das contas se comprovou realidade, e toda a astronomia moderna eventualmente se curvou aos fatos.

A diferença é que Hermes não disse que “no princípio Deus criou o céu e a terra”. Ele disse algo distinto: o Todo é o céu e a terra, o Todo é a imaginação divina. O Todo não criou o mundo e depois foi descansar, mas imaginou tudo que há a partir de si mesmo. O Todo simplesmente é.

II. “Assim acima como abaixo; assim abaixo como acima.”
Mais ou menos quando o hermetismo surgiu no mundo grego, já era válida a chamada “física aristotélica”, baseada nas ideias de Aristóteles sobre o Cosmos. Ela foi inicialmente tão respeitada que era quase intocável, mas eventualmente sofreu críticas e, somente muitos séculos depois, com o advento do telescópio e da ciência moderna, foi derrubada em definitivo.

Ora, há pelos menos dois princípios fundamentais da física aristotélica que batem de frente com o segundo axioma de Hermes. Segundo Aristóteles, objetos muito acima da superfície da Terra não são constituídos por matéria originalmente terrestre, comum, mas pelo chamado Éter ou Quintessência. Ele também defendia que o Sol e os planetas são esferas perfeitas que não se alteram. Bem, isso basicamente queria dizer que o Céu, ou tudo que havia para além da Terra, não seguia as mesmas leis físicas, tampouco era constituído da mesma matéria básica. Não foi isso que arriscou Hermes, seu princípio diz claramente que as mesmas leis que valem acima, no Céu, devem valer abaixo, na Terra; muito embora elas possam variar em grau, tal variação jamais será absoluta.

Hoje sabemos que somos formados pela poeira de estrelas, que os elementos pesados de nosso corpo foram todos forjados no núcleo estelar, e que nossa matéria é prima de toda a matéria do universo, seja em que ponto estiver no espaço e no tempo... Hermes não precisou de telescópio para acertar mais um chute. Um sujeito muito sortudo, eu diria!

III. “Nada se encontra parado; tudo se movimenta; tudo vibra.”
Quando Hermes elaborou tal axioma, o máximo que se podia observar do mundo atômico era o que se conseguia enxergar com olhos nus. Demócrito fala em átomos indivisíveis, e dizem que tal ideia veio da observação de poeira flutuando pelos raios de sol de alguma tardinha. Tudo bem, o filósofo grego não estava longe da verdade, mas como, como diabos Hermes pode ter tomado conhecimento de que tudo o que há de fato está em constante vibração, e jamais parado?

As ideias de Demócrito só vieram a ser revistas em meados do século XIX, sendo que a física de partículas e a mecânica quântica só surgiram para valer na ciência moderna no século passado. Hoje sabemos que no mundo atômico e subatômico, as partículas não somente estão vibrando incessantemente, como sequer podem ser medidas com grau completo de certeza quanto a sua posição e movimento: segundo o princípio da incerteza na física quântica, ou sabemos de uma informação, ou de outra.

Em seu estado mais fundamental, os elementos que constituem o Cosmos estão não somente em vibração eterna, como se movimentam de forma tão elusiva que sua posição no espaço é antes uma probabilidade do que uma certeza. Como já disse uma vez um físico muito simpático, “se você acha que entendeu alguma coisa sobre mecânica quântica, então é porque você não entendeu nada”.

No entanto, há milênios atrás, sem microscópio algum, o lazarento do Hermes acertava na mosca mais uma vez. O que será que ele fumava?

IV. “Tudo é Dual; tudo tem polos; tudo tem o seu par de opostos; igual e desigual são o mesmo; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os extremos se encontram; todas as verdades são nada mais que meias-verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados.”
Embora tenhamos chegado num dos axiomas que tratam mais de conceitos metafísicos do que físicos, é inegável que Hermes já falava em polaridade desde o mundo antigo.

Todo mundo que já teve de trocar as pilhas do seu controle remoto já viu que há em cada uma delas um polo positivo [+] e um negativo [-]. Tal conceito fundamental do eletromagnetismo é também um fruto dos avanços da ciência moderna. Assim, ainda que para nossa ciência atual não esteja tão claro que absolutamente tudo na natureza tenha dois polos, pelo menos nesse aspecto (eletromagnético) Hermes acertou, mais uma vez.

V. “Tudo flui, para fora e para dentro; tudo tem suas marés; tudo sobe e cai; a oscilação pendular se manifesta em tudo; a medida da oscilação à direita é a medida da oscilação à esquerda; o ritmo é a compensação.”
Novamente um axioma mais metafísico do que propriamente científico. No entanto, foi somente recentemente na história da ciência que desvendamos todos os segredos das marés, ou seja, as oscilações cíclicas no nível da água dos oceanos.

Na época de Hermes muita gente ainda deveria acreditar que os mares escoavam para o abismo no fim do mundo, que era compreendido como algo plano. Hermes não, o danado parece que ficava imaginando como seria o futuro, e chutou com felicidade de novo.

VI. “Toda Causa tem o seu Efeito; todo Efeito tem a sua Causa; tudo ocorre de acordo com a Lei; o Acaso é tão somente um nome para uma Lei não reconhecida; existem muitos planos de causalidade, mas nada escapa à Lei.”
Este talvez seja o axioma mais científico de Hermes. Parece simples para muitos de nós hoje imaginar que nenhum pedregulho sequer rola de uma encosta montanhosa sem uma causa física anterior, como chuvas torrenciais ou a lenta degradação da mata no entorno. Porém, numa época onde o pensamento mágico era ainda amplamente aceito, arriscar dizer que nada poderia simplesmente surgir ou ocorrer do nada, ao acaso, como num passe de mágica, ainda era algo revolucionário.

Ah sim, e ele acertou outra vez!

VII. “O Gênero está em tudo; tudo tem seu Princípio Masculino e Feminino; o Gênero se manifesta em todos os planos.”
A primeira vista este último axioma parece, de todos, o chute mais fácil de ter sido acertado naquela época. Afinal, bastava olhar para os homens e as mulheres, e os machos e as fêmeas no mundo animal, e elaborar uma teoria básica.

No entanto, Hermes parece ter se referido a algo mais profundo, algo com o que a psicologia só veio a esbarrar mais seriamente nos dias atuais: gênero não é sexo biológico, e sexo biológico não é gênero. Se há crianças que, desde bem novas, dizem “estarem presas no corpo errado”, é que enxergam a si mesmas antes pelos princípios, seja masculino ou feminino, que dominam sua alma, do que propriamente pelo corpo em que habitam.

A transexualidade é ainda um tabu tão grande que foi somente neste ano, 2018, que a Organização Mundial da Saúde (OMS) a retirou da lista de transtornos mentais. Hoje por todo o mundo civilizado se debate o que é gênero, e se existe mesmo alguém 100% macho ou fêmea, ou, se pelo contrário, se todos somos compostos por uma mescla de princípios ou energias masculinas e femininas.

Assim, há muita gente que nunca ouviu falar de hermetismo, que sequer acredita em alma ou reencarnação, que se debruça profundamente sobre tais questões de gênero; algo que, de certa forma, Hermes também antecipou há milênios...

Como pode ser tão sortudo?
Mas, como pode Hermes ter sido tão afortunado em tantos chutes? Ou será que ele dispunha de ferramentas que nós não dispomos, ou pelo menos ainda não identificamos em nós mesmos?

Teria Hermes adivinhado tudo isso por pura simpatia da Deusa Fortuna, ou teria ele descoberto tudo isso e muito mais contemplando aos espaços misteriosos de sua própria mente?

Essas são questões que merecem ser consideradas com carinho por todo estudante de hermetismo. Se Hermes foi algum deus, foi também outro sábio da sua época quem disse: “sois deuses, e dia virá em que farão tudo isso que eu tenho feito, e ainda muito mais”. Ora, se eles foram deuses, nós também somos da raça dos deuses. Nós também somos cocriadores nesta Criação. Nós também somos a imagem e a semelhança do Todo. Agora, basta navegar adentro...

Boa viagem, ó argonautas da mente!

***

» Veja também a minha tradução do Caibalion, e o artigo O dia em que a terra parou, onde jogamos luz no papel que o hermetismo teve no próprio advento da chamada ciência moderna, com Copérnico e Galileu.
 
Crédito das imagens: [topo] Google Image Search; [ao longo] The Ritman Library; Google Image Search.

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13.7.18

Pensamento e linguagem

É possível haver pensamento sem linguagem?

Filósofos como Platão, Descartes, Kant e Henri Bergson acham que a linguagem é a manifestação de algo “superior”, como o intelecto, as ideias, a mente, a subjetividade ou, simplesmente, a razão.

Outros, como Charles Peirce, John Dewey, Wittgenstein e Habermas, em geral os linguistas e os estruturalistas, consideram que as capacidades de raciocínio, pensamento, recordação, memória e associação, enfim, o que se rotula como “mental”, dependem do aprendizado de signos, de apreensão e interpretação de imagens e símbolos.

Eu vou tentar aqui resolver essa pendenga histórica da filosofia sem citar filósofos (exceto Descartes, pois será necessário), apelando somente para o senso lógico de vocês. Pode parecer um assunto complexo a primeira vista, destinado a ser debatido “somente pelos grandes pensadores”, mas eu acho justamente o oposto: creio que qualquer um de nós com um pouco de bom senso, e sendo encaminhado passo a passo por certos conceitos, é capaz de perceber por si mesmo, de uma vez por todas, se há pensamento sem linguagem.

Então, vamos lá! A primeira coisa que precisaremos fazer é definir o que é exatamente pensamento e linguagem. Vamos começar pelo pensamento:

Etimologicamente, pensar significa avaliar o peso ou as características de alguma coisa. Em sentido amplo, podemos dizer que o pensamento tem como missão tornar-se o avaliador da realidade. Por exemplo, você pode ver três maçãs em cima de uma mesa, e ao comparar umas com as outras, poderá dizer qual é grande e qual é pequena. Qual é a menor de todas, qual a maior de todas, e qual a que é maior do que uma e menor do que a outra. Isso, é claro, considerando que elas tenham dimensões claramente díspares ao olho nu. Maçãs muito parecidas em tamanho serão classificadas pelo pensamento como iguais, seria necessária a ajuda de uma lente de aumento ou de alguma medição científica para determinarmos com exatidão plena qual a maior e qual a menor. Ainda assim, “maior” e “menor” farão parte de conceitos interpretados pelo pensamento.

Se formos nos limitar ao conceito do parágrafo acima, parece claro que seria impossível pensar sem usar linguagem, uma vez que estaríamos sempre avaliando alguma coisa, gerando uma intepretação clara e evidente a partir de uma observação da mente. Ocorre que o pensamento não é só isso, ou pelo menos foi assim que o definiu Descartes (e esta é a última vez que citarei um filósofo nesse artigo):

A essência do homem é pensar. (Por isso eu dizia): “Sou uma coisa que pensa, isto é, que duvida, que afirma e que ignora muitas coisas, que ama, que odeia, que quer e não quer, que também imagina e que sente”. (Logo quem pensa é consciente de sua existência): “penso, logo existo”.

Ora, pelo que foi dito acima, “penso, logo existo” seria tão válido quanto “imagino, logo existo”; ou “duvido, logo existo”; ou até mesmo “sinto, logo existo”. Nesse sentido chegamos à conclusão de que pensar não é somente o ato racional de se avaliar os objetos e elementos que percebemos em nossa mente, como também imaginar novos elementos, e até mesmo ter experiências misteriosas, como sentir dor ou amar apaixonadamente. Pois bem, agora vai faltar definirmos o que diabos é a linguagem...

Linguagem é geralmente definida como a capacidade especificamente humana para aquisição e utilização de sistemas complexos de comunicação. O estudo científico da linguagem, em qualquer um de seus sentidos, é chamado linguística. Os códigos e outros sistemas de comunicação construídos artificialmente, como aqueles usados ​​para programação de computadores, também podem ser chamados de linguagens – a linguagem, nesse sentido, é um sistema de sinais para codificação e decodificação de informações (guardem esse termo, “informação”).

De acordo com muitos estudiosos, a linguagem pode ter se originado quando os primeiros hominídeos começaram a cooperar, adaptando sistemas anteriores de comunicação baseados em gestos e sinais, compartilhando assim intencionalidade. Nessa linha, o desenvolvimento da linguagem pode ter coincidido com o aumento do volume do cérebro, e muitos linguistas acreditam que as estruturas da linguagem evoluíram a fim de servir a funções comunicativas e cognitivas específicas.

A linguagem, como o próprio termo parece indicar claramente, está diretamente relacionada à linguística, a capacidade exclusivamente humana de se interpretar símbolos e compartilhar informações por meio deles, como pela leitura e escrita de alfabetos, ou simplesmente pela vocalização de palavras e conceitos através da fala. Quem defende essa tese dirá que um papagaio pode até repetir o que um ser humano fala, mas não compreende aquilo que repete. Mas, será mesmo que os animais não possuem linguagem?

Bem, eu poderia citar a gorila Koko, por exemplo, que chegou a aprender mais de mil palavras e sinais, e conseguiu se comunicar claramente, embora de forma bem rudimentar, com pesquisadores. Mas ao invés disso vou trazer abaixo um vídeo gravado no Dolphin Quest Oahu, em Honolulu no Havaí, onde peixes treinados são capazes de reconhecer figuras geométricas (símbolos), e assim conseguir alguma comida em troca:

Seriam tais peixes capazes de compreender códigos simples? Seria a gorila Koko um exemplo vivo do surgimento da capacidade de interpretação de linguagem humana entre os animais? Isto vocês que devem definir, pois a maioria dos especialistas parece ter a certeza de que animais não compreendem linguagem.

Mas, para arrematar, precisaremos voltar a Descartes (ops, trouxe um maldito filósofo outra vez, me desculpem)...

Vocês se lembram que ele definiu o pensamento como algo que se imagina e que se sente, não é mesmo (está alguns parágrafos acima, caso queiram reler)? Pois bem, então imagine que você está imensamente apaixonado por alguém, como exatamente você vai explicar o seu sentimento em linguagem, em códigos simbólicos, em palavras escritas ou vocalizadas? Parece problemático, não?

E não precisamos nos referir a nada tão misterioso e transcendente como o “sentir amor”, ou ainda o “sentir dor”, ou mesmo o “adorar a Deus” ou “se assombrar com a Natureza”, podemos ter o mesmo tipo de problema ao observar aquelas mesmas maçãs em cima da mesa, e tentar explicar como exatamente percebemos “a vermelhidão do vermelho” em suas cascas. Pois que, no fundo, as palavras são tão somente cascas de sentimento, incapazes de abarcar completamente o sentimento e a imaginação humana (não a toa há um ditado popular que diz: uma imagem vale mais do que mil palavras).

Se um cientista, um linguista, quiçá um filósofo especialista em linguagem, fosse capaz de definir o amor em palavras, a poesia seria então ciência ou filosofia, e não arte.

Dessa forma, me parece que é claro que, dadas as definições usuais para “pensamento” e “linguagem”, que o pensamento precede a linguagem: enquanto esta é o fruto, aquele é a semente. E não só isso: há pensamentos que jamais conseguirão ser expressos claramente ou inteiramente em linguagem, há horizontes da mente humana intransponíveis, que jamais poderão ser comunicados inteiramente tanto aos demais, como a própria mente que “pensa, logo existe”.

Se, no entanto, consideramos a linguagem como um processo que lida com qualquer tipo de informação mental, não somente as humanas, ou as capazes de serem codificadas e decodificadas em linguagem humana, então seria melhor dizer que é impossível haver pensamento sem informação (e não sem linguagem)!

Informação, etimologicamente significa “dar forma a mente”. Me parece que os antigos, portanto, já tinham todo o mistério resolvido lá atrás: o pensamento dá forma a mente, mas não necessariamente uma forma unicamente racional, exprimível em linguagem humana. Muitas vezes, pensar é dar forma ao amor, dar forma ao medo, dar forma ao assombro perante o mistério da vida. Existimos, enfim, não somente porque sabemos que uma maçã é maior do que outra, mas essencialmente porque percebemos o vermelho, e não há outro instrumento na Natureza capaz de fazer o mesmo: interpretar o mundo, e não somente computar informações em linguagem.

Enfim, somos seres e não robôs. Se isto é algo “superior” ou “divino”, vai da crença de cada um. Mas não podemos ignorar os fatos, não podemos fingir que somos coisas pensantes, pois não há “coisa pensante”.

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Crédito da imagem: Google Image Search

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2.7.18

Gibran, a luz do Líbano

Gibran Khalil Gibran, mais conhecido no Brasil como Khalil Gibran ou apenas Gibran, foi o maior poeta do Líbano e um dos maiores poetas de todos os tempos, pelo menos no que tange a poesia mística. Além de poeta, foi filósofo e pintor de relativo destaque. Mas sem dúvida é hoje mais conhecido pela sua literatura, sobretudo por sua obra-prima, O Profeta.

Ele nasceu em 6 de dezembro de 1883, de família pobre. Cresceu em zona montanhosa próxima a uma floresta de cedros milenares, num dos berços mais antigos da própria civilização humana.

Em 1894 emigra para os EUA com a mãe, o irmão e duas irmãs. Apenas seu pai fica no Líbano. Gibran passa cerca de 4 anos em Boston com sua família, mas em 1898 retorna a sua terra natal para completar seus estudos árabes no Colégio da Sabedoria, na capital Beirute. Passados menos de 2 anos, retorna a Boston e passa a se dedicar a pintura e a literatura, sendo sustentado pela família.

Entre abril de 1902 e junho de 1903, Gibran perde uma irmã e um irmão para a tuberculose, e vê a mãe morrer de câncer. Resta apenas sua irmã Mariana, o que obriga Gibran a correr atrás de algum retorno financeiro para sua pintura (algo que já era difícil naquela época). Felizmente, numa de suas primeiras exposições conhece Mary Haskell, diretora de uma escola em Boston, que se torna uma mecenas e confidente durante boa parte de sua vida.

Com a ajuda de Haskell, em 1908 vai estudar arte em Paris e chega a conhecer e ter algumas aulas com o escultor Auguste Rodin. Voltando aos EUA em 1910, já tem sua carreira artística inicialmente consolidada, e decide se mudar para um estúdio em Nova York. Lá ele passará o resto da vida.

Em sua terra natal, seus livros em árabe já o tinham tornado um escritor muito reconhecido. Entretanto, após decidir traduzir alguns de seus livros do árabe para o inglês, ele acaba alcançando certo sucesso editorial também nos EUA; para tal, contou com a ajuda do seu editor, Alfred Knopf, e com as revisões e o aconselhamento de sua amiga, Mary, que nessa altura já não tinha mais necessidade de lhe manter financeiramente.

É a partir do sucesso de O Profeta, lançado em 1923, que Gibran passa a ser reconhecido como grande escritor, além de pintor. Com o passar das décadas, ele será lembrado em todo o Ocidente e no Oriente Médio como o grande poeta do Líbano. No entanto, Gibran mal participa desta fama internacional, uma vez que falece já em 10 de abril de 1931, em decorrência de uma crise pulmonar (a sua saúde sempre fora frágil).

A filosofia do coração
Segundo Mansour Challita, diplomata libanês que ajudou a traduzir boa parte de sua obra para o português, “Gibran não era um filósofo no sentido transcendental da palavra. Não trouxe uma nova doutrina, uma nova interpretação do universo. Ele era um filósofo no sentido humano da palavra, um pensador, um guia.

Gibran nos trouxe o que talvez mais falte a nossa época, tão rica e tão pobre ao mesmo tempo: uma nova fé no homem, uma nova fé na vida. Ele redescobriu o papel do coração. Pregou a ternura no meio das máquinas e da concorrência impiedosa dos nossos tempos.”

Como tão bem descrito em O Profeta, Gibran não veio nos ensinar nada novo, mas simplesmente nos ajudar a florescer. A sua filosofia era mais coração que razão, mais poesia que lógica:

Homem algum poderá lhes revelar nada além do que já se encontra meio adormecido na aurora do que vocês já conhecem. O mestre que caminha à sombra do templo, junto aos seus alunos, não doa da sua sabedoria, mas antes da sua fé e da sua compaixão. Se ele é realmente sábio, não lhes convidará a adentrar na mansão da sua sabedoria, mas antes deverá lhes guiar até o limiar de suas próprias mentes.

O astrônomo poderá lhes falar de sua compreensão do espaço, mas não poderá lhes doar esta compreensão. O músico poderá cantar para vocês seguindo ao ritmo que existe em todos os espaços, mas não poderá lhes conferir o ouvido que capta a melodia, nem a voz que a ecoa. E aquele que é versado na ciência dos números poderá lhes falar do mundo dos pesos e medidas, mas não poderá lhes encaminhar até ele.

Pois a visão de um homem não empresta suas asas ao outro. E assim como cada um de vocês se encontra isolado na consciência de Deus, da mesma forma cada um de vocês deve ter o seu próprio conhecimento de Deus e a sua própria compreensão do que jaz na terra.

Os filhos
Gibran acreditava no porvir, na lenta e gradual evolução espiritual da humanidade. Isso se refletia na forma com que tratava as crianças. Apesar de nunca ter tido filhos, Gibran parecia saber muito bem de onde eles vêm:

Seus filhos não são seus filhos. Eles são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Eles vêm através de vocês, mas não de vocês, e embora eles vivam ao seu lado, eles não pertencem a vocês.

Vocês podem lhes dar seu amor, mas não podem formar seus pensamentos, pois eles possuem seus próprios pensamentos. Vocês podem abrigar seus corpos, mas jamais suas almas, pois suas almas residem na Mansão do Amanhã, que vocês não podem visitar nem mesmo em sonhos.

Vocês podem lutar para ser como eles, mas não procurem fazê-los como vocês. Pois a vida não anda para trás e nem se demora com o ontem.

Não a paz, mas a espada
Gibran sempre foi muito intenso, seja na poesia, seja na pintura, seja em sua vida pessoal (o que pode ser conferido nas cartas que trocou com Mary). Ele parece ter vivido com o coração aberto, mas isto não significa que achava que o amor era algo “tranquilo e pacífico”. Assim como o Cristo, Gibran via no amor uma verdadeira guerra, uma guerra interna:

Quando o amor lhes acenar, sigam-no, embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados. E quando suas asas lhe envolverem, aceitem-nas, embora a espada oculta em suas plumas possa lhes ferir. E quando ele lhes falar, acreditem no que diz, embora sua voz possa despedaçar os seus sonhos como o vento do norte devasta ao jardim.

Pois assim como o amor os coroa, ele também os crucifica. E da mesma forma que auxilia em seu crescimento, trabalha também para a sua poda. E assim como ascende a sua altura e acaricia os seus ramos mais tenros que se agitam ao sol, também desce até suas raízes e as sacode em seu apego à terra.

Como feixes de trigo, ele os aperta junto a si. Ele os debulha para expor-lhes a nudez. Ele os peneira para livrar-lhes das suas cascas. Ele os mói até a extrema brancura. Ele os amassa até que se tornem maleáveis. Então ele os encaminha ao fogo sagrado, para que possam se tornar o pão místico do banquete divino.

Todas essas coisas o amor irá operar em seu interior para que conheçam aos segredos de seus próprios corações, e através deste conhecimento se tornem um fragmento do coração da Vida.

Entretanto, acaso em seu medo vocês buscarem apenas a paz e o prazer do amor, então será melhor que cubram a sua nudez e abandonem ao açoite do amor, para que deem risadas num mundo sem estações, mas nem todos os seus risos; e chorem, mas nem todas as suas lágrimas.

O amor nada oferece além de si mesmo e nada recebe além de si mesmo. O amor não possui, e tampouco pode ser possuído; pois o amor se basta em si mesmo.

Quando você ama não deveria dizer, “Deus está em meu coração”, mas sim, “Eu estou no coração de Deus”.

Na floresta
Se em O Profeta Gibran chegou ao limite da linguagem, em alguns de seus poemas isolados ele chega naquela zona mística onde as palavras já não dão conta de cobrir todo o entendimento. Assim, encerro aqui meu breve translado pela vida e a obra da luz do Líbano com Na floresta, talvez o seu poema mais inefável:

Na floresta não existe nem rebanho, nem pastor.
Quando o inverno caminha, segue seu distinto curso como faz a primavera.
Os homens nasceram escravos daquele que repudia a submissão,
se ele um dia se levanta, lhes indica o caminho, com ele caminharão...
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o pasto das mentes,
e o lamento da flauta perdura mais que rebanho e pastor.

Na floresta não existe ignorante ou sábio.
Quando os ramos se agitam, a ninguém reverenciam.
O saber humano é ilusório como a cerração dos campos,
que se esvai quando o sol se levanta no horizonte...
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o melhor saber,
e o lamento da flauta sobrevive ao cintilar das estrelas.

Na floresta só existe lembrança dos amorosos.
Os que dominaram o mundo e oprimiram e conquistaram,
seus nomes são como letras dos nomes dos criminosos.
Conquistador entre nós é aquele que sabe amar...
Dá-me a flauta e canta!
E esquece a injustiça do opressor,
pois o lírio é uma taça para o orvalho e não para o sangue.

Na floresta não há crítico nem censor.
Se as gazelas se perturbam quando avistam companheiro, a águia não diz: “Que estranho”.
Sábio entre nós é aquele que julga estranho apenas o que é estranho...
Ah, dá-me a flauta e canta!
O canto é a melhor loucura,
e o lamento da flauta sobrevive aos ponderados e aos racionais.

Na floresta não existem homens livres ou escravos.
Todas as glórias são vãs como borbulhas na água.
Quando a amendoeira lança suas flores sobre o espinheiro,
não diz: “Ele é desprezível e eu sou um grande senhor”...
Dá-me a flauta e canta!
Que o canto é glória autêntica,
e o lamento da flauta sobrevive ao nobre e ao vil.

Na floresta não existe fortaleza ou fragilidade.
Quando o leão ruge não dizem: “Ele é temível”.
A vontade humana é apenas uma sombra que vagueia no espaço do pensamento,
e o direito dos homens fenece como folhas de outono...
Dá-me a flauta e canta!
O canto é a força do espírito,
e o lamento da flauta sobrevive ao apagamento dos sóis.

Na floresta não há morte nem apuros.
A alegria não morre quando se vai a primavera.
O pavor da morte é uma quimera que se insinua no coração,
pois quem vive uma primavera é como se houvesse vivido séculos...
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o segredo da vida eterna,
e o lamento da flauta permanecerá após findar-se a existência.

***
 
Bibliografia
O Profeta, Khalil Gibran (a tradução de Rafael Arrais pode ser encontrada em e-book na Amazon); O Grande Amor do Profeta, com as cartas de Khalil Gibran e Mary Haskell (livro fora de tiragem, mas pode ser achado em sebos); Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search; [ao longo] Arte para o filme O Profeta; Pintura do próprio Khalil Gibran.

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27.4.18

As grandes questões do ocultismo (tomo final)

« continuando do tomo III


Imagine esta noite, há dez mil anos, fria e úmida, nalgum canto europeu onde tudo o que os homens sabiam acerca de outros homens se resumia a tribos que foram vistas de passagem pela margem da floresta, e que logo se esconderam dos olhares estranhos. Um mundo ancestral, onde vivíamos isolados, andarilhos vivendo da caça e da coleta, temerosos dos trovões e da raiva dos deuses. Conectados, em todos os momentos, à Natureza em nossa volta, ao ponto de nem precisar lhe dar um nome: a Natureza já era todo o mundo.

Alguns poucos dentre nós eram escolhidos, geralmente desde a infância, para serem os discípulos do xamã da tribo, aprendendo com ele todos os dias e todas as noites a se comunicar com os espíritos de antigos heróis e sábios tribais, assim como com os seres etéreos da natureza; e, de vez em quando, até mesmo com alguns dos seus deuses. Um xamã abandonava seu corpo, sua mortalha, para ir habitar do outro lado, e então o seu discípulo assumia o seu lugar, e logo escolheria outro para também um dia lhe substituir no futuro, pois que nenhuma tribo era capaz de sobreviver por muito tempo sem o auxílio daquele que se comunica com espíritos, que dá conselhos sobre as caçadas e conhece todos os segredos das ervas medicinais.

Imagine esta noite, ao redor da fogueira, onde o velho xamã canta (acompanhado de alguns tocadores de tambor) antigos poemas sobre caçadas épicas, tempos de fartura de frutos, e metamorfoses de seu próprio ser com diversos animais – vivenciadas em transe profundo, no único lugar onde todos os seres fantásticos, os espíritos, os deuses e demônios existem incontestavelmente: a mente humana.

Nessa era, quando todos os conhecimentos espirituais eram centrados na figura do xamã, a magia sequer tinha um nome. Por se tratar “de tudo o que tem relação com o espírito humano”, ela não precisava realmente ser rotulada, reduzida a uma palavra, um signo... no entanto, se um xamã fosse intimado a falar acerca da sua teologia, ele provavelmente responderia como um sacerdote xintoísta respondeu a Joseph Campbell: “nós não temos teologia, nós dançamos”.

Desde os primórdios da humanidade, a mente e o espírito sempre encontraram caminhos propícios para transbordar sua subjetividade no mundo objetivo, para de alguma forma estranha, tornar possível a migração de informações do mundo das ideias, do mundo interior, onde tudo é fluido, onde tudo pode ser simplesmente imaginado, até o mundo das coisas, até o mundo exterior, onde tudo tem corpo e forma, onde tudo tem o seu tempo de nascer, viver e morrer. Assim, sempre nos pareceu (e para a maioria de nós ainda parece) que este mundo dito objetivo é mais como uma passagem, um entrecruzamento de vias férreas, onde os trens de nossas vidas podem apitar uns para os outros, por breves períodos, até que precisem novamente zarpar para a próxima estação.

Lá no início de tudo, lá, muito antes da linguagem, a magia já brotava como uma espécie de noivado com a consciência. Através da magia, o que era somente imaginado pôde, passo a passo, ser transferido para o mundo lá fora. Na falta de um nome melhor, lhe chamamos A Arte...

Enclausurados no fundo das cavernas, com pouquíssima iluminação, se valendo de sangue animal e de tintas arcaicas, os xamãs gravaram no ventre da própria Terra imagens de suas caçadas, do que vivenciavam em seus transes, e da morte e renascimento em suas próprias iniciações, quando também eles vieram desvanecer no ventre da Mãe, para renascerem como filhos de Gaia, irmãos de todos os demais xamãs do mundo. E isto, que hoje chamamos de arte rupestre, nada mais foi do que o surgimento da pintura.

Muitos também aprenderam a talhar a pedra não somente para produzir pontas de lanças e flechas, como para trazer ao mundo das formas sólidas as figuras dos mais antigos deuses, sobretudo a Deusa Mãe, com suas formas fartas, garantidora da vida e da fertilidade da tribo. Assim surgiu a escultura.

Da música e da poesia nós já falamos, mas considere como ambas foram reunidas com danças e encenações, quando já não bastava mais somente contar uma história: era preciso reencená-la novamente, e quantas vezes fossem precisas, nas noites em que a tribo rememorava antigos acontecimentos dignos de nota. Muito tempo, e algumas civilizações depois, tais encenações passaram a ser independentes da religião em si, e foram chamadas de teatro pelos gregos antigos. Conforme a ópera e o próprio cinema não poderiam ter surgido sem o teatro, há que se considerar que todos eles ainda derivam, em última instância, da Arte.

Finalmente, foi inventada a escrita, e todas as histórias ancestrais puderam fluir da mente daqueles que as recitavam de memória para os símbolos que, se eram incapazes de trazer consigo todo o sentimento, toda emoção daqueles que um dia cantaram ao redor das fogueiras ancestrais, ao menos podiam registrar com exatidão inimaginável algo que se passava tão somente na mente do xamã. Milhares de anos depois, o próprio ocultismo iria se basear largamente na forma como certas palavras são recitadas, assim como no estilo com a qual elas eram guardadas nos livros e nos grimórios. A isso tudo nós também demos outro nome: literatura.

É bem verdade que os primeiros magi (magus, no singular) eram sacerdotes do zoroastrismo, que mais tarde vieram a ser rotulados de “praticantes de magia” pelos gregos, que ironicamente não viam o que eles faziam com bons olhos. Assim, quando a Arte recebeu o nome “magia”, foi mais por um acidente da história. É curioso como, mais ou menos desde essa época, tudo o que era realizado pelas religiões dos povos estrangeiros foi considerado “magia”, sobretudo como forma de diferenciação para com as práticas sagradas da religião oficial do próprio país. Até hoje é fácil se encontrar coisa parecida: “macumba é magia negra, mas as minhas simpatias, as minhas orações aos santos, isso é tudo coisa de Deus”.

Na realidade, como pudemos ver, desde o xamanismo antigo, a própria religião, a própria religação a Natureza, ao Cosmos e aos deuses, esteve indissociada da Arte. Religião também é, e sempre será, uma forma de magia (uma das mais antigas, por sinal).

Aliás, quando a então famosa pitonisa de Delfos, Temistocleia, iniciou Pitágoras em seus conhecimentos ocultos, ela ainda poderia ser rotulada como “religiosa”. Foi somente quando o próprio Pitágoras ganhou sua fama (basicamente evangelizando a sabedoria de sua mestra), que ele eventualmente foi chamado de “filósofo”: amante (filos) da sabedoria (sophia). Assim surgiu a filosofia no Ocidente, e também ela, obviamente, é filha da Arte.

Desde Demócrito os antigos “filósofos da Natureza” (título que, aliás, foi assumido por alguns desta estirpe até poucos séculos atrás) começaram a focar sua atenção também nos eventos que ocorrem lá fora, e investigaram tanto os átomos quanto as constelações. Eratóstenes já sabia que a Terra não era plana cerca de 2 séculos antes de Cristo, e chegou a calcular sua circunferência com precisão invejável. Mas foi alguma espécie de deus ou semideus, Hermes o Três Vezes Grande, quem antecipou em milênios a física de partículas e o estudo de outros sóis e outros mundos: pelo menos desde a antiga Grécia ele já havia arriscado dizer que “tudo vibra, e nada está parado”, e que as leis que regem o Alto são as mesmas que regem o que acontece por aqui.

Quando Nicolau Copérnico publicou o seu célebre Das revoluções das esferas celestes, algumas linhas abaixo da primeira ilustração do heliocentrismo estava descrita a sua maior inspiração: Hermes Trimegistus. Diz a “história oficial” que a Igreja mandou um de seus monges (Giordano Bruno) para a fogueira simplesmente por defender que a Terra girava em torno do Sol. Eles preferem ignorar o que realmente se passou, e como Bruno quis fundir o cristianismo com o hermetismo, criando uma nova religião cósmica. Tivesse tido sucesso, o mundo ocidental seria hoje muito, muito diferente...

Em todo caso, fato é que o que havia se iniciado lá em Demócrito hoje está plenamente consolidado na era moderna: a separação definitiva entre a Arte e a ciência, entre a alquimia e a química, entre a astrologia e a astronomia, entre o conselho xamânico e a psicanálise.

Diz o atual dogma científico que nada do que escapa ao puramente objetivo deve ser considerado pela ciência. Nem sempre foi assim, mas hoje a Academia prefere relegar o que pode ser chamado de “sobrenatural” as “esquisitices da mente” e ao efeito placebo. Que seja, que a magia seja a arte de se catalisar efeitos placebo. E, quanto à mente, bem, é justamente nela que se passa toda a nossa existência, seja ela “esquisita” ou “normal” (não sabemos o que é mais estranho).

Foi mais ou menos assim que a Arte se decompôs em inúmeras partes, infindáveis campos de estudo, incontáveis maneiras de se contemplar a Natureza. No entanto, se pudéssemos voltar atrás, e reconciliar toda a nossa sociedade de acordo com os preceitos arcaicos do xamanismo, ainda seríamos divididos entre caçadores e artistas. Ora, felizes aqueles que não necessitam caçar para sobreviver, e podem se dedicar plenamente a Arte, e a sua Grande Obra. Para isso, sim, meus irmãos, para isso vale a pena estar aqui, para isso vale a pena apontar nossos espelhos pequeninos para a luz do Alto, a luz que se encontra espalhada por tudo o que há, mas que ainda é invisível para quem se arrasta sonolento pela existência.

Acorde! Recorde que você é um homem, que veio de uma estrela, que está em uma estrela, que irá para outra estrela...

Imagine esta noite, há dez mil anos, com você sentado ao redor da fogueira. Imagine, sinta como a sua chama lhe aquece. Feche os olhos e veja: na sua frente, do outro lado da fogueira, está um xamã ancestral, também de olhos fechados. Ele abre os olhos, e lhe encara... de alguma forma, você sabe, você sempre esteve lá. Isto é Ars Magica.

Pouse suavemente. Os mensageiros orientam...


raph’18

***

Crédito das imagens: [topo] TASS/Vladimir Smirnov (xamã siberiana); [ao longo] Sisse Brimberg/National Geographic (arte rupestre na caverna de Lascaux, França); Google Image Search (Angkor Wat).

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20.4.18

As grandes questões do ocultismo (tomo III)

« continuando do tomo II

Seja feita a Vossa vontade assim na terra como no céu (Oração do Pai Nosso)


Muitos devem conhecê-lo como “aquele ocultista inglês que apareceu na capa do disco dos Beatles”, outros ainda como “o profeta do novo Aeon de Hórus”; mas Aleister Crowley preferia se autointitular “Mestre Therion”, ainda que a mídia de sua época o chamasse de “o homem mais perverso do mundo”. Não se pode dizer que Crowley passou desapercebido por aqui...

Quanto a ser um ser perverso, eu preferiria guardar esse tipo de julgamento para assassinos em massa, torturadores e defensores da tortura, terroristas em geral, gente que suga sangue de verdade dos outros – Crowley nunca fez nada disso, pelo menos que se saiba. No entanto, se você julga que “todo ocultista é perverso porque trata com o Demônio”, então talvez seja melhor reler o que já foi dito no tomo I.

Na verdade, Crowley foi uma espécie de Allan Kardec bem mais liberal, principalmente no que tange ao sexo e a participação em ordens esotéricas. Eu explico: assim como Kardec, que codificou sua obra-prima (O Livro dos Espíritos) a partir de perguntas e respostas a jovens médiuns incorporadas, Crowley fez algo parecido com o seu Livro da Lei, com a diferença relevante que se valeu da mediunidade de sua própria esposa na época, ao contrário do fundador espírita, que recorreu a quatro adolescentes.

Bem, na verdade há mais diferenças: enquanto Kardec jamais psicografou diretamente de algum espírito, Crowley na realidade usou a mediunidade da esposa apenas para ter o contato inicial com uma entidade espiritual chamada Aiwass, que por sua vez falava em nome de Hórus, o antigo deus egípcio dos céus. Foi “escutando a voz de Aiwass ditando por sobre o seu ombro esquerdo”, sem ser visto, que Crowley redigiu todo o Livro da Lei. Segundo o ocultista, a voz era “de um timbre profundo, musical e expressivo, com tons solenes, voluptuosos e tenros, flamejante e despida de tudo que não fosse o conteúdo da mensagem. Não um baixo, talvez um rico tenor ou barítono”.

Assim sendo, o seu processo de escrita pode ser considerado profético; como ocorreu com Maomé, que redigiu o Alcorão também pelo ditado do anjo Gabriel (neste caso, com a ajuda de secretários letrados). Mas, seria Aiwass um anjo? Um espírito? Um aspecto do inconsciente do próprio Crowley? Seja como for, o que importa é a mensagem, não como ela chegou a este mundo... e a mensagem de Crowley fala sobretudo de Vontade. Não uma vontade como outra qualquer, o desejo de tomar um sorvete, ou de comprar um carro – nada disso, ele falou de thelema, e a sua lei foi resumida neste trecho relativamente conhecido do público em geral:

Faze o que tu queres há de ser o todo da Lei.
O amor é a lei, amor sob vontade.

“Torne-se aquilo que você é”
Friedrich Nietzsche resgatou esta antiga frase de Píndaro mais ou menos na mesma época em que Crowley também buscava, justamente, descobrir a si mesmo, saber o que na realidade habitava em seu ser mais profundo.

Saber quem se é não deixa de ser um primeiro passo necessário para se tornar o que se é. Assim sendo, também podemos traçar um paralelo até o antigo templo de Delfos, onde segundo Platão, Sócrates leu e foi decisivamente inspirado pela frase: “conhece-te a ti mesmo, e conhecerás aos deuses e ao universo”.

Curiosamente, não há nada mais difundido na modernidade ocidental, nada mais na moda, do que as frases marqueteiras que lhe incentivam a “encontrar o que realmente ama”, e seguir em frente a partir dali, rumo à felicidade... O problema é que o que você ama, do ponto de vista de nosso mundo consumista, invariavelmente estará fora de você, será um produto. Existem variações, é claro, às vezes você mesmo pode ser o produto, como as musas fitness que estão sempre em forma, sempre felizes, sempre “profundamente espiritualizadas”.

Mas, se o caminho para nossa essência fosse tão simples, se as agências de marketing pudessem de fato realizar o mergulho em nós mesmos, todos já seríamos profundamente místicos: não, é só o caminhante quem pode mergulhar; instrutores de mergulho, ou pior, manuais de natação, jamais substituirão tal experiência.

Talvez fraquejemos. Talvez, como Crowley, nós não consigamos seguir 100% do tempo as nossas próprias instruções angelicais, e acabemos mais hedonistas, mais epicuristas que se perderam da ataraxia, do que gostaríamos de admitir. Mas ninguém disse que o caminho para a Verdadeira Vontade seria simples como um passeio no parque. Também já nos disse o doce rabi: “não vim trazer a paz, mas a espada”. Também nós mesmos precisaremos caminhar isolados no deserto, para também sermos tentados pelos nossos próprios demônios, para que possamos compreender, para que possamos saber, enfim, qual é a nossa Vontade, a nossa thelema.

A alma do universo inteiro
Para facilitar a compreensão da lei trazida ao mundo por Crowley, talvez seja mais fácil recorrer a outro monumento do ocultismo britânico, Mr. Alan Moore [1]:

Quando cumprimos a vontade de nosso verdadeiro Eu, nós estamos inevitavelmente cumprindo com a vontade do universo. Na magia, ambas as coisas são indistinguíveis. Cada alma humana não é, de fato, uma alma humana: é a alma do universo inteiro. E, enquanto você cumprir a vontade do universo, é impossível fazer qualquer coisa errada.

Muitos dos magos como eu entendem que a tradição mágica ocidental é uma busca do Eu com “E” maiúsculo. Esse conhecimento vem da Grande Obra, do ouro que os alquimistas buscavam, a busca da Vontade, da Alma, a coisa que temos dentro que está por trás do intelecto, do corpo e dos sonhos. Nosso dínamo interior, se preferir assim. Agora, esta é, particularmente, a coisa mais importante que podemos obter: o conhecimento do verdadeiro Eu.

Assim, parece haver uma quantidade assustadora de pessoas que não apenas têm urgência por ignorar seu Eu, mas que também parecem ter a urgência por obliterarem-se a si próprias. Isto é horrível, mas ao menos vocês podem entender o desejo de simplesmente desaparecer com essa consciência, porque é muita responsabilidade realmente possuir tal coisa como uma alma, algo tão precioso. O que acontece se a quebra? O que acontece se a perde? Não seria melhor anestesiá-la, acalmá-la, destruí-la, para não viver com a dor de lutar por ela e tentar mantê-la pura? Creio que é por isso que as pessoas mergulham no álcool, nas drogas, na televisão, em qualquer dos vícios que a cultura nos faz engolir, e pode ser vista como uma tentativa deliberada de destruir qualquer conexão entre nós e a responsabilidade de aceitar e possuir um Eu superior, e então ter que mantê-lo.

Entendem agora como a espada do Cristo era, de fato, afiada? É impossível alcançar nossa alma, nossa Verdadeira Vontade, sem antes morrer para a “vontade do ego”, sem antes morrermos para nossa natureza animal e renascermos, como o próprio Cristo, na plena posse de nossa natureza humana, no sentido mais pleno de “ser humano”.

Faze o que tu queres: porém há poucos que conseguem estar de fato conectados, todo o tempo, a este “tu”, a este Eu superior, para cumprirem a sua própria Vontade.

Há de ser o todo da Lei: não há Lei maior do que a Lei do Cosmos, da Natureza, do Sagrado. Somente ela dá conta da totalidade de nossa existência, e de todas as demais existências, em todos os tempos, em todos os cantos do universo.

O amor é a lei: não há em todo o universo algo mais eterno, mais transcendental, mais primordial que o amor. O amor é a essência da realidade, e tudo o que há segue em seu caminho tão somente para despertar a sua própria compreensão do que vem, de verdade, a ser o amor.

Amor sob vontade: fôssemos criados já como seres plenamente amorosos, na plena compreensão do amor, seríamos como anjos, como autômatos criados para servir as leis universais, e não seres humanos que, em sua animalidade, em sua Vontade, conseguem evoluir por si próprios. Há Vontade porque alguém lá no Alto não quis que fôssemos robôs.

Assim é que se cumpre a Lei e a Vontade do Céu, e se Crowley lhes parece um mensageiro demasiado sinistro, saibam que o antigo rabi da Galileia não disse coisa muito diferente. Esta é uma tradução mais fidedigna do trecho do Pai Nosso com o qual iniciamos este tomo (veja quem tiver olhos para ver):

Faze com que se realize a tua vontade, na terra, à imagem do céu (Oração do Pai Nosso; tradução ecumênica)


» No tomo final: Ars Magica.

***

[1] Trecho do doc The Mindscape of Alan Moore.

Crédito das imagens: Google Image Search (respectivamente: Aleister Crowley e Alan Moore).

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10.4.18

As grandes questões do ocultismo (tomo II)

« continuando do tomo I

No caminho da mão esquerda nós tomamos a rota direta, que é muito mais extenuante, muito mais perigosa, e onde há maiores chances de uma queda (Zeena Schreck)


Bem, se eu já havia me metido numa enrascada ao tentar definir o que diabos é ocultismo, talvez neste momento tenha me colocado num problema ainda maior: o que são o caminho da mão esquerda e da mão direita, afinal de contas?

Se formos buscar nos canais tradicionais de informação – onde boa parte do ocultismo é entendida de forma tão superficial quanto um super-herói como Hércules (da Marvel), se comparado ao seu mito antigo – temos algo não muito diverso do maniqueísmo raso: “O caminho da mão esquerda é equiparado às maliciosas práticas da magia negra, enquanto o caminho da mão direita refere-se às práticas benéficas da magia branca”. Sim, isto se encontra na Wikipédia; não é a toa que tão poucos sabem o que é ocultismo...

Um dos problemas de se tentar definir o que é o chamado caminho da mão esquerda (Left Hand Path: LHP) e a sua “contraparte”, o caminho da mão direita (Right Hand Path: RHP), é que muitas vertentes ocultistas formaram opiniões diversas sobre eles. Há quem creia que só devemos falar em LHP; há quem diga que podemos falar em ambos, mas que não são exatamente opostos; há quem atribua características tão díspares para LHP e RHP, que fica quase impossível uma definição única. No entanto, há pelo menos uma espécie de “consenso geral”: o de que LHP vem de práticas espirituais heterodoxas, por vezes individuais; e o RHP, por sua vez, favorece as práticas ortodoxas, geralmente baseadas nos ensinamentos de uma coletividade eclesiástica.

Tudo teve início na Índia...
Talvez surpreenda a muitos ocultistas ocidentais, mas os termos LHP e RHP surgiram inicialmente na Índia, mais precisamente dentre os praticantes do tantra, que pode ser aqui brevemente resumido como o “ocultismo hindu” (na verdade ele é muito mais que isso; apenas não terei tempo para entrar no tema nesta série). No Oriente, o RHP, ou Dakshinachara, se refere a doutrinas e/ou grupos que seguem princípios éticos, morais e filosóficos mais rígidos e conservadores, com forte tendência ortodoxa; por sua vez, o LHP, ou Vamachara, se refere a doutrinas e/ou grupos com práticas heterodoxas em sua maioria, que reforçam e induzem o questionamento e a oposição moral, não adotando estruturas éticas e filosóficas complexas. É preciso lembrar, no entanto, que isso já é muito distante da dualidade infantil de “bem” e “mal”; ou de “magia branca” e “magia negra”.

Porém, se no ocultismo ocidental contemporâneo um praticante LHP pode dividir um mesmo auditório com um praticante RHP sem que necessariamente eles sejam facilmente identificados por sua aparência, vestimenta, acessórios, ou até pela forma de se expressar, na Índia, particularmente na Índia antiga, alguns seguidores do LHP eram instantaneamente percebidos por onde passavam (e ainda são, embora estejam praticamente extintos):

Os aghori são devotos de Kala Bhairava, uma manifestação do deus Shiva associada à aniquilação… do mal! Eles se submetem em sua rotina ritualística à necrofagia, caminham entre cadáveres e fazem utensílios com ossos humanos, justificando tal comportamento como uma prática não-dual, o contato com o verdadeiro Eu, transcendendo todos os tabus sociais. Apesar de não serem considerados “hindus” pelos indianos em geral, os aghori têm curandeiros reconhecidos por seus poderes ditos milagrosos. Devemos pensar na prática aghori como uma vacina, em que você se contamina com o que quer evitar, sendo que a diferença entre a imunização e a infecção está simplesmente na dose e na manipulação do agente. Os aghori provavelmente seriam percebidos por um turista ocidental desapercebido como mendigos imundos que se misturam com mortos... mas, é preciso lembrar que mesmo Jesus Cristo já abriu uma tumba, e fez um cadáver voltar à vida: “Lázaro, levanta-te e anda!”. Não sei se o Rabi da Galileia foi lá muito ortodoxo em suas práticas...

Outra possível compreensão da relação entre o ortodoxo e o heterodoxo que definem os caminhos é a relação entre a disciplina e a abstenção. Um praticante RHP vai preferir abster-se de alguns desejos tipicamente mundanos, como o sexo dito promíscuo ou o consumo excessivo de bebida alcoólica; já alguém da via LHP pode, justamente, buscar ativamente tais práticas, para colocar a sua própria disciplina em xeque. Ou seja: ao invés de evitar o “perigo”, ele irá buscá-lo conscientemente, como alguém que se vê maduro o suficiente para ser testado, para testar a si mesmo, em seus apegos e excessos mundanos. É por isso que alguns dizem que o LHP é um caminho mais direto, porém bem mais perigoso.

Por muito tempo o ocultismo ocidental não esteve muito distante dessa antiga definição hindu para os dois caminhos. Ainda no tempo de Éliphas Lévi, que muitos consideram o maior ocultista do séc. XIX, a chamada “Alta Magia”, que lida com os seres do Alto, com os espíritos etéreos e com o intelecto, esteve associada à ortodoxia cristã e ao RHP. Assim, ainda que nem sempre tenha estado tão claro, se pressupunha que havia uma “Baixa Magia”, para lidar com os seres da Terra, com os espíritos densos e com a intuição – esta, portanto, estaria ligada ao LHP. Até hoje, de fato, podemos encontrar classificações parecidas nos cultos e religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda.

No entanto, com a abertura e divulgação de parte do chamado conhecimento oculto para a população leiga e os não-iniciados em geral, um movimento que atravessou o séc. XX (com grande auxílio de Aleister Crowley) e culminou na era da internet, muitas tradições se intercruzaram e, de uma imensa salada mista de conceitos e interpretações, se acabou chegando, ironicamente, a uma ideia um tanto simples para se compreender os caminhos: expansão e restrição.

Desde o yin e yang oriental já se fala nisso: uma parte da natureza que é ativa e expansiva (yang), e a sua contraparte, passiva e restritiva (yin). Na Árvore da Vida da kabbalah, há o pilar direito, expansivo, e o pilar esquerdo, restritivo. Neste caso, a associação dos lados aos caminhos é natural: o RHP seria o pilar expansivo (direito), enquanto o LHP ficaria do lado restritivo (esquerdo). Tal visão “natural” dos caminhos parece ter agradado muita gente, e em geral se tornou quase que um consenso adicional à antiga interpretação que, como já vimos, veio desde o tantra hindu. É preciso atentar para um detalhe, no entanto: todo yang traz em si um pouco de yin, e todo yin traz um pouco de yang. Com isto em mente, penso que podemos aplicar o LHP e o RHP ao caminho espiritual de cada um de nós (um caminho que, invariavelmente, perpassa muitas vidas)...

Ovelhas pastoreadas e ovelhas desgarradas
A imensa maioria das crianças não guarda senão uma vaga intuição acerca das vidas anteriores. Muitas podem carregar traumas relacionados às inúmeras guerras religiosas de nossa história, mas eles não costumam vir à tona até que chegue a adolescência com sua rebeldia. Assim, a suposta “tábula rasa” de nossa mente precisa ser preenchida com conhecimento, e na maior parte do mundo o lado espiritual é contemplado pela ortodoxia eclesiástica em voga na região em que nascemos. Nos tornamos, enfim, ovelhas pastoreadas pelo ensinamento religioso tradicional, e por seus representantes.

Isto se dá por um imenso movimento de expansão em nossa mente, que passa boa parte da infância sendo inundada, martelada por todo tipo de conhecimento religioso, mais ou menos dogmático, a depender da sorte que tivemos, isto é: do país e da família em que nascemos. Quando iniciamos a formação de nossa personalidade adulta, entretanto, muitas vezes antigos traumas, ou antigas preferências pela heterodoxia, costumam vir à tona. É assim que muitas ovelhas se desgarram de seus rebanhos, se tornando “a ovelha negra da família”.

Esta sempre foi à essência do ateísmo: não necessariamente descrer em Deus, mas ser avesso às tradições, se recusar a praticar a religião estabelecida, não seguir o rumo da multidão, por vezes se isolar não somente em seu próprio pensamento, mas abdicar da sociedade como um todo. Claro que nos dias atuais, numa era hiperconectada, tal isolamento é cada vez mais raro – mas, estranho de se pensar: todo livre-pensador, todo fundador de novas doutrinas e religiões, necessariamente teve o seu momento de eremita, o seu tempo no LHP. Foi necessário restringir a expansão para encontrar as suas próprias ideias.

O próprio cristianismo surgiu de um homem assim. Cristo jamais teria se dignado a perambular pela Galileia com seu punhado de ovelhas desgarradas, falando tanto a homens quanto a mulheres, tanto a nobres quanto humildes, praticando os “milagres” mais estranhos (ao ponto de precisar ser “calado” pela tradição), se não fosse ele mesmo um fiel seguidor do LHP.

No entanto, a partir da consolidação e da imensa vitória do cristianismo enquanto doutrina, todas as discussões da Igreja primitiva foram sendo decididas, todos os dogmas foram sendo estabelecidos sobre as heresias, e de um ensinamento simples e profundo, “Amai ao próximo como a ti mesmo, e a Deus acima de todas as coisas”, toda uma construção se ergueu, com suas virtudes e seus vícios, para se consolidar em uma nova tradição. É desta forma que a maior parte dos santos católicos seguiram o RHP, evangelizando os ensinamentos de um andarilho exótico, maltrapilho, que fazia os mortos se levantarem e afirmava que podia ser consumido, ele próprio, através do pão e do vinho. Não há nada mais heterodoxo que isso.

O mago e o místico
Numa visão geral, todo mago está geralmente ligado a uma via não tradicional, não eclesiástica, enquanto todo místico surge do próprio seio das comunidades religiosas... mas, será que é sempre assim? No ocultismo, não é possível nos atermos a visões binárias, ao “bem” e ao “mal”, ao “branco” e ao “negro”. Assim como todo yin traz sua parcela de yang, e vice versa, o mesmo pode ocorrer aqui.

Por exemplo, em seu aspecto de “realização da vontade”, o mago é muito mais ativo, muito mais expansivo, muito mais associado à coluna direita da Árvore, e não à esquerda. Da mesma forma, em sua “contemplação de Deus”, o místico é muito mais passivo, estando ligado à coluna esquerda, e não à direita.

Por outro lado, quando “expande seu coração” para abarcar a tudo e a todos, o místico se porta de forma incomparavelmente mais expansiva que o mago, que em geral “se restringe ao seu próprio grimório”, ao seu próprio vocabulário, a sua própria linguagem mágica, abdicando de maiores explorações pelas egrégoras alheias.

Quanto à ortodoxia e à heterodoxia, podem ocorrer inversões ainda mais curiosas: o já citado Éliphas Lévi foi um mago grandioso que, em geral, esteve muito ligado à tradição católica; já em pleno século XIII, em meio ao islamismo tradicional, surgiu um místico sufi, Jalal ud-Din Rumi, que passou boa parte de seus dias simplesmente rodopiando e recitando poemas aos seus discípulos. Perto de Lévi, Rumi seria considerado um lunático.

É assim que todo mago e todo místico têm sua fase LHP e sua fase RHP, e por vezes eles conseguem seguir precisamente pelo meio, tomando o rumo direto, o rumo que salta um Abismo ainda mais infernal do que qualquer noite negra da alma. Há que se perguntar, após tantas elucubrações, por que afinal tanta gente se arrisca por tantos e tantos perigos? Por que seguem pelo RHP ou pelo LHP? Aonde se quer chegar com tudo isso?

Creio eu que todos nós, os ocultistas, buscamos por um campo...


Além das ideias de certo e errado,
há um campo. Eu lhe encontrarei lá.

Quando a alma se deita naquela grama,
o mundo está preenchido demais para que falemos dele.
Ideias, linguagem, e mesmo a frase “cada um”
não fazem mais nenhum sentido.

(Rumi)

» No tomo III: a Verdadeira Vontade.

***

Fontes consultadas
O tema deste tomo é bastante complexo e certamente vai muito além dos meus parcos conhecimentos na área; tal texto jamais teria sido possível sem o inestimável auxílio do artigo O Caminho Sinistro (por XLR), do episódio 19 do Vortex Caoscast – Mão Esquerda para Destros, e das contribuições de Gabriel Leite Bueno, Maes Hughes e Dan Cruz (dentre outros) no grupo do Vortex no Facebook.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search/Geoglyphiks.com [ao longo] Reuters (Aghori de Varanasi, Índia); a1samurai @ DeviantArt.

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4.4.18

As grandes questões do ocultismo (tomo I)

Nada é tão escondido que não possa ser revelado através de seu fruto (Paracelso)


Hoje uma boa parte dos leitores do meu blog provavelmente conhecem alguma coisa de ocultismo, e alguns até se consideram ocultistas. Eu, entretanto, só vim conhecer melhor o ocultismo após cruzar no caminho com o meu amigo Marcelo Del Debbio. Através dele, percebi que o ocultismo era algo bem diferente do que se julga na chamada “opinião popular”. Ainda assim, mesmo tendo adquirido um conhecimento mais aprofundado do tema, eu ainda sinto que muitas vezes faltam consensos e sobram divergências quando as próprias vertentes ocultistas dialogam entre si.

Há gente que crê que ocultista é somente quem já chegou a praticar algum ritual vestindo mantos e empunhando espadas ou adagas, há magos do caos que acham isso tudo uma besteira, enquanto há leitores da teosofia que se dizem ocultistas porque seguem os ensinamentos da Madame Blavatsky; há quem diga que se trata de uma ciência, há quem diga que é religião, há quem diga que não é nenhum dos dois... Ora, eu me pergunto se essa confusão toda não contribuí ainda mais para o descrédito do chamado ocultismo na opinião popular.

No fim das contas, talvez seja mais proveitoso tentar definir o ocultismo não pelo que ele é, mas pelo que ele não é:

Não, o ocultismo não é “coisa do Demônio”.
Não há associação mais direta quando mencionamos o termo “ocultismo” a um leigo do que ao “Demônio”. Tudo bem que contribuíram para isso muitos filmes e contos de terror ao longo da história, mas é estranho de se pensar: muitas vezes, até mesmo quem não acredita na existência de um Demônio, de um “Senhor de todo o mal”, ainda assim crê piamente que ocultismo e satanismo (seja o que isso for) são mais ou menos a mesma coisa.

A crença num Demônio Mal adversário de um Criador Bom pode ser traçada ao zoroastrismo, e sua presença no cristianismo se deve muito a antiga crença de Agostinho de Hipona, o grande doutor da Igreja, nas doutrinas de Mani (que era admirador, por sua vez, da dualidade zoroastrina). Agostinho, é claro, afirma ter deixado de lado suas crenças pagãs, assim com a sua antiga vida boêmia, mas uma coisa é afirmar “eu renego Mani”, outra é ter a absoluta certeza de que nada, mesmo que inconscientemente, foi transportado para o seu próprio pensamento. Como sabemos, Agostinho provavelmente esteve enganado sobre si mesmo nesse ponto.

No entanto, ainda que você mesmo creia nesse Demônio, talvez lhe surpreenda que o próprio criador do satanismo não acreditava nele. É difícil saber se as histórias acerca da vida de Anton LaVey são verdadeiras, pois ele mesmo admitiu ter mentido bastante (e, de certa forma, em boa parte o próprio satanismo de LaVey é uma grande zoação), mas a sua biografia não autorizada (e, portanto, mais fidedigna) nos conta que ele trabalhou alguns anos de sua juventude como organista (tocador de órgão) em bares e prostíbulos dos EUA nos anos 1940. Ora, ocorre que, nos mesmos locais onde ele foi contratado para tocar aos sábados, também achou emprego para tocar aos domingos, em cultos e espetáculos cristãos...

Então ele percebeu que os mesmos ditos cristãos que juravam seguir os preceitos de sua religião aos domingos, menos de 24 horas antes estavam pagando prostitutas nas casas noturnas em que LaVey tocava. Assim, o seu satanismo não surgiu nem de uma adoração a algum Demônio nem propriamente de um ódio intrínseco ao cristianismo: LaVey simplesmente não suportava era a hipocrisia de muitos dos cristãos da sua época.

Fosse hoje em dia, talvez ele já estivesse contente em criar uma página de memes zoando o cristianismo nas redes sociais. Mas, já lá pelos anos 1960, a sua forma de extravasar esse sentimento foi criando uma espécie de “religião zoeira”; que, no entanto, trazia muitos ensinamentos profundos retirados de vertentes ocultistas mais antigas que defendiam o chamado “caminho da mão esquerda” (do qual ainda falaremos mais para frente).

Nada disso, no entanto, tem qualquer coisa a ver com um Demônio real, muito menos com “pactos de venda de alma” e baboseiras desse tipo. Que há maldade no mundo, disso não temos dúvida; mas essa maldade está no coração dos seres (encarnados ou não), e não numa espécie de “bode expiatório cósmico”, condenado a ser a fonte de toda maldade pela eternidade. Nem no zoroastrismo antigo havia crença tão infantil...

No entanto, se formos considerar os demônios como aspectos negativos de nós mesmos, então um de seus grandes estudiosos, segundo consta na tradição judaico-cristã, foi justamente o Rei Salomão (sim, aquele carinha mesmo, lá da Bíblia). Uma das tradições magísticas mais conhecidas é a Ars Goetia, onde se estuda o sistema, dado de presente a Salomão pelos anjos, que lhe conferia poder e controle sobre os principais demônios conhecidos. Assim, se o ocultismo também lida com demônios (e não com “o Demônio”), saiba que isso vem desde Salomão.

Não, o ocultismo já não é mais um “conhecimento vedado”.
Segundo Del Debbio, a origem dos grupos ou ordens onde algum conhecimento precioso era “guardado” do resto das pessoas ocorreu ainda na época da construção das pirâmides, e perpassou séculos e séculos onde os segredos da construção de castelos, fortalezas, barcos, juntamente com a forja das armas e armaduras de metal, eram antes de mais nada questões militares, que tocavam a própria segurança de reinos e países, da mesma forma como até hoje os segredos para a produção de armas nucleares são vedados a maior parte das nações.

Ocorre que, nos primórdios da humanidade, a ciência, a filosofia e a religião ainda eram como “uma coisa só”, e é natural imaginar como os mesmos grupos que guardavam os segredos da construção de templos religiosos, por exemplo, guardavam igualmente os segredos de seus rituais mais profundos. Além disso, é preciso lembrar que durante boa parte de nossa história a grande maioria da humanidade foi iletrada, analfabeta. Os eclesiásticos tampouco ajudavam: foi somente em 1534, por exemplo, que uma tradução da Bíblia para o alemão alcançou o grande público, graças ao reformador Martinho Lutero. Até a Reforma, não era do interesse da Igreja Católica ter o seu maior livro sagrado acessível à leitura da maior parte da população. Por que será?

Foi também devido às perseguições da Igreja na Europa que boa parte das ordens secretas que sobreviveram até os dias atuais foi inicialmente formada. Elas não podiam simplesmente divulgar certos conhecimentos a qualquer interessado, não somente pela necessidade de um estudo anterior para que o leigo tivesse condições apropriadas de interpretar aqueles conhecimentos, como também pelo fato de que havia vários “olheiros” da Inquisição prontos para enviar qualquer infiel pra fogueira.

Felizmente, a humanidade evoluiu e, a despeito de suas mazelas, ao menos o advento da era racional-científica, desde meados do século XIX, acabou trazendo uma liberdade muito maior para o tráfego do antigo conhecimento oculto. Está certo que hoje esse tipo de conhecimento é considerado uma espécie de “heresia irracional” pela Academia (que esqueceu que foi graças a ele que a ciência moderna deu o seu grande salto, quando Copérnico e Galileu beberam nas fontes do hermetismo), mas ao menos ela não manda seus hereges para a fogueira – se contenta em ridicularizá-los por “falta de provas”, somente.

Hoje sites, blogs e canais do YouTube falam abertamente de ocultismo, e anunciam suas ordens e eventos para os que quiserem praticá-lo de fato. Porém, mesmo antes da era da internet, tal tipo de conhecimento já vinha sendo aberto ao grande público, passo a passo, sobretudo através da literatura. Desde Aleister Crowley ao próprio Alan Moore, exemplos não faltam.

Vivemos na era em que Baphomet é encontrado em imagens na internet associado ao Homer Simpson. É um tempo onde há tanta, tanta informação disponível, que não há mais real necessidade de se ocultar nada: o próprio mecanismo da web faz com que somente aqueles realmente curiosos, preparados ou não, encontrem o ocultismo.

O grande problema está, evidentemente, em se tratar tudo isso como uma grande brincadeira. Em ser um “satanista” somente para irritar os seus pais e “chocar a sociedade”; ou pior, em crer realmente em “contratos com o Demônio”: tudo isso demonstra que não basta saber ler para ser alfabetizado nos assuntos da alma. É preciso interpretar o mundo e, sobretudo, o seu próprio interior. Isso nenhum site, nenhum vídeo topzera do YouTube poderá fazer por você – e é justamente por isso que ainda há espaço para as ordens nos dias de hoje, ainda que elas não precisem mais ser totalmente secretas. Elas existem para auxiliar o verdadeiro caminhante.

Não, nem todo ocultista é “charlatão”.
De fato, a maioria não é. O ocultismo em grande parte trata dos assuntos da alma, das questões internas, da nossa interpretação do mundo, da nossa própria mente. A grande maioria dos alquimistas jamais acreditou realmente que poderia verter chumbo em ouro, mas acreditava na realidade na transmutação da alma ignorante e animalesca num ser apto a refletir a luz do Alto, num ser que constrói em si o seu próprio tesouro.

É muito fácil chamar Baphomet, Pã ou Cernunnos de demônios sem jamais ter se dignado a pesquisar 30 minutos na web acerca deles. É muito fácil associar os rituais de cura e outros efeitos medicinais ao chamado efeito placebo, sem saber explicar ao certo o que diabos ele é. É muito fácil colocar o tarot e a astrologia no mesmo saco dos “signos de jornal” e dos “trago a pessoa amada em 3 dias” sem antes buscar conhecê-los mais a fundo, nem que seja para entender melhor porque grandes homens e mulheres de nossa história o utilizavam para o seu processo de autoconhecimento.

É claro que existem charlatões no ocultismo, sobretudo pelo fato de que ninguém sabe ao certo definir o que é exatamente o ocultismo. Mas, se tem uma coisa que o verdadeiro ocultismo não é, é charlatanismo.

» No tomo II: o caminho da mão esquerda; o caminho da mão direita.

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Crédito das imagens: [topo] Rembrandt (A Festa de Belazar); [ao longo] Roe Mesquita.

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