Pular para conteúdo
16.3.10

Passeios de aeróbus

No livro “Nosso Lar”, de autoria de André Luiz e psicografado por Chico Xavier, temos uma curiosa descrição de um veículo de transporte público na colônia espiritual que dá título ao livro:

Mal me refazia da surpresa, quando surgiu grande carro [aeróbus], suspenso do solo a uma altura de cinco metros mais ou menos e repleto de passageiros. Ao descer até nós, à maneira de um elevador terrestre, examinei-o com atenção. Não era máquina conhecida na Terra. Constituída de material muito flexível, tinha enorme comprimento, parecendo ligada a fios invisíveis, em virtude do grande número de antenas na tolda. Mais tarde, confirmei minhas suposições, visitando as grandes oficinas do Serviço de Trânsito e Transporte.
Lísias não me deu tempo a indagações. Aboletados convenientemente no recinto confortável, seguimos silenciosos. Experimentava a timidez natural do homem desambientado, entre desconhecidos. A velocidade era tanta que não permitia fixar os detalhes das construções escalonadas no extenso percurso. A distância não era pequena, porque só depois de quarenta minutos, incluindo ligeiras paradas de três em três quilômetros, me convidou Lísias a descer, sorridente e calmo (Trecho do início do Capítulo 10: “No Bosque das Águas”, onde André Luiz tem o primeiro contato com o aeróbus).

Uma pergunta muito comum dos céticos (espíritas ou não) em relação a algumas descrições detalhadas de veículos e construções nas colônias espirituais é bastante válida, a primeira vista: “Ora, se essas colônias dispõe de tamanho nível de tecnologia, porque os espíritos não nos entregam de mão beijada os planos e as plantas para que nossos engenheiros e arquitetos possam construir tais veículos e construções aqui na Terra?”.

Um espírita precavido irá citar outro trecho do próprio “Nosso Lar” para explicar porque um aeróbus não poderia viajar pela Terra:

Dirigi-me, incontinenti, a Narcisa, perguntando:
- Onde o aeróbus? Não seria possível utilizá-lo no Umbral?
Dizendo-me que não, indaguei das razões.
Sempre atenciosa, a enfermeira explicou:
- Questão de densidade da matéria. Pode você figurar um exemplo com a água e o ar. O avião que fende a atmosfera do planeta não pode fazer o mesmo na massa equórea. Poderíamos construir determinadas máquinas como o submarino; mas, por espírito de compaixão pelos que sofrem, os núcleos espirituais superiores preferem aplicar aparelhos de transição (Trecho do Capítulo 33: “Curiosas Observações”).

Mas será que isso resolve o problema? Não poderiam, por acaso, os espíritos ajudarem nossos engenheiros e homens de ciência a inovar nossa tecnologia atual? Mesmo que não fosse possível construir uma espécie de metrô que plana em alta velocidade muito acima do solo, certamente algum tipo de avanço descrito nos livros de André Luiz poderia ajudar, e muito, a Terra...

Arthur C. Clarke, célebre escritor de ficção científica, dizia que “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinquível de magia”. Clarke foi, ele mesmo, um “antecipador” de algumas tecnologias que só viriam a ser viáveis muitos anos após a descrição – então fictícia – das mesmas em seus livros. Particularmente com o conceito dos satélites geoestacionários, Clarke não só antecipou o futuro, como contribuiu decisivamente para ele: nossas telecomunicações devem muito ao que antes era pura ficção.

Interessante que, num nível mais extraordinário (e incerto), é possível que algumas das tecnologias descritas em “Nosso Lar” – que diga-se de passagem, foi publicado em 1944 – possam ser igualmente antecipações de avanços futuros da tecnologia na Terra. Se a décadas atrás o aeróbus – uma espécie de metrô se movendo pelo ar, sem contato com o solo e a altas velocidades – parecia um veículo mágico, hoje talvez não chegue a tanto:

Um trem de levitação magnética ou maglev (Magnetic levitation transport) é um veículo semelhante a um metrô que transita numa linha elevada sobre o chão e é propulsionado pelas forças atrativas e repulsivas do magnetismo através do uso de supercondutores. Devido à falta de contato entre o veículo e a linha, a única fricção que existe, é entre o aparelho e o ar. Por conseqüência, os maglevs conseguem atingir velocidades enormes, com relativo baixo consumo de energia e pouco ruído. Embora a sua enorme velocidade os torne potenciais competidores das linhas aéreas, o seu elevado custo de produção limitou-o, até agora, à existência de uma única linha comercial, o transrapid de Xangai. Essa linha faz o percurso de 30 km até ao Aeroporto Internacional de Pudong em apenas 8 minutos. No Brasil, existem projetos para se implementar o maglev, por exemplo, na Ilha do Fundão.

Ainda assim, talvez não se pareça tanto com um aeróbus... André Luiz disse que “ele parecia ligado a fios invisíveis”, e que se movimentava muito acima do solo. Será que tudo não passou de ficção da cabeça de Chico Xavier? Obviamente que para um cético em relação à existência de comunicação com espíritos desencarnados, tudo já seria ficção a priori. Mas e quanto aos que crêem na possibilidade – será mesmo possível que a tecnologia humana seja apenas uma sombra da tecnologia espiritual, e que a inspiração para as grandes descobertas se deva ao fato de que quase tudo já foi descoberto no plano espiritual?

Quem se preocupa com isso certamente irá sorrir ao conhecer uma distinta empresa americana, chamada Aerobus International, que constrói trens suspensos por fios condutores que parecem voar pelos céus. Dificilmente os engenheiros americanos leram “Nosso Lar”... Mas e daí? E se for mesmo verdade cada pequena descrição da colônia? E se a ela tem mesmo a forma de estrela e todos os Ministérios citados por André Luiz estão mesmo lá, até hoje – em que exatamente isso nos ajuda em nossa evolução espiritual?

Nosso Lar é apenas uma das muitas colônias espirituais a beira do Umbral, onde espíritos de elevada moral e caridade tentam a todo custo auxiliar aqueles que perambulam nas trevas de sua própria consciência... Que nos importa saber o perímetro da colônia? Ou em quanto tempo podemos atravessá-la em um aeróbus? Ou se ela tem restaurantes e casas noturnas? Certamente, se um dia estivermos por lá, essas serão nossas últimas preocupações.

Lendo alguns dos livros de André Luiz, percebi que eles nunca se trataram apenas de descrições – fictícias ou não – de colônias do plano espiritual da Terra. Ora, começando pelo “Nosso Lar” e passando por todos os outros, eles tratam principalmente da tão falada reforma íntima, da reforma de nós mesmos; Do caminho das trevas da consciência egoísta para as campos ensolarados da consciência amorosa, conectada ao Cosmos que pulsa e vibra com vida, em cada partícula e em cada plano de existência.

É possível que os espíritos nos inspirem descobertas e idéias para novas tecnologias. Mas é igualmente possível que estejam mais preocupados em nos inspirar o amor e o auto-conhecimento. Em todo caso, cada ser está onde seus pensamentos o sintonizam.

André Luiz (ou Chico Xavier, caso você seja cético) perderia fácil numa comparação com autores de ficção científica como Arthur C. Clarke... Mas André Luiz não pretendeu nos trazer aulas sobre a tecnologia ultra-avançada dos espíritos, e sim ensinamentos sobre a moral avançada dos seres de luz. Se ele recorreu a histórias que ocorriam ao mesmo tempo na Terra e no plano espiritual, e acaso tenha se preocupado em descrever como é a vida enxergada do lado de lá, foi porque reconheceu o tempo perdido em sua encarnação prévia – um grande neurologista e médico sanitarista do Rio de Janeiro, que tinha muito conhecimento, mas pouca sabedoria.

Em seus livros, não encontramos batalhas fascinantes entre “o bem e o mal”, mas sim relatos sinceros e perturbadores da ignorância e falta de caridade de grande parte dos seres; A começar pelo próprio André Luiz, que passou anos no Umbral, e mesmo depois de socorrido em Nosso Lar custou a perder os vícios e a pompa de “grande médico”. Custou a vencer o próprio ego e reconhecer que a luz que vem de cima é sempre maior do que a nossa própria. Custou, mas venceu, e depois dedicou alguns de seus anos a ditar livros para um dos maiores médiuns de que se tem notícia. E o resto é história.

***

Crédito da imagem: Nosso Lar, O Filme

Marcadores: , , , , , , ,

10.3.10

Reflexões sobre o sexo, parte 1

O ato sexual ou relação sexual é a denominação geral dada à fase em que dois animais com reprodução sexuada, mais especificamente o ser humano, realizam a ação física de junção dos seus órgãos sexuais, originalmente para a transmissão do gameta masculino ao feminino. Contudo, nem sempre tem uma função reprodutiva.

No mais elevado trono

Ao longo dos tempos o sexo tem sido tratado como um “assunto secundário” no pensamento filosófico. Talvez os antigos simplesmente não achassem o assunto digno das reflexões filosóficas, ou talvez os compiladores de seus ensinamentos tenham tido certo pudor em expor assuntos que normalmente escandalizam o ser social. Escandalizam, isto é, na medida em que dada sociedade é aberta ou fechada ao assunto.

A época medieval na Europa é particularmente lembrada por seu cuidado em relação ao assunto. Não que não praticassem sexo, mas é que evitavam falar abertamente sobre ele; Até mesmo porque segundo a religião dominante da época o sexo deveria ser praticado apenas com fins de reprodução, e toda uma gama de pecados foram associados ao ato libidinoso. De forma que, em certos contextos, era preferível ser considerado um depravado moral do que um depravado sexual – embora as duas classificações andassem de mãos dadas na maioria dos casos.

Montaigne viveu nessa época, e era um filósofo particularmente interessado nesse paradoxo. Ora, se todos fazem sexo, porque falamos tão pouco sobre ele, pelo menos abertamente ou em algum livro de filosofia? Montaigne atribuiu em parte os problemas que enfrentamos com nosso corpo ao fato de eles não serem tema de uma discussão honesta entre pessoas educadas. A literatura e a pintura representativas não tendem a identificar a graça feminina com grande interesse por atividades sexuais, nem a autoridade com o fato de possuir esfíncteres e falos. Representações pictóricas de reis e damas não nos encorajam a imaginar que espíritos tão eminentes possam soltar gases intestinais ou copular. Montaigne recorreu a um francês belo e sem cerimônia para preencher essa lacuna nas artes:

Au plus eslevé throne du monde si ne sommes assis que sus nostre cul. Les Roys et les philosophes fientent, et les dames aussi.

(Mesmo no mais elevado trono do mundo, continuamos sentados sobre nossos cus. Os reis e os filósofos defecam, e as damas também.)

Essa falta de pudor para tratar de assunto tão natural, mas que por alguma razão é sempre resguardado em nome dos “bons costumes”, geralmente faz com que as pessoas associem tais palavras à mente de pessoas vulgares e ignorantes. Mas isso não parece ser verdade, Montaigne foi apenas o primeiro da série de grandes pensadores que passaram a falar abertamente sobre o sexo, até os nossos dias.

No Gênesis bíblico temos uma bela metáfora para a época em que os seres humanos passaram a ter vergonha da nudez alheia. Talvez sirva como uma boa explicação para a origem desse pudor, talvez a “descoberta do bem e do mal” tenha levado o homem a cobrir as partes íntimas e passar apenas a praticar o sexo, mas raramente falar abertamente sobre ele... Isso parece ligar o ato sexual a uma forma obscura de nossa natureza, como se ele fosse algo sujo e pecaminoso, algo que não deveria ter tanta relevância na vida de seres racionais. Será mesmo?

Montaigne chegou a perambular por boa parte da Europa a cavalo, em suas viagens descobriu que uma norma cultural bem aceita em determinado país ou cidade poderia ser diametralmente oposta à outra norma, centenas de quilômetros em alguma outra direção do velho continente. Isso despertou sua curiosidade para terras ainda mais distantes: teve acesso ao livro “Viagem à terra do Brasil”, onde Jean de Léry afirma, por exemplo, que na América do Sul as pessoas gostavam de comer aranhas, gafanhotos, formigas, lagartos e morcegos.

O filósofo, porém, ficou mais curioso com o lado sexual dos índios nativos. Afinal de contas, eles mal cobriam o corpo no calor tropical – era como se ainda não tivessem sido expulsos do Éden... Os homens tupis tinham permissão para desposar mais de uma mulher e eram considerados maridos devotados a todas. Segundo Montaigne, “seu código de ética contém apenas dois artigos: demonstrar coragem em tempos de guerra e amar as esposas.” As esposas pareciam felizes com a poligamia e não se mostravam ciumentas. A única coisa realmente proibida em relação à vida sexual era a proibição em se dormir com um parente próximo.

Montaigne estava maravilhado: “Uma característica interessante de sua vida sexual é digna de nota: nossas esposas mostram-se extremamente zelosas em reprimir o amor e a ternura que outras mulheres despertam em nós; já as esposas tupis são igualmente zelosas em arrebanhar outras mulheres para seus maridos. Mais preocupadas com a reputação deles do que com qualquer outra coisa, elas empenham-se em conseguir o maior número possível de ‘co-esposas’, já que uma ‘família’ grande reafirma o valor do marido.”

O filósofo não encontrou nada de particularmente anormal ou terrível no comportamento sexual desses índios, mas ele fazia parte da grande minoria. Logo depois da descoberta de Colombo, os colonizadores portugueses e espanhóis que vieram da Europa colonizar o novo mundo concluíram que esses nativos eram “pouco mais do que animais”. Um ministro calvinista afirmou que não possuíam nenhum senso moral. Um médico europeu, após examinar cinco nativas e perceber que não menstruavam, concluiu que “não pertenciam à raça humana”...

Não satisfeitos em despojá-los de sua humanidade, os espanhóis começaram a dizimá-los como animais. Por volta de 1534, 42 anos após a chegada de Colombo, os impérios inca e asteca haviam sido destruídos e seu povo escravizado ou assassinado. A hospitalidade inata dos nativos não comoveu os “seres morais do velho continente”: os colonizadores matavam crianças, rasgavam o ventre de mulheres grávidas, arrancavam olhos, queimavam vivas famílias inteiras e incendiavam aldeias à noite.

Montaigne gostava desta frase de Terêncio, um poeta cômico latino que viveu no segundo século a.C.:

Homo sum, humani a me nihil alienum puto.

(Sou homem; nada do que é humano me é estranho.)

Em nossa curta estadia neste planeta, temos erguido civilizações e sociedades das mais variadas culturas e formas de pensamento. Se é verdade que boa parte de nossas sociedades encontram enorme dificuldade em tratar do sexo, não é verdade que ele deva ser relegado a escuridão, como se o ser sexual fosse o maior depravado, o maior devasso.

É exatamente por escondermos o assunto que muitos de nós desenvolvem os mais variados transtornos psicológicos, e passam a agir de forma violenta, como animais que não sabem o que fazer com tamanha força e tamanho instinto trancafiado dentre regras e mandamentos absolutamente hipócritas. Ora, quem foram os maiores depravados no novo mundo, os nativos que andavam semi-nus e eram polígamos, ou os “conquistadores” que viram nisso razão para os exterminar da maneira mais bruta e cruel possível?

Ao longo da história, o ser humano acreditou que, em sendo um animal racional, estava tão acima dos outros animais que não poderia mais praticar atos animalescos. Mas a força que move a vida não pode ser renegada e nem esquecida apenas porque manuais de verdade absoluta assim ditaram. Que o homem ainda está longe de deixar de lado o seu lado animal, e todo o sangue derramado no novo mundo, em pleno Renascimento, é um obscuro lembrete disso...

A seguir, o sexo como força motriz da vida.

***

Crédito das fotos: [topo] Sigi Kolbe , [ao longo] treppenstufe

Marcadores: , , , , , , , , ,

22.2.10

BBB: Cativeiro social

Há muito tempo que os “intelectuais de plantão” se questionam como os reality shows alcançaram tanto sucesso na televisão mundial e, da mesma forma, na brasileira. Infelizmente não podemos nos orgulhar do nível intelectual do nosso programa mais longevo no ramo, o Big Brother Brasil – se, nessas dez edições, conseguimos completar um único dia de conversas consistentes sobre artes, filosofia, ciência ou religião, terá sido muito. Na maior parte do tempo o BBB mais parece uma novela onde os “mocinhos” tentam chegar a um “final feliz”, enquanto os “bandidos” tem seu momento de trunfo, mas sempre são eliminados ao final.

E porque será que gostamos tanto, enquanto sociedade e audiência televisiva, de observar a vida alheia e suas relações sociais – sejam ou não uma “realidade”? Porque será que certas pessoas da camada mais humilde da população chegam até a confundir realidade e ficção quando, ao encontrar pessoalmente um ator ou atriz que fazem algum papel de destaque em uma novela, os alertam para “tomar cuidado com o bandido” ou os atacam por serem eles mesmos os “bandidos” da história?

Talvez a resposta seja “que não temos escolha, pois está em nossos genes” [1]: Segundo a antropologia moderna, a empatia e a imitação talvez tenham sido a base do mecanismo que nos tornou humanos. Ao observarem outras pessoas em seu grupo social, nossos ancestrais começaram a tentar desvendar o que se passava em suas mentes – e, para tal, tiveram que imaginar cada qual como um indivíduo em separado. Segundo a teoria da mente, pela primeira vez nossos ancestrais adquiriram a capacidade de julgar a intencionalidade de outro indivíduo, passando a “pensar como se fossem outra pessoa”, na tentativa de antever suas ações.

Steven Mithen, em seu célebre livro “A pré-história da mente”, teoriza que os hominídeos pré-humanos apresentaram variadas gradações de módulos de inteligência – a inteligência geral, a naturalista, a técnica e a social. Porém, somente nos homo sapiens esses módulos da mente se unificaram em um único grande conjunto, de modo a possibilitar o surgimento da cultura, da arte e da religião humanas. No entanto, observando outras espécies ainda próximas em nosso galho evolutivo, como bonobos e chimpanzés, sabemos que de todos esses módulos, o que mais contribuiu na evolução cognitiva da mente humana foi, sem dúvida, o social.

Nas relações tribais antigas, sabemos que infelizmente estivemos muito mais próximos dos chimpanzés, e sua organização hierárquica em torno dos machos alfa, do que dos bonobos, e sua organização anárquica em torno da troca de favores sexuais, que apesar de escandalizar muitos “moralistas de plantão”, é sim muito benéfica no sentido de amenizar – ou até mesmo, erradicar – a violência entre os membros da mesma tribo, e inclusive entre tribos diferentes. Sim, ao contrário dos bonobos, não resolvemos nossas desavenças com sexo, e sim com força bruta – ou pelo menos assim tem sido nos últimos milhares de anos.

Porém, acima de tudo, sabemos que as relações sociais são baseadas primordialmente em confiança e desconfiança, em alianças e traições. Isso tem sido válido desde as primeiras tribos de hominídeos no sul da África até aos grandes impérios erguidos por seus descendentes, que atreveram-se a cruzar o Oriente Médio e eventualmente alcançar o restante do mundo. Nas relações tribais, muitos defeitos são relevados, mas quase nunca a falsidade e a dissimulação: todo chefe tribal e todo homo sapiens bem sucedido em relações sociais há que ter desenvolvido, em todos esses anos, uma capacidade sem igual de julgar as intenções alheias. Uma expressão falsa, um olhar dissimulado, um sorriso amarelo, e toda a nossa desconfiança entra em ação – algumas vezes, sem necessidade.

Mas nem sempre podemos estar cientes das intenções alheias. Ficamos preocupados, principalmente, em procurar compreender o que os outros pensam e falam sobre nós quando não estão em nossa presença. Nas relações tribais, a intriga e o jogo de alianças podem significar a sobrevivência do indivíduo e seu grupo de amigos. Como então estar à par do que os outros – principalmente os grupos rivais – pensam de nós?

Estima-se que, ainda na época atual, as pessoas passem em torno de 2/3 de seu tempo de interação com outras pessoas falando sobre assuntos de cunho social – ou, em outras palavras, fofocando [2]. Isso surpreendeu até mesmo os maiores entusiastas da psicologia evolutiva. E a explicação para isso é simples: foi através de nossas interações sociais ancestrais, desde as pequenas tribos africanas de onde viemos, que desenvolvemos a linguagem. E a linguagem sim, é o grande catalisador de tudo o que veio depois.

Ainda que mal saibamos nos expressar em bom português (ou no idioma nativo de cada um), é através da análise minuciosa das “sutilezas” da linguagem que nos tornamos animais com módulos de inteligência social especializados. É preciso não só compreender o que é falado, mas também reconhecer o tom de voz, a intencionalidade das expressões, a sinceridade do olhar, etc.

Mesmo com os esforços quase épicos de Pedro Bial, é muito difícil que um dia o BBB se torne um Café Filosófico [3]... Entretanto, não é sem razão que este jogo de cativeiro social nos atrai tanto, contanto que traga os ingredientse que nos excitam as idéias e memórias ancestrais: intrigas, alianças, traições, julgamentos, etc.

Ao contrário das novelas, e ironicamente mais próximo da mitologia, os reality shows raramente trazem personagens que podem ser reduzidos a “mocinhos” e “bandidos”. No uso de suas máscaras de personalidade, no entanto, os mais aptos são aqueles que, apesar de seus inúmeros defeitos morais, se mostram mais alinhados com a coerência e retidão de suas ações, mais fiéis aos amigos e menos dissimulados para com os oponentes. Apesar do peso do carisma e de um sorriso verdadeiro, não há quem sobreviva na tribo sendo falso; e por isso até hoje, após tantos anos, ainda somos capazes de nos irritar tanto com a falsidade.

Seguindo uma lógica parecida, podemos também compreender porque geralmente os excluídos da tribo são os que despertam a maior compaixão do público. Em nossos genes talvez ronde o horror que nossos ancestrais sentiram ao se encontrar nessa posição, sozinhos em meio a natureza selvagem, sem o seu grupo de caça, e dependendo apenas de si mesmos – e de seus deuses – para sobreviver. No BBB, o público faz o papel "divino" de interceder e mudar a história dos excluídos e injustiçados. Nesse caso, a voz do povo é realmente "a voz de deus".

***

[1] Na verdade, não exatamente, mas isso é uma outra história...

[2] Segundo a série de documentários “Evolução”, da NOVA, lançada no Brasil pela editora Duetto.

[3] Meu programa preferido na televisão aberta, da TV Cultura.

***

Crédito da foto: Divulgação (Pedro Bial, apresentador e jornalista).

Marcadores: , , , , , ,

27.1.10

As lições da evolução

Todos aqueles que não se alistaram em guerras santas tem como tirar lições da teoria de Darwin-Wallace para a evolução das espécies; Lições de como a natureza funciona não só no nível físico, como também no espiritual. Engana-se quem pensa que a evolução determina o trunfo do materialismo sobre as demais interpretações da natureza. Se a ciência moderna optou por “esquecer” de Alfred Russel Wallace, que era espiritualista, pelo menos nada pode fazer quanto ao encerramento que Charles Darwin deu para o seu célebre livro, no último parágrafo de “A Origem das Espécies”:

“Assim, a coisa mais elevada que somos capazes de conceber, ou seja, a produção dos animais superiores, resulta diretamente da guerra da natureza da fome e da morte. Há grandeza nesta concepção de que a vida, com suas diferentes forças, foi alentada pelo Criador num curto número de formas ou numa só e que, enquanto este planeta foi girando segundo a constante lei da gravitação, desenvolveram-se e se estão desenvolvendo, a partir de um princípio tão singelo, infinidades de formas as mais belas e portentosas.”

Sabemos que esta teoria nunca pretendeu explicar o surgimento da vida, tampouco o da consciência humana, e sim o mecanismo pelo qual a vida evoluiu a partir das primeiras e mais primitivas formas de vida na Terra. Mesmo assim, e não sem boas razões, ela se tornou um dos pilares que sustentam o pensamento materialista moderno – de que tudo o que somos se resume as partículas de nosso corpo – ainda que não façamos idéia de quais partículas formam a consciência, mas isso é uma outra história.

O que eu gostaria de destacar aqui, porém, é que a evolução também traz enormes lições para uma visão espiritualista da existência:

Somos todos um
Ainda que a nível físico, somos formados por partículas, por poeira de estrelas longínquas que chegaram até nós em meteoritos e, misturando-se com os elementos da Terra em seu berço, criaram de alguma forma ainda oculta os primeiros organismos. De formas tão simples quanto bactérias, tudo o mais surgiu, evoluindo a partir do mesmo código da vida, o DNA.
Hoje a ciência sabe que não existem raças humanas, nosso genoma é praticamente idêntico do aborígene australiano ao homem branco europeu. Não apenas o racismo é ignorância, mas a própria noção de que somos seres a parte na criação, de que os animais irracionais nos servem como meros objetos, é absurda. Os índios já sabiam que somos todos um, que a natureza é uma só, e que estamos todos conectados; Mas, na época moderna, foi preciso a prova científica para que abríssemos os olhos. Esta é a maior lição da natureza: da próxima vez que olhar um pequeno roedor em sua toca, saiba que foi graças a eles que sobrevivemos à época da grande extinção dos dinossauros [1]. Nós somos filhos dos roedores, e das bactérias, porque nesse caminho cósmico, ninguém é mais especial que ninguém, a todos foi dada a mesma oportunidade de viver e de evoluir.

Nos beneficiamos das trocas
O conceito de “raça pura” foi definitivamente enterrado pela evolução. Se o nazismo surgiu no mundo, foi porque seus líderes eram também ignorantes, e perderam a oportunidade de aprender com a natureza. Seres humanos isolados, reproduzindo-se apenas em pequenas comunidades locais, são muito mais vulneráveis a vírus e doenças em geral, pois simplesmente não tiveram misturas suficientes com os genes de outros humanos que caminharam por outras partes do globo.
Porém, mais do que isso, sabemos que as trocas comerciais, culturais e religiosas são fundamentais para o desenvolvimento da humanidade como um todo. Foi com a rota da seda, da Índia para a Europa e Oriente Médio, que as grandes civilizações começaram a se desenvolver mais rapidamente. Foi na época da afluência de várias correntes filosóficas, científicas e religiosas para um mesmo local de paz que muito do pensamento humano se solidificou: da Grécia Antiga a Alexandria, de Al-Andalus ao Renascimento na Europa.
Se alcançamos tais façanhas com trocas de genes, mercadorias e conhecimento, quem sabe onde poderemos chegar com a troca de amor?

O altruísmo é uma evolução da espécie
Desde bactérias que gastam energia para produzir uma substância viscosa que faz suas colônias flutuarem na água e ficarem mais protegidas, até a troca de oferendas ancestrais de hominídeos, onde os machos traziam alimento de suas caçadas para trocar pelo sexo com as fêmeas, o altruísmo tem se comprovado como uma evolução da espécie.
Aquele que caça sozinho terá mais comida quando abater uma presa, porém a história prova que são as espécies que caçam em grupo que obtém a maior vantagem evolutiva: quando todos se ajudam e auxiliam mutuamente, ainda que tenham de dividir a caçada, existem maiores garantias de que não morrerão de fome, solitários, pois a probabilidade de haver boa caça todos os dias é bem maior em grupos que têm mais olhos e mais armas afiadas.
Desde épocas imemoriais, a natureza tem nos ensinado tal mistério: quanto mais nos afeiçoamos aos seres, mais capacidade temos de nos afeiçoar ainda mais. O amor é combustível que não acaba nunca, o fogo de sua pira é eterno e o vento só faz ele crescer mais e mais...

Das adversidades nascem os grandes saltos evolutivos
Nenhuma espécie evoluiu com vida mansa, seja pela abundância de presas para caçar ou pela ausência completa de predadores. Sem a adversidade, seja esta um predador faminto ou um estômago suplicando por energia, os seres não teriam motivo para evoluir.
Embora todos gostemos de paz, de que tudo “ande nos trilhos”, não podemos esperar que as adversidades passem ao largo. Esta seria, ao longo prazo, uma grande armadilha. A estagnação, seja física, seja mental, seja espiritual, é o grande mal da humanidade. A época negra na Europa medieval demonstrou que dogmas não nos servem de salvação, e que manuais de verdades absolutas de nada adiantam se as pessoas ainda são ignorantes da real interpretação dessas verdades. Adquirir conhecimento não faz de ninguém um santo: é preciso praticar, é preciso sujar os pés de lama, é preciso encarar o deserto e compreender que, onde quer que haja estagnação, a natureza não nos deixará relaxar.
A “guerra da natureza”, a que Darwin mencionou acima, é uma forma pela qual o seu mecanismo continua nos puxando, e puxando, sempre para cima.

O ambiente nos molda
Pequenos cataclismas submarinos, causados pelo fim da vazão de água em altas temperaturas da crosta terrestre, podem fazer com que nichos ecológicos inteiros de seres microscópicos se extinguam, levando consigo pequenas barreiras de corais e espécies das profundezas do oceano. Um rio muda de curso, as monções são interrompidas, e impérios inteiros se extinguem, ou partem para invadir novos territórios, como é caso tão comum na história do sul da Ásia...
Em nossa vã esperança de que fossemos o centro de todo o Cosmos, acreditamos que os deuses é quem deveriam nos servir, ainda que através das mais variadas formas de barganha. Ainda hoje, há cientistas que crêem que podem ditar os rumos da natureza, “criando” novas espécies ou retardando indefinidamente o envelhecimento das células do corpo. Tudo em vão: nada está parado, tudo flui, tudo vibra. A natureza se move em ciclos, e dentre eras glaciais terrestres, surgiu o ser humano e todo o seu conhecimento.
Mas nem todo conhecimento é em vão. A maior prova está na compreensão de que, muito mais do que as disputas pela sobrevivência, é o meio-ambiente que molda a evolução das espécies. E mesmo aqui, uma vez mais, os índios estavam certos: estamos todos conectados, principalmente com a natureza a nossa volta.

A natureza é livre
O homem vem tentando compreender os mecanismos da natureza, mas até hoje falha miseravelmente em qualquer tipo de previsão mais aprofundada sobre para onde o vento soprará a seguir. Prever o clima a curto prazo é possível, a longo prazo não: é que a natureza insiste em erguer o seu véu, e dentre pequenos eventos que, por não sabermos a causa real, chamamos de “caóticos” ou “aleatórios”, nada realmente pode ser previsto do futuro. Nem onde o vento vai soprar, nem onde a terra vai tremer, nem até onde a evolução poderá nos levar.
Darwin dizia que o destino das espécies “tende a perfeição”. Muito embora seja complexo definir o que seja perfeição, a natureza jamais cansará de nos surpreender. Em apenas alguns segundos do ano cósmico, surgiu o homem e todo o seu conhecimento. A perfeição é o amanhã, é o porvir, é a potencialidade das consciências etéreas a bailar por entre eras e espécies – e ninguém pode realmente prever aonde tudo isso vai dar.
De sua agenda, a vida mesmo cuida: a natureza é livre.

A vida é a função do sistema
Embora todo sistema tenha sua função, há muitos que preferem ignorar que o sistema-natureza também tenha a sua. Em cada partícula que insiste em moldar organismos que se comportam de forma anti-entrópica enquanto vivificados, encontra-se parte do texto sagrado; Texto este que, codificado, reafirma através de infinitas reações químicas em meio ao turbilhão do universo: “Produzir vida, esta é a minha função”.

A lei da evolução
Nem o mais forte, nem o mais inteligente. Sobrevive e evolui aquele que melhor se adapta as condições do ambiente, e as suas mudanças.
Fisicamente, fazemos parte da espécie que obteve o maior sucesso em se adaptar ao meio-ambiente. Exploramos e ocupamos as zonas mais remotas do planeta, e hoje estamos em via de nos lançar ao oceano do Cosmos. Que nos faltará, senão uma adaptação de consciência? Senão explorar e ocupar nosso infinito interior?

***

[1] Um biólogo amigo meu apontou uma correção: "nosso 'ancestral' sobrevivente da extinção dos dinossauros não era um Roedor, que é um grupo avançado do qual os Primatas não derivaram; mas fazia parte de ordens extintas, como os Multituberculados, que só superficialmente lembram roedores". Devido a característica poética do trecho, preferi deixar assim.

Este artigo também se encontra traduzido para o inglês: "The lessons of evolution"

Crédito das imagens: [topo] Louie Psihoyos/CORBIS (Paleontologista Doug Zhiming); [ao longo] Bettmann/CORBIS (Neanderthal)

Marcadores: , , , , , , , ,

25.1.10

Reflexões sobre a linguagem, parte 3

continuando da parte 2...

Os nomes de Deus

Apesar do conselho do Tao Te Ching, a maioria das doutrinas religiosas insistiu em dar nome ao inominável, e com isso toda a espécie de conflito e desentendimento foi gerado ao longo dos tempos: Krishna, Jeová, Deus, Alah, Brâman, vários nomes que pretendem encerrar o mesmo conceito, quando em realidade cada ser tem o seu próprio conceito sobre qualquer um desses nomes. Ora, mesmo o “Zeus” de Epicteto já não era o mesmo Zeus da mitologia grega, e sim um “Deus dos deuses”.

Mas neste artigo, vamos manter a palavra Deus para designar o conceito de Absoluto – ou qualquer outro nome que queira dar, o nome não importa tanto, e sim o que você compreende por tal conceito.

Tanto a forma capitalizada do termo Deus quanto seu diminutivo, que vem a simbolizar divindades, deidades em geral, tem origem no termo latino para Deus, divindade ou deidade. Português é a única língua românica neolatina que manteve o termo em sua forma nominativa original com o final do substantivo em "us", diferentemente do espanhol dios, francês dieu, italiano dio e do romeno, língua que distingue Dumnezeu, criador monoteísta, e zeu, ser idolatrado.

O latim Deus e divus, assim como o grego διfος ("divino") descendem do Proto-Indo-Europeu deiwos ("divino"), mesma raiz que Dyēus, a divindade principal do panteão indo-europeu, igualmente cognato do grego Ζευς (Zeus). Na era clássica do latim o vocábulo era uma referência generalizante a qualquer figura endeusada e adorada pelos pagãos.

o ateísmo veio de uma origem etimológica intimamente ligada ao termo Deus. Originado do grego ãθεος (atheos), era aplicado a qualquer pessoa que não acreditava em deuses, ou que participava de doutrinas em conflito com as religiões estabelecidas. Com a disseminação de conceitos como a liberdade de pensamento, do ceticismo científico e do subseqüente aumento das críticas contra as religiões, a aplicação do termo passou a ter outros significados.

Tendo essas informações em mãos, talvez vocês concordem comigo quando afirmo que a discussão sobre a existência de Deus, ou seja, se ele existe ou não existe, é uma das atividades intelectuais mais inúteis que já foram inventadas... Ora, cada um tem a sua visão de Deus – mesmo entre os que atacam sua existência, há de haver antes uma concepção do que seria o objeto a ser atacado. Daí se tira que discutem sobre a existência de conceitos distintos, e dificilmente chegarão a alguma conclusão prática. Será sempre um embate de persuasão – um querendo persuadir o outro – e não um embate de razão.

Talvez isso fique melhor compreendido se pararmos para analisar os inúmeros conceitos que as pessoas têm de Deus: uns crêem que ele criou o Cosmos e interfere diretamente em cada evento, respondendo orações e enviando revelações proféticas a certos iluminados; outros crêem que após ter criado tudo o que existe, ele delegou a resolução dos eventos as leis da natureza, e deixou os seres decidirem seu destino por si mesmos. Ora, somente entre o teísmo e o deísmo já existem inúmeras divisões e sub-conceitos para o que significa Deus. Se formos entrar na questão das doutrinas abraâmicas, fica ainda mais complexo: para muitos cristãos, Jesus foi uma espécie de avatar de Deus; Para os muçulmanos Jesus foi mais um na linhagem de profetas, porém apenas homem; Já para certos judeus Jesus não passa de um herege... e assim vai, não quero nem entrar nas definições para “Deus pessoal” e “Deus impessoal”.

Se formos considerar as origens do ateísmo, tampouco chegaremos a algum lugar. Segundo a origem do termo, Jesus era um ateu para os sacerdotes judeus de sua época, visto que para eles ele deturpava os princípios de sua tradição religiosa. Mesmo em se considerando a origem do termo “religião”, ainda não chegaremos a lugar algum: Do latim re-ligare, significa literalmente "re-ligação", mas é comumente interpretado como "re-ligação aos deuses ou ao Cosmos". Também é associado ao termo em latim religio, usado na Vulgata, que pode ser interpretado como "reverência ao Deus dos deuses", embora aqui o termo já esteja intimamente ligado a uma crença específica. Obviamente o termo original pode ter inúmeras interpretações. Nem todas serão tão parecidas, mas certamente nenhuma delas pretenderá estabelecer o religare como uma crença em específico: aqui todos podem participar do mesmo religare, cada um a sua maneira e sem o intermédio de hierarquias eclesiásticas (ekklesia = “igreja”). Seria então um caminho espiritual, por assim dizer. Andamos, andamos, e no fim o Tao já havia definido isso tudo da melhor forma.

Que o caminho é próprio de cada um: pouco importa se crêem ou descrêem em um conceito, visto que esse conceito é também próprio de cada um. Antes discutir sobre problemas específicos e muito mais profundos do que se digladiar pela existência de um dentre infinitos conceitos: “Porque existe algo, e não nada?”; “O que é liberdade afinal?”; “Como surgiu a vida?”; “O que é a consciência?”; “O que é justiça?” – estes são alguns dos problemas, algumas das questões primordiais que procuro expor as pessoas, porque se fosse militante da existência ou não existência de um conceito que, no fim das contas, só mesmo eu compreendo a minha maneira, e ninguém mais, não haveria diálogo possível, e sim apenas uma batalha de persuasão. Não haveria troca de idéias, apenas a imposição das mesmas. Não acredito que assim se faça filosofia, que assim possamos nos conhecer melhor.

Melhor amar a diversidade de conceitos para algo tão grandioso quanto o Absoluto. Tão grandioso que não se pode delimitá-lo nem empacotá-lo em uma doutrina de crença ou descrença – o máximo que se pode fazer, penso eu, é admitir que se trata de um caminho, um caminho pelo qual andamos sozinhos, e o máximo que podemos fazer é trocar idéias sobre o que vemos ao longo. Cada um, porém, vê o Cosmos a sua maneira, e esta é a essência de sua grandiosidade, o assombro perante o infinito a vista.

Perguntemos "o que é Deus para você?" ao invés de afirmar "Deus é assim!" - é a melhor maneira de se fazer amigos, e não inimigos.

***

Crédito das imagens: [topo] Wikipedia (detalhe da pintura no teto da Capela Sistina, por Michelangelo); [ao longo] Finizio (religiosos cristãos de tradições distintas participando da mesma cerimônia religiosa - ecumenismo)

Marcadores: , , , , , , , , , ,

21.1.10

Espiritualismo: o que a ciência pode estudar

Nesses mais de três anos de artigos, contos e poesias, este blog nunca pretendeu negar que trata de espiritualismo, apesar de também falar bastante sobre ciência e filosofia. Para os que me acompanham a algum tempo, devem ter notado que volta e meia falei sobre questões espiritualistas com certo ceticismo (espero que na medida certa). Isso porque acredito que não devemos impor crenças adiante, é bem melhor esperar que as pessoas se convençam por si mesmas (ou não, mas é importante não haver imposição de qualquer forma)...

Embora a questão espiritualista ainda esteja na maior parte intimamente ligada a experiência subjetiva, acredito que algumas questões podem, e devem, ser analisadas pela ciência. Ao falar sobre isso, vale lembrar que a ciência não é materialista nem espiritualista, e que tanto o materialismo quanto o dualismo são apenas teorias conceituais ainda não comprovadas. Não adiantará nada, portanto, visualizar tais questões com uma opnião (ou dogma) já formada, do tipo "espíritos não existem" ou "os espíritos de luz é que sabem das coisas" - nada disso irá contribuir para que alcancemos objetivamente a compreensão desses assuntos, que permeiam a história da humanidade desde antes da invenção das linguagens. Vamos aos casos:

1. Da consciência
Os dualistas acreditam na separação mente-corpo como duas entidades separadas. Na realidade essa separação, com o avanço da neurologia, hoje é compreendida como mente (ou consciência) e cérebro. Apesar da ciência ter conquistado avanços no estudo da mente humana, ao ponto de conseguir decodificar sinais motores e fazer macacos "pilotarem" membros robóticos a meio mundo de distância, ainda não se sabe onde está a "usina cerebral", o que exatamente ativa as correntes elétricas em questões mais complexas como decisões morais ou emoções como o amor. Este é o famoso problema difícil da consciência, mas engana-se quem pensa que todos os neurologistas sejam contrários a noção do dualismo.

Sir John Eccles, neurologista vencedor do prêmio Nobel de medicina de 1963, foi talvez o mais ilustre cientista a argumentar em favor da separação entre a mente e o cérebro. Ele dizia: "Nós, como pessoas que experienciam, não aceitamos tudo o que nos é fornecido por nosso instrumento, a máquina neuronal de nosso sistema sensorial e o cérebro, nós selecionamos tudo o que nos é fornecido de acordo com o interesse e a atenção, e modificamos as ações do cérebro, através do 'eu'" - em suma, Eccles apenas defendia uma característica até mesmo óbvia que surpreendentemente escapou ao olhar atento de muitos cientistas (e ainda escapa): que alguma coisa em nós faz escolhas, simples e complexas, e que não sabemos exatamente onde esse 'eu' está fisicamente no cérebro (se é que está lá, ou apenas lá).

Outro defensor dessa teoria é Bahram Elahi, especialisa em cirurgia e anatomia. Diz ele que embora a mente e o cérebro sejam separados, a mente (ou consciência) não é algo imaterial. Ao contrário, é composta de um tipo de matéria muito sutil que, embora ainda não-descoberta, é conceituamente semelhante às ondas eletromagnéticas, que são capazes de carregar sons e figuras (e mesmo videos - figuras em movimento), e são governadas por leis, axiomas e teoremas precisos. Ele teoriza que tudo relacionado a esta "entidade" deve ser considerado como uma disciplina científica não-descoberta, e estudada da mesma maneira objetiva que outras disciplinas (como química ou biologia, por exemplo). A consciência pode, portanto, ser formada por algum tipo de substância material sutil demais para ser medida ou detectada utilizando as ferramentas científicas disponíveis hoje.

Para saber mais: Reflexões sobre a consciência

2. Da memória de vidas passadas
Muitos acreditam que "lembrar de vidas passadas" seja um delírio ocasionado por estados de consciência alterada. Entretanto, nas práticas de Terapia de Regressão de Memória a Vidas Passadas tem sido realizada a décadas nos EUA, no Brasil e no mundo, com considerável porcentagem de sucesso - ou seja, no sentido de serem benéficas para a patologia do paciente. No entanto, é óbvio que esse tipo de experiência não pode ser analisada objetivamente, e é muito difícil encontrar casos onde adultos tenham memórias vívidas o suficiente para, por exemplo, encontrar seu endereço ou árvore genealógica de vidas passadas.

Já no caso das crianças, o assunto é bem mais interessante. Desde os estudos de Ian Stevenson nos países do sul da Ásia, a ciência tem estudado de forma mais séria essa possibilidade. Até mesmo na "bíblia do ceticismo", Carl Sagan admite que a questão merece um estudo aprofundado (embora faça questão de afirmar que não crê na possibilidade das vidas passadas). Ora, se crianças podem descrever parentes de vidas passadas com exatidão, e reconhece-los ainda vivos, além de muitas vezes poderem descrever a região e o endereço de onde viveram, é porque algum tipo de informação é passada adiante, e não de mãe para filho. Aí temos uma possibilidade intrigante, mas que é avassaladoramente ignorada pela ciência moderna, independente das evidências. Algumas dessas evidências são tão fortes que fica difícil pensar em outra hipótese, como no caso do garoto americano, filho de protestantes, e que lembrou-se de outra vida onde morreu em um combate aéreo na Segunda Guerra Mundial.

Aparentemente, são os grandes traumas ou emoções fortes os únicos capazes de fazer com que, em uma suposta "outra vida", o ser se lembre do que ocorreu na vida imediatamente anterior. Aqui temos uma hipótese onde a ciência pode começar a avalisar caso a caso, embora eles sejam raros...

Para saber mais: Crianças que se lembram de vidas passadas

3. Da mediunidade
Essa é de longe a questão mais polêmica a vista, pois é atacada por duas frentes: os céticos que se escandalizam com a possibilidade, e os evangélicos que atribuem quase todas as práticas a necromancia ou "tratos com o demônio" (ainda que Jesus tenha, aparentemente, conversado com Moisés em uma tenda). Mediunidade é a capacidade de detectar os espíritos, ou consciências fora de um corpo físico, através de sentidos que a ciência ainda não compreende bem. Lógico que, a alternativa de ser tudo delírio ou esquizofrenia dos médiuns é igualmente válida. Falta no entanto a ciência explicar que tipo de delírio é esse, que dura alguns minutos e efetivamente altera o funcionamento cerebral, mas que depois deixa o médium tão normal quanto sempre fora: sem nenhuma sequela para sua vida (o que, aliás, já descaracteriza o rótulo de "doença").

Aqui no blog estudamos as cirurgas espirituais de João de Deus, e contrastamos o estudo da Associação Médica Brasileira com as alegações do dismistificador americano, James Randi, de que as cirurgias eram "truaques de mágica": fica evidente que, independente de haver ou não cura efetiva (o que não é comprovado), as cirurgias são reais. Esperamos que mais médicos tenham a coragem de continuar com o estudo em torno desse médium conhecido internacionalmente, embora tão polêmico (e não negamos: ele não é exatamente um ser iluminado, é até bem humano).

A grande questão da meduinidade é: "de onde diabos vem as informações, talentos e habilidades desconhecidos do médium, quando este está em transe mediúnico?" - Há muito tempo mostramos um vídeo com as psicopictografias de Gasparetto, este é um exemplo, pois fora do transe Gasparetto é um pintor medíocre... E o que dizer então de um dos maiores médiuns da história moderna? Chico Xavier sequer entrou na faculdade, e tinha habilidades literárias absolutamente limitadas, no entanto escreveu centenas de livros em estilos que vão desde a poesia espiritualista a divulgação científica - no seu "Mecanismos da Mediunidade", psicografado em pareceria com Waldo Vieira, separados por centenas de quilômetros - o que não impediu que os capítulos se "casassem" perfeitamente. Ora, de onde vem essas informações? Inconsciente Coletivo de Jung? Os memes de Dawkins? Para quem não ignora as evidências, essas podem ser questões para a ciência do futuro.

Para saber mais: Introdução a psicografia

4. Da projeciologia
Waldo Vieira já foi um dos grandes parceiros de Chico Xavier na psicografia de livros em conjunto. Em dado momento, porém, se desiliudiu com os rumos do espiritismo no Brasil, provavelmente por achar que estava se tornando "demasiadamente dogmático". Decidiu então abandonar o aspecto religioso, e investir no científico: há muitos anos mantém estudos quase herméticos em seu Instituto Internacional de Projeciologia e Conscienciologia. Ele insiste em criar termos técnicos que dizem algo somente aos "iniciados", mas talvez toda a base de conhecimento que ele esteja montando seja ainda um legado para o futuro, quando a neurologia finalmente chegar a um entendimento mais abrangente da consciência e suas capacidades.

Estudos objetivos, no entanto, podem ser realizados aos montes. Em documentários internacionais, são demonstradas as experiências na "academia" de Waldo Vieira, onde pessoas em projeção tentam visualizar imagens randômicas mostradas por um monitor de computador trancado em uma sala a parte. Por menor que fosse a porcentagem de acerto, ela seria surpeendente - e ocorre que ela é bem maior do que seria de se esperar. Serão fraudes tais experimentos? Os projeciologistas não se importam que céticos apareçam para estudar o fenômeno - o problema é que esse tipo de fenômeno a ciência moderna adora ignorar.

Para saber mais: Viagem astral: fora ou dentro?

5. Outros fenômenos
Ainda temos artigos que citam outras hipóteses espiritualistas que ainda não foram analisadas com maior detalhe no blog: A aparente capacidade de certos monges de ficarem dias sem comer nem beber, ou mesmo absolutamente imóveis (embora não acredite que Ram Bonjam fique realmente tanto tempo imóvel quanto afirmam, o experimento com o yogi Prahlad Jani é absolutamente válido para a ciência); Os cristais na glândula pineal, detectados pelos estudos do Dr. Sérgio Felipe de Oliveira, e que podem talvez explicar finalmente o mecanismo da mediunidade pela percepção de ondas eletromagnéticas; A eficácia de tratamentos alternativos como a acupuntura e a homeopatia, que atestam que ainda falta muito para a ciência estudar acerca do efeito placebo-nocebo.

Certamente temos muitos, muitos fenômenos, que merecem um olhar mais cuidadoso da ciência, independentemente da polêmica que suscitam. Os grandes cientistas e pesquisadores são aqueles efetivamente curiosos em desvelar a natureza, independentemente de crenças e descrenças que, no final das contas, nada tem a ver com a ciência em si. Talvez um pouco de anarquia, por incrível que pareça, possa efetivamente ser benéfico para a ciência moderna, pelo menos é o que pensava Paul Feyerabend. E olhem que ainda nem falei sobre o Dr. Sam Parnia e seu estudo inovador sobre as Experiências de Quase Morte (EQMs), me aguardem!

***

Leitura recomendada (livros): Twenty Cases Suggestive of Reincarnation, de Ian Stevenson; Life before life, de Jim Tucker; Varieties of religious experience, de William James; A volta, do casal Leininger (sobre um caso forte de reencarnação); O que acontece quando morremos, do Dr. Sam Parnia; O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec; As vidas de Chico Xavier, de Marcel Souto Maior; Encontros com médiuns notáveis, de Waldemar Falcão.

Leitura recomendada (online): paraPsi (blog que analisa com detalhe extremo os fenômenos ditos "paranormais"); Teoria da Conspiração (blog do ocultista Marcelo Del Debbio, que analisa muitas dessas questões de forma racional, com base na mitologia); Saindo da Matrix (blog espiritualista, nesse link temos apenas os artigos sobre espiritismo).

***

Crédito da foto: Photo Blues

Marcadores: , , , , , , , , , , ,

18.1.10

Reflexões sobre a linguagem, parte 2

continuando da parte 1...

Etimologias

“Etimologia é a origem dos vocábulos, já que por essa interpretação captamos o vigor das palavras. Aristóteles denominou-a symbolon; Cícero, adnotatio, porque a partir de uma instância de interpretação tornam conhecidas as palavras e os nomes das coisas: como flumen (rio), que deriva de fluere, porque fluindo, cresce. O conhecimento da etimologia é freqüentemente necessário para a interpretação do sentido, pois, sabendo de onde se originou o nome, mais rapidamente se entende seu potencial significativo. Contudo, não foi a todas as coisas que os antigos impuseram nomes segundo a natureza, pois alguns foram impostos arbitrariamente, tal como nós mesmos também fazemos quando damos a bel-prazer nomes a nossos servos e propriedades. Há etimologias de causa, como reges (reis) que vem de regere (reger) e de recte agere (conduzir retamente); outras de origem, como homo (homem) que provém de humus (terra); ou de contrários, como lucus (bosque), que, opaco pelas sombras, tem pouca luz (luceat).”

O homem brilhante que redigiu o texto original de onde foi retirado o parágrafo acima (que é apenas um resumo) foi também bispo católico, e depois da morte, nomeado santo – Santo Isidoro de Sevilha. Basta um estudo rápido sobre as páginas de sua grande obra, “Etimologias”, para perceber o quão meticuloso era Isidoro ao tratar e organizar todo o conhecimento de sua época, entre os anos 560 e 636 d.C.

Esta que foi a primeira enciclopédia que o mundo conheceu, freqüentemente utilizada por todos os grandes escritores medievais, denota o quão importante é não só a organização do conhecimento, o “banco de dados” de tudo o que o homem já estudou, como também a interpretação do conhecimento, que afinal é o que separa os pensadores dos meros compiladores, ou imitadores.

O gosto que os autores medievais tinham pela etimologia deriva de uma atitude pró-ativa em relação à compreensão de cada palavra, quase como se “saboreassem” o sentido de cada palavra, sem as tratar como meros vocábulos que “marcam” algum conhecimento. Ou seja, para eles, palavras não eram códigos. Para a tradição medieval do Ocidente, e boa parte do Oriente ainda nos dias atuais, as palavras abrem portas para novos pensamentos, e não apenas trancam conceitos em pequenas caixas de saber.

O grande problema em se acreditar que as palavras encerram idéias, e não apenas caminhos para o pensamento, é quando pessoas com “conceitos solidificados” entram em discussões, debates ou diálogos – que quase sempre não terminarão tão amigavelmente quanto começaram. Muitas vezes, tais pessoas falham em reconhecer metáforas ou situações em que as palavras são usadas no sentido poético. Por exemplo, na frase “disciplina é liberdade”, para uma pessoa que tem o conceito de “disciplina” solidificado como algo em torno de “seguir regulamentos, ser obediente as leis ou agir sempre da mesma maneira ordenada”, a frase parecerá absurda. Já para quem consegue levantar o véu e compreender a frase em seu sentido mais profundo, poético, a “disciplina que leva a liberdade” é antes a indicação de um caminho, talvez árduo de início, mas que propicia uma “liberdade mais completa” ao final – mas qual seria tal liberdade? Ora, talvez a liberdade de pensar por si próprio, sem ser influenciado pelos outros? Talvez a liberdade de se viver livre de desejos inúteis para nosso progresso? Talvez apenas “ser livre de verdade”. Em todos esses casos, a idéia de “liberdade” não é encerrada, não chega a um final, mas abre caminhos para diversas interpretações – e todas elas são muito mais profundas do que a idéia de “seguir regulamentos”.

Dessa forma, duas pessoas podem concordar no sentido que dão a liberdade, mas ainda assim discutir arduamente sobre o sentido da frase acima. Basta que uma delas tenha o conceito de “disciplina” solidificado em meros verbetes de dicionário, e a discussão, absolutamente inútil, seguirá noites afora.

Mas toda discussão não é totalmente inútil. Porém, notem que o contexto em que usarei a palavra “inútil” não é mais o mesmo do parágrafo acima. Afinal, o ato de dialogar envolve não só pensamento próprio, como pensamento alheio – é esse intercâmbio que moldou nossa cultura, e que produziu os grandes pensadores. Homens e mulheres que simplesmente conheceram o mundo, sem se preocupar em solidificar conceitos em dogmas. Nesse sentido, o problema dos debates é quando terminam em violência, que nem precisa ser física, mas a violência de se ignorar o modo de pensar alheio, a violência de se impor o conhecimento adiante, como se este conhecimento pudesse realmente ser “empacotado”, quando não pode.

É preciso estar atento, portanto, não somente para o contexto em que as palavras são usadas, mas principalmente para a forma de pensar das pessoas que trazem tais palavras a nós. Não é a toa que Sócrates passou boa parte de sua época áurea apenas dialogando com seus discípulos. Ora, um dos grandes pensadores da humanidade poderia realmente aprender algo com aqueles que o cercavam? Certamente, todo sábio está sempre atento ao mundo e, principalmente, as pessoas. Segundo Espinosa e Epicuro, as pessoas são o maior bem que podemos buscar nesta vida, isto é: as pessoas que são nossas amigas, porque nos compreendem, e porque nós também as compreendemos. Ora, se dois filósofos que viveram em épocas tão distintas concordam quase que completamente sobre isso, é porque no mínimo o conceito tem alguma base de verdade...

Quanto sangue derramado, quantas guerras inúteis seriam evitadas se as pessoas aprendessem a enxergar efetivamente umas pelos olhos das outras, e deixassem de classificar pessoas como “coisas”. Assim, não teriam existido escravos nem castas, nem ontem, nem hoje. Entretanto, é preciso seguir em frente, é preciso compreender o belo e profundo mundo que nos cerca, e a etimologia sem dúvida nos ajuda na frugal e divertida tarefa de buscar a origem do pensamento humano.

Na seqüencia, irei falar sobre os inúmeros nomes de Deus, e como o debate sobre sua existência ou inexistência é quase sempre inútil...

***

Leitura recomendada: “Revista Língua Especial: Religião e Linguagem”, artigo “O padroeiro dos etimologistas”, por Luiz Jean Lauand (Editora Segmento).

***

Crédito da imagem: Wikipedia (página de "Etimologias").

Marcadores: , , , , , , , , , ,

15.1.10

Reflexões sobre a linguagem, parte 1

Nosso maior dom

Há quem se pergunte qual o maior dom do ser humano: os sentidos, a visão que nos possibilita nos maravilhar com o mundo, a audição que nos permite ouvir a sinfonia das esferas? Talvez não os sentidos, mas o amor que nos une a todos os seres, a razão que nos permite compreender o elegante mecanismo da natureza? Bem, pergunte a um antropólogo, e ele lhe dirá sem pestanejar: a capacidade de interpretar símbolos, o que nos possibilita o uso da linguagem.

A capacidade de interpretar a realidade é o que nos permite compreender aos quantas de luz que os olhos nos enviam, ou as ondas sonoras que nos chegam pelos ouvidos – porém, ao contrário das espécies irracionais, nosso cérebro também é capaz de desenvolver linguagens a partir desses dados enviados, e associar conceitos físicos e, principalmente, metafísicos, aos símbolos. Sem essa capacidade dificilmente nossa arte, religião e ciência teriam se desenvolvido, e estaríamos até hoje caçando animais com machados de lasca de pedra, todos invariavelmente feitos da mesma forma mecânica, pois a criatividade também praticamente inexistiria.

Entretanto, ainda hoje sabemos que nossa linguagem nem sempre é apurada o suficiente para descrever certos conceitos. A tradição religiosa oriental é conhecida por ser afoita a nomear as coisas por palavras, numa tentativa de reafirmar a beleza de se nomear livremente o mundo. Dessa tradição vem a célebre frase: “Cavalo branco não é cavalo”, de Gong Sunlong, um retórico chinês que viveu entre 320 e 250 a.C. – Com a frase, ele quer demonstrar que recusa a idéia de que as categorias do pensamento que formam e/ou são formadas pelas palavras estejam realmente vinculadas à realidade concreta. Ou seja, o genérico “cavalo” nada tem a ver com o cavalo singular e concreto (branco, a título de exemplo) que esteja sendo observado através dos olhos.

No caso de um cavalo, talvez este pensamento seja exagerado: se cada pessoa escolhesse um nome diferente para nomear um cavalo, ou que seja – um cavalo branco que não é mais apenas cavalo, as linguagens seriam pessoais, e a comunicação entre duas pessoas já seria complexa; Imaginem então a comunicação entre uma vila ou grande cidade – seria praticamente impossível. Portanto, é inevitável que a linguagem se torne um “ditador” de conceitos, e o máximo que podemos fazer é nos valer das metáforas para tentar dizer “algo além” do que pode ser dito com as palavras.

O primeiro verso do Tao Te Ching, obra primordial do taoísmo, afirma que “O nome que pode ser dito não é o Nome eterno. No principio está o que não tem nome (o Tao).” – Ora, o Tao é um nome peculiar, ele é o nome do que não tem nome, pois é indizível, impossível de se conter em uma palavra, pois se trata não apenas de um conceito (por mais complexo que seja), mas de uma experiência. O Tao significa não somente a origem de tudo, mas o caminho em busca desse conhecimento primordial, em suma: a chamada experiência religiosa.

Na fé primitiva, o conhecimento ritual não tendia a se dar, evidentemente, por escrito. A novidade do Oriente Médio foi a fé no livro e, com ela, veio a configuração do discurso ritual, que o Ocidente esquematizou numa liturgia em parte devedora da estrutura oratória clássica. A retórica se firmou, nas religiões que dão peso ao verbo, como um campo importante da construção da religiosidade. A experiência religiosa, intransferível, foi, é e continuará subjetiva. Mas ao ser comunicada, ao ser partilhada em comunidade, a experiência mística segue princípios de persuasão.

No Ocidente, a religião está intimamente atrelada à linguagem, a evangelização. No Oriente, embora seja igualmente subjetiva, a religião é muito mais um caminho pessoal do que algo que se possa propagar adiante por discursos e sermões, ou mesmo por livros sagrados. Para a tradição oriental, livros sagrados geralmente são guias que tem de ser decifrados por cada um, e os líderes religiosos podem no máximo aconselhar sobre as melhores práticas nesse caminho.

Porém, religião à parte, a linguagem é também o meio primordial pelo qual as artes e as ciências são, respectivamente, comunicadas e codificadas. Impossível interpretar a arte sem o contato com símbolos (embora nem sempre sejam palavras); Impossível transmitir e organizar a ciência sem o uso de códigos simbólicos, como números e equações.

Outra característica importantíssima da linguagem é o seu correto uso em discussões e debates. Não é raro discussões ferozes serem travadas pelos motivos errados, simplesmente porque as pessoas não se entendem quanto ao significado das palavras que usam. Já citamos o amor, que certamente é outra palavra cujo conceito ainda não foi totalmente compreendido, a despeito dos esforços de poetas e religiosos ao longo da história.

Serão os conceitos universais possíveis de serem corretamente compreendidos e encerrados em palavras, em linguagem? É isso que veremos a seguir...

***

Leitura recomendada: “A pré-história de mente”, de Steven Mithen (Editora Unesp); “Revista Língua Especial: Religião e Linguagem”, artigos “O nome do Tao”, por Inty Mendoza, e “A retórica do pregador”, por Luiz Costa Pereira Junior (Editora Segmento).

***

Crédito da imagem: Bettmann/CORBIS (tabela alquímica de elementos)

Marcadores: , , , , , , , , , ,

11.1.10

Os dois lados da moeda

Cara

Nós encontramos consolo e salvação nas palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo. O verbo divino nos diz que ninguém irá ao Pai senão através dele. Nossa Igreja detém o único caminho para a verdade e a libertação dos pecados de uma vida mundana e inútil para a eternidade que nos aguarda após a morte. Não perca tempo com o paganismo e o ateísmo. Siga-nos, enquanto há tempo, antes que seja tarde demais!

Coroa

Nós encontramos beleza e elegância no método científico. A ciência nos demonstra que a natureza só pode ser compreendida objetivamente pela matemática. A experimentação realizada pela ciência oficial é o único caminho para desvendar a natureza. Livre-se da irracionalidade das práticas religiosas, das superstições e das pseudo-ciências. Venha conosco e abrace a felicidade que advém naturalmente em se viver pela razão!

Remédio-pensamento

Dizem que o conhecimento da verdade nos libertará. No entanto, que é exatamente a verdade? Quem pode dizer, sem parecer um lunático de antemão – “eu detenho a Verdade Absoluta”?

Embora a história tenha nos demonstrado que os dogmas foram criados por igrejas e doutrinas que pretendem ditar um “único caminho a ser seguido até a salvação”, nos dias atuais encontramos homens dogmáticos e evangelizadores, no mau sentido, mesmo entre os ditos ateus.

Tais seres se esquecem que a miríade infinita de personalidades que abrange a humanidade é bela e profunda, exatamente pelo fato de não existir ninguém igual a ninguém mais. Se alguém critica a sua doutrina ou ideologia de vida, alegre-se: você não encontrará ninguém mais como ele em todo o Cosmos!

Porque, ao invés de procurar ditar um rumo a seguir, até a “salvação” ou a “vida racional”, não procuramos demonstrar as qualidades de nossa doutrina ou ideologia pelos seus frutos? Pela fala mansa, pelo olhar complacente, pela sabedoria e a paz de quem se basta a si mesmo, e não precisa que outros o aplaudam nem tampouco o sigam. Pela doação de conhecimento e, sobretudo, de amor. Quem está certo e satisfeito com o que pensa, não se preocupa em “evangelizar” tal pensamento adiante. Ou, em outras palavras, atrai aos seres pelo exemplo moral, e não pela sedução oratória e intelectual.

Que conquistar a si mesmo é mais difícil e complexo que conquistar o mundo, e os Alexandres e Gengis-khans nos demonstraram isso claramente...

Não espere chegar a Verdade Absoluta para se libertar, que essa – felizmente ou infelizmente – ainda custará muitas eras a chegar. Liberte-se, hoje mesmo, de preconceitos e delírios de grandeza, dessa inquietante necessidade de expor sua verdade adiante, na vã esperança que ela “se torne mais verdadeira” somente porque um bando de pessoas a deriva se converteu a ela. Pois que estamos todos a deriva nesse turbilhão universal, nessa dança incessante de partículas e seres na imensidão do infinito.

E dogmas nada mais são que âncoras que nos prendem no lugar, e nos impedem de seguir o fluxo das águas – águas profundas, que deságuam em algum lugar do outro lado do Cosmos... Quem sabe nalgum dia, nessas margens distantes, possamos vislumbrar o pouco que seja da verdade que vêm à frente.

Liberte-se, pois que somente libertos poderemos um dia vislumbrar a verdade face a face. Solte esta âncora, deixe o rio fluir, tome este remédio-pensamento; Baste-se a si mesmo, percorra este mundo, encontre e ame aos seres; Deslumbre-se com a variedade exuberante de teorias para o sentido e o mecanismo do evento mais fantástico que existe: viver!

Cara e Coroa

Minha religião é meu pensamento.
Minha vida é minha bíblia.
Minha Igreja é meu coração.
Deus é nosso amor.

Minha ciência é (também) meu pensamento.
Minha vida é minha equação.
Minha Academia é meu coração.
Nós somos a forma do Cosmos conhecer a si mesmo.

***

Crédito da foto: Ramperto

Marcadores: , , , , , , , ,

16.12.09

Onde estarão os memes, parte 4

Continuando da parte 3...

A natureza não nos deixará relaxar

O geneticista norte-americano Dean Hamer parece ter uma predisposição inata à polêmica. Em 1993, afirmou ter descoberto um trecho do DNA, que batizou Xq28, supostamente responsável pela homossexualidade masculina. A descoberta lançou à fama e depois ao escárnio (quando outros cientistas falharam em replicá-la, já em 1999) o campo da genética comportamental, do qual é pioneiro.

Ultimamente Hamer voltou à carga, metendo a mão numa área literalmente sagrada. Em seu livro "O Gene de Deus" (Ed. Mercuryo), Hamer tenta sustentar que a crença em um criador também é geneticamente determinada. Antecipando as críticas, Hamer disse logo que não se trata de "o" gene, mas de "um gene entre vários". E, ah, não é exatamente Deus, mas uma predisposição à crença, que ele chama de "espiritualidade". Em todo caso, segundo ele, “O Gene de Deus” é um título que vende muito mais...

O tal gene, isolado por Hamer e sua equipe no Instituto Nacional do Câncer, nos EUA, é identificado pela sigla vmat2. Ele estaria envolvido no transporte de uma classe de mensageiros químicos do cérebro conhecidos como monoaminas, do qual o mais famoso é a serotonina, a molécula do bem-estar. Algumas drogas como o ecstasy e o prozac também influenciam o humor alterando os níveis de serotonina no sistema nervoso. Será que a fé se resume a isso?

É precisamente esse tipo de tratamento ultra-superficial do assunto que permitiu que a ciência moderna chegasse a uma visão mecanicista do homem, e do funcionamento da mente. Mas nosso atual estudo se resume a questão da possibilidade de que características psicológicas e comportamentais possam ser passadas de geração a geração, e evoluir de forma darwinista, precisamente como os genes. Portanto, se gente como Dean Hamer tivesse comprovado que algum gene, seja ele qual for, pode ser o responsável pela transmissão desse tipo de característica – no caso, a homossexualidade ou a espiritualidade – teríamos uma grande comprovação de que os genes, afinal, não transmitem apenas características físicas adiante, e que os memes nada mais seriam do que características ocultas dos genes, sendo passadas adiante pela reprodução humana.

Esse dia, porém, ainda não chegou; E, pelo que temos visto dos “grandes estudos” de gente como Hamer, a tendência é que nunca chegue: os genes, como qualquer geneticista aprendeu na faculdade, transmitem mesmo apenas características físicas. Caberá aos memes, ou a outras teorias, solucionar o problema da transmissão de características não-físicas pelas gerações humanas.

O psiquiatra suíço Carl G. Jung desenvolveu o conceito de inconsciente coletivo – uma parte da mente, compartilhada por todos, como produto da ancestralidade. Para ele, esse inconsciente inclui os arquétipos (conceitos universais inatos), como mãe, Deus, herói, etc., detectáveis na forma de mitos, símbolos e instinto. Presume-se que ele via o inconsciente coletivo como um tipo de memória popular, corporificado na estrutura do cérebro. Ora, que o cérebro de um recém-nascido obtenha registros em seu hipocampo, trazendo memórias armazenadas por seus ancestrais, nem seria um grande problema científico, contanto que fossem detectadas as partículas responsáveis por tal transmissão. Nesse caso, a grande diferença da teoria de Jung para a teoria de Dawkins é que o inconsciente coletivo pode mesmo abrigar memórias e costumes de toda a espécie, e não apenas dos memes que foram passados adiante na reprodução.

E temos aí uma enorme quantidade de informação “mitológica” a “flutuar pelo ar” e influenciar diretamente os costumes e a cultura dos seres humanos. Continua inexplicado, continua oculto, continua profundamente místico – exatamente como os memes.

Nesse ponto o bom observador deve ter percebido o grande dilema: por um lado, cientistas, psicólogos e antropólogos têm percebido e reconhecido que, sem dúvida, certas características não-físicas são transmitidas adiante ao longo da evolução humana; por outro lado, as únicas unidades materiais detectadas, os genes, não explicam o mecanismo de tal processo. Portanto, qual a grande diferença entre os que acreditam em memes e no inconsciente coletivo, e os reencarnacionistas e espiritualistas em geral?

Muitos dos que se dizem “materialistas” imaginam que a máxima da teoria do materialismo – “tudo o que existe é matéria” – coloca esta maneira de ver o mundo automaticamente acima das demais, que crêem no “imaterial”. Mal sabem que existem muitos espiritualistas que crêem piamente que “tudo o que existe é matéria”, da mesma forma que os materialistas. A única diferença é que certos espiritualistas crêem que os 96% de matéria não detectada no universo (porque não interage com a luz, segundo a teoria da Matéria Escura) podem explicar muito do que é desconhecido do materialismo, que por seu lado, crê piamente que o mecanismo de tudo o que existe, incluindo a mente humana, já pode ser compreendido apenas analisando-se os 4% da matéria já detectada.

A grande diferença entre esse tipo de espiritualista (alguns diriam, moderno) e o materialista, é que o último já se dá por satisfeito com o que já foi detectado pela ciência, enquanto o primeiro dedica a vida a desvendar os segredos da matéria fluida, não-detectada. É nesse sentido que se diz que a consciência, ou o que quer que forme seu processo, pode perfeitamente sobreviver após o fim da vida corpórea, assim como decerto já vivia anteriormente ao nascimento – dessa forma se explicariam fenômenos como experiências de quase morte, crianças que se lembram de “vidas passadas”, e outros ramos mais próximos da parapsicologia do que da auto-proclamada “ciência oficial”.

Obviamente que o fato de tais teorias espiritualistas virem sempre envoltas em questões teológicas e, segundo muitos céticos, “pseudo-científicas”, afasta muitos cientistas de seu estudo, temerosos com a possibilidade de serem conhecidos como “cientistas espiritualistas” – algo que a comunidade científica aparentemente condena, apesar de ficar por vezes igualmente aparente que muitos deles ignoram completamente o que exatamente significa ser um espiritualista.

Porém, como já foi dito por mim em outros artigos, a natureza nunca se comportou da maneira que “achávamos que iria se comportar”. Segundo Richard Feynman, “a imaginação da natureza é muito maior que a do homem, ela nunca nos deixará relaxar”. É provável que tanto os adeptos da memética quanto os reencarnacionistas vejam o mundo através de uma lente ainda desfocada, talvez o futuro da ciência e do espiritualismo ainda nos esconda mecanismos naturais tão belos e extravagantes, tão simples e transcendentes, que nossa imaginação não seja capaz de vislumbrá-los, e nossa racionalidade não seja capaz de compreendê-los.

Que as lentes se interponham. Que venha o futuro!

***

Crédito da foto: [topo] Divulgação (Richard Feynman), [ao longo] Hikabu (arquétipos)

Marcadores: , , , , , , , , , , , , , , ,