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19.7.10

Reflexões sobre a perfeição, parte 1

A perfeição é um estado de completude e ausência de falhas. Normalmente atribuímos a perfeição a um Criador, um Ser Perfeito ou as Leis da Natureza.

Natureza imperfeita

Ante a grandiosa perplexidade que a observação profunda da natureza nos imprime a alma, somos inexoravelmente levados a crer que o Cosmos – tudo o que há, que foi ou que será – é perfeito. Apesar de ser muitas vezes complexo para nós definir tal perfeição, quase sempre a associamos com a beleza, a simetria, a homogeneidade das formas naturais.

Na geometria a perfeição parece estar associada ao círculo: um espaço onde todos os pontos estão à mesma distância do centro, e conseqüentemente não temos nenhum ponto em posição privilegiada em relação aos demais. Essa igualdade nos parece sublime, e muitas vezes a tentamos traduzir para a realidade, tanto que muitos símbolos e signos da geometria sagrada se baseiam ou contém o círculo... Entretanto, ainda temos o ponto central do círculo – este está em posição privilegiada, na medida em que está a mesma distância de todos os demais. O centro é necessário para que os outros pontos se sintam em igualdade. Retire o centro e teremos novamente uma guerra em busca do ponto de superioridade. É mais simples supor que Deus está no centro. A mente de Deus, o motor inicial do Cosmos, a essência da natureza – aí está a perfeição!

Porém, quando aplicamos essa noção ao espaço-tempo, não temos o resultado que esperaríamos. Segundo a cosmologia, é impossível definir um “centro espacial” do universo. Certamente segundo a teoria do Big Bang, toda a matéria e energia cósmica foi catapultada de um mesmo “ponto inicial”, mas o espaço-tempo cresceu por igual em todas as direções. É como se o próprio centro crescesse ele mesmo, e não os pontos que estavam a sua volta... Nenhum ponto do universo está “em torno de algum centro”, pois que todo o espaço-tempo é ele mesmo um único ponto original que simplesmente cresceu rumo ao infinito. Não há nada fora nem além do universo – e, se é que há, haverá de ser o que o criou.

Costuma-se imaginar que a natureza é perfeita. Perfeita, simplesmente porque é o que havia já aqui muito antes de nós chegarmos (ou pelo menos, muito antes de nossa lembrança de estarmos conscientes da chegada). Como imaginar uma natureza imperfeita? Como imaginar falhas no projeto da criação? A ciência tem descoberto algumas...

Por exemplo: a grama é verde por causa do pigmento clorofila, que absorve as regiões azuis e vermelhas do espectro eletromagnético da luz solar. Por causa dessas absorções a luz que a grama reflete nos parece verde. Entretanto, as regiões verdes e amarelas do espectro da luz solar são as mais energéticas. Portanto, se formos pensar em perfeição no sentido de funcionalidade, a fotossíntese das plantas traria muito mais energia química caso a clorofila absorve-se as regiões verdes e amarelas do espectro, ao invés de absorver as regiões azuis e vermelhas. Seria isso um “erro de design” da natureza?

Não paremos por aqui. Se a grama parece ter “escolhido a cor errada”, mesmo o tão aclamado “projeto homo sapiens” parece ter os seus erros... Soluços, por exemplo, que variam de um aborrecimento passageiro a uma doença que pode durar meses ou, em raríssimos casos, anos. O soluço é provocado por um espasmo de músculos na garganta e no peito. O som característico é produzido quando inspiramos ar repentinamente enquanto a epiglote, uma aba de tecido macio localizada no fundo da garganta, se fecha. Todos esses movimentos são involuntários; soluçamos sem nem pensar no assunto. Os soluços revelam pelo menos duas camadas da nossa história evolutiva: uma parte compartilhada com os peixes e outra com os anfíbios, de acordo com uma teoria bem fundamentada [1].

Herdamos dos peixes os nervos principais usados na respiração. Um desses conjuntos de nervos (frênico) estende-se da base do crânio ao tórax e ao diafragma. Esse caminho sinuoso cria alguns problemas; qualquer coisa que interrompa o trajeto desses nervos pode interferir na respiração. Uma simples irritação pode deflagrar os soluços. Um projeto arquitetônico mais radical do homo sapiens teria colocado o início dos nervos frênicos em local mais próximo do diafragma e não do pescoço.

Já o soluço em si parece ter vindo do passado em comum com os anfíbios. Quando usam a respiração braquial, eles enfrentam um grande problema – precisam bombear água para a boca e garganta e depois para as brânquias, mas essa água não pode entrar nos pulmões. Como conseguem isso? Enquanto inspiram, eles fecham a glote, impedindo que a água escoe pelas vias respiratórias. Pode-se dizer que eles respiram com as brânquias usando uma forma estendida de soluço. Remexendo em nossa história evolutiva, vemos que uma boa parte dela se deu em oceanos, córregos e savanas – e não em cidades, igrejas ou academias.

Para muitos religiosos, essa “ousadia” em se criticar a natureza suscita um senso de ingratidão, de falta de respeito... Provavelmente são os mesmos que criticam qualquer tentativa dos biólogos e geneticistas de “intervir” na natureza – clonando, modificando, até mesmo adicionando informações a obra divina.

Louis Pasteur dizia que “uma pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima”. Eu gostaria de estender essa citação a religião: “um pouco de religião nos esconde a Deus. Muito, nos mostra-O em todo o Seu esplendor”... Para tentar lhes demonstrar o que eu quero dizer com isso, é preciso primeiro falar sobre o paradoxo da perfeição...

Na continuação, as imperfeições que geraram o Cosmos, e uma visão mais aprofundada do que é realmente a perfeição.

***

[1] Para saber mais consultar “A história de quando éramos peixes”, de Neil Shubin (Ed. Campus).

Crédito da foto: James L. Amos/Corbis

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10.7.10

Mulher objeto

Vamos ser honestos e ir direto ao ponto: faz muito tempo que o mundo ocidental é machista – no mínimo, desde que o culto a Deusa foi destroçado pela Igreja, mas isso não vem ao caso no momento...

Sim, já foi pior, já foi muito pior. Houve época em que mulheres “não tinham alma”. Houve época em que não podiam nem estudar nem trabalhar “porque sua única função era cuidar da casa e dos filhos”. Houve época em que não podiam votar e muito menos se eleger... Mas graças aos anticoncepcionais e aos movimentos de emancipação do século passado, as mulheres hoje estão em situação bem mais digna.

Ou melhor, elas sempre estiveram em situação digna. Os homens é que eram indignos das mulheres, pois por muito tempo foram educados para as tratar como seres secundários, às vezes serviçais.

Dizem que a humanidade não evoluiu moralmente. Os dogmáticos do apocalipse adoram lembrar que nossa evolução tecnológica nada fez por nossa moral. Dizem que “não há nada de novo abaixo do céu”... Eu não concordo.

Não concordo, porque há 2 mil anos o povo ia ver feras devorarem homens no Coliseu de Roma. E aplaudiam... Hoje o povo vai a um estádio de futebol (mesmo em Roma) para ver uma disputa esportiva, e raramente aplaude algum derramamento de sangue – é claro que os hooligans estão aí para nos lembrar do quão ignorante parte de nós ainda é, mas eles são a minoria, felizmente...

Os homens diziam que o mercado de trabalho não comportaria o afluxo de mulheres, que isso provocaria desemprego e conflitos e caos generalizado... Não, o apocalipse não chegou porque uma mulher assumiu a gerência de uma multinacional, ou a presidência de um país. Elas não são tão diferentes assim dos homens, e em muitas áreas são estatisticamente melhores – como na direção de automóveis, por exemplo; Se não acredita basta verificar em qualquer seguradora quanto custa o seguro para homens, e quanto custa o mesmo seguro para mulheres.

Mas há homens inteligentes e sensíveis o suficiente para reconhecer todas as potencialidades femininas... Vejamos o presidente da França, por exemplo, que certamente não deve ter muitas reclamações acerca da belíssima ex-modelo com quem se casou – uma artista de mão cheia, que não deixou de ser musicista e nem escritora por ser uma “primeira-dama”. Quantos homens não se sentiriam intimidados por uma Carla Bruni? Alguém tão bela, tão dona de si mesma, tão deliciosamente poética... Seria “muita areia para o caminhãozinho dele”? Certamente, talvez exatamente por isso ele esteja com ela – “o mais improvável dos relacionamentos”. “Improvável”, isto é, para os machistas que ainda se sentem melhor com as mulheres serviçais, as secundárias, as que não os podem ofuscar...

Porém, os ecos da barbárie medieval e a sombra da ignorância humana ainda se fazem presentes na época atual. Há algo de obscuro enterrado no cerne de nossa educação precária. Uma idéia de que homens são provedores e mulheres são “alguma espécie de bem material” – e que os homens devem ter muito, muito dinheiro, para poder “usufruir” dessas mulheres. Eis o absurdo conceito de mulher objeto (não estou me referindo a parafilia, mas simplesmente ao conceito em si), tão absurdo que se oculta longe da racionalidade, de modo que muitas vezes ele está no inconsciente, e não no consciente. Mulheres objeto no inconsciente coletivo de homens, e também de mulheres... Não acredita?

Se não acredita, dê uma breve olhada em comerciais de cerveja, em revistas masculinas, em sites pornô – ou melhor, talvez seja mais simples ir direto ao ponto, direto na “ferida”...

Clipes de música americana! Eles infestam as mentes de jovens e adolescentes – e mesmo de crianças e pré-adolescentes... Eu poderia citar vários exemplos, mas vamos direto a um ícone, do Black Eyed Peas (vale lembrar que não tenho nada contra a música em si, mas contra a idéia que os levou a escrever uma letra que, no fim das contas, resume muito bem o conceito de mulher objeto):

Na música acima, chamada “My Humps”, temos praticamente uma relação comercial estabelecida: o homem deve prover a mulher com dinheiro e jóias caras, e ela deve prover ele (com o perdão da palavra) com “muita bunda dentro do seu jeans” – eu estou apenas traduzindo a letra!

Algumas mulheres perceberam o absurdo estabelecido na cultura musical “pop” americana... Alanis Morissette nos brindou com sua brilhante paródia da mesma música, em que ela usa a mesmíssima letra, mas com outro ritmo (ela certamente não pretendia lançar um hit com esse clipe):

Isso dá uma pequena idéia geral de como o conceito de mulher objeto penetra em nossa cultura desde praticamente o berço – e nem sempre nossos adolescentes percebem por onde esse tipo de pensamento adentrou suas vidas (e até mesmo alterou o funcionamento cerebral)... Infelizmente não somos educados para pensar por nós mesmos, e dá no que dá: “conceitos enlatados goela adentro” – muitos de nós são praticamente gansos com cérebro inchado (ao invés do fígado).

E como mudar? Como fazer com que as mulheres escapem dessa sina – e de quebra reduzir (muito) a violência contra a mulher, causa direta de muitos traumas e assassinatos, mesmo nas “melhores famílias” –?

Simples: não aceite. Não compre essas idéias. Analise a si mesmo, conheça aos próprios pensamentos, e questione-se até que ponto eles são seus, e até que ponto são fruto de uma sociedade algo decadente, onde o deus do consumo faz o que quer e aonde quer... E todos o aplaudem, ou quase todos.

Mas, sobretudo, homens e mulheres, não desanimem! Quem sabe o dia em que nos chamaremos não de homens e de mulheres – mas de seres, de almas, de consciências –, não esteja tão distante assim... Era após era. Século após século... Hoje melhor do que ontem. Amanhã melhor do que hoje. Passo a passo.

***

» Tradução da música "My Humps" (atenção: a leitura pode fazer você perder a fé na humanidade)

Crédito das fotos: Anônimo/Divulgação.

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1.7.10

O que dizem os astros, parte 2

continuando da parte 1

E o que é o futuro, senão a conseqüência do que se faz – do que se escolhe – no presente? Que a astrologia tenha se popularizado como uma forma simples de se prever a sorte diária não é culpa dos grandes sábios e cientistas (a astronomia veio da astrologia) de diversas épocas que a consideravam com seriedade, mas sim da superficialidade com que os ignorantes tratam do assunto. A Astrologia funciona através do que Carl Gustav Jung chamou de sincronicidade. As mesmas energias universais responsáveis por todo o mecanismo de gravitação dos corpos celestes e emanações solares fazem com que a cada determinado instante, a Terra seja imantada com uma determinada gama energética, que é representada através de arquétipos (signos).

Agrippa via o universo como o unus mundus, onde o que ocorre no mundo celestial chega até o mundo dos fenômenos, intermediado pela esfera dos corpos celestes. Nesta concepção, a relação entre a esfera dos corpos celestes e a esfera humana não é de causalidade, mas de analogia ou sincronicidade. Astrólogos de orientação biológica procuram a explicação nos ritmos e ciclos biológicos, como os circadianos e lunares. John Addey realizou vários levantamentos estatísticos em busca da comprovação de conceitos astrológicos, como o de quase mil nonagenários e a relação Sol-Saturno. Descobriu, assim, o significado das relações harmônicas entre períodos cósmicos. Outra concepção é que a influência se dá através da variedade de raios cósmicos que chegam ao nosso planeta. Ebertin é um dos defensores desta hipótese... Por mais que tais suposições e nomenclaturas soem estranhas para os astrônomos atuais, há que se admitir que possuem muito mais lógica do que a astrologia de jornal – independente de serem reais ou não.

Em todo caso, ao que me parece, a totalidade dos astrólogos sérios considera que o movimento celeste não exerce influência direta sobre os eventos cotidianos... Não é porque Vênus está neste ou naquele local do céu que teremos maior ou menor sorte em apostar na loteria. E, em todo caso, o que seria a sorte senão a conseqüência futura de escolhas presentes?

“Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo.” – esta era a inscrição no Oráculo de Delfos, um dos centros religiosos da Grécia antiga. Me parece que ele encerra o conceito primordial em que se baseia toda a Astrologia: conhecer a si mesmo é análogo a conhecer os deuses e o universo (Cosmos). O que está em cima, os corpos celestes, é como o que está embaixo, os corpos neuronais... O céu noturno é uma emanação física da mente cósmica (isso é uma analogia!) assim como o baile elétrico das sinapses é uma emanação física de nossa alma (isso também é uma analogia).

Se o futuro é fruto de nossas escolhas presentes, de nada adiantam previsões que sempre serão algo incertas. O que importa é compreender o mecanismo pelo qual fazemos nossas escolhas. O que importa é compreender o sentido pelo qual fazemos nossas escolhas. O que importa é compreender a nós mesmos, que perto de tal compreensão todo o futuro é secundário. Exatamente por isso sempre houve esse consenso entre os grandes sábios... Mesmo o Rabi da Galiléia nos afirmou que somos deuses (João 10:34), que faremos tudo o que ele fez e muito mais ainda (João 14:12). O universo interior é ainda mais vasto que o exterior, compreendê-lo é a nossa divina jornada.

"Nós, como pessoas que experienciam, não aceitamos tudo o que nos é fornecido por nosso instrumento, a máquina neuronal de nosso sistema sensorial e o cérebro, nós selecionamos tudo o que nos é fornecido de acordo com o interesse e a atenção, e modificamos as ações do cérebro, através do eu" – Esta não é uma citação de um religioso ou astrólogo, mas de um neurologista... Sir John Eccles, vencedor do prêmio Nobel de medicina de 1963, foi talvez o mais ilustre cientista a argumentar em favor da separação entre a mente, a consciência (no caso, um processo da mente) e o cérebro. Somos seres que interpretam informações de acordo com nossa vontade, e não máquinas que computam informações de acordo com nossa programação.

Nós não fomos programados, não formos criados como robôs ou fantoches. Fomos criados livres, e com um caminho infinito de evolução à frente. Nossa liberdade não é absoluta, da mesma forma que uma criança precisa brincar apenas em sua caixa de areia, nossas escolhas são locais e não globais – ainda assim, são escolhas! Perto da magnitude do Cosmos, perto da abrangência desse sistema que nos conecta a todos em uma trilha de luz, que importância poderia ter o futuro? Que importância poderia ter saber se vamos casar, ou com quem, se vamos ter mais ou menos dinheiro, se vamos sofrer acidentes ou doenças, se vamos tirar a sorte grande, se vamos ter tranqüilidade ou angústia, se vamos amar ou odiar, se vamos viver ou morrer? Se tudo passa pela nossa sagrada capacidade de escolher as escolhas que nos são dadas, e sermos inexoravelmente empurrados pelos ventos que não são possíveis de se evitar, honestamente eu dispenso a previsão.

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Crédito da foto: Mark Miller e The Virgo Consortium

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O que dizem os astros, parte 1

“Nós podemos tomar o estado presente do universo como o efeito do seu passado e a causa do seu futuro. Um intelecto que, em dado momento, conhecesse todas as forças que dirigem a natureza e todas as posições de todos os itens dos quais a natureza é composta, se este intelecto também fosse vasto o suficiente para analisar essas informações, compreenderia numa única fórmula os movimentos dos maiores corpos do universo e os do menor átomo; para tal intelecto nada seria incerto e o futuro, assim como o passado, seria presente perante seus olhos.”

O texto acima é de autoria de Pierre Simon Laplace – grande matemático, astrônomo e físico, conhecido como “o Newton francês” –, um ávido defensor filosófico do determinismo. Segundo algumas doutrinas religiosas, Deus criou o universo e comanda absolutamente todos os eventos – cada fio de cabelo que cai e cada estrela cadente que penetra a atmosfera terrestre são fruto de um determinismo divino sob o qual não temos nenhum controle ou escolha.

Em sua crítica a astrologia, na série de TV Cosmos, Carl Sagan afirma que ela implica num perigoso fatalismo: “se nossas vidas são governadas por um conjunto de sinais de trânsito celestes, porque tentar mudar algo?”. Ora, há muitos céticos que criticam a astrologia ou a existência de um “ditador divino”, porém a idéia do determinismo não vem apenas de fontes ditas “místicas”.

O intelecto ao qual Laplace se referia em seu experimento mental foi batizado de Demônio de Laplace pelos seus biógrafos. Segundo a cosmologia de sua época, todas as partículas e planetas e estrelas exerciam influência gravitacional (e de outras forças) umas sobre as outras. Isso, e somente isso, poderia explicar todo o movimento dos corpos celestes e atômicos – exatamente por isso o Demônio teria em sua mente todo o passado e todo o futuro, todo o movimento do universo, como se fosse o presente. Para tal Demônio, nada que já ocorreu ou resta ocorrer será alguma novidade...

Laplace também esteve próximo a propor o conceito de buraco negro. Ele observou que poderiam existir estrelas maciças cuja gravidade seria tão grande que nem mesmo a luz escaparia de sua superfície. Na cosmologia moderna, sabe-se que tais singularidades existem, mas ainda não se sabe se a informação que é engolida por sua gravidade se perde ou é reaproveitada em algum outro lugar do universo. Essa é uma questão fundamental, pois se alguma informação é perdida, não seria mais viável conceber uma previsão do futuro como a de seu Demônio, pois ele não disporia mais de toda a informação necessária para sua previsão (embora decerto ainda disporia de muita informação).

Já a física quântica nos demonstrou o quão bizarro é o universo em suas partículas fundamentais. Hoje se sabe que é impossível prever o movimento (momentum) e a posição de partículas como um elétron: quanto mais se sabe sobre uma informação, menos se sabe sobre a outra. Tudo o que podemos determinar é uma probabilidade de tais partículas estarem neste ou naquele local – não podemos analisar a trajetória de uma única partícula como uma linha reta (física clássica), e sim como uma função de onda.

Finalmente, os neurologistas já descobriram que temos tantos neurônios no cérebro quanto estrelas em nosso horizonte cósmico. Segundo o filósofo Daniel Dennet, não existem coisas como experiências subjetivas; em vez disso ele propõe que o cérebro é um computador que possui informações de diferentes fontes com uma disposição para um comportamento particular e uma habilidade para distinguir entre estímulos diferentes. Esse é o ápice do determinismo: não apenas um determinismo divino ou a influência derradeira dos corpos celestes, mas a redução total de seres a coisas. Somos como poeira espalhada pelo vento, tudo o que fazemos, tudo o que pensamos, é determinado pelas reações químicas de partículas dentro de nossa cabeça. Eis o determinismo materialista.

Ante o evidente absurdo do determinismo – seja divino, astrológico ou material – tudo que posso dizer é isto: Ora, se tudo o que fazemos, todo nosso movimento e nosso pensamento, toda nossa razão e emoção, todas as nossas escolhas, são previamente determinadas, de que diabos adiantaria discutir o assunto filosoficamente? Se estaremos a discutir alguma coisa, não será por nosso livre-arbítrio (inexistente), mas sim porque fazemos parte de um teatro de fantoches... E nossa discussão, e todas as discussões, seriam apenas mais uma encenação de um Mestre dos Fantoches. Nossa angústia seria fruto do movimento dos corpos celestes. Nosso medo do futuro seria o resultado de alguma reação química em nosso cérebro. Seria o fim de toda a responsabilidade, o fim de toda liberdade, o fim da vida como algum dia foi compreendida... E isso é tudo o que tenho a dizer sobre o assunto.

No entanto, se o livre-arbítrio de fato existe, se somos parcial ou totalmente responsáveis por nossas próprias escolhas, então a filosofia de Dennet cai por terra, o fatalismo dos astros se reduz a fantasias inapropriadas, e o Demônio de Laplace torna-se apenas mais um pretendente a Deus. Ora, se a física quântica nos demonstra que o futuro é feito de probabilidades, se as singularidades cósmicas nos deixam na dúvida se a informação é ou não perdida, me parece que o determinismo é uma ilusão... O que temos, em realidade, é um sistema. Um sistema cósmico muito bem orquestrado para que todo movimento gere outro movimento, toda ação gere outra ação, e todas as coisas e todos os seres sigam eternamente conectados em sua harmonia cósmica. Se alguém sabe do futuro de forma perfeita (como Laplace postulou), precisaria ter criado tudo o que há a partir de si mesmo, precisaria ser Deus.

Na continuação, a sincronicidade de Jung, o Oráculo de Delfos e o porque de não precisarmos nos preocupar com a previsão do futuro...

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Crédito da imagem: Gravura de autor anônimo, divulgada primeiramente em um livro de Camile Flammarion

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25.6.10

Cacique Cobra Coral: charlatão?

Este artigo visa analisar a suposta capacidade do espírito conhecido como Cacique Cobra Coral de afetar o clima em diversas regiões do mundo, e mais precisamente nas cidades brasileiras onde sua Fundação tem convênio com prefeituras. O espírito age através da médium Adelaide Scritori, que supostamente o incorpora de acordo com as práticas da umbanda. Este artigo pretende analisar o fenômeno de forma verdadeiramente cética e imparcial. [1]

De acordo com informações colhidas na Wikipedia e em reportagem da revista Veja, a Fundação Cacique Cobra Coral (FCCC) é uma fundação brasileira com sede em Guarulhos, criada pela médium Adelaide Scritori, e que ficou mundialmente famosa por manter convênios gratuitos com governos para intervir no clima e no tempo, como forma de prevenir ou minimizar catástrofes, ou não atrapalhar a realização de eventos.

A FCCC relaciona entre seus supostos feitos a elevação de 29 graus centígrados na temperatura de Londres, em 1987, o deslocamento para o mar de temporais que castigariam o Rio de Janeiro, em 2006, e o desvio de uma chuva para apagar incêndios florestais na Grécia, em 2007. Corretora de imóveis "acima de 1 milhão de reais", como gosta de frisar, Adelaide mora nos Jardins e costuma viajar o mundo oferecendo seus dotes sobrenaturais. Jura que o cacique não a ajuda nos negócios ou em relacionamentos. "A entidade só faz alterações climáticas para beneficiar a população". Pertencente a uma tribo americana, o índio apareceria à médium desde os 7 anos de idade e se comunicaria num português "com sotaque caboclo".

Mantida por uma empresa de seguros, a FCCC ganhou fama internacional depois que o escritor Paulo Coelho foi seu vice-presidente, entre 2004 e 2006. Hoje, dezessete países, em três continentes, receberiam ajuda do cacique. No Brasil, três estados (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná) e duas prefeituras (do Rio de Janeiro e de São Paulo) contariam com sua força para lidar com as tempestades. Adelaide diz que não cobra nada das cidades para desviar os temporais. Mas pede, em troca, algumas obras para evitar enchentes. "Funcionamos como uma espécie de airbag: reduzimos os danos, mas as autoridades têm de fazer a parte delas", explica Adelaide. "O cacique não pode servir de muleta para os humanos".

Em posse dessas informações, e sem negar a priori que esse tipo de fenômeno seja possível (como o fazem os “pseudo-céticos de negação”), vamos analisar os fatos pela luz da lógica espiritualista e científica (se você está escandalizado, mantenha-se firme, pois acredito que sairá dessa análise no mínimo com um maior entendimento da espiritualidade):

1. Da capacidade de se afetar o clima
Desde épocas pré-históricas há registros de rituais e danças tribais direcionadas especificamente a afetar o clima, a mais famosa delas talvez seja a dança da chuva. Muitos espiritualistas antigos e modernos consideram a possibilidade do clima ser direta ou indiretamente regido por espíritos e/ou entidades da natureza [2]. Nesse contexto, os rituais e as danças não seriam em si os catalisadores das mudanças climáticas, mas sim uma forma de contato com tais entidades, uma espécie de “pedido” feito através de uma linguagem simbólica que seria compreendida por esses supostos espíritos da natureza.
Certos ocultistas afirmam que conseguem afetar o clima e desviar chuvas, mas em sua maioria dizem que tais técnicas exigem muitos anos de estudo nas artes ocultas, e que tais fenômenos estão longe de serem “triviais” de se fazer. Mesmo no Novo Testamento, temos uma passagem em que Jesus “acalma a tempestade ” e permite que a pescaria siga tranqüila no barco onde estava com seus discípulos – porém, mesmo Jesus não realiza esse tipo de fenômeno de forma trivial.
Segundo a FCCC, eles (a médium e o cacique) precisam estar fisicamente presentes (no caso da médum) nos locais onde realizam seus trabalhos de mudanças climáticas. Até aqui faz certo sentido, se afirmassem que conseguem mudar o clima em qualquer parte do globo, estariam se igualando, no mínimo, a semi-deuses.
Já quanto ao nível de modificação imposta ao clima, a FCCC admite que atua como “um paliativo” e não como uma solução derradeira. Adelaide costuma dizer que eles são um airbag contra os temporais. Para realizarem seus trabalhos, eles precisam de equipamentos de ponta na ciência metereológica. Observa-se um casamento entre ciência e umbanda, ou ao menos sabe-se que a própria FCCC depende de tecnologia física para sua atuação.
Cientificamente, entretanto, é praticamente impossível comprovar que a médium consiga realmente afetar o clima – ainda que “de forma paliativa, em pequena escala”... Sabe-se que os eventos que regem o clima são muitos e extremamente complexos, de modo que mesmo a previsão do tempo para daqui a uma semana é algo longe dos 100% de eficácia, enquanto que a previsão para daqui a meses é praticamente impossível pela ciência atual.
Pela lógica espiritualista, ainda que a existência de entidades da natureza seja considerada, há que se perguntar se o clima está realmente “esperando as ordens” de alguém... Ou, ainda mais profundo do que isso, se seria justo desviar tempestades de um local para o outro. Digamos que todas as tempestades fossem desviadas para o oceano e não para cidades vizinhas, ainda assim ficaria difícil de explicar como isso poderia ser feito em qualquer parte, mesmo nas cidades afastadas do litoral!
Se a natureza é um sistema, os seres vivos dentro da atmosfera terrestre estão todos conectados a ele – e esse sistema também inclui o clima, portanto. Seria estranho esperar que tempestades simplesmente “sumissem no ar”, até mesmo porque o espiritualismo trata de fenômenos lógicos que, ainda que não possam ainda ser entendidos pela ciência atual, não devem ser reduzidos ao pensamento mágico. Sabemos que na natureza nada se cria e nada se perde, tudo se transforma, e uma tempestade precisa ocorrer quando as nuvens estão carregadas – não há médiuns ou entidades capazes de “teleportar” a precipitação para outro planeta...
Dito tudo isso, como a FCCC afirma que atua como um airbag e que não consegue realizar grandes transformações no clima, talvez ainda tenhamos um espaço lógico para crer que uma parte do que afirmam fazer seja verdade. Nada que possa ser comprovado experimentalmente, mas também nada que possa ser provado como fraude – por enquanto.

2. Do trabalho diretamente condicionado aos convênios
Retirado de matéria do O Globo: Quatro dias após o violento temporal que atingiu o Rio de Janeiro no início de 2010, o prefeito Eduardo Paes renovou o convênio com a FCCC, que presta assistência técnico-científica gratuita para o município em questões climáticas. A  cerimônia de renovação da parceria ocorreu em uma audiência com a médium Adelaide Scritori com Paes na sede da prefeitura.
“Infelizmente, a Fundação não foi acionada no forte temporal de sábado passado no Rio. O convênio com a prefeitura estava à espera de renovação, mas temos um acordo em vigor com o governo do Estado. Mas a Defesa Civil do Estado também não nos alertou – disse Osmar Santos, porta-voz da Fundação Cacique Cobra Coral.”
Apesar de afirmarem que todos os convênios que possuem não envolvem o gasto de verbas públicas, me parece estranho que a FCCC seja “inerte” em relação as suas atividades... É que, conforme a própria Adelaide afirma, “eles só atuam quando são chamados”, e também quando existe um convênio, é claro.
Mas, e que tipo de convênios são esses? Ora, se eles não precisam de dinheiro, talvez exista uma troca de aparelhagem ou até mesmo uma intervenção da FCCC nas políticas de sustentabilidade nos governos em questão. São suposições baseadas em informações que encontrei no próprio site da FCCC, como essa afirmação (talvez um pouco exagerada):
“FCCC alerta CEE (Comunidade Econômica Européia), USA e países do Oriente (China e Japão): Não vamos atender a partir de 2010 os países que se omitirem na redução de CO2 no próximo mês em Copenhagen”.
Mas são somente suposições, pois não temos acesso aos detalhes desses convênios – sabemos apenas que existem, mas não o que significam exatamente... A grande questão é até mesmo óbvia: mas, e porque diabos eles precisam desses convênios para atuar?
Suponhamos que o cacique e a médium não ganhem absolutamente nada em troca de seu trabalho em prol da humanidade – nem mesmo o reconhecimento devido... Ora, qualquer espiritualista sério conhece inúmeros médiuns que fazem o mesmo, e não dependem de nenhuma espécie de retorno financeiro ou tecnológico, de nenhum reconhecimento público e muito menos de convênios com prefeituras!
Ainda que seja viável crer nas boas intenções do cacique, resta-nos compreender o porque de ele só atuar quando chamado, ou através de convênios... Para que um espírito indígena precisa de convênios para trabalhar em prol do bem estar das pessoas? Ou ainda, o que interessa a um cacique evitar que chova em um evento de Rock? Isso seria realmente algo importantíssimo frente a tantas catástrofes naturais que ocorrem no mundo – e ao que tudo indica, independente de convênios entre fundações umbandistas e prefeituras?
Se a FCCC buscava reconhecimento público através de seus convênios, o mais provável é que tenha sido apenas alvo de chacota (e com razão, independentemente de suas intenções serem sérias ou não). Se a FCCC buscava a contra-partida dos governos em ações de sustentabilidade, poderia fazer isso de uma outra forma – por exemplo, poderia reunir um fundo de ajuda aos desabrigados e feridos em grandes enchentes e catástrofes ambientais; ou ainda incentivar as pessoas a olhar a natureza com maior cuidado (o que já vem sendo feito por inúmeras organizações científicas e espiritualistas, aliás); ou até mesmo reunir-se de tempos em tempos com as supostas entidades de natureza para discutir a melhor forma de tratar as mudanças climáticas – desviando chuvas na origem e não no fim. Talvez até a FCCC já faça algo na linha do que foi sugerido, mas em nenhum dos casos faz qualquer lógica a necessidade desses convênios com os governos.

3. Da possibilidade do uso de verbas públicas
Ainda que a FCCC e os prefeitos afirmem categoricamente que seus convênios são inteiramente gratuitos, fica difícil imaginar para que diabos serviria um convênio gratuito. É mais ou menos como telefonar ou enviar um e-mail para alguém e ter isso registrado em cartório... Ora, se tudo o que ocorre são trocas de informação, para que é preciso o convênio?
Agora, no caso de verbas públicas serem gastas nesse tipo de convênio, daí sim teríamos um caso bizarro em mãos. O estado é laico, e ainda que não fosse, não podemos usar verbas públicas em serviços de eficácia altamente duvidosa e não comprovada, por mais que a possibilidade de serem efetivos exista (não é possível provar como fraude). Embora muitos vejam a FCCC como uma espécie de site humorístico e tais convênios com uma espécie de piada de mau gosto, há que se criticar esse tipo de coisa com muito mais contundência. Principalmente por parte dos espiritualistas.
É por casos como esse que a espiritualidade ainda irá demorar muito para penetrar na mente daqueles que (sabiamente) cultivam um pensamento racional. É uma pena que em muitos casos seja necessário praticamente jogar o cérebro no lixo para seguir adiante com crenças que, embora pareçam fantásticas a primeira vista, podem configurar uma enorme perda de tempo em nossa evolução espiritual.
A espiritualidade não precisa abandonar a razão, a ciência ou o ceticismo – a fé racional é a fé ideal segundo os grandes sábios; a ciência nunca foi materialista nem espiritualista, mas sim uma forma de conhecermos o mundo; e o ceticismo é uma ferramenta filosófica que serve em qualquer área ou crença, desde que usada com bom senso.
Se a FCCC é realmente uma Fundação séria, e se o cacique realmente tem boas intenções, que se dediquem ao que importa – a regenerar este mundo, a mudar as mentes e não apenas desviar as tempestades, a findar a ignorância e não apenas servir de “paliativo”... Para nada disso precisarão de convênios, exposição na mídia ou reconhecimento público – pois que se o cacique é realmente quem afirma ser, deve saber que o único reconhecimento que importa é o de nossa própria consciência, e a única tempestade que precisa ser desviada é a tempestade da ignorância.

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[1] Quem acompanha o blog talvez tenha lido a defesa que fiz de Chico Xavier e a análise que fiz da mediunidade de João de Deus (ambos acusados de charlatanismo). Como nos outros artigos tratei de fenômenos muito mais paupáveis (ao menos do ponto de vista espiritualista), resolvi falar sobre a FCCC como forma de contra-ponto, até mesmo para demonstrar que um espiritualista também pode ser cético (ou deveria ser).

[2] Quanto a essa questão eu sou particularmente agnóstico, até mesmo porque não vejo uma conexão clara entre esse tipo de fenômeno e um caminho de evolução espiritual. Porém, no que tange uma análise mais científica do fenômeno, talvez o caminho para uma melhor compreensão passe pela questão das bactérias que (talvez) influenciam o clima.

Nota: Títulos como "Cacique Cobra Coral" ou "Maria Padilha", etc., vem da umbanda e costumam se referir a coletividades de espíritos – não apenas um. Este artigo se refere exclusivamente ao cacique da FCCC, que se é que existe, é "um dos" caciques, e não "o" cacique.

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Crédito da imagem: Anônimo.

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18.6.10

Ferida aberta

Rockall é um pequeno rochedo desabitado com 27 metros de diâmetro, 23 de altura e uma superfície de 570 metros quadrados, no meio do Oceano Atlântico, entre a Islândia e a Irlanda. Pertence à Zona Econômica Exclusiva do Reino Unido desde 1997, depois de ter sido anexado por Londres em 1955. Mas a riqueza que esconde na profundidade das águas em seu redor, em hidrocarbonetos e minerais, é motivo suficiente para ser disputado por quatro nações.

Reino Unido, Irlanda, Dinamarca e Islândia reclamam direitos sobre Rockall – Cada país conta com extenso relatório de razões históricas, geográficas e políticas para demandarem os direitos sobre uma rocha perdida no meio do mar. A disputa ainda promete levar muito tempo e render dividendos a muitos burocratas, mas pelo menos esperamos que não entrem em guerra por conta disso.

Em 1854 o presidente dos EUA, Franklin Pierce, enviou uma carta ao Chefe Seattle com uma oferta não muito generosa de dinheiro para comprar as terras dos índios locais. Ainda que fosse generosa a oferta, o Chefe Seattle pareceu não compreender a lógica do presidente. Em sua carta de resposta, escreveu:

Mas como pode comprar ou vender o céu, a terra? Essa idéia é estranha para nós. Cada parte dessa terra é sagrada para o meu povo (...) Cada grão de areia da praia, cada névoa na floresta escura (...) O destino de vocês é um mistério para nós (...) O que vai acontecer quando os recantos secretos da floresta estiverem passados com o odor de inúmeros homens e a vista das colinas verdejantes se macular com os fios que falam?

Será o fim da vida e o começo da sobrevivência. Quando o último pele-vermelha sumir com a natureza selvagem, e sua lembrança for só a sombra de uma núvem sobre a planície, essas praias e florestas ainda estarão aqui? Terá sobrado algum espírito do meu povo?”

O sábio indígena parecia antever as atrocidades que os homens fariam com a natureza de seu próprio país, incluindo a tal “terra” que gostariam de comprar. Mas se ele parecia preocupado apenas com os “fios que falam” e o fim das florestas selvagens, é porque não viveu para ver as grandes “selvas de asfalto” e tudo o mais que foi erguido nos lares sagrados dos índios que se foram – em sua maioria mortos brutalmente por não aceitarem as “ofertas” dos colonizadores americanos.

Comparando-se as épocas, podemos dizer que ao menos nossa civilização evoluiu um pouco em relação à busca desenfreada por riquezas, ao menos ninguém mais se acha no direito de dizimar nações e inúmeros inocentes em guerras sem sentido, apenas para se abocanhar um pouco mais de terras e riquezas... Será mesmo? Bem, ao menos casos como o da invasão do Iraque não ocorrem mais sem o protesto permanente da mídia mundial...

Talvez mesmo por isso os governantes tenham voltado os olhos para as reservas de riquezas enterradas no fundo dos oceanos – o fétido ouro negro que continua a dominar os desejos daqueles obssediados pela conquista de riquezas, que infelizmente ainda parece ser o caso da maioria dos chefes de governo. A lógica é simples: pode ser mais caro extrair petróleo do mar, mas pelo menos não é preciso invadir países e provocar tragédias diplomáticas, ou ainda que seja necessário algum confronto, será apenas entre militares em navios no meio do mar, longe da mídia.

Mas, ainda que seja cara a tecnologia para cavar tão fundo no leito dos oceanos, mais caro ainda seria pesquisar procedimentos realmente seguros de extração, certificando-se que acidentes sejam raros e as medidas de contenção eficazes... Imaginava-se que a maioria das nações tenha gastado um pouco mais para se certificar que a natureza não seria ameaçada pela extração do ouro negro abaixo do mar, mas era a mais pura ilusão...

Em 20 de Abril de 2010 uma plataforma de exploração de petróleo da British Petroleum (BP) no Golfo do México explodiu, causando 11 mortes de operadores e um vazamento direto para o oceano, que até este momento – cerca de dois meses depois – ainda não foi completamente controlado, e nem parece que vai ser tão cedo. A BP vem tentando conter o vazamento desesperadamente, mas seus engenheiros admitem que simplesmente não tinham a tecnologia necessária para conter um vazamento a tal profundidade (1,6 Km).

A BP têm uma excelente razão para conter o vazamento o mais rápido possível: desde que a mídia passou a anunciar o que provavelmente será (ou já é) o maior desastre ambiental da história dos EUA (e talvez do mundo), suas ações despencaram a valores de mais de uma década atrás, e certamente continuarão em queda livre. O atual presidente americano, Barack Obama, está furioso com o ocorrido, e atrás de “traseiros para chutar” entre os diretores da BP. A verdade, entretanto, é que ninguém sabe até onde irá esse desastre, o vazamento é uma ferida aberta nas águas do Golfo – o sangue negro não tem data para ser estancado.

Ao que parece, tudo se resume a uma questão financeira na mente dos governantes e diretores de empresas como a BP: vamos explorar petróleo nas profundezas porque a tecnologia para extração custa menos do que uma guerra para invadir outros países; porém, não vamos gastar tanto assim com essa tecnologia, vamos gastar apenas o necessário para extrair, assim garantimos maior margem de lucro; se por acaso um dia uma plataforma explodir e vazar o petróleo a centenas de metros de profundidade, seja o que Deus quiser... A gente pensa em um jeito de resolver isso quando o custo da não-resolução passe a justificar o custo da resolução.

Nós tendemos a pensar que os governantes e diretores de grandes empresas sejam homens e mulheres de grande capacidade e inteligência, que zelam pelo bem estar do mundo e das pessoas... Mas eles muitas vezes infelizmente são tão ou mais ignorantes que nós. Mesmo quando não são, sua obssessão por riquezas, influência do deus do consumo, acaba deixando-os cegos. Afinal, da mesma forma que nossa sociedade educa as pessoas a consumir o máximo possível, como se isso fosse fonte de felicidade, influencia os governos para que adquiram o máximo de riquezas e energia possível, como se este fosse o único caminho para o desenvolvimento de seus países. Estão todos cegos, mas ainda há tempo...

Ainda há tempo para se abrir os olhos e reconhecer que todo o movimento ecológico das últimas décadas não surgiu em vão. Que ninguém sabe de onde exatamente vêm os jovens, mas sua tarefa de renovação é quase sempre mais do que evidente. Porque insistir em procurar o fétido ouro negro nas profundezas dos oceanos se os jovens cientistas, engenheiros e sociólogos nos trazem tantas opções e tecnologias mais promissoras? É que os jovens olham para o futuro, e os velhos ficam estagnados no passado – isso independe da idade.

Infelizmente o espírito do povo do Chefe Seattle foi removido de nosso planeta. Não é que eles não merecessem aqui estar, somos nós que não merecemos mais a presença deles... Mas, seja lá onde estiverem, tomara que ainda consigam nos influenciar e iluminar com sua sabedoria. Tomara que aprendamos com eles há tempo. Tomara que decidamos viver, e não apenas sobreviver.

A você que é jovem (de alma), suspeite...
Suspeite de quem vai atrás de rochedos, e não de amor.
Suspeite de quem quer conquistar terras, e não corações.
Suspeite de quem muito fala sem lhe dar tempo de falar.
Suspeite de quem quer pensar por você.

Suspeite de quem dita regras, mas não as explica.
E, a quem as quer explicadas, dizem que não há como explicar.

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» Veja o tamanho do vazamento no Golfo do México comparado com sua cidade (Google Maps)

Crédito das fotos: [topo] Wikipedia (Rockall); [ao longo] BrazilPhotos

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4.6.10

A crença do espiritualista

Através de diálogos pela internet uma vez fiquei sabendo de uma história, conforme contada por um amigo cético. Ele dizia que um amigo a quem admirava a inteligência sofreu um acidente de carro e ficou alguns dias desacordado. Ao recobrar a consciência, consta que ele perguntou “se ainda estava vivo, ou se já estava do outro lado”. Seu amigo era espírita e acreditava em vida após a morte (na realidade, em vida após a vida), e ele se perguntou: “mas como uma pessoa tão inteligente pode crer numa coisa dessas?” – Esta é uma excelente pergunta...

Muitos céticos e aqueles classificados como “eruditos ou intelectuais” parecem não conseguir resolver tal enigma. É que eles esbarram em duas interpretações algo preconceituosas: a primeira é a de que a fé não pode ser racional, e a segunda é a de que a grande maioria dos espiritualistas e religiosos é alienada da realidade. Este artigo tentará abrir os olhos dessas pessoas, para que possam analisar aos espiritualistas pelo que eles realmente são: pessoas como qualquer outra, mas que consideram a possibilidade da existência do espírito.

Fé e Razão
A etimologia da palavra “fé” nos traz duas origens não necessariamente complementares. A primeira deriva do grego pistia e quer dizer “acreditar”. Este é o significado mais usual, entretanto ainda incompleto, pois não basta crer, é necessário também compreender a razão pela qual se crê. Esta é a chamada fé raciocinada. Antes de ser uma contradição, como podem pensar alguns, o uso da razão solidifica a fé, pois ao analisarmos o objeto de nossa fé, compreendo-o e aceitando-o, estamos criando alicerces que tornarão nossa fé inquebrantável, fortalecendo-nos frente aos desafios mais árduos. Por outro lado, a fé sem a razão é frágil, está sujeita a ser desfeita e pode, frente ao menor abalo, desmoronar. Ou ainda pior, esta fé irracional pode nos conduzir ao fanatismo, a negação de tudo que seja contra o nosso ponto de vista. Por não ser oposta a razão, a pistia é por si mesma não dogmática e, portanto, perfeitamente compatível com o ceticismo.

Mas temos uma outra origem da palavra “fé”, derivada do latim fides, que também possui o sentido de acreditar, mas agrega a este o conceito de fidelidade, ou seja, é necessário que sejamos fieis ao objeto de nossa fé. Falando em fé religiosa, estamos falando em Deus, portanto é preciso que sejamos fieis a Deus e isto só é possível seguindo os seus preceitos: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao nosso próximo como a nós mesmos”.

No entanto, é preciso tomar muito cuidado na definição deste Deus, pois muitas vezes as pessoas de fé seguem o deus definido pelo discurso eclesiástico, quando o caminho da espiritualidade nos leva a busca de nossa própria definição de Deus. E isso nos leva ao contraponto do segundo tipo de interpretação preconceituosa...

O Deus de cada um
Cada doutrina religiosa traz sua própria concepção de Deus, e na maioria das vezes elas são conflitantes. Isto, por si só (e não sem razão), já soa absurdo para aqueles que cultivam um pensamento mais cético e racional. Não é a toa que muitos acabam taxando a maioria dos teístas de alienados: se não chegam a um acordo sequer sobre a natureza de Deus, como podem querer ditar regras de conduta a serem seguidas?

Essa pergunta é pertinente porque toca no cerne da religiosidade. O verdadeiro religioso não é aquele que se inscreveu em uma comunidade dos escolhidos de Deus (a origem de “igreja”, do grego ekklesia), mas aquele que pratica uma comunhão com Deus ou com o Cosmos, um caminho de retorno a compreensão de sua própria origem (do latim re-ligare, origem de “religião”). Desnecessário seria dizer que são definições bastante distintas, e que embora todo seguidor de igrejas possa ser religioso, nem todo religioso é seguidor de igrejas. Mas, ainda mais profundo do que isso: a todo verdadeiro espiritualista parece mesmo óbvio que a forma de comunhão com Deus (ou o Cosmos) é própria de cada um, pessoal e intransferível. Não serão livros nem padres nem gurus espirituais quem poderão lhe ensinar – todos esses ajudam, mas cada um aprende por si próprio, e na prática.

Uma comparação pertinente pode ser feita entre aprender espiritualidade e aprender a nadar: de nada adianta ler extensos manuais sobre natação, ou infindáveis palestras de grandes nadadores – você só irá se tornar um grande nadador se tomar coragem de mergulhar e enfrentar as ondas por si próprio.

O verdadeiro espiritualista não é, portanto, um alienado da realidade. Ele apenas mergulhou na própria consciência, enquanto outros (não sem razão) preferiram abster-se da aventura.

Navegar é preciso
Para o espiritualista em constante estudo e deslumbramento perante o infinito do Cosmos, a razão e a fé andam lado a lado com a moral e o amor, e ele encontra na religião, assim como na filosofia e na ciência, preciosos instrumentos para sua longa caminhada...

Nada pode ter contra o cético. Se este ainda não acredita, é por dois motivos: ou porque ainda não passou pela mesma experiência religiosa – e, portanto, subjetiva – que o espiritualista; ou porque simplesmente o espírito realmente não existe, e todas as questões espirituais se resumem a questões psicológicas, a serem analisadas conforme o avanço da ciência. Em ambos os casos, não há razão para nenhuma inimizade entre o espiritualista e aquele que não crê.

Na verdade, se alguém tem o dever moral de evitar brigas e permanecer em postura apaziguadora e amorosa, este é o espiritualista – que bem ou mal, assumiu a responsabilidade de assim o ser, um ente amoroso e equilibrado. Os outros não têm responsabilidade alguma, tampouco Deus algum para lhes inspirar temor, e não há nenhum problema nisso.

Pois que se o caminho espiritual foi trilhado apenas por medo de punições divinas, por barganhas ridículas em troca de um céu para poucos, então ele já se iniciou na direção errada. Que aquele que ainda não compreendeu que todos os seres do infinito são filhos da mesma substância, e que entrarão todos no céu de mãos dadas, é porque ainda está no início da trilha.

Então, perdoai-vos, pois eles não sabem o que fazem. E perdoai-nos, pois nós também não. Mas dos confins do Cosmos uma ponta da longa teia é puxada, e todos somos impelidos em sua direção... quer compreendamos, quer não.

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Crédito da foto: 21guilherme

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1.6.10

Onde está o seu deus?

No início do século II d.C., no mercado principal de Enoanda, cidade de 10 mil habitantes no sudoeste da Ásia Menor, foi erigida uma enorme muralha de oitenta metros de largura e quase quatro metros de altura, com inscrições baseadas na filosofia de Epicuro, e cuja finalidade era atrair a atenção dos compradores. Era uma espécie de alerta:

“Comidas e bebidas requintadas... de modo algum libertam do mal ou proporcionam a saúde da carne. Deve-se atribuir à riqueza excessiva o mesmo grau de inutilidade que representa acrescentar água a um recipiente que já estava prestes a transbordar. Os verdadeiros valores não são gerados por teatros e termas, perfumes e essências... mas pela ciência natural.”

O muro foi pago por Diógenes, um dos homens mais ricos de Enoanda, que desejava, 4 séculos após Epicuro e seus amigos terem fundado o Jardim de Atenas, compartilhar os segredos da felicidade que ele havia descoberto na filosofia de Epicuro.

O antigo filósofo cuja maior parte das obras se perdeu foi bem mais incompreendido – ou analisado de forma superficial – do que compreendido. Dizem que tudo que ensinava era a busca pelo prazer (hedonismo) e o materialismo (atomismo), mas é preciso desconhecê-lo profundamente para tais tipos de hiper-simplificações de seu pensamento.

Sobre a busca do prazer, Epicuro em realidade afirmava que “o homem que alega não estar ainda preparado para a filosofia ou afirma que a hora de filosofar ainda não chegou ou já passou assemelha-se ao que diz que é jovem ou velho demais para ser feliz.” Longe de ensinar uma busca desenfreada por prazeres mundanos, ele defendia que uma vida equilibrada e na companhia de boas amizades era todo o necessário para a felicidade – neste caso, pão e água eram suficientes... “De todas as coisas que nos oferecem a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é a aquisição da amizade... alimentar-se sem a companhia de um amigo é o mesmo que viver como um leão ou um lobo.”

Poucos foram aqueles que, ao longo da história, enxergaram o quanto a filosofia de Epicuro sempre se fez necessária para nos afastar das tentações e desejos inúteis da vida em sociedade. Ele separava os desejos da seguinte forma:

O que é essencial para a felicidade

Natural e necessário Natural mas desnecessário Nem natural nem necessário
Amigos, Liberdade, Reflexão, Casa, Comida, Roupas Palacete, Terma privativa, Banquetes, Empregados, Peixe, Carne Fama, Poder, Status

Dizem também que Epicuro era ateu. Mas de fato tudo o que defendia era que os deuses viviam em uma realidade muito superior a mundana, de modo que provavelmente não estariam preocupados com nossos afazeres, e nem era necessário que nos afligíssemos com eles ou que preparássemos rituais e oferendas para aplacar sua ira ou barganhar por favores sobrenaturais.

Para Epicuro, isso tudo era fonte de angústias desnecessárias... Porque se preocupar com política, com os deuses, com o acúmulo de riquezas ou com a morte, se o prazer da vida está exatamente em compartilhá-la com os amigos, em não viver com mais do que o necessário, e na constante reflexão sobre a natureza infinita do Cosmos?

Em sua recusa em se preocupar com um panteão de deuses com seus próprios afazeres e em sua exaltação da felicidade que advém da vida harmoniosa, em contato constante com os amigos e a natureza, Epicuro era bem mais religioso que a maioria dos eclesiásticos – e bem mais monoteísta que a maioria dos religiosos que dizem seguir somente a um único Deus, mas que ao fim do dia seguem a vários...

Pensemos nos dias atuais, em que a maior religião e o maior deus passam desapercebidos da grande maioria, embora quase todos acabem rezando para ele: o deus do consumo. Seus evangelizadores estão em cada canal de TV paga ou aberta, sua bíblia é ensinada desde as “orientações vocacionais” das escolas aos “discursos sobre a dura realidade da vida e sobre como um bom salário é mais importante do que tudo”... Andando pelas ruas, vemos suas orações expostas em outdoors e páginas de jornal. Ele é tão poderoso que abocanhou até mesmo o tempo – “tempo é dinheiro, eu sou o tempo, eu sou o seu deus!”

Ao contrário do deus de Epicuro, que podia ser encontrado em qualquer grama de jardim, nalgum galho partido ou nos sorrisos dos amigos, este deus é feito sobretudo de coisas sem vida e de desejos desenfreados; muito embora possa parecer “onipresente” em nosso dia a dia – uma roupa de grife, um terno, um celular, um videogame, um carro, um iate... Ele nunca se cansa, e o tempo é a prova:

Porcentagem dos norte-americanos que declararam os seguintes itens como necessários

  1970 2000
Segundo carro 20% 59%
Segunda televisão 3% 45%
Mais de um telefone 2% 78%
Ar-condicionado no carro 11% 65%
Ar-condicionado em casa 22% 70%
Lava-louças 8% 44%

Hoje em dia vivemos correndo, "utilizando" todas as horas do dia. Comendo em fast-foods e tendo relacionamentos no estilo fast – simples, rápidos, indolores, muitas vezes “anestesiados”. Se nos angustiamos com a vida ou se caímos em depressão, oramos também ao grande profeta do deus do consumo – o guardião dos comprimidos em seu manto de tarja preta... Com tudo isso economizamos bastante tempo. Tempo para...?

Não era esse tipo de religião que Epicuro professava. Ele preferia simplesmente ser livre, talvez por reconhecer que perto da imensidão da natureza, suas angústias e desejos eram como poeira e folhas espalhadas pelo vento em seu jardim.

Quaisquer que sejam as diferenças entre as pessoas e seus desejos e angústias, elas não são nada perto das diferenças entre os seres humanos mais poderosos e os grandes desertos, as altas montanhas, geleiras e oceanos, a luz das estrelas. Existem fenômenos naturais tão grandes que tornam as variações entre duas pessoas quaisquer ridiculamente pequenas. Ao passar um tempo em amplos espaços, a consciência de nossa própria insignificância na hierarquia social pode se transformar na consciência reconfortante da insignificância de todos os seres humanos no Cosmos.

Podemos superar o sentimento de que somos insignificantes não nos tornando mais importantes ou desejando fama, poder ou status, mas reconhecendo a insignificância relativa de todos. Nossa preocupação com quem é alguns milímetros mais alto do que nós pode dar lugar a uma reverência a coisas infinitamente maiores que nós, uma força que podemos ser levados a chamar de natureza, vida, infinito, eternidade – ou simplesmente Deus.

Mas, sobretudo, quem mantém os pés no chão florido das amizades duradouras e a mente na imensidão estelar do Cosmos, este não poderá jamais ser seduzido pelas efêmeras promessas dos arautos do deus do consumo, tampouco necessitará recorrer a tratar da angústia com comprimidos (*). Este tem a seu lado o amor ao saber, as reflexões diárias, a liberdade de pensamento: este encara toda angústia e todo desejo por si mesmo, ou talvez com a ajuda de amigos. Seres reais, não imaginários nem inanimados – aí está o deus de Epicuro. Onde está o seu deus?

***

(*) Certas doenças necessitam de medicação, e é excelente dispor da medicina atual para tratá-las. O que não podemos é usar comprimidos como muletas - nesse sentido nossos comprimidos serão nossos deuses, e nós os seus fantoches. Por outro lado, também é necessário "cortar o mal pela raiz": a filosofia nos ajuda a evitar a necessidade de comprimidos, evitando antes a doença.

Leitura recomendada: “As consolações da filosofia” e “Desejo de status” – ambos de autoria de Alain de Botton e publicados no Brasil pela Editora Rocco. As citações de Epicuro e Diógenes foram retiradas do primeiro.

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Crédito das imagens: Bettmann/Corbis (anúncio de cigarros de 1936) [topo], Iplan/amanaimages/Corbis [ao longo].

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22.5.10

Vida 2.0

continuando de Vida 1.0

“Viver, errar, cair, triunfar, recriar a vida a partir da vida” – James Joyce

Essa é uma três das frases “impressas” em trechos do código genético da primeira célula sintética “criada” pelo homem. Além disso, essa espécie tem “dentro de si” o endereço de um website e diversas instruções para interpretação do novo código lingüístico desenvolvido pela equipe de Craig Venter para poder inserir tais “marcas d’água” no código genético da nova criatura (“o código dentro do código dentro do código”).

Em 20/05/2010 Craig Venter anunciou a nova era da “ciência da criação”, e surgiu a Vida 2.0 – customizada por ela mesma... Quais os requisitos mínimos para um micróbio funcionar? Com essa pergunta originalmente na cabeça e US$ 40 milhões para gastar, a equipe de Venter foi capaz de “criar vida” a partir de informações armazenadas num computador.

O potencial biotecnológico é enorme mas os riscos associados à nova tecnologia não podem ser menosprezados. Ao montar o genoma do novo micro-organismo, a equipe eliminou os genes originais da bactéria Mycoplasma mycoides que as tornam nocivas às cabras. Eliminaram também as seqüências de DNA que permitiriam sua eventual reprodução fora de um laboratório de pesquisa. Só depois inseriram o material genético sintético numa versão “oca” de outra bactéria, a Mycoplasma capricolum.

Basicamente, eles “seqüestraram” uma célula e “assumiram o comando”, injetando nela um genoma essencialmente sintético. As questões técnicas não serão avaliadas a fundo aqui, mas a questão primordial é que nada aqui foi feito do nada - parafraseando Carl Sagan, “para se criar uma célula a partir do zero, você precisará primeiro inventar o universo”.

Mesmo assim, mesmo que os cientistas não tenham criado nada, eles deram um passo enorme na compreensão do mecanismo da vida. Tão grande foi este passo, nos ombros de gigantes, que podemos hoje não somente decifrar uma parte do “código da vida”, como interagir com ele, e customizá-lo! É como se tivéssemos uma Pedra de Roseta para a linguagem que informa a vida como ela deve se comportar... Ao invés de interpretarmos e redigirmos línguas esquecidas, estaremos agora interpretando e redigindo pequenos princípios de vida, pequenas bactérias talvez tão complexas quanto as que primeiro surgiram em nosso planeta.

Venter afirma que “criou” a primeira forma de vida cujos pais são um computador. Isso dá o que pensar... Código de computador, código genético, código – será que o código gera a si mesmo? Ou necessita de uma inteligência para construí-lo?

Carl Sagan passou boa parte da vida considerando a possibilidade do contato de inteligência alienígena com a Terra. Em sua célebre ficção “Contato”, esse contato se dá através do envio de ondas de rádios em intervalos que ditam os números primos. Os números primos são um código não natural, no sentido que não se encontram aleatoriamente na natureza. Ou seja, em sua ficção os cientistas do SETI tem aí uma confirmação do contato de inteligências alienígenas... Mas, e se o nosso próprio código genético não for também uma linguagem, um código que denota alguma inteligência por parte de quem o criou?

A física contém alguns números persistentes e importantes – a massa do próton, a massa do elétron, a carga elétrica das partículas subatômicas, a energia das forças fundamentais da natureza e assim por diante. Se muitos desses números fossem ligeiramente diferentes, não estaríamos aqui. Em outras palavras, torça a base fundamental e a física ainda seria funcional, mas as conseqüências dessas leis agindo sobre o universo não incluiriam formas de vida baseadas no carbono como nós.

As condições necessárias para se produzir carbono são tão “especiais” que o astrofísico Fred Hoyle chegou a especular, em um artigo intitulado “O universo: reflexões passadas e presentes”, que “um superintelecto está brincando com as leis da física”. Não é muito diferente da idéia básica dos deístas e panteístas.

Mas eu não quero aqui diminuir a conquista de Venter e sua equipe. Muito pelo contrário, quero exatamente demonstrar que independentemente do que nos criou – um ser divino, um superintelecto, uma equipe de cientistas alienígenas ou elementos vindos de algum outro lugar obscuro “na cauda dos cometas” –, e ainda que talvez nunca possamos ter uma ciência exata da causa, estamos caminhando a passos largos para decifrar seu efeito e seus sutis e elegantes mecanismos.

Apesar de não terem realmente criado nada, Venter e sua equipe sintetizaram vida a partir de vida pré-existente, e uma vida que poderá agora se auto-replicar. É preciso muito cuidado, já que não sabemos até onde essa vida irá chegar, e se será usada apenas para fins medicinais e ecológicos, ou também como instrumento de morte e destruição.

Mas com grande conhecimento vem grande responsabilidade. Não adianta pestanejar: a evolução não anda para trás... Teremos de lidar com novas questões éticas e tentar sobreviver a nossa própria ignorância.

Entretanto, se tudo mais der errado, se nosso futuro é realmente a extinção devido às mudanças climáticas ou as guerras nucleares – e biológicas –, ao menos agora temos uma nova chance de sobrevivência. É que se o apocalipse da vida terrestre realmente chegar, bastará enviarmos satélites com nossas bactérias sintéticas para o infinito do Cosmos. Enviar e torcer para que caiam nalgum dia em algum outro planeta em formação, de modo que a vida se reinicie, e se façam novas todas as coisas.

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Crédito da foto: Treehugger.com (Craig Venter palestrando no TED)

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Vida 1.0

Em um dos episódios da saudosa série de TV Cosmos, Carl Sagan inicia dizendo a seguinte frase: "Se você quiser fazer uma torta de maçã a partir do zero, você precisará primeiro inventar o universo."

De fato, como Parmênides bem definiu, ex nihilo nihil fit (do nada, nada se faz). Essa é uma questão que talvez ainda esteja além de nossa ciência por um bom tempo – talvez mesmo para sempre. Já a questão do surgimento da vida a partir de matéria inorgânica possa ser resolvida nalgum dia, pelo menos é algo que pela lógica nos parece mais viável, embora estejamos ainda muito distantes de desvelar tal mistério.

Uma das teorias mais consideradas sobre a origem da vida na Terra é a panspermia. Ela trata da hipótese segundo a qual as sementes de vida são prevalentes em todo o Universo e que a vida na Terra começou quando uma dessas sementes aqui chegou, provavelmente “na cauda de um cometa”. Em “O Universo Vivo” Chris Impey nos esclarece melhor a questão:

“Tanto cometas quanto meteoros podem transportar moléculas complexas para a Terra. Surpreendentemente, quando os cientistas simulam impactos, os aminoácidos não só sobrevivem ao choque, mas muitos se unem para formar polipeptídios ou mini-proteínas – intimamente ligados à origem da vida.

Os meteoritos também trazem um ingrediente vital: o fósforo. Esse elemento reativo é o quinto mais importante elemento biológico depois de carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio, embora sua produção pelas estrelas seja bem pequena. O fósforo é decisivo para a vida porque forma a espinha dorsal do DNA, e também é o ingrediente principal do ATP – trifosfato de adenosina – o combustível fundamental da vida.”

A panspermia procura solucionar um problema corrente nas teorias do surgimento da vida na Terra – ocorre que nas condições iniciais do planeta, provavelmente não tínhamos elementos suficientes para explicar sua obscura origem. Para o “milagre da primeira célula”, é preciso recorrer a elementos alienígenas. Vejamos o que Impey tem a dizer:

“A vida hoje não se parece com substâncias químicas flutuando em uma lagoa salgada, ou com moléculas complexas aprisionadas em uma superfície mineral. Todas as formas de vida, da menor bactéria até a sequóia mais imponente, são feitas de células. Depois que uma célula primitiva foi criada, o caminho para o alto ficou claro. Certamente ir de uma bactéria a um chimpanzé é um passo menor do que ir de uma mistura de aminoácidos a uma bactéria. Saber como se formaram às primeiras células é vital para que a ciência compreenda a origem da vida.

Mas essa questão ainda permanece em aberto. Apesar de nos dias atuais a ciência pelo menos fazer uma idéia básica de como o processo provavelmente se conduziu, nunca vimos moléculas se reproduzindo, nunca produzimos uma célula sequer a partir de elementos sem vida.”

Em suma: o mecanismo pelo qual as bactérias evoluíram ao longo dos milhões de anos de vida na Terra até a incrível diversidade biológica que encontramos atualmente, este é bem fundamentado pela revolução do pensamento e da ciência a partir da teoria de Darwin-Wallace. Já o mecanismo que deu efetivamente origem a vida, e que transformou matéria inanimada em células orgânicas complexas, possibilitando o surgimento do RNA e do DNA, este ainda intriga a comunidade científica, e não sabemos ainda quando poderá ser compreendido.

Entretanto, não há motivo para imaginar que o homem nunca irá solucionar tal enigma. Se considerarmos o ano cósmico – todo o tempo do universo comprimido em um ano imaginário – faltando 20 segundos para meia-noite, os hominídios evoluem para se tornar exatamente como nós, inventam as ferramentas e a agricultura, e constroem as primeiras cidades. A Revolução Coperniciana acontece quando falta um segundo para a meia-noite. A teoria de Darwin-Wallace e a biologia surgem dentro desses centésimos de segundo já no finalzinho do ano... Ou seja: se é verdade que a evolução da vida levou bilhões de anos na Terra, também é verdade que chegamos a um estágio inimaginável, uma verdadeira ebulição da informação e do conhecimento humano acerca do grande Cosmos a sua volta.

Carl Sagan dizia que “nós somos uma forma do Cosmos conhecer a si mesmo”. Pois bem, até pouco tempo atrás a vida evoluiu por si mesma, no que costumamos chamar de “evolução natural”. A vida permitiu que seres humanos pudessem evoluir para chegar ao conhecimento necessário para descobrir o DNA, clonar algumas espécies e seqüênciar seu próprio genoma... Mas nesse momento chegamos ao anúncio de Craig Venter: a primeira forma de vida auto-replicante, a primeira bactéria “artificial” foi “criada” pelos cientistas de sua equipe.

Até aqui estivemos na Vida 1.0, agora chegamos a Vida 2.0

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Crédito da foto: Nepmet

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