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8.12.10

Reflexões sobre o materialismo, parte 4

Continuando da parte 3

Substância – Princípio do ser, que é permanente, em oposição aos acidentes que mudam; A essência de algo; Qualquer espécie de matéria.

Há somente uma Substância

Um dos dogmas principais do cristianismo afirma que Jesus Cristo ressuscitou após três dias. O Novo Testamento nos conta que Maria Madalena foi o primeiro discípulo a ver Jesus ressuscitado. Conta também que tanto ela quanto outros discípulos a princípio se assustaram com sua aparição e somente após alguns momentos o reconheceram. Após algum tempo a notícia já se espalhava, mas um dos seguidores de Jesus, Tomé, não parecia crer nela – ele afirmou “que precisava ver para crer”.

A Bíblia diz que Jesus apareceu para Tomé e ainda permitiu que ele tocasse suas chagas... Carl Sagan admirava o ceticismo de Tomé, segundo ele este tipo de experiência – de ver, e tocar, para crer – deveria ser incentivada entre todos os religiosos. Já para os cristãos, Tomé sofria de falta de fé, e não havia nenhum mérito em seu ceticismo. Jesus chega a afirmar que “felizes são aqueles que creram sem ver” – de acordo com o Novo Testamento, é claro.

Ao contrário do que muitos céticos imaginam, há muitos religiosos que são extremamente materialistas. E não estou falando do materialismo no sentido do apego a bens materiais ou consumismo (este é um assunto para outro artigo), mas da necessidade básica que muitos deles têm de reafirmar a ressurreição da carne de Jesus, e jamais apenas de seu espírito.

Há muitos deles que tem verdadeiro asco de coisas fluidas e “imateriais”. Para eles, espíritos nada mais são que assombrações e/ou alucinações causadas por loucuras ou pela influência do próprio Diabo (e eles costumeiramente confundem as duas coisas). Poderíamos questionar o porque de apenas o Diabo ter tantos “poderes” de afetar diretamente nossa realidade, enquanto Deus “gastou” todos os seus milagres nos milênios anteriores – mas isso também seria assunto para outro artigo.

O que eu acho irônico é essa crença dogmática em corpos incorruptíveis, em seres que só podem retornar a vida ou se comunicar com aqueles ainda vivos na posse de um novo corpo, como num grande passe de mágica... Não pela crença em si, mas pelo fato de a grande maioria dos que creem nisso ignoram o fato de que a matéria é em todo caso intangível e invisível. Ora, Tomé não tocou nas chagas de Jesus e nem o viu a sua frente, ele apenas – supondo que o relato é real – sentiu a pressão dos elétrons se repelindo mutuamente (de sua mão e do corpo de Jesus) e percebeu os quantas de luz refletidos por seu corpo.

Tivessem eles conhecimento dos avanços da ciência moderna, se questionariam se existe assim tanta diferença entre um corpo e um espírito, ou por assim dizer entre um espírito encarnado em um corpo, e outro desencarnado. Sim, pois se eles já creem em tantas coisas jamais detectadas, o que custaria crer em seres não imateriais, mas compostos por matéria ainda desconhecida, conforme postulou Bahram Elahi?

Os espíritas, por exemplo, também são materialistas, apenas não compartilham dos mesmos dogmas de alguns cristãos. Vejamos a pergunta #82 do Livro dos Espíritos de Allan Kardec: “É certo dizer que os espíritos são imateriais?” – Para surpresa de muitos, os próprios espíritos que ditavam as respostas para as jovens médiuns que auxiliavam o cientista francês trouxeram a seguinte resposta: “Imaterial não é o termo apropriado; incorpóreo, seria mais exato; pois deves compreender que, sendo uma criação, o espírito deve ser alguma coisa. É uma matéria quintessenciada, para a qual não dispondes de analogias, e tão eterizada que não pode ser percebida pelos vossos sentidos.” Ora, hoje em dia talvez fosse possível fazer analogias mais próximas – “Matéria Escura” seria uma delas.

Entretanto, sé é muito custoso para os céticos e materialistas anti-subjetivos acreditarem que consciências possam existir longe de cérebros feitos da matéria que já conhecemos, que isso não seja uma barreira intransponível entre nós, espiritualistas, e eles...

Carl Sagan resume muito bem a questão em seu livro “O mundo assombrado pelos demônios” – para alguns “a bíblia do ceticismo”:

“Espírito” vem da palavra latina que significa “respirar”. O que respiramos é o ar, que é certamente matéria, por mais fina que seja. Apesar do uso em contrário, não há na palavra “espiritual” nenhuma inferência necessária de que estamos falando de algo que não seja matéria (inclusive aquela de que é feito o cérebro), ou de algo que esteja fora do domínio da ciência. De vez em quando, sinto-me livre para empregar a palavra. A ciência não é só compatível com a espiritualidade; é uma profunda fonte de espiritualidade. Quando reconhecemos nosso lugar na imensidão de anos-luz e no transcorrer das eras, quando compreendemos a complexidade, a beleza e a sutileza da vida, então o sentimento sublime, misto de júbilo e humildade, é certamente espiritual. Como também são espirituais as nossas emoções diante da grande arte, música ou literatura, ou de atos de coragem altruísta exemplar como os de Mahatma Gandhi ou Martin Luther King. A noção de que a ciência e a espiritualidade são de alguma maneira mutuamente exclusivas presta um desserviço a ambas.

Existam espíritos ou não, o primeiro espírito que precisamos conhecer é o nosso próprio, ainda que não passe de um efeito de nosso processo de consciência. Os primeiros cientistas na Grécia antiga, na Sicília e na ilha de Samos, já buscavam a Substância que dava origem a todas as outras – o fogo, a terra, o ar, a água? – tanto faz se estavam equivocados; Assim como Demócrito equivocou-se em sua abordagem dos átomos mas estava fundamentalmente correto em suas analogias, eles da mesma forma estavam... Todos chegaram a resultados errôneos, mas acertaram profundamente em sua busca.

Inspirado por tais sábios de outrora, o grande Benedito Espinosa chegou à conclusão definitiva em sua “Ética”: “uma substância não pode criar a si mesma” – Sim, tudo, tudo o que há, há de advir de uma única Substância, incriada, eterna, a que se opõe ao nada...

E ainda que tudo o que exista sejam “átomos e vazio” e que nossas vidas não passem de um breve lampejar de vela em noite de ventania, há espiritualidade suficiente na ideia de que estamos sim todos conectados, todos feitos das mesmas substâncias, filhos de fusões nucleares em sóis catapultados em uma imensidão que nem mesmo a luz pode dizer onde acaba.

Nós somos os filhos do horizonte, e nosso único e derradeiro pecado é ignorar tal necessidade de vislumbrar nossa essência uma vez mais – não como Tomé a apalpar as chagas do messias, mas como aqueles que perceberam tanto o mundo material quanto o espiritual, e não souberam dizer ao certo qual é o mais bonito.


Disse Jesus: se vocês disserem qual a vossa origem, dizei-lhes: viemos da Luz, de onde a Luz se originou dela mesma. Ela permaneceu e revelou-se a si mesma em sua imagem. Se vos disserem quem sois vós, dizei-lhes: somos seus filhos e somos eleitos do Pai Vivo. Se vos perguntarem qual é o sinal do vosso Pai em vós, respondei-lhes: é o movimento e o repouso. (O Evangelho de Tomé [o Dídimo] – v.50)

***

Crédito das imagens: [topo] Aidan McHae Thomson; [ao longo] Holger Spiering/Westend61/Corbis

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6.12.10

Reflexões sobre o materialismo, parte 3

Continuando da parte 2

A subjetividade é o mundo interno de todo e qualquer ser humano. Este mundo interno é composto por emoções, sentimentos e pensamentos. Através da nossa subjetividade construímos um espaço relacional, ou seja, nos relacionamos com o "outro".

O limite do subjetivo

Há uma outra espécie de materialismo, definida por alguns como materialismo científico ou eliminativo, mas que eu opto por definir aqui como materialismo anti-subjetivo [1] – pois se trata de uma teoria que afirma que somente a matéria já conhecida explica o funcionamento da consciência humana. Trata-se de uma aposta e de um enorme paradoxo:

A aposta
Hoje se sabe que a consciência se parece mais com um processo que coordena decisões de acordo com o fluxo de informação sensorial recebido, ela é como o regente de uma “orquestra mental”. Porém, a análise qualitativa dos fenômenos conscientes complexos, como o amor e as decisões morais, ainda passam ao largo da explicação científica. Este é o famoso “problema difícil”: identificar o que exatamente interpreta informações e elabora respostas morais, em oposto a mera computação das informações.

Richard Feynman gostava de comparar a forma como os físicos modernos trabalham com a detecção das ondas de uma piscina: acaso não fosse possível ver quem mergulhou na piscina há pouco tempo, podemos ter uma boa noção de onde e quando ocorreu o mergulho, assim como o peso de quem mergulhou, apenas analisando a frequência e a amplitude das ondas na superfície da água. A ciência lida somente com o que pode detectar – se ela não detecta o amor ou a moral, ao menos pode detectar o efeito elétrico no cérebro que ocasiona as demonstrações de sentimentos complexos. O que a ciência não pode pretender, entretanto, é que tais sentimentos se resumam ao efeito, ignorando a causa... Ou postulando que a causa está além de nosso controle, que é fruto do mero agitar químico do cérebro, o que em todo caso é basicamente o mesmo que ignorar a causa.

Bahram Elahi, especialista em cirurgia e anatomia, dizia que embora a mente e o cérebro sejam separados, a mente (ou consciência) não é algo imaterial. Ao contrário, é composta de um tipo de matéria muito sutil que, embora ainda não-descoberta, é conceituamente semelhante às ondas eletromagnéticas, que são capazes de carregar sons e figuras (e mesmo videos - figuras em movimento), e são governadas por leis, axiomas e teoremas precisos. Ele teoriza que tudo relacionado a esta "entidade" deve ser considerado como uma disciplina científica não-descoberta, e estudada da mesma maneira objetiva que outras disciplinas (como química ou biologia, por exemplo). A consciência pode, portanto, ser formada por algum tipo de substância material sutil demais para ser medida ou detectada utilizando as ferramentas científicas disponíveis hoje.

Eis a aposta dos materialistas anti-subjetivos: a de que a consciência e seus fenômenos complexos, que exigem não apenas a computação de informações, mas, sobretudo, a interpretação das mesmas, pode ser compreendida apenas levando-se em consideração a matéria já detectada pela ciência.

O paradoxo
Primeiro a ciência moderna, através da neurologia, foi obrigada a aceitar o conceito e a existência da mente subjetiva, para só então tentar reduzi-la a atividades elétricas, efeitos bioquímicos, um mero agitar de partículas no cérebro... Em suma, tentar negar a existência dos qualia.

Qualia são tratados na Filosofia da Mente como sinônimos de subjetividade. Eles significam uma barreira intransponível entre objetivo e subjetivo, entre vivo e não vivo, entre humanos e máquinas. Não sabemos como o cérebro gera a subjetividade, nem se ela pode ser replicada artificialmente. Tentamos padronizar as sensações usando a linguagem, mas as características subjetivas, únicas, de cada sensação, parecem sempre escapar. Quando falamos de algo “amarelo”, por exemplo, não sabemos se essa cor é mais ou menos intensa para nós ou para o “outro”.

Essa inconveniência dos qualia levou filósofos como Daniel Dennet a tentarem negar sua importância ou até mesmo sua existência... Segundo Dennet, a subjetividade é uma ilusão persistente gerada por nosso cérebro, e não existem escolhas, nem morais nem imorais, apenas o resultado do fluxo de partículas no cérebro, de átomos dançando conforme alguma música aleatória definida por nosso meio-ambiente.

Eis o paradoxo: Dennet, ao contrário do que possam pensar, não é alguém que eu condene. De fato, ele é um dos poucos materialistas anti-subjetivos que realmente assumem sua posição enquanto materialistas – a grande maioria simplesmente ignora tal questão, e continuam a viver como se existisse a subjetividade, como se existissem escolhas, como se realmente fizesse algum sentido condenar criminosos ou condecorar heróis de guerra.

Até onde a luz pode chegar
Não há nada de errado com a ciência objetiva, o problema é quando cientistas creem que podem utilizar ciência para adentrar no campo da subjetividade... Da mesma forma que a psicologia não poderá provar que “esta pessoa está sentindo duas vezes mais dor do que aquela outra”, ou que “aquela pessoa ama aquela outra cinco vezes mais do que você ama seu cachorro”, dificilmente a ciência moderna terá sucesso nessa tentativa de equacionar a mente humana, e tratá-la como uma espécie de máquina que programou a si própria.

Já dissemos que toda a matéria é intangível, mas faltou dizer que ela é igualmente invisível em sua maior parte – pois tudo o que vemos com os olhos ou detectamos com instrumentos avançados são frequências de ondas eletromagnéticas, quantas de luz a refletir pelos átomos a dançar no vazio. Nós não vemos a lua, nem a árvore do outro lado da rua, nem mesmo nossas mãos ou as bactérias no microscópio, vemos apenas os quantas de luz, vindos da luz do Sol ou de alguma fonte de luz (tal qual lâmpadas ou vagalumes), a refletir os átomos que constituem as coisas vistas ou detectadas.

Mas mesmo esta matéria que reflete e interage com a luz é apenas uma ínfima minoria – cerca de 4% – de toda a matéria existente em nosso horizonte observável do Cosmos. Todo os resto – 96% – é composto por Matéria Escura e Energia Escura, e só pôde ser descoberto pelos cientistas através de seu efeito gravitacional no movimento das galáxias (assim como nas interações com a força eletrofraca, mas isso já daria outro artigo).

Aí está o limite do subjetivo, segundo os materialistas: 4% da matéria existente no pedaço do universo onde nossa observação alcança. É uma tremenda aposta esta que afirma que o problema difícil da consciência, que o próprio conceito de subjetividade, pode ser explicado e compreendido apenas com o tilintar dos átomos conhecidos. Para sermos materialistas anti-subjetivos, temos de ter muita fé no ínfimo que conseguimos desvelar objetivamente deste Cosmos infinito. Há que se reconhecer sua convicção.

Em breve, o materialismo religioso e a espiritualidade materialista...

***

[1] Por muito tempo o termo utilizado nesta série foi "materalismo subjetivo", somente meses depois da publicação inicial eu achei melhor usar o termo "materalismo anti-subjetivo" no lugar. No blog em geral, passei a usar o termo "materialismo eliminativo", não porque goste mais dele, mas porque tem sido o termo mais utilizado na linguagem comum.

Crédito da imagem: neurollero

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3.12.10

Reflexões sobre o materialismo, parte 2

Continuando da parte 1

Fusão Nuclear - é o processo no qual dois ou mais núcleos atômicos se juntam e formam um outro núcleo de maior número atômico. A fusão nuclear requer muita energia para acontecer, e geralmente liberta muito mais energia que consome. Até o início do século XXI, o ser humano ainda não conseguiu encontrar uma forma de controlar a fusão nuclear como acontece com a fissão.

A maçã atômica

Conforme vínhamos dizendo, a filosofia de Demócrito não despertou tanto interesse, na época, quanto as de Pitágoras, Sócrates ou Platão. Mas coube a Aristóteles resgatar suas ideias décadas após sua morte.

Aristóteles dizia que o raciocínio que guiou Demócrito para afirmar a existência dos átomos foi o seguinte: o movimento pressupõe o vazio no qual a matéria se desloca, mas se a matéria se dividisse em partes sempre menores infinitamente no vazio, ela não teria consistência, nada poderia se formar porque nada poderia surgir da diluição sempre cada vez mais infinitamente profunda da matéria no vazio. Daí concluiu que, para explicar a existência do mundo tal como o conhecemos, a divisão da matéria não pode ser infinita, isto é, que há um limite indivisível, o átomo. "Há apenas átomos e vazio", disse ele. Observando um raio de sol que penetrou numa fresta de um recinto escuro, Demócrito viu partículas de poeira num movimento de turbilhão, levando-o à ideia de que os átomos (os indivisíveis da matéria) se comportariam da mesma maneira, colidindo aleatoriamente, alguns se aglomerando, outros se dispersando, outros ainda nunca se juntando com outro átomo.

Talvez seja mais conveniente ilustrar o pensamento de Demócrito por seu experimento mental onde imaginamos cortar uma maçã com uma faca (claro, o experimento não necessariamente precisa ser apenas mental, mas em sua época só era possível visualizar aos átomos através da imaginação pura – guardem isso):

“Quando cortamos a maçã” – afirmou Demócrito – “a faca deve passar pelos espaços vazios entre os átomos. Se não houvessem tais lacunas, então a faca iria encontrar algum átomo impenetrável, e a maçã não seria cortada. Em uma escala muito pequena, a matéria exibe uma aspereza irredutível – o mundo dos átomos.” Segundo Carl Sagan, os argumentos de Demócrito não são os mesmos que usamos hoje, mas são elegantes, sutis, e derivados da experiência do dia a dia, a observação da natureza – suas conclusões estavam fundamentalmente certas.

Para Demócrito, nada ocorria aleatoriamente, tudo advinha de alguma causa material. Ele sabiamente afirmava “que preferia conhecer uma causa do que ser o rei da Pérsia.” Ele acreditava que a pobreza em uma democracia era muito melhor do que a riqueza em uma tirania. Foi essencialmente um livre-pensador, um observador meticuloso da natureza.

O atomismo foi essencial para o desenvolvimento da física ao longo da história da ciência, mas hoje se sabe que os átomos são muito, muito menores do que poeira flutuando num facho de luz, ou pequeníssimas lascas de poupa de maçã... Os átomos são constituídos por um núcleo de prótons e nêutrons com elétrons girando ao redor, porém mesmo estas partículas ainda são constituídas de grupamentos de partículas ainda menores, os quarks. Atualmente os quarks são o limite do “muito pequeno” observável por instrumentos, mas através de elegantes teorias matemáticas os físicos postulam que as menores unidades materiais podem ser cordas cuja vibração produziria partículas de maior ou menor massa – mas isso já é uma outra história.

Demócrito estava fundamentalmente correto quando postulava sobre a quantidade de vazio que existe entre os átomos, mas certamente não pôde vislumbrá-la em toda sua magnitude... Para se ter uma ideia básica, consideremos o hidrogênio, o elemento mais abundante do universo. A maior parte dos átomos de hidrogênio é bem simples: um único próton com um único elétron girando ao redor (é também o único elemento que não necessariamente possuí nêutrons). Caso o núcleo do hidrogênio fosse do tamanho aproximado de uma maçã, o elétron a orbitá-lo estaria vagando a cerca de 3Km de distância... Isso demonstra um universo bastante vazio!

Mas não para por aí: felizmente os elétrons jamais se chocam na natureza, a não ser em condições extremas como no núcleo das estrelas... Graças a força de repulsão eletroestática, os elétrons não se chocam (como quando aproximamos dois imãs de mesma carga). Não fosse por isso, ao cortarmos maçãs ou apertarmos a mão uns dos outros, causaríamos verdadeiros incidentes nucleares com a fusão nuclear de nossos átomos...

Se tudo que existe é, de fato, átomos e vazio, consideremos quão bizarro é este mundo onde seres constituídos de átomos deslizam para cá e para lá, e julgam estar caminhando, tocando o solo; e julgam estar realmente tocando a água ao mergulharem no mar; e julgam realmente estar tocando uns aos outros nas relações sexuais... Não, toda a matéria é intangível, e tudo o que há são átomos a deslizar em turbilhão pelo vazio infinito.

Mas e o que isso tudo tem a ver com nossa questão em relação ao materialismo? Ora, é muito comum vermos seres ignorantes responderem abruptamente quando afirmamos, enquanto espiritualistas, que não somos materialistas – eles dizem mais ou menos assim:

“Ora, então você não crê na matéria? Então vá chutar uma parede para ver se a sua perna não te convence!” – Como se o mero ato de caminhar contra o vento já não provasse algo semelhante... Ou ainda, de fato, o mero fato de estarmos aqui inteiros, sem termos explodido em uma reação nuclear, levando conosco boa parte de nossa cidade (a bomba de Hiroshima tinha apenas 0,6g de urânio enriquecido).

O que ocorre é essencialmente uma confusão de nomenclaturas e conceitos, o que, aliás, parece ser a principal razão das discussões inúteis no ramo da filosofia, da ciência ou mesmo da religião... De fato, todos somos materialistas, no sentido de crer em átomos, ah não ser talvez os mais alienados ou alucinados. Há mesmo muitos religiosos que são extremamente materialistas. Mas, então, que espécie de materialismo se opõe ao espiritualismo?

Para responder essa pergunta, primeiro teremos de analisar a grande aposta do materialismo científico...

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Crédito da imagem: Igor Kostin/Sygma/Corbis (maçãs contaminadas por radiação em Chernobyl)

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2.12.10

Reflexões sobre o materialismo, parte 1

A matéria (do latim: materia) é aquilo que existe, aquilo que forma as coisas e que pode ser observado como tal; é sempre constituída de partículas elementares com massa não-nula (como os átomos, e em escala menor, os prótons, nêutrons e elétrons).

A descoberta do invisível

Empédocles foi um filósofo pré-socrático que viveu na atual região da Sicília, entre 490 e 430 a.C.; Também foi médico, legislador e místico. Aproximadamente 2460 anos antes de Darwin e Wallace, já postulava que “os seres evoluíram da água por processos naturais” e que “sobrevive aquele que está mais bem capacitado”. Empédocles viveu em uma era onde os sábios ou filósofos eram ao mesmo tempo religiosos e cientistas.

Por exemplo, ele defendia que o universo era mantido por suas forças fundamentais: o Amor unia os elementos e o Ódio os separava. Esse tipo de nomenclatura pode afugentar os cientistas atuais (bastaria substituir o termo “amor” por “gravidade” para, quem sabe, mudarem de ideia), mas os bem informados saberão que a própria ciência deve muito aos pensadores daquela época. Ao contrário de Pitágoras, Empédocles não achava que a natureza poderia ser desvendada apenas pelo pensamento ou pelo estudo místico dos números. Ele era, portanto, um místico observador...

De fato, um dos primeiros experimentos científicos de que se tem notícia foi realizado por Empédocles com um instrumento de cozinha bastante simples – o ladrão de água. Tratava-se de uma espécie de esfera de latão com perfurações de um lado e um longo cano fino no lado inverso. É usado até os dias de hoje, mas mesmo em sua época já vinha sendo usado há muito tempo. Basta imergir a esfera em qualquer balde com água, segurando-a pelo cano e sem tapa-lo, e depois retirar da água tapando o orifício do cano com o dedão – enquanto mantemos o cano tapado, a água da esfera não sai, mas quando retiramos o dedo do cano, ela vira uma espécie de regador e respinga a água para fora por suas pequenas perfurações.

Ora, muita gente deve ter inserido a esfera na água com o cano tapado, por engano, e percebido que nenhuma água havia sido “roubada” do balde pelo ladrão de água... Para praticamente todos isso não tinha nenhum significado oculto ou profundo, mas nas mãos do cientista isso era de uma significância até mesmo aterradora – se não havia “nada” dentro do ladrão de água, se ele estava sem água alguma, como pôde a água do balde não conseguir adentrá-lo apenas porque pressionamos a ponta do cano com os dedos? A única explicação era que o próprio ar ocupava aquele espaço!

Empédocles havia descoberto o invisível. “O ar” – pensou ele – “deve ser matéria em uma forma tão divinamente dividida que não podia ser vista”. Certamente os antigos já consideravam o ar um dos elementos básicos da criação, e Empédocles partilhava dessa crença. Porém, talvez para eles o ar fosse o elemento visto nas nuvens ou sentido nas ventanias e mesmo nas brisas sutis... Mas certamente ninguém havia concebido que o ar ocupava espaço, que preenchia o aparente vazio entre nós e os móveis de nossa casa, ou a árvore do outro lado da estrada. Empédocles havia provado a existência do ar através da observação da natureza, algo que não poderia ser feito somente com a mente, ou com os números.

Toda a ciência moderna se baseia naquilo que pode ser percebido ou diretamente pelos olhos, como um utensílio de cozinha ou uma árvore, ou através de instrumentos, como ondas de rádio ou galáxias distantes. A ciência moderna não considera aquilo que é percebido apenas pela mente, dentre outras coisas porque normalmente não é uma experiência que pode ser percebida por mais de uma pessoa – ou seja, geralmente não é um experimento replicável. Por isso costuma-se pensar que todo cientista é uma materialista, mas isso faz sentido?

O termo “materialismo” só foi cunhado em torno de 1702 pelo filósofo alemão Leibiniz, mas seu conceito está diretamente relacionado ao atomismo, que nada mais é do que um desenvolvimento das ideias de Empédocles por um filósofo que, apesar de ter vivido na mesma época de Sócrates, está “historicamente agrupado” também entre os pré-socráticos: Demócrito.

Nascido em 460 a.C. na região da Trácia, Demócrito foi um discípulo de Leucipo de Mileto, e depois seu sucessor. É considerado por alguns “o pai da ciência moderna” pelo desenvolvimento do atomismo, mas há quem afirme que ele apenas continuou o trabalho de Leucipo, inspirado pelo pensamento de Empédocles. Em todo caso, nenhuma obra original de Demócrito sobreviveu até a modernidade, o que se sabe sobre ele é, sobretudo, o que outros pensadores de sua época disseram a seu respeito. Dizem que Platão o detestava, por exemplo, e que gostaria que seus livros fossem queimados, mas isso é provavelmente apenas uma anedota que procura demonstrar como o atomismo era, de certa forma, o oposto do idealismo platônico.

Outra anedota talvez seja mais realista, e conta que Demócrito dizia que “o riso torna sábio”, além de retratá-lo como alguém que costumava levar a vida com muito bom humor e gargalhadas ocasionais – “a vida sem festas ocasionais é como uma longa estrada sem estalagens pelo caminho”. Por essas e outras, ficou conhecido na Renascença como “o filósofo que ri”... Mas certamente os partidários do idealismo e particularmente do cristianismo não partilharam de seu bom humor: relegaram sua obra a um ínfimo “rodapé histórico”, uma espécie de filosofia apócrifa.

Mas com o renascimento da ciência, seu pensamento voltou à tona e, apesar de termos apenas pequenas referências de sua obra, sabemos que ele estava fundamentalmente correto quando defendia que “tudo é feito de átomos”. Apenas não pôde vislumbrar o quão profundamente sagrados eram tais átomos.

Na continuação, como cortar uma maçã sem causar um incidente nuclear...

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Crédito das imagens: [topo] Wikipedia (Democritus, por Hendrick ter Brugghen); [ao longo] Imagem retirada do episódio 7 da série de TV Cosmos, de Carl Sagan (eis o ladrão de água descrito no artigo).

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29.11.10

A outra margem

No início do século XIX, a Família Real portuguesa, juntamente com sua corte, decidiu mudar-se para o Rio de Janeiro, fugindo da agressividade de Napoleão na Europa. Os “quadrilheiros”, que faziam o papel de polícia na cidade, não pareciam ser suficientes para proteger a corte na colônia brasileira – cerca de 60mil pessoas, mais da metade escravos.

Então em 1809, D. João VI, o príncipe regente, criou a Divisão Militar da Guarda Real da Polícia da Corte, formada por 218 guardas com trajes idênticos aos da polícia de Lisboa. Nessa época ainda existia a escravidão e os direitos das mulheres eram praticamente nulos, existia uma margem muito bem estabelecida entre os príncipes e a nobreza, os eclesiásticos, os grandes comerciantes e burgueses, e os camponeses e escravos. Ninguém poderia vislumbrar uma travessia a outra margem; Não é que se entendiam como raças distintas, era até mesmo além disso: segundo alguns “religiosos”, escravos nem mesmo tinham alma!

Alma é um termo que deriva do latim anǐma, este refere-se ao princípio que dá movimento ao que é vivo, o que é animado ou o que faz mover. Quem não possuía alma, segundo os “grandes estudiosos de outrora”, não fazia parte do gênero humano, não poderia chegar ao céu, e havia nascido para ser subjugado (como os animais, também sem alma) por aqueles que tinham alma. Aos escravos, portanto, restava apenas cumprir o seu papel de subjugação e servir aos seus “mestres”...

O tempo passou e as mentes se iluminaram. Houve a independência da colônia e a proclamação da república brasileira, a abolição da escravidão e o reconhecimento dos direitos das mulheres. Agora, tanto mulheres quanto escravos têm alma, e mesmo os eclesiásticos admitem (esperamos que chegue a vez dos animais um dia)... Mas nem tudo correu tão bem. Houveram guerras, e não foi apenas a do Paraguai.

Dizem que uma alma colhe tão somente aquilo que planta. Mas, e a alma de um país, o que terá colhido? Por um lado, os escravos passaram a ser tratados como pessoas, gente com alma mesmo... Por outro, foram largados a própria sorte num mundo desconhecido, fora das senzalas. Como sempre, tudo o que fizeram desde então passou a ser pré-julgado como algo perigoso – a margem que existia entre eles e seus antigos “mestres” ainda era muito extensa.

Um dia os cânticos da Umbanda já foram caso de polícia, assim como as primeiras rodas de samba. Talvez os abastados tivessem medo que eles viessem a se vingar, a se reunir, se organizar, e atacar a sociedade hipócrita que um dia lhes deu a “liberdade”. Liberdade em termos, meia-liberdade, meia-alma... Mas os antigos escravos apenas tocaram a vida, e o tempo passou, e hoje seu sangue corre na veia de quase todos nós, e sua cultura é também a nossa. Mas não bastou a ciência provar que não existem raças humanas além do homo sapiens, há muitos de nós que ainda crêem nessa margem que nos separa uns dos outros – sua ilusão é persistente.

E o Rio de Janeiro, que já foi o Distrito Federal, que ainda ostenta a mesma polícia que um dia protegeu o príncipe regente, é o símbolo máximo dessa divisão: o corte profundo que fez sangrar, e esse sangue preencheu a margem entre todos nós na cidade maravilhosa.

Subindo o bairro da Gávea e adentrando a Rocinha, temos em vista um verdadeiro milagre: as mansões mais luxuosas próximas aos barracos da favela. De alguns deles, é possível ver a cantina de um dos colégios mais caros da cidade, assim como as piscinas refletindo o céu azul. Mas o milagre não está na desigualdade, pois esta existe em todo mundo. O milagre está no fato de que esse povo consegue viver a maior parte do tempo sem conflito algum.

Apesar da falta de oportunidades, do descaso histórico, secular, para com os filhos dos filhos dos filhos dos escravos, a grande maioria deles é honesta, trabalhadora, de bem com a vida, sorridente, apreciadora de coisas simples como um bloco de carnaval de rua ou uma roda de samba. Mesmo em meio a esgotos em céu aberto e a casas de pouquíssimos metros quadrados, eles não se revoltaram, não se rebelaram, jamais realizaram aquela “temida revolução” que seus antigos “mestres” predisseram. Alguns deles, aliás, são hoje parte da considerada “elite abastada”...

Mas ainda assim, são muitos, muitos vivendo nessas condições e de olhos abertos para tal desigualdade escancarada. Era de se esperar que alguns deles enveredassem por caminhos obscuros. E esse era para ser o papel da polícia: punir os contraventores e ilegais, de modo a que aprendessem a respeitar a lei. Na prática, no entanto, isso nunca funcionou muito bem. Alguns dos antigos nobres, hoje chamados apenas de ricos mesmo, precisavam praticar seus vícios e um comércio de drogas surgiu ao longo do século XX. De início, os donos das “bocas de fumo” eram vistos com bons olhos pela sua própria comunidade, como verdadeiros robin hoods, usavam o lucro da venda de drogas para ajudar e melhorar as próprias favelas.

Então vieram as grandes guerras e golpes militares, e a repressão policial tornou-se cada vez mais violenta. Foram nas prisões do Rio, o lugar onde deveriam ser reformados, que os pequenos traficantes entraram em contato com os presos políticos, gente de maior educação, que soube se organizar na época da ditadura militar. Resolveram seguir seu exemplo, e criaram as primeiras facções criminosas, e mesmo essas já nasceram divididas...

E a ditadura acabou, os agitadores políticos não tinham mais razão para se organizar de forma obscura, a margem da lei... Mas seus ensinamentos foram muito bem utilizados pelos criminosos: saindo da cadeia, começaram a transformar pequenas bocas de fumo em cadeias de tráfico, e o crime na cidade maravilhosa começou a dar dinheiro, muito dinheiro... Os burgueses de outrora teriam inveja!

Isso foi na década de 80, de lá para cá, após 30 anos de descaso, ineficiência, conivência, ou pura e simplesmente ignorância dos governantes para com o problema, o corte apenas alargou, mais sangue jorrou e hoje temos uma verdadeira hecatombe social. Facções de traficantes que fazem da cidade um tabuleiro de guerra, presídios que sequer conseguem bloquear a comunicação por telefone de seus detentos, agentes penitenciários mal pagos e sem preparo ou perspectiva alguma, policiais corruptos ou correndo eterno risco de vida por sua honestidade, e principalmente os políticos – esses mestres de ilusionismo e sedução, que nos prestam contas apenas de 4 em 4 anos, e ainda assim mal mexeram as pernas, mal elaboraram ou aprovaram leis referentes a questão da segurança nessas 3 décadas... Mas somos nós que votamos neles. No fim, um país também colhe aquilo que planta.

Mas o pior são aqueles que fingem que está tudo bem, consciente ou inconscientemente. Isso não é uma condenação, mas uma constatação. Eu morei quase todo o ano de 2004 no bairro de Vila Isabel, numa vila de casas bem próxima a uma das entradas do Morro dos Macacos, que na época tinha tiroteio dia sim e dia sim também... Acordar de madrugada com estrondos de granada ou mal ouvir minha esposa através do som metálico das metralhadoras não era o pior – o pior era constatar que a velhinha que morava há 50 anos naquela vila, ou o vendedor de balas, o motorista de ônibus, a lojista no shopping, todos haviam aprendido a viver “como se estivesse tudo bem”... “É isso mesmo, o Rio não tem mais jeito!”; “Não adianta sair daqui, pois está ruim em todo lugar!”; “Esse país vai pro buraco mesmo!”

Eu não acreditei que um dia acharia normal ouvir gente morrendo a menos de 1Km de casa, mas fato é que eu também fiquei entorpecido pela situação de caos. Não fosse pela bendita síndrome do pânico, talvez nunca tivesse reaprendido a respirar... Passei quase um ano com dores no peito e respirava muito mal, puro stress, só fui redescobrir a respirar quase um mês após me mudar do Rio. Hoje moro em outro estado e vejo as coisas de longe, mas minha alma sempre será carioca.

Não porque creia em nações ou fronteiras, não porque creia em margens e raças à parte, mas exatamente porque minha alma anseia por ver a cidade dividida voltar a se unir – não apenas num estádio de futebol ou na praia, mas no outro lado da margem. Essa mesma margem sombria que tem nos separado entre senzalas e casas-grande, morros e asfalto, de um e outro lado das grades dos condomínios, ela não é determinação divina ou algo intrínseco a nossa sociedade, ela é apenas fruto de nossa própria falta de visão, falta de contato, falta de alma.

Que a Divisão Militar da Guarda Real da Polícia da Corte não se engane – todos nós somos membros da mesma corte. Estamos apenas colhendo o que plantamos: enquanto nossas políticas públicas forem baseadas em populismo ou breves shows pirotécnicos, e não em sólido e continuado investimento em educação, em presídios para reformar cidadãos e não para condená-los de vez ao inferno, em obras sociais não apenas nos morros próximos as áreas nobres, mas naqueles tão afastados que a maioria sequer sabe o nome, continuaremos afogados no sangue da margem aberta, do corte que não vai estancar...

É preciso ter alma. De nada adianta encher valas com corpos de criminosos, enquanto eles viverem isolados na sua margem – e nós na nossa –, mais deles virão, e cada vez piores. Seres nascem e renascem todos os dias, mas a alma de todos nós é um imenso coletivo que não suporta mais tropeçar em corpos. É melhor viver do que sobreviver.


Olho por olho, dente por dente, e a humanidade continuará profundamente carente – Gandhi, a Grande Alma.

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Crédito das imagens: [topo] FeFreitas; [ao longo] AS500 (Rocinha); Fábio Lopez (jogo de tabuleiro baseado no War, da Grow).

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13.11.10

Isto não é o nada, parte 2

continuando da parte 1

Está na hora de eu dar minha opinião sobre tudo isso... Apesar de admirar o pensamento de todos os autores citados acima – incluindo dos que discordo –, penso que ainda há uma forma de resumir estas questões da unificação fundamental, do surgimento da vida e do paradoxo de ainda não termos encontrado nenhum sinal de vida inteligente neste Cosmos tão grande.

Este é o problema, o paradoxo, e também a solução – ele é grande, muito grande, talvez não muito diferente, na prática, do infinito. Quando os cientistas descobriram a radiação de fundo cósmica, uma das maiores comprovações experimentais da teoria do Big Bang, também se depararam com um grande problema: como explicar como ela era tão homogênea?

Isto foi resolvido pela teoria do físico Alan Guth. A sua idéia é que, na aurora do tempo, o espaço inflou com uma velocidade absurdamente grande. Dois pontos que, inicialmente, eram vizinhos, durante a expansão ultra-rápida se distanciaram mais rapidamente do que a velocidade da luz. Para que o mecanismo funcionasse e pudesse explicar a geometria cósmica e a homogeneidade da matéria, a expansão tinha de ser exponencialmente rápida. Por isso, sua teoria ficou conhecida como Inflação Cósmica. Atualmente esta teoria é aceita pela grande maioria dos cientistas.

Uma das conseqüências da Inflação é o conceito de horizonte cósmico... Sabemos que nada material viaja mais rápido do que a luz, entretanto, durante a Inflação, o próprio tecido do espaço-tempo “inflou” de forma mais rápida do que a luz! Isso significa que existe um horizonte até onde podemos enxergar o universo – e além dele há o “universo desconhecido”, além do alcance da luz do nosso lado, do nosso horizonte, como uma América que jamais poderá ser alcançada por Colombo.

Diante dessas informações, eu muitas vezes me pergunto, ou melhor, me vejo fazendo a seguinte pergunta aos cientistas: “Meus caros, que parte do infinito vocês não entenderam?”

Os cientistas procuram por agulhas no palheiro cósmico, e ao não encontrá-las ficam algo inquietos e angustiados... Para os que seguem a bíblia, como Heeren, isso só pode significar que Deus escolheu mesmo apenas aquele povo perdido num deserto da terceira pedra do Sol, na periferia de uma dentre trilhões de galáxias; Para os céticos desiludidos com a busca pela unificação na ciência, ou pela busca da “vida abundante” no Cosmos, isso só pode significar que somos um raríssimo acidente em meio a um universo caótico e hostil; Ainda para outros, talvez mais moderados, isso tão somente significa que o Cosmos é grande, realmente grande – mas quão grande?

É aí que o infinito entra para bagunçar com todas as teorias e crenças de tantas mentes brilhantes. O infinito não se equaciona, está além da matemática e talvez mesmo além de nossa racionalidade... Mesmo assim, ainda é possível tentar vislumbrá-lo pela lógica, tal qual arriscou o grande Benedito Espinosa.

Em sua “Ética” (Ed. Autêntica), Espinosa analisa a questão da criação, do “porque existe algo e não nada?”. Podem acusá-lo de ser mais um “sonhador da unidade fundamental de todas as coisas” – tal qual o faz Marcelo Gleiser com certa propriedade –, mas apenas acusar não basta: é preciso resolver a questão, é preciso encarar ao infinito face a face. E até hoje, que me desculpem os seguidores da bíblia e cientistas céticos, dentre todas as teorias acima citadas, somente ele avançou efetivamente nesta questão.

Se algo não surge do nada, nem mesmo flutuações quânticas no vácuo, nem mesmo um espaço vazio ou um pensamento, então há que existir algo de incriado, algo de eterno. Espinosa o chamou de Substância, “a Substância que não poderia criar a si mesma”... Ora, como sabemos que espaço e tempo estão intimamente conectados, falar em eternidade é falar em infinito.

Comparativamente, o núcleo de um átomo em relação à órbita de seus elétrons corresponderia a um pequeno inseto no centro de um estádio de futebol, uma mosca no meio do Maracanã. O resto é espaço vazio, ou preenchido por alguma parte dos 96% de matéria ou energia escura que não interagem com a luz e, portanto, jamais foram detectados pela ciência – postula-se sua existência pela observação do movimento das galáxias, na media em que falta bastante matéria para explicá-lo.

Seguindo nesse pensamento, sabemos que apenas em nosso horizonte cósmico existem mais estrelas (sóis como o nosso, cheias de planetas à volta) do que grãos de areia em todas as praias da Terra! E mesmo que nem uma única forma de vida exista em torno desses trilhões e trilhões de sóis, lembrem-se de que estamos falando apenas de nosso horizonte, de até onde nossa luz pode chegar. No “universo desconhecido” temos praticamente um infinito de possibilidades. É muito difícil afirmar qualquer coisa do tipo “não existe vida fora da Terra” ante à tal infinito.

Procuramos por agulhas num palheiro cósmico, mas não devemos esmorecer se a busca tem se mostrado árdua... Não devemos esmorecer ante o infinito, pois ele é tudo o que há, ele é a Substância que abarca a todos nós. Procuramos por versões conscientes dessa Substância, mas por vezes esquecemos que também somos formados por ela, que também estamos encharcados desse mar por todos os lados.

Por mais rara que seja a vida na Terra, ela não se compara à raridade da simples existência de tudo o que há. Como os 4% da matéria que interage com a luz, ou como a ínfima quantidade de elementos pesados que possibilitam a vida como a conhecemos em meio a um oceano de hélio e hidrogênio, somos tão raros quanto a própria Substância. E mesmo que sejamos poucos na Terra, nos confins de nosso horizonte cósmico e além, certamente seremos muitos – tantos quanto às estrelas em meio ao infinito.

Da próxima vez que se angustiarem com a escuridão da noite, com a idéia do nada e da morte vindoura, lembrem-se de que também temos tantos neurônios em nosso cérebro quanto estrelas no céu, lembrem-se de tudo isso que nos lembramos, e pensamos, e sentimos, e intuímos. Lembrem-se e afirmem para si mesmos:

Isto não é o nada.

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Crédito das imagens: Silent World, de Michael Kenna (os textos são meus)

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Isto não é o nada, parte 1

Em 1996 cientistas da NASA declararam que um meteorito vindo de Marte parecia trazer consigo sinais de vida. A pedra extraterrestre, chamada ALH84001, desprendeu-se de Marte após a colisão violenta de algum cometa ou asteróide a cerca de 16 bilhões de anos, e caiu na Terra por volta de 13 mil anos atrás, sendo finalmente descoberta na Antártica em 1984.

Houve forte repercussão na mídia, e até o então presidente americano, Bill Clinton, referiu-se a possibilidade da descoberta de vida extraterrestre: “Hoje a pedra 84001 nos fala de um passo de bilhões de anos e de uma distância de milhões de quilômetros. Nos fala da possibilidade de vida. Se essa descoberta for confirmada, será uma das maiores na história da ciência. Suas implicações serão profundas, e inspirarão ainda mais reverência pelo universo em que vivemos. Ao prometer respostas para algumas das questões mais antigas da humanidade, levanta outras ainda mais fundamentais.”

Hoje, no entanto, a maioria dos cientistas está convencida de que os sinais de vida no meteorito 84001 não são reais. Um dos métodos para se identificar atividades biológicas em amostras de meteoritos é buscar por minúsculas “marcas de vida” gravadas nas rochas. A dificuldade é que processos geológicos muitas vezes causam efeitos extremamente parecidos com atividade bacteriana. Embora não tenhamos o caso por encerrado, essa pedra não é a prova que tanto buscamos. Ao que sabemos por evidências físicas, continuamos sendo o único planeta com vida no Cosmos.

Obviamente a falta dessa evidência não impede que muitos cientistas continuem esperançosos em encontrá-la em breve, afinal o universo é um lugar bem grande. Em seu livro “The Fifth Miracle [O Quinto Milagre]” o físico Paul Davies diz que “se a vida vem de uma sopa pré-biótica com certeza causal, então as leis da Natureza escondem um subtexto, um imperativo cósmico que comanda: ‘Faça-se a vida!’... Essa visão deslumbrante da Natureza é profundamente inspiradora e majestosa. Espero que esteja correta. Seria maravilhoso se estivesse.”

James Gardner é um jornalista especializado em pesquisa científica que traduz esse sentimento em uma teoria consideravelmente bem fundamentada, a do Biocosmos Egoísta, a qual é elaborada no livro homônimo, e defendida com maior embasamento no livro “O universo inteligente” (Ed. Cultrix). Vejamos como ele a resume: “A essência da hipótese do Biocosmos Egoísta é que o universo que habitamos está no processo de ficar impregnado de vida cada vez mais inteligente – mas não necessariamente vida humana ou sua sucessora. Nessa teoria, a emergência da vida e da inteligência cada vez mais competente não é um acidente sem significado num cosmos hostil, em grande parte isento de vida, mas está no próprio âmago da vasta maquinaria da criação, da evolução cosmológica e da replicação cósmica.”

Há ainda outros cientistas que primeiro buscam por evidências antes de considerar tais hipóteses. Em “O universo vivo” (Ed. Larousse) o físico Chris Impey nos traz uma detalhada análise da astrobiologia – o estudo da vida no espaço. Ao contrário do que muitos possam pensar, este é um ramo oficial da ciência, e demonstra que muitos consideram com seriedade a possibilidade de acharmos além da Terra formas de vida simples como bactérias e extremófilos, capazes de sobreviver em condições geoquímicas extremas, como no subterrâneo de Marte ou no oceano gelado de Europa, uma das luas de Júpiter... Isso não significa que esperam encontrar tão cedo qualquer ser mais complexo do que uma ameba, tanto menos alguma espécie capaz de comunicar-se conosco.

Recentemente cientistas descobriram um planeta que possui o tamanho correto, a densidade correta e a distância correta de sua estrela para abrigar vida tal qual a conhecemos. Gliese 581 é uma estrela anã vermelha localizada a 20,3 anos-luz da Terra, na constelação de Libra. O Planeta G, sexto de seu sistema, orbita no meio do que se chama de “região habitável” na qual a água pode existir em forma líquida, e possui cerca de 1,5 vezes o tamanho da Terra, o que garante uma atração gravitacional para fazer com que esta água possa se acumular em lagos e mares.

“Pessoalmente, dada a propensão da vida como a conhecemos de brotar em qualquer oportunidade, eu diria que as chances de existir vida neste planeta beiram 100%” disse Steven Voght, professor de astronomia e astrofísica na Universidade da Califórnia ao Discovery News.

Em seu livro “Criação imperfeita” (Ed. Record), o físico brasileiro Marcelo Gleiser critica veementemente essa propensão “monoteísta e unificadora” presente em muitos cientistas, uma espécie de busca por códigos ocultos na Natureza, por uma mítica Teoria do Tudo; E, claro, ele discorda dessa noção de que a vida “tem a propensão de brotar em qualquer oportunidade”. Enfim, Gleiser confessa que já foi ele mesmo um “unificador” em busca desses mistérios ocultos do Cosmos, mas que terminou por aceitar que a vida é tão somente um evento raríssimo num universo violento e hostil, fruto de uma cadeia de assimetrias que data desde o Big Bang, quando a pequena assimetria entre a presença de matéria e anti-matéria possibilitou o surgimento de galáxias, estrelas, planetas e, eventualmente, da vida no planeta Terra – teoricamente um evento tão raro que temos pouca esperança de encontrar vida inteligente em nosso horizonte cósmico, quanto menos especular que o universo é uma espécie de Biocosmos Egoísta.

Gleiser defende que a vida é especial exatamente por aparentemente só existir aqui – que é rara, muito rara, e que por isso mesmo tem de ser valorizada e protegida. A espiritualidade de Gleiser se foca num “humanocentrismo cósmico”, mas que até onde sabemos não passa da atmosfera terrestre. Para a teoria de Gleiser fazer sentido, basta que continuemos a não encontrar vida extraterrestre nos séculos vindouros, o que será uma prova cada vez maior de que o universo não parece ser uma “fonte inesgotável de vida”.

Interessante e irônico comparar o pensamento de Gleiser com o do jornalista científico Fred Heeren. Em seu livro “Mostre-me Deus” (Ed. Clio), ele nos traz uma análise abrangente do estado da cosmologia atual, mas aqui e ali ele insiste em inserir analogias bíblicas, muitas delas forçadas, mas que não deixam de compor uma teoria interessante. Não vou entrar em detalhes, mas o mais interessante para nossa comparação é que Heeren diz que é exatamente porque até hoje não encontramos vida inteligente fora da Terra que a bíblia parece fazer todo o sentido! Ou seja, Deus parece ter escolhido exatamente este planeta, e somente ele, dentre trilhões e trilhões de outros, para criar a vida.

É muito comum em livros de divulgação científica vermos teorias sendo expostas a torto e a direito sem uma preocupação maior com sua lógica – pois isso seria filosofia e não ciência. A ciência depende afinal apenas de comprovação experimental, e enquanto esta não aparece, uma miríade sem fim de teorias são elaboradas... Gleiser, por exemplo, também critica com fervor o atual estágio da física teórica, em que se baseia quase que totalmente em teorias que não têm como ser testadas e, portanto, nem validades nem invalidadas. Temos nesse cenário, como maior expoente, a Teoria-M ou Teoria das Cordas, que postula que os componentes fundamentais da matéria são minúsculas cordas, e que é de sua vibração que são criadas partículas de maior ou menor massa. A Teoria-M é uma das tantas outras que buscam uma unificação das teorias físicas, uma mítica Teoria do Tudo tão criticada por Gleiser – na medida em que para ele, ela obviamente ainda está bem além de nosso alcance.

Na parte final, minha opinião sobre o assunto...

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Crédito das imagens: Silent World, de Michael Kenna (os textos são meus)

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28.9.10

Pra não dizer que não falei da política

Eu não gosto de política. Eu não entendo quase nada de política. Por isso eu quase nada escrevo sobre política. Já me disseram algumas vezes que eu deveria me interessar mais por política, que “a política é essencial na formação do cidadão”. Porém, normalmente entende-se por cidadão aquele membro pertencente a uma determinada nação ou estado, com seus direitos e deveres... O meu problema, portanto, é que antes de ser cidadão eu sou poeta – e poetas são cidadãos do mundo todo, não compreendem como tantos enxergam essas fronteiras invisíveis onde tudo o que há são florestas e aves a voar e, quando muito, um rio a fluir. Eu sou cético quanto a essas alucinações, até hoje ninguém fotografou uma fronteira (fotografaram grades e muros, mas esses a gente passa por cima).

Há pouco tempo, finalmente encontrei um motivo para falar de política, e aqui segue o meu depoimento... Ocorre que descobri que um dos heróis da resistência contra a ditadura militar que perdurou no país por pouco mais de 20 anos (vocês se lembram não?) foi exatamente um poeta, e sua arma foi a poesia:

Esta música de Geraldo Vandré, “Pra não dizer que não falei das flores”, foi entoada como um hino pela liberdade por legiões de jovens e admiradores do ser humano. Como dizia que os soldados eram ensinados “a morrer pela pátria e viver sem razão”, foi censurada, e Vandré foi um dos inúmeros “formadores de opinião” forçado a se exilar fora do Brasil em 1969.

Mesmo após seu retorno ao país, em 1973, Vandré nunca mais foi filmado em um palco nem participou de algum show ou comemoração musical que a relevância de sua obra requeria. Isolou-se como se nunca tivesse existido... Isso foi o suficiente para que surgissem boatos de que ele havia sido torturado física e mentalmente pelos militares, que estava louco ou que sofrera lavagem cerebral... Para muitos radicais da época (e até hoje), Vandré era uma espécie de “Che Guevara brasileiro” – ocorre que ele nunca pegou numa arma, nem tampouco morreu em alguma revolução.

Na verdade, Vandré não foi torturado. Na verdade, Vandré não queria fazer revolução alguma... Um dos motivos de nunca ter retornado a carreira artística de forma pública (pois compõe músicas até hoje) foi exatamente porque se sentiu incomodado com essa fama de “mártir revolucionário”... Vandré não era apenas um “Che Guevara”, era muito mais do que isso – era antes um poeta revolucionário.

Sua música que se tornou hino era muito mais uma poesia sobre a condição humana, e não sobre uma ditadura militar dentre tantas outras na história da América do Sul. Para Vandré, tanto os cidadãos quanto os militares eram todos soldados, alguns armados com fuzis, outros apenas com a razão e a intuição – sempre muito mais poderosos. Porém, todos irmãos, todos fadados à caminhar juntos, de mãos dadas, rumo ao futuro em comum.

O poeta nada tinha contra os militares, muito pelo contrário – era apaixonado por aviação desde criança, e ainda nos dias de hoje é quase sempre visto nas ruas próximas a seu apartamento em São Paulo vestindo uma camisa branca com um símbolo da aeronáutica no peito. Vocês podem não acreditar, e por isso mesmo eu acho interessante verem este outro vídeo, onde ele acompanha um sargento cantar seu hino atemporal, e depois vai até ele para abraçá-lo... Se você chegou até aqui sem compreender que não existe nem nunca existiu uma nação dividida entre militares e cidadãos, é provável que tão cedo não compreenda:

Da mesma forma, a política trata da organização e administração dos interesses comuns de um dado grupo de pessoas. Moisés fez política ao trazer suas tábuas para o povo no deserto. Os gregos fizeram política ao decidir condenar Sócrates a beber cicuta. Gandhi fez política ao livrar todo um país da opressão estrangeira com um aceno de paz e uma grandiosa alma a irradiar-se por milhões e milhões de irmãos... O fim da política é resolver os interesses comuns da melhor forma possível – a questão é que muitas vezes os homens, esses animais políticos, não dispõe da ética e da poesia necessárias para alçarem vôos às regiões mais ensolaradas do reino da liberdade e da fraternidade universal.

Ainda crêem que partidos políticos significam divisões eternas, e que o inimigo está sempre do outro lado... Ora, o inimigo é a própria noção profundamente ignorante de que existe um inimigo. O inimigo é achar que o mundo divide-se entre esquerda e direita, branco e preto, e não nas mais variadas gradações de cores e culturas.

Assim como nas religiões os seres ignorantes digladiam-se em nome de um Deus que só poderia pertencer a todas elas, na política muitas vezes os homens elegem deuses os seus próprios sistemas políticos, e há alguns que se autodenominam avatares desses deuses fajutos. Ora, o único sistema político que predomina e sempre predominou é aquele que atende aos desejos da maioria pensante, ou seja, aquela que foi ensinada a pensar...

Em “1984”, George Orwell retratou um futuro sombrio onde as ditaduras políticas tomaram o controle da maioria dos países, e onde toda liberdade à informação é cerceada. Já Aldous Huxley foi um pouco mais perspicaz, e previu um futuro superficialmente mais ameno, mas no fundo muito pior – um futuro onde seríamos de tal forma atordoados por uma overdose de informações irrelevantes, que não seria sequer necessária à censura, pois os possíveis revolucionários seriam reduzidos à passividade e ao egoísmo. O primeiro temia que o medo nos arruinasse, o segundo previu que o desejo seria nossa maior ruína.

Quando Vandré retornou ao país, percebeu que o povo que cantarolava suas poesias não existia mais... Não porque havia sido exterminado pela ditadura militar, mas simplesmente porque havia sido domado pela cultura massificada e irrelevante que ele já previra desde décadas atrás...

Bem, talvez Vandré seja muito mais revolucionário do que sequer poderíamos imaginar que a idéia de ser revolucionário algum dia poderia significar. Ele não estava interessado em salvar um sistema político, mas um sistema poético. Poetas são conhecidos por tirar as pessoas de suas vidas anestesiadas por breves momentos – mas será que a poesia pode fazer-nos despertar do “Admirável Mundo Novo” de Huxley? Isso somente nós mesmos é quem poderemos responder, no único espaço que jamais pôde ser controlado ou censurado, nem tampouco cercado por muros e grades – na consciência de quem pensa por si mesmo.

Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer

***

Obs: Eu propositalmente iniciei este artigo falando de meu desgosto pela política, mas eu me referia a política dos corruptores e corruptíveis, e não a Política dos poetas, filósofos e grandes líderes como Gandhi. O texto é uma tentativa de analisar essas diferenças entre a política e a Política - embora continue sem pretensão nenhuma de ser um grande conhecedor do assunto.

Crédito da foto: Divulgação (Geraldo Vandré na década de 60)

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21.9.10

Animais, espíritos e deuses

Nosso Lar é o segundo filme que trata da obra de Chico Xavier a alcançar grande sucesso comercial em 2010. É sempre interessante ver mais uma leva de reações variadas em menos de um ano: há aqueles que tratam Chico como um santo e fazem das salas de cinema um destino de romarias; há aqueles – que se julgam céticos – que ficam de cabelo em pé com o seu sucesso e elaboram as mais criativas teorias de charlatanismo, ainda que adorem ignorar que ele doou todo o direito autoral pela vendagem de suas obras para a caridade [1]; há aqueles – os mais divertidos, admito – que afirmam que espiritismo é proibido pela bíblia (embora seja um termo criado a menos de 2 séculos) e que Chico e Kardec fazem parte de uma conspiração “maçônica” liderada pelo próprio Capeta (ou algo assim)... E claro, há também os parcimoniosos: espíritas e espiritualistas que o admiram, mas não o tomam como santo ou infalível; céticos reais que consideram as hipóteses de autoengano, criptomnésia [2] ou até mesmo algum tipo estranho de esquizofrenia...

Pois é, eu não vou aqui entrar nessa discussão, até mesmo porque o que não falta na web hoje em dia são sites e blogs a estender as premissas do último parágrafo em debates intermináveis – onde 99% das pessoas já entram com a opinião solidificada, em todo caso... Não, eu vou retornar a um assunto que já havia abordado num outro artigo sobre Nosso Lar: a possibilidade dos textos de Chico conterem algumas intrigantes antecipações do futuro (digo, no plano físico). Não estou falando de algo dúbio como a possibilidade da arquitetura de Nosso Lar ter inspirado a Brasília, mas de algo um tanto mais profundo.

Uma das continuações de Nosso Lar, o livro Missionários da Luz, foi publicado em 1945. É um relato de experiências pessoais vividas por André Luiz (espírito que Chico afirma ter ditado ambos os livros) no plano espiritual, em sua grande maioria acompanhado por Alexandre, seu "instrutor". Para ir diretamente ao ponto, vou trazer a vocês dois trechos deste livro:

“A fim de esclarecer André Luiz quanto às causas profundas da existência da vampirização [3], Alexandre esclarece:
– Porque tamanha estranheza? – perguntou o cuidadoso orientador – e nós outros, quando nas esferas da carne? Nossas mesas não se mantinham à custa das vísceras dos touros e das aves? A pretexto de buscar recursos proteicos, exterminávamos frangos e carneiros, leitões e cabritos incontáveis. Sugávamos os tecidos musculares, roíamos aos ossos. Não contentes em matar os pobres seres que nos pediam roteiros de progresso e valores educativos, para melhor atenderem a Obra do Pai [4], dilatávamos os requintes de exploração milenária e infligíamos a muitos deles determinadas moléstias para que nos servissem ao paladar, com a máxima eficiência. O suíno comum era localizado por nós, em regime de ceva, e o pobre animal, muita vez à custa de resíduos, devia criar para nosso uso certas reservas de gordura, até que se prostrasse, de todo, ao peso de banhas doentias e abundantes. Colocávamos gansos nas engordadeiras para que hipertrofiassem o fígado, de modo a obtermos pastas substanciosas destinadas a quitutes que ficaram famosos [5], despreocupados das faltas cometidas com a suposta vantagem de enriquecer os valores culinários. Em nada nos doía o quadro comovente das vacas-mães, em direção ao matadouro para que nossas panelas transpirassem agradavelmente. Encarecíamos, com toda a responsabilidade da ciência, a necessidade de proteínas e gorduras diversas, mas esquecíamos de que nossa inteligência, tão fértil na descoberta de comodidade e conforto, teria recursos de encontrar novos elementos e meios de incentivar os suprimentos proteicos ao organismo, sem recorrer às indústrias da morte. Esquecíamo-nos de que o aumento dos laticínios para enriquecimento da alimentação, constitui elevada tarefa, porque tempos virão, para a humanidade terrestre, em que o estábulo, como o lar, será também sagrado. ” (Missionários da Luz, 23. ed., p. 41)

Apesar da linguagem excessivamente formal e de termos que afugentam certos céticos antes que possam completar a leitura, há que se analisar este trecho (apenas um de tantos outros) de forma mais profunda... Quão simples é bater no peito e afirmar que somos espíritas, que estamos evoluindo “a passos largos”, etc.; Quão difícil é encarar a nós mesmos no espelho e perceber como ainda estamos tão adormecidos, tão anestesiados para uma vida verdadeiramente espiritual.

O movimento moderno de direitos animais pode ser traçado no início da década de 70. Um grupo de filósofos da Universidade de Oxford começou questionar porque o status moral dos animais não-humanos era necessariamente inferior à dos seres humanos... O resto da história muitos devem conhecer, mas será que alguém realmente se preocupava com direitos animais em 1945? Decerto eram muito poucos, decerto não era algo que aparecia na mídia e tampouco era assunto de debate político.

Não tenho a pretensão de levantar mais questões além das que já foram levantadas neste trecho de Missionários da Luz. Leiam e releiam com calma, e encontrarão ali muitas sementes que só vieram a florescer em nosso mundo, na chamada “humanidade terrestre”, muitos anos depois. E também, é claro, muitas sementes que até hoje anseiam por florescer... Ao invés disso, e também para demonstrar que grandes almas sempre estiveram conectadas a tais assuntos essenciais da sacralidade da existência e de toda a vida no planeta, trago a vocês um outro trecho, deste vez de Leon Tolstói em The First Step (O Primeiro Passo):

“O carneiro vivo estava ali deitado, tão silencioso quanto o morto e inflado, a não ser por sacudir nervosamente o rabo curto e os lados a se alçarem com mais rapidez que de costume. O soldado baixou gentilmente, sem esforço, a cabeça levantada; o açougueiro, sem parar de conversar, agarrou com a mão esquerda a cabeça do carneiro e cortou-lhe a garganta. O animal tremeu, e o rabinho endureceu e parou de abanar. O camarada, enquanto esperava o sangue correr, começou a reacender o seu cigarro, que se apagara. O sangue corria, e o carneiro começou a agonizar. A conversa continuou sem a mínima interrupção. Era horrivelmente revoltante.”

Sim, há muitos que vivem sem enxergar quase nada a sua frente... Tratam seres como se fossem coisas, e muitas vezes tratam as coisas como se fossem deuses. E vivem como numa batalha feroz pela sobrevivência, e morrem sem quase ter realmente vivido.

O problema não é consumir a carne. O problema é achar que os animais são meros produtos de uma enorme fábrica, e que o fato de termos condições de submetê-los ao nosso domínio nos exime da responsabilidade de nós mesmos sermos para eles como deuses incentivadores, e não demônios exterminadores.

***

[1] Segundo reportagem da Superinteressante de Abril de 2010 sobre o filme Chico Xavier, o médium doou cerca de 670.000 reais por ano a caridade (de forma direta ou indireta), e contentou-se em viver com sua escassa aposentadoria de funcionário público (de baixo escalão) até o fim da vida. Não foi o que seu filho adotivo fez: ele hoje detém os direitos autorais do pai.

[2] Distúrbio de memória que faz com que as pessoas se esqueçam que conhecem uma determinada informação. Entretanto, não explicaria a exatidão de descrições históricas, por exemplo, desconhecidas da própria história de sua época, e descobertas em pesquisas posteriores.

[3] Como é comum em vários livros que Chico afirma terem sido ditados pelo espírito André Luiz, há uma extensa análise do suposto fenômeno de obsessão, em que um espírito literalmente influencia o pensamento de outro, e “vampiriza” as sensações físicas provenientes de suas ações (por exemplo, sentir o gosto de bebida alcoólica). Não sei se a analogia que o espírito faz entre a “vampirização” e o consumo de carne faz algum sentido, acredito que ele estava se referindo a nossa “vampirização” da natureza como um todo, através do consumo predatório e na maior parte das vezes excessivo e desnecessário – prejudicial para nós mesmos, portanto.

[4] Acho que vale mencionar um trecho da Carta do Chefe Seattle aqui: “O destino de vocês é um mistério para nós. O que vai acontecer quando todos os búfalos forem sacrificados? O que vai acontecer quando os recantos secretos da floresta estiverem passados com o odor de inúmeros homens e a vista das colinas verdejantes se macular com os fios que falam? Será o fim da vida e o começo da sobrevivência.”

[5] Se você pretende começar a reduzir seu consumo de “produtos animais”, comece pelo patê de fígado de ganso. Se não sabe como ele é feito, pesquise na web. Se sabe como ele é feito, e continua a comer, lamento por você...

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Crédito da foto: jimluci (Temple Grandin, autista savant e especialista em comportamento animal, talvez uma das pessoas vivas com maior compreensão de como e de que forma os animais sentem; Trabalha para que o abate de gado seja feito da forma menos traumática possível)

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